MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

19/10/2010

A atualidade do anacrônico Anatole France

“Não restam muitos republicanos na França. A república não os formou. É o governo absolutista que cria republicanos. Os ferros da realeza ou do cesarismo aguçam o amor à liberdade, mas este se embota num país livre,  ou que se julga livre.  É raro amar-se o que se tem. Ademais, a realidade não costuma inspirar muito amor.  É preciso ter sabedoria para lhe dar valor…”

        Monsieur Bergeret em Paris (que está sendo reeditado este ano pela Bestbolso, utilizando a tradução de João Guilherme Linke) é o último volume da série História Contemporânea (1897-1901), na qual Anatole France (1844-1924( faz um painel da Terceira República e do impacto do Caso Dreyfus (o oficial do exército judeu acusado de traição, através de provas forjadas, degradado e degredado para a Ilha do Diabo): por causa das posições pró e contra a revisão do processo, a sociedade francesa fin-de-siècle literalmente rachou, gerando reações fascistas, antissemitas, dando fôlego ao clero (que havia perdido espaço na nova e secular configuração política), aos monarquistas, aos ressentidos de todos os matizes, e também criando duas categorias a partir de termos recém-cunhados: os intelectuais, progressistas, universalistas, e, portanto, “desenraízados”, não-verdadeiros franceses, e os nacionalistas, que, à falta de uma raça, propugnavam um fanatismo em torno da pátria, contra todos os seus elementos alienígenas: os protestantes, os judeus, os maçons: “Depois do Affaire, uma nova ordem se estabelecera na alta sociedade francesa”

       O fio da meada da tetralogia é a figura de Lucien Bergeret: nos três primeiros volumes (À sombra do olmo, O manequim de vime, O anel de ametista), ele é um obscuro professor de literatura latina, filólogo de província, já na meia-idade, desprezado e traído pela mulher, e visto com desconfiança e má vontade pelos seus concidadãos, por expressar juízos e opiniões que contrariavam o senso comum (“exercitava-se discretamente em desagradar”). Mesmo quando apanha em flagrante a esposa com um de seus alunos, ela é quem conquista a simpatia da cidade. Bergeret não faz drama, não parte para o confronto, simplesmente passa a ignorar a existência da cônjuge, não lhe dirigindo a palavra. Nesse meio tempo, a trama principal dos primeiros volumes é a rivalidade entre dois abades, ambos candidatos a um bispado que vaga na região: um deles, fanático e extremado, é tão isolado quanto o protagonista (aos dois agrada manter colóquios polêmicos à sombra dos olmos de uma alameda, como os únicos do lugar “que se interessavam por idéias gerais”); o outro, untuoso e político, reprime seus verdadeiros objetivos para conseguir o “anel de ametista” (comumente utilizado por bispos). Em torno das candidaturas, as intrigas locais, envolvendo diversos estratos sociais e até um assassinato, na casa ao lado da livraria freqüentada por Bergeret, onde sempre lê a mesma página do mesmo livro, como a simbolizar o irrisório da sua existência, a mediocridade geral.

     E, de repente, sua esposa desiste e vai embora, e ele é nomeado para a Sorbonne. Em Paris, então, está no auge a convulsão causada pelo caso Dreyfus, e nosso herói se destaca como um dos mais ardentes dreyfusards. Os personagens dos livros anteriores se reagrupam e tentam, uns, subverter a Terceira República, na tentativa de restaurar o trono para o Duque de Orleans,enquanto outros (às vezes os mesmos), professam a realpolitik: é necessário acomodar-se ao status quo e aproveitar-se dele.

     Anatole France era o escritor da moda dessa época (a virada do século). Durante muito tempo foi considerado obsoleto, ultrapassado, ridicularizado na sua mistura de “ironia e piedade” , que fundamenta uma das observações de M. Bergeret: “Há que se resignar à mediocridade da vida”(sou grato à leitura de Rumo à estação Finlândia, de Edmund Wilson, que me fez descobrir História Contemporânea, o que me levou a ler depois Os deuses têm sede, A rebelião dos anjos  & A ilha dos pingüins, e aí então realmente saber que nada havia de anacrônico e obsoleto em France, a não ser  que fosse o seu amor francês pela “clareza da forma” e a sua falta de vigor narrativo, a qual, de fato, atualmente, parece up to date,  na pós-modernidade). Há quem diga que há traços dele em Machado de Assis (principalmente negativos). De fato, há certas afinidades, mas eu acho que ele, com seu poderoso veio caricatural e sarcástico, está mais próximo de Lima Barreto (e é óbvio que M.J. Gonzaga de Sá deve muito à figura de Bergeret). Os dois compartilham até do mesmo defeito (à exceção de Triste fim de Policarpo Quaresma, todos os romances de Barreto são assim também, principalmente Numa e a ninfa): os quadros, isolados, são muito vivos e perspicazes, porém falta um  dinamismo de conjunto, falta fechar os diversos episódios num todo mais harmonioso. Além disso, o discursivo extrapola, e temos muitas vezes mais preleções e exposição de idéias do que diálogos e enredo.

    Ainda assim, como acontece com o autor de Clara dos Anjos, o saldo é bastante positivo: ainda hoje são muito modernas (aliás, estão na pauta do dia) e úteis as discussões sobre o futuro da democracia, sobre o papel dos partidos no governo, sobre a corrupção, e sobre a interferência da religião em assuntos do estado e em eleições.

(resenha publicada de forma mais condensada em “A Tribuna” de Santos, em 19 de outubro de 2010)

Monsieur Bergeret na província

PARA CONHECER MELHOR MONSIEUR BERGERET

Trechos de À sombra do olmo (“L´orme du mail”, 1897)

Tradução de João Guilherme Linke

    “… monsieur Bergeret não era avesso a estudar a alma de um padre inteligente. Sabiam ambos que suas conversas um banco do passeio desagradavam igualmente ao deão da faculdade e ao arcebispo. Mas o abade Lantaigne ignorava a prudência. Humana, e monsieur Bergeret, muito cansado, desalentado, desgostoso, dispensava-se de guardar  inúteis deferências.

      Irreligioso com decência e bom gosto, as devoções freqüentes de sua esposa e os intermináveis catecismos das filhas levaram-no a ser acusado de clericalismo nos gabinetes do Ministério, enquanto certos conceitos que lhe eram atribuídos eram usados  contra ele pelos católicos de sentimento e pelos patriotas de profissão. Frustrado em suas ambições,  procurava ao menos viver a seu modo, e, não tendo sabido agradar, exercitava-se discretamente em desagradar.”

 

“…só eles na cidade se interessavam  por idéias gerais. Era esse traço comum que os unia. Filosofando sob os quincôncios quando fazia bom tempo, eles se consolavam, um, das tristezas do celibato; o outro, dos percalços da família; e ambos, de suas contrariedades profissionais e da sua igual impopularidade.”

 

“Sentado à sombra na ponta de um banco banhado de sol, monsieur Bergeret esquecia, sob as árvores clássicas, na solitude acolhedora, a esposa, as duas filhas, sua vida estreita na sua casa estreita; gozava, como Esopo, a liberdade  do espírito, e deixava errar sua imaginação crítica a esmo, entre os vivos e os mortos.”

 

“Monsieur Bergeret ficou só, no meio do banco  agora quase todo coberto pela sombra… Não era feliz. Tinha um espírito requintado, cujas arestas não eram totalmente aparadas pelo exterior,e não poucas vezes feria-se a si mesmo nos aguilhões da própria crítica. Anêmico e bilioso,tinha um estômago extremamente delicado e sentidos debilitados, que lhe proporcionavam mais sofrimentos e desgostos que prazeres e contentamento. Era imprudente com as palavras e de uma falta de tato que, pela precisão e segurança, igualava a mais cultivada habilidade. Tinha o talento sutil de não perder nenhuma ocasião de se prejudicar. Inspirava uma aversão natural ao comum dos homens, e sofria com isso, sociável que era e propenso a comunicar-se com seus semelhantes. Jamais conseguira formar discípulos, e dava seu curso de literatura latina em um porão sombrio, úmido e abandonado, para onde o banira a acirrada hostilidade do deão.”

 

“Monsieur Bergeret era um dos três acadêmicos da casa Paillot, e o mais assíduo conversador do canto dos alfarrábios.Folheava com mão amiga as obras antigas e novas, e ainda que jamais comprasse um livro, por medo de apanhar da esposa, recebia a melhor acolhida de Paillot, que o tinha em alta estima como repositório e alambique da ciência e das belas letras de que vivem e lucram os livreiros.

   O canto dos alfarrábios era o único lugar da cidade onde monsieur Bergeret podia deixar-se ficar com pleno contentamento, pois em casa madame Bergeret o acossava por toda parte e por diversas razões de economia doméstica; na faculdade, o deão, por birra, obrigava-o a dar suas aulas num porão escuro e insalubre, para onde poucos alunos desciam; e nas três sociedades da cidade torciam-lhe o nariz por ter chamado Joana d´Arc de mascote militar.

    Então monsieur Bergeret se refugiava no canto dos alfarrábios.

 

“… pegando de sobre a mesa o tomo 38 da História Geral das Viagens… o docente mergulhou o nariz no livro, entre as páginas 212 e 213 que, havia seis anos, cada vez que ele abria o inevitável alfarrábio, lhe apareciam fatalmente à exclusão de qualquer outra página, como um exemplo da monotonia em que se escoa a vida, como um símbolo da uniformidade dos trabalhos e dos dias universitários e provincianos que precedem o dia da morte e a fermentação do corpo no esquife.  E mais uma vez, como já fizera tantas outras, monsieur Bergeret leu no tomo 38 da História Geral das Viagens as primeiras linhas da página 212:

…uma passagem ao norte. ´A este revés´, diz ele, ´devemos o fato de ter podido visitar de novo as ilhas Sandwich e enriquecer nossa viagem com uma descoberta que, embora a última, parece ser, sob muitos aspectos, a mais importante jamais realizada pelos europeus em toda a extensão do oceano Pacífico´. Os preciosos dados que estas palavras pareciam anunciar infelizmente não se consubstanciaram.”

   E, dessa vez, como das outras, a leitura dessas linhas encheu monsieur Bergeret de tristeza.”

 

“Monsieur de Terramondre, que, presidente de várias academias locais, alimentava preconceitos acadêmicos [acusou] Zola de ter ignominiosamente caluniado os camponeses em La Terre. A essa acusação, monsieur Bergeret saiu de sua tristeza absorta e disse:

__ Atente que os camponeses são dados ao incesto, à embriaguez e ao parricídio, como mostrou Zola. A resistência deles em prestar-se a exames clínicos de modo algum é prova de sua candura. Revela simplesmente a força do preconceito entre seres limitados. Os preconceitos são tanto mais fortes quanto mais simples. O preconceito de que é indecoroso mostrar-se nu permanece poderoso neles. Atenua-se nas pessoas inteligentes e educadas pelo hábito do banho, das duchas e das massagens; também pelo senso estético e pelo gosto das sensações voluptuosas, e cede facilmente a considerações de higiene e de saúde.”

 

“Senhor abade,o senhor vem de resumir com eloqüência que só sairia dos seus lábios as características do regime democrático[1]…E no entanto é ainda o regime que eu prefiro. Nele, todos os laços se afrouxam, o que enfraquece o Estado, mas ele desoprime o indivíduo, proporciona certa facilidade de viver e uma liberdade lamentavelmente destruída pelas tiranias locais. A corrupção, sem dúvida, parece ser maior do que nas monarquias. Isso se deve ao número e à diversidade das pessoas que são levadas ao poder. Mas essa corrupção seria menos patente se o segredo fosse mais bem guardado. A ausência de sigilo e a falta de continuidade tornam qualquer empreendimento impossível à república democrática. Mas, já que os empreendimentos das monarquias, o mais das vezes, têm arruinado os povos, não me aborrece muito viver sob um governo incapaz de desígnios grandiosos (…)  Mas, para dizer a verdade,não dou muita importância à forma do Estado. As mudanças de regime em quase nada alteram a condição dos indivíduos. Nós não dependemos de constituições nem de cartas, mas de instintos e de costumes. De nada serve mudar o nome das necessidades públicas. Só os imbecis e os ambiciosos fazem as revoluções.”

 

“… todas as ações humanas são movidas pela fome ou pelo amor. A fome induziu os bárbaros à matança, impeliu-os às guerras e às invasões. Os povos civilizados são como os cães de caça. Um instinto corrupto os incita a destruir sem proveito nem razão.  O despropósito das guerras modernas chama-se interesse dinástico,  nacionalidade, equilíbrio europeu, honra. Esse último motivo é, talvez, de todos, o mais extravagante, pois não há um povo no mundo que não seja contaminado por todos os crimes e coberto de todas as vergonhas. Não há um só que não haja sofrido todas as humilhações que a fortuna possa infligir a uma miserável manada de criaturas.  Se apesar de tudo subiste alguma honra entre os povos, um estranho meio de defendê-la é fazer a guerra, ou seja, cometer todos os crimes pelos quais um indivíduo se degrada: incêndio, rapina, estupro, morte. E quando às ações movidas pelo amor, essas são, na maior parte, tão violentas, tão furiosas, tão cruéis quanto as ações inspiradas pela fome,o que leva a concluir que o homem é uma besta malfazeja. Resta, no entanto, indagar por que eu me dou conta disso, por que motivo isso me causa horror e indignação. Se não existisse outra coisa além do mal, ele não seria percebido, como a noite não teria nome se o sol jamais se levantasse.”

 

“Monsieur Cassignol calou-se, fitou longamente o castão da bengala com suas pupilas baças e desbotadas, depois pronunciou estas palavras:

__Durante minha longa carreira de magistrado, jamais tive conhecimento de um erro judiciário.

__ Eis aí uma declaração tranqüilizadora—disse monsieur de Terramondre.

__ E que a mim me gela de pavor—murmurou monsieur Bergeret.”


[1] Monsenhor Lantaigne perorara o seguinte : “Mesmo que ela respeitasse a religião e os seus ministros, ainda assim eu detestaria a república… Porque ela é a diversidade. Nisto, sim, ela é essencialmente má… Estamos em Babel…. A diversidade é abominável, o caráter do mal é ser diverso. Esse caráter é manifesto no governo da República que, mais do que qualquer outro, se afasta da unidade. Faltam-lhe, na ausência da unidade, a independência, a estabilidade e a autoridade…. Ainda que, por mal de nossos pecados, ele dure, não possui a permanência. Pois a idéia de permanência implica a de identidade, e a República não é um só dia o que foi na véspera. Sua própria torpeza e seus vícios não são propriedade sua. E o senhor viu que ela não foi desonrada por eles. Vergonhas e escândalos que teriam arruinado o mais poderoso império a recobriram sem deixar-lhe arranhões. Ela não é a descontinuidade, ela é a diversidade, ela é o mal (…)  o povo descambou na República; o que quer dizer que repudiou sua herança, que renunciou aos seus direitos e aos seus deveres, para governar-se á sua revelia e viver a seu  bel-prazer nessa liberdade que Deus reprime e que subverte Suas imagens temporais: a ordem e a lei. Desde então, o mal reinou e publicou seus editos. A igreja,exposta a incessantes vexames, foi colocada com perfídia entre uma abdicação impossível e uma revolta culpável.”

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