MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

16/03/2011

Fernando Sabino, autor de DOM CASMURRO

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 05 de janeiro de 1999)

A existência de um livro tão perfeito, tão genialmente concebido como Dom Casmurro numa literatura como a nossa, deve desanimar muitos escritores medíocres. Mais do que isso, deve causar rancor, uma vontade a la Salieri de destruir, aniquilar. Só isso explica o fato de Fernando Sabino ter se atrevido a publicar Amor de Capitu, após consagrar-se como um dos medalhões nacionais da mediocridade.

Sabino afirma admirar Dom Casmurro. O busílis é que, tendo Machado de Assis escrito uma narrativa em 1ª. pessoa, que permite apenas uma visão retrospectiva dos fatos (e ainda complicada por mil digressões e volteios), o autor da biografia de uma nada saudosa ex-ministra do Mal, digo, da Economia, resolveu eliminar Bentinho como narrador. Como afirma no seu delirante prefácio: “Tudo isso a meus olhos de leitor acaba mascarando aqui e ali o relato, a ponto de criar artificialmente um mistério a mais. Como se não bastasse aquele que é inerente à natureza humana, encarnado em todos os figurantes do romance, e não apenas em Capitu. A não ser que fosse exatamente este o objetivo de Machado de Assis: um mistério a mais. Só que o mistério, como a esmola do pobre, quando é demais o leitor desconfia.” As sandices (“mascarando aqui e ali o relato”, “criar artificialmente um mistério a mais”, “como se não bastasse aquele que é inerente à natureza humana”) nem merecem comentário, a não ser que Sabino está criticando o fundamento mesmo da literatura, que será sempre máscara e artifício, não tem jeito, o mendigo do leitor que se conforme.


Amor de Capitu utiliza boa parte do texto original de Dom Casmurro, adaptando-o à narrativa em 3ª. pessoa. Com isso, num passe de mágica, retira-se o eixo da obra, sua razão de ser, a sua alma. Mas os estudantes preguiçosos que se horrorizam com a complexidade do livro, “que sempre cai no vestibular”, os professores igualmente preguiçosos, os que acham que um livro pode ser “resumido” (melhor dizendo, “condensado”), enfim, a estultície geral tem muito que agradecer a Fernando Sabino, o Bouvard e Pécuchet reunidos na mesma pessoa da reinvenção textual.

Ficaram os “eventos”, os fatos narrados. Pois o autor mineiro perpetrou seu atentado estético-intelectual, como diz, “tentando desvendar a mensagem nele contida”. Gente, aque ponto de retrocesso mental poderemos ainda alcançar? Será que chegamos ao tchan da literatura? Sabino ainda nessa de “mensagem”, a qual estaria prontinha e enrodilhada dentro dos fatos da narrativa e é só “descobrir”? Como se explica, porém, que tanta gente boa se debruçou sobre Dom Casmurro e nunca se chegou a um acordo sobre o “sentido” global do romance, quanto mais a respeito de uma possível “mensagem”!!?? E qual seria? “Não case com a namorada de infância e não aproxime a esposa do melhor amigo ou então corno tu serás”! É a versão Falcão-Reginaldo Rossi da teoria literária.

O que Amor de Capitu evidencia é o seguinte: limitado aos “fatos”, o texto se salva por um dos estratos da genialidade machadiana: os diálogos, que caracterizam de forma corisca e magistral cada personagem. E que era um desdobramento de outros estratos formados a partir da narrativa retrospectiva e altamente suspeita de Bentinho/Dom Casmurro, ator do drama/autor da versão que vai ao palco. Esse primeiro estrato, o do narrador que sujeita o leitor a uma visão limitada dos fatos, subordina todos os demais e gera uma ambigüidade perturbadora e sempre renovada. Só que ninguém hoje em dia quer saber de ambigüidade. É preciso ter tudo claro, simples e “verdadeiro”. Como se a vida fosse assim. Pior ainda, é preciso que tudo seja raso e reles, que siga o mínimo denominador comum. Nesse ponto, Amor de Capitu é o Dom Casmurro ideal para 1999, é o livro de Machado de Assis ao nível da Xuxa e do Ratinho.


Uma coisa assustadora do texto de Fernando Sabino, afora o projeto como um todo da “recriação” da obra-prima machadiana tal como levado a efeito, é a falta de ironia com que ele o levou a cabo, diria mesmo, a falta de molecagem. Um Pierre Menard sem nenhum pingo de humor, ele se leva tão a sério a ponto de afirmar taxativamente a culpa de Capitu: “O que sempre me atraiu nesse romance admirável não foi a intrigante e todavia óbvia infidelidade da personagem principal”. Óbvia por quê? Só porque descobriu um ou dois pormenores que ratificam a suspeita de Bentinho e que, segundo ele, não haviam sido notados por ninguém? Como se não houvesse milhares de detalhes esmagadoramente suspeitos que provariam a culpa da nossa maior personagem feminina, em qualquer tribunal.

E não tem a menor importância. O “enigma de Capitu” só existe sob o ângulo de visão de Bentinho, sob o manto da sua narrativa, através da maneira como ele selecionou os detalhes e incidentes para persuadir o leitor de que a Capitu adulta que o traiu já estava na Capitu menina, nessa sua má-fé rancorosa.

Portanto, o “enigma de Capitu” e todos os outros enigmas de Dom Casmurro (e por isso ele é um dos textos-fetiches dos últimos cem anos) só existem através da entidade que Fernando Pessoa (ops, Sabino) desalojou ou exorcizou na sua “recriação literária”: o narrador em primeira pessoa. Os mistérios são muitos e o santo leitor que desconfia da abundância deles pode não ser doente do pé, mas é ruim da cabeça.

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