MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

04/05/2013

“A Taça de Ouro” e a arte do romance

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I

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de agosto de 2002)

Se houver historiadores no futuro, a visão que eles descortinarão do casamento a partir dos romances realistas do século XIX (e começo do século XX) será muito parecida com a ideia que fazemos do inferno, isto é, de condenação eterna. Não é à toa que o adultério foi o grande tema do romance burguês. Essa é a atmosfera que alimenta as muitas e sombrias páginas de A TAÇA DE OURO (The Golden Bowl, 1904), só agora traduzido no Brasil, constituindo-se (pelo atraso e pela eminência) o maior evento literário do ano, assim como vem acontecendo com cada aguardada tradução tardia da obra de Henry James (1843-1916).

Em A TAÇA DE OURO, como de hábito, o incrível escritor norte-americano coloca personagens de seu país às voltas com a civilização europeia. O rico Mr. Verver tem uma intensa ligação com sua filha, Maggie, que casa com Amerigo, nobre italiano. O pai participa também intensamente da vida do casal, mas está solitário, percebe-se. Maggie, então, como já o fizera a Emma de Jane Austen, conspira para que ele se case com sua amiga, Charlotte, para que o quadro fique “perfeito”. O que ela não sabe é que Amerigo e Charlotte já foram amantes. O quadro decerto configura-se “perfeito” para o adultério e para mais uma conspiração, bem mais deletéria. Até que Maggie enfim fica “sabendo” dos fatos, lançando-se numa contra-conspiração para poupar o pai e preservar o marido.

O leitor deve ter notado, no parágrafo anterior, a ênfase dada ao “quadro perfeito” e à “conspiração”. Quem já leu outros textos textos jamesianos sabe que sempre há um clima conspiratório neles, principalmente (mas nem sempre) pela questão do dinheiro: é dessa forma que Isabel Archer, enleada pelas intrigas de Madame Merle, vem a casar com o improvável Gilbert Osmond (em Retrato de uma senhora), e é dessa forma que se constitui o triângulo amoroso de As asas da pomba, para dar dois exemplos óbvios e supremos.

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O que James desenvolveu de forma mais original em A TAÇA DE OURO é o “quadro perfeito”: seus personagens representam o que há de melhor na civilização burguesa, são movidos pelas mais nobres intenções e poderiam figurar numa tragédia clássica por seu estofo e por sua elevada noção de ética. E é isso que torna mais desesperançado o resultado a que se chega: não dá para evitar o mal intrínseco da natureza humana (em suas distorções sociais), e é por isso que mulheres do quilate de Madame Merle, de Kate Croy (de As asas da pomba) e de Charlotte Verver acabam tendo de cumprir o papel de vilãs, ou de agentes do destino.

E personagens “bons” como Maggie (toda a magnífica segunda parte de A TAÇA DE OURO gira em torno dela) acabam sendo sacudidas de sua complacência (como diz o pai dela, o “incauto” Mr. Verver: “Como se estivéssemos sentados em divãs, fumando ópio e tendo visões”) e tendo de estender suas consciências para regiões inóspitas e impensáveis, às vezes sórdidas e abjetas.

O estilo de James, “mantendo as aparências”, deixando as coisas ocorrerem nos bastidores, permite uma ampla liberdade ao leitor de pescar as entrelinhas de frases como esta: “Charlotte estava vestida para sair, e seu marido parecia positivamente preparado para não fazer o mesmo”.

E é o estilo que torna complicado fazer um julgamento da versão brasileira: traduzir James é sempre um tour-de-force, e merece aplauso. Porém, Alves Calado deve ter um escrivão de polícia dentro de si, pois só isso explicaria o abundante e insuportável uso dos termos “o mesmo” e “a mesma”, que remetem a mais alta ficção à ambiência dos boletins de ocorrência. Será que não havia uma solução mais criativa e menos horrível? O tradutor também deve ter esquecido que o infinitivo não é uma forma verbal apenas impessoal, que há momentos em que é preciso, e se deve, fazer a concordância de pessoa. Numa edição que custa 55 pilas, e de um autor como James, também não há desculpa para uma capa tão ordinária, digna de um best seller pronto para virar minissérie.

Mas uma das lições dos livros de Henry James é que, por melhor que se tente ser, sempre há a imperfeição humana para rachar as mais perfeitas taças douradas, e tornar possível que elas venham a se quebrar algum dia.

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II

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de julho de 2004)

Algumas obras-primas de uma época áurea do romance chegam ao centenário este ano (Esaú e Jacó, Nostromo, O falecido Mattia Pascal, por exemplo). Uma delas é A taça de ouro (The Golden bowl). Quando foi finalmente editada no Brasil, em 2001, entre os muitos deslizes (capa constrangedora, tradução incompatível com o quilate do autor) contava-se a ausência do prefácio escrito quando Henry James (1843-1916) reuniu as suas principais obras, o seu “cânone”, por assim dizer, na clássica Edição de Nova York.

Esse texto pode ser encontrado numa recente e indispensável antologia de prefácios jamesianos preparadas por Marcelo Pen para a editora Globo, A ARTE DO ROMANCE, cuja capa reproduz justamente o frontispício do segundo volume de A taça de ouro na referida série; em seu prefácio, aliás, James discorre longamente sobre a questão da ilustração, por quaisquer meios, de uma obra literária, chegando à célebre conclusão: “Tudo o que desobriga a prosa responsável da tarefa de ser boa o bastante, interessante o bastante, pictórica o bastante, acima de tudo por si própria, presta-lhe o maior dos desserviços, podendo muito bem inspirar ao amante da literatura apreensão sobre o futuro desta instituição”.

Assim, o leitor brasileiro pode confrontar agora teoria e prática de um mestre exercitando de forma definitiva o grande tema do romance burguês: o adultério (a norte-americana riquíssima, Maggie Verver, casa-se com o nobre italiano, príncipe Amerigo; o pai dela, Mr. Verver, é muito presente na vida do casal, e todavia a filha quer casá-lo com a melhor amiga, Charlotte—que fora amante de Amerigo).

James mostra como seu método predileto (delegar o relato—tornando-o, assim, indireto e oblíquo—a um substituto do autor impessoal, atingindo a fórmula um caso determinado+ uma visão próxima e individual sobre ele, derrubando o que ele denomina de “mera majestade muda de uma autoria irresponsável”: “…esquivando-me dela e repudiando sua pretensão enquanto desço à arena e faço o melhor que posso para viver, respirar, para roçar o ombro e palestrar com as pessoas engajadas na luta capaz de proporcionar aos que estão nas fileiras circundantes a diversão do Grande Jogo) é refinado ao extremo, ao cindir a narrativa em duas versões: na primeira parte, de Amerigo; na segunda, de Maggie, e tendo a taça dourado do título como símbolo do lado equívoco e escorregadio do casamento (ela seria o presente de Charlotte, futura Mrs. Verver, entretanto a compra não é efetivada, embora a taça reapareça na vida do casal mais tarde, assumindo um papel revelador, quando não catalisador):

“A coisa permanece sujeita ao registro, sempre meticulosamente mantido, da consciência de apenas duas personagens, se atendo rigorosamente à sua lei de primeiro mostrar Maggie por meio da visão exibitória que seu pretendente e marido tem dela, e então mostrar o príncipe, com uma intensidade mais ou menos igual, por meio da visão da sua mulher, a vantagem sendo assim que essas atribuições da experiência apresentam os próprios sujeitos sencientes ao mesmo tempo e também com o acesso o mais próximo possível a uma vivacidade desejável. É o  príncipe quem abre a porta para a metade da luz que recebemos de Maggie, da mesma forma que é ela quem nos descerra a porta para metade da luz que recai sobre ele; o restante da nossa impressão vem direto do próprio movimento com que o ato é executado”.

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Portanto, o romance é um triunfo na aplicação da restrição do foco narrativo. James leva essa arte ao ponto supremo, nunca superado: “Vemos bem poucas pessoas em A taça de ouro, mas o esquema da narrativa, em compensação, determina que devemos na realidade observá-las até o limite permitido por uma forma literária coerente”.

Geralmente, em suas maiores ficções, James atribui dubiedade a certas personagens femininas, de tal forma que elas poderiam ser tachadas de vilãs, como é o caso das fascinantes Madame Merle (Retrato de uma senhora), Kate Croy (As asas da pomba) e a própria Charlotte Verver. Em contrapartida, as heroínas têm de estender, por assim dizer, as suas asas da pomba, isto é, suas consciências, a princípio complacentes, até regiões inóspitas e impensáveis, por serem representantes de um arquétipo feminino que ele chamava de “herdeira potencial de todas as eras”. É o caso de Isabel Archer, Milly Theale e de Maggie Verver, dos mesmos livros acima citados.

É nesse sentido que, ao mostrar a luta interior de Maggie para preservar seu casamento, ele utilize imagens ambivalentes, mesclando alto estofo moral e indignidade:

“… nossa jovem cedia ocasionalmente ao que era insidioso nessas predestinadas engenhosidades de sua piedade, que durante minutos seguidos, algumas vezes, o peso de um novo dever parecia repousar sobre ela, o dever de falar antes que a separação constituísse seu abismo, de pedir algum benefício que pudesse ser levado para o exílio como o último objeto valioso salvo da emigre, a joia enrolada num pedaço de seda velha e negociável algum dia no mercado da miséria”.

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27/02/2012

O durão, o mauricinho, o oportunista, a puta-clone de estrela de cinema e a desmoralização geral: “Los Angeles-Cidade Proibida”

(resenha publicada originalmente, de forma mais condensada,  em A TRIBUNA de Santos, em 17 de março de 1998)

     Apesar do avassalador número de indicações (14) de Titanic, o cruzamento que James Cameron operou entre Danielle Steel e Irwin Allen, o favorito de boa parte da crítica (incluindo quem aqui escreve) para o Oscar é L.A. Confidential/Los Angeles-Cidade Proibida (EUA, 1990, em tradução de Alves Calado para a “Coleção Negra” da Record), o filme de Curtis Hanson baseado num romance de James Ellroy, no qual acompanhamos a trajetória de três policiais na década de 50: Ed Exley (no filme, o camaleônico Guy Pearce), Bud White (o maravilhoso Russell Crowe, uma força da natureza) e Jack Vincennes (não sou muito fã de Kevin Spacey, porém ele está muito bem; é incrível que nenhum dos três tenha sido indicado ao prêmio da Academia).

   O durão White odeia o mauricinho Exley por tê-lo dedurado a e a outros policiais que, após uma bebedeira de Natal, espancaram alguns prisioneiros (só por isso, não por algum motivo sério); Vincennes, por sua vez, utiliza a imprensa sensacionalista para documentar as prisões que realiza, até que seu principal colaborador, Sid Hudgens, é assassinado.

  Um crime da década de 30, envolvendo o pai de Exley (o assassinato e mutilação de várias crianças) e dois grandes crimes no início dos anos 50—a execução de Buzz Meek, por roubar alguns quilos de heroína do maior chefão de Los Angeles; o massacre de um grupo de frequentadores do Café Nite Owl) acabarão por confrontar, aproximar e até unir Exley, White & Vincennes. Exley torna-se o herói no caso do massacre, porém anos mais tarde surgem evidências de que a solução que dera para o crime não era a correta. A verdadeira solução é um labirinto moral que esconde em suas paredes heroína, prostituição feminina (com garotas que são operadas para ficarem parecidas com estrelas de cinema) e masculina, pornografia, corrupção e poder.

    Desde Confissões Verdadeiras, de John Gregory Dunne (também transformado em belo filme), não se via um livro policial de época tão expressivo quanto o de Ellroy,que chega a nos atordoar com sua maciça concentração, quase enciclopédica, de sordidez.

    Ellrou destrói a imagem-clichê do tira honesto em desajuste com um sistema podre: Exley é fraco e carreirista; White, seu antípoda, é um boçal que raia a psicose; Vincennes, o próprio retrato da cupidez.

   Nem as vítimas da violência escapam: Inês, a garota mexicana estuprada pelo trio de negros que são acusados pelo massacre do Nite Owl, não hesita em seduzir Exley e mentir para ele, levando-o a assassiná-los de maneira covarde (por esse ato ele se torna um herói para a cidade); ela também não hesita em se juntar a um grupo de empresários para ocultar um crime horrível (sem falar que o arquicriminoso da trama é um dos altos membros da polícia, um dos encarregados de esclarecer os crimes—esse vetor da trama foi bastante enfatizado na versão de Hanson, que não seguiu o brutal cinismo do autor do romance, o qual deixa o vilão incólume ao final; em Hollywood os labirintos morais têm que apresentar uma saída).

     Através da sinuosa e espessa maneira de narrar de Ellroy, o leitor acompanha o esboroamento da imagem charmosa da “capital do cinema” na época dos “anos dourados”, “…realização de uma visão: Los Angeles como um lugar de encanto e alta qualidade de vida…”; mesmo assim, Los Angeles-Cidade Proibida, com suas 540 páginas, apresenta certos entraves: é prolixo demais, sua ânsia de circunscrever balzaquianamente a cidade (com seus policiais, marginais, artistas, jornalistas, políticos, michês de ambos os sexos, tipos étnicos) faz com que haja um evidente excesso de personagens (embora a lembrança de uma bomba como Detetive, de Arthur Haley, comentado recentemente nesta coluna, só valorize a empreitada de Ellroy), e nesse ponto a adaptação de Hanson é muito mais bem realizado: através das radicais transformações no enredo, ele deixou a história mais coesa  e sinteticamente mais eficiente (um dos encantos do filme é ver que operações podem ser realizadas por um bom diretor-roteirista num material alheio, de forma a daí emergir algo realmente diferente, contando a mesma fábula).

     Além disso, há um certo falseamento e floreamento quando os personagens (em especial, as duas figuras femininas mais importantes, uma das quais aproveitada avidamente por Kim Basinger no melhor momento da sua carreira) começam a fazer análises psicológicas-miojo, isto é, quase instantâneas, uns dos outros. Esse psicologês de botequim ou de livro pedagógico parece sumamente impróprio quando o maior feito de Ellroy é liquidar a imagem do “tira durão” como figura que desperte nossa simpatia (nesse ponto, o filme é mais sutil, devido à interpretação de Crowe, em particular:  um strip tease psicológico genuíno, e, como tal, impossível não sentir empatia).

    Entretanto, as qualidades da narrativa e sobretudo a força da história falam mais alto. Ao invés de nos mostrar meras investigações que levam a meros assassinos, como tantos filmes e livros, Los Angeles-Cidade Proibida acaba sendo uma crítica corrosiva da essência da sociedade norte-americana (como ela se vende ao mundo), na qual entretenimento e aberrações caminham juntos. E não é de hoje.

   

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