MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

23/07/2010

A tocaia do hábito e do tédio: a volta do parafuso moraviana

(resenha publicada em  17 de agosto de 1999)

    Uma das afirmações mais repisadas a respeito do romance é a de que geralmente a faixa etária para escrever um é a dos 40 anos, quando o autor já “conhece a vida” , já tem “experiência e maturidade” para criar seres diferentes de si mesmo.

     E uma das mais triunfantes exceções a essa “regra” é o romance Os indiferentes [Gli indifferenti, que comentarei na tradução de Álvaro Lorencini & Letizia Zini Antunes, editada pela Bertrand Brasil], publicado há 70 anos, em 1929, quando Alberto Moravia tinha apenas 22 anos. Resultado: é um clássico, um livro que antecipou toda a “atmosfera” de uma parte da ficção do século XX (e do cinema, que o diga Antonioni). O curioso é que Moravia atravessou o novecento publicando belos romances (já tardiamente, em 1982, lançou o excelente 1934, mas é só recuar década por década e constatar a impressionante produção do escritor italiano:
Ambições
erradas, 1935; A romana, 1947; O conformista, 1951; La Noia – Vidas Vazias, 1960, só para citar alguns), e contos ainda melhores. O único outro caso de produtividade com qualidade similar, estendendo-se  do final da década de 20 até os anos 80, que me ocorre é o de Graham Greene.

      Os indiferentes tem apenas cinco personagens: a mãe Ardengo, seus filhos Michele e Carla, uma família arruinada que vive dos favores de Leo, amante da mãe (e que está roubando a família também, os restos), anteriormente amante de Lisa, a qual, por sua vez, agora deseja Michele. Embora Leo faça as maiores patifarias, embora todos vivam num ambiente desmoralizador e corrupto, Michele é incapaz de tomar atitudes, de se sentir pessoalmente engajado em sentimentos de indignação ou revolta. Para ele, tudo é uma comédia em que todos se empenham falsamente.

     À indiferença de Michele contrapõe-se o desejo impotente de Carla: mudar de vida. Afogada no meio de objetos, móveis e pessoas que parecem nunca mudar, sua única “saída” é tornar-se a nova amante de Leo.

   Alguns leitores podem achar as cenas de Os indiferentes excessivamente teatrais. Contudo, esse é um dos pontos fortes do romance, pois mostra ironicamente como a vida burguesa reduziu todos os relacionamentos e sentimentos a um nível vaudevillesco. As vidas de Michele, Carla, a mãe, Leo e Lisa imitam uma peça ruim,com atores entrando e saindo de cena e movimentando-se em meio a um conteúdo vazio, ou pelo menos raso, sem grandeza nenhuma, digno da indiferença que dá título ao livro.

    No teatro grego e no teatro clássico em geral, tudo girava em torno de uma família à qual aconteciam grandes desgraças. A grande desgraça da família Ardengo é sua mediocridade burguesa : ao saber que Leo e Carla tornaram-se amantes, Michele apenas pode fingir e representar (mal) que tem de vingar a honra da irmã. O máximo que acontece é uma cena ridícula (ele atira em Leo, mas esqueceu de carregar o revólver), depois da qual começa um processo de acomodação e todos seguem representando seus papéis.

   Além da força do enredo o que torna Os indiferentes uma das obras-primas centrais do século XX é sua impressionante descrição da relação  dos personagens com os objetos (e também com seus próprios sentimentos e pensamentos), que parece engolir a humanidade deles e transformá-los em parte do cenário: “Pequeno, mas angustiante trajeto através do corredor; Carla olhava para o chão pensando vagamente que aquela paisagem quotidiana deveria ter consumido o tecido do velho tapete que escondia o assoalho; e até os espelhos ovais pendurados nas paredes deviam conservar os traços daqueles rostos e daquelas pessoas que várias vezes ao dia durante muitos anos refletiam-se neles, oh, só por um instante, o tempo de examinar, a mãe e ela, a maquilagem, e Michele, o nó da gravata; naquele corredor o hábito e o tédio estavam de tocaia e atravessavam  a alma de quem passava, como se as próprias paredes exalassem vapores venenosos; tudo era imutável, o tapete,a luz, os espelhos, a porta de vidro do vestíbulo à esquerda, o patamar escuro da escada à direita, tudo era repetição: Michele que parava um instante para acender um cigarro e soprar o fósforo, a mãe que gentilmente perguntava ao amante: Não acha que estou com cara de cansada esta noite? Leo, com indiferença, sem tirar o cigarro da boca, respondia: Não, pelo contrário, nunca esteve tão bonita, e ela própria que sofria com tudo isso; a vida não mudava”.

   

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