MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

31/01/2013

Destaque do Blog: O CORUJA, de Aluísio Azevedo

130181280OCoruja-147x250[1]

É HORA DE FUGIR AOS CLICHÊS SOBRE ALUÍSIO AZEVEDO

No centenário da sua morte (em 21 de janeiro de 1913), Aluísio Azevedo (nascido no Maranhão em 1857) continua vítima de afirmações estereotipadas e petrificadas quanto ao valor de sua obra. Chega-se ao ridículo de valorizar ou não certos títulos com a mesma visão da época em que foram escritos (nas duas últimas décadas do século XIX). Naquele momento, tinha tudo a ver os embates entre escolas literárias (e Aluísio, como se sabe, pertenceu à corrente naturalista), contudo cem anos depois, não era hora de espanar a poeira de certos juízos a fim de verificar se ele não foi mais do que o autor de O Cortiço, Casa de Pensão & O Mulato (os dois últimos sem a unanimidade do reconhecimento do primeiro, mas ainda assim sempre destacados no conjunto da sua produção)?

Por isso, decidi comentar O Coruja (publicado como folhetim em 1885, só tendo aparecido em livro depois de O Cortiço, em 1890) sem a menor preocupação em enquadrá-lo nesta ou naquela escola literária, e nesse sentido determinar seu sucesso ou seu fracasso. O que me importou foi a seguinte questão: vale a pena, para o leitor comum do século XXI, ler esse romance, desvinculado do chamado “valor histórico”?

O Coruja é uma narrativa com forte pendor alegórico, acompanhando a amizade—desde os tempos de internato até a idade madura—entre André, um órfão que ganha, ainda pequeno, a alcunha do título por ser antissocial e esquisito (feio de doer, caladão, ele angaria sempre uma antipatia geral à sua volta), e Teobaldo, filho de um barão, mimado, voluntarioso, cheio de impulsos românticos (lindo, sedutor, ele tem várias mulheres a seus pés—e aliás as espezinha frequentemente: as cenas da mulherada fazendo o chamado barraco na sua vida estão entre as melhores do livro[1]).

A primeira parte transcorre no interior de Minas Gerais, quando André é acolhido pela família de Teobaldo (a quem protegera no internato),nas férias, na sua fazenda. As outras duas já mostram os dois na Corte. A certa altura, o perdulário todavia romanesco Teobaldo se vê privado dos pais e de sua herança, e quem o sustenta é André, trabalhador incansável, embora obscuro e desprezado por quase todo mundo. Em vários momentos, a fortuna sorri para Teobaldo, mas ele tem a irresistível tendência de se arruinar.

ficção completa

Disse que é uma narrativa alegórica. Sim, porque acompanhando os amigos, acompanhamos as transformações na sociedade brasileira. Num dos momentos de prosperidade do amigo do Coruja, lemos: “Todo ele agora respirava júbilo, elegância e prosperidade; seus esplêndidos vinte e sete anos luziam por toda a parte. Também a época não podia ser melhor para isso: o Rio de Janeiro passara por uma transformação violenta, estava em guerra; e, enquanto as províncias se despiam para cobrir com seus filhos os sertões paraguaios, o Alcazar erguia-se na Rua da Vala e a opereta francesa invadia-nos de cabeleira postiça e perna nua.Durante o dia ouvia-se o Hino Nacional acompanhando para bordo dos vasos de guerra os voluntários da pátria; à noite, ouvia-se Offenbach.E o nosso entusiasmo era um só para ambas as músicas.

     A guerra tornava-nos conhecidos na Europa e uma nuvem de mulheres de todas as nacionalidades precipitava-se sobre o Brasil, que nem uma praga de gafanhotos sobre um cafezal; as estradas de ferro desenvolviam-se facilitando ao fazendeiro as suas visitas à corte e o dinheiro ganho pelos escravos desfazia-se em camélias e champanha; abriam-se hotéis onde não podiam entrar famílias, multiplicavam-se os botequins e as casas de penhores. Redobrou a loteria e a roleta, correram-se os primeiros cavalos no prado; surgiram impostos e mais impostos, e o ouro do Brasil transformou-se em papel-moeda e em fumaça de pólvora.

   Teobaldo estava, pois, com seu tempo; já demandando todas as noites o Alcazar dentro do seu cabriolé…”  ”

Com o casamento de Teobaldo com Clara, rica herdeira (a quem dissipa a fortuna em especulações infelizes) e sua entrada na política, os caminhos começam a se separar e fica clara a intenção do autor maranhense: o belo representa a máscara superficial, o verniz da nação; o feio representa a verdadeira face do povo brasileiro, e essa massa desprovida de “encantos”, em sua luta pela sobrevivência, é um constrangimento para essa sociedade afluente. Com crueza, Aluísio mostra também que a massa se identifica mais com o lado “bonito” (Teobaldo) do que com seu lado “Coruja”. Não tem sido sempre assim? Não há tanta gente que sente saudades do governo FHC, afinal um homem tão “culto”, tão “ilustrado”, um sociólogo, e sente vergonha de ter tido um ex-operário, ainda rusticão, como nosso presidente e exulta ao associá-lo a falcatruas?

O casamento entre Teobaldo e Clara torna-se realmente “de aparência” (e ela, uma espécie de consciência crítica do marido, numa dinâmica muito hábil, que rende bastante interesse à 3ª. parte[2]); André, por sua vez, durante anos junta capital para abrir uma escola e mantém uma noiva desagradável (com uma mãe, que é um dos grandes achados de O Coruja), à espera, pacientemente, durante anos. No entanto, apesar de todo o seu empenho, seus planos cuidadosamente traçados e escrupulosos, sempre se frustram porque sempre há uma emergência na vida de Teobaldo. Pois viver de aparência tem um alto custo. E muita sordidez nos bastidores.

Aluísio Azevedo não é um escritor sutil. Ele carrega nas tintas, em especial na figura do personagem-título que é bom demais para ser verdade, e se torna um personagem até ultra-romântico (alguns críticos o associaram ao Quasímodo de Victor Hugo[3]). Não acho que isso enfraqueça efetivamente o livro, em especial por causa do contraste com Teobaldo, e com a caracterização deste, que, ao fim e ao cabo, é quem faz a transição entre romantismo e realismo (ele é quase um Brás Cubas que não descobriu ainda o poder de rir de si mesmo pós-túmulo). E o estilo é tão colorido e ágil, e além disso a trama vai apresentando sempre novos pontos de interesse e personagens que nos transportam para dentro de seus dilemas (como Clara, ao desiludir-se com o marido) ou de suas vilanices (como Aguiar, que tenta prejudicar Teobaldo). O conjunto, apesar de longe da perfeição, é absorvente e fascinante. E esses não são, afinal, os atributos básicos para que uma narrativa se mantenha viva, tanto tempo depois? Portanto, a suposta “obra menor” de Aluísio Azevedo nos oferece uma visão e tanto do Brasil do Segundo Reinado. Do Segundo Reinado? Quando empresários ingleses tentam convencer Teobaldo de uma maracutaia, lhe dizem: “Oh! a política do Brasil está cheia de exemplos muito mais escandalosos, e não me consta que nenhum dos seus autores ficasse desmoralizado; ao contrário, criam novo e maior prestígio quando enriquecem.” 

(resenha publicada originalmente, sem notas de rodapé e anexo, em A TRIBUNA de Santos, em 29 de janeiro de 2013)

coruja 2

ANEXO- Linhas de força do século XIX em “O CORUJA”:

No meu texto acima, quis desembaraçar O Coruja das vinculações. Mas diversas linhas de força, nem sei se com a total consciência por parte do autor maranhense, se fazem presentes, e acredito que o livro seja mais fruto da influência decisiva de Balzac & Dickens (não esquecendo o traço victorhugoano de André, o Coruja) do que da influência de Zola.

De Dickens encontramos aquela relação forjada no internato (como em Nicholas Nickelby), entre um herói “bonito”, que sofrerá revezes da sorte, e um triste colega.  Além disso, há essas amizades “dialéticas”, que atravessam a vida (lembrem-se de David Copperfield) e que, exageros à parte, são até hoje interessantes (pelo menos, para mim) pelos contrastes éticos e morais que estabelecem.

De Balzac temos os provincianos “se fazendo” (ou não) na Capital, e o custo íntimo da decisão de “conquistar o mundo”. Teobaldo é um personagem mais balzaquiano do que à Zola. As críticas que Aluísio Azevedo faz ao tipo de educação que ele teve e que o incapacitaram a uma vida séria e desvinculada do interesse próprio e hedonista, me lembraram as de Balzac à educação da protagonista de O Baile de Sceaux.

E, como avento na resenha, no fundo, Teobaldo representa o mesmo tipo social do Brás Cubas de Machado de Assis, Só que em Machado, Balzac dá as mãos a Sterne. De qualquer forma, um leitor de Ilusões Perdidas não deixará de reconhecer o mundo evocado pela seguinte passagem do belo romance de Aluísio (quando Teobaldo e o Coruja chegam à Corte, e um fornecedor comercial do pai do primeiro lhe dá conselhos):

“Não se meta a escrevinhador, que isso tem posto muita gente a perder! Poderia citar-lhe mais de cem nomes de estudantes, de quem fui correspondente, que perderam anos, que cortaram a carreira por causa da maldita patifaria das letras!”

Quanto a um lastro tipicamente naturalista, é interessante a alusão (em alguns momentos) à condição de “mestiço” de Teobaldo (ele é descendente de um português com uma índia), que dá um “fermento” dinâmico (contudo deletério, ao que parece) à sua personalidade (o que vai de encontro aos clichês da identidade étnica nacional):

“Nunca o seu privilegiado talento de insinuar-se em cada um, a quem ele queria agradar, teve tanta ocasião de fazer valer a sua força; a todos comunicava O INSINUANTE MESTIÇO uma faísca do seu espírito sedutor; a tudo um reflexo do seu diletantismo aristocrata.”

opinião


[1] Embora sejam divertidas amostras de um talento narrativo incontestável, essas cenas também mostram forte adesão àquela visão medicalizada da mulher que existia na época, cristalizada pela condição de “histérica”. Como se sabe, abundam na produção naturalista as descrições de histeria feminina. Um exemplo, em O Coruja:

“… teve André por conseguinte de servir de enfermeiro à rapariga, sem licença de abandoná-la um só instante, porque as convulsões histéricas e os espasmos se repetiam nela quase que sem intermitência.

   Foi uma noite de verdadeira luta para ambos; o rapaz, apesar da riqueza dos seus músculos, nem sempre lhe podia conter os ímpetos nervosos. A infeliz escabujava como um possesso, atirava-se fora da cama, rilhando os dentes, trincando os beiços e a língua, esfrangalhando as roupas, em um estrebuchamento que lançava por terra todos os objetos ao seu alcance. No fim de algumas horas o Coruja sentia o corpo mais moído do que se o tivessem maçado com uma boa carga de pau.”

Aliás, também é forte o pendor para o sensacionalismo, para a ilustração melodramática de extremos (que aproxima tanto o Naturalismo do Romantismo), como na descrição da mesma personagem feminina, que acidentalmente ateou fogo em si mesma, num acesso de descontrole histérico (ela se dispunha a beber a querosene de uma lamparina, matando-se para causar remorso a Teobaldo):

“Puxou-se o sofá para o meio da sala e nele se depôs o corpo de Ernestina; não foi possível despi-lo totalmente dos farrapos que o cobriam, porque estes se tinham grudado às enormes fendas abertas pelo fogo. Toda ela, coitadinha, apresentava uma triste figura negra e esfolada em muitos pontos. Estava horrível; o cabelo desaparecera-lhe; os olhos eram duas orlas vermelhas e ensanguentadas; a boca, totalmente deslabiada, mostrava os dentes, cerrados com desespero; e dos ouvidos sem orelhas e do nariz sem ventas escorria-lhe um líquido gorduroso e amarelento.”

Também quanto à cerrada visão moralista do destino da mulher (que era considerada “velha” aos 40 anos), não se fica devendo nada aqui à Dama das Camélias ou a José de Alencar (Lucíola), como podemos ver nessa passagem, a respeito de Leonília, a prostituta que se apaixona por Teobaldo:

“Ela estava na dolorosa transição dos quarenta anos; época em que toda mulher só pode ser sublime ou ridícula. Sublime se a fizeram casta e principalmente se a natureza lhe permitiu ser mãe; e ridícula, se a desgraçada perdeu a flor da sua mocidade ao reflexo das orgias e ao grosseiro embate da prostituição.”

[2] “Pois calcula que, de um momento para outro, senti rasgarem-se-me defronte dos olhos os véus da minha ignorância, e desde então vejo tudo às claras, vejo certo, posso julgar com justeza, dando a cada figura, a cada grupo, a cada ação e a cada fato o valor que lhe compete, a sua capacidade, a sua grandeza ou a sua pequenez, determinando os seus fins e calculando as suas intenções boas ou más (…) Adormeci ainda no meu ridículo estado de credulidade e sonhei que me achava entre os meus amigos e conhecidos; via-os como te estou vendo a ti, tão bons, tão afáveis e tão meigos! Mas de súbito, senti uma grande agitação em torno de mim, olho espantada; então um singular espetáculo se apresenta: a máscara de cada um havia caído por terras e um grande montão de fisionomias misturava-se a meus pés, imóveis e frias como rostos de defuntos. E todas aquelas figuras humanas, que acabavam de despir a máscara, começaram a rir e a escarnecer umas das outras, descaradamente, sem rebuços de delicadeza. E as mais vergonhosas confissões saíram de cada boca…”, diz Clara ao marido.

[3] “E sempre bom, escondendo de todas as suas privações e os seus desgostos, procurando ocupar no mundo o menor espaço que podia e sempre superior aos outros, sempre além da esfera de seus semelhantes, atravessava a existência, caminhava por entre os homens sem se misturar com eles, que nem um pássaro que vai voando pelo céu e apenas percorre a terra com a sua sombra.

   Fazia dolorosa impressão ver sair todas as manhãs, pelos fundos da chácara de Teobaldo, aquele vulto sombrio todo envolto em um velho sobretudo, a tossir esfalfado de trabalho e sem querer  incomodar com a sua tosse os criados que ainda dormiam.

   A  nova existência do amigo como que o fizera ainda mais triste e só.”

aluisio_azevedo

Blog no WordPress.com.