MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

15/10/2013

NO MUNDO DE ALICE: “O amor de uma boa mulher” e um Nobel indiscutível

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“Uma escolha fluida, a escolha da fantasia, é derramada no chão e endurece instantaneamente: adquiriu seu formato inegável…” (de As crianças ficam)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 15 de outubro de 2013)

Ninguém pode se queixar, desta vez, de que o Nobel tenha contemplado um autor “obscuro”, de algum país praticamente desconhecido, e do qual não há traduções circulando.  No Brasil, por exemplo, já foram publicados quatro títulos de Alice Munro: Ódio Amizade Namoro Amor Casamento; Fugitiva; Felicidade Demais e O amor de uma boa mulher[1], este último editado agora em 2013, embora mais antigo que os demais: foi lançado originalmente em 1998.

São oito histórias que demonstram como é indiscutível a escolha de um dos nomes mais extraordinários da literatura contemporânea. Quem não conheça o universo dessa canadense octogenária poderá estranhar, ao começar a leitura do conto-título, que abre o volume, o andamento do relato: em 1951, três meninos (Bud Salter, Jimmy Box, Cece Ferns) encontram um carro emborcado no rio, com o cadáver do Dr. Willens, optometrista local. Antes de espalhar a notícia, cada um vai para sua casa, e conhecemos as diferenças entre as suas famílias, em sua dinâmica interna e quanto à reputação delas na região (pois todos se conhecem, se vigiam, sabem aparentemente de tudo o que há para saber uns sobre os outros)[2]; logo a seguir, conhecemos Enid, uma moça que teima em ser diferente (segue o caminho da santidade, comenta desdenhosamente sua mãe: “… às vezes é um trabalho dos diabos, esse negócio de ser mão de uma santa”), abdicando do casamento e de carreiras mais prósperas, para ser cuidadora de doentes terminais. Assim, ela entra no lar dos Quinn para, ao longo da deterioração física da sua paciente, se dar conta também de sua perversidade e malevolência: “A Sra. Quinn era um caso mais difícil. Se ela se partisse em pedacinhos, lá dentro só se encontraria uma forma lúgubre de malícia, só podridão” . Ou será a visão fanática e puritana da própria Enid, a “boa mulher”, que a levará depois a uma decisão perigosa e masoquista?[3]

Estamos na mesma história, aquela dos meninos? Sim, como o leitor paciente descobrirá. Um dos encantos de Alice Munro é a maneira como ela vai montando pequenos porém intrincados quebra-cabeças narrativos, e esse é um dos melhores exemplos de sua arte.

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E é assim com cada texto de O amor de uma boa mulher.São todos, sem exceção, do mais alto nível. Será, portanto, uma questão essencialmente de preferência pessoal eu indicar como destaques duas narrativas em primeira pessoa: Antes da mudança e A ilha de Cortes.

No primeiro, após ter um filho clandestino (de uma relação com um professor de teologia[4]), a narradora volta a viver com o distante e desconcertante pai (“Meu pai chama o filho desse sobrinho pelo nome do sobrinho. Faz isso com todo mundo. Refere-se às lojas e aos negócios na cidadezinha pelo nome do dono anterior ou mesmo de um antecessor. Isso é mais do que um simples lapso de memória: está mais próximo da arrogância. Ele se põe acima da necessidade de conhecer o que se passou. Da necessidade de registrar as mudanças. Ou as pessoas”), descobrindo que ele é o aborteiro local. Para completar o quadro, há uma das figuras rústicas e insondáveis, tão comuns nessa “wonderland” às avessas que nossa Alice desentoca, a Sra. Barrie, a empregada da casa. Estamos na fronteira entre Tchekhov e Stephen King.

Já no segundo, temos mais um segredo oculto por detrás do decoro e das conveniências: uma vizinha toda empertigada se intromete na vida de um jovem casal até que, depois de ter “empregado” a narradora para cuidar do marido inválido (o qual, através do manuseio de antigos recortes de jornais, fornece a ele os indícios de um crime, ocorrido na ilha do título[5]), passa a uma atitude de hostilidade que beira o desvario:

“Ah, ela se acha tão esperta. Não consegue nem manter dois quartos limpos. Quando varre o chão, tudo que faz é empurrar a poeira para um canto”.

    Quando comprei minha primeira vassoura, esqueci de comprar uma pá de lixo e, durante algum tempo, fiz mesmo aquilo. Mas ela só poderia saber se tivesse entrado em nossos quartos com outra chave enquanto eu estava na rua. O que, evidentemente, foi o que ela fez.

“Ela é uma falsa, você sabe. Bastou olhar para ele e vi que era uma falsa. E mentirosa. Não é boa da cabeça. Ficava lá sentada e dizia que estava escrevendo cartas, mas escrevia as mesmas coisas uma porção de vezes. E não eram cartas, eram as mesmas coisas várias vezes. Tem um parafuso a menos”.

    Com isso entendi que ela havia desamassado as páginas jogadas na minha lata de lixo.

São enredos primorosos no descortínio de mentalidades que vão se entrechocando na passagem das gerações, do rural para o urbano, dos costumes petrificados para a liquidez da modernidade, criando um palimpsesto cronológico que casa perfeitamente com o andamento enviesado da narrativa. E sempre um apetite vigoroso pela intriga, por ambientes e personagens que, com maestria, ganham a nitidez de lugares onde vivemos e de pessoas que conhecemos.

Outro ponto alto é As crianças ficam, no qual a protagonista, Pauline, em férias com a família (filhas, marido e os pais deste último), foge com o diretor da montagem amadora de uma peça na qual ela desempenha o papel de Eurídice (aquela que Orfeu tenta resgatar da morte)[6]:

Os pensamentos que lhe vinham sobre Jeffrey absolutamente não eram pensamentos—e sim algo mais parecido com alterações em seu corpo. Isso podia acontecer quando estava sentada na praia (…), quando torcia as fraldas depois de lavadas ou quando ela e Brian visitavam os pais dele. No meio de partidas de Monopólio, de Scrabble e de buraco. Ela continuava a falar, ouvir, trabalhar e vigiar as crianças enquanto alguma recordação de sua vida secreta a perturbava como uma explosão radiante. Era então invadida por uma sensação de calor que ocupava todos os seus vazios e a reconfortava. Mas não durava muito, o alívio se dissipava e ela se sentia como uma avarento que vê seus ganhos repentinos desaparecerem, e não imagina que a sorte possa voltar a alcançá-lo.

Nesse, como e em outros momentos da obra de Alice Munro, ela me pareceu bem próxima  dos romances admiráveis de Anne Tyler. Os laços afetivos em ambas são fortes e concretos, mas elas também apresentam o seu lado inquietante—o fato de que essas relações são, no fundo, uma alternativa escolhida entre outras:”Havia um outro tipo de vida que ela poderia ter tido—o que não era o mesmo que dizer que teria preferido assim”, lemos num dos melhores contos de Ódio Amizade Namoro Amor Casamento (2001), coletânea que a apresentou ao leitor brasileiro.

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Em O sonho de mamãe, que fecha O amor de uma boa mulher, somos  apresentados a uma família de mulheres que recebe em casa a viúva do irmão (morto na guerra), que logo terá uma criança—a  narradora da história (mesmo que, no campo dos acontecimentos aí narrados, ela seja apenas um bebê):

Minha mãe—Jill—está de pé junto à mesa da sala de jantar banhada pela luz intensa do final da tarde. A casa está cheia de pessoas convidadas a irem lá após o serviço fúnebre na igreja. Estão bebendo chá ou café enquanto tentam segurar os diminutos sanduíches ou fatias de pão de banana, bolo de nozes e bolo inglês. As tortas de creme ou de passas, com sua massa farelenta, precisam ser comidas com um garfo de sobremesa e os pratinhos de porcelana com desenhos de violetas pintados pela sogra de Jill quando noiva. Jill pega tudo com os dedos. Migalhas de massa caíram, uma passa caiu, e o veludo verde do vestido ficou manchado. É um vestido quente demais para aquele dia, e absolutamente não é um vestido para mulheres grávidas e sim um tipo de túnica larga feita para os recitais, quando ela toca violino em público. A bainha está levantada na frente por minha causa. Mas é a única coisa suficientemente folgada e apresentável que ela em para usar nas cerimônias fúnebres do marido.

Mais uma vez pensamos: a mágica não pode se repetir indefinidamente, ela não será capaz de criar mais um momento incrível que parece conter a vida inteira (gerações, passagem do tempo, conflitos e recalques entre membros de uma família e de uma comunidade, ou seja, a vida de todo dia que vivemos). E, presto!, novamente ficamos estupefatos com o número de ilusionismo. Se isso não é gênio (pelo menos na área da ficção),  não sei o que mais poderá ser.

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VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/10/11/alice-munro-e-o-unidunite-dos-afetos-odio-amizade-namoro-amor-casamento/

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TRECHOS SELECIONADOS

Quando tinha quatro ou cinco anos, Enid disse à sua mãe que havia ido ao escritório do pai e o vira sentado atrás da escrivaninha com uma mulher no colo. Tudo de que ela se lembrava daquela mulher, tanto na época quanto agora, se resumia ao fato de que ela usava um chapéu com muitas flores e um véu (algo bem fora de moda mesmo então), além de que a parte de cima do vestido ou da blusa estava desabotoada e um seio nu se projetava para fora, com o bico desaparecendo na boca do seu pai. Contara isso à mãe com a absoluta certeza de que havia visto a cena, dizendo a ela: “Uma frente dela estava enfiada na boca do papai”. Não conhecia a palavra que designava seios, embora soubesse que vinham em pares.

    Sua mãe disse: “Vamos, Enid. Do que você está falando? O que é essa tal de frente?” 

   “Igual a uma casquinha de sorvete”, respondeu Enid.

    Foi desse jeito que ela viu, exatamente. Ainda podia ver desse jeito. O cone cor de biscoito com sua porção de sorvete de baunilha apertada contra o tórax da mulher, a outra ponta espetada na boca do pai.

    Sua mãe fez então algo muito inesperado. Abriu o vestido e pôs para fora um objeto esmaecido, que sacudiu com a mão. “Como isso aqui?”

    Enid disse que não. “Uma casquinha de sorvete”.

   “Então foi um sonho”, disse sua mãe… (trecho de O amor de uma boa mulher)

Em todas as visitas que fizera durante aquela viagem, sempre tinha havido um momento de séria decepção. O momento em que se dava conta de que a pessoa com quem estava falando, a pessoa que se esforçara para encontrar, não ia lhe dar o que quer que ele tinha ido buscar. O velho amigo que visitou no Arizona estava obcecado pelos perigos da vida apesar de viver numa mansão dentro de um condomínio fechado. A mulher desse velho amigo, que tinha mais de setenta anos, queria lhe mostrar fotografias dela e de outra mulher fantasiadas de dançarinas de cabaré no tempo da Corrida do Ouro (…) E os filhos, agora adultos, estavam totalmente imersos em suas próprias vidas. Isso era bem natural e não o surpreendia. A surpresa estava em que essas vidas, as vidas de seus filhos e de sua filha, pareciam fechadas, de certa forma previsíveis. Até mesmo as mudanças que ele podia antever ou lhe foram anunciadas—Noelle estava prestes a deixar seu segundo marido—não era muito interessantes. Ele não havia admitido isso para Deborah—e quase nem mesmo para ele próprio—porém era verdade. E agora Sonje. Sonje, de quem ele nunca gostara muito, de quem sempre guardara certa desconfiança, mas a quem respeitara por ter um quê de mistério—Sonje se tornara uma velha tagarela com um parafuso a menos. (trecho de Jacarta)

Eu e Chess vínhamos de famílias onde o sexo antes do casamento era visto como repugnante e imperdoável, enquanto o sexo depois do casamento aparentemente nunca era mencionado, sendo via de regra logo esquecido. Quando a mãe de Chess encontrou camisinhas em sua mala de viagem, foi chorando falar com o pai dele (…) Por isso, ter um lugar nosso e uma cama nossa, onde podíamos fazer o que bem quiséssemos, parecia maravilhoso. Tínhamos feito um pacto em favor da lascívia, mas nunca nos ocorreu que pessoa mais velhas—nossos pais, tias e tios—pudessem ter feito a mesma barganha, por lascívia. Imaginávamos que o maior desejo deles tinha a ver com casas, terrenos, cortadores de grama motorizados, freezers e muros de sustentação. E, naturalmente, no que tange às mulheres, com bebês. No futuro, pensávamos, todas essas coisas poderiam ser escolhidas, ou não escolhidas, por nós. Nunca pensamos que elas nos viriam inexoravelmente, como a idade ou as condições meteorológicas.

   E quando agora penso nisso com toda a honestidade, não vieram. Nada aconteceu sem que quiséssemos. Nem a gravidez. Arriscamos ter um filho só para ver se éramos de fato adultos, se isso realmente podia acontecer.  (trecho de A Ilha de Cortes)

Preferiu não mencionar o fragmento de muro que vira acima dos arbustos. Por que se dar ao trabalho, quando havia tantas coisas que ela achava melhor não mencionar? Primeiro, a brincadeira com Philip, que acabou por excitá-lo demais. E quase tudo sobre Harold e seus companheiros. Tudo, sem a menor exceção, acerca da garota que pulara para dentro do carro.

    Há pessoas que levam a decência e o otimismo sempre com eles, que dão a impressão de limpar a atmosfera nos lugares em que estão. A elas não se devem dizer certas coisas, é muito perturbador. Apesar de sua simpatia naquele momento, Ian parecia a Eve uma dessas pessoas (…) Antes, eram as pessoas mais idosas que demandavam esse tipo de proteção, mas parecia que cada vez mais era o caso dos jovens, e alguém como Eve tinha que tentar não revelar como estava em situação difícil: toda sua vida podia ser vista como uma forma inapropriada de se debater, um erro radical.

   Ela podia dizer que a casa fedia, que o dono e seus amigos estavam bêbados e pareciam gente vil, mas não que Harold estava nu e nunca que ela própria teve medo. E nunca do que ela teve medo.

   Philip estava encarregado de recolher as espigas debulhadas e jogá-las ao longo da borda do campo (…) não acrescentara nada à história de Eve e nem parecera se importar com o relato. Mas, depois que a história acabou e Ian (interessado em colocar aquela historinha local no contexto de seus estudos profissionais) perguntou a Eve o que ela sabia sobre a desintegração dos velhos padrões da vida nas cidadezinhas e no campo, sobre a expansão do chamado agronegócio, Philip enfim ergueu os olhos da sua tarefa de se abaixar e se arrastar no meio dos pés dos adultos. Ele olhou para Eve. Um olhar neutro, um momento de vazio conspiratório, um sorriso submerso, tudo se passando rápido demais para que precisasse ser reconhecido.

    O que significava aquilo? Simplesmente que ele começara o trabalho íntimo de armazenar e esconder, decidindo por conta própria o que devia ser preservado e como, o que tais coisas iriam significar para ele, no seu futuro desconhecido. (trecho de Salve o ceifador)

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Suas filhas cresceram. Não a odeiam por ter ido embora ou por ter ficado longe delas. Também não a perdoam. Talvez não a perdoassem de qualquer modo, mas seria por algo diferente.

    Caitlin se recorda um pouco do verão na pousa, Mara nem um pouco (…) “O lugar onde a gente estava quando você foi embora”, ela diz. “Mas só soubemos depois que você foi embora com Orfeu”.

    “Não foi com Orfeu”, diz Pauline.

   “Não foi com Orfeu? Papai costumava dizer que foi. Ele dizia: “E aí sua mãe fugiu com Orfeu”.

    “Então estava brincando”, diz Pauline.

    “Sempre pensei que tinha sido Orfeu. Quer dizer que foi com outra pessoa”.

   “Foi alguém ligado à peça. Com quem vivi durante algum tempo”.

  “Mas não Orfeu”.

   “Não. Nunca ele”. (trecho de As crianças ficam)

“Acho que a mãe de Karin está vindo jantar”, disse Derek. “Silêncio, silêncio. Será que é o carro dela chegando?”

    “Ah, meu Deus, eu devia pelo menos lavar o rosto”, disse Ann. Pôs de lado as verduras e subiu correndo a escada.

     Derek se aproximou da vitrola e repôs a agulha no início do disco. Quando a música recomeçou, saiu para receber Rosemary, coisa que não costumava fazer. A própria Karin tinha pensado em correr para recebê-la. Mas, ao ver Derek tomar a iniciativa, abandonou a ideia. Em vez disso, seguiu Ann escada acima. Porém, não até o fim. Havia uma janelinha no patamar intermediário onde ninguém parava e por onde ninguém costumava olhar. Como a janela tinha uma cortina, não era possível que alguém pudesse vê-la.

   Chegou tão depressa que viu Derek cruzar o gramado e atravessar a abertura de cerca viva. Passos largos, ansiosos, furtivos. Chegaria a tempo de se inclinar e abrir a porta do carro, abri-la com um floreio e ajudar Rosemary a sair. Karin nunca o vira fazer aquilo, mas sabia que ele tencionava fazê-lo agora.

   Ann ainda estava no banheiro. Karin podia ouvir o chuveiro. Teria alguns minutos para observar sem ser perturbada.

   Ouviu então a porta do carro se fechar. Mas não suas vozes. Impossível, com a música invadindo toda a casa. E eles não tinham surgindo na abertura da cerca. Ainda não. E ainda não. E ainda não.  (trecho de Podre de rica)

O advogado de meu pai diz que é muito “incomum”. Entendo que, para ele, essa é uma palavra bem forte e suficiente.

    Há dinheiro bastante na conta bancária de meu pai para cobrir as despesas do enterro. O suficiente para despachá-lo , como dizem alguns (não o advogado, ele não fala assim). Mas não sobra muito mais. Não há certificados de ações no cofre particular do banco, nenhum registro de investimentos. Nada. Nenhuma doação testamentária para o hospital, para a igreja ou para a escola criar uma bolsa. O que é ainda mais chocante, nenhum dinheiro a ser dado à Sra. Barrie. A casa e o que há dentro dela pertencem a mim, e isso é tudo. Tenho ainda meus cinco mil dólares.

    O advogado parece pouco à vontade, penosamente embaraçado e mesmo preocupado com a situação. Talvez pense que eu suspeito de seu comportamento, que vá tentar denegrir seu nome. Quer saber se existe algum cofre na casa, qualquer esconderijo onde pudesse estar uma alta soma em dinheiro vivo (…)

   Digo-lhe que não estou terrivelmente preocupada com o dinheiro.

   Que coisa horrorosa de dizer! Ele mal consegue olhar nos meus olhos. (trecho de Antes da mudança)

Uma vez retirada as bandagens e depois de ela ter verificado que sua barriga já estava bem lisa, Jill olhou para suas mãos. O inchaço parecia ter desaparecido por completo. Ela desceu a escada, pegou o estojo no armário do hall e retirou o violino. Estava pronta para tentar algumas escalas.

    Era uma tarde de domingo. Iona se deitara para tirar uma soneca, sempre alerta para qualquer ruído que eu pudesse fazer. A Sra. Kirkham também estava deitada. Ailsa pintava as unhas na cozinha. Jill começou a afinar o violino.

    Meu pai e sua família não tinham o menor interesse por música. Na verdade, ignoravam isso. Pensavam que a intolerância ou mesmo a hostilidade que sentiam com relação a certo tipo de música (visível até mesmo no modo como pronunciavam a palavra “clássica”) se fundamentavam na força de caráter, na integridade e na determinação de não se deixarem enganar. Como se qualquer música que fosse além de uma simples canção encerrasse uma tentativa de tapeá-los, coisa de que todo mundo no fundo sabia, embora algumas pessoas—por pretensão, falta de simplicidade e honestidade—jamais o admitissem. Sobre essa artificialidade e essa tolerância covarde se erguia o mundo das orquestras sinfônicas, das óperas, do balé e dos concertos que faziam todos dormirem.

   A maior parte dos habitantes da cidadezinha pensava o mesmo. No entanto, por não ter nascido lá, Jill desconhecia a profundidade desse sentimento, e como aquilo era aceito sem discussão. Meu pai nunca exibiu sua opinião (…) Gostara da ideia de Jill ser uma instrumentista não por causa da música propriamente dita, mas porque isso a tornava uma escolha estranha, como suas roupas, seu estilo de vida, seus cabelos não-domesticados. Ao escolhê-la, ele mostrava às pessoas o que pensava delas. Mostrava às garotas que haviam tido a esperança de fisgá-lo. Mostrava a Ailsa. (trecho de O sonho de mamãe)

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[1] The Love of a Good Woman, que citarei utilizando a tradução de Jorio Dauster (os títulos originais dos contos, além daquele que dá o título à coletânea, são–pela ordem: Jakarta; Cortes Island; Save the reaper; The children stay; Rich as stink; Before the changeMy mother´s dream.

[2] O que já é indicado na passagem que indica o prazer que é para os meninos perambular pelo local onde encontram o corpo:

“Outra mudança nas conversas que tinham por lá era o fato de praticamente pararem de usar nomes. Já não costumavam empregar muito seus nomes verdadeiros e nem mesmo os apelidos dados pelas famílias, tal como Bud. Mas, na escola, quase todo mundo ganhava outro nome, alguns dos quais relacionados à aparência ou à maneira de falar da pessoa, como Quatro Olhos ou Pato Rouco. Outros, como Cu Ralado e Fode Galinha, derivavam de acontecimentos reais ou imaginários na vida de quem recebia o apelido ou na de seus irmãos, pais e tios, pois tais nomes eram transmitidos de geração em geração. Mas tudo isso era deixado de lado quando se encontravam no mato ou nos remansos do rio. Se precisavam chamar a atenção de um companheiro, tudo que diziam era Ei! Até mesmo o uso de nomes que os adultos não deviam ouvir, por serem ofensivos e obscenos, prejudicaria a sensação que tinham naquelas ocasiões de absoluta familiaridade com a aparência, os hábitos, a família e a história pessoal de cada um.

   E nem por isso se imaginavam como amigos. Nunca teriam designado alguém como seu melhor amigo ou segundo melhor amigo, nem alterado as hierarquias de tempos em tempos, como as meninas faziam. Pelo menos uma dúzia de outros garotos poderia substituir qualquer um daqueles três, sendo aceitos da mesma forma…”

[3] “Seria possível alguém inventar alguma coisa tão pormenorizada e diabólica? A resposta é sim. A mente de um enfermo, de um moribundo, podia ficar repleta de coisas sujas e organizá-las de forma muito convincente. A mente da própria Enid, quando ela dormia naquele aposente, se enchera das invenções mais nojentas, de sujeira pura. “

[4] Que é, supostamente, o interlocutor da narrativa, um recurso bastante eficiente, já que ao mesmo tempo que mostra a cumplicidade “moderninha” e anti-tacanha do casal, mostra também, progressivamente, o seu avesso, o apego dele às convenções:

Fiquei pasma com esses argumentos, que não pareciam consistentes com as ideias da  pessoa que eu tinha amado. Os livros que havíamos lido, os filmes que havíamos visto, as coisas sobre as quais tínhamos conversado—perguntei se nada disso tinha importância para você. Você disse que sim, mas a vida era mesmo dura (…) Senti desprezo. Senti desprezo quando vi você se enfiando por baixo do carro, as abas do casaco adejando em volta do seu traseiro. Você tateava na neve em busca do anel, e ficou muito aliviado quando o encontrou..

A certa altura, ela pergunta: Quem é esse “nós” de que venho falando?

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[5] O primeiro indício  sobre os eventos da ilha é fornecido numa das conversas “fiadas” que a Sra. Gorrie  insiste em manter com sua vizinha mais jovem e indefesa quanto à sua índole invasiva:

“Mesmo quando eu vivi longe da civilização, sempre gostei de…” Minha necessidade de bocejar ou gritar se acalmou por um instante. Onde ela teria morado para dizer que era longe da civilização? E quando?

“Ah, lá para o norte da costa”, ela respondeu. “Também já fui recém-casada faz muito tempo. Vivi lá durante anos. Union Bay. Mas isso nem era tão longe de tudo. Ilha de Cortes”.

    Perguntei onde era essa ilha e ela disse: “Ah, lá onde Judas perdeu as botas”.

  “Deve ter sido interessante”, comentei.

    “Ah, muito interessante… Se você acha ursos interessantes. Se acha pumas interessantes…”

    Como outros contos da autora, aqui há uma jovem escritora. E o alter ego negativo sempre capitula diante da domesticidade, abdicando dessa incursão pelo imaginativo, por falta de talento e absorção pelo casamento (isso a irmana a algumas estratégias da obra de Doris Lessing, que também utiliza esse recurso de um alter ego negativo, é só lembrar—entre outros casos—de Martha Quest, da série Os filhos da violência fugindo de um casamento medíocre, optando pelo ativismo político e depois se tornando para o resto da vida uma espécie de governanta sempre à mão na casa de A cidade de quatro portas, o volume final da série).

Com relação à reverberação de um lugar distante, um ponto geográfico marcado por certo exotismo, dentro dos acontecimentos da narração, esse conto faz par com o anterior, Jacarta, no qual um dos maridos morre (ou na verdade não morreu, apenas deu um jeito de se evadir?) na cidade do título.

[6] E parece que mais do que “entrar na personagem”, como se diz, ela aprecia “sair da sua vida”, tornando-se a observadora de fora, muito presente nos contos de Alice Munro (pelo menos, nos que eu li). Durante os intervalos de ensaio, quando sai para comprar refrigerantes e café para o grupo: Apreciava a curta caminhada pelas ruas vazias, sentia como se tivesse se tornando um ser urbano, alguém apartado e solitário, que vivia no fulgor de um sonho importante.

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11/10/2013

ALICE MUNRO E O UNIDUNITÊ DOS AFETOS: “ÓDIO, AMIZADE, NAMORO, AMOR, CASAMENTO”

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“Eram duas pessoas sem meio-termo, nada situado entre as formalidades educadas e uma intimidade avassaladora. O que houvera entre eles, por todos esses anos, fora mantido em equilíbrio por causa de seus dois casamentos. Seus casamentos eram o verdadeiro conteúdo de suas vidas–o casamento dela com Lewis, o às vezes áspero e desconcertante, indispensável conteúdo de sua vida. Essa outra coisa dependia desses casamentos, por sua afabilidade, sua promessa de consolo. Não era como se fosse algo que pudesse se sustentar sobre si mesmo, ainda que ambos fossem livres.E contudo, não era um nada. O perigo residia em testá-lo, em vê-lo desmoronar e então pensar que não havia sido nada.” (trecho de Comfort-Conforto)

“O trabalho que tinha a fazer, segundo achava, era se lembrar de tudo–e por ´lembrar´queria dizer a experiência em sua mente, mais uma vez–e então guardar aquilo para sempre. Ter a experiência daquele dia ordenada, nenhuma parte dela deixada pendurada ou solta, tudo ajuntado como um tesouro, e encerrada, posta de lado.” (trecho de What is remembered- O que é lembrado)

(o texto abaixo foi escrito especialmente para o blog, em 11 de outubro de 2013, após o anúncio do Nobel para Alice Munro)

O Nobel ignorou a ficção de língua francesa, voltada para os rincões rústicos—eivados de pulsões—,tal como vemos na obra de Anne Hébert (1916-2000), e também a polimorfamente perversa reflexão (em língua inglesa) sobre os vínculos da periferia (a ex-colônia) e o centro (o Reino Unido) com os labirintos da condição feminina, da obra de Margaret Atwood, para distinguir, enfim, uma escritora do Canadá com uma produção calcada na narrativa curta e que, no entanto,  compartilha de certas características comuns (ou incomuns) das duas grandes autoras citadas, mais polivalentes quanto ao exercício de gêneros: Alice Munro.

Sim, é verdade que o nome escolhido como vencedor em 2013 mostra bem a vitalidade da tradição tchekhoviana, dos pequenos conflitos retratados com consumada e compassiva maestria. Nem por isso deixa de haver um toque que lembra outra praticante notável da forma curta, Flannery O´Connor, indicando meandros e contornos mais “pesados”, por assim dizer, na representação de incidentes e situações cotidianas, que são a base para uma arte ficcional marcada pela síntese e pela economia[1].

O leitor brasileiro teve a sorte de conhecer essa inquietante feição dupla (tchekhoviana-flanneryana) de Alice Munro já no primeiro livro dela  traduzido em nosso país (por Cássio de Arantes Leite para a editora Globo, e lançado em 2004): Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento [Hateship,  Friendship, Courtship, Loveship, Marriage], título que causa estranheza por sua rebarbativa sequência de substantivos que, separada ou combinadamente, amiúde aparecem em títulos de auto-ajuda e congêneres, mas que, aqui, tem a ver com uma ladainha tipo unidunitê, executada por duas adolescentes no texto-título (o primeiro dos nove contos longos que compõem essa coletânea de 2001): “A única boa ideia que Sabitha teve era escrever num papel o nome de um garoto e o seu próprio, descartar as letras que se repetiam e somar então as restantes. Depois elas contavam o número na ponta dos dedos, dizendo, Ódio, amizade, namoro, amor, casamento, até recebe o veredicto sobre o que poderia acontecer entre elas e o garoto”.

Esse unidunitê do aleatório da vida (disfarçado no ritmo da ladainha)  e das escolhas que supostamente fazemos, é muito presente nas histórias contadas por Munro, e equacionado com o peso emocional das pessoas na vida dos seus personagens.

Dessa maneira, ainda no conto-título, um dos jogos das duas garotas, Sabitha e Edith, em sua efêmera condição de “melhores amigas” (até que as diferenças de condição social se evidenciem, afastando-as[2]) leva ao núcleo anedótico do relato, que é a decisão da empregada do avô de Sabitha de pedir demissão, para ir ao encontro do pai da neta de seu patrão: no caso, um viúvo que tem tanto de aventureiro e sedutor quanto de fracassado, e que sequer tomara conhecimento da existência dela;  porém, as meninas inventaram toda uma correspondência que aos poucos foi convertendo a austera e parcimoniosa Johanna Parry (uma das maiores personagens da ficção mais recente) em candidata a noiva.

Vamos conhecendo as etapas da evasão de Johanna (junto com uma mobília a qual, guardada por anos, é um ponto-chave na trama), aos poucos, e de uma forma admirável, pois antes de sabermos a causa de todo o imbróglio e conhecermos os demais personagens, travamos contato primeiro com a sua peculiar personalidade (quando vai comprar a sua passagem de trem e combinar os detalhes do transporte da referida mobília), numa impactante cena inicial.

Nos últimos parágrafos dessa pequena obra-prima, temos uma frase genial, que indica o espírito travesso de Munro, a sua gota de veneno nos licores de laranjeira (tal como sua colega dos EUA, Anne Tyler, mais afeita ao romance). É relacionada a Edith, uma das parceiras no unidunitê que envolve os destinos da até então solteirona  Johanna e do pai de Sabitha: “Pois onde, dentre a lista de coisas que planejava conseguir em sua vida,  havia qualquer menção ao fato de que seria a responsável pela existência no mundo de uma pessoa chamada Omar?” . Desde a Emma de Jane Austen, não víamos consequências tão divertidas (em porções de deleite e de ridículo) a partir da interferência na vida alheia.

Cada um dos nove textos tem seu próprio unidunitê. Em  Urtigas [Nettles], a narradora abandona o primeiro marido e reencontra aquele que foi a paixão da sua infância (também casado), durante visita a uma amiga, e eles estacam no limiar de um relacionamento, afinal interdito devido a todas as decisões anteriores, e sobretudo pelo medo de “estragar” a magia dos jogos da infância (embora seja uma memória muito diferente para cada um deles).

Quando um empregado da pequena fazenda onde ela e a família viviam (e ele estava de passagem, pois o pai executava um serviço temporário) “malda” a convivência dos dois, e a mãe dela os defende: “Ela estava enganada. O empregado chegara mais perto da verdade do que ela. Não éramos como irmão e irmã, nem como nenhum irmão e irmã que eu já houvesse visto (…) E não éramos como as esposas e maridos que eu conhecia, que para começo de conversa eram velhos, e viviam em mundos tão separados que pareciam mal reconhecer um ao outro. Éramos como um casalzinho íntimo e vigoroso, cuja ligação não necessitava de muita expressão exterior. Algo, pelo menos para mim, solene e emocionante”.

Anos depois, quando adultos (numa cena que justificará o título):

“Tão perto um do outro que éramos incapazes de nos olhar (…) Mike liberou meus pulsos e pousou as mãos sobre os meus ombros. Seu toque ainda era para restringir, mais do que confortar.

    (…) A chuva continuava a cair, mas já se tornara uma chuva pesada qualquer. Ele tirou suas mãos, e ficamos de pé, tremendo. Nossas calças e camisas estavam grudados no corpo (…) Tentamos sorrir, mas mal tínhamos força para isso. Então nos beijamos e nos apertamos brevemente. Isso foi antes um ritual, um reconhecimento de sobrevivência, mais do que a inclinação de nossos corpos.”[3]

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A condição de observadora de relações cristalizadas também é um componente da narradora de Queenie. Ela, que, mais tarde, será uma professora com carreira, marido e filhos, conta um episódio formativo, quando, ainda jovem, visita a “irmã” (a Queenie do título, que agora quer ser chamada de Lena, para não irritar o tirânico marido, com o qual vive numa espécie de cortiço)— na verdade, a filha da mulher que casou com o seu pai—, a qual fugira de casa para se casar com o antigo patrão (o sr. Vorguilla, metamorfoseado em Stan]. O objetivo é conseguir um emprego de verão, mas ela principalmente se dedica a observar o relacionamento de Queenie (que se diz uma “criatura do amor”, reproduzindo—pensa a narradora—clichês assistido nos filmes comerciais no cinema onde trabalha) não apenas com o marido, mas também com os amigos dele:

“Meu pai e Bet. Sr e Sra. Vorguilla. Queenie e o Sr.  Vorguilla. Até mesmo Queenie e Andrew. Esses eram casais, e cada um deles, por mais desunido que fosse, tinha agora ou na lembrança um refúgio particular com seu calor e tumulto, do qual eu ficava de fora. E eu tinha de ficar, eu queria ficar de fora, pois era incapaz de ver qualquer coisa em suas vidas que pudesse me instruir ou encorajar.”

  Então, nessa altura da vida, há a disponibilidade., o unidunitê de um caminho indeterminado, um futuro cheio de possibilidades. O que lhe permite pensar: “Se ao menos tivesse um quarto, pensei, Queenie teria um lugar para onde fugir caso o Sr. Vorguilla ficasse fulo da vida com ela outra vez. E se Queenie um dia decidisse deixar o Sr. Vorguilla (eu seguia pensando nisso como uma possibilidade…), então com o salário de nossos dois empregos quem sabe conseguíssemos um pequeno apartamento”.

Queenie, de fato, inesperadamente “some”, largando o Sr. Vorguilla. E nunca mais é vista. E então se torna uma peça irônica na engrenagem da vida futura da narradora: ela, que era a que tinha dado o mau passo e “fechado” o seu destino, ganha a aura de figura mítica, que pode estar em qualquer lugar e ter qualquer vida: “nesses anos em que meus filhos cresceram  e meu marido se aposentou, e ele e eu viajamos um bocado, tenho a impressão de que às vezes vejo Queenie (…)Certa vez, foi num aeroporto lotado, e ela usava um sarongue e um chapéu de palha com adornos floridos. Bronzeada e animada, parecendo rica, cercada de amigos. E certa vez ela se achava entre mulheres na porta de uma igreja à espera dos noivos e sua comitiva. Vestia uma jaqueta de camurça manchada e não parecia próspera ou bem de vida…” No unidunitê da desaparição de Queenie, as possibilidades multiplicam-se e contradizem-se, e ela adquire uma condição nostálgica e poética.

Haveria muito o que explorar em Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento no caminho dessas linhas de força em que o aleatório (unidunitê) e a presença irrevogável de alguém formam uma espécie de dialética da construção da memória do cotidiano e da trajetória de uma vida.

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Para atender a um propósito de brevidade, me restringirei aos dois contos que considero mais bonitos do livro (uma façanha e tanto, diga-se de passagem), mesmo enfatizando que o conto-título é uma obra-prima à parte: Ponte Flutuante e The bear came over the mountain.

Ponte Flutuante [ Floating Bridge] se inicia significativamente com o relato de uma ocasião em que a protagonista, Jinny, quase largou o marido, Neal (um ativista sempre lutando por boas causas, entre elas a reeducação de delinquentes juvenis). Ela não leva seu intento adiante, mas o leitor já fica de orelha em pé para as fissuras entre um casal cujo engajamento tem muito a ver com uma obrigatória cumplicidade (e olhe que ele é bem mais velho que ela):

“Alugaram uma cama de hospital—na verdade, ainda não tinham necessidade dela, mas fora melhor pegar uma assim que possível, porque em geral a oferta não era grande. Neal pensou em tudo. Pendurou algumas cortinas pesadas que haviam sido descartadas do salão de jogos de um amigo. Tinham uma coleção de canecas de cerveja com tampa e objetos equestres de bronze que Jinny achava muito feios. Porém ela sabia agora que havia épocas em que o feio e o bonito serviam exatamente para o mesmo propósito, quando qualquer coisa para a qual se olha é apenas um pino onde pendurar as sensações descontroladas de seu corpo e os bocados e pedaços de sua mente.”

Quando Jinny é submetida à quimioterapia (com os estragos concomitantes), Neal arranja uma moça desajustada para cuidar da casa. É no dia em que ela  começará a trabalhar e viver com eles que o relato se concentra. Tudo é difícil e pesado para Jinny: o calor do dia, as decisões de Neal, que fazem com que eles tenham de ir à dilapidada propriedade da família que cuidava de Helen, a desajustada empregada, e com que ela tenha contatos com pessoas desconhecidas, hospitaleiras até em demasia, enquanto sente náuseas e uma terrível necessidade de solidão. Parece que o destino de Jinny é ficar atada a esses “compromissos morais” (o marido, quando ela recusa entrar na casa, lhe diz: “você não quer que eles pensem que se julga acima deles, não?”), enquanto a morte vai se aproximando.

Mas eis que a progressão do relato nos mostra que ainda há o unidunitê na vida de Jinny, que ela ainda não acabou (aliás, uma informação sobre o estágio da doença dela vai modificar um pouco o panorama do futuro), e ela tem uma experiência estranha, até assustadora (pode ter ficado à mercê de um desses psicopatas tão contumazes nesse hemisfério), com direito à noite estrelada e beijo (o que rende um trecho lindo: “Beijou-a na boca. Pareceu a ela que pela primeira vez na vida compartilhava um beijo que era em si mesmo um evento. A história completa, encerrada no beijo”). A arte de Alice Munro aí nos envolve totalmente, parece que vemos o mundo com o olhar da sua personagem, e ao mesmo tempo também podemos acompanhar claramente a maneira como os outros a percebem e tiram conclusões a seu respeito.

Encerrando a coletânea, o extraordinário The bear came over the mountain[4] se destaca por um motivo extemporâneo:  foi adaptado para o cinema, mantendo todas as suas qualidades, por Sarah Polley, em Longe Dela. Mesmo após aparecer a visão cirúrgica e ainda mais impiedosa do  tema em Amor (2012), de Michael Haneke, penso que a variação Munro-Polley mantém seu impacto e frescor por levantar questões inteiramente diferentes.

Na juventude, a decisão de Fiona casar-se com Grant obedece ao espírito “unidunitê”: “Acha que seria divertido se nos casássemos”. Entretanto, já na época, para Grant, o assunto se apresentava com mais gravidade: “Jamais queria ficar longe dela. Ela possuía a centelha de vida”. Isso não o impediu de, ao longo de um casamento de décadas, ter casos, alguns sérios, alguns até ameaçando sua carreira (como professor universitário), seguindo  modismos de comportamento sexual,  ainda  que de forma moderada. Enquanto ela, até por um certo esnobismo (ou autenticidade, ou profunda absorção em si mesma) se mantinha à parte.

Com o Alzheimer (não-nomeado, mas supõe-se que seja) evoluindo, ela mesma pondera que o melhor é internar-se numa instituição, na qual uma das regras é: nos primeiros 30 dias, nada de contato com familiares.Então ao revê-la, Grant percebe que ela passou para o outro lado da montanha. Está longe dele. E vemos o reverso doloroso do unidunitê: como conciliar que aquela pessoa-centelha na sua vida o oblitere quase que inteiramente,que lhe seja alheia quase que por vontade própria?

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O que torna o texto sensacional é o fato de que Munro mostra que, mesmo com as deteriorações psíquicas, que esgarçam os laços afetivos de toda uma existência, A VIDA NÃO PARA. Fiona, apesar de se manter renitentemente  opaca—e isso até o final maravilhoso do relato—para  o leitor (no filme, um efeito também da admirável interpretação de Julie Christie), constrói novos afetos e relações ali no Meadowlake. Se a vida (nesse sentido, de afetos e desejos) não para lá fora,  dentro da instituição também não. E Grant se obriga, por ciúme, por desespero, por inaptidão existencial, a acompanhar essa metamorfose dos sentimentos da  esposa. E se acompanhamos Shakespeare, Machado de Assis, Proust e Graham Greene nas suas travessias infernais do ciúme, The bear came over the mountain nos descortina novas veredas nesse território:

“Meadowlake tinha poucos espelhos, de modo que ele não era obrigado a ver a si mesmo espreitando e rondando. Mas de vez em quando lhe ocorria o quão patético, idiota e talvez fora dos eixos devia parecer, perseguindo Fiona e Aubrey por toda parte. E sem sorte alguma em confrontá-la, ou a ele. Cada vez menos seguro sobre que direito tinha de estar na cena, mas incapaz de se retirar. Mesmo em casa, enquanto trabalhava em sua escrivaninha, fazia limpeza ou removia neve com a pá, caso necessário, o tique-taque de um metrônomo dentro de sua mente fixava-se em Meadowlake, em sua próxima visita. Às vezes ele parecia a si mesmo um garoto obstinado fazendo uma corte impossível, outras, um desses malucos que seguem mulheres famosas pelas ruas, convencidos que um dia essas mulheres irão se virar e reconhecer seu amor.”

Conforme a narrativa se complica e se aprofunda, como acontece sempre nesses casos, vai agregando reflexões perspicazes, muito calcadas na concretude da vida (mesmo que tudo o que é sólido nas relações se desmanche no ar). Quando Marian, a esposa de Aubrey, explica a Grant sua relutância em interná-lo de vez no Meadowlake (e a ausência de Aubrey ali acelera a deterioração física e mental de Fiona)—ela teria de vender a casa para mantê-lo ali, e conservar a propriedade da casa é um ponto de honra para ela, a quem a vida tirou tanto–, lemos:

“Ele falhara com a esposa de Aubrey, Marian. Já previra que poderia falhar mas de maneira alguma previra o porquê. Pensara que tudo com que teria de se haver seria o ciúme sexual ou seu ressentimento (…) Não fazia a menor ideia da maneira como ela podia encarar as coisas. E mesmo assim, de algum modo deprimente, a conversa não lhe soara pouco familiar. Isso porque o lembrou de conversas que tivera com gente de sua família. Seus tios, seus parentes, provavelmente até sua mãe teriam pensado da forma como Marian pensava. Teriam acreditado que quando outras pessoas não pensam dessa forma era porque estavam se tapeando—tinham ficado muito intelectuais ou estúpidas, por conta de suas vidas confortáveis e protegidas ou de sua educação. Haviam perdido o contato com a realidade. Gente educada, gente instruída, gente rica como o sogro socialista de Grant havia perdido o contato com a realidade. Devido a uma boa sorte imerecida ou a uma estupidez nata. No caso de Grant, suspeitava, eles achavam  sinceramente que era os dois.

    Era assim que Marian o veria, certamente. Uma pessoa tola, cheia de conhecimento enfadonho e por um acaso protegido da verdade da vida. Uma pessoa que não tinha de se preocupar em manter sua casa e podia sair por aí ruminando seus pensamentos complicados.”

Como se vê, pelo escopo das reflexões e da estrutura narrativa, Munro poderia ser uma escritora que naturalmente passaria para o romance. Que ela tenha conseguido encontrar essa forma intermediária, ao mesmo tempo tão  contida e ampla-flexível, é a sua marca, e uma marca e tanto. Assim como o fato de ela não deixar nunca que a balança penda apenas para um lado, nem para o jogo aleatório nem para os “laços de ternura”. Tal como Anne Tyler, ela tem perfeita noção da tênue fronteira entre eles. Mas sabe que, de fato, Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento, em suas formas mais diversas, são realidades substantivas em nossas existências.

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VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/10/15/no-mundo-de-alice-o-amor-de-uma-boa-mulher-e-um-nobel-indiscutivel/

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TRECHOS SELECIONADOS

Tinha seu orgulho, ela pensou. Isso era algo a ser considerado. Talvez fosse melhor jamais mencionar as cartas nas quais se abrira tanto. Antes de partir, ela as destruíra. Na verdade, destruíra uma por uma mal as acabara de ler bem o bastante para sabê-las de cor, e isso não demorava muito. Uma coisa que certamente não queria era que as cartas caíssem nas mãos da pequena Sabitha e de sua amiga insidiosa. Especialmente aquela parte da última carta sobre a camisola e estar na cama. Não que esse tipo de coisa não existisse, mas podiam ser consideradas vulgares, piegas ou um convite ao ridículo quando postas no papel (…) Mas ela jamais o frustraria, se era isso que ele esperava.

    Isso não era uma experiência inteiramente nova, este sentimento revigorante de expansão e responsabilidade. Ela sentira alguma coisa parecida pela Sra. Willets—outra pessoa negligente e de aparência distinta necessitada de cuidados e atenção. Ken Boudreau revelou-se um pouco mais desse jeito do que se preparara para ver,  e existiam as diferenças que seriam de se esperar num homem, mas certamente não havia nada em relação a ele de não pudesse dar conta.

    Após a Sra. Willets, seu coração secara, e costumava considerar que poderia ser assim para sempre. E agora esta comoção acalorada, este amor atarefado. (de Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento)

Novamente dentro da van, Helen falou para Neal.

__ Só está desperdiçando gasolina.

__ Norte da cidade?, disse Neal. Sul? Norte sul leste oeste, que região?, Helen diz a melhor direção.

__ Eu já disse. Fez tudo que vai fazer por mim hoje.

__ E eu disse: Vamos buscar aqueles sapatos pra você antes de voltar para casa.

   Independentemente de quanto estivesse inflexível, Neal sorria. Seu rosto exibia uma expressão de tolice consciente, mas involuntária. Sinais de uma invasão de felicidade. Todo o ser de Neal era invadido, trasbordava de felicidade tola.

__ Como você é teimoso, disse Helen.

__ Cai ver como sou teimoso.

__ Também sou. Sou tão teimosa quanto você.

    Pareceu a Jinny que podia sentir o ardor da bochecha de Helen, que estava tão perto deles. E certamente conseguia ouvir a respiração da garota, rouca e carregada de agitação, exibindo algum indício de asma. A presença de Helen era como a de um gato doméstico que jamais deveria ser levado em veículo algum, sendo irritável demais para ter juízo, disposto demais a projetar-se entre os bancos.

   O sol queimava através das nuvens outra vez. Um disco de latão alto no céu (…)

 __ Talvez a gente devesse simplesmente ir embora, disse Jinny. Talvez apenas ir para casa.

    Helen interrompeu, quase gritando:

__ Não quero atrapalhar ninguém a ir pra casa.

__ Então basta me explicar o caminho, disse Neal (trecho de Ponte  Flutuante)

Assim, se Alfrida ia falar sobre isso, pensei, era uma boa coisa que meu noivo não estivesse junto. Uma boa coisa que não tivesse de ouvir falar sobre a mãe  de Alfrida e por tabela descobrir alguma coisa sobre minha mãe e a relativa, ou quem sabe substancial, pobreza de minha família. Ele era um admirador de ópera e do Hamlet de Laurence Olivier, mas não tinha tempo para a tragédia—para a sordidez da tragédia—na vida comum. Seus pais eram saudáveis, bem-apessoados, prósperos (embora ele dissesse, é claro, que eram estúpidos), e parecia que não tivera de conhecer ninguém que não vivesse em circunstâncias igualmente felizes. Admirava-se dos fracassos da vida—fracassos na sorte, na saúde, nas finanças—, que lhe soavam como lapsos, e sua aprovação sem ressalvas de minha pessoa não se estendia às minhas dilapidadas origens. (trecho de  Mobília de Familia[Family Furnishings], que—entre outras coisas, em especial a caracterização de Alfrida, outra grande personagem como a Johanna do conto-título —é muito interessante e divertida enquanto retrato de escritora quando jovem: “ A história que escrevi, com isso incluso, não seria escrita senão anos mais tarde, apenas quando se tornou insignificante o suficiente para que eu pensasse em quem enfiara a ideia em minha cabeça, para começo de conversa”).

“Desistiram após algum tempo de ter um filho. E ela suspeitava que ambos eram um pouco egocêntricos demais—não gostavam do pensamento de se verem enredados nas ligeiramente cômicas e aviltantes identidades de papai e mamãe. Os dois—mais Lewis, em particular—eram admirados pelos estudantes por serem diferentes dos outros adultos da escola (…)

    Ela ingressou num grupo coral. Muitos dos recitais eram executados em igrejas, e foi então que aprendeu quanto Lewis detestava lugares como esses. Ela argumentava que dificilmente havia outros espaços adequados e disponíveis (…). Dizia-lhe que estava sendo antiquado e que nenhuma religião poderia fazer muito mal, nos dias atuais. Isso suscitou uma enorme discussão. Tiveram de correr pela casa batendo janelas, para que suas vozes elevadas não fossem escutadas pelos que passassem na calçada na quente noite de verão.

    Uma briga como aquela era de assustar, revelando não só quanto ele era propenso a fazer inimigos, mas como ela era incapaz de abandonar uma discussão que beirava as raias da violência. (trecho de Conforto)

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As garotas, a exemplo dos garotos, estavam divididas em dois lados, mas uma vez que não havia tantas meninas quanto meninos, não podíamos servir de fabricantes de munição e enfermeira para apenas um soldado. Havia alianças, ainda. Cada garota tinha sua própria pilha de bolas e trabalhava para alguns soldados em particular, e quando um soldado tombava ferido, gritava o nome de uma garota, de modo que pudesse arrastá-lo e cuidar de seus ferimentos o quanto antes. Fiz armas para Mike, e quando ele gritava por socorro, era meu nome que chamava. Havia tanto barulho acontecendo—gritos constantes de Você morreu, triunfantes ou ofendidos (…) tanto barulho, que tínhamos de permanecer o tempo todo alertas para a voz do garoto que iria chamar nosso nome. Havia um sentimento penetrante de alarme quando o grito vinha, uma eletricidade zunindo por todo o corpo uma sensação de fanática devoção (pelo menos para mim era assim, que, ao contrário das demais garotas, prestava meus serviços a único guerreiro) (…) Que alegria imensa foi participar de uma aventura tão arrebatadora e abrangente e ser escolhida, dentro dela, para empenhar-se essencialmente aos serviços de um combatente. Quando Mike se feria ele nunca abria os olhos, ficava lânguido e imóvel enquanto eu pressionava as folhas enlameadas em sua testa, sua garganta e—tirando sua camisa—seu abdômen pálido e macio, com seu doce e vulnerável umbigo. (trecho de Urtigas, que evoca uma brincadeira entre crianças, vejam só!)

Contou-lhe a única lembrança que tinha da mãe. Estava no centro, com ela, num dia de inverno. Havia neve entre a calçada e a rua. Acabara de aprender a ler as horas, ergueu os olhos para o relógio da agência dos Correios e viu que era hora do programa que ela e sua mãe ouviam todos os dias no rádio. Sentiu uma forte preocupação, não de perdê-lo, mas porque ficou imaginando o que aconteceria com as pessoas na história se o rádio não fosse ligado e ela e sua mãe não estivessem ouvindo. Foi mais do que preocupação que sentiu, foi pavor, pensar na forma como as coisas poderiam se perder, poderiam não acontecer, devido ao acaso ou a uma ausência ocasional.

    E mesmo nessa lembrança, sua mãe era apenas um par de ancas e ombros, dentro de um pesado casaco. (trecho de Coluna e Viga [Post and Beam], outro belo momento da coletânea, em que uma esposa muito mais jovem que o marido, um professor, se sente atraída por um ex-aluno—um sujeito de personalidade à Wittgenstein—do marido; há também a visita de uma prima provinciana e ressentida na casa deles, construída da forma arquitetônica que dá sentido ao título do relato; um dos momentos mais bonitos é quando Lorna, a protagonista, visita clandestinamente o quarto de Lionel, o ex-aluno—que se encontra ausente: “A nudez, o anonimato do quarto era seriamente desafiador. Cama, cômoda, mesa, cadeira. Apenas a mobília que tinha de ser providenciada para que o quarto pudesse ser anunciado como mobiliado. Até mesmo a colcha marrom de chenile devia já estar ali antes de ele ter se mudado. Nada de quadros—nem mesmo um calendário—e, o mais surpreendente, nada de livros. As coisas deviam estar escondidas em algum lugar. Nas gavetas da cômoda? Ela era incapaz de olhar. Não apenas porque não havia tempo—podia ouvir Elizabeth chamando lá do jardim–, mas a própria ausência de qualquer coisa que pudesse ser considerada pessoal tornava a sensação de Lionel mais forte”; outro detalhe fascinante, para mim: a intrusão de Polly, a prima, na casa de Lorna, me lembrou—com o momento fantástico em que ela volta com a família para casa, após um fim-de-semana, crente de que encontrará sua hóspede morta por suicídio, num espetáculo destinado a assombrar seus dias, por ter desertado da família—a dinâmica entre as duas personagens principais de Homens e Anjos, a obra-prima de Mary Gordon).

Imaginava que se não tivesse sido capaz de fazer aquilo, sua vida talvez tivesse sido completamente diferente.

    Como?

    Talvez não houvesse permanecido com Pierre. Talvez não tivesse conseguido manter seu equilíbrio. Tentar equiparar o que fora dito antes da balsa com o que fora dito  e feito mais cedo naquele mesmo dia a teria tornado mais alerta e mais curiosa. Orgulho e contrariedade talvez tenham desempenhado um papel—a necessidade de fazer algum homem engolir aquelas palavras, uma recusa em aprender sua lição—mas isso não teria sido tudo. Havia um outro tipo de vida que ela poderia ter tido—o que não era o mesmo que dizer que teria preferido assim. Provavelmente por causa de sua idade (algo que estava sempre se esquecendo de levar em conta) e por causa do ar frio e rarefeito que respirava desde a morte de Pierre é que podia pensar naquele outro tipo de vida simplesmente como uma espécie de pesquisa, compreendendo suas armadilhas e realizações.

     Talvez a pessoa não descobrisse tanta coisa, afinal. Talvez a mesma coisa vez após outra—que poderia ser um fato óbvio, porém perturbador, acerca de si mesma. No caso dela, o fato de que a prudência—ou pelo menos algum tipo econômico de gerenciamento emocional—fora sua luz guia em todo o percurso. (trecho de O que é lembrado)

Levantei-me e caminhei pelo apartamento. A gente nunca pode dar uma boa olhada nos lugares onde as pessoas moram enquanto elas estão lá.

    A cozinha era o espaço mais agradável, embora escuro demais. Queenie tinha hera crescendo em torno da janela sobre a pia e colheres de pau enfiadas numa linda caneca sem alça, exatamente do jeito que a Sra. Vorguilla costumava ter. Na sala de estar, havia um piano, o mesmo piano que estivera na outra sala de estar. Havia uma poltrona, uma estante de livros feita com tijolos e tábuas, um aparelho de som, uma porção de discos esparramados pelo chão. Nada de tevê. Nada de cadeiras de balanço em nogueira ou de cortinas bordadas. Nem mesmo o abajur de papel-arroz com cenas japonesas. Ainda que todas essas coisas houvessem feito parte da mudança para Toronto, num dia de neve. Eu estivera em casa na hora do almoço e vira o caminhão de mudança. Bet não conseguia sair de perto da vidraça na porta da frente. Finalmente esqueceu toda a dignidade que normalmente gostava de aparentar para estranhos, abriu a porta e gritou para os homens da mudança: Voltem para Toronto e digam a ele que se algum dia der as caras por aqui outra vez vai se arrepender pelo resto da vida.

   Os homens acenaram alegremente, como se estivessem acostumados com cenas como essa, e talvez estivessem. Mudança de mobília deve expor a pessoa a muito xingamento e rancor.

   Mas para onde fora tudo? (trecho de Queenie)

Inúmeras vezes ele alimentara o orgulho, a fragilidade de alguma mulher, oferecendo-lhe mais afeição—ou uma paixão mais selvagem—do que qualquer coisa que realmente sentisse. Tudo isso para que se visse agora sendo acusado de ferir, explorar, destruir a autoestima. E de enganar Fiona—como é claro de fato enganara; mas teria sido preferível fazer com os outros fizeram com suas esposas e deixá-la?

    Jamais considerara tal coisa. Em nenhum momento parara de fazer amor com Fiona, a despeito das exigências complicadoras em alguma outra parte. Jamais ficara longe dela nem por uma única noite. Nada de inventar histórias intricadas a fim de passar um fim de semana em San Francisco ou acampar na Ilha de Manitoulin. Pegara leve com o baseado e a bebida e continuara a publicar artigos acadêmicos, participar de comitês, progredir em sua carreira. Jamais tivera qualquer intenção de jogar pela janela seu trabalho e seu casamento e ir embora para o campo a fim de praticar marcenaria e cuidar de abelhas. (trecho de The bear came over the mountain)

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[1]  A obra de Alice Munro apresenta um “parentesco”, também, com a de uma escritora injustamente esquecida, que nos deixou vários livros excelentes de narrativas mais curtas, Katharine Anne Porter, e com a parte contística da produção de Doris Lessing.

[2] “Sabitha era agora uma pessoa reservada, bonita e, notável, incrivelmente magra. Usou um chapéu preto sofisticado e não falou com ninguém, a não ser que lhe dirigissem a palavra antes (…) Na igreja Edith tomara a precaução de não falar com Sabitha primeiro; logo, Sabitha não poderia falar com ela.”

[3] Urtigas é outra prova cabal do modo magistral com que Munro constrói seus textos, sempre partindo de informações fragmentárias, “soltas”, e de tempos alternados, para depois chegar ao âmago da anedota. Por essa razão, um dos aspectos mais interessantes desse conto é a parte da infância, em que a narradora seleciona elementos nostálgicos bem flanneryanos, como uma brincadeira de crianças que se revela um jogo de guerra bastante sexualizado, e muito ligado à morte, a baixas humanas, além da descrição da atividade econômica familiar, com seu elemento de brutalidade pragmática:

“Eu tinha mais familiaridade com sangue e matança de animais do que Mike. Levei-o para ver a mancha num canto do pasto, próximo ao portão do curral anexo ao celeiro, onde meu pai sacrificava e cortava os cavalos com os quais alimentava as raposas e martas. O chão era liso de tão pisoteado e parecia tingido de cor de sangue, um vermelho-ferrugem escuro. Então eu o levei para o açougue no celeiro, onde as carcaças dos cavalos ficavam dependuradas antes de serem moídas para virar ração. O açougue era apenas um barracão com paredes de tela, que ficavam cobertas de moscas, enlouquecidas com o cheiro de carne apodrecendo. A gente pegava as leves telhas de madeira e esmagava um monte delas.” O Canadá apresentado por Munro é um palimpsesto de tempos, onde o rústico, o rural, o ermo convive com o urbano, o s choques contraculturais, os modismos. Veja-se o seguinte exemplo (um, entre muitos), tirado de Mobília de Família:

“Os dentes das pessoas nessa época dificilmente apresentavam um aspecto maciço e bonito como os das pessoas de hoje, a menos que fossem falsos. Mas esses dentes de Alfrida eram invulgares em sua individualidade, seu espaçamento linear e seus tamanhos avantajados…”

[4] Que o tradutor preferiu deixar no original, já que é a alusão à canção folclórica em que o urso vai para atrás da montanha para saber o que havia lá…e lá havia o outro lado da montanha.

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