MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

07/02/2014

Entrevistado por Herasmo Braga

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alfredo monte

Abaixo reproduzo a entrevista que HERASMO BRAGA fez comigo, publicada originalmente em duas partes no Diário do Povo de  Teresina, em 29 de outubro e 19 de novembro de 2013:

http://www.diariodopovo-pi.com.br/jornal/Default.aspx?d=2013-10-29&c=3

http://www.diariodopovo-pi.com.br/jornal/Default.aspx?d=2013-11-19&c=3

e que aparece unificada no número 19 da revista «dEsEnrEdos»(http://desenredos.dominiotemporario.com/doc/19-Entrevista-AlfredoMonte.pdf)

HB- Comente um pouco sobre a sua formação.

AM-  Apesar de ser da Baixada Santista, fiz meus estudos em Minas Gerais. Mais porque gosto de ser professor do que pela área específica (pois amor pela literatura e o curso muitas vezes são inconciliáveis, como se pode constatar cada vez mais) me formei em Letras. Na USP me doutorei em Teoria Literária. Mas descobri que tinha uma incompatibilidade total com o mundo acadêmico, e por isso nunca me arrependi de não ter seguido uma carreira dentro da universidade. Assim, dou aulas para leitores em formação, o que é muito mais estimulante, e mantenho minha independência de leitor. O que não significa que os grandes nomes da teoria literária não sejam essenciais na minha formação. Continua a admirar (e me valer de suas concepções) Auerbach, Lukács, Frye, Bakhtín. Dos mais recentes (nem tanto assim, rsrs), gosto muito de Fredric Jameson e dos ensaístas italianos (Citati, Calasso, Eco, Magris, o Carlos Ginzburg, cujos trabalhos são valiosos também para a literatura). E, no Brasil, sigo a linha de Antônio Candido e Alfredo Bosi, preocupados com a maneira como o processo social se mimetiza na forma literária.

HB-  Como se deu o inicio da sua jornada enquanto leitor?

AM- Como todo mundo, creio eu. Li muito gibi quando garoto. Tive sorte porque naquele tempo apareceu o Almanaque do Gibi Nostalgia, que republicou vários clássicos como o Tarzan original, Flash Gordon, Jim das Selvas, Fantasma, Mandrake. Já começou aí um gosto por clássicos (rsrsrsr). Até hoje coloco muito alto o Alex Raymond, criador do Flash Gordon. Depois do gibi, foi a vez dos livros policiais e de espionagem. Até hoje são gêneros que têm forte atração para mim. Mas lia tudo que caía na mão, muita série Vaga-Lume, enfim, o que desse… inclusive algumas paixões duradouras, o mundo de Tom Sawyer, o de Kim (personagem de Kipling) e, mais que todos, Júlio Verne. Meu avô tinha muitos livros, a coleção Imortais da Literatura Universal, então eu lia ao mesmo tempo uma obra e o fascículo a ela dedicada. Mesmo não entendendo muita coisa, aos 12 ou 13 anos, isso foi essencial. Li “A Morte em Veneza” esperando encontrar uma trama policial, pouco entendi, mas a atmosfera do livro de Thomas Mann “ficou”. Na adolescência, apesar da caoticidade das leituras, como deve ser, fui dominado pelo trio Camus-Sartre-Simone de Beauvoir, especialmente o primeiro, que deixou marcas profundas. Em termos de leitura que forjam caráter, decisões éticas e existenciais, enfim que até ultrapassam a literatura, a minha última grande influência, que sinto até hoje, foi a obra de Doris Lessing. Então, posso considerar que ela e Camus estão na base de quem sou hoje, para o bem ou para o mal.

HB. Como você avalia o trabalho da crítica literária hoje de maneira geral?

AM- Ora na defensiva, petrificada nos muros da academia, ora exercitada agressivamente por despreparados que compram barato qualquer modismo, acho que a crítica literária hoje definha e é quase sempre irrelevante. Os ditos críticos se preocupam com lançamentos, não há mais aquele circuito em que um livro vai criando sua reputação lentamente (depois, consolidando-se), através de discussões, textos mais aprofundados. Mas o pior de tudo é que quase não se encontra mais (com as exceções de praxe, claro) críticos “formativos”, que ajudam o leitor a se orientar, a apurar seu gosto. Quando eu era adolescente, meu pai assinava o “Jornal da Tarde”. E eu nunca esqueço da importância de certos críticos que lá militavam, o Léo Gilson Ribeiro (de literatura), o Edmar Pereira (de cinema), o Telmo Martino (precursor do jornalismo cultural, tão mal praticado hoje). Mesmo que minha formação posterior tenha levado a uma perspectiva ideológica diferente (por exemplo, o furor anticomunista do Léo Gilson, que empanava suas análises), o que importa é que eles tiveram um peso na minha percepção de leitor/espectador/ouvinte. Como eu gostaria de ter um papel desses na vida das pessoas!

HB. E a qualidade dos autores contemporâneos quem você destaca ou mesmo arrepende-se de ter considerado bom ou ruim e hoje ter uma avaliação diferente?

AM- Acho que refletir sobre a cena atual sempre é um caminhar sobre acertos e equívocos, tudo tem a ver com determinado momento. Então, a não ser que se seja um petrificado, sempre estamos revisando nossas opiniões. Há pouco tempo mesmo, rejeitei brutalmente a Andréa del Fuego, numa leitura inicial de “Os Malaquias”, e depois me dei conta das qualidades inegáveis da sua escrita e da sua visão de mundo. Aliás, aproveitando o ensejo, devo dizer que nós estamos vivendo um momento muito bom da literatura brasileira. Eu achava, na década de 1990 (o que talvez tenha de ser revisado, rsrsrsr) que em sua maior parte ela se apresentava desinteressante e anêmica, e nos últimos anos constato uma vitalidade e um vigor que me fizeram ser um leitor voraz do que se faz agora, depois de muitos anos voltado para autores de gerações mais antigas, principalmente estrangeiros.

HB- Em seus textos observamos que você realiza um trabalho interessante ao privilegiar o texto literário como um leitor em formação. Você acredita mais no trabalho crítico como um leitor e não como um teórico da literatura?

AM-Bem, tirando o fato de que não me vejo com muito talento para a teoria (apesar de ter o doutorado em teoria literário, rsrsrsr), e sempre tenha me inclinado mais para o exercício da literatura comparada, penso que a crítica que me interessa fazer é a do percurso-comentário sobre o texto, da maneira como aprendi com José Luis Lafetá e Davi Arrigucci Jr, por exemplo, de uma maneira que o meu leitor acompanhe “uma leitura”, entre muitas que podem ser feitas.

HB Como é o seu método de trabalho ao analisar uma obra literária?

AM- Não tenho método de trabalho. Normalmente, leio, deixo marcadas páginas às quais quero retornar após a leitura, ou para reler, ou para aproveitar como citação, e sempre escrevo em cadernos minhas reações e impressões de leitura, de forma nada ordenada, no calor do momento.

 HB-  Como você analisa esta questão brasileira de que uma obra literária nacional terá maior aceitação por parte da crítica se o autor tiver certo engajamento?

AM- Acho que hoje em dia as obras são mais divulgadas quando o autor vira um pouco personagem de si mesmo e/ou sai como mascate vendendo seu produto em feiras literárias, eventos e quejandos. Não creio que o “engajamento” no sentido político tenha mais a força de antigamente.

HB- Você compartilha da ideia de que as obras literárias hoje dizem muito mais sobre o nosso tempo do que qualquer outro campo de estudo humano? Por quê?

AM-  Seria puxar brasa para a minha sardinha se afirmasse isso. Mas creio que a literatura é uma dos poucos empreendimentos “enciclopédicos” que nos restaram, pois as áreas de conhecimentos estão pulverizadas entre especialistas. De qualquer forma, para mim as grandes narrativas, do tipo Marx ou Freud, ainda têm toda a validade do mundo.

HB-  Em relação aos prêmios literários qual o seu posicionamento em relação a eles? Quais você destacaria e por quê?

AM- Acho o Nobel interessante por chamar atenção para autores que nunca teriam a repercussão mundial merecida, caso da grandíssima poeta Wislawa Szymborska. Quem ouviria falar dela, não fosse o prêmio? Também de 1993 para cá, só dois nomeados para o Nobel me desagradaram, Toni Morrison & Dario Fo.

 HB-  Quais as obras que mais o influenciaram na sua formação e por quê?

AM- Camus e Doris Lessing, sem dúvida, foram os autores mais determinantes na minha visão do mundo, devido à maneira como mostraram o confronto entre nossas construções sociais e um universo basicamente indiferente a elas. Além do mais, especialmente Lessing me mostrou o perigo das “grades de referência” que orientam nossa visão e deturpam os fatos e a compreensão do mundo. Mas, no fundo, sofro de don juanismo intelectual e literário. Não consigo ficar em um único amor ou ser muito fiel. Estou sempre ciscando aqui e ali. Nos últimos anos, após completar 40 anos, no entanto, tenho me dedicado com afinco ao estudo de Freud e Marx, que para mim, são as sínteses mais recentes e convincentes da civilização a que pertenço.

HB-  Quais autores são imprescindíveis para um leitor qualificado em sua opinião?

AM- Como já disse e redisse, Marx e Freud são imprescindíveis, assim como as tragédias gregas, Homero e a Bíblia. Acho Tolstoi uma leitura fundamental, em todos os sentidos. Para os brasileiros e os de língua portuguesa em geral, não dá para prescindir nem do Padre Vieira nem de Machado de Assis e Eça de Queiroz. Mas o que importa mesmo é não ler “de orelha”, nem de “segunda mão”. Mesmo que através de traduções, é necessário conhecer a grande tradição de autores que foram “inventando o humano” além do Shakespeare à Bloom. Outro dia li uma declaração de uma autora, da qual não direi o nome, que admiro. Ela disse que não tinha muito tempo de ler os clássicos porque tinha de ficar atenta à “cena atual”. Acho essa declaração não só uma bobagem imensa como também perigosa: o que é bom na literatura é sempre “cena atual”. Tem coisas de dois anos atrás e que já estão prontas pro disque-entulho. Enquanto Jane Austen é sempre “da hora”.

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