MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

10/09/2013

PSICOSE, de Robert Bloch: O sensacionalismo se foi, ficou o romance sensacional

robert-bloch-237019320

“O mais importante era isso. Tinha de parar de falar sozinho. Tinha de se sentir calmo de novo. Tinha de encarar a realidade.

    E que realidade era essa?

    Uma moça morta. A moça que sua mãe matara. Não era uma bela cena, nem uma ideia alegre, mas lá estava.” (trecho de Psicose)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 10 de setembro de 2013)

Recentemente foram exibidos, quase ao mesmo tempo, Hitchcock e A Garota, que têm em comum o recorte temporal: o início dos anos 1960, momento em que o mais famoso dos diretores radicalizava suas neuroses pessoais (em especial, com relação a suas estrelas) e, mesmo consagrado pelas bilheterias e por realizações anteriores, criava obras como Psicose (cuja produção é focalizada em Hitchcock) e Os Pássaros (que completa meio século em 2013, e que é o pano de fundo de A Garota)[1]. Além de complexas, radicais e inovadoras, incorporaram-se ao imaginário coletivo e se tornaram fonte de referência, citação, pastiche e infinitas releituras[2].

Para os leitores brasileiros, a consequência mais interessante trazida pelas duas produções cinematográficas foi a reedição, após décadas, de Psicose (Psycho, 1959, em tradução de Anabela Paiva[3]), permitindo averiguar se ele foi apenas o material original para uma obra-prima das telas ou se, embora eclipsado pelo filme, o romance de Robert Bloch (1917-1994) pode ser apreciado independentemente dele.

Pode. Mesmo que não existisse o Norman Bates hitchcockiano, encarnado por Anthony Perkins, a história (inspirada num assassino interiorano, preso dois anos antes da publicação, Ed Geins) impressionaria pela força narrativa e pelo desafio à imaginação (àquela altura, esse tipo de crime ainda não havia sido explorado à exaustão, é preciso lembrar): “ele era só um dono de motel, gordo e de meia-idade, que piscava diante do casal que entrara e perguntava: Posso ajudar? Sim, o Norman literário é gorducho, quarentão e gosta demais de álcool, mas talvez a diferença mais evidente com relação a sua avassaladora adaptação seja que, enquanto nesta todo o primeiro terço é muito calcado na personagem de Janet Leigh (no livro, Mary; no filme, Marion), de forma a tornar mais intenso o impacto da sua morte (quem não conhece a cena do chuveiro?[4]), Bloch inicia a história apresentando-nos a peculiar relação de Norman com sua mãe, ainda numa atmosfera de “conflitos humanos entre quatro paredes”, tão comum em certa ficção e dramaturgia dos EUA, quando então aparece no Motel Bates a “intrusa” que fará efervescer aquela situação estagnada.

De resto, em linhas gerais o roteiro segue fielmente o desenrolar da trama, e observa-se a mesma divisão em três atos (não sinalizados, mas nítidos), dos quais o primeiro vai até a morte e desova da hóspede no motel ermo; depois, aparecem três outros personagens: Sam Loomis, Lila, o noivo e a irmã de Mary, e o investigador Arbogast, cujo faro de sabugo o leva fatidicamente ao estabelecimento dos Bates; e, por fim, na última parte, Sam e Lila entrando em ação e levando ao desmascaramento da “psicose” de Norman, sua simbiose psíquica com a mãe.

Salta aos olhos que o primeiro ato é o mais forte. Tanto no livro quanto no filme, o maior desafio foi enfrentar o risco de anticlímax do que virá depois da morte no chuveiro (que acontece no 3º capítulo – ao todo, são 17) e do seu ocultamento no pântano em torno da propriedade Bates—motel, casarão e paisagem formando um cenário sinistro de solidão e recalque que deve ter marcado toda uma geração[5].

O mais interessante da 2ª. parte (pelo menos, no livro) é a caracterização de Sam Loomis, cuja vida é o espelhamento “normal” da de Norman, já que ele também é o indivíduo cheio de imaginação e sensibilidade, atado a uma vida sem horizontes, e sem coragem para abandoná-la. E ele também terá a “intrusa” a espicaçá-lo (Lila)[6]. Embora a cena mais chamativa seja a do assassinato de Arbogast (um ponto alto da narração, e no cinema um marco dos efeitos visuais[7]), seu arremate é a revelação de que a mãe de Bates está morta.

E a 3ª. parte, bem mais do que a do filme, vai se escorar nesse roçar do sobrenatural (não se pode esquecer de que o final era uma surpresa). Felizmente, Bloch não força a mão nesse caminho, sempre é muito inteligente nos seus “truques”[8], e seu livro me parece hoje, com suas situações para lá de conhecidas e manjadas, um legítimo elo perdido na confluência de duas tradições muito distintas e significativas—a da imaginação gótica e horripilante de um Poe e de um Lovecraft e a da caracterização do desespero dos habitantes das “cidades médias” do interior, cujo paradigma é a obra de Sinclair Lewis (Babbitt) ou os conto de O. Henry, e, posteriormente, a exploração realista do lado mais apavorante desses nichos geográficos, como A Sangue Frio, de Truman Capote, ou A Canção do Carrasco, de Norman Mailer.

Confrontado com todos eles, Bloch ainda se sai muito bem. Com o tempo, Psicose perdeu seus atributos sensacionalistas e se revela ao leitor de agora um romance sensacional.

psicose16

TRECHOS SELECIONADOS:

I

“Norman não gostava de se barbear por causa do espelho. Havia linhas curvas nele. Todos os espelhos pareciam ter ondas que ferem sua vista.

  Talvez o problema fossem os seus olhos. Sim, era isso, pois ele lembrava de se olhar no espelho quando menino. Gostava de ficar em frente do espelho, sem roupas. Certa vez a Mãe o surpreendeu e deu-lhe uma pancada na cabeça com a grande escova de cabelo, de cabo de prata. Ela bateu com força, e doeu. A Mãe lhe disse que aquilo era muito feio, olhar-se daquela maneira (…)

    E a Mãe tinha razão. Era indecente ficar se olhando, nu e desprotegido; espiar a banha, os braços curtos e sem pelos, a barriga grande e, logo abaixo…”

II

“Claro, o tempo é relativo. Einstein disse isso, e ele na fora o primeiro a descobrir—os antigos também sabiam, assim como alguns místicos modernos, como Aleister Crowley e Ouspensky. Tinha lido todos, tinha até alguns livros deles. A Mãe não aprovava; dizia que essas coisas eram contrárias à religião. Mas esse não era o verdadeiro motivo. Era porque, quando ele lia esses livros, não era mais o filhinho dela. Era um adulto, um homem que estudava os segredos do tempo e do espaço, e sabia os segredos da dimensão e da existência.

   Era como se fosse duas pessoas, na verdade—a criança e o adulto. Quando pensava na Mãe, ele voltava a ser criança, usava vocabulário de criança, referências e reações infantis. Mas quando estava sozinho, não; em verdade, não sozinho, mas afundado em um livro, era um indivíduo maduro. Maduro o suficiente para compreender que talvez fosse vítima de uma forma leve de esquizofrenia, ou provavelmente uma neurose na fronteira dela.

   Com certeza a situação não era das mais saudáveis. Ser o Filhinho da Mamãe tinha seus inconvenientes. Por outro lado, enquanto percebesse os perigos, ele poderia lidar com eles e com a Mãe. Sorte dela ele saber quando ser homem…”[9]

20130910_090609


[1] Comparando os dois filmes, vemos que mais uma vez, como fez com relação ao Truman Capote de Philip Seymour Hoffman, o grande Toby Jones representou Hitchcock de maneira muito superior à caricatura produzida por Anthony Hopkins.

Um detalhe curioso: Hitchcock se baseia no livro Alfred Hitchcock e os bastidores de Psicose, de Stephen Rebello, que li na edição brasileira da Autêntica (traduzido por Rogério Durst); e há ali também se encontra bastante material para o que é contado em A garota; no entanto, não há quase nenhuma participação de madame Hitchcock, tal como foi realçado na versão cinematográfica (permitindo, aliás, que Helen Mirren até concorresse a prêmios por sua interpretação).

Está longe de ser um grande livro, mas é uma leitura gostosa de se fazer.

[2] Nessa época, na passagem entre décadas, alguns dos maiores diretores resolveram fazer uma espécie de operação “back to basic”, utilizando alguns elementos fundadores da estética cinematográfica (entre eles, o preto e o branco) em obras de grande maturidade e maestria: Orson Welles, com A marca da maldade; John Huston, com Freud; John Ford, com O homem que matou o facínora; e, claro, Hitchcock, com Psicose.

[3] A DarkSide Books oferece duas edições: a que eu li, em capa dura, muito bacana; outra, em brochura.

30743527

[4] Que, literariamente, é narrada da seguinte forma:

     “Não podia ouvir nada além do barulho da água, e o banheiro começou a se encher de vapor.

     Foi por isso que não percebeu a porta abrir, nem o som de passos. Logo as cortinas do chuveiro se abriram, o vapor obscureceu o rosto.

     Então ela viu—um rosto, espiando entre as cortinas, flutuando como uma máscara. Um lenço escondia os cabelos e os olhos vidrados a observavam, inumanos. Mas não era uma máscara, não podia ser. Uma camada de pó dava à pele uma brancura de cadáver; havia duas manchas de ruge nas maçãs do rosto. Não era uma máscara. Era o rosto de uma velha louca.

   Mary começou a gritar. A cortina se abriu mais e uma mão apareceu, empunhando uma faca de açougueiro. E foi a faca que, no momento seguinte, cortou o seu grito.

    E a sua cabeça.”

[5] Já a partir da casa, Bloch parece fazer o leitor penetrar numa espécie de espaço tomado por uma espécie de permanência mórbida. Quando Mary vai à casa dos Bates: “…deu uma espiada pela janela da sala. Quase não acreditou no que viu; não imaginava que lugares assim ainda existissem nos dias de hoje. Geralmente, mesmo uma casa velha exibe alguns indícios de reforma e melhorias. Mas a sala de visitas diante dela jamais fora modernizada. O papel florido das paredes, os pesados ornamentos em mogno, o tapete vermelho, as cadeiras de altos espaldares e exageradamente estofadas, e a lareira encimada por painéis pareciam estar lá desde a virada do século. Não havia sequer uma televisão para inserir uma nota dissonante na cena; em compensação, reparou que em uma das mesinhas havia um velho gramofone…”

[6] Quando eles se conhecem, ele está ouvindo Impressões Brasileiras, de Ottorino Respighi, no fundo de sua loja de ferragens, e ela pensa tratar-se uma composição de Villa-Lobos. Ele sofre um choque com a semelhança dela com Mary, choque que depois será sentido por Norman, quando os dois aparecerem no motel.

Com relação a ter mais imaginação e aspirações (um tanto patéticas) do que o meio permite, veja-se Norman: “O álcool ajudava. Ajudava a ficar pacientemente detrás do balcão, aguardando que entrassem. Podia ver os dois conversando fora do escritório, e aquilo não o incomodava. Podia ver as nuvens escuras chegando do oeste, mas isso também não o aborrecia. Ele via o céu escurecer e o esplendor do sol se render. O esplendor do sol se render… Ora, isso era poesia; ele era um poeta. Norman sorriu. Ele era muitas coisas. Se eles soubessem…”

[7] “…ela não o ouvia, ela estava no banheiro, estava se vestindo, estava se maquiando, estava se aprontando. Estava se aprontando.

E de repente deslizou para fora, usando um vestido bonito de babados. Pó de arroz e ruge no rosto, bonita como um quadro, e sorria ao começar a descer a escada.

    A meio caminho, bateram à porta.

   Estava acontecendo. O senhor Arbogast estava ali; Norman quis gritar e avisá-lo, mas havia qualquer coisa fechando-lhe a garganta. Só pode ouvir a Mãe respondendo, alegremente: Já vou! Já vou! Um momento!

    E foi mesmo um momento.

    A Mãe abriu a porta e o senhor Arbogast entrou. Olhou para ela e abriu a boca para dizer alguma coisa. E, ao fazer isso, ergueu a cabeça, e era só o que a Mãe esperava. Seu braço se esticou, alguma coisa brilhante lampejou para frente e para trás, para a frente e para trás…

    Aquilo doía nos olhos de Norman e ele não queria olhar. Ele não precisava mesmo olhar, porque já sabia.

      A Mãe tinha encontrado a sua navalha…”

Como os dois assassinatos ocorrem num sábado, eu pensei em intitular, a princípio, esse meu texto de “Os animados sábados do Motel Bates”.

[8] Com uma exceção. Acho deplorável, quando Lila bate o pé e resolve ir até o Motel Bates, que ele tenha acrescentado, de forma tão apelativa, o seguinte: “Ergueu o rosto em desafio e a sombra afiada rasgou o seu pescoço. Por um momento, pareceu que alguém tinha decepado a sua cabeça…”

[9][9] Ao ser pressionado por Arbogast, por conta dos 40 mil dólares que Mary roubou: “Seu coração batia como naquela noite, agora era como naquela noite—nada mudara. Não importava o que fizesse, não podia fugir disso. Nem tentando se comportar como bom menino, nem tentando se comportar como adulto. Não adiantava, porque ele era o que era, e isso não bastava.”

Psycho4bates-motelpsycho-arbogast1Psicose-2

18/11/2011

O MARIDO ERA O CULPADO MESMO

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/11/18/um-terrivel-obstaculo-o-centenario-de-sob-os-olhos-do-ocidente-de-joseph-conrad/

https://armonte.wordpress.com/2011/11/18/joseph-conrad-medo-da-anarquia-politica-e-reconhecimento-da-anarquia-interior/

https://armonte.wordpress.com/2010/10/29/o-romance-das-ilusoes-de-joseph-conrad-marlow-mar-e-memoria/

https://armonte.wordpress.com/2010/11/26/digamos-para-comodidade-narrativa/

https://armonte.wordpress.com/2010/10/29/as-margens-derradeiras-aprisionados-pelo-inacreditavel/

https://armonte.wordpress.com/2010/10/31/o-fim-da-linha-para-a-aventura/

I

(resenha publicada em “A Tribuna” de Santos, em 04 de março de 2003)

Nesta minha coluna de “A Tribuna”, um dos livros de Joseph Conrad (1857-1924), Nostromo (1904), foi escolhido como um dez maiores romances do século XX, mas bem poderia ter sido O agente secreto (1907), igualmente extraordinário e igualmente pioneiro quanto à sua temática. Tanto que a editora Revan oportunisticamente procura (em sua edição da tradução de Paulo  Cezar Castanheira) relacioná-lo aos eventos de 11 de setembro de 2001 que culminaram com a destruição do World Trade Center. Eles deram tanta atenção a essa vinculação que esqueceram até de incluir a dedicatória do autor a H.G. Wells.

“Aqui todo mundo fala, imprime, conspira e nada faz”. Nesta fala de um personagem sinistro, artesão de bombas, o Professor, revela-se a classe de gente em que se movimenta o agente secreto Adolf Verloc, o qual mantém uma sórdida loja de artigos pornográficos no Soho, em Londres. Ele trabalha para uma misteriosa embaixada estrangeira. Sua missão: infiltrar-se nos círculos revolucionários, dos anarquistas e terroristas. Ao mesmo tempo, é um informante do Inspetor Heat, de um departamento secreto da polícia inglesa.

A situação de Verloc, confortável durante tantos anos, se complica porque o Sr. Vladimir, seu novo contato na embaixada, exige dele uma ação efetiva: um atentado contra o Observatório de Greenwich, referência mundial para o horário, ou então seus pagamentos serão suspensos.

Verloc é casado. Moram com ele, além da esposa, a sogra (que, no meio da narrativa, resolve transferir-se para um asilo) e o cunhado, Stevie, deficiente mental. A razão por que Winnie casou-se com um antigo hóspede da mãe foi justamente para proporcionar segurança para o irmão, a quem se dedica totalmente. Devido á complacência do marido com Stevie, ela vai acreditando-se feliz, atendendo aos fregueses escusos da lojinha, aturando os “amigos” dogmáticos de Adolf, e sobretudo não se fazendo nenhuma pergunta que perturbe a aparente placidez do seu quotidiano.

A  grande tragédia de O agente secreto acaba sendo mais doméstica do que política, como diz outro personagem, com ironia. Verloc dá o artefato explosivo para Stevie carregar, ele tropeça e seu corpo é todo despedaçado. Quando descobre que o marido levou o irmão à morte, Winnie Verloc tem de se fazer todas as perguntas incômodas anteriormente abafadas, e termina por assassinar Adolf (na sua versão cinematográfica, aliás, de rara beleza plástica, Sabotage- O marido era o culpado, Hitchcock concentrou-se mais nesse aspecto do livro, explorando de forma sensacionalista a morte de Stevie e exagerando a maldade do personagem Verloc).

Enquanto isso, há uma surda competição entre o Inspetor Heat e seu superior, o Comissário-assistente, com relação ao caso do atentado.

O que impressiona em O agente secreto é esse atentado feito por motivos puramente econômicos, para não dizer alimentares. Verloc quer manter seu estilo de vida, assim como os revolucionários ociosos, praticamente inócuos e patéticos (menos o Professor). Essa grande ironia (um agente quase de mentirinha, gerando uma rede de situações problemáticas e pequenas situações conspiratórias ao seu redor), décadas mais tarde renderia outros dois livros: o maravilhoso Nosso homem em Havana, de Graham Greene (que teve também uma ótima adaptação para o cinema, de Carol Reed) e o competente O alfaiate do Panamá, de John Le Carré (tão mal filmado por John Boorman). Só que, neles, o agente era de mentirinha mesmo, enquanto que o sr. Verloc  vive uma situação ainda mais patética, num clima dito revolucionário, que não ameaça nada, não desestabiliza nada, mas que justifica sua atividade e proventos, bem com os de Heat, do seu superior e dos conspiradores de embaixadas.

Outro aspecto fascinante do livro é a poesia das cidades, nesse caso, a de Londres. A grande metrópole, engolfando os movimentos dos personagens e refletindo suas preocupações pessoais, através das suas ruas e bairros, admiravelmente bem descritos. Por outro lado, as cenas da vida doméstica de Verloc com a esposa, o cunhado e a sogra, são geniais. E o ponto alto do romance é o capítulo em que se confrontam Adolf e Winnie, um dos maiores da história da ficção.

Esperemos que a Revan publique todos os livros de Conrad, como está prometendo, e com menos pressa e mais cuidado. Cadê Julieta Cupertino?

II

(resenha publicada em “A Tribuna” de Santos, em 13 de junho de 1995 )[1]

Em 1936, Hitchcock filmou O agente britânico (Ashenden), de Somerset Maugham, com o título de O agente secreto. Seu filme seguinte, por sua vez, baseava-se no livro O agente secreto, de Joseph Conrad, e, por razões óbvias, foi intitulado Sabotage (no  Brasil, seu título é uma jóia rara: O marido era o culpado). Curiosamente, anos mais tarde, já no seu período “americano”, Hitchcock faria um filme sábado Sabotador, que nada tem a ver com os outros dois. Esse labirinto para se estabelecer o que é o quê, qual é qual, esse risco de uma coisa não ser exatamente o que parece, bem poderia sair de um livro de do polonês , que passou a viver e escrever na Inglaterra, dividindo com Henry James o título de  Mestre da Ambigüidade na ficção.

O agente secreto do seu livro é Adolf Verloc. Mantendo uma loja em Londres, como fachada (além de uma família), ele trabalha para uma potência estrangeira. Sua missão, ao longo dos anos, foi permanecer em contato com círculos anarquistas e terroristas. Ao mesmo tempo, é um informante do Inspetor Heat, do Departamento de Crimes Especiais da polícia inglesa. Verloc é pressionado por um novo funcionário da embaixada do país para o qual trabalha a apresentar um motivo mais concreto por que deva ser mantido na folha de pagamentos. Resolve, então, preparar um atentado contra o Observatório de Greenwich, utilizando seu cunhado meio trelelé, Stevie, para carregar a bomba. O que acontece com essa bomba e Stevie, os efeitos que esse evento tem sobre madame Verloc, e em meio a isso tudo, a guerra de vaidade entre eminente “revolucionários” e também entre Heat e seu superior, o Comissário, são o assunto desse grande romance publicado em 1907 (e aqui traduzido por Laetitia Cruz de Moraes Vasconcellos [2]), e absolutamente pioneiro quanto à temática, como se pode observar.

Hoje em dia, depois de tantas tramas de espionagem (quer maniqueístas, quer ambivalentes), parece que não pode haver grande novidade ou interesse numa história desse tipo. Isso aconteceria se a ação fosse o interesse principal de Conrad. Não é. O que impressiona em O agente secreto é como a comédia humana em que Verloc se envolvia, um tanto abstratamente, um mundo de revolucionários paralisados e ociosos, perfeitamente inócuo, encaminha-se aos poucos para a tragédia. Ou seja, um agente de mentirinha acaba criando uma rede de situações problemáticas e pequenas conspirações ao seu redor), tal como Graham Greene (bastante devedor de Conrad) fará décadas mais tardes em Nosso homem em Havana. Só que no romance de Greene o agente era de mentirinha mesmo, enquanto que o senhor Verloc vive uma situação patética, um clima “revolucionário” que não ameaça nada, mas que justifica a sua atividade, a de Heat, do seu superior e dos conspiradores de embaixadas. Nessa atmosfera trágica, avulta Winnie Verloc.

Mas há toda a parte final, que não convém contar, embora não se possa deixar de chamar atenção para o fato de O agente secreto ser um dos mais cabais exemplos da poesia da cidade pós-baudelairiana, o uso da metrópole como espaço real e simbólico a um só tempo,  o que faz com que as cenas da vida doméstica de Verloc (com a esposa, o cunhado e a sogra) sejam  um ponto alto na produção admirável do autor de Sob os olhos do Ocidente, Nostromo, Lord Jim e O coração das trevas (o texto que inspirou Apocalipse now, de Coppola).Em se tratando do homem que escreveu esses textos, dizer que essa parte pode ser considerado um ápice da sua ficção é dizer que estamos no terreno da pura genialidade.


[1] Nota de 2010- Eu na verdade sobrepus a essa resenha de 1995, outra resenha, também publicada em “A Tribuna” , em 24 de fevereiro de 2007, em razão do centenário de O agente secreto, e que se iniciava assim:

Joseph Conrad nasceu há 150 anos. Além disso, uma das suas obras-primas, O agente secreto, torna-se centenária agora em 2007. O leitor brasileiro tem duas traduções disponíveis: a de Laetitia Cruz de Moraes Vasconcellos (cuja publicação mais recente é pela Imago) e a de Paulo Cezar Castanheiro (pela Revan).

Sobre Nostromo escrevi em 25 de dezembro de 2004, numa resenha sobre livros que se tornavam centenários naquele ano:

Em 1904, morria Anton Tchecov e estreava nos palcos sua obra-prima O jardim das cerejeiras. Não faltaram lançamentos tchecovianos (Minha vida, O duelo, A gaivota, As três irmãs) em 2004 para que se descobrisse o magnífico  (praticamente redefiniu os dois gêneros) contista e dramaturgo. No mesmo ano nasceu um escritor do calibre de Alejo Carpentier, pioneiro e expoente da melhor ficção latino-americana.

Dois romances incríveis de 1904 já foram comentados nesta minha coluna, Esaú e Jacó, de Machado de Assis, e A taça de ouro (The golden bowl), de Henry James. Ainda nesse ano, Romain Rolland iniciava um ciclo romanesco que iria marcar época, Jean-Christophe (completado em 1912). Ainda se trata de uma obra muito apegada ao espírito do século anterior, enquanto as de Machado e James representavam uma revolução, ao contrariar as expectativas do leitor quanto ao enredo e à psicologia dos personagens. Esse mesmo ímpeto revolucionário (que aparece mais discretamente, porém não menos decisivamente, em Tchecov) está presente nos agora também centenários O falecido Matias Pascal, de Luigi Pirandello, e Nostromo, de Joseph Conrad.

Embora com duas versões brasileiras (as de Mário Silva e Helena Parente Cunha), o genial livro de Pirandello anda sumido do mercado há alguns anos. Apresenta um narrador meio Brás Cubas,um herdeiro arruinado, um boa-vida extravagante (“não tinha aptidão para nada, e a nomeada que adquirira com minhas façanhas juvenis e a vida de vadio certamente não convidava ninguém a dar-me trabalho), que nos conta (apesar de não acreditar no ato de escrever livros) como morreu não uma, mas duas vezes: “Já posso considerar-me como que fora da vida, logo, sem obrigações nem escrúpulos de qualquer natureza”. Sempre brincando com o leitor (Como é que sei essas coisas? Ora, como sei. É boa!”), radicaliza uma postura narrativa que marcará o romance modernista. Matias Pascal parece não ter sofrido a influência do tempo. É uma leitura deliciosa.

Já não se pode dizer o mesmo do soberbo Nostromo (outro que tem joduas versões, a de José Paulo Paes e a de Donaldson M. Garschagen). Tal qual a outra obra-prima suprema de 1904, A taça de ouro, exige muito do leitor, inclusive a disposição de se aventurar por dilemas morais que parecem anacrônicos (será?). No entanto, trata-se de um visionário estudo do imperialismo, da passagem do domínio europeu para o norte-americano: a ação se passa em Costaguana, país da América Latina, em cuja cidade mais próspera, Sulaco, instala-se um casal inglês, os Gould, possuidor de uma mina de prata que catalizará a ação do romance. Durante uma daquelas recorrentes revoluções, nas quais surge um candidato a ditador, um carregamento de prata da mina é colocado nas mãos do capataz Nostromo (a alcunha vem da expressão “nosso homem”, pois ele goza da fama de homem de confiança e indispensável), que acaba ficando com o tesouro, o qual todos acreditam ter afundado.]

E o leitor de 2004 sente um arrepio ao se deparar com a visão que o poderoso milionário estadunidense, mr. Holroyd, principal investidor da mina, tem do destino do seu país: “O próprio tempo tem de esperar no maior país de todo o universo de Deus. Estaremos dando a palavra oficial com relação a tudo: indústria, comércio, direito, jornalismo, arte, política e religião, desde o cabo Horn até o Estreito de Smith, e até além dele, se aparecer no Pólo Norte alguma coisa que valha a pena controlar. E a seguir daremos tempo ao tempo, para tomarmos as ilhas oceânicas e os continentes da terra. Haveremos de dirigir os negócios do mundo, goste ou não o mundo.”

Nota de 2010- Eu quis manter o clima labiríntico proporcionado pelo próprio livro, nessa minha transcrição de resenhas, mas devo dizer que a mais sucinta e precisa das que se ocupam de O agente secreto, a meu ver, é justamente a de 2007. Porém, ainda há mais uma volta do parafuso, uma resenha publicada em 15 de junho de 2010, em razão da publicação de uma terceira tradução, e que segue muito de perto a versão de 2007, a não ser pelo início:

“Aqui todo mundo fala, imprime, conspira; e nada faz”, diz o Professor, sinistro artesão de bombas. É nesse mundo estagnado e conspiratório que se movimenta Adolf Verloc, o protagonista de O agente secreto, de Joseph Conrad, um clássico de 1907, que se tornou premonitório com o atentado às Torres Gêmeas, e lançado agora em edição bilíngüe pela Landmark.”

 

[2] Agora, em 1995, essa tradução passa a fazer parte de uma das melhores iniciativas editoriais dos últimos anos, a coleção Lazuli, a qual já publicou textos de Henry James, Flaubert, Nabokov e do próprio Conrad (Mocidade & O parceiro secreto)

19/07/2011

O protótipo dos romances de espionagem e a encruzilhada de eras para o império Britânico

 

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 19 de julho de 2011)

É quase unânime a opinião de que o romance de espionagem, uma derivação muito peculiar que o século XX proporcionou ao gênero “aventura” teve como matriz Os 39 Degraus (The thirty-nine steps, 1915), aqui no Brasil mais conhecido pela famosa versão cinematográfica (1935) de Hitchcock, na qual este—ainda na sua fase inglesa—estabeleceu o paradigma de vários de seus filmes (um homem inocente que é perseguido, num corre-corre geográfico danado), o principal deles Intriga Internacional 1 (diga-se de passagem, modelo também para tramas do tipo O Código Da Vinci).

A recente edição da Tordesilhas (em tradução de Tiago Novaes Lima) permite ao leitor brasileiro verificar que há pouco em comum entre o clássico hitchcokiano (com roteiro de Charles Bennett) e a história original do escocês John Buchan (1875-1940), a não ser o crime em seu apartamento, que lança o herói, Richard Hannay,numa fuga desenfreada por paisagens ermas, na tentativa de desbaratar uma rede de espionagem (às vésperas da Guerra de 1914). No romance, não há mocinha (Madeleine Carroll, em bela parceria com Robert Donat), nem o patético Sr. Memória, elementos essenciais e memoráveis da adaptação.

O que há é uma flagrante falta de organicidade. Boa parte da narrativa se reduz a episódios muito frouxamente ligados entre si, que me incomodam mais do que a sempre pitoresca inverossimilhança e que eram muito mais bem amarrados no filme).. Na verdade, o que vemos é uma apologia do “cavalheiro” inglês, aquele que se lança em aventuras por um senso quase de diversão (Hannay se entediava em Londres). Na Escócia, perseguido por espiões e pela polícia (é suspeito de um assassinato), tentando decifrar num caderninho em código o que seriam os 39 degraus (correspondentes a uma organização de origem alemã, a Pedra Negra, para roubar planos navais), ele encontra um hospedeiro com ambições literárias que o ajuda, assim como um ingenuamente idealista político (ambos aceitam sua história porque vêem que ele é um “cavalheiro”, pura e simplesmente, e ele confia em ambos pelo mesmo motivo; trata-se de um tmepo em que a palavra de honra era tudo). disfarça-se de trabalhador braçal, e vai parar precisamente—neste vasto mundo de Deus—na casa do vilão, sem querer!

Essa primeira parte do livro, só mesmo com uma boa vontade nostálgica e um resgate do leitor infanto-juvenil que há (ou deveria haver) em nós, para ser apreciada (e foi melhor explorada por Hitchcock, através de hábeis modificações e do ritmo cinematográfico, mais adequado). .O detalhe mais interessante é uma característica que veremos alguns anos mais tarde muito pronunciada na obra de Agatha Christie: o gosto pelo teatro e pelo disfarce. Vários personagens (o herói inclusive) de Os 39 Degraus utilizam disfarces (até num momento-chave da trama, numa reunião de lideranças dos governos britânico e francês), e toda a segunda parte (muito melhor, a meu ver) vai se basear nisso, principalmente no, quando Hannay confronta seus inimigos—disfarçados—numa casa à beira-mar que dá acesso aos misteriosos 39 degraus. É o momento que resgata a obra de John Buchan da mera curiosidade histórica.

Em todo caso, as peripécias de John Buchan foram fecundas: abriram caminho para o universo de Graham Greene (O Ministério do Medo), Eric Ambler (Jornada do Pavor) John Le Carré (O Morto ao telefone), Ian Fleming (a série 007), já que o submundo da política, seus meandros mais obscuros, dominou o imaginário do século passado, e principalmente compensou para a Inglaterra, ao menos na ficção, a perda do seu império. Lendo esses autores, parece que o centro nervoso da espionagem internacional, mesmo depois do início da Guerra Fria, se concentrava no Reino Unido.

Nesse ponto, o senso de importância estratégica dessa potência para os destinos do mundo, sublinhado em Os 39 Degraus,é mais verdadeiro. Em 1915, os EUA ainda não tinham a supremacia, e a URSS sequer existia. Um determinado tipo de civilização européia estava chegando ao fim. Portanto, entre todos os seus atrativos, as aventuras de Richard Hannay se postam numa encruzilhada de eras.

 

1Outro exemplar prazeroso dessa vertente é Sabotador.

Blog no WordPress.com.