MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

07/11/2010

CADÊ A VOZ DO SERTÃO ?

“É, me deu vontade  de ter uma prosa mais compridas com o senhor. Então se prepare. Consinto lhe dizer umas verdades. O senhor vai gostar de umas, mas de outras pode ser que não. O senhor tem ciência dos livros, sabe dizer bem as coisas. Mas isso de anotar nossas falas, depois ajeitar na escrita, com uns retratos antigos,  uns desenhos,  palavras que a gente não sabe nem entende— é correto? Isso é o que se faz por certo desde muitos anos.

     Faz tempo que pessoas estudadas, assim como o senhor, vêm aqui e se tornam donas daquilo que antes só a gente sabia (…) Entenda bem: o senhor me ouve, eu lhe digo, o senhor escreve, faz um livro. O senhor fica ainda mais o senhor… Mas, e se o senhor escreve sua idéia em cima de minhas falas? E eu, minhas prosas, meus versos, minhas palavras, tudo isso quase se apaga no seu livro. Ficam sendo só suas palavras…”

       Quando se pensa na Guerra de Canudos, é impossível contornar a figura de Euclides da Cunha. Ao escrever Os Sertões, que, num certo sentido, é o maior livro já escrito neste país, ele parece ter se apropriado do evento, tornando-se inseparável dele, de uma forma que nem a maestria de Mario Vargas Llosa, em A guerra do fim do mundo, conseguiu driblar. Ele ficou ainda mais ele, com seu estilo inigualável , meio cipoal, como já foi caracterizado, e ficaram sendo só suas palavras…

       Em O Pêndulo de Euclides, o  baiano Aleilton Fonseca enfrenta o fantasma de Canudos e a figura de Euclides: num misto de relato de viagem, ensaio e ficção, narra como, após um congresso onde se dizia que o tema já fora exaurido, resolve conhecer (na companhia de dois amigos) o local no qual os sertanejos de Antônio Conselheiro foram massacrados por tropas da recém proclamada República. Ali  ele manterá colóquios com um nativo,  seu Ozébio (aquele que fala na citação que abre este meu texto),  o qual guarda um segredo que permite desvendar a feição definitiva que Os Sertões tomou: pois como se sabe, antes de ir pessoalmente a Canudos, como jornalista, escreveu artigos furibundos acusando os insurrectos de Canudos de tentarem sabotar o novo regime. Após o massacre, mudou seu posicionamento de forma radical. Ao que parece, um antepassado de seu Ozébio, sobrevivente da onda de degolas daqueles que se renderam, teria muito a ver com essa virada radical.

        Aleilton Fonseca imagina também um “Tribunal da História”, em que a República e os conselhistas seriam julgados… E é, claro, a República é condenada e os sertanejos absolvidos, sem mais…

         Infelizmente, a partir desse material riquíssimo, O Pêndulo de Euclides acabou se revelando um romance medíocre, falhando na sua ambição de capturar, mais que a de Euclides, a “voz do sertão”.  Tudo é chapado, visto do exterior, em sua feição mais clichê e rasa. Além disso, a visão de Aleilton Fonseca é constrangedoramente tosca: ele parece ainda acreditar que há uma “voz autêntica” da nacionalidade, e que o personagem que detém essa voz, essa brasilidade profunda, é o sertanejo. Enfim, a “voz do sertão” seria o que ouviríamos, a partir do episódio de Canudos, se colocássemos de lado as palavras de Euclides. Na verdade, para qualquer estudante de letras temos o velho conflito do narrador letrado versus narrador oral, tornado clássico pelo ensaio de Walter Benjamin, O narrador. Temos, então, a junção de um lugar-comum da teoria literária com uma visão maniqueísta e pseudocrítica da nacionalidade. 

     Seu Ozébio diz a certa altura: “Passei a imaginar como eram suas [as de Euclides]conversas com meu avô. É justamente por não tentar minimamente, no seu exercício narrativo, penetrar nessas conversas, na veia da sua história, que Aleilton Fonseca perde a partida. A voz do sertão se volatiliza e, na ânsia de provar que os revoltosos de Canudos é que detinham a razão e a verdade, ele romantiza (e simplifica) tudo, especialmente  a figura de seu Ozébio (que eu particularmente achei um velho chato e retórico, e um personagem quase kitsch), que faz as vezes de um sábio oracular (embora isso não o impeça de humilhar repetidamente um peão que trabalha para ele, numa das cenas finais do livro, e o narrador parece se divertir bastante com isso): “As narrativas e os cuidados do velho sertanejo nos deixavam comovidos. Diante do tom de sua voz e da força de seu discurso, percebíamos que aquele homem, em sua simplicidade, tinha convicções firmes sobre o mundo em que vivia. Era um guardião de muitas memórias. E experimentava várias formas de compreender os fatos e tirar suas conclusões. Demonstrava seus saberes com uma clareza espantosa…”[1]

      O estilo narrativo de Aleilton Fonseca parece o dos bons cantores de karaokê (tirando o fato de que não há bons cantores de karaokê, a priori): é correto, afinado e  encaixa direitinho na música, mas não cria nada, não apresenta nada de novo, não dá vida nova aos fatos, que ele mesmo acreditava não estarem ainda exauridos.

     Em A arte do romance, Milan Kundera diz, seguindo seu mestre Hermann  Broch,   que “Descobrir o que somente um romance pode descobrir é a única razão de ser de um romance. O romance que não descobre uma porção até então desconhecida da existência é imoral.

      O incrível aqui é que o texto que se encarregou de descobrir essa porção desconhecida da nossa existência nacional (justamente o livro desse incômodo Euclides), que  não foi um romance, embora seja um monumento literário (“ficaram sendo só suas palavras”). E o romance de Aleilton Fonseca, tão moralizante, tão encruado nos seus julgamentos inflexíveis, na sua distribuição de bons e maus (todos os sertanejos são inapelavelmente bons, todos os outros,  têm motivos escusos e/ou nem valem um tostão furado[2]), acaba sendo, do ponto de vista da ética do romance, imoral. Porque repisa o óbvio.

 


[1] E quando ele abre a boca é para dizer bobagens espantosas: “É preciso assuntar o sol de cada dia e imaginar as coisas que ainda vão chegar. Mesmo que tristes, são as pedras e os espinhos de nossas estradas. São as marcas de nossa experiência, neste viver perigoso.” Com certeza, ele não é nenhum Riobaldo, nenhum Donga Novais.

[2]  Por exemplo, os soldados que atacam Canudos: “Muitos eram homens sem vontade, fracos e covardes. Quando chegavam perto do lugar da batalha, se borravam de medo e debandavam pelas trilhas da caatinga. Viravam bichos do mato, com fome e com sede, pedindo clemência nas moradas que encontravam. Muitos deles atacavam, matavam e roubavam os sertanejos pacatos por onde passavam com sua covardia”.

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