MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

23/09/2014

O círculo vicioso do ex-menino de propaganda nazista: as “histórias” de Alan Pauls

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a vida descalço

Em todos e em cada um dos dias de sua vida foi enviado ao mundo da sensibilidade, ao campo de batalha da sensibilidade, onde tudo é “proximidade”, “pele”, “emoção”, “compartilhar”, “pranto”, e em todos e em cada um de seus dias, soldadinho obediente, ele regressou, e a algaravia com que seu pai o recebeu a cada vez, algaravia dupla se o viu voltar sem uma perna, tripla se voltou sem um olho e uma mão a menos, foi menos um prêmio do que um incentivo, o suborno necessário para garantir que no dia seguinte acordará cedo, vestirá o uniforme, partirá outra vez. Embarcam na viagem seu pai e, sobretudo, o véu úmido que lhe embaça os olhos toda vez que o vê voltar, com butim ou sem ele, do campo de batalha da sensibilidade que parece adensar-se nos cantos dos olhos e quando está para se coagular, quando está prestes a tornar-se lágrimas, zás, evapora—o mesmo véu de umidade, aliás, que seu pai, com o passar do tempo, faz brilhar como num passe de mágica em seus olhos, toda vez que ele está prestes a fazer alguma objeção, ir a fundo num problema que prefere esquecer, pôr em evidência o que sua estupidez o impede de ver, e que de repente embaça seus olhos—“embaça”, palavra que passa a detestar, ligada que está ao “café”, ao “calor” de um café no inverno, aos “apaixonados” que “desenham” um “coração” no “vidro embaçado” do “café”, ou seja, a repulsiva galáxia onde continua reinando o cantor de protesto-e, além de protegê-los, amansando-a, desativa no ato a ofensiva que o ameaça.  (Alan Pauls, História do pranto)

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 23 de setembro de 2014)

Em A vida descalço (2006), passeio ensaístico-memorialístico pelo imaginário praiano, pode-se ler: “Se eu tivesse de odiar a praia, acho que usaria para odiá-la o mesmo ódio com que odeio minha pele, minha brancura de ex-menino de propaganda nazista, minhas sardas, minhas pintas, meus rubores terríveis, que posso tolerar quando delatam pudor e que me assustam quando interpreto que anunciam algum surto de psoríase… Como não odiar o estúpido círculo vicioso de que sou feito?”[1]

Para sondar os círculos viciosos da autoimagem em sua conflituosa relação com o mundo, os afetos, a geração a qual pertence, Alan Pauls se lançou a um dos mais belos empreendimentos literários deste século, uma trilogia de Histórias (numa paródia do estudo das mentalidades que renovou a historiografia): História do pranto (2007), História do cabelo (2010), História do dinheiro (2013). E olhe que ele já havia publicado, em 2003, O passado, uma das obras de ficção fundamentais do nosso tempo.

Enquanto História do cabelo tem a dicção narrativa mais próxima daquele extenso e belíssimo romance (tão mal filmado por Hector Babenco), um espraiamento maior, ancorado numa certa linearidade do relato, História do pranto é uma experiência mais radical. Pauls até encontrou um signo gráfico, o […], para pontuar a narração, como que mapeando um arquipélago de momentos cronológicos não-lineares justapostos, girando em torno da oscilação do protagonista entre o polo da hipersensibilidade (que o faz chorar diante do pai quando criança de uma forma que define a relação entre eles)  e o polo da rejeição ao pranto — no sentido de chantagem existencial, de exploração de um nauseante território em que “bondade humana”, “ternura”, “extravasamento de emoções” mascaram inautenticidade, má-fé, coisa pré-fabricada.

O ângulo mais chamativo, do ponto de vista “temático” desse mergulho do personagem em diversos momentos da sua vida pontuados pela questão da “emoção” efetivada pelo pranto, é que eles em geral se referem a uma educação sentimental especificamente esquerdista (colocada contra o pano de fundo da ditadura militar argentina): é a rejeição da melosidade e sentimentalismo barato das canções de um famoso cantor de protesto, amigo do pai (cujas ligações “subversivas” são meio obscurecidas, apenas insinuadas, nas rememorações da sua figura — diga-se, de passagem, que ele e a mãe moram num bairro predominantemente militar, após a separação dos pais; a mãe, deprimida e distante, odeia voltar a ficar sob dependência financeira, e o avô provoca o neto, chamando-o de “mariquinhas”, o proverbial remédio patriarcal para exterminar tendências “sensíveis”); é, em contrapartida, a sensação de estar afastado da “vida real” das emoções, ao flagrar-se como mero espectador, sem emoção (pelo menos, a ratificada por lágrimas), via televisão, da derrubada do governo Allende, e seu cadáver sendo retirado do Palácio de La Moneda (em 11 de setembro de 1973), situação que leva ao choro inconsolável um amigo.

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O protagonista é um estudioso do marxismo, discute seus autores seminais mais agudamente que o amigo, admira profundamente as realizações socialistas do governo Allende, mas é incapaz não só de exteriorizar suas emoções, como até mesmo de “senti-las”. No entanto, a partir do fato, ele toma uma decisão friamente passional, se  posso me expressar assim: rompe o namoro com a menina chilena com a qual estava envolvido há meses (para admiração geral dos colegas), porque a família dela é de direita e deve estar exultante com o golpe.

Por outro lado, uma emoção próxima da náusea (física inclusive) ronda a recordação de um vizinho, militar, sob os cuidados de quem o menininho que o protagonista foi às vezes ficava, quando a mãe tinha de sair. Há uma vaga atmosfera de ambiguidade sexual, contudo os bloqueios da memória, que tornam tudo meio difuso, não permitem que ele localize exatamente que elementos podem comprovar essa percepção, ou mesmo porque persiste a nota pungente de emoção na recordação desse vizinho. O clímax de História do pranto será a revelação da sua identidade.

Chama a atenção também o fato de que o protagonista, apesar de precaver-se contra a chantagem sentimentalista, seja muitas vezes ouvinte do que chamamos de desabafos emocionais desde a tenra infância, e que muitas vezes isso represente uma espécie de violação simbólica: veja-se o episódio do jantar em que ele está todo orgulhoso de uma relação feliz com uma bela mulher, meio que se pavoneando, e um desconhecido senta ao seu lado e lhe sussurra: “Isso porque você nunca esteve amarrado a um estrado de metal enquanto dois sujeitos davam choques no seu saco”. [2]

O ângulo mais impressionante mesmo, feitas as contas, é que acompanhamos um texto em que o frase a frase é atordoante. Dá vontade de citar tudo. É a poesia da prosa em plenitude.  Possivelmente, apenas o chileno Alejandro Zambra conseguiu algo próximo da proeza de Pauls, em mesclar memória afetiva, geracional e política, com seu Formas de voltar para casa (2011).

Se o Nobel resolvesse corrigir a persistente e notória injustiça com a literatura argentina (repleta de autores avassaladores), o ex-menino de propaganda nazista seria um nome a se pensar seriamente, rubores terríveis à parte. Pois ele — aos 55 anos — é, sem dúvida, um dos maiores autores vivos.

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https://armonte.wordpress.com/2012/08/01/a-repulsiva-galaxia-da-emocao-barata-e-a-movedica-poesia-da-prosa-historia-do-pranto/

NOTAS

[1] Utilizo a tradução de Josely Vianna Baptista (Cosacnaify, 2013) para La vida descalzo.

[2] Utilizo a tradução de Josely Vianna Baptista (Cosacnaify, 2010) para Historia del llanto.

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01/08/2012

Destaque do Blog: HISTÓRIA DO CABELO

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https://armonte.wordpress.com/2012/07/22/a-realidade-em-ritmo-de-tango/

(a resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 31 de julho de 2012)

Depois do esplêndido e caudaloso O Passado (2003), Alan Pauls vem dedicando-se a uma trilogia de textos curtos em que ajusta contas com sua geração (nasceu em 1959): na primeira parte, História do Pranto (2007), desconstruía o sentimentalismo da Esquerda, seus clichês apelos a uma “ternura” fraternal piegas e kitsch, e ao mesmo tempo narrava como, por se precaver contra eles a vida toda, o protagonista acabava por sentir-se distante da experiência direta, vivendo-a através dos outros. Num momento memorável, ele —que já na adolescência era fluente no pensamento e na ideologia marxista— observa o melhor amigo debulhando-se em lágrimas devido à queda do governo Allende, no Chile, assistida pela tevê, e descobre-se, mesmo consternado com o acontecimento, incapaz de dar vazão à suposta emoção, de tanto que exercitou sua imunidade à estratégia chantagista do pranto. Este só virá mais tarde, quando descobrir a verdadeira identidade de um vizinho da sua infância, um militar misterioso com o qual passava muitas tardes, quando sua mãe tinha de sair.

E que estilo! Quando lemos Alan Pauls, e isso faz dele o mais impressionante dos autores hispano-americanos contemporâneos, temos a sensação de que ninguém escreve tão bem, mesmo se lembrarmos de artífices principescos da prosa na cena atual, como o português José Luís Peixoto, a norte-americana Lionel Shriver e o nosso Chico Buarque em seus últimos dois romances. Se a outra grande referência constante entre os autores do resto do continente, o chileno Roberto Bolaño, criou uma espécie de anti-estilo, o argentino parece se comprazer na luxúria das imagens incessantes, das formulações irretocáveis, uma prosa suntuosa e espessa (fantasticamente traduzida por Josely Vianna Baptista).

A expectativa em torno da última parte da trilogia, História do Dinheiro, será implacável, uma vez que Pauls parece ter chegado ao ápice com a segunda, História do Cabelo (Historia del Pelo, 2010), simplesmente genial. Novamente, temos um protagonista em descompasso com o movimento geracional. Portador de um cabelo liso e loiro, ao chegar à adolescência anela pelo corte “afro” que faz o sucesso dos moleques de então que o ostentam, associado como é às figuras transgressoras e às lutas das minorias por direitos civis. Mas ao tentar emular o que se chamava então penteado, ao contrário do melhor amigo, no qual ficou perfeito (pouco depois, este amigo terá o cabelo raspado por transgredir a lei, inaugurando uma existência de altos e baixos, que volta e meia encosta na do personagem principal não-nomeado), instaura-se o desencontro fatal entre a aparência final e seu desejo, que persistirá por muitos anos: ele sempre terá cara de galã antigo de telenovela, de homem eternamente jovem, porém anacrônico, e cada corte de cabelo se torna um suplício. Até que encontra meio  por acaso o paraguaio Celso. E eis que finalmente ganha o corte perfeito, o encontro de seu cabelo com sua identidade: “Quarenta e oito horas mais tarde, intervalo mais do que suficiente para que o trabalho que lhe fizeram mostre a que veio, se é que veio, e o decepcione de uma vez, o corte não só continua vivo e viçoso como melhora. Assenta e floresce ao mesmo tempo, encontra seu ponto e continua prometendo, integra-se a ele, a seu rosto, a suas orelhas rebeldes, a seu nariz torto e a seu ânimo, sempre frágil, sempre arrogante, e parece anunciar algo que ele ainda não consegue decifrar. Dá-lhe esperanças. Está na cara, não tem mais por que ficar calado. Celso é um gênio. O tempo, o travesseiro, o despertar, a ducha, a toalha, a oleosidade, a luz, os espelhos, o cabelo dos outros, o vento, a vida no mundo: não há prova que o corte não tenha superado, e superou todas elas sem o menor esforço, com uma folga aristocrática. É um gênio e isso é admitido até por Eva, sua mulher, refratária por princípio  a toda iniciativa cosmética que ele tome sem consultá-la. Mais de uma vez, enquanto conversam, ele a flagra no mundo da lua, extasiada, olhando para sua cabeça com a boca aberta, ou entrecerrando os olhos para deduzir a artimanha com que Celso resolveu algum problema especialmente complicado…”

Repete-se o milagre uma segunda vez, porém após deixar que o cartão pessoal do cabeleireiro se perca, descobre que ele foi demitido sumariamente por condutas um tanto impróprias e gangsterísticas, entrando em desespero…

A partir daí, História do Cabelo relata uma espiral de acontecimentos insólitos, em função do bizarro vínculo criado entre cliente e cabeleireiro, que fará com que o primeiro conheça outro “dependente” de Celso, o filho de um famoso morto pela ditadura militar, que vivera com a mãe em Paris, e que voltou a uma pátria que mal conhece para uma existência fantasmagórica e insubstancial, à sombra da trajetória do pai, traficando drogas e depois se envolvendo com Celso numa das “ligações perigosas” mais estranhas já vistas na ficção. No final, o protagonista (abandonado pela mulher) e o “veterano de guerra” (como se denomina no texto o amigo de Celso) se veem lançados à praia de uma desolação mútua, náufragos do poder mágico do escorregadio coiffeur.

E o que Pauls realiza, com sua imaginação peculiar e seu estilo irretocável, é a demonstração cabal da verdade da intuição de Michel Foucault sobre como a realidade social de uma época, mais especificamente, as estratégias de poder e ideologia, não precisam ser localizados em blocos estanques e identificáveis, pois estão disseminadas capilarmente (o que vem ao caso, certamente, num livro com esse título e essa história) em todos os nossos gestos cotidianos, nossos hábitos, nossa manifestações de preferência, nossas supostas necessidades interiores. Enfim, as desventuras de um corte de cabelo podem conter os descaminhos de uma geração, seus impasses, e configurá-los tão eficazmente, ou mais, quanto um afresco histórico, desde que haja engenho e arte. E como há.

A “repulsiva galáxia” da emoção barata e a movediça “poesia da prosa”: HISTÓRIA DO PRANTO

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/08/01/destaque-do-blog-historia-do-cabelo/

https://armonte.wordpress.com/2012/07/22/a-realidade-em-ritmo-de-tango/

Foi difícil, para mim,  escrever sobre O passado (2003) e agora também me vejo em dificuldades para escrever algo a respeito do curtíssimo (oitenta páginas) HISTÓRIA DO PRANTO (2007), primeira parte de uma trilogia ainda em andamento [falta História do Dinheiro].

Enquanto História do Cabelo (2010) tem uma dicção narrativa mais próxima daquele extenso e belíssimo romance (tão mal filmado por Hector Babenco), ou seja, um espraiamento maior, ancorado numa certa linearidade do relato[1] , História do pranto é uma experiência que me parece mais radical. Pauls até encontrou um signo gráfico, o […], para pontuar a narração, como que mostrando que ali temos um arquipélago de momentos cronológicos não-lineares e justapostos girando em torno da oscilação do personagem principal  [não-nomeado] entre o pólo da hiper-sensibilidade (que o faz chorar diante do pai quando criança de uma forma que define a relação entre eles [2] e o pólo da rejeição ao pranto (no sentido de chantagem existencial, de exploração de um nauseante território em que “bondade humana”, “ternura”, “extravasamento de emoções” rescendem à inautenticidade, à má-fé, a coisa pré-fabricada).


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O ângulo mais impressionante, do ponto de vista “temático” [e existencialista] desse mergulho do personagem em diversos momentos da sua vida pontuados pela questão da “emoção” efetivada pelo pranto, é que esses momentos em geral se referem a uma educação sentimental especificamente esquerdista (colocada contra o pano de fundo da ditadura militar argentina): é a rejeição da melosidade e sentimentalismo barato das canções (e da postura em geral) de um famoso cantor de protestos, amigo do pai (cujas ligações “subversivas” são meio obscurecidas, apenas insinuadas, nas rememorações da sua figura); é, em contrapartida, a sensação de estar afastado da “vida real” das emoções, ao flagrar-se como mero espectador, sem emoção (pelo menos, a ratificada por lágrimas), via televisão, da derrubada do governo Allende, e seu cadáver sendo retirado do Palácio de La Moneda, situação que leva ao choro inconsolável um amigo.

O protagonista é um estudioso do marxismo, discute seus autores seminais mais agudamente que o amigo, admira profundamente as realizações socialistas do governo Allende, mas é incapaz não só de exteriorizar suas emoções, como até mesmo de “senti-las”. No entanto, a partir do fato, ele toma uma decisão friamente passional, se  posso me expressar assim: rompe o namoro com a menina chilena com a qual estava envolvido há meses (para admiração geral dos colegas), porque a família dela é de “direita” e deve estar exultante com o golpe.

Por outro lado, uma emoção vaga (e até próxima da náusea, física inclusive) ronda a recordação de um inusitado vizinho, militar[3] sob os cuidados de quem o menininho que o protagonista foi às vezes ficava, quando a mãe tinha de sair. Há também uma vaga atmosfera de ambigüidade sexual, contudo os bloqueios da memória, que tornam tudo meio difuso, não permitem que ele localize exatamente que elementos podem comprovar essa atmosfera, ou mesmo porque há uma nota de emoção na recordação desse vizinho. O clímax de História do pranto será a revelação da sua identidade.

Chama a atenção também o fato de que o protagonista, apesar de precaver-se contra a chantagem sentimentalista, seja muitas vezes ouvinte do que chamamos de “desabafos emocionais” desde a tenra infância, e que muitas vezes isso represente uma espécie de violação simbólica: veja-se o episódio do jantar em que ele está todo orgulhoso de uma relação feliz com uma bela mulher, meio que se pavoneando, e um desconhecido senta ao seu lado e lhe sussurra: “Isso porque você nunca esteve amarrado a um estrado de metal enquanto dois sujeitos davam choques no seu saco”.

O ângulo mais impressionante, ao fim e ao cabo, é que acompanhamos um texto em que o frase a frase é atordoante. Como sempre faço, sempre que estou lendo, procuro separar trechos que deem ao meu leitor, quando escrevo sobre o livro, uma ideia clara da beleza ou ruindade de um texto. Pois eu digo que isso funciona de forma muito precária com Alan Pauls. Dá vontade de citar tudo. E ao mesmo tempo quando se isola um trecho parece que nunca é tão impactante e brilhante quanto ali, na tessitura total da narrativa. É a poesia da prosa em plenitude.



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POESIA DA PROSA- O QUE É ISSO?

Um depoimento pessoal

Escrevi a respeito de HISTÓRIA DO PRANTO, tendo em mente o pedido de um caro amigo, o qual gostaria que eu deixasse mais claro o que seria a poesia da prosa, expressão de que me valho bastante para enaltecer ou criticar certos textos.

Creio que a maior parte dos leitores pressupõe a superioridade do lirismo poético, em termos de linguagem, com relação à prosa narrativa, pois esta última utiliza recursos mais próximos ao dia a dia, e também mais próximos a outras performances textuais (o texto jornalístico, por exemplo). Por outro lado, há aquelas experiências, em geral terríveis, Baudelaire à parte, de “poema em prosa” ou “prosa poética”, em que se tenta “enobrecer” o prosaísmo básico da prosa.

Pois bem, na minha experiência de leitor, fui descobrindo uma série de escritores que, valendo-se dos elementos narrativos característicos, sem querer fazer “prosa poética”, no entanto criaram isso que eu chamo, por falta de melhor termo (e talvez por também me deixar contaminar pela escorregadia noção da superioridade da poesia lírica), de poesia da prosa: em maior ou menor grau, são aqueles escritores dos quais sublinhamos passagens, cujas formulações ficam na nossa cabeça sabe-se lá quanto tempo, e que todavia fazem isso na construção de uma fábula narrativa, ou seja, ali há a interpenetração de tudo que é movente, contingente, “prosaico” mesmo, com a cristalização de uma imagem, de uma fórmula em palavras lapidar, cintilante, chispeante.

No fim, vejo-me na mesma situação de quem disse que não sabe exatamente o que é pornografia, mas a reconhece quando se acha diante dela. Péssimo teórico que sou, sinto-me incompetente para definir o que é poesia da prosa (e não é prosa poética nem poema em prosa), mas reconheço-a quando leio[4].

Quando eu era garoto ainda, orçando pelos meus dezesseis, dezessete anos, no início dos anos 1980, eu e um grande amigo meu (outro) naquela época[5] vivíamos impressionados, embora de maneira muito diversa, até divergente (constato hoje), com Clarice Lispector. Esse amigo dizia que nenhum outro autor era tão genial no sentido do frase a frase mesmo: naquele momento eu me deixara deslumbrar por As ondas, mas ele sustentava que Virginia Woolf, ainda que conseguisse—no conjunto, na tessitura toda—uma grande beleza, não tinha aquela característica de construir período após período uma teia de imagens, formulações, o “vertiginoso relance” que o fazia tão apaixonado por Clarice. Na minha opinião, ele creditava à grande autora de A maçã no escuro um peso basicamente filosófico e existencialista. Eu, bem mais prosaico, e sempre mais apaixonado pelo literário, preferia notar que além disso, havia a fabulação, os personagens, enfim todo o aparato “prosaico” e contingente, o palco armado para o “vertiginoso relance”. Por isso, minha impaciência com a afirmação de Guimarães Rosa, de que lia Clarice “para a vida” e não “para a literatura”.

Acho que há pessoas que leem um texto literário, mas ele acaba sendo a base de um exercício epifânico que o transcende. Eu já não consigo dar esse salto e me desligar do texto, fico preso a ele, a seus elementos contingentes e me escapa o aspecto transcendente[6].


NOTAS

1] Mesmo assim, ainda o acho mais belo, se é preciso fazer tal comparação.

[2] Veja-se a seguinte passagem: Em todos e em cada um dos dias de sua vida foi enviado ao mundo da sensibilidade, ao campo de batalha da sensibilidade, onde tudo é “proximidade”, “pele”, “emoção”, “compartilhar”, “pranto”, e em todos e em cada um de seus dias, soldadinho obediente, ele regressou, e a algaravia com que seu pai o recebeu a cada vez, algaravia dupla se o viu voltar sem uma perna, tripla se voltou sem um olho e uma mão a menos, foi menos um prêmio do que um incentivo, o suborno necessário para garantir que no dia seguinte acordará cedo, vestirá o uniforme, partirá outra vez. Embarcam na viagem seu pai e, sobretudo, o véu úmido que lhe embaça os olhos toda vez que o vê voltar, com butim ou sem ele, do campo de batalha da sensibilidade que parece adensar-se nos cantos dos olhos e quando está para se coagular, quando está prestes a tornar-se lágrimas, zás, evapora—o mesmo véu de umidade, aliás, que seu pai, com o passar do tempo, faz brilhar como num passe de mágica em seus olhos, toda vez que ele está prestes a fazer alguma objeção, ir a fundo num problema que prefere esquecer, pôr em evidência o que sua estupidez o impede de ver, e que de repente embaça seus olhos—“embaça”, palavra que passa a detestar, ligada que está ao “café”, ao “calor” de um café no inverno, aos “apaixonados” que “desenham” um “coração” no “vidro embaçado” do “café”, ou seja, a repulsiva galáxia onde continua reinando o cantor de protesto-e, além de protegê-los, amansando-a, desativa no ato a ofensiva que o ameaça.

[3] Diga-se de passagem, ele e a mãe moram num bairro predominantemente militar, após a separação dos pais; a mãe, deprimida e distante, odeia voltar a ficar sob a dependência dos pais—o apartamento é deles—e o avô provoca o neto, chamando-o de “mariquinhas”, o proverbial remédio patriarcal para matar tendências “sensíveis”.

[4] Ela está, por exemplo, na tessitura de Precisamos falar sobre o Kevin, de Lionel Schriver, em Desonra, de J.M. Coetzee, em Cosmópolis, de Don DeLillo, em O passado, de Alan Pauls, em O voo da guará vermelha, de Maria Valéria Rezende. É uma prosa que não só aglutina enciclopedicamente o caos do contingente e do vivido (o “mau infinito” lukácsiano), mas que ao aglutiná-lo enciclopedicamente lhe dá uma formulação para a qual ele parece ter nascido, como se fosse o peixe que estivesse destinado àquela determinada isca (por outro lado, não há um pingo de, digamos, “sabedoria” no universo de Dalton Trevisan, mas ali há a poesia da prosa porque é uma linguagem, mesmo que construída no “prosaico”, inimitável).

[5] Não cito o nome dos amigos aqui referidos porque não pedi autorização a eles e nem importa a quem estiver lendo quem são. Mas eles saberão, e é isso que importa.

[6] Eu lembro muito dessa coisa do frase a frase, da leitura “para a vida” hierarquicamente superior à leitura “para a literatura” quando leio Alan Pauls,  que eu considero o mais fascinante escritor hispano-americano da atualidade. Pois justamente a leitura dos textos de Pauls (que, no Brasil, estão magnificamente traduzidos pela grande Josely Vianna Baptista) tem essa característica (ainda que bem diferente da leitura de Clarice Lispector, bem entendido) do deslumbramento frase a frase e criam esse impasse entre o visgo do contingente o salto para o transcendente, para algo mobilizado pelo texto, mas que o ultrapassa.

22/07/2012

A realidade em ritmo de tango

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/08/01/destaque-do-blog-historia-do-cabelo/

https://armonte.wordpress.com/2012/08/01/a-repulsiva-galaxia-da-emocao-barata-e-a-movedica-poesia-da-prosa-historia-do-pranto/

(resenha publicada originalmente em 03 de novembro de 2007 em A TRIBUNA de Santos)

A adaptação cinematográfica de Hector Babenco colocará em merecida evidência O Passado (El pasado, 2003), esplêndido romance argentino, muito bem traduzido (por Josely Vianna Baptista) e editado (pela Cosac Naify) aqui no Brasil. Nele, Alan Pauls narra como Rímini e Sofía se separam, após 12 anos de casamento, e como a sombra da presença dela paira sobre a vida que ele constrói com outras mulheres. Personalidade peculiar e intensa, ao longo dos anos ela se transforma numa daquelas pessoas “dançadas”, folclóricas, capaz de intervenções aberrantes na vida de Rímini (chega até a roubar seu filho de um ano e meio).

Na coletânea de ensaios Formas Breves, o compatriota de Pauls, Ricardo Piglia, comenta uma curiosa recorrência que ele detecta nos “melhores romances argentinos” (Adán Buenosayres, O Jogo da Amarelinha, Os Sete Loucos) e igualmente em narrativas curtas memoráveis como O Aleph, de Borges, do objeto mágico que concentra todo o universo e que substitui a mulher que se perdeu: “Trata-se na realidade da tradição do tango. O homem que perdeu a mulher olha o mundo com olhos metafísicos e extrema lucidez. A perda da mulher é a condição para que o herói do tango adquira essa visão que o distancia do mundo e lhe permite filosofar sobre a memória, o tempo, o passado, a pureza esquecida, o sentido da vida. O homem ferido no coração pode, por fim, olhar a realidade como ela é e perceber seus segredos.”

O Passado resgata e revitaliza essa tradição e Sofía cumpre essa função, de ser o tango na vida de Rímini, enquanto ele fica obcecado, a cada fase, por um “objeto mágico” (a cocaína, o filho).

Todavia, nada disso seria tão absorvente não fosse a prosa enfeitiçante, luxuriante, com que Pauls resgata o romance atual do esgotamento das formas e da pulverização da narrativa. Na duas últimas décadas, na ficção hispano-americana talvez só Detetives Selvagens, de Roberto Bolaño tenha alcançado (e superado) tal plenitude, exuberância e fôlego.

“Rímini pensou em sua rigidez, em como lhe custava admitir que os acidentes das coisas participavam das coisas e que a lógica das coisas era a descontinuidade, o vaivém, a alternância ritmada de momentos acidentais mais ou menos arbitrários e momentos de estabilidade mais ou menos previsíveis”. Escolheu-se aqui esse pequeno trecho da página 254, mas O Passado é o tipo de livro que nasceu para que dele se tirem citações, com as suas definições, colocações e imagens alucinantemente exatas. Fala-se muito em Proust e Cortázar com relação a ele. Também poderia ser lembrada Marguerite Yourcenar, a qual tinha o raro poder de resumir um sentimento, uma sensação, uma atividade, numa fórmula mágica e precisa.

Ler O Passado (mesmo que os mergulhos de cabeça de Rímini em certos “objetos mágicos” sejam exasperantes às vezes, mesmo que Sofía irrite em suas aparições) é um prazer, só que um prazer paradoxal: o ritmo narrativo é perfeito e nada lento; em contrapartida, há tantos achados a cada momento que a leitura se retarda e parece que a cada parágrafo se chegou a um ponto insuperável e definitivo e à prova cabal de que a literatura é inigualável quanto a proporcionar tal sensação.

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