MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

15/01/2013

RUBEM BRAGA E A CAIXINHA DO CRONISTA

rubem-bragaAI_DE_TIN_COPACABANA_1251602540P

(resenha publicada originalmente, sem notas de rodapé ou textos adicionais, em  A TRIBUNA de Santos, em 15 de janeiro de 2013)

Como quase todo mundo, considero Rubem Braga o mestre insuperável da crônica. Mesmo não sendo muito afeito ao gênero[1], li um bocado o escritor capixaba quando era adolescente, assim como Paulo Mendes Campos, Stanislaw Ponte Preta e Fernando Sabino, outros nomes referenciais.

Com a comemoração do centenário de Braga (nascido em 12 de janeiro de 1913, em Cachoeiro de Itapemirim, e falecido em 1990), resolvi revisitar Ai de ti, Copacabana (1960), uma das suas coletâneas mais famosas. Um leitor que tivesse em mente uma visão mais abrangente, panorâmica, teria a opção das 200 Crônicas Escolhidas. Por que, então, aquele título específico?  O motivo é simples e pessoal: as 61 crônicas ali reunidas foram escritas entre 1955 e 1960 (durante o governo JK), quando o autor estava numa idade similar à que tenho agora; portanto, era a chance de conferir a mirada sobre a vida e o cotidiano de um quarentão aproximando-se dos 50 anos.

Os 10 primeiros textos foram escritos no Chile (onde exercia função diplomática): “Mandei um telegrama para o Brasil me demitindo… eu gosto do Chile; eu estava me acostumando… Tenho carinho por muitas cidades… dentro do meu amor multifiel”, mas a “volúpia de partir, “estranha, indefinível, amarga é maior.

Há  ainda uns poucos escritos em Nova Iorque e outros lugares, mas o Rio é o centro de  Ai de ti, Copacabana. A crônica-título é uma paródia do apocalipse bíblico: “muitos peixes morrerão por se banharem no uísque falsificado de teus bares. Por falar em uísque, um dos melhores momentos é O poema que não foi aprovado, no qual aventa a deliciosa e politicamente incorreta proposta (já que estava em tempos de vacas magras), de pedir uma caixinha de natal, assim como os lixeiros: “Entra ano e sai ano/ Escrevendo sem cessar/São os vossos fiéis Cronistas/Que vêm vos cumprimentar/Feliz Natal e Ano Novo!// Se o uísque estiver sobrando/Lembrai-vos destes Cronistas/Que de sede estão penando…” Proposta repelida, “em nome dos bons princípios…e, desconfio, um pouco também de seus maus fígados.

literatura-comentada-rubem-braga_MLB-O-169358042_9988

Com apenas dois ou três textos que podem ser considerados fracos, é tarefa árdua isolar momentos excelentes nessa obra-prima. O traquejo narrativo que faz o texto fluir com elegância ímpar (“O velho quer levar o antigo piano alemão; resisto; quero o piano; não sei tocar, mas me agrada ter em casa um piano; não seria possível deixar o piano? Os velhos se consultam; sim, ficará o piano”);  a ironia certeira, e tão atual (comentando um terremoto chileno: “Lamentemos esse morto e também os pobres pescadores que perderam seus barcos; mas qualquer enchente carioca dá mais prejuízo e vítimas”); a autoironia, não menos cruel e certeira (“A casa deve ser antes o asilo inviolável do cidadão triste”, lemos numa das crônicas mais geniais do livro, A Casa); a observação de tipos humanos e profissões (os taxistas portugueses do Rio, o padeiro que lhe conta como é recebido ao entregar o pão a domicílio:  “Não é ninguém, não, senhora, é o padeiro), as reflexões surpreendentes (no teto sobre  mulheres que esperam um homem: “Devia haver um santo especial para proteger a mulher esperando o homem…Porque a mulher que está esperando o homem sempre recebe a visita do Diabo, e conversa com ele…”), o “comércio sentimental com as outras criaturas” (“Perguntou-me a idade, eu disse. Espantou-se: –Puxa, quase o dobro da minha! É mesmo, você já está muito velho. Istoé, velho, velho mesmo, não, mas para mim está. Que pena!, e ele: “Que pena, digo eu. Se eu soubesse teria pedido a meus pais para me fazerem mais tarde, depois de outros filhos; mas não poderia prever que só iria encontrá-la em 1959. Agora acho que já fica difícil tomar qualquer providência”).

Eu adoro a crônica  “em homenagem” ao incorporador imobiliário que vem estragar a paisagem (“é verdade que no caso do Sr. Bezerra ainda não se pode falar propriamente em obras, mas em desobras, pois ele não fez nada, só desfez”), como também Sizenando, a vida é triste, em que afirma: “Sou um homem do interior… às vezes penso que eu merecia ser goiano e entrelaça solidão, esperanto, escotismo, acordar cedo, tabagismo; e como esquecer as crônicas metalinguísticas[2]? E aquela em que ele desanca os preciosistas do gramatiquês (“Confesso que escrevo de palpite, como outras pessoas tocam piano de ouvido”), que tem como mote algumas questões de concursos (o significado do vocábulo escardinchar, qual a fêmea do cupim, o antônimo de póstumo, e como se chama o natural do Cairo): “mas a mim é que não escardincham assim, sem mais nem menos: não sou fêmea de cupim nem antônimo de póstumo nenhum; e sou cachoeirense…”

Tem até um legítimo conto, História triste de tuim, que merecia estar entre as melhores histórias de bichos já escritas.

Não conseguindo largar Ai de ti, Copacabana, desde que comecei a leitura, estarrecido com a força, a graça, a poesia e o apelo de textos já pra lá de cinquentões, resolvi frear  minha homenagem por aqui. Senão, corria o risco de ficar lendo Rubem Braga por todo 2013.

braga velho

ANEXO– Adolescente (15 ou 16 anos), gostava demais da crônica abaixo, a qual, para mim, permaneceu como a mais paradigmática do universo de Rubem Braga. Hoje talvez desse preferência a outras,  mesmo assim creio que ela continua muito bonita, em sua singeleza e integridade poética (apesar dos riscos da pieguice), e por isso a transcrevo como amostra maior de Ai de ti, Copacabana:

 A outra noite

Outro dia fui a São Paulo e resolvi voltar à noite, uma noite de vento sul e chuva, tanto lá como aqui. Quando vinha para casa de táxi, encontrei um amigo e o trouxe até Copacabana; e contei a ele que lá em cima, além das nuvens, estava um luar lindo, de lua cheia; e que as nuvens feias que cobriam a cidade eram, vistas de cima, enluaradas, colchões de sonho, alvas, uma paisagem irreal.

Depois que o meu amigo desceu do carro, o chofer aproveitou um sinal fechado para voltar-se para mim:

__ O senhor vai desculpar, eu estava aqui a ouvir sua conversa. Mas, tem mesmo luar lá em cima?

Confirmei: sim, acima da nossa noite preta e enlamaçada e torpe havia uma outra—pura, perfeita e linda.

__ Mas, que coisa…

Ele chegou a pôr a cabeça fora do carro para olhar o céu fechado de chuva. Depois continuou guiando mais lentamente. Não sei se sonhava em ser aviador ou pensava em outra coisa.

__ Ora, sim senhor…

E, quando saltei e paguei a corrida, ele me disse um “boa noite” e um “muito obrigado ao senhor” tão sinceros, tão veementes, como se eu lhe tivesse feito um presente de rei. (Rio, setembro, 1959)

 

ai-de-ti-copacabana-rubem-braga-autografado_MLB-O-167761236_922


[1] A meu ver, um subgênero, superestimado, mas essa é uma questão que não cabe aqui.

[2] “__ Fico admirado como é que você, morando nesta cidade, consegue escrever uma semana inteira sem reclamar, sem protestar, sem espinafrar!

   E meu amigo falou de água, telefone, Light em geral, carne, batata, transporte, custo de vida, buracos na rua etc, etc, etc.

   Meu amigo está, como dizem as pessoas exageradas, grávido de razões. Mas que posso fazer? Até que tenho reclamado muito isto e aquilo. Mas seu eu ficar rezingando todo dia, estou roubado: quem vai aguentar me ler? Acho que o leitor gosta de ver suas queixas no jornal, mas em termos…” (A nuvem)

AI-DE-TI-COPACABANA

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.