MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

09/06/2012

Deu a louca em Federico?

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 16 de março de 1999)

Ao longo dos anos, Federico García Lorca (1898-1936) parece estar inscrito na literatura deste século mais por causa do seu final trágico, ligado às monstruosidades de uma ditadura (como se sabe, ele foi assassinado pelo regime franquista) do que pela sua obra, que apresenta momentos importantes tanto na poesia (é o caso de Poeta em Nova Iorque) quanto no teatro (é o caso de Bodas de sangue, Yerma & A casa de Bernarda Alba).

Não será, entretanto, com Sonetos de Amor Obscuro (Sonetos del Amor Oscuro, em tradução de Afonso Félix de Souza para a Bertrand Brasil) que o poeta espanhol poderá pleitear a posteridade. Esses sonetos só foram publicados em 1984 pela família de Lorca, e a eles se reuniu outro grupo de poemas inéditos, Divã do Tamarit (Divan del Tamarit). Mais uma vez temos escritos póstumos que não apenas em nada contribuem para a obra de um autor como a atravancam e desfiguram.

A “novidade” dos Sonetos consistiria no fato de que, neles, Lorca assume completamente sua homossexualidade. Mas coitado do amado que recebeu esse presente. Quando não são insípidos, os 11 poemas são francamente horrorosos. É a cafonice dançando flamenco desavergonhadamente com as castanholas do mau gosto. Que, aliás, já começa pelo prefácio do tradutor, o qual tem o desplante de citar a ridícula reação de outro importante poeta da Espanha, o nobelizado Vicente Aleixandre, ao ler o conjunto: “Surpreendido, pude apenas ficar olhando-o e exclamar: Federico, que coração! Quanto teve de amar, quanto teve de sofrer”!!!!!?????

Realmente, quanto teve de amar e sofrer Federico para nos impingir coisas como Soneto da Grinalda de Rosas (“Soneto de la Guirnalda de Rosas”), que tem imagens do tipo “Sangue em coxa de mel bebe em seguida” (“Bebe en muslo de miel sangre vertida”) e termina com três versos horríveis: “Agora unidos,  enlaçados/ boca rota de amor e alma mordida/o tempo nos encontre destroçados” (“Que unidos, enlazados/boca rota de amor y alma mordida/el tiempo nos encuentre destrozados”). Boca rota de amor, bancarrota de bom senso poético de Lorca. Quase dá vontade de dar uma de José Simão e me valer de seus trocadilhos: Federico García, a Louca.

No Soneto da Doce Queixa (“Tengo miedo a perder la maravilla”), às imagens de um sentimentalismo constrangedor (“solitária flor de teu alento”, “íntimo verme de meu sofrimento”; no original, “la solitaria rosa de tu aliento”, “el gusano de mi sufrimiento”), soma-se a disposição masoquista e subserviente do homossexual-padrão diante do objeto amado (“sou o cão o teu solar guardando”, “soy el perro de tu señorio”), que vai se repetir, páginas adiante, no Soneto da Carta (“El poeta pide a su amor que le escriba”): “Por ti rasguei as veias às dezenas” (“Pero yo te sufri. Rasgué mis venas”);e mais adiante ainda, em Noite de amor insone (“Noche del amor insomne”): “eu me pus a chorar e tu, tu rias/teu desdém era um deus; minhas sombrias/ queixas, pombas” (“yo me puse a llorar y tú reias/tu desdén era un dios, las quejas mias/ momentos y palomas em cadena”)!!!!!!???? É coração demais, Federico, e vergonha de menos.

Viramos as páginas e encontramos um título horrendo: Chagas de Amor (“Llagas de amor”)—que coração, Federico! Quanto sofreu, quanto amou! Ali as chagas se sucedem em imagens paupérrimas: “este pranto de sangue que decora lira já sem vigor”, “esta lacraia que em meu peito mora” (“este llanto de sangre que decora lira sin pulso ya”,”este alacrán que por mi pecho mora”), embora voltem as grinaldas, um leitmotiv dessas Chagas de Amor Obscuro.

E quem será o culpado do “crime contra minhas flores” (o leitor permitirá a quem aqui escreve uma grinalda de exclamações: !!!!!!!!)—no original, “el asesinato de mis flores”—em O poeta diz a verdade, “El poeta dice la verdad” (é muito melhor quando o poeta é um fingidor, Federico deveria saber); depois de falar a verdade, O poeta fala por telefone com seu amor” (“El poeta habla por telefono con el Amor”), onde duas imagens competem em ruindade: “flor de feto” (“flor de helecho”) e “obscura corça malferida” (“oscura corza herida”), enquanto o poeta ouve a “distante e doce voz amortecida” (“lejana y dulce voz amortecida”) do amado.

E assim vamos: “Lá beijaram teus dedos os espinhos/ que coroam de amor pedra remota”, “Han besado tus dedos los espinos/que coronan de amor piedra remota” (O poeta pergunta a seu amor pela cidade encantada de Cuenca, “El poeta pregunta a su amor por la ciudad encantada de Cuenca”—um nome de cidade que quase mereceria uma paródia, utilizando aquele item do vestuário masculino, que teia tudo a ver no contexto dos sonetos), “ai, balidos sem lãs! Ai, ai, ferida!/ Ai, voz secreta. Ai, voz do amor obscuro” (“Ay balido sin lanas! ay herida!/Ay voz secreta del amor oscuro”)—será que deu a louca em Lorca?: “continua a dormir, tu, minha vida/ ouve meu sangue roto em notas finas”, “pero sigue durmiendo, vida mia/ oye mi sangre rota en los violinos” (O amor dorme no peito do peito do poeta, “El amor duerme en el pecho del poeta”).

Mas a taça do volume, a pérola do contrassenso, encontra-se em Soneto gongórico em que o Poeta manda uma pomba a seu Amor (“Soneto gongorino en que el Poeta manda a su Amor una paloma”). Veja-se a primeira quadra: “O pombinho de Túria que te mando/ de olhos doces e de branca pluma/sobre loureiro grego verte a suma/ do amor em chama lenta me queimando” (“Este pichón del Turia que te mando/ de dulces ojos y de blanca pluma/ sobre laurel de Grecia vierte y suma/ llama lenta de amor do estoy parando”. Ai, esse coração, Federico! Pombas! Não satisfeito, ele ainda nos brinda com “nevada melodia/ em flocos vai cobrir-te a formosura”, “nevada melodia/ esparce en copos sobre tu hermosura” (é que ele aconselha o amado a passar a mão bem de leve na pomba que ele mandou, não é lindo?). E o soneto termina desta forma: “Assim meu coração, sem ver-te, dia/ e noite na prisão do amor, escura/ fica a chorar sua melancolia” (“Así mi corazón de noche y día/ preso en la cárcel del amor oscura/ llora sin verte su melancolía”).

Esse choro de melancolia, dia e noite, na prisão do amor, deveria ter ficado guardado a sete chaves. Essa queda da Bastilha onde mofavam as bobagens do amor que não ousa dizer o nome escritas por Lorca é mais uma prova de que os escritores deveriam cultivar o saudável hábito do fogo e do cesto de lixo.

O leitor deve estar se perguntando: e o Divã do Tamarit?  Confesso que, depois de ler, nos primeiros poemas, versos como “ninguém sabia que martirizavas/ um colibri de amor entre teus dentes” (“nadie sabia que martirizavas/ un colibri de amor entre los dientes”) ou “mas eu irei/ entregando aos sapos o mordido cravo” (“pero yo ire/ entregando a los sapos mi mordido clavel”), desisti de prosseguir. Mas se alguém tiver muita, muita curiosidade de saber o que é “Tamarit”, isso eu posso contar: é uma chácara de propriedade da família de Lorca. Foi ali que ele escreveu tais versos tão essenciais à humanidade.

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