MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

11/07/2011

Destaque do Blog: ADEUS, COLUMBUS, de Philip Roth

philiprothadeus, columbus

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OUTRO MEIO SÉCULO GLORIOSO

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 18 de agosto de 2009)

Além de Vargas Llosa, outro romancista ao mesmo tempo popular e controverso (76 anos) completa meio século de carreira em 2009, e sua estréia também foi com um atípico livro de contos,  ADEUS, COLUMBUS, o qual, aliás, tornou-se paradigmático no tratamento crítico dos costumes judaicos e causou um furor que se acirraria no final dos anos 60, com o afrontoso  O Complexo de Portnoy (1969), que está para sua obra como Hamlet para a de Shakespeare (e o mais tardio e esplêndido O Teatro de Sabbath, de 1995, é o seu Rei Lear, calcado numa sexualidade politicamente incorreta e numa retórica majestosa). O livro de estréia de Llosa, Os chefes, certamente não teve o mesmo impacto, e é um dos seus trabalhos menos citados.

A coletânea de Roth (contendo a novela-título e cinco contos) foi publicada no Brasil diretamente na Companhia de Bolso (não há edição anterior), traduzida pelo ótimo Paulo Henriques Britto.

“Adeus, Columbus” é uma espécie de Trabalhos de Amor Perdidos. Tornou-se um clássico, muito imitado (e que até hoje vemos na ficção e no cinema norte-americanos; aqui no Brasil, nós tivemos algo similar em O encontro marcado , de Fernando Sabino), ao narrar um verão em que o jovem protagonista parece ter descoberto o amor, num rito de passagem entre a disponibilidade pós-adolescente e os compromissos irrevogáveis que vão aparecendo. Para mim, entretanto, os que roubam a cena são os coadjuvantes: a tia do rapaz, o pai da garota. Personagens que se tornaram emblemáticos da narrativa de costumes judaicos, para o bem e para o mal.

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No entanto, os pontos altos de ADEUS, COLUMBUS são três contos absolutamente extraordinários e que eclipsam  os outros textos:  dois contos em que Roth satiriza e ajusta contas com aspectos do judaísmo, “O defensor da fé” (o meu favorito pessoal) e “”Eli, o fanático”, e um maravilhosa história, um pouco na linha da novela-título porque o tempo lhe deu ares de comédia de costumes, “Epstein”.

“O defensor da fé” apresenta um narrador (e a narração em primeira pessoa é o reino de Roth), um oficial condecorado, que vai trabalhar com recrutas na etapa derradeira  da segunda grande guerra (“Em maio de 1946, poucas semanas após o fim do conflito na Europa, fui transferido para os EUA, onde fiquei até o final da guerra com ujma companhia de treinamento no Camp Crowder, Missouri“), quando os americanos iam lutar no Pacífico.

Nathan Marx  tem de se defrontar com a má fé com que um dos recrutas, também judeu, Sheldon Grossbart, se aproveita da sua fé para ter vantagens pessoais. Primeiramente, Sheldon exercita uma certa familiaridade com Marx, devido ao fato de ambos serem judeus. Aproveita para reclamar do dia da faxina geral, “logo na sexta“, alegando que contraria seus princípios religiosos (e de alguns outros recrutas, que sempre servem de esteio para suas reivindicações, e são dois patetas totalmente manipuláveis). “Só quero os meus direitos“. Quando apresenta o problema ao capitão, o sargento percebe que parece estar tomando partido, defendendo a posição do recruta.E fica furioso (interessante também é o discurso do capitão, altamente preconceituoso, mas querendo mostrar que tem a mente aberta, desde que um homem se comporte como tal, como o próprio Marx mostrou na guerra, e por isso é respeitado). Sheldon consegue o seu objetivo e durante o culto, Marx o ouve dizer aos companheiros, rindo: “Lavar o chão é pros góis”. Não será decerto a última reivindicação de Sheldon. A mais problemática é o pedido de licença de alguns dias (nenhum recruta tem permissão de licença durante o treinamento) para o Pessach, na casa de uma tia. Com seus resquícios de judaísmo, Marx lhe diz que a data já passou e no entanto é engabelado pela exasperante renitência do recruta em se deixar vencer e convencer por argumentos de autoridade, igualdade, etc (“Eu podia sair e ninguém ia ficar sabendo”. “Eu ficaria sabendo. Você também”. “Só nós. Nós dois”.) Vencido (“Quem era Nathan Marx para ser tão sovina com a bondade?”), numa cena maravilhosa de comédia humana,  o sargento lhe concede a licença e também aos outros dois recrutas judeus: “Só quero que me deixem viver como judeu… Eui não quero criar caso nenhum. Essa é a primeira acusação que eles sempre fazem à gente” (paralelamente às investidas pessoais em Marx, Sheldon, utilizando o nome  do pai, escreve cartas a deputados, para conseguir tratamento privilegiado devido às suas “convicções religiosas”).

Quando eles retornam do Pessach fora da hora, trazem de presente ao “protetor” não a comida judaica feita nessas ocasiões, mas um rolinho primavera, porque a tia nem estava em casa e foram farrear num restaurante chinês (“Ele era totalmente estratégico. Mas eu –percebi-o com a força de uma condenação– também era!”). Apesar da bronca de Marx, a próxima campanha de Sheldon é não ser enviado ao Pacífico. Quando o sargento percebe que ele conseguiu seu objetivo, faz uma pequena maldade (embora, em se tratando da guerra, pode significar uma maldade letal): mexe os pauzinhos e é outra recruta que fica liberado do embarque: “O que é que o senhor tem contra mim?… Maldito o dia em que o conheci. .. O seu anti-semitismo não tem limites”

      Essa obra-prima termina com esse diálogo em que Sheldon vai pedir explicações e reparações a Marx.A última palavra do sargento ao recruta folgado é: “Você vai se sair bem, disse eu, à porta”. Mas as últimas palavras do relato são: “Nos alojamentos, pelas janelas iluminadas, vi os rapazes de camisetas sentados nos beliches… Com um nervosismo discreto, eles engraxavam sapatos, lustravam fivelas de cintos, dobravam cuecas, tentavam da melhor maneira possível  aceitar seu destino. Atrás de mim, Grossbart engolia em seco, aceitando o dele. E então, resistindo com toda a minha força de vontade ao impulso de me virar para trás e pedir perdão pelo meu ato de vingança, aceitei o meu.

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     É uma das melhores variações que eu já li do tipo de narrativa em que o narrador tem de se defrontar com um Outro exasperante, que o leva a limites insuspeitados de caráter e a tomar decisões turbulentas e sérias (baseadas em reações que não se aplicariam a um estranho que nos é indiferente), e se torna um fardo da sua existência, e cujo modelo é o  extraordinário Bartleby, de Hermann Melville. Como eu mesmo já me vi nessa situação, de “aturar” uma pessoa exasperante, e que despertava o pior em mim, e que por mais que eu quisesse distância se mantinha próxima, eu fiquei apaixonado pela maneira como o texto consegue captar todas as nuances de irritação, pena, automistificação, má consciência…

Já “Eli, o fanático” pega o judaísmo pela outra ponta, satirizando a assimilação dos judeus à cultura americana dos subúrbios e da prosperidade tida como uma fortaleza cercada de inimigos por todos os lados (que é o aspecto mais interessante de A vila, aquele curioso filme de M. Night Shyamalan). Uma comunidade judaica “assimilada” fica horrorizada com uma escola que abriga refugiados da guerra e pura ortodoxia. Um dos membros se veste de maneira radical, como um ser vindo do fundo dos tempos. O advogado Eli serve de intermediário entre a comunidade assimilada e os intrusos “pitorescos”. Eli presenteia o rapaz com suas próprias e modernas roupas… e encontra na porta da sua casa o traje anatematizado. Enquanto sua mulher dá à luz no hospital, o traje o atrai como uma cobra ao passarinho… e ele o veste e anda pela cidade vestido assim.

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Em “Epstein”, o personagem central hospeda o sobrinho (está brigado há muitos anos com o pai dele, uma das várias frustrações da sua existência; para se medir a extensão desse sentimento de logro, basta dizer que o relato transcorre em 1957 e ele pensa: “em 1927, ele e a mulher eram pessoas bonitas”—o que houve nesses 30 anos?) e o flagra (sem ser visto) transando com a filha da vizinha no tapete da sala. Instigado pela cena,  inicia um caso com Ida Kauffman. Surpreendendo-o nu, a esposa  percebe que ele tem uma ferida no pênis e começa a gritar “Sífilis”. O escândalo doméstico que se segue é de uma graça inenarrável.

27/12/2009

Em relação ao século XX: 100, 75, 50, 25 anos de obras e autores

[Juan Carlos Onetti]

{Eugene Ionesco}

[Norberto Bobbio]

[Selma Lagerlöf]

100 anos- Em 2009, a escritora alemã Herta Müller ganhou o Nobel. Exatamente cem anos atrás, a sueca Selma Lagerlöf (1858-1940) tornava-se a primeira mulher a receber o prêmio. Não conheço muito bem sua obra,  só li algumas histórias de De saga em saga, uma coletânea que aparece numa coleção dos premiados com o Nobel, porém há um ensaio excelente de Marguerite Yourcenar sobre ela em Notas à margem do tempo, e que nos faz vislumbrar um universo fascinante.

    No mesmo ano em que a autora de A saga de Gösta Berlings (seu livro mais conhecido) se tornava a pioneira de uma lista ainda muito pequena, nascia na Romênia natal de Herta Müller um dramaturgo originalíssimo, que faria parte do chamado “teatro do absurdo”: Eugene Ionesco, de A cantora careca, Os rinocerontes; A lição; e, no Uruguai, um dos prosadores que mais mereceriam o Nobel no século XX: Juan Carlos Onetti, com obras do calibre de A vida breve, O estaleiro & Junta-Cadáveres, e que forma, com o argentino Jorge Luis Borges e o mexicano Juan Rulfo a santíssima trindade da ficção hispano-americana.

      Também em 1909, nascia o grande pensador italiano Norberto Bobbio, autor dos ensaios maravilhosos reunidos em Nem com Marx, nem contra Marx. E na Letônia nascia o luminoso Isaiah Berlin (que faria carreira na Inglaterra), o autor de Pensadores russos, um pensador que gostava mais de escrever ensaios do que preparar “livros”.  E naquele ano, Lima Barreto lançava seu libelo anti-racista que também, e principalmente, é um poderoso romance, Recordações do escrivão Isaías Caminha.

75 anos- De 1934, gostaria de destacar dois romances essenciais: o maior livro de Graciliano Ramos, São Bernardo (ser o melhor livro de um escritor como Graciliano é um fato por si só notável; para mim, aliás, os maiores romances brasileiros do século passado são Grande sertão: veredas; A maçã no escuro; São Bernardo  & Triste fim de Policarpo Quaresma); e o terrível e avassalador Morte a crédito, de Louis-Ferdinand Céline (que talvez seja até maior do que sua obra-prima anterior, Viagem ao fim da noite). Vidas secas e cheias de angústia no Nordeste e na França. A vida lembrada, cá e lá, como memórias do cárcere

[raymond chandler]

50 anos- É difícil escolher o acontecimento literário supremo de 1959, ano em que morria o grande Raymond Chandler, pois nesse ano iniciavam suas carreiras gloriosas nomes como Günter Grass, com O tambor de lata, certamente um dos maiores romances já escritos; os outros não começaram já nesse patamar: Philip Roth (Adeus, Columbus), Vargas Llosa (Os chefes) e Dalton Trevisan (Novelas nada exemplares). O único título comparável em magnitude ao de Grass talvez seja O almoço nu, que revelou o universo muito peculiar de William Burroughs, mas cuja legibilidade maior foi possível graças à notável versão cinematográfica de David Cronemberg (a versão de O tambor nada tem de notável). Mesmo assim, um romance cinquentenário pelo qual tenho um carinho especial é Um cântico para Leibowitz, de Walter M. Miller Jr, merecidamente um clássico da ficção científica, mas que não se restringe a um “livro de gênero”. Na área de contos, é difícil pensar num título mais importante do que As armas secretas, de Cortázar, não só por causa da sua qualidade literária (o meu favorito é “Cartas da mamãe”, mas o mais considerado é “O perseguidor”, baseado na vida de Charlie Parker), como pela sua influência na literatura dos anos 60 e 70: basta lembrar que “As babas do diabo” foi a inspiração de Antonioni para seu Blow up (1968). Também não se pode esquecer a irreverência, a jovialidade e o trato de linguagem de Zazie no metrô, a obra-prima de Raymond Queneau.

     Em 1959, Jean-Paul Sartre dedicou-se a escrever um roteiro imenso (depois não utilizado, naquela época não existiam as produções para a tv a cabo, não existia a HBO; mesmo assim, Sartre resmungou que as pessoas tinham paciência para ver quatro horas da vida de Ben-Hur e não tinham para ver a vida do criador da psicanálise) sobre a vida de Freud para John Huston. O filme é ótimo, mas o texto de Sartre não fica atrás: Freud, além da alma; o marcante romancista português Vergílio Ferreira lançou sua obra mais famosa, o difícil porém importante Aparição; e há quem ache uma obra-prima (não é o meu caso) Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso, ainda assim um livro que se deve levar em conta. Em todo caso, eu prefiro o folhetinesco Asfalto selvagem, as deliciosas desventuras em série de Engraçadinha, uma das grandes criações de Nélson Rodrigues

25 anos- Em 1984, morriam tanto Cortázar quanto outro autor genial, Truman Capote, cujo inacabado romance Súplicas atendidas foi lançado no Brasil este ano pela L&PM, e que prova o incrível trabalho feito pela sua alcoólica mãe (que tinha vergonha da homossexualidade do filho) para lhe incutir culpa e autodesprezo. Numa vertente gay oposta, de eliminação de toda essa automortificação, temos um clássico da nossa ficção recente, Vagas notícias de Melinha Marchiotti, de João Silvério Trevisan, um romance paródico, inventivo e infelizmente pouco conhecido, assim como Democracia, da norte-americana Joan Didion, e até mesmo O ano da morte de Ricardo Reis, o menos popular (e o melhor) José Saramago. Muito conhecido, pelo contrário, e igualmente notável é O amante, de Marguerite Duras.

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25 anos- Em 1984, morriam tanto Cortázar quanto outro autor genial, Truman Capote, cujo inacabado romance Súplicas atendidas foi lançado no Brasil este ano pela L&PM, e que prova o incrível trabalho feito pela sua alcoólica mãe (que tinha vergonha da homossexualidade do filho) para lhe incutir culpa e autodesprezo. Numa vertente gay oposta, de eliminação de toda essa automortificação, temos um clássico da nossa ficção recente, Vagas notícias de Melinha Marchiotti, de João Silvério Trevisan, um romance paródico, inventivo e infelizmente pouco conhecido, assim como Democracia, da norte-americana Joan Didion (sempre cito uma de suas frases, “ninguém está isento do movimento geral”, e sua heroína, Inez Christian Victor, é como se fosse uma amiga pessoal), e até mesmo O ano da morte de Ricardo Reis, o menos popular (e o melhor) José Saramago. Muito conhecido, pelo contrário, e igualmente notável é O amante, de Marguerite Duras, a qual justamente em 1959 havia escrito o mais belo dos roteiros em hiroshima, meu amor, dirigido por Alain Resnais.

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