MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

18/11/2011

JOSEPH CONRAD: MEDO DA ANARQUIA POLÍTICA & RECONHECIMENTO DA ANARQUIA INTERIOR

CONRADum anarquista

 

 PRIMEIRA ANOTAÇÃO (23.06.09)

Lendo Alexandre Dumas, a viagem do seu último herói, o Cavaleiro de Sainte-Hermine, pelas selvas da Birmânia me veio à mente Coração das Trevas, de Joseph Conrad. E resolvi então ler a seleção que Dirceu Villa fez de quatro contos de A set of six (1908) para a editora Hedra. Era um grupo de seis, ficaram quatro que se tornaram Um anarquista & outros contos. O tradutor explica por que foram deixados os outros dois (um deles, O duelo, já tem seu próprio caminho, independentemente da coletânea ao qual pertencia originalmente), e são boas razões, mesmo assim ainda acho que foi um erro e uma perda. Se o polonês que foi mestre da língua inglesa Conrad (1857-1924), e era extremamente consciente do ato de escrever (num grau só comparável ao de Henry  James), queria reunir um grupo de seis, com certeza é porque esse grupo tinha afinidades entre si. Quem quiser pelo menos a set of five em português, há três traduções de O duelo bem recentes, só mesmo Gaspar Ruiz eu desconheço se foi traduzido alguma vez no Brasil.

Conrad é um autor essencial. Para se ter uma idéia da dimensão que eu (seguindo tantos outros) dou à sua obra, na virada do milênio me pediram para listar os maiores romances do século passado e coloquei Nostromo (1904) entre os dez primeiros (o  mesmo para O coração das trevas na lista das dez maiores “novelas”), junto com A montanha mágica (Mann), Luz em agosto (Faulkner), O castelo (Kafka), As ondas (V. Woolf), Em busca do tempo perdido (Proust), As asas da pomba (H.James), Ulisses (Joyce), O estrangeiro (Camus) e O homem sem qualidades (Musil).

A primeira narrativa de Um anarquista & outros contos é  O informante e quem leu O agente secreto (1907) vai reconhecer a atmosfera similar: Londres, os anarquistas refugiados, a mistura de indolência e pregação abstrata & atentados e grupos conspiratórios, cheios de gente mal resolvida e perigosa, mais do que ideologicamente, patologicamente.

A narrativa, como sempre em Conrad, é bastante enviesada: temos um primeiro narrador que toma contato com um monstro sagrado do anarquismo, o sr. X, que parece perfeitamente refestelado numa vida confortável, sibarita, filistéia, enquanto escreve os panfletos mais incendiários e demolidores. Num jantar, esse sr. X se torna o segundo narrador da história, ao contar que veio de Bruxelas a Londres, uma vez, para investigar por que uma célula anarquista só obtinha fracassos quando tudo era tão bem planejado. É preciso ler a descrição derrisória que o sr. X faz de diversos membros do grupo, no qual está obviamente infiltrado um informante da polícia, para o qual ele prepara uma armadilha (uma falsa batida da polícia no local onde o grupo se reúne).

Descobre então que um dos mais entusiasmados e aparentemente singelos e devotados membros é na verdade o informante, que era um inimigo ferrenho da causa. Ele só se entrega porque se apaixonou por uma outra participante do grupo (e dona do imóvel no qual eles se reúnem) e achando que ela pode ser presa pela polícia, acaba se denunciando e ingerindo um veneno. Porém, ela só está no movimento por pose, sem uma verdadeira convicção revolucionária, como uma atriz num papel vivendo-o histrionicamente. No final, vemos a obsessão de Conrad pelos dilemas cavalheirescos (que dominam, por exemplo, Lord Jim & Chance- A força do acaso) que sobrepujam os problemas ideológicos. Há também o contraste entre o primeiro narrador que leva a sério a ameaça do anarquismo (pelo qual Conrad tinha um horror ambivalente) ou outros movimentos revolucionários e a frivolidade com que o segundo narrador, o sr. X, vê os revolucionários de araque, ou então igualando aqueles que são fervorosamente “pelo” movimento e os que são fervorosamente “contra”.

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O primeiro narrador é alguém que, de fora, vê as coisas em estado puro: “Anarquistas, suponho, não têm famílias –de qualquer forma, não do modo como entendemos essa relação social. A organização em famílias talvez responda a uma necessidade da natureza humana,mas em última instância é baseada na lei, e  portanto deve ser algo odioso e impossível para um anarquista. Mas, de fato, não entendo os anarquistas. Um homem dessa… dessa facção permanece anarquista quando só, totalmente só e indo dormir, por exemplo? Ele deita sua cabeça no travesseiro, puxa suas mantas e vai dormir com a necessidade do ´chambardement général´, como na gíria francesa, o ´bombardeio geral´, sempre presente em sua mente? Se sim, como pode? Estou certo de que se tal fé (ou fanatismo) se apossasse de meus pensamentos, jamais seria capaz de compor-me suficientemente para dormir ou comer ou realizar quaisquer das rotinas da vida diária. Não desejaria esposa, ou filhos; não poderia ter amigos, me parece… Enfim, não sei. Tudo o que sei é que o sr. X fazia suas refeições num restaurante muito bom, que eu também freqüentava.”

      Já o sr. X, o panfletário, o incendiário, é totalmente pragmático e adepto da “Real Politik”. Ao comentar a figura do informante (note-se que não estou dando maiores detalhes da trama para não estragar a leitura desse “conto irônico”, como está no subtítulo): “A parte mais interessante era o seu [do informante] diário; pois esse homem, metido num trabalho tão mortal, teve a fraqueza de manter um registro do tipo mais condenatório. Lá estavam seus atos e pensamentos, desnudados diante de nós. Mas os mortos não se importam com isso… Um humanitarismo vago mas ardente o havia impelido em tenra idade para os mais amargos extremos da negação e da revolta. Você já ouviu falar de ateus convertidos. Eles se tornam fanáticos perigosos, mas a alma permanece a mesma. Após ter conhecido a garota, encontram-se naquele seu diário estranhas rapsódias político-amorosas. Tomasva as poses de soberania dela com seriedade circunspecta. Ansiava por convertê-la… não sei se você se lembra, faz uns bons anos já, da sensação jornalística do Mistério da Hermione Street; encontraram o corpo de um homem no porão de uma casa vazia;  o inquérito, algumas prisões, várias conjecturas, e então silêncio, o final costumeiro para muitos mártires e confidentes obscuros. O fato é que ele não era suficientemente otimista. É preciso ser um otimista selvage, tirânico, impiedoso, um faz-tudo como Horne [outro membro do grupo], por exemplo, para resultar num bom rebelde social do tipo extremista”. O narrador pergunta sobre a garota: “Você quer realment saber?  Confesso a pequena malícia de ter-lhe enviado o diário de Sevrin [o informante]. Ela retirou-se; foi, então, para Florença; daí, recolheu-se a um convento. Não saberia lhe dizer onde irá depois. E isso importa? Gestos! Gestos! Meros gestos de sua classe! … Por isso essa raça está com os dias contados”.

MORTE EM NÁPOLES (25.06.09)

A Itália é muito perigosa, pelo menos na alta ficção. O icônico Morte em Veneza, de Thomas Mann, está aí para provar. Mais benigno, porém trabalhando na mesma direção de forças libidinosas represadas explodindo de forma inquietante, temos  Um quarto com uma vista, de E. M. Forster. E contemporâneo, de certa forma, aos dois (todos foram escritos nos primeiros quinze anos do século XX), um dos textos traduzidos em Um anarquista e outros contos: Il Conde. Se O informante é um conto “irônico” e “O duelo” um conto “militar”, Il Conde é um “conto patético”. Parecem andamentos diferentes de uma sinfonia, cada um com sua modulação. Essa analogia é ainda mais apropriada (e já deve ter sido feita por alguém) porque Il Conde repete o mesmo esquema narrativo de O informante: temos novamente um narrador original, que conhece um outro personagem, seu interlocutor pela narrativa inteira, que lhe narra um episódio.

É preciso examinar um pouco esse “primeiro narrador” genérico desses textos conradianos. O grande autor de Sob os olhos do Ocidente criou um narrador memorável, Marlow, normalmente identificado nos textos dos quais participa por sua biografia ligada ao mar (é o caso de Mocidade, aqui também traduzido como Juventude, de Coração das trevas e de Lord Jim). Os narradores de O informante e Il Conde poderiam ser a mesma pessoa, só que não Marlow. Conrad parece ter criado a quintessência do “homem do mundo”, viajado, com conhecidos em capitais importantes, cidadão europeu civilizado, culto, mas não pedante, bem nascido, mas não insolente ou esnobe, com bom gosto, mas não demasiadamente refinado e lânguido, observador, sagaz, mas muito voltado para os princípios “sadios” da boa sociedade para não se deixar abalar por tudo o que essa sociedade não tem de sadio. Todos os detalhes que ele pinça nos seus interlocutores parecem refletir seus próprios dilemas éticos e cavalheirescos diante dos aspectos “desagradáveis” da vida.

Pois, veja-se, nos dois contos, o narrador e seus interlocutores se conhecem com a mediação de coleções de alto interesse estético e artístico.

O informante se inicia do seguinte modo:  “O sr. X veio a mim, precedido pela carta de recomendação de um bom amigo meu em Paris, especificamente para ver minha coleção de porcelana e bronzes chineses”. Ao receber a visita do famoso revolucionário, ele afirma: “Não falamos senão sobre bronzes e porcelanas. Era de uma sensibilidade notável”. Para depois nos dizer: “Onde estava hospedado, não sei”.

Il Conde, por sua vez, abre com este parágrafo: “Conversamos pela primeira vez no Museu Nacional, em  Nápoles, nas salas do piso térreo que contém a famosa coleção de bronzes de Herculano e Pompéia, aquele maravilhoso legado de arte antiga, cujas delicadas perfeições foram preservadas pela fúria catastrófica de um vulcão”. No parágrafo seguinte: “Ele se dirigiu a mim primeiro, a respeito do celebrado Hermes em repouso que estávamos observando lado a lado. Disse as coisas certas sobre aquela peça inteiramente admirável. Nada profundo. Seu gosto era antes natural que cultivado. É óbvio que havia visto muitas coisas refinadas em sua vida, e as apreciava, mas não possuía o jargão do diletante ou do connaisseur… Falava como um cosmopolita inteligente, um cavalheiro limpo de toda afetação” (é evidente que essa caracterização também reflete a auto-imagem do narrador, e tanto num quanto noutro conto haverá uma reversão, irônica e patética, dessa lisonjeadora caracterização inicial). Poucas páginas adiante lemos (o Conde está hospedado no mesmo hotel que o narrador): “Tinha um castelo, creio que na Boêmia. Isso foi o mais próximo que cheguei de conhecer sua nacionalidade. Seu próprio nome, por estranho que pareça, nunca mencionou”.

Como se pode ver, há muitas similaridades:  informações vagas sobre as circunstâncias mais corriqueiras (residência, num caso; nome e nacionalidade, no outro) tornadas irrisórias pela descrição da imagem cavalheiresca (estou observando muito isso nestes dias, já que em O cavaleiro de Sainte-Hermine, de Dumas, o nobre Hector de Sainte-Hermine, após sua degradação, se apresenta simplesmente como “René” e todos o respeitam e recebem porque sentem que nesse prenome sem maiores detalhes há uma nobreza inata; aliás, comecei este LEITURA DA SEMANA afirmando que lembrei de  Coração das Trevas por causa da expedição de Hector à Birmânia, o que me levou a esta leitura dos contos de, entretanto também podia afirmar o mesmo de O duelo, que transcorre durante as guerras napoleônicas).

O retrato inicial do Conde é assim rematado: “…era um bom europeu –falava quatro línguas, pelo que sei—e um homem rico. Não muito rico, evidente e apropriadamente. Imagino que ser rico demais lhe teria parecido impróprio… demasiado indecoroso. E, obviamente também, a fortuna não havia sido obra sua. Não se pode amealhar uma fortuna sem alguma rudeza”.

O Conde gosta particularmente de Nápoles porque o clima lhe faz bem à saúde prejudicada (tem uma afecção reumática). Ele e o narrador se tornam companheiros de horas agradáveis e gentis até que o segundo tem de se afastar da cidade por cerca de dez dias (a cena em que o conde o acompanha à estação é emblemática da “ideologia de civilidade” que percorre essas páginas).

Quando ele retorna, encontra o conde mortificado e com um comportamento á mesa pouco tranqüilizante (“em vez de ficar ereto, fitando toda a sua volta com urbanidade alerta, curvava-se sobre o prato. Parei por algum tempo diante dele antes que erguesse os olhos, um pouco feroz, se palavra tão forte pode ser associada à correção de sua aparência”). Diga-se de passagem, o texto de Conrad não podia ser mais perfeito como nesse passo, pois podemos ver como se entremeia no discurso do narrador as marcações que indicam os gestos, a fala, o discurso do seu interlocutor, até suas pantomimas. É um momento virtuosístico da arte da narração.

Como em O informante inicia-se uma “segunda narração”, ainda que feita através de uma instância entre nós e o narrador original, que é justamente o primeiro narrador, e portanto essa segunda narração é enviesada e ambígua, temos de levar em conta, seu efeito sobre esse primeiro narrador. E é por isso que fiz questão de caracterizá-lo detalhadamente.

O que o conde tem a contar é um assalto um tanto incomum de que foi vítima durante um concerto musical ao ar livre. O rapaz que o assalta (encostando uma faca na sua barriga) o trata com certo desprezo porque ele carrega pouco dinheiro consigo e um relógio barato (segundo o Conde, havia deixado com o guarda-livros do hotel uma grande quantia no mesmo dia, e seu relógio de ouro estava no relojoeiro para limpeza ), e some na multidão. É um rapaz com todos os traços típicos da região e o Conde, meio abalado pela experiência, julga vê-lo depois em todos os lugares e em todos os rapazes (curiosamente, já tivera a mesma sensação, antes do assalto, quando sentara numa mesinha ao lado de um rapaz que pode ser o assaltante). Apesar de tudo,  sente-se também bastante esfomeado e resolve comer um risoto, utilizando uma “barra de ouro de vinte e cinco francos” que carrega no fundo do bolso caso haja algum “acidente” (“todos estão sujeitos a um furto, algo bastante diferente de um assalto descarado e ultrajante”). Ora, no  Café Umberto onde faz sua refeição, ele vê um rapaz idêntico ao seu assaltante, mas sendo tratado com deferência pelos garçons. Informam-lhe: ele pertence à Camorra, a máfia prototípica.

O Conde paga suas despesas com sua barrinha de ouro, o rapaz também paga, levanta-se, atravessa o café, “aparentemente com o objetivo de mirar-se no jogo de espelhos do pilar mais próximo ao assento do Conde.  Estava todo vestido de preto e com uma gravata borboleta verde-escura. O Conde olhou à volta e se assustou por encontrar um olhar maligno  vindo do canto dos olhos do outro… falou alto, o bastante apenas para que o Conde o ouvisse. Falou de entre os dentes com o mais insultante veneno de desprezo e olhando diretamente no espelho: Ah! Então você tinha ouro aí, seu velho mentiroso, velho birba-farfante! Mas eu não terminei com você, ainda.”

Eis a razão da consternação e mortificação do Conde, que está decidido a deixar Nápoles, apesar de ser uma decisão desastrosa para sua saúde. A explicação do narrador para essa decisão está fortemente enleada pela sua caracterização inicial: “A delicada concepção de sua dignidade fora maculada por uma experiência degradante. Isso era intolerável. Nenhum cavalheiro japonês, ultrajado em seu extremo senso de honra,  teria se preparado para o harakiri com maior resolução”. Depois ele associa a decisão do Conde com o adágio napolitano que serve de epígrafe a essa história “patética”: Vedi Napoli r poi mori, Veja Nápoles e depois morra, que ele considera vaidoso e patrioteiro. Porém, por mais que ele rejeite a idéia, o adágio parece que “pega” e se associa à figura do Conde que ele já vê como moribundo:

“Ele havia visto! Havia visto com alarmante completude –e agora ia para seu túmulo. E ia até ele no train de luxe da Companhia Internacional de Vagões-Dormitórios, atravessando Trieste e Viena. Quando os quatro longos e graves vagões deixaram a estação, eu ergui meu chapéu com o sentimento solene de prestar os últimos respeitos em um cortejo fúnebre…”

O que eu deixei para o final é a ambigüidade do episódio, calcado no equívoco sexual (e magistralmente “invisível” no texto do primeiro narrador). Tudo bem que se pode ignorar esse aspecto e mostrar todo o abalo sentido pelo Conde (e, por tabela, pelo narrador) pelo prisma da ameaça de um membro da Camorra, que mostra que não existe segurança, não há “civilização” suficiente que nos proteja do submundo, do que há para se ver  “com alarmante completude” (“Sua tranqüilidade fora licenciosamente profanada. A requintada gentileza de perspectiva de toda a sua vida havia sido desfigurada”). E também não gosto daqueles que procuram sub-textos homossexuais em tudo que é história ou texto.

Mas acredito que, sem forçar a barra, tratou-se de um episódio que, sem anular a informação sobre a Camorra (mas o próprio Conde diz que a pessoa que lhe deu essa informação é um mentiroso contumaz), há aquela velha situação da “caça”. A ida do senhor idoso de aparência impecável e abastada ao concerto público, ele sentando na mesa com um rapaz desconhecido, fitando-o muito (porque, segundo ele, via nesses traços típicos da região uma atitude de consternação profunda que o deixava alheado do que estava à sua volta e de quem estava ao seu lado), depois o afastamento da multidão para cantos mais solitários do parque, a visão do rapaz (muito parecido com o outro, sentado num banco, na mesma atitude taciturna), as passeadas para lá e para cá que sempre o fazem passar pelo tipo, a intimidade descarada com que o outro o assalta, e principalmente a desfaçatez insolente e desdenhosa com que ele o adverte e desacata no Café Umberto. E só para arrematar, a seguinte passagem, extraída da narração do assalto (cujo cerne é o fato de o Conde não estar de posse de bens que a sua aparência prometia):

 

“Aquele jovem poderia largar a faca num instante e fingir que eu era o agressor. Por que não? Poderia ter dito que o atacara. Por que não? Seria uma história incrível contra a outra! Poderia dizer qualquer coisa, levantar uma acusação desonrosa contra mim, como saber? Pelo modo de vestir, não era um ladrão comum. Parecia pertencer às melhores classes. O que eu poderia dizer? Ele era italiano, eu sou estrangeiro. É claro, tenho meu passaporte, e temos o nosso cônsul, mas ser preso, arrastado à delegacia de polícia à noite, como um criminoso!”

    Sem dúvida, um conto “patético”. Como também aquele do escritor Aschenbach vagando por uma Veneza que lhe traz a vida e a morte.

NAVIO PSICOPATA E BORBOLETA RARA

(28.06.09)

Ainda encontramos um primeiro narrador e um interlocutor nos dois outros contos, A bruta (que já foi traduzido no Brasil como A fera numa antologia de horror selecionada por Alberto Manguel) e Um anarquista. A diferença é que esses interlocutores já não pertencem a uma classe “cultivada”, como o ideólogo (o qual, apesar da apologia revolucionária, refestela-se com o mundo burguês, e afinal é um homem culto, um intelectual) de O informante e o personagem-título de Il Conde, são de classes mais populares, sendo o interlocutor de Um anarquista um proletário.

A bruta mostra o narrador chegando a uma taberna e ouvindo os comentários de três marinheiros. O leitor, a princípio, pensa que esses comentários são a respeito de alguma mulher fatal que finalmente teve a sua punição. Não. Antecipando Christine, o carro-assassino criado por Stephen King, com uma sutileza que o criador de Carrie jamais poderia sonhar, trata-se de uma embarcação, orgulho de uma família (tanto que seu nome é “A família Apse”), que sempre causa mortes e acidentes que os marinheiros atribuem à sua vontade maligna, numa personificação dos seus temores e pressentimentos: “Há embarcações difíceis de manobrar, mas em geral, conta-se com o fato de agirem racionalmente  [ isso quer dizer que eles contam com uma providência racional, benéfica]. Com essa,o que quer que você fizesse, nunca sabia como ia acabar. Era uma besta maligna.  Ou talvez fosse apenas louca… Por que não? Por que não haveria algo na sua constituição, em seu desenho, correspondente  a… –o que é a loucura? É só uma minúscula coisa errada na feitura do cérebro. Por que não haveria uma embarcação louca –digo, louca como uma embarcação pode sê-lo, e em ocasião alguma pudéssemos saber se ela ia fazer o que qualquer outra embarcação razoável naturalmente faria? Há navios de leme duro de manobrar e navios de estabilidade não confiável; outros requerem vigília cuidadosa quando navegando numa tormenta e, ainda, pode haver um navio que faça de uma brisa leve um tempo feio. Mas daí se supõe que seja sempre assim. Considera-se como parte de seu caráter de navio, assim como a gente repara nas peculiaridades de temperamento de um homem, quando lida com ele. Com essa embarcação, não. Imprevisível. Se não era louca, era então a mais bruta, ardilosa e selvagem que jamais flutuou”. O cerne da narrativa é a viagem que o interlocutor-segundo narrador faz na Bruta com seu irmão mais velho, Charles, como imediato. Charles está apaixonado e fica noivo de Maggie Colchester, que está a bordo (“O tio estava lhe dando uma viagem de navio para o bem de sua saúde. Não tenho idéia do que poderia haver de errado com a sua saúde. Tinha uma cor bonita, e um danado de um, monte de cabelo loiro. Não ligava a mínima para vento, chuva, jato d´água, sol, o mar verde, nem nada. Era um jóia de menina de olho azul, das melhores, mas o jeito como era atrevida com o meu irmão me assustava”, note-se a modulação do segundo narrador, bem diversa da dos anteriores). Ele tem como meta vencer a Bruta, fazendo sua primeira viagem “tranqüila”, sem tragédias (“… e antes de mais nada, ponha na sua cabeça que não deixaremos a Bruta matar ninguém nesta viagem. Vamos acabar com a sua farra”). Quando está prestes a cumprir seu objetivo, quase atracando, há um acidente no qual Maggie acaba morrendo (“Maggie subira na âncora de bombordo deixada no convés do castelo de proa. Ela havia sido colocada corretamente em sua base de carvalho, mas não houvera tempo de prendê-la com uma volta. De qualquer forma, estava bem segura, lá onde estava, para ir ao cais, mas pude ver claramente que o cabo de reboque levaria de roldão a pata da âncora em um segundo. Meu coração veio à boca, mas não antes que pudesse gritar: Se afasta daquela âncora! Mas não tive tempo de berrar seu nome. Não acho que chegou a me ouvir. No primeiro toque do cabo contra a pata de âncora, ela caiu…”). Há uma bela descrição da prostração do irmão após essa vingança da bruta: “Charley não se parecia em nada consigo mesmo”.

Vou deixar para os futuros leitores desse “conto indignado” (na antologia de Alberto Manguel, o sub-título aparece como “um caso de invectiva”) a “justiça poética” que dá cabo da embarcação psicótica. Só resta mesmo a “justiça poética” neste nesta nossa condição em que “o universo é basicamente inóspito e nós o povoamos com os nossos afetos”.

Todos os quatro textos de Um anarquista &  outros contos são notáveis. O que dá título à seleção, então,  é excepcional, um dos melhores que já li. O seu sub-título é “um conto desesperado”.  Novamente, como em O agente secreto, Sob os olhos do Ocidente e O informante, há o horror-fascínio preconceituoso, cauteloso, com relação à ação revolucionária, mas também há uma compreensão profunda de uma certa patologia que o stalinismo evidenciou plenamente. E também há as grandes imagens demoníacas de um capitalismo selvagem: o primeiro narrador, cuja ocupação é “caçar borboletas” pelo mundo afora, chega a Caiena e se instala (a um custo de 15 mil libras ) por alguns meses, numa ilha na qual funciona uma grande propriedade de exploração pecuária de uma “famosa companhia manufatora de extrato de carne”. As primeiras páginas do conto são dedicadas a mostrar essa vasta intrujice e fabricação de mentira universal que é a propaganda (isso, num texto do início do século XX), que é praticamente liquidada e caracterizada de uma vez por todas. O detalhe que eu achei mais delicioso é a propaganda dos produtos baseada em “informações científicas”, principalmente porque uma das coisas mais irritantes do nosso consumismo atual é que ele sempre se baseia “nas mais avançadas pesquisas” e o público assiste a anúncios onde se fala  de O% de gordura trans e o caralho a quatro (desculpem o meu francês), ou seja, de coisas de que quase ninguém realmente tem noção do que se trata (eu adoro especialmente aquela comercial de shampoo anti-caspa em que se fala de componentes químicos extraordinários e no final Helena Ranaldi diz enfaticamente: “Estou convencida!”): “É claro que o capital de um país deve ser empregado de modo produtivo. Não tenho nada contra a companhia. Mas sendo animado por sentimentos de afeição para com meus semelhantes, entristece-me o sistema moderno de propaganda. Qualquer que seja a evidência de iniciativa, engenho, ousadia e habilidade em certos indivíduos, ela prova para a minha inteligência apenas a ampla supremacia da degradação mental chamada credulidade”. Mais adiante: “Seja qual for a forma de degradação mental de que (não sendo senão humano) eu possa sofrer, não é dessa forma popular. Não sou crédulo.”

Além da propaganda, a propriedade em si, na ilha (onde ele está porque está atrás de uma espécie rara de borboleta que só existe ali, e de fato ele descobrirá no seu interlocutor um espécime raro), é descrita de forma demoníaca: “Ressoava com os mugidos de inumeráveis rebanhos, um som profundo e aflitivo a céu aberto, elevando-se como um protesto monstruoso de prisioneiros condenados à morte”. Além disso, há um administrador estúpido, boçal, auto-satisfeito, que faz inúmeras alusões debochadas ao esporte que o narrador pratica (“Seu deboche seria bem inofensivo se a intimidade comunicativa, na ausência total de sentimentos amistosos, não fosse uma coisa detestável em si mesma”).

    Após essas primeiras páginas introdutórias ao mecanismo infernal que sustenta o capitalismo moderno (e que continua o mesmo, de 1908 para cá), conhecemos o futuro interlocutor do primeiro narrador: o mecânico encarregado de fazer a manutenção de um barco a vapor de que se serve a propriedade insular). O odioso administrador vive mexendo com ele, provocando-o, chamando-o de Crocodilo (porque passa parte do tempo na água), mas sua provocação favorita é chamá-lo de “un citoyen anarchiste de Barcelone”, um cidadão anarquista de Barcelona, embora ele não saiba direito a origem do mecânico e nem sequer se ele é um anarquista. Ele tem certeza de um fato: é fugitivo da lei. E por isso o tiraniza, humilha e explora como ao gado condenado à morte. O narrador pergunta ao administrador quanto ele paga ao rapaz: “Salário! E para que ele quer dinheiro aqui? Comida ele pega na minha cozinha, e roupa, no depósito. Claro que vou dar alguma coisa para ele no fim de ano, mas você acha que empregaria um condenado e lhe daria o mesmo dinheiro que daria a um homem honesto? Estou zelando pelos interesses da minha companhia, antes e acima de tudo… se tivesse certeza de que ele é um anarquista e se tivesse a pachorra de me pedir dinheiro, eu lhe daria o bico da minha bota. Entretanto, que fique com o benefício da dúvida. Estou pronto a aceitar a idéia de que não tenha feito nada além de espetar uma faca em alguém… Mas aquela coisa podre de subversivo sanguinário que manda para o inferno toda lei e ordem do mundo faz subir o meu sangue. É de tirar o chão sob os pés de cada pessoa decente, respeitável e trabalhadora, simplesmente. Insisto que as pessoas que têm essa consciência, como você e eu, devem ser protegidas de algum jeito, ou então o primeiro salafrário de meia-tigela que aparecesse iria valer o mesmo que eu. Não iria? E isso é absurdo”. Confesso que durante a leitura desse quase-manifesto arrogante, eu fiquei tentado a imaginar toda a lei e ordem desse tipo do mundo indo para o inferno, e tudo que há de subversivo em mim, se não se apoltronou (termo tão caro a Lygia Fagundes Telles) veio à tona. E também fiquei imaginando o que poderia passar pela mente do narrador ouvindo um discurso que o iguala ao administrador, “as pessoas que têm essa consciência, como você e eu”…

Um dos primeiros adjetivos de que o narrador se vale para caracterizar suas impressões do “cidadão anarquista de Barcelona” é “delicado”, o que sem dúvida causa forte contraste com o nada delicado administrador e toda a sua positividade opressiva: “Ao som dos nossos passos levantou um rosto austero, com queixo pontudo e um minúsculo bigode loiro. O que podia ser cisto de seus traços delicados, sob manchas de graxa, parecia-me desgastado e lívido à sombra esverdeada da árvore enorme que estendia sua folhagem sobre o vapor atracado junto à margem”. Como o inesquecível personagem-título de Bartleby, de Hermann Melville, que tinha o seu exasperante bordão “Preferia não fazer”, esse mecânico delicado tem o seu, igualmente misterioso, “Não nego nada”.

Porém, ao contrário de Bartleby, ele se entrega a confidências (no seu catre, como o Kurtz moribundo de Coração das Trevas, e ele mesmo tem o seu quê de “prostrado”) . Ele conta sua história e, vejam só, foi realmente ligado ao anarquismo revolucionário, não em Barcelona, já que era um operário parisiense, conformado com a vida, juntando o seu dinheirinho na poupança. No seu aniversário de vinte e cinco anos, foi comemorar com dois colegas da oficina (e logo apareceram mais dois companheiros, os quais ele não conhecia, mas a quem convidou para se juntarem à comemoração) e bebeu… bebeu…bebeu. E nunca se sentiu tão feliz, pleno e satisfeito: “Mas uma coisa extraordinária aconteceu. Os estranhos disseram que, por algum motivo, sua animação se foi. Idéias melancólicas dispararam em sua mente. O mundo todo fora do café lhe pareceu um lugar mau e funesto, onde uma multidão de pobres infelizes tinha de trabalhar como escrava para o único objetivo de que uns poucos indivíduos andassem de carruagem e vivessem libidinosamente em palácios. Envergonhou-se de sua felicidade. A piedade pelo destino cruel da humanidade oprimiu seu coração [ temos na verdade aqui o velho sentimentalismo do homem bêbado]. Numa voz engasgada de mágoa ele tentou expressar esses sentimentos. Acha que alternadamente chorou e xingou” [aqui temos a narração da narração do acontecido de forma clara].

O que acontece é confusão, vidros quebrados, brigas, chegada da polícia, um cassetete na cabeça do nosso Crocodilo e a prisão. Que por culpa de um advogado ambicioso  se torna uma pena relativamente severa para um réu primário.  Saindo da cadeia, não conseguindo emprego em parte alguma, dele se acerca uma célula subversiva que acompanhara seu caso e não o deixam mais: “…uma existência impossível!Vigiado pela polícia, vigiado pelos camaradas, não pertenço a mim mesmo. O quê? Não poderia sacar uns poucos francos da minha poupança no banco sem um camarada plantado na porta para garantir que eu não fugisse! E a maior parte deles não era nada mais nada menos que arrombador. Os inteligentes, quero dizer. Roubavam dos ricos, apenas retomavam o que era deles, diziam. Quando bebia um pouco, eu acreditava neles. Havia também os tolos e os loucos. Des exaltés, quoi! Quando estava bêbado, eu os adorava. Quando ficava mais bêbado, me enfurecia contra o mundo. Era o melhor momento. Achava refúgio contra a miséria na raiva. Mas não é possível estar sempre bêbado…” É típico de Conrad frisar esse lado malsão da experiência revolucionária, ideólogos manipuladores e gente exaltada ou embriagada, patologicamente servindo a um ideal vão. Os revolucionários quase que caracterizados como mafiosos, um submundo. E assim, nosso herói vai preso novamente, e deportado para Caiena, na prisão da Ilha São José, com dois companheiros da célula anarquista.

Há um motim, maravilhosamente narrado (inclusive com o detalhe caracteristicamente conradiano porque cavalheiresco em que há uma mulher que pode ser atacada e estuprada pelos amotinados e pela qual o operário desviado resolve se sacrificar e dar a vida; a situação não chega a tanto, todavia). Resumindo, os três companheiros anarquistas escapam num bote e aí é que se dá a crise para a qual o relato se encaminha:  toda a revolta do operário enganado pela ilusão revolucionária, as figuras desagradáveis e calculistas dos companheiros, suas artimanhas e mesquinharias, a Real Politik. Como tinha um revólver, ele os domina no bote e os obriga a remar. Um deles, ultrajado, o chama de Camarada: “Não tem camarada aqui. Sou seu patrão”. Mais adiante: “… enquanto falava, remava; e Simon continuou remando, também. Isso me fez sorrir. Ah! Esses dois amavam a vida, nesse mundo maligno deles, assim como eu amara minha vida, também, antes que a arruinassem com suas frases… Lembrei de suas mentiras, de suas promessas, suas ameaças e de todos os meus dias de miséria. Por que não me deixaram em paz quando saí da prisão? Olhei para eles e pensei que, enquanto vivessem, eu não seria livre. Nunca. Nem eu nem outros como eu, com sangue quente e cabeça leve. Pois eu sei que não tenho uma cabeça boa, monsieur”.

Apossa-se dele uma “fúria negra”, “mas não contra a injustiça da sociedade, oh não”. E grita para os camaradas-algozes-reféns no bote: “Eu quero liberdade”. Os outros acham que é uma palavra de ordem (já que avistaram um navio) e também gritam “Viva a liberdade”, afirmando que vão fazer a sociedade burguesa sentir a sua volta. Então ele os assassina. O navio que o recolhe tem a tripulação toda negra, comandada por um mulato que é o único que o compreende um pouco. Eles é quem o colocam em terra na ilha de propriedade da  “famosa companhia manufatora de extrato de carne”, após alguns dias ameaçadores e estranhos de convivência forçada. E é ali, na sujeição e na abjeção, em pleno coração da injustiça e da exploração (da vida humana e animal) que ele encontra a sua libertação do mundo da ideologia e seus rumos ambíguos: “… tentei induzi-lo a deixar o vapor atracado onde estava e ir para a Europa comigo, de lá mesmo e naquele momento. Teria sido delicioso imaginar a surpresa e o desgosto do excelente administrador com a fuga daquele pobre diabo. Mas recusou com obstinação inquebrantável”. O narrador lhe diz que não pode viver para sempre ali, naquela situação: “Devo morrer aqui…Longe deles.” Um pouco antes, no relato, o narrador tentara um diagnóstico do seu estranho interlocutor, da sua borboleta rara (mas mesmo de um tipo raro uma borboleta pertence  a uma espécie geral) encontrada na ilha: “… a minha idéia é a de que ele era mais anarquista do que confessou a mim ou a si mesmo e, de parte as características muito específicas desse caso, ele era muito parecido com muitos outros anarquistas. Sangue quente e cabeça leve, eis a solução da charada; e é fato que as mais amargas contradições e os mais mortais conflitos do mundo são levados adiante pelos corações individuais, capazes de sentimento e paixão”.

E o narrador o imagina deitado, de olhos abertos (ele sofre de insônia), na pequena oficina da ilha, que lhe serve de moradia: “o anarquista escravo da propriedade”.

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https://armonte.wordpress.com/2011/11/18/o-marido-era-o-culpado-mesmo/

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https://armonte.wordpress.com/2010/10/29/o-romance-das-ilusoes-de-joseph-conrad-marlow-mar-e-memoria/

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CERTIFICADO COMEMORATIVO CONRADIANO

26/11/2010

“digamos… para comodidade narrativa”

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(publicada originalmente em 12 abril de 2008 em  A TRIBUNA de Santos, como resenha comemorativa dos quinze anos da minha coluna semanal)

CONRAD E A ERA NAPOLEÔNICA

Há exatamente cem anos, Joseph Conrad reuniu seis histórias numa coletânea chamada A Set of Six. Uma delas, a mais famosa, O Duelo, enfim encontra-se  traduzida no Brasil, trinta anos depois de sua bonita adaptação cinematográfica (Os Duelistas) ter revelado o estreante diretor Ridley Scott, que realizaria depois dois marcos do cinema, Alien, o oitavo passageiro e Blade runner, para depois, bem, depois…[1]

O grosso da ação se passa durante as guerras napoleônicas, no início do século XIX. Um tenente truculento e plebeu, Feraud (do sul da França), é procurado por um oficial da mesma patente (e nascido no norte, entre outras diferenças polarizadoras), o fidalgo D´Hubert, sob ordens superiores, devido a um duelo irregular com um civil que poderia virar escândalo. Ao ser detido por D´Hubert, Feraud o responsabiliza pessoalmente pela “injustiça” que estariam cometendo contra ele. A partir daí, conforme o tempo vai passando (começam a trama com 26 anos e os acompanhamos até os 40) e vão subindo de patente (até que a derrocada do império e o exílio de Napoleão arruínem a carreira de Feraud), eles se enfrentam em diversas oportunidades, com um interregno de insólita camaradagem em terras russas, num dos momentos mais penosos do exército francês.

Ninguém compreende a razão da pendenga. E se o rancor move Feraud (que fica nos calcanhares do adversário, para se igualar a ele em qualquer promoção), o sentimento de honra que faz com que D´Hubert sempre consinta nas convocações dos padrinhos para os confrontos, é a camada mais superficial para algo mais irracional e primordial.

O duelo contínuo entre ambos é um exemplo da convulsão social da França pós-revolucionária, já que a situação os iguala, o plebeu e o fidalgo. O tio da noiva de D`Hubert (um nobre do ancien régime) não compreende por que ele tem de se deixar arrastar por um sujeito que é “ninguém” (Não há qualquer razão terrena para um D´Hubert se acanalhar por causa de um duelo com uma pessoa dessa extração… essa gente não existe). Resposta: “O senhor não imagina como esse duelo é terrível para mim. E não há modo de livrar-me dele”.  

 O Duelo é mais uma volta do parafuso no fascínio de Conrad pelos dilemas cavalheirescos, e a aproximação perversa que ele fazia da honra com o descrédito e a infâmia (temas recorrentes em Lord Jim, Chance- A força do acaso ou Nostromo). De certa forma, ele se serve da mobilidade social da era napoleônica para enquadrar suas obsessões. Jorge Luis Borges, em Tema do Traidor e do Herói, uma das suas melhores e mais fantasmáticas Ficções (que, entretanto, gerou um filme muito talentoso de Bertolucci, A estratégia da aranha[2]), diz que imaginou “este argumento, que talvez escreva… Faltam pormenores, retificações, ajustes; há zonas da história que ainda não me foram reveladas; hoje, 3 de janeiro de 1944, vislumbro-a assim. A ação transcorre num país oprimido e tenaz: Polônia, Irlanda, a República de Veneza, algum Estado sul-americano ou balcânico… Digamos (para comodidade narrativa) Irlanda; digamos 1824.” Conrad fez o mesmo, mas envolveu sua fábula obsessiva com tantos detalhes realistas e com tal sentimento de época que sua “comodidade narrativa” quase nos engana completamente, assim como a do Tolstói de Khadji-Murát.

ADENDO de 2010:

Salvo engano, há atualmente três versões brasileiras de The duel: a de Julieta Cupertino para a Revan, a que foi comentada na resenha acima, a de André de Godoy Vieira, publicada pela L&PM com o título Os duelistas, decerto por causa do filme, e a de Cláudio Figueiredo (creio que a primeira delas), a qual aparece na antologia Mestre de Armas, publicada pela Companhia das Letras (em abril de 2007), e que reúne seis histórias que orbitam em torno da questão do duelo: além da de Conrad, histórias de Arthur Schnitzler, Maupassant, Heinrich von Kleist, Turguêniev e Nabokov.

Abaixo uma mostra de cada uma delas:

 

O general d`Hubert foi para casa com passos largos, apressados, mas de forma alguma enaltecido por um sentimento de triunfo. Ele havia conquistado, e no entanto não lhe parecia ter ganho muito com sua conquista. Na noite anterior reconhecera de má vontade o risco de sua vida, que lhe parecia magnífica, digna de ser preservada como uma oportunidade de ganhar o amor de uma jovem. Houve momentos em que, por uma maravilhosa ilusão, esse amor já parecia ser seu e sua vida ameaçada, uma oportunidade ainda mais magnífica de dedicação. Agora que sua vida estava salva, ela subitamente perdera sua magnificência especial. Em vez disso, adquirira o aspecto especialmente alarmante de uma cilada para a exibição do seu desmerecimento.  Quanto à maravilhosa ilusão de amor conquistado, que o visitara por um momento na sagrada vigília da noite anterior—que poderia ser a sua última noite no planeta—,ele compreendia agora a sua verdadeira natureza. Fora apenas um paroxismo de amor-próprio delirante. Assim, para esse homem, a quem a vitória num duelo havia devolvido a moderação, a vida mostrou-se destituída de encanto, simplesmente porque não estava mais ameaçada”. (versão de Julieta Cupertino);

“O general D´Hubert voltou para casa a passos largos e apressados, de modo algum enaltecido pela sensação de triunfo. Saíra vitorioso e, contudo, tinha a impressão de que não lucrara muito com sua vitória. Na noite anterior, lamentara ter de arriscar uma vida que lhe parecia magnífica, digna de ser preservada, em nome da oportunidade de conquistar o amor de uma jovem. Experimentara momentos em que,  por força de uma maravilhosa ilusão, esse amor parecia já lhe pertencer, e a vida ameaçada, uma oportunidade ainda mais magnífica  de devoção. Agora que estava salva,  perdera de súbito sua especial magnificência. Em contrapartida, adquirira o aspecto  particularmente alarmante de uma cilada preparada para expor a própria indignidade. Quanto à maravilhosa ilusão de amor conquistado que o visitara por alguns instantes em meio à agitada vigília da noite—noite que bem poderia ter sido sua última na Terra—,ele compreendia agora a sua verdadeira natureza. Não havia sido mais que o paroxismo de sua vaidade delirante. De modo que para esse homem, tornado sóbrio pelo desfecho vitorioso de um duelo,  a vida afigurava-se despojada de seu encanto simplesmente por já não estar ameaçada”. (versão de André de Godoy Vieira);

“O general D´Hubert caminhava de volta para casa com passadas largas e apressadas, de modo algum animado por uma sensação de triunfo. Ele havia sido vitorioso, mas ainda assim não lhe parecia que tinha conquistado muito com sua vitória. Na noite anterior ele havia reconhecido que valia a pena preservar o risco que sua vida corria—e lhe parecia muito grande—como oportunidade para conquistar o amor de uma jovem. Ele tinha vivido momentos em que, graças a uma maravilhosa ilusão, esse amor já parecia ser seu, e sua vida ameaçada, uma oportunidade ainda mais magnífica de devoção.  Agora que estava salva, sua vida de repente tinha perdido sua grandeza especial. Em vez disso, havia adquirido a aparência, especialmente alarmante, de uma cilada para revelar o quanto era sem valor.  Quanto à maravilhosa ilusão de um amor conquistado que o havia visitado por um momento durante a agitada vigília à noite, que bem poderia ter sido sua última na Terra,  ele agora compreendia sua verdadeira natureza. Tinha sido apenas o paroxismo  de uma presunção delirante. Assim, para esse homem, tornado sóbrio  pelo desfecho vitorioso de um duelo, a vida surgia agora despida do seu encanto, simplesmente porque não estava mais ameaçada”. (versão de Cláudio Figueiredo).


[1] Confesso que não acho que o filme reproduza a intensidade e força do texto. Já não o achava o rival que diziam à altura do Barry Lindon de Kubrick, e depois de ler a novela, essa opinião se fortaleceu. Antes, porém, eu cheguei a atribuir certa ligeira tibieza da versão de Scott por conta da falta de carisma e presença de Keith Carradine, como D´Hubert, um ator que nunca me convenceu muito, principalmente quando jovem. Mas se pensarmos que no filme de Kubrick o astro é o também insosso Ryan O´Neal e isso não compromete em nada a densidade da história….

[2] Que só não é irretocável por causa daquelas esquisitices que parecem fazer parte de todos os filmes de Bertolucci, até os melhores. No caso, me incomoda a composição da personagem de Alida Valli, que em certos momentos beira o ridículo. No mais, o filme é brilhante, especialmente o final.

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