MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

14/07/2012

EXU FICTION À MODA BABA DO QUIABO : “A porta”, de Heloísa Seixas

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 12 de novembro de 1996)

Há uma tática de intimidação do leitor muito usual: lança-se um livro com orelhas e apresentações de gente “importante”, considerada.

Foi o que a Record fez, utilizando o atual e exagerado prestígio de Carlos Heitor Cony como romancista, com A PORTA, de Heloísa Seixas. A finalidade da orelha que Cony escreveu é fazer com que o leitor tenha medo de rir do festival de abobrinhas que encontrará no romance.

Pudera, ele afirma que a autora “realiza o que somente a literatura de alto nível pode alcançar: na medida em que vivencia o amor, consegue defini-lo… particulariza esse deus assombrado que é o amor, penetrando em todos os labirintos da carne e da não-carne”!!!!??? Bestificante, não?

Portanto, lá vai uma dica, leitor: dá para saber que um livro de ficção é ruim se, na apresentação, na orelha, enfim, em todo o aparato promocional, tudo for vago, abstrato, generalizante, se quase não se mencionarem a trama, os personagens, a ambientação, como se fossem meros detalhes. Quando já antecipam para a gente a “significação”, “relevância”, “ressonância mística” de um livro novo, pode desconfiar que não se está diante de uma porta, mas sim de um alçapão.

Bem, mas de que trata A PORTA? Além dos labirintos da carne e da não-carne, Heloísa Seixas conta a história do amor entre Pedro e Helena, que se conhecem numa sessão de sexo grupal. Ele é devoto de Exu, ela se descobre filha de Nanã, e a esposa dele e uma cigana fazem malefícios contra esse amor, o qual é a continuação de uma outra história em outro tempo, a de um religioso francês, morto no deserto por amar uma mulher proibida.

Pedro é um homem misterioso, claro. Há premonições. Todos os amigos parecem não ter o que fazer a não ser se preocupar com (e fofocar sobre) o casal, com sonhos e presságios a respeito do destino deles, enquanto os dois vão a Búzios ou a Paris, ou ficam no Rio de Janeiro mesmo, freqüentando terreiros ou tendo piripaques, que alguns amigos chamam de “encosto”.

Essa mistura de monges, ciganos e amores desenfreados, que atravessam os tempos, mas utilizam tecnologia de ponta (há muitas mensagens enviadas via computador), lembra por demais as tramas estapafúrdias de Glória Perez, a autora-alçapão por excelência, na sua ânsia de tragar qualquer senso de ridículo e de prescindir da lógica mais elementar.

Os personagens não se desenvolvem, a autora os envolve num tom discursivo que procura explicar ao leitor (já que o enredo é tão frágil e oco) o turbilhão (os autores ruins gostam muito dessa palavra, não se sabe por que razão) de emoções que eles atravessam. Os cenários nunca abandonam o aspecto decorativo e jamais adquirem qualquer dimensão válida ou útil para o turbilhonar de tantas emoções.

A PORTA desemboca numa “educação sexual” da personagem Helena, que faz o leitor passar por maus bocados (como sói acontecer num turbilhão) como: “Helena se rende. A ele se entrega… começando a trilhar cada milímetro daquela pele para sorver-lhe os gostos, beber-lhe os suores. Sentindo pêlos e músculos, desliza a boca através do peito que camisa entreaberta descobre, até estar de joelhos para a reverência máxima, serva ante o soberano que a domina. É este o altar da rendição, onde Helena se atira como escrava…” !!!!!???????

E a relação do casal nesse “oceano de suores, esperma, secreções e saliva, onde os dois náufragos vão vagar, abraçados, à espera do fim” dá até saudade das bobagens cabotinas de um Adrian Lyne, tipo 9 ½ semanas de amor.

A conjunção amor-desejo de morte, que foi tratada de maneira tão impressionante e magistral por Nagisa Oshima no clássico O império dos sentidos vira mero papo-cabeça no livro (há o personagem que se enforca para sentir uma excitação suprema, pois “é comum os enforcados ejacularem no exato instante em que o pescoço se parte”).

Ao invés de alçar sua trama contemporânea para um plano mítico ou atemporal, ocorre o contrário com Heloísa Seixas: ela trivializa o mistério, o mítico, o atemporal, e corta as carnes do cadáver para caber no espírito Leblon & arredores. Os próprios símbolos “eruditos” com os quais ela procura aglutinar sua traminha (o vinho de gelo, a mandrágora) soam completamente forçados, truques narrativos de araque, tal como acontece nos (péssimos) romances de Rubem Fonseca.

E entre o vinho de gelo, a mandrágora e a porta de Saint Just, nós vamos sendo bombardeados com trechos como: “O amor pode gerar tanto treva quanto luz”, “O universo é mistério”, “A cama de Helena, forrada com uma colcha de cetim, é um convite ao ócio. Ou à luxúria”, “As paixões vinham e passavam como marés”, “A maior loucura é a lucidez”, “Batidos pelo vento, os ciprestes choram um pranto de mau agouro” (que saudade de “Hão de chorar por ela os cinamomos”), “Nunca tinha pensado nisso. Na contradição que existe num raio de luz” (me permitam, por favor: !!!???), “Debruçada, reverencia os restos do homem que ama. Seus líquidos, secreções, suor, sangue e esperma são a hidrologia adorada, mapa de rios secretos onde se esconde o amor”, “mãos pregadas com o cravo da paixão” etc etc etc.

É  a labirintite estilística da carne e da não-carne. A impressão final é a de que o que realmente simboliza A PORTA não é o vinho de gelo nem a mandrágora, mas a baba do quiabo, a massa babosa que uma das personagens mais chatas do livro, Madalena, utiliza para uma refeição fúnebre. Enquanto os dedos de Madalena “chafurdam com prazer naquela matéria escorregadia… a baba forma fios brilhantes e elásticos, enquanto sementes e pedaços de quiabo se prendem à pele, resistentes”, o leitor vai sendo tomado de tal maneira por um irreprimível turbilhão de risos que se sente um daqueles espíritos infantis e debochados, os erês.

Deve ser a conseqüência de um despacho feito numa encruzilhada entre a falta do que dizer e a mediocridade literária. Se os baianos inventaram (para nos infernizar) a axé music, Heloísa Seixas pode ser considerada a Daniela Mercury da exu fiction.

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