MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

30/09/2015

Destaque do Blog: UM PUNHADO DE CENTEIO, de Agatha Christie

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[uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 22 de setembro de 2015]

A quantidade de reedições, a persistência das altas vendagens, a fidelidade dos leitores, fenômenos que impressionam na comemoração, este mês, dos 125 anos do nascimento de Agatha Christie (1890-1976), criadora de dois dos mais marcantes e duráveis personagens da ficção policial: Hercule Poirot e Miss Marple.

Além dos maciços relançamentos, pela Nova Fronteira, em vistosas capas, a Globo e a L&PM apresentam novas traduções, às vezes com títulos modificados, o que pode desorientar um pouco os neófitos. É o caso de Um Punhado de Centeio, conhecido por aqui como Cem Gramas de Centeio (na versão de Milton Persson, ainda em circulação)[1].

Como outras obras da grande escritora inglesa, título e trama tiram partido de uma cantiga de roda tradicional (já anacrônica na época da publicação original, 1953), que fala de um rei na sala do tesouro, da rainha passando mel em seu bolo no salão, da criada toda feliz estendendo roupas e sendo bicada no nariz por um passarinho, além de um bolso cheio de centeio e uma torta recheada de melros. Temos, então, um financista idoso envenenado (e um punhado de centeio é encontrado no seu bolso), sua esposa—bem mais jovem—morrendo num chá da tarde, e uma tola e ingênua criada estrangulada, com o detalhe perverso de se lhe colocar no nariz um prendedor de roupas.

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É a morte de Gladys, a criada, que traz à cena Miss Marple, numa altura adiantada da narrativa (capítulo 13). Fora ela quem a treinara, lá na cidadezinha de St. Mary Mead, o laboratório social para seu estudo agudo, até implacável, da natureza humana (são célebres suas analogias com o comportamento de personalidades locais, como se o lugarejo fosse um microcosmo da humanidade[2]); assim, com seu ar inocente de velhinha inofensiva, um tanto quanto bisbilhoteira, consegue se infiltrar numa casa na qual, segundo uma das personagens, todos são detestáveis: trata-se de gente gananciosa e traiçoeira. Apesar de todas as aparências, não ficam nada a dever às famílias ricas e sórdidas dos livros de Raymond Chandler. O fato que motivou os crimes e suas extravagâncias pode ter sido uma maracutaia antiga do financista Rex Fortescue, envolvendo uma mina na África (não por acaso chamada Mina dos Melros), empreendimento em que o seu sócio morreu de forma suspeita…

Na versão Cem Gramas de Centeio, esse romance foi um dos que determinaram meu imorredouro afeto pelo mundo de Agatha Christie (e sempre foi o meu favorito entre as aventuras de Miss Marple). Quando o li, não consegui descobrir o assassino. Mais tarde, comecei a me dar conta das fórmulas sob a variedade, e passei a desvendar facilmente os mistérios. Nem por isso o encanto cessou. A releitura, mesmo conhecendo a solução, só me confirmou tratar-se de um dos melhores livros da sua prolífica produção, iniciada em 1920 com O Misterioso Caso de Styles. Certamente, tem um mais bem urdidos finais. Tanto que me arrisco a transcrever uma passagem maravilhosa, sem estragar para o leitor nenhuma surpresa:

«Uma lágrima surgiu nos olhos de Miss Marple. Depois do lamento, veio a raiva… Em seguida, no lugar das primeiras reações, veio um sentimento de triunfo—o tipo experimentado por um cientista que conseguiu recriar a aparência de um animal extinto a partir de uma simples mandíbula e de alguns poucos dentes».

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NOTAS

[1] O título original é A Pocket Full of Rye. A tradução lançada pela L&PM foi feita por Alexandre Boide.

[2] «Com a cabeça um pouco inclinada para o lado, como um animal que tenta mostrar que é amigável, Miss Marple estava na sala de estar ouvindo o falatório da Sra. Percival Fortescue. Ela não combinava nem um pouco com aquela sala. Sua figura despojada parecia totalmente deslocada no sofá de brocado em que estava sentada, em meio a uma porção de almofadas coloridas. Miss Marple mantinha a coluna absolutamente ereta, porque era assim que havia sido ensinada quando criança.  Em uma poltrona logo ao lado, toda vestida de preto, a Sra. Percival falava até não mais poder. “Exatamente, pensou Miss Marple, como a pobre Sra. Emmett, a mulher do gerente de banco. Ela se lembrou do dia em que a Sra. Emmett foi até sua casa para conversar sobre os preparativos para o Memorial Day, quando a mulher se pôs a falar, e falar, e falar. A Sra. Emmett estava em uma posição difícil em St. Mary Mead. Ela não fazia parte do grupo de senhoras de fino trato que viviam nas casas mais elegantes em torno da igreja, que conheciam intimamente todas as ramificações das famílias do condado, e mesmo as de fora. O Sr. Emmett, o gerente de banco, havia se casado com uma mulher de classe mais baixa, o que a deixava em uma condição de grande solidão…»

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