MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

10/04/2018

RESENHA COMEMORATIVA: 25 ANOS DESTA COLUNA

Filed under: autores centrais — alfredomonte @ 17:55
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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 10 de abril de 2018)

Há 25 anos, eu iniciei essa coluna resenhando “A MÚSICA DO ACASO”. Mal sabia eu que duraria tanto e que Paul Auster seria um autor tão essencial na minha vida esse tempo todo, principalmente quando descobri tardiamente “A Trilogia de New York”. Meu desgosto é que nunca mais reeditaram “A MÚSICA DO ACASO” no Brasil.

Jim Nashe, como vários personagens de Auster, acredita na “tabula rasa”, ou seja, reinventar a existência. No seu caso, uma herança paterna (e paternidade e heranças são recorrentes na sua obra). Nashe resolve atravessar o país de carro e, após um ano, percebe que sua disponibilidade e “liberdade” diminuem conforme o dinheiro vai escasseando.

De forma aleatória ele se junta a Jack Pozzi, jogador inveterado (e não há símbolo maior para o acaso que os jogos de azar). Formam uma parceria contra dois milionários e perdem tudo. Nashe e Pozzi perdem e são obrigados a saldar a dívida na construção de um muro dentro da propriedade dos milionários (que viajam). Embora nada fique explícito, eles se sentem prisioneiros e vigiados, o que é confirmado no dia em que Pozzi tenta fugir… Assim resumido (em parte), o enredo de “A MÚSICA DO ACASO” dá a impressão de pertencer à linha da literatura que seguindo as pegadas dos grandes Franz Kafka e Samuel Beckett, parece querer demonstrar que o homem ou está à mercê de potências indiferentes e cruéis ou é fruto do acaso, produto gratuito e quase risível. Afinal, o protagonista —que acreditava no acaso como uma força que leva a vida para a frente —descobre que é também um sinal das irremediáveis forças coercitivas que nos regem.

Mas o romance de Paul Auster, tem o maravilhoso senso do concreto e do cotidiano ligados à fabulação que parece ser um dom da ficção dos EUA. Seja para comentar a vida de Nashe pré-herança, seja para narrar sua errância ao acaso das estradas, seja para contar seu encontro fortuito com Pozzi e depois a rotina dos dois como pedreiros de uma muralha absurda, capricho dos “donos do mundo”, Auster jamais perde de vista a verossimilhança da história, seu pé no real.

Não há espaço nesse romance para cenários bizarros ou atemporais ou para situações de teatro do absurdo, como fizeram tantos seguidores de Kafka e Beckett para mostrar a “condição humana”. Ainda mais pertinentemente (o que já é uma proeza) do que Milan Kundera, em “A insustentável leveza do ser”, Auster efetua uma cabal equação do que é “fortuito” (porque é fruto do acaso) e do que é “irrevogável” (porque não pode ser alterado), de uma maneira tão parecida com um romance de suspense que é impossível contar detalhes, sob pena de estragar as várias surpresas e emoções do leitor (e difícil, também, é largar a leitura).

Só não se pode deixar de destacar um grande personagem secundário, o capataz Murks, que é igualmente uma espécie de carcereiro e carrasco para Nashe e Pozzi, mas que se afeiçoa ao primeiro, como se este fosse um amigo: [Nashe] “queria apenas odiar Murks, transformá-lo em algo abaixo do humano com a simples força de seu ódio; mas como poderia conseguir isso se o homem não se comportava como monstro? Murks começou a aparecer no trabalho com pequenos presentes (…) e, no trabalho, era no mínimo indulgente, sempre aconselhando Nashe a ir mais devagar, a não exigir tanto de si próprio. ”

11/04/2013

A MÚSICA DO ACASO: uma resenha inaugural

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Nota (11 de abril de 2013)

O leitor tem aqui nest post a primeira resenha que escrevi para A TRIBUNA, lá se vão 20 anos. José Carlos Silvares então na chefia da redação havia me pedido um texto-amostra, comentando alguma leitura recente. Como o livro de Auster fora publicado no ano anterior, e eu o tinha lido há poucos meses, escrevi sobre ele, nem imaginando que já seria publicado. Relendo-o hoje me irrita principalmente o fato de parecer mais um press release ou uma orelha encomiástica do que algo crítico, um texto de opinião (e como ignoro ostensivamente o lado político do romance, enfatizando  de forma tão clichê o lado existencial, ou seja, o plano meramente individual), e além do mais é “redondinho” demais, muito certinho. Perdoem o rapaz de 27 anos. De lá para cá, não mudou em nada minha admiração pelo autor (com uma pequena baixa por um par de anos) e minha predileção pelo livro: ainda considero A MÚSICA DO ACASO  sua obra-prima.

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O ACASO QUE SE TORNA DESTINO

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 11 de abril de 1993)

Jim Nashe é um bombeiro que recebe uma herança inesperada e resolve gastá-la, saindo pelas estradas, sem rumo. Quando o capital está prestes a acabar, encontra um jogador profissional, Jack Pozzi, e lhe propõe sociedade numa partida de pôquer com dois milionários excêntricos. Nashe e Pozzi perdem e são obrigados a saldar a dívida na construção de um muro dentro da propriedade dos milionários (que viajam). Embora nada fique explícito, eles se sentem prisioneiros e vigiados, o que é confirmado no dia em que Pozzi tenta fugir…

Assim resumido (em parte), o enredo de A MÚSICA DO ACASO (The Music of Chance, 1990, em tradução de Marcelo Dias Almada) dá a impressão de pertencer à linha da literatura que, neste século, e seguindo as pegadas do grande Franz Kafka, parece querer demonstrar que o homem ou está à mercê de potências indiferentes e cruéis ou é fruto do acaso, produto gratuito e quase risível. Afinal, o protagonista —que acreditava no acaso como uma força que leva a vida para a frente —descobre que é também um sinal das irremediáveis forças coercitivas que nos regem.

Mas o romance de Paul Auster, possivelmente o melhor autor norte-americano revelado nos últimos anos (e que parece ter público aqui no Brasil porque é o quarto livro seu que a editora Best Seller lança, entre eles o também contundente A trilogia de Nova York), tem o maravilhoso senso do concreto e do cotidiano ligados à fabulação que parece ser um dom da ficção dos EUA. Seja para comentar a vida de Nashe pré-herança, seja para narrar sua errância ao acaso das estradas, seja para contar seu encontro fortuito com Pozzi e depois a rotina dos dois como pedreiros de uma muralha absurda, capricho dos “donos do mundo”, Auster jamais perde de vista a verossimilhança da história, seu pé no real.

Não há espaço nesse romance para cenários bizarros ou atemporais ou para situações de teatro do absurdo, como fizeram tantos seguidores de Kafka para mostrar a “condição humana”. Ainda mais pertinentemente (o que  já é uma proeza) do que Milan Kundera, em A insustentável leveza do ser, Auster efetua uma cabal equação do que é  “fortuito (porque fruto do acaso) e do que é “irrevogável” (porque não pode ser alterado), de uma maneira tão parecida com um romance de suspense que é impossível contar detalhes, sob pena de estragar as várias surpresas e emoções do leitor (e difícil, também, é largar a leitura).

Paul Auster - A Música do Acaso

Só não se pode deixar de destacar uma grande personagem secundária, o capataz Murks, que é igualmente uma espécie de carcereiro e carrasco para Nashe e Pozzi, mas que se afeiçoa ao primeiro, como se este fosse um amigo: [Nashe]”queria apenas odiar Murks, transformá-lo em algo abaixo do humano com a simples força de seu ódio; mas como poderia conseguir isso se o homem não se comportava como monstro? Murks começou a aparecer no trabalho com pequenos presentes (…) e, no trabalho, era no mínimo indulgente, sempre aconselhando Nashe a ir mais devagar, a não exigir tanto de si próprio.”

   Ou será que ele não é nada disso, nem capataz nem carcereiro nem carrasco nem amigo, mas tão somente um comparsa nessa trajetória pelo “hasard” que é qualquer vida? E o leitor, desconcertado, se dá conta de como, há tempos, não aparecia um romance tão profundo, tão apaixonante e sobretudo tão devorável.

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