MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

21/09/2012

Leituras em espelho: Vidas passadas, Textos mal passados (segunda parte): A MULHER QUE ESCREVEU A BÍBLIA

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No texto que consta como Introdução à edição pocket (pela L&PM) de Max e os felinos (uma novela absolutamente comum, sem nada de mais), Moacyr Scliar (1937-2011) comenta o suposto plágio (desmentido por ele mesmo) do seu texto cometido pelo canadense Yann Martel em A vida de Pi (este sim, um romance absolutamente fora do comum): “… o fato de Martel ter usado a ideia não chegava a me incomodar [em outro trecho lemos: “Depois de muito debate sobre o assunto o livro de Martel finalmente chegou-me às mãos. Li-o sem rancor; ao contrário, achei o texto bem escrito e original. Ali estava a minha ideia, mas era com curiosidade que eu seguia a história—boa narrativa, aliás, dotada de  humor e imaginação. Ficou claro que nossas visões da ideia eram completamente diferentes. As associações que fiz são diferentes das que Martel faz”].. Incomodava-me… a maneira pela qual tomei conhecimento do livro. De fato, não fosse o prêmio, eu talvez nem ficasse sabendo da existência da obra. No lugar de Martel eu procuraria avisar o autor. Aliás, foi o que fiz, em outra circunstância. Meu livro  A MULHER QUE ESCREVEU A BÍBLIA teve como ponto de partida uma hipótese levantada pelo famoso scholar norte-americano Harold Bloom segundo a qual uma  parte do Antigo Testamento poderia ter sido escrita por uma mulher, à época do rei Salomão. Tratava-se, contudo, de um trabalho teórico. Mesmo assim, coloquei o trecho de Bloom como epígrafe do livro—que enviei a ele (nunca respondeu—nem sei se recebeu—, mas cumpri minha obrigação)…”

   Se Harold Bloom viesse a saber que, além de aproveitar sua extravagante hipótese, o romance de Scliar ainda receberia o Jabuti, o nosso mais badalado prêmio literário, talvez ficasse impressionado e louco para ler A MULHER QUE ESCREVEU A BÍBLIA. E ficaria certamente incrédulo com a ruindade do livro, que espanta até quem nunca foi muito fã do escritor gaúcho. Diga-se de passagem, graças principalmente a essa premiação, nunca consegui levar a sério o Jabuti, tanto que se um livro sai vencedor e eu ainda não o  li, fico ressabiado, e dificilmente tenho pressa de lê-lo. É o efeito Scliar.

Agora: por que um cara desses pega uma ideia tão sensacional para assassiná-la logo de saída? Sim, porque já dou o romance por liquidado a partir do seu prólogo: nele, um “terapeuta de vidas passadas” conta como conheceu a narradora do relato principal, filha de um fazendeiro, feia, mas que causa nele um efeito de sedução inesperado nas sessões de regressão. O propósito é sarcástico, claro, a “terapia de vidas passadas” não é levada a sério, porém serve de mote para se apresente o relato principal e se aceite o “rebaixamento” do tom bíblico. Como a narrativa é contemporânea e anacrônica em relação aos tempos de Salomão, e pode ser uma fantasia pessoal da narradora, uma sublimação da sua feiúra e de seus conflitos com o pai e com os homens em geral, o “tom” já seria aceitável de cara, sem nenhum choque histórico-linguístico. Certo?

Errado. Para sobreviver (pelo menos no sentido ficcional) à tosquice da primeira parte (que, além de ser uma introdução canhestra, é MUITO RUIM enquanto texto), Scliar teria que criar uma voz para a narradora (mesmo que ela seja “não-confiável”, uma mulher contemporânea devaneando ser uma mulher da época salomônica) que nos convertesse à sua proposta, que tornasse secundária a “inverossimilhança” e “desajuste” do tom, debochado e chanchadesco, com relação aos clichês com que as épocas bíblicas normalmente são tratadas e retratadas (em geral, de forma solene e elevada). Munido com as armas do pós-feminismo, o tom narrativo ressalta a sexualidade da mulher que se contrapõe ao universo chauvinista do patriarcalismo dominante no imaginário bíblico e no discurso que sempre se adotou com relação aos episódios do “livro sagrado”:

“Mas eu não podia parar de pensar, de maquinar coisas. E o que maquinava agora era um plano para mobilizar as mulheres. Para que trabalhassem para mim?  Para que me ajudassem a chegar ao leito de Salomão? Sim, mas não apenas isso. De repente, eu queria mais. Queria solidariedade, a verdadeira solidariedade das oprimidas. E contava chegar a isso partilhando com elas, da forma mais sincera e aberta possível, minha angústia. Queria mostrar-lhes que minha virgindade era um pouco a virgindade delas (mostrando que mesmo as descabaçadas continuavam, psicologicamente, socialmente, virgens), que minha marginalização tornava-as também marginais, que minha feiura era também a feiura delas—se não uma feiura externa, pelo menos interna, feiura de tristeza, do desamparo, por aí. Não tínhamos por que competir; ao contrário, só a união nos faria fortes, daria sentido à nossa vida ali no harém…” (ela realmente precisava assistir a Lanternas Vermelhas).

A narradora é a moça feia, com uma fome sexual intensa e frustrada (só tinha uma pedra polida para se satisfazer), mesmo casando-se com o rei Salomão, que tem tantas esposas e concubinas que não quer perder tempo com uma feiosa que arrematou para consignar uma aliança política mais para insignificante. O desvirginamento da nova esposa nem é consumado porque o rei broxa no momento azado (apesar de ela ser, como se diz, uma “raimunda”, feia de cara, boa de bunda).

Que oportunidade perdida por Scliar. O que um Joseph Heller não faria (e aliás fez, em obras como o adorável Só Deus sabe) com essa sem-cerimônia com os incidentes da Bíblia, com esse rebaixamento do solene e do elevado para mostrar quão comezinho e humano tudo aquilo é, no fundo, como todas as épocas e fatos “históricos” o são, quando se lhes retira a capa mistificatória. O problema é que Scliar passa longe de ser um Heller, seu reles relato faz parecer que, para ele, o máximo de profanação do tom solene-patriarcal, da supremacia do macho da espécie, é usar termos chulos (foder, broxa, cabaço, caralho etc) e o repertório da sacanagem popular, que sempre foi e sempre será pândego e rebaixante, tanto no sentido saudável, picaresco, quanto no sentido preconceituoso e truculento. O encanto que poderia ter o uso desse recurso logo se torna cansativo e gratuito.

Como já disse, o desastre de A MULHER QUE ESCREVEU A BÍBLIA não reside no apelo ao chulo, ao chanchadesco ou a qualquer elemento paródico: é o fato de que a “voz” da narradora não consegue nos conquistar, não consegue nos convencer, comover ou instigar, nem no plano sexual (no sentido político e/ou erótico), nem no plano histórico, nem no plano da linguagem. A certa altura, ela diz que “Eu tinha uma história para contar—eu tinha uma grande história para contar—e iria contá-la…” Se ela iria contá-la como estava nos contando a sua própria história, a Bíblia jamais teria se tornado o Livro da Humanidade. Me desculpe, Dona Feia, mas beleza, aqui, é fundamental.

Porque o grande crime de Scliar com relação ao mote que recolheu de Bloom é o de tornar escandalosa a ideia de que essa mulher, em particular, possa ter escrito a Bíblia. Ele não nos dá uma migalha de fome intelectual, de curiosidade filosófica ou de qualquer coisa próxima de uma estatura cognitiva ou criativa que a autorizem a ser essa pessoa evocada por Bloom. A narradora de Scliar aprende (transgressoramente, para os padrões da época) a escrever. E tão somente.  Ao interceptar uma carta dela, em que se queixa ao pai do tratamento a que está sendo submetida na Corte do rei, Salomão—o qual está insatisfeito com o resultado do trabalho dos anciãos encarregados de escrever o que será posteriormente a História Sagrada—a perdoa pela “traição”,  encantando-se com o estilo, e a encarrega de fazer a versão final. Mas isso são fatos “externos” à personagem e à sua voz narrativa, em nenhum momento o leitor é brindado com um vislumbre dessa capacidade estilística e intelectual. Ou seja, no fundo Scliar rebaixa a sua heroína:

“Segundo os anciãos, Deus criara o primeiro homem a partir do barro. Eu não tinha nenhuma objeção a essa humilde matéria-prima. Mas por que o homem primeiro, e não a mulher? E por que tinha a mulher sido criada de maneira diferente? (…)

   Decidi corrigir tais equívocos mobilizando para isso as minhas próprias fantasias. Criados, o primeiro homem e a primeira mulher enamoram-se loucamente um do outro, e aí transformam o Éden num cenário de arrebatadora paixão. Fodem por toda parte, na grama, na areia, à sombra das árvores, junto aos rios. Fodem sem parar, como se a eternidade precedendo a criação nada mais contivesse que a paixão deles sob forma de energia tremendamente concentrada. O encontro dos dois era, portanto, uma espécie de Big-Bang do sexo, muito Big e muito Bang. Todas as posições eram usadas, todas as variantes experimentadas, isso sob o olhar curioso das cabras e dos ornitorrincos e, mais, sob o olhar benévolo de Deus.

   Que, na minha versão, não os expulsava do Paraíso; ao contrário, encorajava-os: agora que descobristes o amor, podeis enfrentar a vida como ela é, a vida cheia de som e de fúria.”[1]

Pior ainda: ele torna a hipótese da sua existência um besteirol. Deve ser por isso que o romance agradou uma parcela de leitores que o acharam “delicioso” e “divertidíssimo”.  É a triste ideia de humor que algumas vozes “(de)formadoras de opinião” fazem.


[1] Há inclusive passagens de mau-gosto extremo, como aquela em que ela descreve o corpo da concubina que se torna sua melhor amiga, tomado pelo câncer:

“Aqueles seios—o que fora feito deles? Um deles, o esquerdo, ou o direito, já não lembro, ainda se mantinha um tanto ereto, como resistindo teimosamente, mas o outro, o direito ou o esquerdo, apresentava-se murcho, deprimido, exaurido: aquele seio já desistira de lutar, aquele seio começava a percorrer o Vale das Sombras da Morte, abanando à direita e à esquerda, alô, Sombras da Morte, estou chegando, o que é que se vai fazer, hein, Sombras da Morte, bem que eu queria ter evitado esta jornada, ou pelo menos ter ficado para trás como o meu companheiro seio, mas que posso fazer, Sombras da Morte, sempre fui apressado, sempre quis resolver logo as coisas, quando Salomão nos chupava eu era sempre o primeiro a crescer e a ficar com o bico durinho e agora estou aí, uma passa seca…”

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