MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

01/06/2011

Destaque do blog: UMA CASA NA ESCURIDÃO, de José Luís Peixoto

“hoje para sempre. Não há nenhuma diferença entre aquilo que aconteceu mesmo e aquilo que fui distorcendo com a imaginação, repetidamente, repetidamente, ao longo dos anos. Não há nenhuma diferença entre as imagens baças que lembro e as palavras cruas, cruéis, que acredito que lembro, mas que são apenas reflexos construídos pela culpa.  O tempo, conforme um muro, uma torre, qualquer construção, faz com que deixe de haver diferenças entre a verdade e a mentira. O tempo mistura a verdade com a mentira. Aquilo que aconteceu mistura-se com aquilo que eu quero que tenha acontecido e com aquilo que me contaram que aconteceu. A minha memória não é minha. A minha memória sou eu distorcido pelo tempo e misturado comigo próprio: com o meu medo, com a minha culpa, com o meu arrependimento.”

(José Luis Peixoto, Cemitério de pianos, 2006)

“Há um certo pressentimento que grandes sacos de plásticos  pretos vêm a caminho, muitos poetas ainda lêem poemas com uma voz doce, mas a alguns destes já foram arrancadas as pernas. A existência, caro Joseph Walser, começa a deixar de existir… O círculo aperta-se em direcção ao centro até ficar reduzido a um ponto. Amigo Walser, não interprete o que digo como uma lição de geometria fútil, o que está a acontecer não ficará apenas registrado nos livros, em páginas bem documentadas com fotografias amplas; o que está a acontecer ficará também inscrito nos sobreviventes, porque há sempre sobreviventes, Walser, e é nestes, por mais espantoso que possa parecer, que a morte se torna mais evidente…”

                (Gonçalo M. Tavares, A máquina de Joseph Walser, 2004)

O moço das fotos acima, que parece tão metrossexual quanto o jogador Cristiano Ronaldo e é tão craque quanto (ou mais, já que até agora não deu vexame como seu conterrâneo na Copa)  em sua área, é o escritor português José Luís Peixoto.

Ele ficou  conhecido aqui no Brasil com um de seus trabalhos mais recentes, o deslumbrante Cemitério de pianos (a Agir lançara um romance dele, em 2005, Nenhum olhar, mas sem maior repercussão). Por que um adjetivo tão extremado? Porque sempre é incrível o que um grande autor pode fazer com temas batidos, no caso uma história familiar atravessando gerações. Quem não viu ou leu milhares de histórias familiares atravessando gerações? No entanto, tudo parece novo e recém-criado (como acontece em Á árvore do homem, de Patrick White, para mim o paradigma desse tipo de romance), recém-saído do éden, em Cemitério de pianos, as desavenças entre pais e filhos, maridos e esposas, a desagregação familiar (numa determinada passagem, a família vai a um piquenique e lemos: “Havia um instante em que, ao mesmo tempo, dávamos valor a estarmos juntos”). Os incidentes mais banais (um rapaz hesitando em tirar a moça por quem sente uma atração incrível, num salão, porque não sabe dançar, e por isso bebe para ganhar coragem) transformam-se em momentos mágicos.

    Uma casa na escuridão mostra que já no início deste nosso século (o romance foi publicado em Portugal em 2002), Peixoto era um talento formidável e original.

Temos um país imaginário, onde o narrador vive numa casa coberta de hera, ao pé de ma montanha, e povoada de gatos. Há escravas e senhores.  Ele é um dos senhores, um escritor que descobre dentro da própria escuridão a amada, uma mulher maravilhosa,  que vive nele através das palavras que escreve todos os dias.  De quando em quando, ele pega o carro, segue a auto-estrada e entra na cidade para visitar o seu editor no presídio, que, para opróbrio geral, recusou-se a publicar autores novos (um detalhe delicioso) e por isso está cumprindo uma longa pena até organizar um motim, no qual é morto.

Um antigo amigo do narrador, o príncipe de calicatri, que viajou pré-adolescente para conhecer todos os lugares do mundo, retorna. Pouco depois, o país sofre a invasão de um povo que só se expressa por vogais, cujos soldados utilizam armaduras de ferro e espadas, com as quais mutilam todos que encontram, inclusive o narrador (cortam-lhe as pernas e os braços) e o príncipe de calicatri (tiram-lhe o coração): “O príncipe de calicatri, sem coração, já não sabia a resposta a todas as perguntas do mundo, mas sabia que eu sofria e sabia que eu queria ver aquela que tinha desaparecido dentro de mim. Eu e ele éramos amigos para sempre. O coração do príncipe de calicatri tinha dentro de si as respostas mais importantes, as conclusões. Sem coração, o príncipe de calicatri sabia apenas os pormenores, os factos. Sabia as histórias de países distantes. Mas tinham-lhe arrancado do peito, tinham abandonado mortas e secas, entre ervas, as conclusões que se tiram dos factos, as conclusões que se tiram das histórias de países distantes. O príncipe de calicatri sabia coisas, mas tinha perdido a sabedoria… O príncipe de calicatri já não sabia o que era exactamente o amor que eu sentia, sabia como eu sentia, mas já não sabia aquilo que eu sentia…”

Os invasores se apossam da casa, após massacrar as centenas de gatos e os antigos moradores são tolerados ali (junto com outros mutilados, que viraram rebotalhos humanos), vivendo num quartinho, servindo aos novos amos de alguma forma, e todos meio que amparados pela escrava Miriam, que diariamente é estuprada por todos os soldados, pois as mulheres estrangeiras são esposas do líder.

Para desespero do narrador, inclusive como conseqüência da sua impotência para escrever, dada a sua condição física, a mulher que surgiu dentro dele desaparece e ele é o primeiro a exibir os sintomas de uma Peste que irá apodrecendo todos os corpos. Isso causa a evasão dos invasores, e aos poucos todos os que sobreviveram vão deixando a casa. Só resta o narrador, que apodrece numa cama…

      Uma casa na escuridão está longe de ser o meu tipo de livro. Se alguém me contasse o “enredo” eu jamais teria vontade de iniciar a leitura. Se fosse outro autor, provavelmente teria suspendido a leitura sem hesitação. Todavia, o estilo de Peixoto é tão próximo da genialidade, ele é um escritor tão admirável e encontrou uma tal qualidade poética (e não estou falando em prosa poética) no seu dizer que só se pode tentar uma definição aproximativa afirmando-se que ele é uma espécie de mistura muito especial de fabulador e poeta, o cruzamento inaudito de Italo Calvino com Fernando Pessoa, com aquele “quê” masoquista que permeia o imaginário de J.M. Coetzee: “Às vezes, o príncipe de calicatri aproximava-se de mim e dizia eu acho que estou a conhecer o ninguém [um sujeito a quem arrancaram a língua, os olhos e as orelhas e é chamado assim porque não se o conhece], o seu rosto é parecido com o de um homem que encontrei a vender castanhas numa estação  de comboios de um país atravessado por comboios, numa estação onde ninguém saía, num país onde ninguém parava porque o país era apenas composto por terra e linhas de comboios, um homem que vivia sozinho num país de comboios, a vender castanhas numa estação onde ninguém saía; outras vezes dizia, acho que estou a conhecer o ninguém, o seu rosto é parecido com o de um homem que encontrei na praça de uma cidade, num país onde todas as pessoas que não eram daquela cidade se tinham esquecido daquela cidade, num país de quem todas as pessoas que não eram daquele país se tinham esquecido daquele país; outras vezes dizia acho que estou a conhecer o ninguém, o seu rosto é  parecido com o de um homem que encontrei numa sala a falar com o seu filho e dizia-lhe não vá correr mundo, fique comigo, fique com a sua mãe, era uma sala grande dentro de uma casa grande dentro de um pequeno país junto ao oceano. O príncipe de calicatri conhecia muitos países distantes. Ninguém conhecia o ninguém. Eu, às vezes, achava que o ninguém era a solidão. O ninguém era o abandono. O seu corpo sem vontade, cego, surdo, mudo, parecia uma lembrança da solidão e do abandono. Como se nós, mutilados, precisássemos de saber constantemente que era possível perder sempre mais…”

Alias, diga-se de passagem, o que é o imaginário desse rapaz (na época com 28 anos e agora com 36)? Dá até medo pensar no que se passa na mente de José Luís Peixoto, com o seu pendor para o necrófilo e o decadente. Mesmo assim, ele escreve como um príncipe (já que estamos falando num livro onde os personagens têm distinções nobiliárquicas: príncipes, viscondes), com frases que já nasceram com a vocação da perfeição (e para serem copiadas à parte e citadas)  e não vejo outro candidato no cenário do seu país para ser a grande voz literária pós-Saramago e pós-Lobo Antunes.

Mesmo quando Uma casa na escuridão perde sua alta voltagem poética e ameaça resvalar para o piegas, o brega, o quase-kitsch[1], como sói acontecer num romance de 300 páginas, e com o tipo de história que ele construiu (com mulheres amadas vislumbradas no âmago do ser etc…), tudo se salva pelo talento épico que o rapaz tem também de sobra.

José Luís Peixoto construiu um mundo perfeitamente coeso, com todos os detalhes controlados de tal maneira, que quando lemos sentimos que o país imaginário onde escravas, armaduras, espadas, gente mutilada, convivem com telefones, auto-estradas e indústria editorial, se ergue em pé, sólido e firme. O clima é de pesadelo, mas a narrativa é de algo vivido na carne, no cotidiano. E talvez esse seja o lado mais inquietante desse livro belíssimo e terrível: a sensação de que tudo ali é crível.

(este texto foi publicado de forma mais condensada em A TRIBUNA de Santos, em 15 de fevereiro de 2011)


[1] Isso acontece em Cemitério de pianos também. Virtuose como é, Peixoto não desdenha em se exibir, em fazer malabarismos técnicos inúteis e cafonas:  “Puxou a Maria pelo. Pulso e levou-a pelo corredor e entraram no quarto onde dormiam todas. As noites e apontou. Para a estante cheia de romances. De amor que a Maria. Guardava desde menina…”

09/03/2011

O APELO DO PENSAMENTO: o senhor Tavares

 

“O mundo era o conflito entre uma carga positiva e uma carga negativa e esse mundo terminaria quando, quer a nível geral, universal, gigantesco, quer a nível individual e microscópico, se atingisse o zero, a anulação das duas cargas fortes e opostas. Esse seria o momento do fim do mundo e do fim de cada coisa.

    Aplicado individualmente, este raciocínio permitia que ´um ser humano conseguisse perceber qual o fim da sua morte`, pois esse dia, ´qualquer que ele seja, demore muito ou pouco, será o dia em que individualmente o corpo atinge o zero, anuladas as cargas positivas e negativas recebidas e enviadas para o mundo`. Porém, apesar de quase recomendar esta espécie de profecia doméstica, Theodor Busbeck, sobre si próprio, recusava-se a fazer qualquer balanço entre sofrimentos infligidos e recebidos. Não por não acreditar seriamente na  sua teoria e na transposição do seu estudo geral e histórico para uma aplicação individual; ele não fazia cálculos sobre o seu percurso enquanto emissor-receptor de violência—recusava-se mesmo a fazer um simples diário—apenas queria ser ´surpreendido´. Havia, de fato, em Theodor Busbeck, uma convicção enorme na sua teoria: crença que tocava o místico, o não racionalizável; teoria sentida como explicação universal, ´sem exceções`.”

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 22 de fevereiro de 2011)

Em 2002, em Uma casa na escuridão, José Luís Peixoto imaginava um país invadido.    Em 2004, outro talento jovem da ficção portuguesa, nascido em Angola, quatro anos mais velho que Peixoto (e que mal chegou aos quarenta[1]), Gonçalo M. Tavares, também narrava a invasão de um país alegórico em A Máquina de Joseph Walser. Fazer parte, como primo pobre e fraco, da União Européia deve ter trazido novos pesadelos ao imaginário lusitano.

     A Máquina de Joseph Walser é o segundo romance de uma ambiciosa tetralogia, O Reino (a qual corre paralela à outra série, O Bairro). Curiosamente é lançado por último aqui no Brasil, só agora, bem depois do primeiro, Um homem : Klaus Klump (2003), e dos demais: o premiadíssimo Jerusalém (2005), a notável obra de ficção da qual tirei a citação que abre este texto,  e Aprender a rezar na era da técnica (2007).

Enquanto se processa a invasão de seu país,  Joseph Walser mantém a sua rotina de homem “mediano”: opera uma maquina à qual é afeiçoado, é casado com uma mulher que o trai com Klober Muller, um de seus superiores (que gosta muito de conversar com ele), sem que isso lhe cause maior desconforto  (mais por curiosidade do que por outra coisa, investiga a identidade do amante), joga dados a dinheiro com colegas aos sábados (um dos quais se insurgirá contra os invasores) e coleciona pequenos artefatos metálicos (chegará a roubar um cadáver para acrescentar uma fivela à sua coleção): “…a sua coleção constituía a verdadeira marca individual que Joseph Walser sentia estar a deixar no mundo…”

Um acidente, porém, na utilização da sua máquina causa-lhe a amputação do dedo polegar da mão direita e ele é afastado dela: “A tristeza de Walser era, teremos de dizer de novo, lógica e racional, era aquilo que podemos expressar como melancolia infiltrada nos sentimentos da eficácia”.

Veja-se o quilate da formulação. O leitor encontrará inúmeros outros exemplos no texto.   Gonçalo M. Tavares, seguindo os passos daqueles grandes escritores modernistas austríacos, Robert Musil (em O homem sem qualidades) e, pela linguagem cortante e concisa, e sempre surpreendente (por exemplo, Walser gosta de utilizar sapatos “irresponsáveis”), sobretudo Hermann Broch (de Os sonâmbulos), traz à tona, com um sopro filosófico alimentando a fabulação, velhas dicotomias da mentalidade ocidental que deram forma à Europa: produção, mercado, eficácia, racionalidade, planejamento, lógica, contra loucura,  insubmissão, acidente, acaso, ociosidade e disponibilidade.

Outro nome pode ser lembrado aqui, também herdeiro de Musil-Broch: Milan Kundera que, num dos ensaios de A arte do romance, mostrou como esses dois mestres incorporaram os paradoxos terminais do destino europeu na vastidão das suas obras. Acredito que Kundera & Tavares prolongaram a exploração desses paradoxos terminais em sua ficção.

Kundera também aponta, no mesmo ensaio  os apelos do gênero ao qual se dedica aos quais é mais sensível. Um deles, é o apelo do pensamento: “Musil e Broch fizeram entrar no palco do romance uma inteligência soberana e radiosa. Não para transformar o romance em filosofia, mas para mobilizar sobre a base da narração  todos os meios, racionais e irracionais, narrativos e meditativos, suscetíveis de esclarecer o ser do home, de fazer do romance a suprema síntese intelectual. Sua façanha é o acabamento da história dos romances ou, antes, o convite para uma longa viagem?”

Ao longo da narrativa, Walser vai se tornando mais e mais acentuadamente um “homem sem qualidades”: “Ainda não era o verdadeiro Homem, com dizia Klober, o Homem que quando se aproxima se aproxima para matar, mas havia já nele algo de muito significativo: qualquer aproximação a outra existência, não sendo ainda para a eliminar, era já, e desde há muito, para não amar. Posso aproximar-me com segurança, pensava Walser… posso aproximar-me sem medo de qualquer pessoa porque sei que não a vou amar. Já estou preparado para não amar ninguém…”

Mas o jogo de dados (a que ele se dedicava por lazer) irá ser usado contra ele, num final delicioso e brilhante, que mostra mais uma vez o humor paradoxal desse escritor tão peculiar no cenário lusitano, e que recorre ao critério do “surpreendente” no meio da racionalidade, que aparece no raciocínio “lógico-místico” do Theodor Busbeck da minha citação de Jerusalém.

Esse apelo ao jogo (que é também um dos apelos que mobilizam o romancista Milan Kundera) está presente também no pacto quase que exclusivamente “ficcional” que Gonçalo M. Tavares estabelece com o leitor, com nomes de personagens e situações-síntese que fogem totalmente ao modelo mimético convencional, totalmente desestabilizado e desossado tanto em O Reino quanto que conheço de O Bairro[2].

É preciso ficar atento a essa nova geração portuguesa: algo de muito sério está acontecendo por ali. Não sei se a jangada de pedra vai se separar do continente europeu, mas a literatura que ali está sendo feita talvez venha a ser a melhor da atualidade.


[1] Peixoto nasceu em 1974 e Tavares em 1970.

[2] Veja-se por exemplo, esta vinheta de O senhor Valéry (os “senhores” que dão nome a cada volume são todos ligados à alta literatura), de 2001: “O senhor Valéry tinha um animal doméstico, mas nunca ninguém o tinha visto.

     O  senhor Valéry deixava o animal fechado numa caixa e nunca o tirava para o exterior. Atirava-lhe comida por um buraco na parte de cima da caixa e limpava-lhe as porcarias por um buraco da parte de baixo da caixa.

    O senhor Valéry explicava:

— É melhor evitar os afetos por animais domésticos, eles morrem muito, e depois é uma tristeza para o coração.

    E o senhor Valéry desenhou uma caixa com 2 buracos: um na parte de cima e outro na parte de baixo.

    E dizia:

__ Quem poderia ganhar afeto por uma caixa?

    O senhor Valéry, sem qualquer espécie de angústia, continuava, pois, muito contente com o animal doméstico que escolhera”.

É interessante que, pelo menos na edição brasileira, o texto vem acompanhado de uns singelos e expressivos desenhos (como o da caixa desenhada pelo senhor Valéry), o que nos leva à lembrança do Pequeno Príncipe,  de Saint-Exupéry, que também tinha essa linguagem descarnada, mas cujo apelo emocional é justamente o oposto.

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