MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

26/07/2010

EXERCÍCIOS DE VIVER

O OUTRO  ROMANCE MAIOR DA NOSSA FICÇÃO

Maio de 1956 é o mês desconcertante e mágico da nossa literatura: nele, foi lançado Grande Sertão: Veredas e Clarice Lispector, aos 35 anos, terminou A Maçã no Escuro (que só conseguiu edição em 1961), os dois romances mais fascinantes e extraordinários do século XX. Aliás, se naquele ano Guimarães Rosa realizou a façanha de publicar duas obras-primas (Corpo de Baile é a outra), Clarice não faria por menos: em 64 vieram a público duas das suas maiores obras, os contos de A Legião Estrangeira e A Paixão Segundo G.H.

“Bem, e agora então seria lembrar-se do que um homem quer. Esse era o verdadeiro julgamento…” Martim, o herói (palavra crucial no simbolismo de A Maçã no Escuro), aparentemente cometeu um assassinato e fugiu para o “coração do Brasil”, primeiro refugiando-se num hotel decadente, depois empreendendo nova fuga e perdendo-se numa “noite escura da alma”, longa travessia por uma região inóspita, na qual constata ter perdido a “linguagem dos outros”: seu ato criminoso fez com que o ser abstrato e irreal que se tornara se estilhaçasse, restando uma “potente estupidez”, a não-inteligência, capaz de revivificá-lo enquanto ser. Mas ele terá de descer ao nível das pedras, das plantas, dos bichos elementares, para se despojar e fazer tabula rasa da vida falseada.

Em meio a essa decisão de se fazer uma espécie de “primeiro homem”, ele tem de lidar com a esfera humana: sua peregrinação o levou a uma fazenda perdida no nada e à vida e aos desejos de duas mulheres: Vitória, a dona do lugar, áspera e desiludida; a prima desta, Ermelinda, insidiosa e vaga. Ao envolver-se com as duas, Martim sela seu destino: será entregue à polícia, retornando à Cidade, ao mundo abstrato (e sequer consumou o crime, pois sua mulher não morreu), a uma falsa e irônica redenção.

Já enfatizei, em várias ocasiões, que Grande Sertão: Veredas potencializava ao máximo a capacidade que a literatura tem de ordenar a experiência da vida. O monólogo-querendo-ser-diálogo de Riobaldo, tendo em vista um interlocutor urbano, seria o exercício de uma “dialética do esclarecimento”, de vencer o não-ser (embora reconhecendo seu peso neste mundo misturado) e afirmar o ser através do sopro do verbo se fazendo carne.

    A Maçã no Escuro transmite uma sensação contrária. Para começar, Clarice Lispector deixa de lado os expedientes da intriga (com os quais brinca, ao criar o clima de suspense, que depois saberemos ser falso, no belíssimo primeiro capítulo, o qual já se inicia num tom raramente encontrado em nossa ficção: “Esta história começa numa noite de março tão escura quanto é a noite enquanto se dorme”). Ademais, experiência e linguagem são desqualificadas como mercadorias danificadas pelo uso mentiroso, abstrato e ideológico, e acabam sendo mais estorvo que ajuda. Ao tentarmos organizar a alma em linguagem, caímos na falsificação e no logro. O mundo de Clarice Lispector é muito mais desesperado do que o de Guimarães Rosa.

Titubeando pela vida, ao fazer o pacto com o diabo Riobaldo reafirma seu “eu”: “… o que era que eu queria ? Ah, acho que não queria mesmo nada, de tanto que eu queria só tudo. Uma coisa, a coisa, esta coisa: eu somente queria era—ficar sendo!” Em contrapartida, Martim em seus “exercícios de viver”: “…se ele queria reconstruir o mundo, ele próprio não servia…É verdade que faltava pouco para destruir, pois com o crime, ele já destruíra muito. Mas não de todo… Havia ainda… havia ainda ele próprio, que era uma tentação constante.

Querendo não-compreeender, apenas olhar e ver, no “vertiginoso relance” da objetividade, do ser fundido ao mundo: “Ele compreendeu como se compreende um número: é impossível pensar num número em termos de palavras, é apenas possível pensar num número com este próprio número. E foi desse modo inescapável que ele compreendeu e se tentasse saber mais, então—então a verdade se tornaria impossível.”

(resenha publicada originalmente em  A TRIBUNA de Santos, em 27 de maio de 2006)

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