MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

28/03/2013

A gênese do doutor fausto

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/03/28/o-incomensuravel/

https://armonte.wordpress.com/2012/09/02/contaminacoes-arremedos-pactos-e-parodias-um-mundo-terminal-em-doutor-fausto-de-thomas-mann/

https://armonte.wordpress.com/2012/09/02/thomas-mann-fazendo-arte-no-romance/

Embora seja um mito forjado a partir do século XVI e, portanto, bem recente em termos de história da humanidade, Fausto, o homem que faz o pacto com o Diabo, se impôs como um dos grandes paradigmas literários e psicológicos do Ocidente, sendo matéria prima para autores como Goethe, Thomas Mann, Fernando Pessoa. Curiosamente, seu protótipo real, um tal de Jörg Faust, que morreu por volta de 1540, era uma espécie de charlatão, afamado como mago e herege.

As primeiras versões escritas (muito divulgadas com a revolução tipográfica daquela época) consagraram os contornos da lenda: o pacto como contrato, a data marcada para a entrega da alma. O protestantismo fez com que a ênfase, a moral da história, ficasse por conta da responsabilidade do indivíduo pela sua própria danação.

A primeira grande versão literária (provavelmente de 1592, pouco antes da sua precoce morte) foi escrita pelo maior rival de Shakespeare no início de sua carreira: Christopher Marlowe, cujo A história trágica do doutor Fausto, numa das duas famosas versões portuguesas (a outra é a da dupla João Ferreira Duarte & Valdemar Azevedo Ferreira), acaba de ser editado no Brasil, pela Hedra. Na sua peça, não é o diabo (através do seu servo, Mefistófeles) quem procura Fausto, ele mesmo manda chamá-lo e propõe o pacto.

O que ele deseja? Basicamente, apesar de todo o conhecimento alcançado, ser um super-homem (sobre-ser-se, diria Fernando Pessoa), como fica claro no primeiro monólogo, quando lança o lamento: “Contudo, és inda Fausto, inda um homem…”. A suprema tentação de Fausto é a magia, ter poder sobre os elementos: Oh, dai-me algumas provas de magia / Que eu possa conjurar num bosque espesso / E plena posse tenha de tais bens”.

Dentro da tradição elisabetana, versos belíssimos misturam drama intenso e cenas cômicas, nas quais Marlowe parece projetar algo do espírito de estudante arruaceiro e irreverente (que ele foi) no seu suposto sábio (a cena na qual, invisível, fica atormentando o Papa é um exemplo).

A maravilhosa cena em que Fausto conjura Mefistófeles mostra como é ingênua a sensação do pactário de ter o Mal como servo: “Ordeno-te que vás mudar de forma/ Que horrendo estás demais para me servir/ Volta tal qual um velho franciscano /Convém piedoso aspecto a um diabo…” (note-se a ironia brilhante e o gosto pelo paradoxo); Há, pois, virtude, em meus celestes termos! / Quem perito nesta arte não seria? / Que dócil se apresenta Mefistófeles / De obediência e de humildade cheio! / Tal a força de encantos e magia!”

24 anos depois, tal arrogância é virada do avesso.  Mas o arrependimento não salva a alma, não é como a confissão católica. Quatrocentos anos após serem escritas, as cenas finais ainda são impressionantes em sua simplicidade e efeito dramático.

Guimarães Rosa deve ter lido e apreciado a versão de Marlowe tanto quanto a de Goethe. Pois há um momento em que Fausto pergunta para Mefistófeles o que é, e onde está, o Inferno para Mefistófeles e obtém uma resposta digna de um Riobaldo: “O Inferno é sem limites. Circunscrito /Não está a um lugar, pois, onde estamos/ Inferno é, e sempre aí estaremos.”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 12 de maio de 2007)

Blog no WordPress.com.