MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

03/12/2013

Da pertinência alegórica: A CIDADE, O INQUISIDOR E OS ORDINÁRIOS, de Carlos de Brito e Mello

a-cidadecarlosbritomello-1074091

“(…) tudo pode dar errado, errado de muitas maneiras, se é que já não está dando. Não existe nada mais diverso do que o errado”. (de A Cidade, O Inquisidor e Os Ordinários)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 03 de dezembro de 2013)

Na Idade Média havia os Autos de Moralidade, cujos dramatis personae  representavam vícios e virtudes do comportamento humano. Com o colapso dos nexos morais, seria possível ressuscitar nestes tempos que correm tal linguagem, onde se mesclam o metafísico (a crença em valores espirituais substantivos) e os costumes?

Nas 470 páginas do surpreendente A Cidade, O Inquisidor e Os Ordinários , Carlos de Brito e Mello ousou uma abordagem contemporânea do gênero alegórico num romance em seis partes, sem narrador, composto apenas da fala dos personagens, que atendem por nomes como o Decoroso, o Bem Composto, a Impostora, a Amada, o Candidato, a Quituteira; ou então, por atribuição coletiva: as Vizinhas, os Passantes.

Numa cidade que representa um horizonte claustrofóbico e inescapável (embora Andarilhos tentem encontrar uma saída, nem que seja através de uma enxurrada)[1], o  Decoroso arvora-se Inquisidor. Não por atribuição de uma força divina (pois Cristo, chamado o Destinatário, ausentou-se do mundo, aparentemente de vez), e sim por sua vontade de redimir a civilização da sua “ordinarice”.

Com dois acólitos (o Apregoador e o Olheirento) a espreitar do alto de um edifício os cidadãos, arautos e vigias das suas ações inquisitórias, ele pune os que sucumbem à abnormidade, isto é, aqueles que por apatia e alheamento da ordem social se tornaram “bobos”:  condena-os  a ficar dependurados, de forma a serem constantemente vistos pelos demais habitantes da cidade,  ruminando seu crime ali nas alturas (“Citadinos, o mundo deixou de ser sagrado! Os novos templos localizam-se, agora, nas antenas dos prédios, beirais de janelas, grades de sacada, balaustradas de varanda e outras alturas desta cidade. Vocês ainda fazem questão de uma religião? Então, religuem-se, bobos, pela decorosa palavra do sr. Decoroso!”)[2].

Como bem resume o próprio Decoroso, a respeito dessa forma de moralidade  posta em prática pelo seu arbítrio: “Que lei? A lei dos que reconhecem que a civilização precisa de reparos; a lei dos que não recebem mais a bênção; a lei dos que têm esta comarca como chão frustrante; a lei dos que assistiram, estupefatos, ao desfolhamento dos outros códigos; a lei dos que desejam que os homens voltem a ser homens como um homem deveria ser; a lei dos justos; a lei dos limpos; a lei dos certos; a minha lei”.

A única voz que ousa insurgir-se é a da Impostora, chamada assim porque o Olheirento, com toda sua onisciência, não consegue discerni-la em meio à multidão, quando ela sussurra suas irreverências e seu deboche com relação a essa pretensa razão normativa, pois o disfarce pode ser a  própria pessoa: “Nestes tempos vigaristas, alguém pode se fantasiar, desonestamente, até de si mesmo”.[3]

Como se vê, pela ambição e escopo de seu eixo central, A Cidade, O Inquisidor e Os Ordinários já seria um livro fora do comum, na sua mistura de alegoria, Molière e teatro do absurdo (até com laivos circenses, pelas indicações cênicas que oferece desse povo todo dependurado). Porém,  Brito e Mello ainda se vale dos recursos e da flexibilidade do romance, ao propor tramas secundárias que vão “minar” o projeto decoroso do Inquisidor por meio não só da afronta à sua lei (há um “bobo” que prefere o suicídio à condenação), como do desalinho no comportamento (a princípio, inatacável)  dos que aderem a ela.

É o caso da Amada e do Bem Composto. Ela, cujo cotidiano é disciplinado e preenchido pelo uso correto das “medidas”, inclusive no emprego do tempo, num certo dia “fastidioso” perde esse metrônomo interno e não consegue preencher com atividades o horário que a separa da chegada do marido e os filhos, e então apela para o absurdo: refaz inutilmente todas as tarefas domésticas: “um monte de outras ações que, embora as execute, temo não serem suficientes para me ocupar até a chegada do meu Esposo e Filhos”[4]. Ele, que é o alfaiate do Decoroso, o qual lhe encomenda a toga perfeita para o cumprimento da sua missão, dá de ir todos os dias ao cartório (para horror do seu cliente, que começa a considerar a possibilidade de estar ali mais um “bobo”), tentando apagar seu nome e sua identidade anteriores à Compostura, por meio de trâmites na documentação não-reconhecíveis por nenhum notário[5].

Assim, o autor mineiro fornece a seus tipos alegóricos uma espessura e uma complexidade mais condizentes com a técnica do romance.  O humor (há brincadeiras com a cultura pop, com Watchmen, por exemplo: “Quem vigia os vigilantes”, pergunta-se o Olheirento) e a riqueza do texto, com suas formulações inusitadas (“Quem está perdida é a rua, que não sabe onde vai dar” , diz um dos Andarilhos)[6] são outros fatores que fazem de A Cidade, O Inquisidor e Os Ordinários, a meu ver,  a grande obra da ficção nacional de 2013.

passagemO_CADAVER_RI_DOS_SEUS_DESPOJOS_1345284241P

TRECHO SELECIONADO

Uma cena entre o circense e o teatro do absurdo, numa discussão dos ajudantes do Inquisidor:

O APREGOADOR

Ué, você é quem deveria saber, já que deu para falar de modernidade. Quem é que disse que a gente era moderno?

O OLHEIRENTO

Não sei bem quem disse. Disseram por aí. Alguma autoridade, talvez. Se ser moderno é ser novo, então não somos modernos. Veja esta cidade: nosso edifício está aos pedaços; a vizinhança é malconservada; existem montes de carros andando por aí que não deveriam sair da garagem. E não é só o que a gente consegue ver por fora. Sabe o encanamento? Estourado. O esgoto? Entupido.

O APREGOADOR

Mas ninguém nasce de bengala. Não há muitos nascimentos? Mais nascimentos que mortes? Então, nas pessoas, ainda há modernidade.

O OLHEIRENTO

As crianças já estão nascendo gastas; gastas e cansadas; gastas e usadas; gastas e enfraquecidas. E nós estamos ficando velhos.

O APREGOADOR

Nós?

O OLHEIRENTO

Nós.

O APREGOADOR

Há quanto tempo estamos aqui?

O OLHEIRENTO

Há muito tempo.

O APREGOADOR

Bom… se é como você diz… e se você faz tanta questão… sejamos modernos, então! Sejamos modernos enquanto é tempo!

O OLHEIRENTO

Assim, sem mais nem menos?

O APREGOADOR

Tem outro jeito?

O OLHEIRENTO

Bem… acho que não. Sejamos, então!

O APREGOADOR

Tá. Você primeiro.

O OLHEIRENTO

Eu o quê?

O APREGOADOR

Seja moderno, ora. Não foi você quem começou com esse assunto? Não foi você que ouviu, com seus ouvidos de onisciente, que esta cidade deveria ser moderna? Não é você que acha tudo velho e acabado? Estamos atrasados na modernidade. Daqui a pouco, já seremos outra coisa, sem termos sido aquilo que tínhamos de ser.

camelo02


[1] “Como o poste, o hidrante e as enxurradas, o senhor pertence a esta cidade! Daqui ninguém escapa! (…) O senhor é porcionário do que temos de melhor e, sobretudo, do que temos de pior, que é o que mais temos!”

[2] “Os velhos pecados perderam a graça, e nós, os desgraçados, fomos obrigados a abaixar os olhos do céu. Agora, em nossos horizontes nada belos, a aurora e o poente ficam encobertos pela pachorra do vizinho. Foi nesses covis de gente ordinária que se produziram os novos pecados e pecadores que o sr. Decoroso tem perseguido com afinco”.

[3] Há um forte componente “sexista” na aversão do Decoroso pela Impostora:

“Uma inquisição, mesmo se é ordinária, não pode negligenciar quem a ridiculariza com insinuações; com vitupérios; com brincadeirinhas fora de hora; com cochichos irônicos; ah, os cochichos irônicos! Com a malícia usual das rebeldes fêmeas; ah, a malícia usual das rebeldes fêmeas! A dona dessa voz metediça é quem eu costumo chamar de Impostora. Há canalhice aí, e sob a canalhice, poderá haver um monstro social”.

   Um dos pontos altos do livro é um momento meio paródia da “dança dos véus” de Salomé diante de um João Batista da legalidade, entre a Impostora e o Decoroso. Atente-se que A Cidade, O Inquisidor e Os Ordinários é um texto muito marcado pelo corporal (em suas instâncias físicas e metafóricas), e esse embate entre os dois personagens é uma das manifestações explícitas dessa característica. Aliás, em outra passagem, ela diz ao seu oponente:

“O senhor sabe melhor do que eu o que fazer com um corpo, sr. Decoroso, dependurando, por toda a cidade, homens castigados pela sua palavra. Nossos edifícios são agora decorados com extensões do seu corpo de inquisidor, como membros espalhados de uma única carne legal”.

download00-Vitalli_Mantegna

[4] “Pego para secar um dos talheres que lavei. Lá fora, o tempo virou. A roupa que lavei de manhã ainda está úmida. Pode chover. Não sei se deixei as janelas fechadas ou abertas. Vou ver assim que acabar a louça. Ficou uma raspinha de comida neste garfo aqui. Molho-o de novo; esfrego-o; fecho a torneira; enxugo-o. Verifico os outros talheres e o prato. Estão limpos. Pego todos os talheres para enxugar ao mesmo tempo; ponho-os sobre o pano; embrulho-os; esfrego-os; pronto, estão secos; guardo-os no armário.

    Abro a geladeira para guardar as sobras do almoço. Cada comida numa vasilha. Passo pano no fogão. Passo pano na pia. Passo pano na mesa. Vou até a área. A roupa está mais úmida do que imaginei. Venta lá fora. Baixo o varal e abro ainda mais a janela para o vento pegar nas roupas. Mas pode chover. Se chover, as roupas tornarão a se molhar. Subo o varal e volta a fechar a janela. De saída, confiro a cozinha limpa…”

   Depois de perder a “medida”:

“… Vou à mesa de jantar e desarranjo as frutas que ficam no centro; despenco as bananas. Vou ao armário, apanho uns livros e espalho-os sobre a cômoda. Vou até meu quarto e desfaço a cama. Nos quartos dos meus Filhos, também desfaço as camas. No banheiro, faço voltar para a gaveta as toalhas que dependurei mais cedo. Na cozinha, coloco talheres limpos e secos dentro da pia; sobre eles despejo sabão; então abro a torneira (…) Que esta casa imponha, de novo, as tarefas que já realizei. Daqui a pouco, recomeçarei a arrumação (…) Pronto. A casa está arrumada novamente. Tudo devolvido ao seu lugar e primando por sua limpeza. Quantas horas serão? Na rearrumação, deixei o relógio virado para o outro lado. Mas… Ponteiros bastardos! Ainda tenho tempo, muito tempo. O que eu teria feito hoje de errado com a medida das minhas tarefas? Tudo terminou tão rápido, duas vezes tão rápido! Se, pelo menos, meu Esposo e meus Filhos chegassem mais cedo…

   Novamente, deito-me no sofá. Este dia já foi primoroso, mas agora é fastidioso (…) levantar-me do sofá para abrir o baú com os retalhos de tudo o que não costurei nesses anos de ignorância quanto a costurar; transferir para o pote de plástico do banheiro, chumaço a chumaço, o algodão das caixinhas de papelão fino, branco e azul compradas na farmácia; examinar nas cortinas e no papel de parede da sala as áreas descoradas; e um monte de outras ações que, embora as execute, temo não serem suficientes para me ocupar até a chegada do meu Esposo e Filhos”.

[5] “Eu continuo sendo eu, entende, mas melhor do que já fui porque agora me chamo Bem Composto.”  Testemunhar essas ações do Bem Composto estraga para o Decoroso o prazer de ficar no cartório: “Vou passar as próximas horas relaxando um pouco no cartório. Que mundo encantado é aquele: regras, procedimentos, autorizações, registros, ofícios, processos e outras delícias de ver e de ouvir”.

A cena em que Bem Composto quer se entregar à Inquisição é um dos momentos mais bem compostos, se é possível o trocadilho, da arte de Brito e Mello:

O DECOROSO

Da compostura para a esquisitice; da esquisitice para a absurdidade; da absurdidade para a suspeita; da suspeita para a submissão.

O OLHEIRENTO

Predomina o sorriso no rosto do nosso inquisidor!

O DECOROSO

Adianto-me para abraçar o Bem Composto. Venha para a minha lei, compostura!

O APREGOADOR

Vão se abraçar o decoro e a compostura sob a lei da nossa inquisição!

O DECOROSO

Mas esperem um pouco!

O OLHEIRENTO

Opa!

O APREGOADOR

Que foi?

O DECOROSO

Como poderei eu celebrar que um notável homem cheio de compostura se voluntariou a uma inquisição que pune a bobeira?

O OLHEIRENTO

Foi-se o sorriso do Decoroso, Apregoador. Retorna a dúvida!

O  DECOROSO

Por outro lado, na parece sábia a decisão que o alfaiate toma quanto a tornar-se meu bobo?

O APREGOADOR

Retorna a dúvida, Olheirento? E como fica o abraço?

O OLHEIRENTO

Não fica! Cesse a apregoação!

[6]  Veja-se este outro trecho em que o Decoroso faz um “elogio” das plantas:

“É pena que não haja plantas. Gosto delas sempre que cultivadas em vasos, avisadas de que poderão continuar a ser plantas desde que não ultrapassem o limite que vai, em geral, do sofá ao televisor (…) antes eram natureza; agora são, no máximo, unidades portáteis de flora subserviente”.

a cidade

britoemelo

Blog no WordPress.com.