MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

20/05/2012

SARAMAGO E AS PAISAGENS ALEGÓRICAS

Uma tendência audaciosa da obra de José Saramago, exercitada em A jangada de pedra, Ensaio sobre a cegueira, Todos os nomes, e que reaparece agora em seu novo romance, A caverna, é o uso de um núcleo alegórico que determina os rumos da narrativa. E é preciso realmente ser um autor do quilate de Saramago para se aventurar nas paisagens alegóricas, em geral pobres e áridas, e obter êxito.

Dessa vez, o núcleo alegórico é o Centro, um mega-shopping que absorveu toda a vida quotidiana para dentro de suas paredes e no qual, além das compras e do lazer, as pessoas vivem e morrem (há moradias e crematórios). Saramago radicaliza ao extremo a visão de que hoje em dia não há mais indivíduos, há consumidores. É o “segredo de abelha” referido no texto: “reside em criar e impulsionar no cliente estímulos em sugestões suficientes para que os valores de uso se elevem progressivamente na sua estimação, passo a que se seguirá em pouco tempo a subida dos valores de troca, imposta pela argúcia do produtor a um comprador a quem foram sendo retiradas pouco a pouco, sutilmente, as defesas interiores resultantes da consciência da sua própria personalidade, aquela que antes, se alguma vez existiu um antes intacto, lhe proporcionaram, embora precariamente, uma certa possibilidade de resistência e auto-domínio”. É um mundo em que o capitalismo torna-se totalitário: ou se está dentro ou se é excluído inapelavelmente. Enfim, é a globalização.

Como se sabe, o título vem do mito criado por Platão: o homem contenta-se com simulacros, com uma impostura da realidade, vivendo numa caverna apartada da verdadeira realidade. E esse título terá sua função explicada plenamente na parte final.

Por sua vez, o Centro, tal como o conhecemos, só chegando à orla dos pequenos funcionários, do baixo escalão que o serve, nos remete a Kafka. Pode-se até acusar Saramago de utilizar por vezes um tom sub-kafkiano, como o diálogo entre o herói da narrativa, o oleiro Cipriano Algor, e um funcionário do Centro: “O Senhor é um chefe. Sou um chefe, de fato, mas só para aqueles que estão abaixo de mim, acima há outros juízes. O Centro não é um tribunal. Engana-se, é um tribunal, e não conheço outro mais implacável”!!!! Ou ainda esta tentativa de humor negro, noutro diálogo entre os mesmos personagens: Será caso para proclamar que o Centro escreve direito por linhas tortas, se alguma vez lhe sucede de tirar com uma mão, logo acode a compensar com a outra. Se bem me lembro, isso das linhas tortas e de escrever direito por elas era o que se dizia de Deus, observou Cipriano Algor. Nos tempos de hoje vai dar praticamente no mesmo…”

São momentos infelizes (e pode haver os que não pensarão assim, antes o contrário), porém perfeitamente diluíveis num romance longo e belo. Pois o verdadeiro, o grande Saramago, não está tanto na aproximação com o universo kafkiano,  na apreensão de um vasto mundo desumanizado,  e sim nas minúcias com que trata o avesso, isto é, o mínimo mundo humano que restou, simbolizado pelo núcleo familiar e Cipriano Algor.

Quem ler A caverna notará que nele se narra, à exaustão, todos os processos ligados à olaria, embora tudo o que acontece se origine na recusa do Centro de continuar comprando os artefatos artesanais de Cipriano Algor, que já não encontram consumidores. Não é por acaso que procede assim  o grande escritor português: à gigantesca irrealidade do Centro, ele contrapõe a mínima, mas intensa e gritante realidade de Cipriano Algor, de sua filha Marta e de seu marido Marçal,  da viúva Isaura Madruga e do cão Achado. Vale acrescentar, aliás, quanto às personagens do romance, que não é de hoje que as figuras femininas roubam a cena no universo saramaguiano. Tivemos a Blimunda de Memorial do convento, a Joana Carda de A jangada de pedra e a mulher sem nome de Ensaio sobre a cegueira. Agora temos Marta, que simplesmente congrega em si o que de melhor o livro tem a oferecer, e Isaura Madruga, no pouco que aparece, também é muito forte. Quanto ao cachorro Achado, mais uma vez Saramago cria uma grande figura canina, que vem fazer companhia ao Mr. Bones, de Timbuktu, de Paul Auster, e ao cão que bebia as lágrimas da mulher que o adotou em Ensaio sobre a cegueira, como continuador de uma grande linhagem de cães e outros animais da ficção, que não passa pelo xampu de embelezamento e pieguice do mundo disney ou simulacros similares.

É por isso, por acompanhar gestos, palavras, sentimentos e pequenos atos desse grupo tão humano (Achado incluído), que não se pode colocar de maneira tão fácil o autor de A caverna, como já repeti tantas vezes, entre os escritores da desesperança, como Kafka (que ele evoca aqui tão canhestramente) ou Beckett. Crítico, sombrio, sim, mas um autor da esperança, talvez porque torne seus livros, com a riqueza humana dos seus personagens, atos de insurreição ética, como os que ele solicitou ao público na inesquecível entrevista que deu a Jô Soares no dia 04 de dezembro, não permitindo que seu entrevistador o “globalizasse”, levando-o para um terreno seguro, afável, cheio de gracinhas fáceis e digeríveis.

José Saramago, um dos mestres do final do milênio, exige que a vida social seja um pouco mais humana. Ela não o é, dificilmente o será, mas seus livros são uma grande ajuda para imaginá-la assim.

(resenha publicada originalmente, com ligeiras alterações, em A TRIBUNA de Santos, em em 12 de dezembro de 2000; era o primeiro romance de Saramago pós-Nobel).

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