MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

18/03/2012

OUTRA CAPITAL, MAS NÃO TÃO DIFERENTE

eça à beça

a capital

(resenha publicada, de forma mais condensada, em A TRIBUNA de Santos, em 25 de agosto de 2007)

A Capital!, romance engavetado por Eça de Queirós, após ter nele investido bons anos, quando então se deixou absorver por Os Maias (produção que o fez abandonar vários projetos, publicados apenas postumamente), ganhou uma edição brasileira que incorpora as modificações introduzidas pela edição crítica portuguesa (1992).

Ele aparecera inicialmente em 1925, um quarto de século após a morte de Eça, numa versão realizada pelo filho. Comparando agora as duas, vemos que as maiores diferenças ocorrem nos dois primeiros capítulos, a parte provinciana da trama (quando Artur Corvelo, o protagonista, após a morte do pai, tem de abandonar os estudos em Coimbra para “enterrar-se” com as tias em Oliveira de Azeméis). A grande novidade é a inclusão da prima Cristina, eliminada sem dó nem piedade na versão anterior (e o filho de Eça se refere explicitamente a ela, e aos seus motivos para fazê-lo, no prefácio que escreveu às obras então inéditas do pai), a qual enriquece extraordinariamente a história nesse ponto. Foi um grande achado de Eça e o maior mérito da nova versão foi resgatá-la.

Afora isso, nenhuma outra modificação ou acréscimo é substancial e, se  me é permitida  uma heresia, a tão condenada –por especialistas-  versão de José Maria (acusado de “ seleções e ordenações sem apoio em critérios adequados e justificáveis ou na consumação de alterações de grande envergadura”, escreve Elza Miné) acaba sendo a mais coerente e coesa, porque prima Cristina desaparece do resto do manuscrito (toda a imensa parte não-revista e não-retrabalhada por Eça). Para o leitor comum, talvez fosse preferível continuar-se publicando a versão mais coesa (e infinitamente menos mutiladora e censurada do que nos faziam pensar) e, num posfácio, à parte, essa outra demão, com a inclusão da memorável Cristina, nos capítulos iniciais.

Tais intervenções editoriais poderiam parecer muletas de um texto fraco e cujo interesse seria apenas adstrito ao conjunto da obra daquele que é, com toda certeza, o maior romancista da nossa língua. Não é o caso de A Capital! O livro não faz feio nem sequer colocado ao lado de Os Maias ou A ilustre Casa de Ramires, as obras-primas de Eça (ou melhor, um pouco mais obras-primas, uma cabeça a mais, digamos assim, do que os maravilhosos A Cidade e as Serras, O Primo Basílio ou O Mandarim). Não obstante a história ser bem previsível no seu feitio Ilusões Perdidas, de Balzac (moço provinciano ganha herança e vai para a capital, achando que ganhará celebridade, será amado,  só encontrando barreiras sociais, exploração e traições, voltando à província desenganado), mesmo nesse estado de primeiro esboço que boa parte do romance conservou, nota-se a assombrosa genialidade estilística de Eça, que o faz ser lido hoje com uma naturalidade que parece impensável associar a escritores contemporâneos  portugueses, e que não encontramos, por exemplo, nas traduções feitas em Portugal. No primeiro caso (dos escritores) parece estarmos diante de outra língua); no segundo, e sempre mencionando as exceções de praxe, de um incompreensível desejo de destruir qualquer prazer de leitura. O “rascunho” de Eça parece escarnecer desse afastamento que foi se formando entre as duas “línguas” com sua petulância, vivacidade e brilho Seria tarefa temerária começar a citá-lo, porque não teria fim.

Alguns podem argumentar que, se a história é previsível, o herói também é irritantemente ingênuo em demasia. Pois talvez esteja em Artur Corvelo o toque de gênio de Eça em A Capital!. E a nova versão veio contribuir decisivamente para essa impressão ao mostrar a sua complexa relação com prima Cristina, que o humaniza e o torna um legítimo predecessor do inesquecível Gonçalo Mendes Ramires.

Machado de Assis escreveu (no conto Miss Dollar, a respeito do seu “herói”): “Aceitemo-lo com seus ridículos; quem não os tem? O ridículo é uma espécie de lastro da alma quando ela entra no mar da vida; algumas fazem toda a navegação sem outra espécie de carregamento”. Ao descrever impiedosamente tanto o mundo da província quanto o da “deslumbrante” capital (deslumbramento que justifica a exclamação no título do romance), a mediocridade dos interesses, o horizonte plano que ela oferece ao protagonista e às suas ilusões, o malicioso Eça também nunca deixa esquecer o quanto essas ilusões tão grandiosas trazem de bêtise, o matiz flaubertiano da aventura balzaquiana, de estupidez. Afinal, trata-se de um cabeça de vento! Fica meses contemplando embevecido uma fachada de casa e lançando olhares de adoração porque crê que, ali, mora a eleita do seu coração, até descobrir que o vulto que via era de outra (“uma carinha pequena, de feições amarfanhadas, torcidas, os olhinhos, que tinham caspa nas pestanas, pareciam apenas dois buraquinhos negros”): “Oh! E fora aquele bicho que ele mandara o seu livro de versos! Fora para as janelas dela que ele mandara toda a sua alma, na adoração dos seus olhos!… Caiu-lhe na alma o vexame da sua existência:achou-se grotesco…” Aceitemo-lo com seus ridículos… Felizmente, para ele e para nós, que passamos a gostar tanto dele, ele possui outro tipo de lastro. Mas o mar da vida que nos é mostrado em A Capital! permite só a visão da navegação por meio do lastro do ridículo. Seria em A Ilustre Casa de Ramires e A Cidade e As Serras que veríamos outros ventos em ação. Mas aí são outros quinhentos, aqui são favas contadas.

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A Capital!, de Eça de Queirós (1845-1900).  Escrito entre 1877-1884. Editado originalmente em 1925. Edição de Luiz Fagundes Duarte & Carlos Reis. Editora Globo. 426 págs.

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