MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

02/02/2015

Colleen McCullough no pêndulo entre a inspiração e a mornidão: “Pássaros Feridos” e “A canção de Troia”

Portraits Of Colleen McCullough At HomeArquivoExibir

(a resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 19 de novembro de 2002)

A CANÇÃO DE TROIA[1] era um dos lançamentos mais aguardados do ano. Afinal, na última década, Colleen McCullough destacou-se por sua avassaladora reconstituição ficcional da Roma Antiga, na série iniciada com Primeiro Homem de Roma e, como uma das mais brilhantes contadoras de histórias da atualidade, ela era perfeita para recriar em forma de romance a “Ilíada”.

Em Canção de Troia reencontramos todos os episódios famosos: a fuga de Helena, mulher de Menelau, com Páris, príncipe troiano; a união dos líderes gregos em torno de Agamêmnon, irmão do traído, no cerco à Troia, que dura dez anos; a desavença entre Agamêmnon e o maior guerreiro entre os gregos, Aquiles; o ardil do cavalo de madeira inventado pelo astuto Ulisses, que permite a invasão e saque da cidade protegida por invencíveis muralhas. Todavia, a autora de Pássaros feridos trata o evento como uma guerra entre potências, envolvendo rotas comerciais: de um lado, o conglomerado de reinos que forma a Grécia; de outro, a Ásia Menor, justamente liderada por Troia. E para o leitor de hoje são perfeitamente plausíveis as pretensões imperialistas de Agamêmnon.

O livro é todo em primeira pessoa, utilizando 16 narradores: Príamo, Páris, Heitor, Enéias (da parte de Troia); Peleu, Quíron, Agamêmnon, Aquiles, Ulisses, Diomedes, Pátroclo, Nestor, Automedonte, Neoptolemo (entre os gregos), e só duas mulheres, Helena e Briseis (esta última, concubina de Aquiles, o qual é o personagem que toma mais vezes a palavra: seis capítulos entre os trinta e três que compõem Canção de Troia).

A intenção da autora era enriquecer o foco narrativo, mas foi uma péssima estratégia: o recurso não convence. Volta e meia, os personagens resvalam para um tom didático e explanativo que fica muito parecido com o de um narrador em terceira pessoa. E há momentos verdadeiramente horríveis, como aquele em que Ulisses diz a Agamêmnon: “Menelau deveria exigir uma indenização adequada para os danos psicológicos que sofreu em consequência do rapto de Helena”!!!??? Ora, ora.

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Além disso, é constrangedor para quem há anos vem defendendo os livros de Colleen McCullough, desde Pássaros feridos (1977), da pecha de “meros best sellers” , deparar-se com passagens bregas do tipo “Definhara-se o amor que nos unira… o fogo transformara-se agora em cinza” (trata-se de Helena queixando-se das infidelidades de Páris)!!??

Porém, nem o uso capenga da primeira pessoa nem os trechos estereotipados (para não dizer, esfarrapados) pesam muito na decepção que é a leitura de Canção de Troia. As suas 600 páginas, tomadas objetivamente, são competentes e dão conta do recado de contar de forma linear a história do cerco. Não há o que reclamar quanto a isso, e o romance não apresenta quedas, mantendo-se equilibrado do início ao fim.

O que falta para o fã de Colleen, e isso tira toda a alma do projeto, é a sua verve, é a magia do seu fôlego ficcional, capaz de transfigurar qualquer evento e qualquer personagem. Esse toque, que fez de Pássaros feridos, Uma obsessão indecente e A Paixão do dr. Christian muito mais do que histórias melodramáticas, que fez de Primeiro Homem de Roma, A coroa de ervas e Os favoritos de Fortuna, mesmo com altos e baixos, estupendos mergulhos na história antiga, esse toque falta a Canção de Troia.

A mais desalentadora e melancólica derrota do longo cerco, após dez anos e seiscentas páginas, não é tanto a da estirpe de Príamo, nem a da reputação imaculada de Aquiles enquanto guerreiro: é o fato de que, se todos aqueles livros, com sua personalidade gritante, só poderiam ter sido escritos por Colleen McCullough, este—a não ser num ou noutro momento—poderia ter sido escrito por qualquer um.

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(a resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 25 de março de 2003)

A Bertrand está reeditando boa parte do seu catálogo com novas capas e paginação. Um desses relançamentos é o de PÁSSAROS FERIDOS que, desde sua publicação original, em 1977, já vendeu mais de dez milhões de cópias, embora seja um livro especial não exatamente por esse triunfo quantitativo.

Se não é tão bom quanto os livros da série romana de Colleen McCullough, é, entretanto, bem melhor do que seu último romance publicado no Brasil, A canção de Troia, pálida releitura da “Ilíada” de Homero.

Pena que a antiga e breguinha capa, sobrevivente de tantas reimpressões, e na qual aparecia um desenho chinfrim de árvore, foi substituída por uma capa igualmente brega, com uma paisagem rústica em que um céu de improvável azul é cortado pelo arco-íris (na contracapa, um raio fende um firmamento tempestuoso), que está em falta de sintonia com os recentes projetos editoriais da Bertrand. O pior é que colocaram umas letrinhas “estraga-vista” que se arrastam feito formiguinhas por 545 páginas! Já não bastam as vicissitudes do clã Leary em sua propriedade na Austrália, a fazenda Drogheda.

Agora sabemos que Colleen estava pronta para mergulhar na mentalidade greco-romana: ela consegue fazer uma bela transposição do clima da tragédia grega, onde a maldição dos deuses cai como um raio (não o da contracapa) no seio de clãs dominados por uma espécie de “demônio familiar”. Na contracapa do raio pode-se ler: “as vastas extensões dos campos australianos, povoados de carneiros e rarefeitos de homens, que forçam seus minguados habitantes a uma existência isolada, pioneira, quase primitiva…”, o que nos remete à obra-prima de um grande escritor compatriota da autora de Pássaros feridos, Patrick White: A árvore do homem (1955).

Ao contrário dos dramalhões familiares convencionais, não existe conciliação no final da história, não há desenlace feliz ou arrumadinha, onde o sofrimento é, enfim, redimido. Estamos longe de Danielle Steel, de Nora Roberts ou de Barbara Delinski, campeãs da hora na lista dos mais vendidos, e mesmo de Rosamunde Pilcher ou Isabel Allende, que são mais pretensiosas.

Só que há defeitos graves em Pássaros feridos: os diálogos são muito irregulares, não obstante haja alguns soberbos (particularmente entre Meggie e Fee), vez em quando nos deparamos com escorregões feios (frases do tipo “Não dispenso uma sarda do seu rosto nem uma célula do seu cérebro”) no mau-gosto, sem contar os resmungos infindos contra o sexo masculino e, claro, o título horrível e enganador. No geral, porém, passados pouco mais de 25 anos, ele ainda desconcerta completamente quem o procura por motivos “românticos” e escapistas. Ao cabo da saga dos Cleary, sobra a resignação diante da velhice e da violência bruta, e a sensação (digna do Eclesiastes) de que nada é novo sob o sol, que tudo é vaidade e que é imperativo que o círculo se feche e o ciclo recomece.

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Nota de 2015– Uma parte do texto acima foi omitida. Ela pode ser encontrada em outra resenha a respeito do livro, VER https://armonte.wordpress.com/2015/02/01/passaros-feridos-ou-a-que-clube-pertencia-colleen-mccullough/)

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[1] The song of Troy (1998), que comento na tradução de Maria D. Alexandre.

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