MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

10/12/2011

A INSPIRADA TRADUÇÃO DE UM DOSTOIÉVSKI MOLIÈRESCO

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 15 de janeiro de 2002)

Ainda mais uma vez, Dostoiévski, leitor. Nas últimas semanas, comentei o reaparecimento nas livrarias dos seus dois livros mais famosos, Crime e Castigo & Os Irmãos Karamázov. Coube á tradutora Klara Gouriánova e à Nova Alexandria tirar o quase desconhecido A aldeia de Stiepântchikov e seus habitantes do limbo das Obras Completas (tanto da José Olympio quanto da Nova Aguilar), possibilitando um destaque maior um texto delicioso que passara até então despercebido (pelo menos por mim) em meio à “primeira fase” do grande autor russo.

Serioja, o narrador de A aldeia de Stiepântchikov, mora em Petersburgo e recebe um estranho pedido de seu tio viúvo (que o sustenta), Iégor Ilitch: casar-se com Nástienka, a preceptora de seus filhos. Por isso, vai a Stiepântchikov e descobre que a casa do tio virou uma “arca de Noé”.

Iégor Ilitch é oprimido pela mãe, a Generala, e seus agregados, e todos são tiranizados por uma figura insólita, grotesca, molièriana, e literariamente inesquecível: Fomá Fomitch, homenzinho insignificante e recalcado que é tratado como uma sumidade, sempre a gritar “estão me ofendendo, estão me ofendendo” (e que mesmo aparecendo pessoalmente só na página 86 é o centro da narrativa). Um exemplo da liderança de Fomá na casa do tio de Serioja: decreta que a 5ª. Feira seja tomada como 3ª. Feira.

Por que o tio permite esse estado de coisas? Homem bom e ingênuo, submete-se à mãe louca e ao degenerado Fomá porque “não sei ainda que falta exatamente cometi, mas, sem dúvida, sou culpado”. Iégor Ilitch, na verdade, ama a preceptora, perseguida por Fomá e a Generala, os quais planejam o casamento dele com a esdrúxula Tatiana Ivanovna (a qual é raptada por outro, e é chamada por Serioja de “a verdadeira heroína da história”).

Já se disse que a diferença entre tragédia e comédia reside no fim, pois os elementos são os mesmos (quem leu Romeu e Julieta e Sonho de uma noite de verão perceberá isso muito bem). Em A aldeia de Stiepântchikov, encontramos as mesmas situações intoleráveis e degradantes que povoam os grandes romances dostoievskianos, ou mesmo textos anteriores, como O sósia (ou O duplo, conforme a tradução). Só que a ênfase é no humor e o autor segue a máxima da comédia shakesperiana: “tudo é bom quando acaba bem”. Ou seja, estamos no mundo de Sonho de uma noite de verão, não de Romeu e Julieta.

Para o leitor brasileiro, há um charme extra e irresistível. Klara Gouriánova deu à sua versão um inconfundível sabor machadiano, aproveitando-se magistralmente das similaridades temáticas e narrativas entre o gênio russo e o gênio brasileiro.

Além dos agregados e parasitas que vivem (e fazem intrigas) em torno do tio de Serioja, há as deliciosas conversas do narrador com o leitor, que fazem com que nos lembremos do autor de Dom Casmurro: “antes que eu prossiga minha história, permita-me, querido leitor, que eu lhe apresente nominalmente todo aquele círculo de pessoas no qual fui parar”. Ou ainda: “Quanta atenção o leitor dará a ele não vou dizer: é mais conveniente e mais oportuno que o próprio leitor resolva essa questão”.

Outro prazer perverso é embarcar na malícia do narrador, como na caracterização da “relutância” da Generala em se mudar para a casa do filho, ao ficar viúva: “Rodeada de seus agregados, de seus cachorrinhos, ela dizia, entre soluços e gritinhos, que preferia comer pão duro, regado, é claro, com suas lágrimas, que preferia andar com uma bengala, pedindo esmola debaixo das janelas, a aceitar o pedido do filho desobediente para morar com ele em Stiepântchikov, que nunca, nunca poria os pés na casa dele! (…) É preciso notar que durante esses gritinhos, já devagarinho estavam se fazendo as malas para a mudança.”

     Nesse texto de 1859, Dostoiévski também já domina o dinamismo teatral com o qual constrói suas tramas: o diálogo é um elemento de destaque e o histrionismo dos personagens (e são bem marcantes vários deles) pode se exercitar à vontade nas grandes cenas armadas pelo autor-encenador.

Alguns erros de revisão atrapalham o inspirado trabalho da tradutora. Algumas passagens ficam incompreensíveis, como na página 70, quando Serioja, que acabou de ridicularizar o tio, percebe a censura no olhar de Nástienka: “…um rubor de indignação inflamou suas pálidas faces… com aquele meu baixo e pusilânime desejo de expor meu tio ao ridículo para eu mesmo parecer menos ridículo, ganhei muito da simpatia dessa moça…” ???!!! Será que não há uma “deixa” indicando que o final do trecho, absurdo, é uma ironia?

Volta e meia o leitor se depara com trechos contraditórios assim, e na página 206 há até um erro de concordância: “ele [Fomá] vai fazer os donos sair da casa”, não muito admissível porque não é um dos criados (pois o modo de falar deles é cuidadosamente registrado) quem afirma isso, e sim o senhor Bakhtchéiev (um dos grandes personagens secundários do romance).

Para usar o velho clichê, se o leitor está procurando uma obra de ficção para se divertir durante as férias, não poderia encontrar nada melhor do que  A aldeia de Stiepântchikov e seus habitantes.

27/12/2009

Em relação ao século XIX: BICENTENÁRIOS, SESQUICENTENÁRIOS

      “… todos os seres da natureza, perceptíveis para nós, mantêm uma relação recíproca (…) Imagine a água, o óleo, o mercúrio: você verá uma unidade, uma coesão entre as suas partes. Essa união só deixará de existir pela força ou por outra determinação qualquer. Cessando esta, tornam logo a juntar-se de novo (…) E isso será diferente segundo a diversidade dos seres. Ora agirão como amigos ou velhos conhecidos que rapidamente se reúnem, se juntam, sem modificarem um ao outro, tal como o vinho ao se misturar com a água; ora, ao contrário, permanecerão absolutamente estranhos um ao outro, sem se unirem, mesmo através de fricções ou misturas mecânicas, como o óleo a água (…) Não falta muito para vermos nessas forma simples as pessoas que conhecemos… Entretanto o que mais se assemelha a esses seres inanimados são as massas se enfrentando no mundo, as classes sociais, as profissões, a nobreza e a burguesia, o militar e o civil (…) Contudo, tal como esses grupos que se agregam por meio de costumes e leis, há também, em nosso mundo químico, elementos para juntar aquilo que se repele mutuamente…”

      2009 marca não só o bicentenário do nascimento de gênios como Edgar Allan Poe, Nikolai  Gógol  (há posts sobre as duas efemérides aqui no meu blog) e Charles Darwin, como também o de uma obra fundamental e curiosamente pouco conhecida do público comum: As Afinidades Eletivas (relançada recentemente, em tradução de Erlon José Paschoal, pela Nova Alexandria, em edição de capa dura, mas a que possuo é a de  1992; as citações podem ser encontradas na Primeira Parte- Capítulo IV; há uma notável adaptação cinematográfica do livro feita pelos irmãos Taviani, com a grande Isabelle Hupert).

    Na citação acima, misturei as falas de vários personagens (o Capitão, Eduard, Charlotte) que estabelecem o “processo químico e orgânico” de modificação dos sentimentos de um casal nobre, devido à aparição de uma “outra determinação qualquer”, a irresistível Ottilie, a qual levará Eduard ao adultério. O extraordinário romance de Goethe (1749-1832) marca o aprofundamento da análise dos sentimentos individuais na ficção, mostrando que o absoluto não existe  nesse reino, só o relativo, e que portanto pode haver uma decomposição narrativa infinita dos seus elementos. Nem Rousseau nem Richardson, no século anterior, haviam ido tão longe.

p.s.- Apesar de estar fora do âmbito deste post, o nascimento do grande amigo de Goethe e seu maior “rival”, por assim dizer, na literatura alemã, Schiller, completa 250 anos em 2009.

    Além dos 200 anos do nascimento do profeta do Evolucionismo, temos os 150 anos da sua obra mais célebre, A Origem das Espécies, que deu origem a uma avalanche de lançamentos comemorativos (Richard Dawkins que o diga). Aliás, com relação à obra-prima de Goethe, é bom lembrar que o último capítulo da obra-prima de Darwin se chama “Afinidades mútuas entre os seres orgânicos”: “Tentei demonstrar neste capítulo que o arranjo de todos os seres orgânicos que viveram em todos os tempos em grupos subordinados a outros grupos;  que a natureza das relações que vinculassem num pequeno número de grandes classes todos os organismos vivos e extintos, por linhas de afinidades complicadas,  divergentes e tortuosas; que as dificuldades que encontram e as regras que seguem os naturalistas nas suas classificações;  que o valor que se liga aos caracteres  quando são constantes e gerais, que tenham uma importância considerável ou mesmo que não tenham nenhuma, como nos casos dos órgãos rudimentares; que a grande diferença de valor que existe entre os caracteres de adaptação ou análogos e de afinidades verdadeiras; tentei demonstrar, repito, que todas essas regras, e ainda outras análogas, são a consequência natural da hipótese do parentesco comum das formas associadas e de suas modificações pela seleção natural, junto às circunstâncias de extinção e de divergência de caracteres que determina.  Analisando esse princípio de classificação, é necessário não esquecer que o elemento genealógico foi unicamente aceito e empregado para classificar em conjunto, na mesma espécie, os dois sexos, as diversas idades e as variedades reconhecidas, seja qual for, além disso, a sua conformação. Se se estende a aplicação desse elemento genealógico, causa única conhecida das semelhanças que se verificam entre os seres organizados, compreende-se o que é necessário entender por sistema natural: é tudo um simples ensaio de coordenação genealógica em que os diversos graus de diferenças adquiridas se exprimem pelos termos variedade, espécies, gêneros, famílias, ordens e classes“…  (utilizo a tradução de Eduardo Fonseca, pela Ediouro).

     No mesmo ano, uma obra anteciparia o conteúdo de O Capital e, embora mais discretamente que a do pensador inglês, mudaria toda a nossa maneira de conceber o mundo e a história: Contribuição à Crítica da Economia Política, de Karl Marx, uma boa introdução às idéias do genial pensador prussiano, que naquele ano prosseguia em seu definitivo exílio em Londres, pensando no fim do capitalismo em pleno coração do Império.

       1859 marca também o nascimento do grande pensador francês Henri Bergson (autor do Ensaio sobre os dados imediatos da consciência, Matéria e Memória & A evolução criadora), um dos mais influentes da primeira metade do século XX; também naquele ano nascia  o criador de Sherlock Holmes, Arthur Conan Doyle, e a publicação, além de um dos textos mais deliciosos de Dostoiévski (A Aldeia de Stiepantchikov  e Seus Habitantes), uma jóia de humor e precisão narrativa (na minha opinião, sua melhor obra antes da grande fase iniciada com Memórias do Subsolo),  de uma das novelas mais lindas de  Tolstói, A Felicidade Conjugal (que também ganhou uma nova edição em 2009, pela 34, na tradução de Boris Schnaiderman).

     Trinta anos depois, ele anatematizará apocalipticamente a instituição do casamento (muito visada, assim como seu duplo, o adultério, pelos autores da época) em Sonata a Kreutzer. Porém, aos 31 anos, num tour – de force, ele adota o ponto-de-vista de uma jovem esposa, Macha, que se apaixona e se casa com um homem quase vinte anos mais velho. É através das impressões e reflexões de Macha que o leitor vai acompanhando uma profunda e alquímica (pensando em Afinidades Eletivas, podemos dizer que goethiana) transformação de sentimentos, mas que ocorre em filigrana: temos as diversas nuances que constituem a “realidade” dos sentimentos. O amor romântico de Macha e  Sierguei Mikhálitch morre e, como ela diz, “não tem mais força nem suculência. O que sobrou? Sobrou o amor ,  isto é, a felicidade conjugal,como conclui a narradora num dos mais belos finais já escritos: “…terminou o romance com meu marido; o sentimento antigo tornou-se uma recordação querida, algo impossível de trazer de volta, e o novo sentimento de amor aos filhos e ao pai dos meus filhos deu início a uma nova vida, de uma felicidade completamente diversa e que ainda não acabei de viver”. De Goethe a Tolstói, passando pelo grande Stendhal, os sentimentos na literatura se tornam mais interessantes que a ação romanesca, até chegarmos ao auge com Proust e seu Em Busca do Tempo Perdido.

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