MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

13/11/2014

PAISAGENS ESCARPADAS: “O herói do nosso tempo”, de Liérmontov

Lermontov

(uma versão do texto abaixo foi publicado no Letras in.verso e re.verso, em 12 de novembro de 2014: VER http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2014/11/o-heroi-do-nosso-tempo-texto.html)

PREÂMBULO

“E ele, rebelde, busca a tempestade

Como se na tempestade houvesse paz…” (trecho de “O veleiro”, trad. Paulo Bezerra)

Nos seus trinta anos (1825-55) como czar da Rússia, Nicolai I instaurou o terror e a opressão, sem desdenhar de artimanhas para se livrar dos contestadores: assim, Mikhail Liérmontov — sucessor de Puchkín como grande poeta nacional e feroz adversário do regime, por isso mesmo exilado no Cáucaso a partir de 1837 — morreu num suspeitíssimo duelo aos 27 anos: tirou-se proveito de seu gosto por provocações e brincadeiras para forjar um incidente que lhe seria fatal. E, assim, sua breve existência se deu entre datas que se refletem cabalisticamente: 1814-41.

Houve tempo para deixar uma obra que não só apresenta um título emblemático como também mostrou-se seminal para a tradição romanesca russa: Grigóri Alieksândrovitch Pietchórin, o “herói do nosso tempo”, terá seus avatares em Dostoievski, Tolstoi, Turgueniev e até mesmo no mais tardio Tchekhov, só para citar quatro mestres.

O palco das paradoxais aventuras de Pietchórin é o Cáucaso, espécie de ímã para a imaginação russa, no que apresenta de território invadido, desafio e fronteira entre civilização e barbárie (basta lembrar que a derradeira obra-prima de Tolstoi transcorre nesse cenário: Khadji Murát)[1]. Uma paisagem de cordilheiras escarpadas e perigosas, mimetizando o sobrenome e o caráter do personagem: como nos ensina Paulo Bezerra, na introdução de sua tradução de O Herói do Nosso Tempo[2], Pietchórin vem de “pietchóri”: “cadeia de penhascos” (ou seja, um terreno acidentado e inóspito, conquanto possa ter sua beleza). E talvez um dos poemas de Liérmontov, “O rochedo”, multiplique essa simbologia, como podemos aventar a partir da seguinte estrofe (em tradução de Guilherme Zani): “Há um rastro de umidade na dobra/ Do velho rochedo. Isolado/ Pensa profundamente, parado./E silente no deserto chora”.

herói do nosso tempo

I

“Da tempestade da vida fiquei apenas com algumas ideias — e nenhum sentimento. Faz muito tempo que não vivo com o coração, mas com a cabeça. Peso e analiso minhas próprias paixões e atos com rigorosa curiosidade, mas com isenção. Há em mim dois seres: um vive no pleno sentido da palavra, outro pensa e julga-o; o primeiro talvez se despeça para sempre de você e do mundo daqui a uma hora, enquanto o segundo… o segundo…”

O Herói do Nosso Tempo é dividido em duas partes, e o protagonista só assumirá o relato (através do seu diário) após duas histórias (“Bela” e “Maksim Maksímitch”) em que episódios da sua vida são contados por meio da interposição de narradores: há um primeiro, que atravessa o Cáucaso e ganha como companheiro na acidentada viagem o velho militar Maksim Maksímitch. É este que lhe confidencia como, durante sua convivência com Pietchórin numa distante guarnição, sempre ameaçada por ataques dos “bandidos” tchetchenos, o jovem oficial levou a cabo o rapto de uma donzela, Bela, em troca do fabuloso cavalo de um célebre malfeitor rebelde, Kázbitch.

Conseguindo vencer a relutância da moça, que acaba se apaixonando por ele, logo em seguida Pietchórin, entediado, se desinteressa dela (que terá um triste fim, devido à vingança de Kázbitch). O que importou para ele foi o perigo, a emoção da aventura, do rapto, do logro do tchetcheno, mas essa euforia passou rapidamente.

Aqui temos um primeiro autorretrato do “herói do nosso tempo”:

“… tenho a alma corrompida pela sociedade, a imaginação intranquila, o coração insaciável; nada me basta: eu me acostumo à tristeza com a mesma facilidade com que me acostumo ao prazer, e minha vida vai ficando dia a dia mais vazia; resta-me um recurso: viajar. Tão logo seja possível, viajarei; apenas não será para a Europa, Deus me livre! Irei à América, à Arábia, à Índia — talvez eu morra no caminho, em algum lugar!”

No segundo relato, o narrador conhece pessoalmente Pietchórin, testemunhando a frieza com que ele trata o velho companheiro de guarnição, o qual ficara todo animado com a possibilidade de reencontrá-lo, ao ponto de esquecer pela primeira vez na vida, suas “obrigações”[3]. Por conta da desilusão de Maksim Maksímitch (narrada com uma destreza psicológica digna de Proust; e assombrosa quando lembramos da idade em que morreu Liérmontov), o narrador se depara com um inusitado presente: os papéis pessoais de Piétchorin, que comporão o restante do volume.

Em “Taman”[4], o leitor conhecerá os eventos da passagem do herói por essa “detestável” cidade costeira e como o feitio do seu caráter faz com que ele tenda a desbaratar situações que já vêm de longa data (no caso, pessoas humildes envolvidas com contrabando), por desfastio, por capricho (mas, como ele afirma, “que tenho eu a ver com as alegrias ou as desgraças humanas, eu, um oficial errante, e ainda por cima andando com salvo-conduto oficial”). E assim se encerra a primeira parte, que esboça um retrato negativo.

Na segunda, formada por dois textos, “A princesinha Mary” (de longe, o mais longo) e “O fatalista”, ainda encontraremos o mesmo homem caprichoso, volúvel, byroniano, tomado por um don-juanismo crônico com relação à vida (“nada me basta”, não esqueçamos), mas por alguma razão, mais humano e simpático para o leitor (menos quando mata seu cavalo de exaustão, num de seus momentos maníacos, quando se empolga efemeramente).

“A princesinha Mary” se passa na estação de águas de Piatigorsk, um oásis de mundanismo em meio ao tumultuoso Cáucaso (como alerta o médico Werner a Pietchórin, com relação a um comprometimento amoroso que pode significar casamento forçado: “O ar das estações de águas é perigosíssimo; quantos jovens maravilhosos, dignos de um melhor destino, vi saírem daqui direitinho para o altar…”). Ali, além de reencontrar uma antiga amante (casada), nosso herói se envolve num triângulo amoroso com a princesinha do título e outro jovem, Gruchnítski,  “interessante” por usar um capote (as moças da sociedade pensam que ele é um oficial degradado) e que se revela em toda a sua personalidade “cacete” ao se graduar como oficial. Vemos, então, o velho fetiche pelo traje que marca a narrativa russa, desde Gógol, com efeitos cômico-patéticos:

“Meia-hora antes do baile, Gruchnítski apareceu em minha casa com todo o brilho de seu uniforme de infantaria. Do terceiro botão pendia uma corrente de bronze com um monóculo de lentes duplas; as dragonas de tamanho descomunal apontavam para cima como as asas de Cupido;  as botas rangiam; a mão esquerda segurava as luvas de pelica marrons e o quepe, a direita desfazia a cada instante o topete crespo em pequenos caracóis; seu rosto traduzia presunção e ao mesmo tempo certa insegurança; seu aspecto solene  e seu andar sobranceiro me fariam dar gargalhadas se isso estivesse de acordo com as minhas intenções…”

Curiosamente, esse ser ridículo será alvo de uma surda rivalidade por parte do narrador, que resolve conquistar a princesinha, através de uma atitude estudadamente distante e indiferente. E por que, uma vez que ele não pretende se casar ou se envolver seriamente, e aquela sociedadezinha provinciana o entendia mortalmente (além de considerar o outro pretendente visivelmente inferior a ele mesmo)?:

“Tenho uma paixão natural por contradizer; toda a minha vida não passou de uma cadeia de contradições tristes e desastrosas com o coração e a razão. A presença de um entusiasta deixa-me dominado por um frio gélido e fico a pensar que ligações constantes com um fleumático melancólico me transformariam em sonhador e apaixonado. Confesso ainda que, naquele instante, uma sensação desagradável porém conhecida correu pelo meu coração: era a sensação da inveja, e digo corajosamente inveja porque tenho o hábito de confessar tudo a mim mesmo. É difícil haver um jovem que, após encontrar uma mulher bonita que lhe prende a indolente atenção e de repente a vê dando preferência a outro, que tampouco conhece e ainda por cima na sua presença, é difícil, repito, é difícil encontrar um jovem (naturalmente  da alta sociedade e acostumada a dar asas ao seu amor-próprio) que, num caso desses, não experimente uma desagradável surpresa.”

Esse imbróglio sentimental (atrelado a outro, seu caso adúltero, que é  retomado) o levará a experimentar emoções que o desgostam (entre elas, a inclinação inequívoca pela princesinha, como um Valmont, de As relações perigosas, que se deixasse enfeitiçar por Mme. de Tourvel, apesar de sua perversidade[5]) e até o arrastará a atos extremos, como um duelo com Gruchnítski (o qual vai perdendo o pé na comicidade e revelando-se quase um vilão[6]). E diante da possibilidade de morrer na contenda, Pietchórin faz uma reflexão prenhe de contradições (crença numa sorte pessoal, num destino, aliada à sua sensação de fastio, seu “spleen” byroniano):

“Mas nós vamos tirar a sorte!… E então… então…e se a sorte pender para o lado dele? E se minha estrela finalmente me trair?… Não seria nada do outro mundo: ela passou tanto tempo servindo aos meus caprichos… No céu não há mais constância que na terra.

     Bem! Se é para morrer, que venha a morte! O mundo não vai sofrer grande perda, e além disso eu mesmo já estou bastante enjoado. Sou como o homem que boceja no baile e só não vai embora porque sua carruagem ainda não chegou. Mas a carruagem está à espera — adeus!

    Memorizo todo o meu passado e involuntariamente me pergunto: para que vivi? Com que fim nasci?… Mas devo haver algum fim e alguma alta missão, porque sinto em mim forças imensuráveis; mas não descobri essa missão de me entreguei à tentação de paixões ingratas e vazias.  Do crisol dessas paixões saí  duro e frio como o fero, mas perdi para sempre o ardor das aspirações nobres, a mais genuína flor da vida (…) Meu amor não trouxe felicidade a ninguém, porque nada sacrifiquei por aqueles a quem amava; eu amava por mim mesmo, para meu próprio prazer, apenas satisfazia uma estranha necessidade do coração, devorando avidamente os sentimentos, a ternura, as alegrias e tristezas das pessoas amadas — e nunca pude saciar-me. Era como alguém que, atormentado pela fome, adormece exausto e sonha com manjares finos e vinhos espumantes; devora extasiado os dons etéreos da imaginação e experimenta uma sensação de alívio… Entretanto, mal acorda, o sonho se dissipa, restando-lhe uma fome redobrada e o desespero!”.[7]

Essa questão da “sorte” — como um destino especial — em relação às aleatoriedades da vida, será retomada no relato final, “O Fatalista”, que humaniza ainda mais a figura de Pietchórin e faz o leitor lamentar o prosador que a literatura perdeu de forma tão abrupta.

bela1estação de águas

II

 “Sinto em mim essa avidez insaciável que devora tudo o que encontra no seu caminho; olho para os sofrimentos e alegrias dos demais somente naquilo que me diz respeito, como para um alimento que sustenta as minhas energias espirituais. Eu mesmo não sou mais capaz de fazer loucuras sob o impacto da paixão. Minha ambição foi esmagada pelas circunstâncias, mas se manifestou sob outro aspecto, pois a ambição nada mais é que sede de poder, e o meu primeiro prazer é subordinar à minha vontade tudo o que me rodeia; despertar por si sentimentos de amor, fidelidade e pavor não será o primeiro sinal e o maior triunfo do poder? Servir de motivo para os sentimentos e alegrias de alguém sem ter para tanto qualquer direito real não será o sustento mais doce do nosso orgulho? E o que é a felicidade? Um orgulho satisfeito? Se eu me considerasse melhor, mais poderoso que todos no mundo, seria feliz;  se todos me amassem,eu encontraria para mim fontes infindas de amor.”

Ainda permanece a questão crucial: por que esse don juan autocentrado e árido (e sempre contraditório) deveria ser considerado “o herói do nosso tempo”? Na passagem acima encontramos a chave política que permite entrever o projeto de Liérmontov: “Minha ambição foi esmagada pelas circunstâncias” (leia-se, os arbítrios de Nicolai I). Toda uma geração sofreu esse impacto de um regime repressivo. E, pelo avesso, Pietchórin simboliza a sociedade do seu tempo, e ele se torna um pequeno Nicolai, com sua sede de poder: “o meu primeiro prazer é subordinar à minha vontade tudo o que me rodeia”. Ou seja, quanto mais afastado da Corte, ali no distante Cáucaso, quanto mais enredado nas intrigas de uma microcosmo social ínfimo, quanto mais colado ao seu egoísmo, ao seu orgulho, à sua autossabotagem (como um Fernando Pessoa avant la lettre), mais ele descortina a paisagem social inóspita sob o autoritário czar, ainda que tenha oferecido para o público — colhendo descontentamento — “uma fábula sem a moral da história no final” (mas talvez a moral da fábula seja a reação do próprio Nicolai após a leitura: “Livros como este pervertem a moral e exacerbam o caráter… As pessoas já são propensas demais à hipocondria ou à misantropia, então para que estimular tais tendências com semelhantes escritos? Trata-se de um talento deplorável, que revela a mente deformada do autor”. Caso clássico de rejeição ao reflexo do espelho).

“Descobrimos em nós a única substância verdadeira: eis porque tivemos de cavar abismos intransponíveis entre conhecer e fazer, entre alma e estrutura, entre eu e mundo, e permitir que, na outra margem do abismo, toda a substancialidade se dissipasse em reflexão; eis porque nossa essência teve de converter-se, para nós, em postulado e cavar um abismo tanto mais profundo e ameaçador entre nós e nós mesmos”, escreveu Lukács (e poderiam ser reflexões do diário de Pietchórin) no seu clássico A Teoria do Romance (1920), no qual caracteriza o herói problemático do “romantismo da desilusão”, aquele que esbarra no sem-sentido de um mundo burguês todo reificado, já que a costura épica que fazia necessária e possível a ação heroica foi esgarçada até romper-se:  Afortunados os tempos para os quais o céu estrelado é o mapa dos caminhos transitáveis e a serem transitados, e cujos rumos a luz das estrelas ilumina, inicia o grande pensador húngaro o seu ensaio.

Pietchórin, o herói do nosso tempo, tem a perfeita consciência disso, numa passagem de “O fatalista”:

“Voltei para casa pelas ruas desertas. A lua, cheia e vermelha como o clarão de um incêndio, começava a aparecer por trás da linha denteada dos telhados; as estrelas brilhavam plácidas no firmamento azul-escuro, e achei engraçado quando me lembrei de que, outrora, homens muito sábios imaginavam que os astros celestes influíam nas nossas insignificantes disputas por um pedaço de terra ou certos direitos imaginários!… Pois sim! Esses lampiões que eles supunham acesos apenas para iluminar-lhes os combates e triunfos brilham sempre com o mesmo esplendor, ao passo que as suas paixões e esperanças há muito se extinguiram junto com eles, como uma fagulha acesa na orla de um bosque pisada por um andarilho despreocupado. Mas, por outro lado, que força de vontade lhes dava a certeza de que todo o céu, com seus incontáveis habitantes, os contemplava com simpatia, silenciosa, é verdade, porém invariável!… E nós, seus mesquinhos descendentes, que vagamos pela terra sem convicções nem orgulho, sem prazer nem pavor, salvo aquele medo involuntário que nos oprime o coração quando pensamos no fim inevitável, já não somos capazes de grandes sacrifícios nem pelo bem da humanidade nem pela nossa própria felicidade, porque a sabemos impossível, e passamos indiferentes de uma dúvida a outra como os nossos antepassados se lançavam de um equívoco a outro, sem termos, como eles, nem esperança nem aquele prazer indefinido porém verdadeiro que a alma encontra em qualquer luta contra os homens ou contra o destino.

    Muitas ideias semelhantes ainda me passavam pela mente; eu não as retinha porque não gosto de me deter em nenhuma espécie de pensamento abstrato. Afinal, que se ganha com isso?… Na minha primeira juventude fui um sonhador: gostava de acalentar imagens ora lúgubres, ora radiantes que me pintava a imaginação irrequieta e ávida. Mas que me restou de tudo isso? Apenas o cansaço, como depois de um combate noturno contra fantasmas, e ainda uma recordação vaga e cheia de lamentações.  Nesta luta inútil gastei o ardor da alma e a constância da vontade, indispensável a uma vida real. Mergulhei nessa vida após tê-la vivido na imaginação, e senti  tédio e nojo como quem lê a imitação barata de uma obra que há muito se conhece.”

um herói do nosso tempo

________________________________________

NOTAS

[1] Lemos no livro de Liérmontov: “Sem querer, fiquei impressionado com a capacidade do homem russo de se adaptar aos costumes dos povos entre os quais lhe ocorre viver; não sei se essa qualidade de sua inteligência é censurável ou elogiável; o fato é que ela mostra a sua incrível  flexibilidade e a existência daquele evidente bom senso que perdoa o mal em todos os lugares onde o considera necessário ou acha impossível extirpá-lo.

[2] Publicada em 1988 pela Guanabara e em 1999 pela Martins Fontes (que, deslealdade muito comum entre as nossas editoras, não faz nenhuma referência à edição anterior). O texto original, Герой нашего времени, foi publicado em 1840.

Nunca se poderá enaltecer suficientemente a importância crucial de Paulo Bezerra para um conhecimento maior (e direto) da literatura russa no Brasil. Não posso, entretanto, deixar de fazer um reparo quanto a um vezo que acabou se tornando incomodamente recorrente (e que torna árdua a leitura de suas traduções do romances dostoievskianos publicadas pela 34, por exemplo): a inflação de notas de rodapé. Será que é muito importante para o leitor saber, por exemplo, na própria página em que aparece o nome, e criando um ruído na fruição da bela tradução, que Ekaterinogrado é a “aldeia cossaca de Ekateronográdskaia, no norte do Cáucaso. Transformou-se posteriormente na cidade de Ekaterinodar, hoje Krasnodar”!!!??? Um glossário no final do volume, para os curiosos, seria muito menos intrusivo.

[3] O próprio Pietchórin confessa: “Não tenho aptidão para amizades. Entre dois amigos, um sempre é escrevo do outro, embora (…) nenhum dos dois o reconheça; ser escravo é coisa que não consigo, e mandar, neste caso, é um trabalho enfadonho porque além de tudo ainda é preciso enganar; além do mais tenho um criado e dinheiro!”

É preciso dizer que existe um componente inegável de subalternidade na amizade de Maksim Maksímitch com relação ao colega mais jovem.

[4] Incluído, em tradução de Aurora Fornoni Bernardini, na Nova Antologia do Conto Russo/1772-1998 (Ed. 34, 2011).

[5] Não esqueçamos que Pietchórin é movido pelo don-juanismo, pela necessidade de combater o tédio pela multiplicidade de experiências, pelo seu aspecto quantitativo, inclusive com relação às mulheres.

[6] Um aspecto vaudevillesco também se insinua no relato: há inúmeras cenas em que Pietchórin surpreende conversas a seu respeito, postado de uma forma que permanece oculto (é assim que ele descobre as tramas do antagonista contra ele). Assim, apesar de seus aspectos realistas e “modernos”, O Herói do Nosso Tempo paga seu tributo ao folhetim romântico.

As maquinações perversas em torno do duelo ganham um aspecto dolorosamente irônico, quando se sabe como foi o fim de Liérmontov.

[7] Nosso herói é profundamente hamletiano, como se vê.

livro-o-heroi-do-nosso-tempo-mikhail-iurievitch-liermontov-18609-MLB20158721150_092014-OcÁUCASO

11/11/2014

O PROFUNDO DAS COISAS E A CONTORÇÃO DAS VÍRGULAS: a problemática edição de “Nossa Teresa- Vida e morte de uma santa suicida”

1michelinynossa teresa

“Tolerar, ao contrário do que se vende por aí, não significa aceitar, aceitar com plenitude, como requer qualquer verdadeira aceitação. Tolerar significa, antes, uma espécie de licença especial para que o outro, com seus exotismos e discrepâncias, possa existir. Tolerar é aguentar o outro apesar dele mesmo. É tomar xicarazinhas de café e sorrir no cumprimento, e, sob a impunidade das portas fechadas, sejam elas as de casa ou a do próprio coração, reconstruir o outro segundo os moldes que nos interessam e que no outro não se encaixam.” (trecho de Nossa Teresa)

“O profundo das coisas não está na pauta do dia. De nenhum dia.” (idem)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 11 de novembro de 2014)

Devido ao arrojo e à qualidade, inclusive dos projetos gráficos, a Patuá tornou-se o selo editorial independente mais prestigiado do país. É comum ver títulos do seu catálogo entre os finalistas dos prêmios mais badalados. E é bem possível que isso aconteça (não obstante certos reparos que farei a seguir) com um de seus últimos lançamentos, Nossa Teresa – Vida e morte de uma santa suicida, romance de estreia (após alguns livros de poemas) da pernambucana Micheliny Verunschk, aos 42 anos.

Em V., cidade interiorana onde a estatística de suicídios impressiona (“o suicídio em V. é uma doença antiga, mas as pesquisas não avançam, porque para analisar o tema a cidade se fecha em copas”), havendo um Cemitério dos Proscritos (o suicídio sendo anatematizado em todas as religiões — mas, se olharmos de perto, os mártires e santos não foram suicidas?) a fervorosa adolescente Teresa, cujo nome evoca outras figuras femininas da tradição católica, mata-se, abrindo caminho para que o ambicioso padre Simão ascenda na hierarquia da igreja até ser eleito papa. Ele, “que tinha consigo a certeza de que os caminhos para alcançar a mão de Deus são mais que tortuosos, incapaz por si próprio de ser um “santo homem de Deus, no entanto “não deixava escapar a íntima vontade de descobrir, lapidar, orientar a santidade de alguém.

A canonização de Teresa, com seus trâmites burocráticos e ligados ao mundo material e mercantil (“O que não contou para sua canonização , no entanto, foram as histórias de vida daqueles tantos que a sua mão, a força do seu exemplo, conduziu pelos caminhos  do suicídio, coisa realmente espantosa”), é a espinha dorsal do relato, feito por um narrador que, em razão de um “acidente isquêmico transitório” fica cego e a um só tempo guia o leitor e discute continuamente com ele, açulando-o (“foi como pás de terra sobre um vivo que eu quis compor essa narrativa, foi como uma tampa de madeira sobre um cataléptico que eu quis contar a minha história), através do passado de V., seus cidadãos suicidas, e também por delírios e êxtases religiosos (em meio à fome, à guerra, ao desconcerto geral do mundo), tais como o sebastianismo e o terrorismo movido pela jihad, compondo uma cartografia narrativa estilhaçada e múltipla do que a religião tem tanto de processo civilizatório quanto de instrumento da barbárie.

Agregadas, portanto, à curta (em número de anos vividos) e longa (após a morte) existência simbólica de Teresa, outras autoimolações, como a de Severa, grávida do professor do filho, futuro escritor famoso, ou a de Samir, que explode um avião, como ato de fé; biografias que a narrativa sugere, mas não desenvolve, como a de outra Teresa, que daria “um livro igual a esse que você lê agora. Talvez até melhor; e mesmo aqueles que não se suicidaram, nem por isso deixaram de ser afetados pelo ato, como os pais de Teresa, recusando a devoção em torno da filha.

Nossa Teresa apresenta até uma virtual biblioteca de suicidas (também uma Babel, pois há na essência das mensagens para os que ficam “uma importante falha no ato comunicativo”)[1]. Outro momento a destacar é o capítulo de depoimentos de diversos conterrâneos da santa. Aí, temos a medida do talento inegável de Micheliny Verunschk.

Infelizmente, houve açodamento no lançamento do livro. É evidente que, com seu background poético, sua verve narrativa e o escopo temático que sua inventiva explora, seu texto não está suficientemente lapidado: “nenhuma vírgula se contorce se não for para o bem da exatidão, afirma o narrador, em suas contínuas espicaçadas no leitor. No entanto, não é o que constatamos ao longo do leitura. Há imagens e afirmações de gosto duvidoso, passagens de prosa inflada e que pouco acrescentam ao vigor da narrativa, escorregadelas em lugares comuns (o que é bem diferente de trabalhar criativamente com afirmações repisadas do tipo “do pó vieste, ao pó voltarás” ou “nada de novo sob o sol”)[2] e assustadores deslizes gramaticais, inaceitáveis numa autora que trabalha em alta voltagem de linguagem[3].

Todos cometemos erros aqui e ali, parece quase inevitável, e nesse ponto é que entra o crucial trabalho de editoração; por isso, a publicação de Nossa Teresa, tal como está, foi bastante precipitada e inglória: além da ausência, de revisão do texto digna do nome (o que Flávio Rodrigo Penteado, o responsável, fez exatamente?), a impressão acrescentou outros horrores, separando palavras, de uma linha para a outra, de maneira bisonha[4].

Tal como está, Nossa Teresa ficou como o arcabouço apaixonante de uma obra que pode, ainda, transformar-se num exemplo relevante da nossa ficção recente, digna de todos os prêmios. Por mais que respeite tanto o arrojo da autora como da editora (caso não esmoreça no nível de qualidade, sua marca até agora), uma segunda edição, completamente revisada, se faz urgente.

sitenossa-teresa

_________________________________________________________________________

NOTAS

[1] “O que significam a carta, o bilhete, a anotação feita às pressas, o diário, o poema, o testamento do suicida? Quantas tristes, curiosas, eloquentes,  saudosas, raivosas mensagens se acumulam nas palavras finais daquele que nos deixa. Quanta culpa deixou de herança o seu suicida? Você a partilhou com quem? Com um? Com muitos? Com nenhum? É uma exclusividade sua, a qual acaricia como a um animalzinho insone nas horas mais terríveis? Acaso conseguiu esquecê-la? Não se despreza um presente, ainda que este seja uma mágoa.

   Teresa não deixou uma linha sequer. O que queria dizer ela com isso? (…) Não será importante esse pedaço de papel, por mais ínfimo que seja (…) pelo menos para tentar comunicar o incomunicável?

    Teresa brinca entre as exceções , mas a regra diz que , caso se quisesse, poderia ser erguida uma Biblioteca de Babel com todas as mensagens desses náufragos (…) Em V., a sucursal dessa biblioteca imaginária não seria tímida, bem sabemos. O prédio para abrigá-la poderia ser apropriadamente a antiga casa colonial da Rua do Mercador, a mesma na qual nascera e morrera Luis Osvaldo de Azevedo. É de praxe esse tipo de homenagem a escritores, embora haja quem prefira saudá-los com um nome de rua ou praça ou até com uma estátua mal-ajambrada numa localidade qualquer em que o dito desavisadamente passou. Soubesse que o colocariam ali em duro metal, estático à merda dos pombos e maus cheiros de toda ordem da cidade, teria mudado de trajeto, talvez de trajetória.

   A biblioteca dos suicidas de  paredes verdes por fora e vermelha por dentro sugeririam um aconchego de fruto ou a queda num poço. Eu poderia ser o bibliotecário. Sou vaidoso e gosto do papel. Me orgulharia de saber a exata localização de cada volume. As mensagens, encadernadas, catalogadas, organizadas por tema (morte por tiro, defenestração, envenenamento, enforcamento, asfixia por gás), sexo, idade, motivos aparentes (desilusão amorosa, dívida, problemas familiares, desajuste social) e, claro, maravilha das maravilhas, tudo estaria ligado em rede compondo uma árvore com infográficos, fotografias, relações de todas as espécies inclusive com suicidas  de outros lugares, famosos e anônimos. E eu, já cego, como cabe a todo genuíno bibliotecário, saberia os lugares e movimentos de todos pelo tato, pelo gosto,  pelos cheiros, pela audição, pelo sentido ultrassuperior que agrega todos os outros sentidos quando se é cego. E eu sentiria os movimentos dessa biblioteca pela respiração.”

[2]  “A vida não é uma novela. Seria, antes,  como tenho dito,  um novelo”!!!????

[3] Cf, por exemplo, págs. 123 e 140.

[4] Cf, por exemplo, págs. 36, 52, 125, 132.

nossa teresa resenha

07/11/2014

A Miss Bundinha de Curitiba e o Prêmio Camões: “A Polaquinha”, de Dalton Trevisan

daltona-polaquinha-dalton-trevisan-1-edico-13801-MLB229342860_5382-O

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 29 de maio de 2012)

Antes tarde do que nunca: semana passada, nosso maior escritor vivo finalmente foi lembrado (aos 86 anos) para o prêmio Camões.

A complicação, em se tratando de fazer uma homenagem à obra de Dalton Trevisan como um todo é a quantidade de títulos. Praticamente um livro por ano (quando não mais — fora as antologias), nenhuma resenha daria conta do seu escopo como contista, a transformação de Curitiba num microcosmo onde se pode acompanhar a passagem do rural para o urbano, o palco montado para as guerras conjugais, os fetiches, a metamorfose de meninos de família em “vampiros” sedentos de luxúria (pelo menos no terreno das fantasias descabeladas), a lenta contudo inexorável disseminação da criminalidade no cotidiano. Que títulos escolher? Essenciais, certamente (desde o seu primeiro livro “reconhecido”, Novelas nada exemplares, de 1959): O vampiro de Curitiba; Cemitério de Elefantes; A guerra conjugal; O rei da terra;A trombeta do anjo vingador; Virgem louca, loucos beijos; o recente Violetas e pavões.

Também lenta e inexorável foi desidratação a que submeteu sua prosa, cada vez mais econômica, abeirando-se do haicai narrativo, quase no limite do não-dizer (nesse sentido, a coletânea 234, de 1997, é emblemática, praticamente um “resumo da ópera”). Isso sem falar nos termos pra lá peculiares, conhecidos de sobra por seus leitores, e que permitiriam até a fixação de um léxico dalton-trevisiniano (quem pode esquecer da “corruíra nanica”?). Ou seja, não há como confundir seu texto como o de qualquer outro autor.

Resolvi, então, celebrar o Camões para Dalton Trevisan comentando seu único e genial romance. Uma das feições que seus relatos tomavam era a das minibiografias ficcionais (como o conto-título de Virgem louca, loucos beijos, que eu particularmente adoro). Em A Polaquinha (1985) a narradora conta para alguém (ou conversa consigo mesma, quem sabe?) suas venturas e desventuras com o gênero masculino, primeiramente com aqueles chamados “homens da sua vida” (um estudante de medicina, um engenheiro, um advogado e depois um motorista de ônibus), antes de se tornar uma profissional do sexo de tempo integral (antes, ela—funcionária num hospital—fazia michês para, como se diz, inteirar o orçamento).

Justamente, um dos achados de um livro inacreditável é  colocar um hiato na narrativa e não explicar claramente como se deu essa passagem brutal. Mesmo porque não se tem certeza de que os fatos ali sejam totalmente verdadeiros, volta e meia ela repassa incidentes que já havia descrito de forma crua, e os enfeita, os retoca para si mesma. Como, aliás, todos fazemos, em maior ou menor medida.

Até “cair na vida”, a Polaquinha se mantém na corda bamba do que se costuma chamar de respeitabilidade: órfã de pai, por um desentendimento com a mãe e as irmãs foi morar sozinha, e seu dia-a-dia (pelo menos, ao rememorá-lo) se concentra no envolvimento com homens e as relações sexuais com eles (e em se tratando de um romance erótico, tudo é muito bem resolvido; aliás, um dos raros em que a linguagem e os atos se combinam perfeitamente, sem falsa poesia ou baixaria gratuita).

No mais, aquela deformação cultural que persiste mesmo depois da emancipação feminina: a expectativa de que o homem mesmo que não sustente a mulher, a “ajude”, dê presentes porque já obteve “o que queria” (num dos capítulos, ela liga para um antigo amante para pedir dinheiro para as cautelas de penhora de joias). Sempre com seu olho atentíssimo aos costumes, o extraordinário escritor curitibano mostra muito bem as diferenças dos pontos de vista masculino e feminino quanto às “vias de fato”, e os desencontros que isso acarreta.

Não há drama, não há moralismo, não há lição a se tirar. Como quase todos, a Polaquinha vai empurrando com a barriga, tateando entre códigos morais vacilantes e inoperantes, entre os desafios da  realidade material e a passagem impalpável do tempo que não poupará nem a grande Miss Bundinha de Curitiba (Meu futuro com ele? O tanque de lavar roupa).

Em tempo: nunca é demais registrar como foi feliz a escolha da capa, uma sensacional figura feminina de Colombotto Rosso que já é parte constituinte da mística dessa obra-prima da nossa literatura.

VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/05/24/a-tessitura-da-genialidade-o-passaro-de-cinco-asas-e-a-trombeta-do-anjo-vingador/

https://armonte.wordpress.com/2012/05/24/miserias-minimalistas-50-anos-de-dalton-trevisan/

sobreCultura+ - Dalton Trevisan (fig1)polaquinha-dalton-trevisan-darel-confraria-bibliofilos-18056-MLB20149223381_082014-F

04/11/2014

O BUDA NO SÓTÃO, de Julie Otsuka: destaque entre as traduções de 2014

1338941265-writer-julie-otsuka-at-xi-international-literature-festival--rome_1258107lancamentos_livro_julie_310814

[uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 04 de novembro de 2014]

Um desafio tremendo enfrentado por quem se propõe a escrever um romance é encontrar o “tom” da voz narrativa e, nesse sentido, O Buda no sótão [“The Buddha in the attic”, 2011, que comento na tradução de Lilian Jenkino, lançada pela Grua], de Julie Otsuka, pode ser considerado, sem precipitação, um belíssimo experimento com a linguagem romanesca.

Em seu segundo trabalho no gênero (estreou com Quando o Imperador era divino, 2002), a autora nascida na Califórnia (em 1962) aborda a experiência de famílias japonesas nos EUA desde a chegada das mulheres num navio (os casamentos arranjados com pretendentes que já haviam imigrado e que enviaram o dinheiro da passagem) até a revoltante e traumática segregação em campos de concentração, após o ataque a Pearl Harbor, em função da paranoia generalizada, uma das maiores vergonhas na história da nação[1].

Na incessante ficção feita por descendentes de imigrantes, geralmente acompanha-se uma família típica, desde o núcleo inicial, a partir daí mostrando-se o inevitável choque de gerações na complexa adaptação a uma sociedade como a norte-americana (tomada em sua essência como “supremacia anglo-saxã e protestante”). Cristalizou-se um padrão, o qual perpassa tanto textos literários ambiciosos quanto rasos e previsíveis dramalhões televisivos (deles, tivemos nossa cota também, basta lembrar das novelas de Benedito Ruy Barbosa).

O Buda no sótão foge do clichê já por sua extensão: o relato dá conta de uma imigração maciça e de algumas gerações, em cerca de 130 páginas, e mesmo assim surpreende pela amplitude e fôlego épico (vocações naturais do gênero), onde já se viu!? No entanto, o toque de mestre está mesmo na maneira como Otsuka venceu o desafio de plasmar uma voz para sua mirada na história: se a primeira pessoa do plural, boa parte das vezes em que é empregada numa narração, apresenta um quê de postiço e brega, desta vez foi encontrado o acorde preciso e irretocável para dar vida e ritmo a uma experiência coletiva, soma de inúmeras vivências pessoais irredutíveis. A magia do livro está em nunca deixar passar em branco essa imponderável equação[2].

Vejamos um trecho exemplar (os japoneses, mesmo após décadas no território americano — com todos os episódios de servidão, espoliação e humilhação — passam à condição de virtuais traidores durante a guerra[3]): “Todas as noites, após o cair do sol, começávamos a queimar nossas coisas: velhos registros e comprovantes bancários, altares budistas da família, pauzinhos de madeira, lanternas de papel, fotografias de nossos parentes carrancudos no vilarejo natal, com suas roupas estranhas de interioranos. Fiquei olhando o rosto do meu irmão virar cinza e subir flutuando em direção ao céu”.

Note-se o deslizar do “nós” para o “eu”, recorrente no romance, como se pode constatar em outra passagem, a respeito “deles” (os americanos): “Uma de nós os culpava por tudo e desejava que eles morressem. Outra os culpava por tudo e desejava que ela estivesse morta. Outras aprendiam a viver sem pensar neles em absoluto. Nós nos lançávamos ao trabalho e ficávamos obcecadas pela ideia de arrancar mais uma erva daninha. Deixávamos os espelhos de lado. Parávamos de pentear o cabelo. Esquecíamos a maquiagem…Esquecíamos de Buda. Esquecíamos de Deus. Desenvolvíamos uma frieza interna que ainda não derreteu. Temo que minha alma tenha morrido…”

    No campo e na cidade, a enumeração e justaposição de várias existências nunca causa a sensação de esquematismo, e o leitor ganha uma densa “lição de coisas”: sobre a vida conjugal, sobre a dureza das condições de trabalho, sobre a criação dos filhos, sobre o preconceito e o racismo (além da histeria xenofóbica), a partir do momento em que as noivas (a primeira frase é lapidarmente irônica: “No navio éramos quase todas virgens[4]) desembarcam após penosa e interminável travessia, em busca de uma terra cujas promessas de prosperidade e felicidade são tão enganosas quanto as fotografias enviadas pelos futuros esposos: “Agora estamos na América, arrancando as ervas daninhas para o homem que eles chamam de Patrão… Meu marido não é o homem da fotografia. Meu marido é o mesmo homem da fotografia, mas muito mais velho. O homem da fotografia é o melhor amigo lindo do meu marido…” Todas acalentavam uma equivocada noção das casas americanas, do lar que as esperava, descobrindo, desiludidas: “Casa era onde quer que nossos maridos estivessem”[5], ou seja, párias num sistema de exploração, precariedade, segregação, no qual se culpa a vítima (por se aferrar aos seus costumes, isolando-se). Diga-se de passagem, além do impacto do início de O Buda no sótão, que em momento algum se dilui nos sete capítulos restantes, é preciso ressaltar o segundo, um dos pontos altos da prosa recente: nele, são narradas as inúmeras “primeiras noites” com seus maridos das imigrantes.

Com a possível exceção do poderoso O melhor tempo é o presente, o último trabalho da recém-falecida Nadine Gordimer, O Buda no sótão é, a meu ver, o destaque entre as traduções de romance lançadas em 2014, até agora.

Julie Otsuka - The Buddha in the Attic (v5.0)Julie-Otsuka-Certaines-navaient-jamais-vu-la-mer

 

TRECHO SELECIONADO

“Asayo—a mais bonita de nós—partiu do Rancho Novo em Redwood carregando a mesma maleta de junco que havia trazido consigo 23 anos atrás no navio. Ela ainda parecia novinha em folha. Yasuko partiu do apartamento em Long Beach com uma carta de um homem que não era o marido, cuidadosamente dobrada e guardada dentro do estojo de maquiagem no fundo da bolsa. Masayo partiu depois de ter dado adeus ao filho mais novo, Masamichi,  no hospital de San Bruno, onde ele morreria de caxumba no fim daquela semana. Hanako partiu com medo e com tosse, mas tudo o que tinha era um resfriado. Matsuko partiu com uma dor de cabeça. Toshiko partiu com febre. Shiki partiu em transe. Mitsuyo partiu com náuseas e com uma gravidez inesperada, pela primeira vez na vida, aos 48 anos de idade. Nobuye partiu se perguntando se havia desligado o ferro de passar roupa, que usara pela manhã para retocar as pregas da blusa. Preciso voltar, ela dizia para o marido, que só olhava para a frente e não respondia. Tora partiu com uma doença venérea contraída na última noite no Hotel Palace. Sachiko partiu praticando o abecedário como se fosse apenas um dia qualquer. Futaye, que tinha o melhor vocabulário de todas nós, partiu atônita. Atsuko partiu com o coração despedaçado depois de se despedir de todas as árvores de seu pomar. Eu as plantei quando eram mudas. Miyoshi partiu com saudades de seu cavalo grande, Ryuu. Satsuyo partiu procurando os vizinhos, Bob e Florence Eldridge, que haviam prometido aparecer para se despedir. Tsugino partiu com a consciência tranquila depois de gritar um segredo horrível e há muito tempo guardado dentro de um poço. Eu enchi a boca do bebê com cinzas e ele morreu. Kiyono partiu da fazenda em White Road convencida de que estava sendo punida por um pecado que cometera em uma vida passada. Devo ter pisado em uma aranha (…) Shizue partiu do Acampamento número 8 na Ilha Webb entoando um sutra que havia acabado de lembrar depois de 34 anos. Meu pai costumava recitá-lo todas as manhãs diante do altar (…) Chiyoko, que sempre insistira para a chamarmos Charlotte, partiu insistindo para que a chamássemos Chiyoko. Mudei de ideia pela última vez (…) Haruko partiu deixando uma pequena imagem de latão de um Buda risonho lá no alto, em um canto do sótão, onde ele ri até hoje.”

manzanar

_________________________________________________________

NOTAS

[1] Um dos motivos do meu imediato interesse pelo romance de Otsuka é um antigo filme, Adeus a Manzanar (1976), com direção de John Korty, que assisti ainda menino quando exibido pela Rede Globo e que deixou marcas na minha imaginação sobre esse tema. Nunca mais o revi nem sei como o avaliaria a esta altura, mas é daquele tipo de experiência imaginativa precoce que abre os olhos e alarga a imaginação.

[2] Por isso, as recorrentes enumerações nunca cansam, moduladas como são num ritmo narrativo impecável. VER O TRECHO SELECIONADO.

[3] Só que “traidores” (título de um dos capítulos) ganha um duplo sentido na narrativa, o clima de desconfiança se interioriza nas comunidades japonesas:

“Agora, sempre que converso com alguém, tenho que me perguntar: Será que essa pessoa é capaz de me trair? Precisávamos ter cuidado com o que falávamos perto dos nossos filhos mais novos também. O marido de Chieko foi denunciado como espião pelo filho de apenas oito anos de idade. Algumas de nós começavam a refletir sobre o próprio marido: Será que ele tem uma identidade secreta que eu não conheço?”

[4] Assim como é irônico o recurso à proverbialidade, muito ligada à “sabedoria das mães”: “… espelhos de prata dados por nossas mães, cujas últimas palavras ainda ecoavam no ouvido. Você vai ver: mulheres são fracas, mas mães são fortes.”

[5] “Porque se nossos maridos tivessem dito a verdade nas cartas—que não eram mercadores de seda, mas apanhadores de frutas, que não viviam em casas com muitos cômodos, mas em barracas, em celeiros e ao ar livre, nos campos, sob o sol e as estrelas—, jamais teríamos vindo para a América fazer o trabalho que nenhum americano com amor-próprio aceitaria fazer.” Como lemos numa outra passagem: “Porque no Japão a pior ocupação que uma mulher pode ter é a de serviçal.”

buda no sótão

maxresdefault

31/10/2014

A IMUNDA EXPERIÊNCIA DO SAGRADO: os 50 anos de “A Paixão Segundo G.H.”

clarisseulisses

“De que Deus estava querendo me lembrar? Não sou pessoa que precise ser lembrada de que dentro de tudo há o sangue! Não só não esqueço o sangue de dentro como eu o admito e o quero, sou demais o sangue para esquecer o sangue, e para mim a palavra espiritual não tem sentido, e nem a palavra terreno tem sentido… Então era assim? eu andando pelo mundo sem pedir nada, sem precisar de nada, amando de puro amor inocente, e Deus a me mostrar o rato? A grosseria de Deus me feria e insultava-me. Deus era bruto…” (do “Fundo de gaveta”, A legião estrangeira, 1964)

“Vida irremediável, mas não concreta. Na verdade era uma vida de sonho. Às vezes, quando falavam de alguém excêntrico, diziam com a benevolência que uma classe tem por outra: Ah, esse leva uma vida de poeta. Pode-se talvez dizer, aproveitando as poucas palavras que se conheceram do casal, pode-se dizer que ambos levavam, menos a extravagância, uma vida de mau poeta: vida de sonho.

     Não, não é verdade. Não era uma vida de sonho, pois este jamais os orientara. Mas de irrealidade. Embora houvesse momentos em que de repente, por um motivo ou outro, eles afundassem na realidade. E então lhes parecia ter tocado num fundo de onde ninguém pode passar.” (trecho de “Os obedientes”, A legião estrangeira)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 28 de outubro de 2014)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada no LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO, em 29 de outubro de 2014, VER http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2014/10/1964-annus-mirabilis-de-clarice.html)

capa de G.H.

1964- ANNUS MIRABILIS CLARICEANO

Se 1956 foi um ano-chave para Guimarães Rosa, com o aparecimento de suas maiores obras (Corpo de baile e Grande sertão: veredas), 1964 o foi para Clarice Lispector: não só lançou dois títulos essenciais da nossa literatura, A Paixão segundo G.H. e A legião estrangeira, como também na segunda parte deste último, intitulada “Fundo de gaveta”, atualmente publicada em separado[1], sinalizou os rumos futuros da sua produção, isto é, uma escrita pautada pelo fragmentário, sobretudo pela flexibilidade dos textos, os quais puderam ser variamente utilizados, assumindo a forma de crônica, de parte de um conjunto maior (assim é formada, por exemplo, a tessitura de Água Viva), reaparecendo aqui e ali.

Esse processo acentuou-se à medida que, premida por dificuldades financeiras, ela passou a colaborar regularmente para jornais. Os fragmentos clariceanos se pulverizaram tanto que são incontáveis os apócrifos atribuídos a ela fazendo seu caminho enganoso pelas redes sociais e pela internet — afora os livros espúrios que vêm aparecendo, utilizando seu nome[2].

De minha parte, prefiro francamente sua primeira fase, que chegou ao ápice há 50 anos. Antes dos livros publicados (ambos pela Editora do Autor) naquele sombrio 1964 em que o Brasil entrou num prolongado regime ditatorial foram quatro romances (Perto do coração selvagem, 1944; O lustre, 1946; A cidade sitiada, 1949; A Maçã no Escuro, 1961— este último meu predileto dentro da produção clariceana) e duas reuniões de contos (Alguns contos, 1952; Laços de família, 1960).

Daí a importância do relançamento de A Paixão segundo G.H. numa edição comemorativa, mesmo porque libera essa obra-prima das horrendas e constrangedoras capas que a Rocco impingiu ao leitor de Clarice, e cujo objetivo nunca consegui discernir: algo infanto-juvenil ?; edições “para moças”?, autoajuda cor-de-rosa? De todo modo, um atentado contra a estética e o bom-senso.

capa 1capa 3capa 4

A AMOSTRA DE CALMO HORROR VIVO

“Mas se nós, que somos os reis da natureza, não havemos de ter medo, quem há de ter?” (do “Fundo de gaveta”, A legião estrangeira)

A Paixão segundo G.H. parece ter sido escrito para dar vida, numa linguagem de cair o queixo, ao que Octavio Paz descreve (em O arco e a lira) como a experiência do sagrado: “… é uma experiência repulsiva. Ou melhor, convulsiva. É um pôr para fora o interior e o secreto, um mostrar as entranhas. O demoníaco, dizem todos os mitos, brota do centro da terra. É uma revelação do oculto, implica uma ruptura do tempo e do espaço: a terra se abre, o tempo se parte; pela ferida ou abertura, vemos o outro lado do ser”.

A ferida ou abertura da narradora G.H. para o outro lado do ser é o quarto de empregada do seu apartamento, que ela resolve arrumar numa certa manhã. Lá é surpreendida por uma barata (e a esmaga com a porta do guarda-roupa, expondo justamente entranhas, literais e metafóricas) e esse encontro, tão doméstico, será a sua “paixão”, a desagregação e aniquilação da vida alienada, “humanizada demais”, rumo à identificação com a Vida, “pré-humana”, o que lhe dará nojo, causará náusea, como ela nos conta sob a forma cristã da confissão penitente (quando coloca a barata na boca, para prová-la, evocamos o ato de comungar), para se livrar do agônico, do “demoníaco”, no sentido das formulações de Paz.

Ou, nas palavras de G.H. (ao falar do neutro, do insosso, do inexpressivo que é o estado bruto do ser):“Pois o inexpressivo é diabólico. Se a pessoa não estiver comprometida com a esperança, vive o demoníaco. Se a pessoa tiver a coragem de largar os sentimento, descobre a ampla vida de um silêncio extremamente ocupado, o mesmo que existe na barata, o mesmo nos astros, o mesmo em si próprio — o demoníaco é antes do humano.

Há uma assimilação muito forte entre o sagrado e o imundo (a barata é chamada, entre outras coisas, de “amostra de calmo horror vivo), nessa narrativa onde se tenta, com um estilo “tateante”, interrogativo , mostrar “a verdade que não se quer. Pois a verdade é o horror de ter que admitir que o Ser passa pelo não-Ser, essa é a metamorfose de G.H, de mim em mim mesma”, ali, presa no quartinho de empregada com uma barata.

Para atingir esse estado é preciso perder tudo, em especial as extensões que nós criamos no mundo para registrar nossa identidade e que nos tornam objetos de nós mesmos (construções, cômodos, artefatos, sentimentos, conceitos). Para então abismar-se: Cada vez mais eu não tinha o que pedir. E via, com fascínio e horror, os pedaços de minhas podres roupas de múmia caírem secas no chão, eu assistia à minha transformação de crisálida em larva úmida… Eu havia prendido defronte de mim o imundo do mundo — e desencantara a coisa viva”.

PAIXÃO

DEPOIS DO INDIZÍVEL

“A linguagem é o meu esforço humano. Por destino tenho que ir buscar e por destino volto com as mãos vazias. Mas — volto com o indizível. O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem. Só quando falha a construção, é que obtenho o que ela não conseguiu.” (trecho de A Paixão segundo G.H.)

Clarice escreveu ainda muita coisa boa, antes de sua morte prematura em 1977: é o caso de Água viva, de suas reminiscências de infância (que aparecem em Felicidade clandestina), além da criação da inesquecível Macabéa de A hora da estrela, sem falar da ousadia em experimentar contos “grossos” e crus, em A via crucis do corpo[3].  Contudo, A Paixão segundo G.H. permanece seu texto mais brilhante. Melhor dizendo: cintilante.

VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2010/07/27/a-barata-monolito-a-paixao-segundo-g-h/

capa feiosacapa 5

____________________________

NOTAS

[1] A primeira parte, composta por treze contos, muitos dos quais podem ser incluídos entre os melhores da autora (nascida em 1920): “Os desastres de Sofia”, “A repartição dos pães”, “A mensagem”, “Macacos”, “O ovo e a galinha”, “Tentação”, “Viagem a Petrópolis”, “A solução”, “Evolução de uma miopia”, “A quinta história”, “Uma amizade sincera”, “Os obedientes”, “A legião estrangeira”.

A separação ocorreu com a publicação nos anos 1970 de dois volumes pela Ática, um mantendo o título e os contos da coletânea de 1964; outro, com a maioria dos textos da seção “Fundo de Gaveta” (alguns como o relativamente longo “A pecadora queimada e os anjos harmoniosos” não foram incluídos, e reapareceram apenas na coletânea póstuma Outros escritos) e com o lamentável título de Para não esquecer.

[2] Numa advertência a “Fundo de gaveta”, ela nos diz: “Por que publicar o que não presta? Porque o que presta também não presta. Além do mais, o que obviamente não presta sempre me interessou muito. Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno voo e cai sem graça no chão”. Mas é algo bem distante do espúrio e do oportunismo editorial, como a sequência de títulos póstumos e caça-níqueis, os quais só revelam uma deplorável incúria dos herdeiros.

[3] Cujo embrião já pode ser encontrado num dos fragmentos de “Fundo de gaveta”:

“__ Este aqui, disse ela apontando o filho menor com um sorriso de carinho, eu só tive porque descobri tarde demais e já não havia mais jeito de tirar fora.

     O menino abaixou os olhos e sorriu com modéstia.”

paixão-edição críticapaixão 2paixão 1artigo clarice

clarice_lispector_1_1200x1200-700x450

30/10/2014

Destaque do Blog: RETRATO DO ARTISTA QUANDO JOVEM CÃO no centenário do nascimento de Dylan Thomas

dylanjovem cão

“A geada tem conhecimento

por rumores dispersos no vento

que o gênio solitário de minhas raízes

gerou frutos de todos os matizes

e plantou um ano verde, para consolo

dos meus dias futuros.” (de A luta)

“…e eu tinha mais amor em mim do que poderia querer ou poderia usar…” (de Quem você queria que estivesse conosco?)

“Eu era um solitário andarilho noturno e um viciado em esquinas.” (de Como se fossem cãezinhos)

(o texto abaixo foi escrito especialmente para o blog, em outubro de 2014)

I

Um dos maiores poetas do século XX, Dylan Thomas foi também um grande prosador: aos 26 anos, publicou Retrato do artista quando jovem cão [Portrait of the artist as young dog, 1940, que comento na excelente tradução de Hélio Pólvora][1], cujo título ganhou uma aura de dupla derrelição: por um lado, incita a pensar numa posição artística epigonal e subalterna com relação ao Retrato do artista quando jovem (1916), de Joyce, mesmo com a extensão paródica do título (jovem “cão”); por outro, trata-se do retrato de um artista que, a rigor, nunca deixou de ser jovem, pois morreria precocemente, aos 39 anos (em 1953, depois de entrar em coma num bar no Greenwich Village novaiorquino).

Todavia, os dez contos do livro são extremamente peculiares e, caso possamos legitimamente aproximá-los do universo joyceano (no sentido da formação do escritor provinciano, oriundo de um ambiente no qual o rural e o urbano ainda estão estreitamente próximos, dentro do território do Império Britânico)[2], eles também têm o seu quê de Dublinenses: é uma comunidade e sua mentalidade a emergir dessas evocações de infância, adolescência e início da vida adulta[3]. Nelas, acompanhamos um garoto vivenciando de forma plena as experiências (os problemas e intrigas dos adultos chegam ao leitor através da sua percepção limitada do alcance deles), “alguns anos antes que eu soubesse que era feliz”[4] , um “cãozinho”, brincalhão, turbulento e indomável, até que se torne o jovem  cão inquieto e desgarrado naquele ambiente de pasmaceira, andarilho noturno solitário, “viciado em esquinas” (“Não quero ir pra casa, não quero sentar à lareira. Nada tenho a fazer quando estou em casa e não quero dormir. Gosto de andar sem rumo, de ficar assim, sem ter o que fazer, no escuro”), o qual, numa excursão pelo campo com um amigo, ao se afastar da cidade, bate em cada portão,”para dar a terrível benção de andarilho às pessoas das casas sufocantes”; e, por fim, o cão já na fronteira do mundo adulto, profissional da escrita (trabalhando na imprensa), varado de solidão e insatisfação, nos dois últimos relatos, A velha Garbo e Um sábado quente, vivendo — como um Pessoa galês — uma “tragédia inverídica e sincera”, “na solidão povoada que lhe desculpava o desespero, buscando a companhia embora a recusasse (…) Mais velho e mais sábio, mas não melhor, ele olhou-se no espelho para ver se sua descoberta e perda lhe estavam marcadas no rosto”.[5]

O ponto unificador, que faz com que os dez contos possam até ser tomados como dez capítulos de um romance orgânico, mas de estrutura algo solta, é que todas as vivências servem para alimentar o trabalho interno do escritor:

     “Quando mostrei esta história ao sr. Farr, muito tempo depois, ele disse:

__ Está errado, você misturou as pessoas. O menino do lenço dançava no Jersey. Fred Jones cantava no Fishguard. Mas não importa. Venha esta noite tomar um gole no Nelson. Tem uma moça lá que lhe mostrará onde o marinheiro mordeu-a. E tem um policial que conheceu Jack Johnson.

__ Em breve eu os porei num conto—disse.”[6]

dylan-228x228

II

Avatares ficcionais do autor de Retrato do artista quando jovem cão: Dylan (Os pêssegos); sr. Thomas—no sentido respeitoso de um “jovem senhor” (Uma visita ao avô); filho da sra. T.[7] (Patricia, Edith e Arnold); sr. Thomas—no sentido zombeteiro de aluno chamado às falas pelo professor (A luta); o rapaz de “nome galês” (O extraordinário Tossidela)[8]; o rapaz que mora perto do Cwmdonkin Park—endereço “de categoria” (Como se fossem cãezinhos); o jovem sr.Thomas—intelectual que discute socialismo e literatura (Onde o Tawe corre); o andarilho de 1, 52 m e 51 kg (Quem você queria que estivesse conosco?); Thomas—o aprendiz de repórter (A velha Garbo); Jack—como uma moça por quem se encanta insiste em chamá-lo (Um sábado quente).

Sete dos relatos são narrados em primeira pessoa: assim, em Os pêssegos (um dos momentos antológicos do livro), temos o pequeno Dylan em visita ao mundo rural dos tios, fazendo com que os mínimos detalhes e sensações do mundo físico se apresentem de forma aguda para o leitor, e que entreouve uma discussão a respeito da mãe de um colega mais afortunado (uma dívida que não se tem coragem de cobrar explicitamente, a forma despreziva e superior de sua atitude para com os parentes dele, sinalizada pela recusa em aceitar um prato com pêssegos).

Temos, por um lado, o encantamento com o mundo: “… senti o meu corpo jovem semelhante a um animal excitado que me cercava, os joelhos feridos querendo dobrar-se, o coração aos arrancos, aquele calor profundo por entre as pernas, o suor ardendo nas mãos, túneis cavados nas membranas do tímpano, bolotas de sujeira entre os dedos dos pés, os olhos quase fora das órbitas, a voz entrecortada, o sangue disparando, eu pensava apenas em fugir, pular, nadar e esperar o instante de cair em cima da presa. Ali, brincando de índios ao entardecer, tinha consciência de estar eu mesmo exatamente no meio de uma história viva, meu corpo sendo a minha aventura e o meu nome”.

Por outro, a tensão das relações adultas:

“Então a voz de Annie ficou tão suave que não pudemos ouvir as palavras, e o tio disse:

__ Ela pagou os trinta xelins?

__ Estão falando da sua mãe—eu disse a Jack.

    Annie falou baixo por muito tempo, de modo que só pegávamos uma palavra ou outra. A sra. Williams e automóvel e Jack e pêssegos. Imaginei que ela estivesse chorando, pois a voz faltou-lhe na última palavra.

    A cadeira de tio Jim rangeu outra vez, ele devia ter esmurrado a mesa, e nós o ouvíamos gritar:

__ Pois eu lhe darei pêssegos! Pêssegos, ora pêssegos! Quem ela pensa que é? Os pêssegos não são dignos dela? Para o inferno seu maldito automóvel e seu maldito filho! Humilhando a gente…”

    Esse mundo de meninice (no que a palavra engloba da criança e do adolescente) é narrado pelo protagonista  também  em Uma visita ao avô, A luta, O extraordinário Tossidela. Ele começa a se afastar explicitamente dele em Como se fossem cãezinhos. E talvez o conto que represente o “rito de passagem” mais explícito seja Quem você queria que estivesse conosco?, no qual ele narra uma excursão vagamente libertária até a Cabeça do Verme, um rochedo inóspito, levada a cabo na companhia do enlutado amigo Ray, que perdeu quase todos os parentes mais próximos, devido a doenças longas e terríveis.

É uma perambulação revestida de explícito significado simbólico para ambos: “Fugíamos a toda, ou caminhávamos, com orgulho e malícia, e arrogantemente, para longe das ruas que nos prendiam, rumo ao imprevisível campo (…) Uma ovelha baliu baa! Em algum lugar, o que prenunciava as Terras Altas. Qual o prenúncio, isso eu ignorava…”

A meio caminho essa energia libertária esmorece, eles acabam desistindo da caminhada a pé, e tomam um ônibus. O encantamento com a aventura perdura, entretanto, nos primeiros instantes que passam no objetivo da excursão, o Cabeça do Verme: “Em vez de me tornar pequeno no grande rochedo colocado entre o céu e o mar, senti-me do tamanho de um edifício respirando, e no mundo inteiro somente Ray poderia igualar meu admirável berro quando eu disse: Por que não viver aqui para sempre? Sempre e sempre. Construir uma maldita casa e viver como se fôssemos uns malditos reis! Esta palavra ecoou entre as aves grasnadoras, que a transportaram para as terras não lavradas nos tambores de suas asas”.

Ray, todavia, parece deslocado ali na amplitude: “Não conseguia relaxar e esticar-se ao sol e rolar de lado para olhar um precipício que descia até o mar, ao contrário, tentava sentar-se na vertical, como se estivesse numa cadeira dura e nada lhe restasse fazer com as mãos. Brincava com a bengala domada e esperava que o dia transcorresse em ordem e que a Cabeça produzisse caminhos, que surgissem gradis nas bordas escarpadas”.[9]

Isso se deve a algo que Joyce, Faulkner e William Kennedy nos fizeram sentir com muita força ao longo da sua ficção: a presença dos mortos no cotidiano dos vivos, que exorbita na vivência do jovem Ray (respingando, por assim dizer, em seu companheiro—afinal, ele não é um jovem escritor à toa). Ao evocarem o jogo indicado pelo título, essa presença se torna opressiva, ocupando mais espaço do que deveria, principalmente numa excursão libertária: “O vento rodeou a Cabeça e resfriou nossas camisas de verão, e o mar começou a cobrir rapidamente o nosso rochedo, já coberto de amigos,  cheio de vivos e mortos, investindo contra as trevas”.

Quando reencontrarmos o “jovem cão”, nos dois derradeiros textos do livro, ele já será praticamente um adulto e muito diferente do menino cujo corpo era sua aventura e seu nome.

Retrato do Artista quando jovem cão

III

Os três relatos em terceira pessoa permitem que o leitor veja o “jovem cão” de outra forma, em idades distintas: ainda bastante menino (em Patricia, Edith e Arnold, que poderia ser incluído em qualquer antologia dos melhores contos do século passado); já saindo da adolescência e envolvido em discussões intelectuais e literárias — além de postado frente a opções radicais do modo “adulto” de ser, como a engrenagem da vida conjugal (que ele testemunha em Onde o Tawe corre: temos aí o homem casado que recebe jovens em sua casa, entre eles o sr. Thomas, para discutir socialismo e criar um romance coletivo, uma experiência bem “moderna”, decerto, mas num horário estrito, imposto pela sensata esposa, após o qual ele deve colocar o gato para fora e se recolher); e já um cão movimentando-se como “adulto” (Um sábado quente), apesar de o narrador se referir a seu protagonista ora como “menino”, ora como “rapaz”, mas sempre de uma forma elegiacamente irônica, como um réquiem daquele mundo todo explorado pelos relatos anteriores.

    Patricia, Edith e Arnold, assim como Os pêssegos, mostra uma intriga adulta acontecendo em paralelo aos apaixonados interesses momentâneos do protagonista: temos a descoberta por parte de duas criadas de que mantêm um relacionamento com um mesmo homem, e ambas — levando o menino— partem para um confronto (para o menino, uma aventura: “Ele sabia que aquela seria uma tarde em que tudo poderia acontecer”; e também, aqui, o escritor já está praticamente formado—como diz a criada de sua casa, Patricia, para a “rival”: “Ele observa tudo”). É um texto esplêndido, inclusive pela maneira como ele consegue caracterizar tudo de uma forma definitiva (linguagem corporal, personalidades): “Patricia sacudiu a cabeça, e o chapéu pendeu sobre um olho. Enquanto endireitava o chapéu, ela disse com sua voz de botar tudo em pratos limpos…” E, para coroar, ainda arremata com uma frase perfeita — que não revelarei aqui.

    Um sábado quente é, e não só por ser o conto derradeiro, o clímax de Retrato do artista quando jovem cão. Temos a solidão e carência do protagonista perambulando por uma cidade que é sua e ao mesmo tempo já não é (com seu destino de “poeta” assumido): “Ele pensou: poetas vivem e andam com seus poemas; um homem com visões não requer companhias; sábado é um dia terrível: devo ir para casa e sentar-me no meu quarto junto ao aquecedor. Mas ele não era um poeta vivendo e andando, era um rapaz numa cidade marítima, num quente e concorrido feriado, com duas libras para gastar. Não tinha visões, somente duas libras e um corpo pequeno com os pés na areia tumultuada; serenidade era coisa para velhos; e o rapaz se afastou, sobre as agulhas da ferrovia, rumo à estrada dos trilhos do bonde”.

Como certos heróis de Scott Fitzgerald, ele se deixa levar, meio passivamente, por uma “aventura” com potencial tanto de alto romantismo (pois ele quer se apaixonar e se ligar a alguém) quanto de mundanismo um pouco sórdido e derrisório (“Ó amor!Ó amor! Ela não é uma dama com sua típica voz monótona, ela bebe que nem um mergulhador em águas profundas; mas Lou, escute aqui, eu sou seu, Lou, você é minha”).

Conduzido, junto com um grupo, para a moradia da moça por quem se apaixona (Lou), ele adentrará — quando sair do quarto dela para ir a um banheiro externo — como que em outra órbita narrativa, mais inquietante, menos figurativa (se posso me expressar assim), muito pressaga (bem distante do dia ensolarado, festivo e mundano que deu o “tom” a páginas e mais páginas) quanto ao futuro desse poeta em flor, errando pelos andares de uma edificação que se torna labiríntica, “passando por barulhos de vida secreta atrás de portas”:

    “Esperou muito tempo na escada, embora já não houvesse amor à sua espera, nem cama, senão a sua, a muitos quilômetros de distância, onde deitar-se, e somente o dia próximo para relembrar a sua descoberta. Ao seu redor, os perturbados moradores de casa de cômodos voltaram a cair no sono. Depois, ele saiu da casa para o vasto espaço sob os inclinados guindastes e escadas de mão. A luz de uma débil lâmpada enferrujada caía através dos montes de tijolos e de madeira partida e do pó que outrora fora uma casa, onde pessoas humildes e quase anônimas e jamais relembradas na cidade suja tinham vivido e morrido, todas elas, para todo o sempre, perdedoras”.

Maquette, Maquette of book cover design: Dylan Thomas, Portrait of a Young Artist as a Young Dog

IV

   “No centro seguro de sua própria identidade, o mundo familiar à sua volta, semelhante a outra carne, ele estava sentado triste e satisfeito na sala de um hotel comum e banal à beira-mar, na cidadezinha tediosa e espalhada onde tudo estava acontecendo. Não tinha necessidade do escuro mundo interior quando Tawe fazia pressão contra ele, e pessoas excêntricas e comuns irrompiam, violentas, e arrastavam-se com estrépito e cores para fora de suas casas, para fora de seus prédios feios, fábricas e avenidas, lojas brilhantes e capelas blasfemadoras, terminais e centros de convenções, becos decadentes e alamedas de tijolos, saindo dos arcos, abrigos e buracos atrás dos tapumes, saindo da inteligência comum e selvagem da cidade.” (trecho de Um sábado quente)

E após esse ligeiro percurso pelas linhas de força de Retrato do artista quando jovem cão, só uma inabilidade extrema de minha parte impediria o leitor de perceber com clareza por que Dylan Thomas não pode deixar de ser incluído também no rol dos prosadores (ou praticantes da “poesia da prosa”) de primeira.

images (7)

____________________________

POEMAS_REUNIDOS_19341953_1235977518P

ANEXO

Abaixo, transcrevo um dos meus poemas prediletos de Dylan Thomas na tradução de Ivan Junqueira (Poemas Reunidos: 1934-1953, também editado pela José Olympio, como Retrato do artista quando jovem cão). É o último da coletânea Mortes e entradas (1946):

COLINA DE SAMAMBAIAS

Quando, junto à casa em festa, sob os ramos da macieira,

Eu era lépido e jovem, e feliz como era verde a relva,

     A noite suspensa sobre as estrelas do desfiladeiro,

          O tempo a permitir que eu gritasse e me erguesse,

    Dourado, no fulgurante apogeu de seus olhos,

Eu, venerado entre as carroças, era o príncipe da cidade das maçãs,

E certa vez, com orgulho, fiz com que as árvores e as folhas

            Se arrastassem com margaridas e cevada

     Até os rios iluminados pelos frutos caídos sobre a terra.

 

E como era moço e descuidado, famoso entre os celeiros

Ao redor do pátio feliz, e cantava, pois a fazenda era o meu lar,

   Sob o sol, que é jovem apena uma vez,

         O tempo deixava-me brincar e ser dourado

    Na misericórdia de seus bens,

E, verde e dourado, eu era caçador e pastor, mugiam os bezerros

Ao som de minha trompa, das colinas vinha o uivo claro e frio das raposas,

        E lentamente ecoava a celebração do domingo

    Nos seixos dos córregos sagrados.

 

Tudo fluía e era belo sob o sol: os campos de feno

Altos como a casa, a música das chaminés, tudo era ar

     E ecoava, cheio de água e sortilégio,

         E fogo era tão verde quanto a relva,

    E à noite, sob a luz das estrelas humildes,

Enquanto eu cavalgava rumo ao sono, as corujas subjugavam a fazenda,

E sob a lua, abençoado entre os estábulos, eu ouvia os noitibós

        Voando entre as medas, e os cavalos

    Que flamejavam em meio às trevas.

 

E então, ao despertar, a fazenda, como um vagabundo

Branco de orvalho, regressa com o galo sobre o ombro: tudo

    Fulgia, tudo era Adão e sua donzela,

       O céu se adensava outra vez

   E o sol crescia ao redor daquele dia imaculado.

Assim deve ter sido após o nascimento da luz elementar

No primitivo espaço giratório, e os ardentes cavalos encantados

       Saíam relinchando da verde estrebaria

   Rumo ao campos da celebração.

 

E na casa em festa, venerado entre raposas e faisões,

Sob as nuvens recém-formadas, e tão feliz quanto era grande o coração,

    Ao sol que renasce a cada dia,

       Eu corria por meus caminhos temerários,

   Meus desejos  se precipitavam pelo alto feno da casa

E nada me importava, em meu comércio celestial, pois o tempo

Em suas órbitas melodiosas, só concede raras canções matinais

         Antes que as crianças verdes e douradas

    O acompanham até o estertor da graça,

 

Nada me importava, nos dias brancos como cordeiros, que o tempo

                                                                                     [me levasse,

Pela sombra de minhas mãos, até o paiol cheio de andorinhas,

    Sob a lua que jamais deixa de galgar os céus,

      Nem mesmo, ao cavalgar rumo ao sono,

    Que chegasse a ouvi-la flutuar entre os altos campos

E acordasse na fazenda apagada para sempre nessa terra sem crianças,

Ah! Quando eu era lépido e jovem, na misericórdia de seus bens,

   Embora eu cantasse em meus grilhões como canta o mar.

 ________________________________________________

hqdefault

NOTAS

[1] De saída, é interessante notar que, pelo que depreende dos textos do livro, Dylan Thomas desde muito cedo se percebeu como escritor, e tanto autor de contos quanto de poemas:

“… a égua parecia uma estátua desajeitada a trotar, e todos os demônios dos meus contos, se trotassem ao lado dela ou se, reunidos, lhe fizessem caretas, encarando-a bem nos olhos, certamente não a fariam  sacudir a cabeça ou se apressar”, lemos no conto inaugural, Os pêssegos.

[2] Um universo que está presente ainda em Beckett, basta ler Molloy.

[3] Thomas nasceu em Uplands, parte de Swansea (em 27 de outubro de 1914). Sua família era oriunda dos condados de Carmarthen e Cardigan.

[4] Lemos em O extraordinário Tossidela.

[5] Lemos em Um sábado quente.

[6] É o final de A velha Garbo.

[7] “Quando ela se foi, Dan perguntou:

__Por que um homem tem sempre vergonha da mãe?

__ Talvez não tenha quando crescer—eu disse, mas em dúvida. É que, uma semana antes, eu descia a High Street com três meninos antes da escola e vi minha mãe com a sra. Partridge fora de Kardomah. Eu tinha certeza de que ela me chamaria na frente dos outros e diria: Vá para casa a tempo de pegar o chá, e desejei que a High Street se abrisse e me tragasse. Eu amava e repudiava minha mãe…” (trecho de A luta)

Com relação ao pai: “Recostei-me no balcão, entre um vereador e um tabelião, que bebiam cerveja amarga, desejando que meu pai me visse, e ao mesmo tempo feliz porque ele estava de visita ao tio A. em Aberavon. Ele não poderia deixar de ver que eu não era mais menino, nem deixar de zangar-se por causa do ângulo do meu cigarro e do meu chapéu e da maneira como agarrava a caneca de cerveja.” (trecho de A velha Garbo)

[8] No qual a mescla camaradagem/rivalidade das relações masculinas adolescentes às vezes ameaça uma atmosfera O Senhor das Moscas (1954), de William Golding, inclusive com um bode expiatório (o Tossidela do título, “zoado” pelos demais garotos, e um tanto patético).

[9] O que destoa decerto da atitude do início do relato: “Batíamos em cada portão para dar a terrível bênção do andarilho às pessoas das casas sufocantes”.

Dylan Thomas

21/10/2014

O DRÁCULA DE LÚCIO CARDOSO

bram_stoker_in_kayip_gunlugu_129

lucio_cardoso62

image

“Meus caros amigos—disse o mestre—, creio que é bom explicar com que espécie de inimigos temos de tratar. Os vampiros existem. Tivemos a prova. Sem falar no desgraçado exemplo desses últimos tempos, achamos a evidência no passado. Não pudemos salvar a nossa pobre amiga, mas podemos, no entanto, prevenir outras desgraças.

    O nosferatu não morre, como a abelha, da sua própria mordida, mas vive, e ganha uma nova força. O vampiro que conhecemos tem a força de vinte homens reunidos. Ele ainda se vale da necromancia que significa, como a etimologia da palavra indica, a ciência dos mortos; e todos os mortos de que ele se aproximou obedecem ao seu comando. É um verdadeiro demônio. Pode tomar certas aparências e desaparecer como a nuvem. Como agir para destruí-lo? Onde apanhá-lo? A tarefa é rude, a luta pode ser trágica. Eu estou velho; mas eu, que importa, no entanto vocês, que são moços, ousariam afrontá-lo?”  (trad. Lúcio Cardoso)

(uma versão da resenha abaixo foi  publicada originalmente m A TRIBUNA de Santos, m 21 de outubro de 2014)

Com a estreia (esta semana) de Drácula- A História Nunca Contada, temos mais um capítulo da incessante retomada do mais famoso morto-vivo da cultura ocidental, desde a publicação (1897) do romance original do irlandês Bram Stoker, que, aos 14 anos foi para mim leitura apaixonante, daquelas de não largar o livro até terminá-lo. Com minha pouca experiência à época, o que fazia o relato ainda mais absorvente era a sua construção através dos diários e da correspondência dos personagens principais.

Ao longo dos anos, apesar de alguns filmes notáveis, nunca assisti a nenhum de fato fiel—o mais próximo, inclusive pelo título, foi o inventivo (e muito belo) Drácula de Bram Stoker (1992), de Coppola, e mesmo assim acrescentaram uma improvável ligação amorosa (um lance de almas unidas para além da morte!) entre o vampiro e a heroína da história, Minna Harker.

A Civilização Brasileira relançou uma tradução de Lúcio Cardoso[1] (que nasceu no ano da morte de Stoker, 1912) de 1943 (quando foi publicado Dias perdidos, a meu ver seu melhor romance): Drácula- O Homem da Noite.

Mais uma vez, e conhecendo à exaustão a história, li sem trégua, do começo ao fim, tão competente é o trabalho do escritor mineiro (que pode ser lido hoje sem sobressaltos, até pela moçada cuja iniciação ao mundo vampiresco se deu com a saga Crepúsculo—mesmo os anacronismos de expressão soam deliciosos: Mas não arrebite o narizinho, prometo não fazer tisanas”). Só me decepcionei, como saldo dessa nova leitura, com todos os personagens, inclusive sumidades científicas como Van Helsing e o alienista Seward, narrando do mesmo jeito das leigas donzelas Minna e Lucy, vítimas (a segunda delas, de forma fatal) de Drácula. Não se observa a mínima diferença intelectual nos registros, arrolam-se sobretudo ações e reações, e no final mesmo os cientistas parecem mais aventureiros de seriado.

drácula

Fazendo uso de outra tradução à mão (a de Theobaldo de Souza, pela L&PM, também publicada pelo Círculo do Livro), verificamos a raiz do problema: na verdade, Lúcio Cardoso fez uma condensação do texto, tão pouco fiel a ele na letra (apesar de manter o “espírito”) quanto as inúmeras adaptações para o cinema[2]. Já era de estranhar o volume com 250 páginas, quando outras edições apresentam o dobro. Comparando as versões, constatamos a ausência de cinco capítulos, a supressão de parágrafos e trechos inteiros. É bem mais do que simplesmente “traduzir de forma peculiar”, como se afirma na orelha: “Esta singularidade justificou, para a presente edição, a escolha de interferir o mínimo possível nas decisões vocabulares e sintáticas do tradutor; ora, reduzir para 250 páginas um texto de 550 não é somente uma decisão vocabular e sintática, convenhamos! E há pelo menos um erro flagrante. No início do capítulo 6, Minna relata: “Fui apanhar Lucy e a mãe na gare”. É justamente o contrário: “Lucy me esperou na estação” (mais lógico, se é a narradora quem vai ficar como hóspede na casa da amiga).

O aspecto menos defensável é o já citado nivelamento levado a cabo pelo autor de Crônica da Casa Assassinada (1959), um dos nossos romances mais cultuados. Pois Stoker cuidou para que cada personagem tivesse seus traquejos de linguagem: por exemplo, as referências literárias, o estilo protocolar e administrativo de Jonathan Harker, que inicia a história ao chegar ao castelo de Drácula na Transilvânia (tornando-se seu prisioneiro), para os trâmites da aquisição de propriedades na Inglaterra; cortou-se a referência de que parte do relato do Seward é gravada num fonógrafo (às vezes quem usa esse recurso é Van Helsing); foi suprimida a correspondência entre os três pretendentes da trágica Lucy, que torna crível a união posterior (com os laços de amizade mais fortes do que a rivalidade amorosa) para caçar o vampiro. Em Drácula-O Homem da noite esse pacto surge de forma abrupta e esquisita; também a nota final que arremata a narrativa não dá o ar da graça.

Para se ter uma ideia mais precisa da simplificação efetuada, um trecho do diário de Minna: “Meus homens voltaram na hora do jantar, todos muito fatigados, tentei diverti-los do melhor modo possível. Depois do jantar, pediram-me que voltasse para o quarto sob pretexto de fumar um cigarro. Sei muito bem o que tudo isso quer dizer. Quis evitar uma nova insônia e pedi ao dr. Seward para me dar um ligeiro soporífero. Ele próprio preparou a poção” (e termina assim). Na versão de Theobaldo de Souza: “…à hora do jantar, quando voltaram, estavam muito cansados. Fiz o que estava a meu alcance para reanimá-los, e creio que tal esforço me fez bem, visto como esqueci completamente a minha própria fadiga. Depois do jantar, eles me mandaram ir para a cama. Disseram-me que iam fumar, mas eu sabia perfeitamente que se reuniram para trocar impressões a respeito das ocorrências do dia. Percebi, pela atitude de Jonathan, que ele guardava segredo de alguma coisa importante que agora iria compartilhar. Eu, entretanto, não estava sentindo bastante sono. Por isso, antes de recolher-me, pedi ao dr. Seward que me desse um sonífero qualquer, pois não dormira bem na noite anterior. Ele, solicitamente, preparou uma poção que me fez tomar, dizendo que não me prejudicaria em nada, pois a dose era bastante fraca. Agora, porém, continuo aguardando os efeitos do remédio, que me parecem cada vez mais distantes. Espero não ter feito nada de errado, porquanto, sempre que o sono se aproxima, um novo temor me faz estremecer. Talvez tenha sido tolice minha privar-me assim de poder despertar a qualquer instante. Quem sabe se isso não será necessário? Aí vem Sua Majestade, o Sono. Boa noite!”[3]

Feitas as contas, por falta de advertência editorial mais séria, o Drácula de Cardoso é relevante (e ótima leitura), com valor próprio (e nisso não vai a menor condescendência)[4] porém ainda menos Bram Stoker do que o de Coppola, e mais enganoso.

drácula artigodracula

___________________________________________

NOTAS

[1] Essa publicação faz parte do  relançamento da obra (inclusive seu trabalho como tradutor) do autor mineiro por essa casa editorial. Drácula- O homem da noite foi originalmente publicada em O Cruzeiro, informação que devo à Denise Bottmann.

[2] Após ter escrito (e enviado) o texto acima, comprei a mais recente tradução, realizada por José Francisco Botelho (Penguin/Companhia das Letras, 2014) e lá descobri que o próprio Stoker realizou uma condensação para uma edição popular, em 1901.  Pergunto-me se  não foi um exemplar dessa versão que caiu nas mãos de Cardoso. O que me leva à seguinte conclusão: por que a Civilização Brasileira não demonstrou o menor cuidado em contextualizar a versão que publicou?  Por que descuraram de um mínimo aparato informativo-crítico, tão necessário?

[3] Na versão de José Francisco Botelho:

“Ele [Jonathan Harker} e os outros estiveram na rua a maior parte do dia e chegaram muito cansados, na hora da ceia. Fiz o possível para alegrá-los e acho que o esforço me fez bem; por algum tempo,  esqueci minha própria exaustão. Após a ceia, mandaram-me para a cama e saíram para fumar juntos—ao menos, é o que me disseram. Mas sei que, na verdade, pretendiam contar uns aos outros o que haviam feito durante o dia; pela expressão de Jonathan, notei que ele tinha algo de importante a comunicar. Apesar do cansaço, eu não tinha sono. Antes que se retirassem, expliquei ao dr. Seward que não dormira bem na noite anterior e pedi que me desse algum tipo de narcótico. Com muita gentileza, ele preparou uma dose de sonífero. Disse que eu podia bebê-la sem medo, pois era muito suave e não me causaria nenhum mal… Tomei o remédio e estou esperando pelo sono, que continua distante e indiferente. Espero não ter cometido um erro, pois agora que começo a flertar com o sono, surgiu em mim um novo medo: talvez tenha sido uma tolice privar a mim mesma do poder de ficar desperta. Posso precisar dele, em breve. Mas aí vem o sono. Boa noite.”

[4] Aproveito para lembrar que ele fez uma versão excelente de Orgulho e Preconceito, a qual mesmo após décadas se sai bem em qualquer confronto (e eu o fiz) com versões mais atuais. Foi o meu primeiro contato com Jane Austen e a li pelo menos três vezes (duas, pelo simples prazer de leitura; a terceira, para compará-la com outras versões).

VER

https://armonte.wordpress.com/2013/01/30/orgulho-e-preconceito-200-anos-traducoes-brasileiras/

.Dracula_ldraculaFrank-Langella-Draculageorge hamilton

bram-stokers-dracula-gary-oldman1

jonathan

Luke-Evans-Dracula-Untold

klauskinski

Nosferatu

16/10/2014

POÉTICA DA PENUMBRA: Patrick Modiano, o Nobel dos territórios obscuros

jovem-modianoDA

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de outubro de 2014)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada no LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO, em 15 de outubro de 2014, VER http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2014/10/patrick-modiano-o-nobel-dos-territorios.html)

Aos 69 anos, Patrick Modiano foi anunciado como vencedor do Nobel, exatamente meio-século após outro francês, bem mais célebre, Jean-Paul Sartre, ter recusado com veemência a premiação. Será mera coincidência?[1]

Ao contrário, no entanto, da suposição generalizada por aqui, Modiano não é um desconhecido. Seus livros geralmente são sucesso de vendas e, para muitos, trata-se do maior escritor vivo da França. Aos 33 anos, Uma rua de Roma (Rue de boutiques obscures, 1978) ganhou o badalado prêmio Goncourt. Nessa obra-prima, ele fixou definitivamente um inconfundível universo de territórios e tempos obscuros, ao criar o detetive desmemoriado que investigava indícios, quase todos fugidios e evanescentes, do próprio passado, ao mesmo tempo uma incógnita e carregado de marcas opressivas: a Ocupação nazista, o colaboracionismo.

Modiano obsessivamente nomeia logradouros e fixa datas[2]. Nem por isso deixamos de ter a sensação de mergulhar numa atmosfera insubstancial, na falta de evidências concretas, a realidade tomada pelo fuliginoso, uma verdadeira poética da penumbra: Janeiro de 1965. Às seis horas já estava escuro no cruzamento do bulevar Ornano com a rua Championnet. Eu não era nada, eu me confundia com esse crepúsculo, com essas ruas…”, lemos em outro belo livro, Dora Bruder (1997), onde o narrador persegue — com clara percepção do fiasco da empreitada— os vestígios mínimos (“Levei quatro anos para descobrir a data exata de seu nascimento, 25 de fevereiro de 1926. E levei mais dois anos para conhecer o lugar onde nascera: Paris, décimo segundo arrondissiment. Mas, sou paciente. Posso esperar horas sob a chuva”) remanescentes da passagem por este mundo de uma adolescente judia dos tempos da Segunda Guerra: “Os pais perdem a pista da filha, e um deles vai desaparecer também, nesse 19 de março, como se o inverno daquele ano separasse as pessoas, destruísse e queimasse as pistas, ao ponto de lançar uma dúvida sobre a sua existência. E não há nada que possa ser feito. Os mesmos que são encarregados de o procurar e encontrar fazem fichas para que seja mais fácil fazer com que você desapareça depois, definitivamente”. Modiano continua a seu modo — com uma espécie de olhar de esguelha — uma das Grandes Narrativas da modernidade, cujo grande pai fundador é Kafka: a irrealização do humano (e especialmente da singularidade individual) pela burocracia.

Alguém ficará surpreso de lhe atribuírem o Nobel por conta “da arte da memória com a qual evocou os destinos humanos mais inapreensíveis e jogou luz sobre a vida durante a Ocupação”?

du plus loin

Apesar de tema recorrente, é injusto dizer que sua obra se limita a esse período histórico. Tome-se, por exemplo, um romance excelente como Do mais longe do esquecimento (Du plus loin de l´oubli, 1996) [3], cuja trama transcorre vinte anos depois da guerra. O narrador, ainda menor de idade, rompeu com os pais e mora num hotel (sem domicílio fixo, os personagens modianescos transitam por alojamentos provisórios, muitas vezes precários e sórdidos, nas bordas do escuso[4]), vendendo livros de arte para sobreviver.

Ele se envolve com Jacqueline, viciada em éter, que vive com Van Bever, jogador inveterado, e tem um caso com o suspeitíssimo dentista Cartaud. A certa altura, Jacqueline propõe ao protagonista que roube uma mala no consultório do amante e ele o faz sem pestanejar. As páginas em que narra o intervalo de tempo, após o roubo, até entrar em contato com Jacqueline, estão entre as melhores que Modiano escreveu. O jovem narrador, inclusive, se visualiza fugindo sozinho com a mala, arrastado pelo imaginário das estações e trens que pululam no universo do Nobel 2014[5], tanto quanto os hotéis e pensões.

Enfim, os dois vão para Londres e conviverão com a nascente fauna da Swinging London anos 1960, em disponibilidade total (e sempre com um pé no submundo[6]), e também com um sentimento de irrealidade (que pode ter elementos de sonho ou pesadelo), de que “a vida ainda não começou”. E nem começará: tão gratuitamente como se aproximou dele, Jacqueline desaparecerá; só irão se reencontrar dali a quinze anos; e depois de outros tantos, ele perambulará por Paris, recordando e ruminando esses incidentes e ligações (“Quinze anos se passaram ainda, numa tal bruma, que se confundem uns com os outros”), possivelmente os únicos um pouco mais nítidos na nebulosa, no lusco-fusco da sua existência: “…teria sido uma pena acabar naquele banco, numa espécie de amnésia e perda progressiva de identidade…”, ele nos diz, manuseando a certidão de nascimento, como se tentando comprovar via documentação sua presença no mundo[7], tal como o narrador de Dora Bruder tentará fazer com a desaparecida Dora, ou Guy, o detetive de Uma rua de Roma, com seu passado, antes de adotar esse avatar[8].

A desconcertante, fragmentária educação sentimental narrada em Do mais longe do esquecimento pode frustrar leitores que queiram uma trama unívoca, coesa e dirigida a um fim. Em contrapartida, se o pensador polonês Zygmunt Bauman estiver correto em sua hipótese de que vivemos em plena “modernidade líquida”, com o afrouxamento de laços com o real e até da noção de identidade, poucos a registraram tão poderosamente quanto Patrick Modiano em seus romances curtos, de linguagem sóbria, quase seca, e perigosamente movediços: podemos afundar neles[9].

resenha modiano

_________________________________________________________

NOTAS

[1] E aqui devo lembrar que somente  21 anos depois da “desfeita” do autor de A náusea a França, outrora muito constante nos anúncios de vencedores, ganharia novamente um Nobel, com Claude Simon, em 1985.

Numa resenha em que fazia “apostas para o Nobel”, escrevi na minha coluna em A TRIBUNA de Santos, em 4 de outubro de 2008:

Na França, o maior dos candidatos é um expatriado, o tcheco Milan Kundera, que passou a escrever na língua do seu país de adoção (A Identidade, A Ignorância), mas já era mais conhecido pelas traduções francesas das sua extraordinária obra anterior (A Brincadeira, A Valsa dos Adeuses, O Livro do Riso e do Esquecimento, Risíveis Amores, A Insustentável Leveza do Ser). É um dos que eu ficaria particularmente feliz se ganhasse. Entre os ‘nativos’ (palavra cada vez mais problemática), por que não Patrick Modiano (Rue de Boutiques Obscures, Ronda da Noite) ou o intrigante J. M. G. Le Clézio (Deserto, À Procura do Ouro, A Quarentena), ambos sobreviventes honrosos do apocalipse de insignificância e irrelevância daquela que foi a pátria oficial da literatura?”

Le Clézio foi o vencedor daquele ano. Agora, só falta Kundera.

VER aqui no blog:

https://armonte.wordpress.com/2011/10/03/o-nobel-do-nomade/

https://armonte.wordpress.com/2012/07/28/quando-a-identidade-e-a-memoria-sao-liquidas-uma-rua-de-roma-de-patrick-modiano/

[2] Na abertura de Uma rua de Roma o leitor já pode ter um vislumbre dessa recorrência obsessiva:

“Atrás de Hutte, prateleiras de madeira escura cobriam a metade da parede: aí se encontravam catálogos telefônicos e anuários de todos os tipos, e desses últimos cinquenta anos. Hutte dissera-me várias vezes que eram instrumentos de trabalho insubstituíveis, dos quais jamais se separaria. E que tais catálogos e anuários constituíam a mais preciosa e comovente biblioteca que alguém pudesse ter, pois em suas páginas estavam registrados muitos seres, coisas e mundos desaparecidos, sobre os quais só aqueles volumes prestavam testemunho”.

[3] Título tirado de uma citação do poeta alemão Stefan George (1868-1933), o qual foi de certa forma espuriamente encampado pela propaganda nazista, devido aos elementos “arianos” da sua obra.

[4] Como acontece com o pai, figura recorrente, metido em negociatas no mercado negro, e um judeu de ambíguas estratégias de sobrevivência durante o período mais sombrio (pelo menos no século XX) da França, país em que o antissemitismo possivelmente aflorou de forma violenta muito antes da Ocupação, a qual de certa representou apenas o ápice de um longo processo.

[5] Inclusive nos sonhos e pesadelos:

“Mas comecei a sentir uma espécie de pânico, uma vertigem, como ocorre nos pesadelos, ou quando não conseguimos chegar numa estação, e as horas passam, e vamos perder o trem.

    Há vinte anos, experimentei uma aventura parecida. Soube que meu pai fora hospitalizado no Pitié-Salpêtrière. Eu não o tinha visto mais desde o final da minha adolescência. Decidi que lhe faria uma visita improvisada.

    Lembro que vaguei durante horas pelo enorme hospital, à sua postura. Entrava em prédios antigos, nas salas de enfermaria, repletas de camas, e as perguntas que fazia às enfermeiras recebiam sempre respostas contraditórias. Acabei duvidando da existência de meu pai (…) Percorri os pátios de cimento até a noite. Não consegui encontrar meu pai. Nunca mais o revi.”

notícia de jornaldoradora 1

[6]Gente engraçadaDo tipo que deixa apenas, após sua passagem, um nevoeiro que rapidamente se dissipa. Hutte e eu lidávamos freqüentemente com esses seres cujas pegadas se perdem. Um belo dia, surgem do nada e ao nada retornam, depois de ter brilhado com algumas fagulhas. Rainhas de beleza. Gigolôs. A maioria deles, mesmo no instante da vida, não possuía maior consistência do que uma onda de vapor que não se condensará jamais” (Uma rua de Roma)

[7] Talvez seja interessante uma amostra maior, situando melhor a passagem citada acima:

“Por mais que juntasse outras lembranças mais recentes, estas pertenciam a uma vida anterior que eu não estava inteiramente certo de ter vivido.

    Tirara do bolso minha certidão de nascimento. Nascera durante o verão de 1945, e uma tarde, às cinco horas mais ou menos, meu pai fora assinar o registro da prefeitura. Eu via sua assinatura na fotocópia que me haviam dado—uma assinatura ilegível. Depois ele voltara para casa a pé, pelas ruas desertas daquele verão, em que se ouviam as campainhas cristalinas das bicicletas, no silêncio. E era a mesma estação de hoje, o mesmo fim de tarde ensolarado.

     Tornara a guardar a certidão de nascimento no bolso. Estava num sonho, do qual precisava mesmo acordar. Os laços que me ligavam ao presente estiravam-se cada vez mais. Realmente, teria sido uma pena acabar naquele banco, numa espécie de amnésia e de perda progressiva de identidade, e já não poder indicar aos passantes meu domicílio… Ainda bem que tinha no bolso aquela certidão de nascimento, como os cães que se perderam em Paris, mas trazem na coleira o endereço e o telefone do dono… E tentava explicar para mim mesmo a hesitação que sentia. Fazia muitas semanas que não via ninguém. As pessoas a quem telefonara não tinham voltado das férias. Além disso, errara ao escolher um hotel afastado do centro. No início do verão, pretendia passar ali apenas uma temperada muito breve, e alugar um pequeno apartamento ou um conjugado. A dúvida insinuava-se em mim: teria eu realmente vontade de ficar em Paris? Enquanto durasse o verão, teria a ilusão de ser apenas um turista, mas no início do outono as ruas, as pessoas e as coisas retomariam sua cor cotidiana: cinza. E eu não sabia se ainda tinha coragem de me fundir de novo naquela cor.”

[8] “…tive a desagradável impressão de sonhar. Já vivera minha vida e não era senão uma alma penada que flutuava no ar morno de uma noite de sábado. Por que desejar de novo atar laços rompidos e procurar passagens muradas há tanto tempo? E esse pequeno homem gorducho e bigodudo que andava a meu lado, eu tinha dificuldade em acreditar que fosse real”, lemos em Uma rua de Roma.

[9] Os romances de Modiano acima citados, Uma rua de Roma, Do mais longe do esquecimento e Dora Bruder foram lançados no Brasil pela Rocco e traduzidos respectivamente por Herbert Daniel-Cláudio Mesquita (1986), Maria Helena Franco Martins (2000) e Márcia Cavalcanti Ribas Vieira (1998).

patrick-modiano-litterateur-solitaire,M110430patrick-modiano-2007

07/10/2014

“Garota Exemplar” e a dificuldade para ser um homem ou uma mulher (quanto mais uma pessoa) real

USA - Portraiture - Gillian Flynn   garota exemplar

  Era verdade que eu também sentira isso durante o último mês, quando não queria machucar Amy. Isso me ocorria em momentos estranhos—no meio da noite, dando uma mijada, ou pela manhã, servindo uma tigela de cereal–, identificava uma ponta de admiração e, mais que isso, afeto por minha esposa, bem no fundo de mim, nas entranhas. Saber exatamente o que eu queria ler naqueles bilhetes, me reconquistar, até mesmo prever todos os meus erros… A mulher me conhecia a fundo. O tempo todo eu pensara que éramos estranhos um para o outro, e na verdade nos conhecíamos intuitivamente, em nossos ossos, nosso sangue.

    Era meio romântico…” (trecho de Garota Exemplar)

“Se ela puniu uma amiga de alguns meses se jogando de uma escada, o que faria com um homem burro o bastante para se casar com ela?” (idem)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 07 de outubro de 2014)

Amy Exemplar é heroína de uma popular série de livros juvenis. Sempre faz as escolhas corretas e seu comportamento é impecável. Rand e Marybeth Elliott, os autores, têm uma filha chamada Amy, a quintessência da nova-iorquina sofisticada, linda e inteligente, que no entanto passou por experiências desagradáveis por causa de seu alter ego fictício: além de esperaram dela a perfeição (“o eu que eu deveria ser”), é constante a perseguição de pessoas obcecadas.

Sua vida começa a desmoronar mesmo quando ela e Nick Dunne, o marido, perdem o emprego, e os pais quase entram em falência (a série ficou fora de moda e eles fizeram investimentos ruins), tudo na esteira da recessão americana de anos recentes. Nick propõe uma mudança para sua cidade natal, Carthage (Missouri), com seus “derrotados satisfeitos”, corroída pelo desemprego endêmico e pela falta de perspectivas. Ali, a mãe dele está morrendo de câncer, o pai misógino e truculento sucumbindo ao Alzheimer. Amy investe o resto do seu dilapidado pecúlio num bar que Nick resolve montar com a irmã gêmea.

No dia do aniversário de cinco anos de casamento, ela desaparece, com fortes indícios de violência. Como dirá o advogado de Nick, problemas financeiros+ casal em crise e esposa grávida+ a existência de uma amante= suspeito número um.

Garota Exemplar [Gone Girl, 2012—que eu comento na tradução de Alexandre Martins] é dividido em três partes. Na primeira, com brilhantismo e uma prosa fantástica[1], Gillian Flynn alterna os pontos de vista de Nick e Amy, ele narrando os acontecimentos a partir da constatação do sumiço de Amy; ela, através de um diário, descrevendo o processo de transformação do casamento numa ratoeira de empobrecimento, hostilidade mútua e medo: “Nick se casou comigo quando eu era uma mulher jovem, rica e bonita, e agora sou pobre, desempregada, mais perto dos quarenta que dos trinta; não sou mais só bonita, sou bonita ´para a minha idade´. É a verdade: meu valor diminuiu. Posso dizer pelo modo como Nick olha para mim. Mas não é o olhar de um sujeito que se deu mal em uma aposta honesta. É o olhar de um homem que se sente enganado. Logo poderá ser o olhar de um homem preso em uma armadilha”.

GONE_GIRL

Após esse tour de force, na segunda parte descobrimos que a vitimização de Amy era um engodo meticulosamente planejado como uma vingança contra Nick, por ter sido infiel e por não corresponder à ideia de “marido exemplar”. Curiosamente, nem assim o leitor chega a simpatizar com esse homem fraco, manipulador de um charme “viril-vulnerável” (eterno filhinho da mamãe), o qual, se não chega às raias do ódio contra as mulheres do pai (e de toda uma faixa de machos emasculada pela crise econômica, tal como o Meio-Oeste é soturnamente retratado, apesar das fortes ligações comunitárias), começa a acreditar numa espécie de conspiração global das mulheres contra ele (é alvo de ataques constantes na mídia, muitos deles comandados por apresentadoras de programas sensacionalistas): “Andie tinha me sacaneado, Marybeth se virara contra mim, Go perdera uma dose crucial de fé, Boney preparara uma armadilha para mim, Amy me destruíra. Servi-me de uma bebida. Tomei um gole, apertei os dedos ao redor do copo e o arremessei contra a parede, vi o vidro explodir como fogos de artifício, ouvi o barulho tremendo, senti o cheiro da nuvem de Bourbon. Fúria em todos os cinco sentidos. Aquelas piranhas desgraçadas…”[2]

     Garota Exemplar é, então, uma reflexão ficcional sobre os EUA mergulhado numa regressividade tanto econômica quanto no plano das relações (“É uma época muito difícil para ser uma pessoa, apenas uma pessoa real, de verdade, em vez de uma coleção de traços de personalidade recolhidos de uma interminável máquina automática de personagens”). E, sobretudo, sobre impasses sexistas, em que os indivíduos têm consciência aguda das suas identidades de gênero, numa polarização quase alegórica. Nesse sentido, o romance está longe de ser um mero thriller, e dá para entender o interesse em filmá-lo de David Fincher[3], que já explorara o perturbador avesso misógino e brutal da sempre dita avançada sociedade sueca, em Os homens que não amavam as mulheres (usando um material literário bem inferior, pois Stieg Larsson é medíocre e sua trama foi até melhorada, dentro do possível na adaptação cinematográfica do diretor de Zodíaco, mesmo assim pouco empolgante[4]).

O erro de Gillian Flynn, sem que ela chegue a empanar o virtuosismo da sua prosa, é fazer de Amy um gênio do mal, com pormenores tão exagerados (até seu passado, quando se descobre a verdade sobre os supostos perseguidores, ganha a atmosfera irreal daqueles filmes do tipo Mulher Solteira Procura, A Mão Que Balança o Berço, A Órfã—enfim, o meu leitor poderá lembrar-se facilmente de vários exemplos) que tiram boa parte da força da história. Perde-se o tenso equilíbrio entre “a verdade, a não verdade e o que poderia ser verdade” que sustentava a alternância das narrativas. E Nick, apesar de conhecermos seu lado abjeto, se torna mais humano, em contrapartida a essa hiperbólica Amy Vilã.

A meu ver, Garota Exemplar é praticamente uma obra-prima, digna de O Colecionador, de John Fowles, e maior rival contemporâneo dos romances policiais de Kate Atkinson (Quando haverá boas notícias?; Saí cedo, levei meu cachorro), até a pág. 347 (na edição brasileira). A partir do momento em que Amy se deixa “sequestrar” por um bizarro admirador, que a manterá prisioneira numa erma mansão, e depois parte para a psicopatia explícita, o relato pode até manter o interesse por conta da habilidade ímpar da autora; contudo, parece ter se rendido às fórmulas fáceis. Mesmo o destino monstruoso que imprimirá ao casamento de Nick e Amy fica comprometido com esse ranço de suspense barato. No frigir dos ovos, os dois personagens, tão complexos e reveladores durante a maior parte do romance, reduzem-se a clichês sexistas padronizadores: ela, uma piranha psicopata; ele um banana babaca.

Há uma lista imensa de agradecimentos no final. Quem será o responsável por tê-la orientado para esse caminho inglório? 1/3 de concessões comprometendo 2/3 de puro talento.

Garota exemplar TIE IN portugues - capa FECHAMENTO.indd

___________________________________________________

TRECHO SELECIONADO

“__ Sabe Noelle Hawthorne?—perguntou Boney.—A amiga de Amy que você nos mandou investigar?

__ Espere, quero falar sobre as contas, porque elas não são minhas—interrompi.—Quer dizer, por favor, falando sério, precisamos rastrear isto.

__Vamos rastrear, sem problemas—disse Boney, inexpressiva.—Noelle Hawthorne?

__ Certo. Eu disse para vocês darem uma investigada nela porque ela tem circulado por toda a cidade se lamentando por causa de Amy.

     Boney ergueu uma sobrancelha.

__ Você parece bravo com isso.

__ Não, como eu disse, ela parece um pouco abalada demais, meio que de modo falso. Ostensivo. Buscando atenção. Um pouco obsessivo.  

__ Conversamos com Noelle—explicou Boney.—Ela diz que sua esposa estava muito perturbada com o casamento, chateada com a coisa do dinheiro, com medo de que você estivesse casado com ela por causa do dinheiro. Diz que sua esposa se preocupava com seu temperamento. 

__ Não sei por que Noelle diria isso; não acho que ela e Amy tenham trocado mais de cinco palavras na vida.

__ Engraçado, porque a sala de estar dos Hawthorne está cheia de fotos de Noelle e sua esposa—disse Boney, franzindo a testa.

    Eu também franzi a testa: fotos reais dela e Amy?

    Boney continuou:

__ No zoológico de St. Louis em outubro passado, em um piquenique com os trigêmeos, em um fim de semana de junho passeando de bote. Junho, no sentido de mês passado.

__ Amy nunca pronunciou o nome de Noelle durante todo o tempo que moramos aqui, Estou falando sério.

    Revirei meu cérebro pensando em junho passado e esbarrei em um fim de semana em que viajei com Andie, dizendo a Amy que faria uma viagem com os rapazes a St. Louis. Voltei para casa e a encontrei com bochechas rosadas e com raiva, reclamando de um fim de semana de coisas ruins na TV a cabo e leituras tediosas no cais. E ela estivera em um passeio pelo rio? Não. Não podia pensar em nada que interessasse menos Amy do que o típico passeio de bote do Meio-Oeste: cerveja boiando em recipientes amarrados a canoas, música alta, jovens bêbados, acampamentos salpicados de vômito.

 __ Vocês têm certeza de que era minha esposa nas fotos?

    Eles trocaram olhares que diziam: ele está falando sério?”

Rosamund_Pike__Ben_Affleck_and_David_Fincher_earn_rave_reviews_for_Gone_Girl

garota exemplar artigo_

______________________________________________________

NOTAS

[1] Veja-se a seguinte passagem: “…Amy estudara em um colégio interno em Massachusetts chamado Wickshire Academy—eu vira as fotos, Amy de saia de lacrosse e faixa na cabeça, sempre com cores outonais ao fundo, como se a escola não fosse em uma cidade, mas em um mês…”; ou ainda: “Ele me conduziu a uma sala de estar severa, de uma masculinidade imaginada por um decorador”.

[2] Andie é a jovem amante (aluna no seu curso de jornalismo); Marybeth,  a sogra; Go, a irmã gêmea; Boney, a detetive que investiga o sumiço de Amy e que aparentemente simpatiza com Nick.

Por seu turno, acompanhando de longe o desenrolar do caso, Amy afirma: “Mesmo agora o babaca tem mulheres cuidando dele. Mulheres desesperadas identificando uma brecha”. Por essa visão crua de certo comportamento feminino, alguns comentadores do livro acusaram a própria Gillian Flynn de misógina.

[3] Com a maravilhosa Rosamund Pike como Amy e Ben Affleck como Nick (para o qual ele tem, a princípio, o physique du rôle). No momento em que escrevo o texto acima, ainda não assisti ao filme.

[4] Mesmo porque na parte final a protagonista feminina dá uma de “mulher fatal” internacional, uma sequência meio ridícula.

la–et–1202–performance–p

03/10/2014

Um universo de emergências: “Enquanto Deus não está olhando”, de Débora Ferraz

enquanto-deus-nao-esta-olhandodébora

(o texto abaixo foi publicado originalmente no Letras in.verso e re.verso, em 01 de outubro de 2014, VER http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2014/10/debora-ferraz-e-o-universo-das.html)

I

“A impressão era sempre a mesma. As coisas aconteciam pra mim antes sempre antes de eu estar preparada para elas.” (de Enquanto Deus não está olhando)

Na minha colaboração anterior para o Letras in.verso e re.verso (VER http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2014/09/a-maior-travessura-da-menina-ma-elvira.html) comentei Por escrito, romance no qual Elvira Vigna nos apresenta uma protagonista já madura, bem-sucedida profissionalmente, com uma relação longa e estável. Um projeto de reinvenção (ela apagando os rastros do passado) que, na narrativa em primeira pessoa, passava por um crivo agônico e mortal.

É curioso notar que Érica, a jovem narradora (24 anos) do primeiro romance de Débora Ferraz, Enquanto Deus não está olhando, faz sua curta existência (em relação à qual estava preparando seu próprio projeto de reinvenção) passar por um ritual agônico similar, quando terá que lidar com todo um “universo das emergências” (como lemos na pág. 184).

De repente, temos essas vozes narrativas de mulheres que esfarrapam os bordados estereotipados da famigerada escrita feminina e nos colocam no cerne trepidante da modernidade brasileira, com os problemas de classe, de geração e de impasses individuais que são exigências do gênero romance mais do que do gênero que coube ao escritor na espécie humana.

Assim, essa surpreendente ficcionista, com apenas 27 anos, nascida no interior de Pernambuco, mas radicada na capital paraibana, surge para revitalizar o fecundo filão do retrato do artista quando jovem, focalizando a formação de Érica como pintora e seus ritos de passagem para a idade adulta, tornados emergenciais por conta da ausência do pai. Essa modalidade de romance me parece muito necessária como antídoto a uma época em que as faixas etárias parecem ter se estratificado a tal ponto que chegam a excluir as ideias de formação e desenvolvimento: ser “teen” ou da “melhor idade” parece mais uma essência (quando não uma faixa muito bem delineada de um perfil de consumidor neste mundo-mercado para o qual nos deixamos conduzir e enredar), uma qualidade, do que um período da vida modulado por outros. Portanto, entre seus muitos méritos, Enquanto Deus não está olhando é um dos raros livros em nossa ficção atual que se propõe a relatar um aprendizado (com todos os desencantos) do modo-adulto de ser— quiçá o mais fugidio na contemporaneidade:

     “Eu era incapaz de chegar a um lugar e dizer o que queria. Sempre envolvida pelas possibilidades de estar querendo—ou acreditando querer—a coisa errada. Sempre que eu ia a uma lanchonete com meu pai, eu precisava ver o cardápio inteiro, todas as vitrines de bolos, ponderando, desesperadamente, sobre as opções. Ele sempre se impacientava com isso. Em lanchonetes, ele caminhava decidido ao balcão e, sem perguntar o que serviam, sem ter em mãos o cardápio, pedia: Um misto quente e um café. Ele não se preocupava com as opções. E por que deveria? Eu é que tive opções demais na vida. Ele, não. Ele sabia o que queria. Adaptou-se ao fato de que qualquer birosca ofereceria misto quente e café. Ele teve uma só possibilidade.

__ Tem que ser simples—ele dizia.

__ Mas com o senhor vai saber se eles não têm algo muito melhor a oferecer que o misto quente?

__ Ora, por que eu deveria me preocupar? Misto quente está ótimo. A pessoa tem que ter decisão na vida. Tem que chegar já sabendo o que quer.—Ele parecia ter listas definidas: cerveja em bares, misto quente e café nas lanchonetes, churrasco de picanha em restaurantes. Fim de papo. Enquanto eu lia detalhadamente as descrições de cada prato, atravessando labirintos e vagando, eternamente, entre uma e outra opção, na névoa delas, rezando para topar, por acaso, com a coisa que eu queria sem saber.

   Pessoas assim nunca vão crescer, de fato. Pensei, desanimada, sobre minha própria incompetência para uma vida adulta.”

No trecho citado, Érica reflete sobre sua “incompetência para uma vida adulta” em contraste com as atitudes de Aloísio, o pai, sua postura diante do mundo. É um ponto nevrálgico, uma vez que, justamente quando o pai se torna uma ausência, ela tem de lidar mais duramente com os “procedimentos” que definem uma existência adulta, processo tormentoso que se complica com a culpa: no momento mesmo em Érica tinha investido a sério na reinvenção da sua existência (aproveitara uma das diversas internações de Aloísio, cujo organismo, aos 47 anos, estava bastante derruído pelo alcoolismo, para reformar a garagem da casa, transformando-a numa parte independente, num ateliê), lhe falta a figura paterna. E aí ela tem que lidar com o destino da casa sem o seu “chefe” e com essa materialização incômoda de um desejo de independência e diferenciação do destino familiar (o ateliê), a “herança de uma tristeza esquecida”: a passagem do ambiente rural (origem de Aluízio) para o urbano criara um “branco” na árvore genealógica, na continuidade do clã, que por falta de referência com relação a vários parentes (é comum o sumiço, sem mais nem menos, sem contar a orfandade), tornou-se uma “imensa linhagem de vácuos”.

cassandra e ájax

II

“O que eu me pergunto é para que direção você está indo—ele levantou da mesa.—Vou buscar mais cerveja. Você precisa cair em si.” (trecho de Enquanto Deus não está olhando)

O romance de Débora Ferraz é dividido em três partes e, como dito anteriormente, todo perpassado por uma linha sísmica agônica. Mas com certeira intuição, ela faz com que a primeira parte apresente de forma mais aguda e hipertrofiada esse tom (ou seja, mergulhando o leitor no âmago da crise), quase beirando o expressionismo, surpreendendo sua heroína numa volta ao lar (na companhia de um amigo com quem perdera o contato por alguns anos, Vinícius), após infrutíferos e exasperantes dias no interior (não convém revelar o motivo dessa viagem, mas tem a ver com o pai), cheia de cortes, encontrando uma casa que “subitamente tornou-se obsoleta”: mesmo com a presença da mãe e do irmão, e com o ateliê construído, não permite que Érica respire (ela sofre de sinusite renitente).

Para o leitor, o vácuo causado pela ausência de Aluísio e o desamparo subsequente de Érica aparecem a princípio sinalizados, da forma mais opressiva, pelos sinais físicos gritantes, esses cortes infeccionados e esse desconforto respiratório. Tudo de fato parece emergencial e irresolvível (como ela dirá, mais adiante, “Não sei o que deu errado. Talvez nunca tenha dado certo”).

Não é de estranhar que Érica esteja “fora de si”. Tudo o que ela pode fazer é voltar obsessivamente a determinadas datas (3 e 5 de março), até mesmo a determinadas horas dessas datas, como se fossem as únicas pistas seguras, numa casa não só obsoleta mas cronologicamente desnorteante, onde os enfeites de natal são mantidos muito tempo depois de sua presença fazer sentido.

Nesse período mais desamparado, não funcionam as exortações de Vinícius: Érica como que recua a um estágio anterior à sua decisão de estabelecer o ateliê na garagem, e resigna-se a voltar ao emprego que queria abandonar, submetendo-se até a uma avaliação psicológica. É como se o ateliê, resultado de um rito voluntarioso de passagem para a condição adulta (como ela nos dirá numa passagem da terceira parte: “Finalmente minha vida ia começar”), por ora recusasse esse passo também no nível da materialidade e se obstinasse em permanecer um “elefante branco”: ela sequer pode usar as instalações, há um vazamento enorme (mais uma situação emergencial, que exige decisões práticas, um mínimo controle sobre o cotidiano e seu caos). E os quadros ali permanecem, intocados, inacabados.

Devo insistir na tecla de que uma boa parte do sentimento de vácuo e desnorteamento de Érica tem sua raiz, se é que se pode usar esse termo em tal contexto, numa espécie de orfandade atávica dos membros da família do pai, orfandade que parece facilitar o desaparecimento (inclusive físico) dos elos parentais, das conexões entre as gerações. Quando Érica (acompanhada de Vinícius) visita, no interior, uma tia do pai em busca de pertences dele, é recebida como uma estrangeira, como se houvesse um fiapo de vínculo apenas no fato de que aquela tia criou provisoriamente o pai, após ele ficar órfão, sem verdadeiro apego. Logo, o retrato da artista quando jovem que Débora Ferraz nos propõe terá de forjar realmente a consciência incriada da raça a partir de dados fantasmáticos, de uma acentuada insubstancialidade.

Na própria casa, Érica não age muito diferentemente com a mãe (uma parece temer a dor da outra) e com o irmão, que permanecerá uma figura distante no relato.

No entanto, mesmo não “caindo em si”, Érica reinicia os ritos da vida, agora como postulante a adulta em caráter emergencial, e por mais que relute, estabelece vínculos, graças principalmente a Vinícius, que a apresenta à sua “turma”, no meio da qual ela beberá demais (com os papelões inevitáveis que a essa prática se associam) [1]; mesmo sem se dar conta, sua vida prossegue. E ela vai se apercebendo de que gosta de Vinícius, de que se apaixonou, e os dois iniciam um namoro, “com data de validade”, pois ele está com viagem marcada (já vivera um tempo na Argentina, e não quer ficar encalhado na cidade—que, supomos ser João Pessoa, embora pudesse ser qualquer centro urbano contemporâneo, pois aqui estamos longe também do cômodo cenário regionalista) [2].

Ao fim e ao cabo, essa relação, que não está subscrita pela sua “necessidade do pai” (mesmo porque Vinícius se recusa a ser um protetor paternal) [3], vai fazer com que Érica tenha de se definir quanto às opções da sua vida, incluindo as profissionais: o ateliê servirá para algo?, ela realmente se tornará a pintora que desejara ser, ao idealizá-lo?

Na exploração da formação de um casal (mesmo com “data de validade”), Enquanto Deus não está olhando também se mostra um romance digno de nota:

“Fincada ali, e acariciando seus cabelos ásperos, eu via que ele era como um boneco perfeitamente articulável como os manequins de madeira que usávamos nas aulas de anatomia. Estranhamente, eu na conseguia tirar da cabeça a imagem de Vinícius como um títere. Um lado da cabeça concentrava-se na imagem que o conjunto eu e Vinícius formava, e o arranjo aprecia patético. Eu queria mostrar a ele aquela imagem em minha cabeça, rir dele: Olha ali você bancando o homem. Olha ali eu bancando a mulher.

    Outro lado parecia dizer pra mim: É um homem e está de frente pra mim agora.

     Esses dois pensamentos ficaram duelando, e tudo o que viria a seguir dependeria crucialmente de que o lado que dizia ´homem ´ vencesse o que dizia ´é Vinícius´.

    Eu fechei os olhos e tateei delicadamente com os dedos por baixo de sua camisa. Senti a textura macia e firme da pele no seu abdome, deslizando com eles, senti que ele retesava os músculos. Eu zombaria se ele tivesse cócegas, mas ele apenas me ajudou, retirando-a, puxando o tecido de algodão pouco a pouco pelas costas. Um jeito de tirar a camisa que, eu havia reparado, só os homens adotavam. E parecia haver uma espécie de mistério sendo desvendado nesse ato. É um homem.

__ Por que os homens tiram a camisa desse jeito?

    Ele riu.

__ Ora, existe um outro jeito de tirar?—Voltando para me beijar, mas dessa vez eu o impedi espalmando as duas mãos sobre o seu peito…”

Aqui, Débora Ferraz consegue escapar das armadilhas comuns do “erotismo” na literatura (que tem ficado cada vez mais gráfico e irrelevante): o que o leitor acompanha é o aprofundamento da intimidade entre um homem e uma mulher, sem que se anulem certos distanciamentos.

DeboraFerraz%20Premio%20Sesc%202014%20Foto%20Bruno%20Vinellienquanto-deus-nao-esta-olhando-debora-ferraz

III

“__Você não é muito jovem pra usar terebintina?—ele baixa os óculos e olha no meu rosto, rindo.

__ Acho que já tenho idade pra usar todo tipo de coisa—sorrio de volta—, esse é o problema.” (trecho de Enquanto Deus não está olhando)

Espero ter demonstrado, ainda que em pinceladas muito rápidas, que acompanhar Érica em sua jornada iniciática (feita de volteios, retrocessos e desencantos) é uma experiência que vale a pena. Deixei de lado aspectos que outras abordagens poderão sublinhar (o uso intenso de elementos cromáticos, por exemplo, acompanhando a inclinação artística da heroína), e não quero também me deter muito (mesmo porque não comprometem o resultado), ainda que vá apontá-los, em algumas debilidades, mais na linguagem do que no mundo ficcional apresentado: por exemplo, no (ótimo, no geral) trecho citado na nota 3, sobre as palavras que ela aprendia erroneamente na infância (no qual entrevemos um lado “lúdico” do pai, que tem o seu quê de perverso), é muito difícil de imaginar uma menina de quatro anos falando daquele jeito (“Não sabe o que tenho de passar na escola?”); mais grave ainda, a falta de confiança no leitor, ao explicitar o que seriam os “gatos bentos” (“O nome correto era documentos”!?).

Outra amostra problemática: elogiei o trecho em que literalmente se constrói diante do leitor uma intimidade homem-mulher, contudo numa passagem imediatamente anterior notamos a necessidade gratuita, até de mau gosto, em “fazer bonito”, apresentando analogias: “… sentei-me em seu colo, de frente pra ele, com os joelhos cravados ao colchão como uma retroescavadeira que o imobilizava…”!?

Mas, por Deus (aquele que não está olhando), ela tem 27 anos! E mesmo com essas pequenas curtocircuitadas do seu talento inegável, afirmo—sem qualquer traço de condescendência—que Débora Ferraz conseguiu criar a legítima sucessora e equivalente daquelas maravilhosas e marcantes personagens em formação que são a Joana, de Perto do coração selvagem e a Virginia de Ciranda de Pedra (embora pudéssemos aproximar Érica mais convincentemente ainda de outra protagonista de Lygia Fagundes Telles, a Raíza de Verão no aquário).

Com a vantagem de que a autora de Enquanto Deus não está olhando não lembra (ufa!) nenhuma das duas, nem Clarice nem Lygia, já nasceu para o romance com voz própria. A continuar nesse caminho—e Érica e seus embates com o emergencial já nos faz vislumbrar claramente essa possibilidade— seus livros farão jus à lapidar caracterização de Simone de Beauvoir com relação às leituras que nos marcam: “…a recriação de um mundo que envolve o meu e que lhe pertence, que me desambienta e me ilumina, que se impõe a mim para sempre com a evidência de uma experiência que eu teria vivido”.

VER:

http://www.suplementopernambuco.com.br/index.php/component/content/article/2-bastidores/1256-sobre-o-uso-de-maquinas-para-fins-de-mundo.html

quadro de dirce körbes[autora: Dirce Körbes}

___________________________

NOTAS

[1] Apesar das várias cenas de “bebedeira” (e pensando na ligação com o alcoolismo do pai), não considero esse aspecto do livro muito bem resolvido, é um de seus pontos explorados de forma insatisfatória ou truncada.

[2] Nem por isso, esse determinado espaço urbano deixa de ser aproveitado na narrativa.

[3] Todavia, a relação com o próprio pai era tensa e “armada”, por assim dizer, malgrado certos momentos de ambígua cumplicidade, como podemos constatar numa das mais belas passagens do romance:

“Naquele estado de torpor , entre dormindo e acordada, imaginei que alguém chamava meu nome: Érica.

   Era esse mesmo meu nome?

   Érica.

   Achei, na verdade, o nome muito feio e duvidei, no mesmo segundo, que aquele nome fosse meu. Duvidei que alguém pudesse se chamar assim. Não teria sido, esse nome, uma coisa completamente inventada?

     Quando era pequena meu pai me ensinava errado o nome das coisas: fóscoros, eck cetera. Ficava sempre o receio se tudo o que ele ensinava não estaria completamente errado. Não era só culpa dele. Eu que surgia com nomes improváveis, mas que ele confirmava serem os certos.

__ Gatos bentos?—eu disse, com cerca de quatro anos, talvez menos, apontando uma série de papéis coloridos e plastificados que ele guardava na carteira. Qualquer nome é possível para uma criança. E foi esse o que eu pensei ter ouvido.

 __ Isso! Exatamente. Gatos bentos—confirmou ele e eu me senti importante, esperta. Até que, no dia seguinte, voltei da escola furiosa, nem bem passei pelo portão, larguei a lancheira e fui para o quarto dele.

__ Por que você me ensinou errado?—disse com olhos cheios de lágrimas.—Por que você sempre me faz passar por boba? Não sabe o que tenho de passar na escola?

   O nome correto era documentos. E só eu parecia não saber, entre todas as crianças da minha idade. (…) A professora ficou preocupada com o quanto me constrangi (…)

__ Eu temo…—disse ela à minha mãe—que ela esteja com problemas em casa. Que esteja falando errado, se escondendo, para chamar atenção pra algo.

__ Mas que besteira—foi o que disse meu pai quando soube do comentário.—Tão bonitinho dizer gato bento. É uma criança, ora. Deixem a menina.”

A cena mais íntima e cúmplice entre Érica e Aluísio (e ao mesmo tempo, eivada daquele isolamento irredutível entre um ser humano e outro) é a que justifica o título do romance, porém não vou contá-la aqui.

??????????????????????

« Página anteriorPróxima Página »

O tema Rubric. Blog no WordPress.com.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 1.348 outros seguidores