MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

06/04/2015

FISIOLOGIA DO TALENTO: “Concentração e Outros Contos”, de Ricardo Lísias

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 07 de abril de 2015)

«…senti uma sensação horrível de derrota. É um fracasso que se manifesta no corpo… Com a literatura, já sei que não vou conseguir dizer o que eu quero da maneira que acho a ideal. Então, terei que fazer repetições. Apesar de conseguir, com isso, uma espécie de alívio contínuo para o mal-estar que sinto, por outro lado a certeza da incompletude da escrita também me angustia».

O trecho acima, de Fisiologia da Dor, um dos 15 textos de Concentração e Outros Contos, no qual Ricardo Lísias, prestes a completar 40 anos, reuniu parte da sua produção no gênero desde 2001, espelha o dilema do resenhista que tenta, em sumários traços, delinear para o seu leitor o universo denso e único daquele que é o mais brilhante escritor da sua geração.

Curiosamente ele publicara até agora apenas outra coletânea, Anna O. e Outras Novelas (2007)[1]. Dela, temos quatro textos: o conto-título (onde um psiquiatra é encarregado do laudo sobre as condições mentais do General Pinochet), Capuz, Dos Nervos e Diário de Viagem, todos narrando situações em que mantras reiterativos da linguagem dos protagonistas, a fixação de “metas” e projetos, a criação de padrões, procuram represar a crescente desagregação, quando não o colapso total (inclusive da própria linguagem)[2].

Mais recentemente, Lísias enveredou pelo caminho da “autoficção”, modismo crítico pós-moderno (que ele parodia num conto com esse título—a meu ver, o texto mais discutível de Concentração) para experiências ficcionais que deformam e confundem os dados biográficos, mesmo que o personagem ostente o nome do autor. Nessa linha, Ricardo Lísias/personagem vivencia diferentes formas de dilaceração e tentativas de serenar o tumulto interno,  tanto no divertidíssimo Evo Morales quanto na mais radical de suas aventuras autoficcionais, Tólia (em que se une a uma seita para salvar o planeta), além da extraordinária seção das Fisiologias (da Memória, do Medo, da Dor, da Solidão, da Amizade, da Infância e da Família), registrando o Brasil pós-Abertura através dos laços familiares e afetivos, com um virtuosismo que só encontra paralelo no argentino Alan Pauls (História do Pranto) ou no chileno Alejandro Zambra (Formas de voltar para casa).

«É um fracasso que se manifesta no corpo». As linhas de força que percorrem Concentração podem ser verificadas no conto-título: Damião sente um excruciante mal-estar físico, só aliviado quando faz a barba (causando graves danos ao seu rosto) a todo instante. Como típico herói de seu autor, apega-se a padrões e rotinas que permitam suportar seu estado agônico; assim, viaja a Buenos Aires atrás de um clube de xadrez e de um casal de dançarino de tangos, a partir de três vagas fotografias, vã odisseia («no país inteiro ninguém sabe mais como dançar tango e jogar xadrez»—desse modo, ele constatará a penúria econômica da população portenha) que envolverá os miasmas dos regimes autoritários latino-americanos, a morbidez argentina em torno dos seus ícones políticos (Perón e Evita), numa corda bamba de racionalizações extremas em meio ao caos e à falta de sentido, que, no fundo, dizem respeito a todos nós, aprisionados pelos muros quase sem brechas da ideologia do mercado global.

Um dos pontos altos da coletânea, esse conto de 2008 tem um dos finais mais perfeitos já escritos, contrariando flagrantemente a afirmação seguinte: «Com a literatura, já sei que não vou conseguir dizer o que eu quero da maneira que acho a ideal». Pena que escrevendo a seu respeito, eu me sinta mais próximo desse sentimento de frustração do que dos seus resultados.

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VER NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/04/14/o-livro-dos-mandarins-satira-deliciosa-a-linguagem-da-globalizacao/

https://armonte.wordpress.com/2012/12/11/destaque-do-blog-duas-vezes-o-ceu-dos-suicidas/

https://armonte.wordpress.com/2013/08/13/a-pele-que-habito-o-problematico-divorcio-de-ricardo-lisias/

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TRECHOS SELECIONADOS

«O avô mora naquela casona perto do museu e quando a gente tropeça, ele logo vai correndo dizer que não foi nada. Não foi nada, nada, apenas que o avô é aquele homem mais velho, careca e engraçado. Ele sabe o que é um astrolábio, consegue fazer um relógio com a sombra e gosta de ir com os netos à praia… E ele corre com a gente: corre em casa, no museu, corre na praia, na rua, corre hoje, corre no ano que vem, na festa da escola, mas cada vez ele corre mais devagar, e depois já não aguenta tanto e quando você vê é o avô que deixou para a sua mãe essa casa.

   Ele é o avô que morre e ensina o que é a morte: é quando o avô morre. »

(Fisiologia da Família)

« Os noventa minutos do jogo entre Brasil e Itália, no estádio espanhol do Sarriá em 1982, foram os únicos em que de fato tive um pai. Precisamos só de um empate, meu filho, mas acho que vai ser 4 a 1. Tentei encostar a mão esquerda naquele braço enorme, mas ele se afastou. Hoje ele não está querendo se deitar: vamos ver o jogo sentados um do lado do outro. Perguntei se Chulapa é o sobrenome do Serginho, que meu pai adorava. Ele não respondeu… Lembro-me da televisão enorme. Como tinha o nome sujo, meu pai não podia comprar nada à prestação. Quem  trouxe foi minha avó. Tem garantia até a próxima Copa, ele me disse quando elogiei a imagem. Meu pai gostava de assistir a todo tipo de programa, menos os telejornais. O comício pelas Diretas Já na Praça da Sé não passou direito, não perdi nada… Minha tia, irmã da minha mãe, quis nos levar para o comício, mas meu avô não achou a ideia boa. Você não viu como seu primo saiu da cadeia? Tudo pode mudar de uma hora para outra. »

(Fisiologia da Infância)

«Naquela época, a gente bebia muito na escola. Então Maria era a líder. Maria bebia muito, então ria muito também. Então. Eu só acompanhava, acho, não posso ter certeza, ela sim tinha muita certeza: então bebe mais um pouco, disse. Então, se sexo oral conta, perdi a virgindade com ela nesse dia então, com ela rindo e tudo rodando.

   Ontem, vi uma foto de Lindbergh Farias no Facebook. Então foi na internet. Ele sorria muito enquanto apertava a mão de Fernando Collor. Nada disso aconteceu. Apenas escritores muito ingênuos acreditam em ficção histórica. E na História, então? Fiquei com muito ódio desse ensaboadinho chamado Lindbergh Farias. »

(Fisiologia da Amizade)

«Sinto-me sozinho (descobri isso quando escrevi meu primeiro livro, sozinho durante um inverno desagradável em Campinas) porque nunca consigo expressar exatamente o que eu quero, e nem da forma que tenho certeza ser a mais adequada.

   Não se trata de humildade. Sou arrogante: algumas vezes, cheguei perto. Mas o cerne do que quero dizer e a forma mais adequada (digo, a ideal para o que eu queria dizer—não estou conseguindo me expressar direito), apenas sei que existem, tenho toda a certeza de que estão ao meu alcance, mas não consigo tocá-los inteiramente. É como se em um determinado momento a comunicação falhasse… Esse isolamento é um sentimento íntimo. Apenas tateio a melhor forma de expressá-lo. Sei que se trata de uma variante muito aguda e intensa de solidão. Só tenho uma possibilidade de me aproximar desse mistério: através da técnica literária. Por causa dela, meu sofrimento é suportável. »

(Fisiologia da Solidão)

« Para mim, as lágrimas e a raiva se complementam. Como sempre tive muita dificuldade para chorar, uso os acessos de ódio para me libertar. Mas não tive a menor chance dessa vez. Levantei agora e, enquanto tomava café, senti uma sensação horrível de derrota. É um fracasso que se manifesta no corpo… Com a literatura, já sei que não vou conseguir dizer o que eu quero da maneira que acho a ideal. Então, terei que fazer repetições. Apesar de conseguir, com isso, uma espécie de alívio contínuo para o mal-estar que sinto, por outro lado a certeza da incompletude da escrita também me angustia. Por isso, achei que as artes plásticas resolveriam o meu problema.

   Ao contrário, agora tenho medo de que arte nenhuma aplaque o sentimento de que não vou conseguir dizer exatamente o que quero na forma que julgo a mais adequada. »

(Fisiologia da Dor)

« Exatamente nesse momento, trêmulo por causa do medo e do frio, caguei nas calças. Não tive tempo nem iniciativa de procurar um banheiro… Dá para ir a pé da avenida Pompeia ao meu apartamento. No caminho, senti um misto de vergonha e pavor. Eu olhava para trás e não conseguia entender se aquelas pessoas estavam me seguindo, rindo porque eu tinha cagado nas calças ou sequer haviam me notado… Eu estava inteiramente sonzinho e, agora escrevendo, lembro que pensei no André enforcado.

   Então, em uma sexta-feira à noite, subindo rapidamente a movimentada avenida Pompeia, morrendo de medo e cheio de merda nas calças, percebi o quanto o André estava se sentindo sozinho quando destruiu o meu apartamento e, uns dias depois, se enforcou… Depois, já perto de casa, senti de novo muita raiva do André: ele me tinha feito descobrir quem eu sou e acho que eu sou exatamente o que o dono (ou o administrador) do cassino clandestino falou, olha aí, você é só um cagão. »

(Fisiologia do Medo)

«… e chorava daquele jeito porque logo o meu amigo André iria se matar, e chorava sem nenhum controle, do jeito que mais me incomoda, sem nenhum controle, porque o André morreu sem conhecer os livros do Roberto Bolaño, não é justo, e eu também sabia que nunca mais iria esquecer: quando a polícia encontrou o corpo do meu amigo André, enforcado lá naquele lugar, havia uma sacola de uma livraria em cima da mesa, com o Noturno do Chile dentro, ele tinha acabado de comprar o Noturno do Chile, então voltou para onde estava morando e se enforcou sem abrir o livro… e eu chorava daquele jeito porque o André nunca mais iria aos meus lançamentos, eu chorava muito, na frente do avião da Japan Airlines, porque as pessoas dizem que eu sou cerebral e eu chorava daquele jeito, como nunca… »

(Fisiologia da Memória)

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NOTAS

[1] Em contrapartida, lançou vários romances, a partir de Cobertor de estrelas(1999): Duas Praças, O Livro dos Mandarins, O Céu do Suicidas; o mais recente dos quais, o polêmico Divórcio.

Convém, notar, entretanto, que vários dos textos de Concentração têm considerável extensão, e dois deles foram publicados separadamente, Capuz e Dos nervos.

[2] «Agora, consigo entender um pouco melhor: meu profundo gosto pela conversa civilizada e inteligente impediu-me de gritar quando vi aquele rapaz sentado no meu sofá. Não sei se já disse, mas posso repetir, que cheguei em casa, vindo da universidade, e encontrei a porta aberta e a luz da sala acesa. Como estava me tratando, o que para dizer a verdade sempre foi um dos sonhos da minha mãe, vivia muito calma naqueles dias e não gritei. Minha intenção era evitar, também, que as pessoas dissessem que eu estava tendo uma crise histérica. Sempre detestei falatórios e costumo ter apenas conversas civilizadas e inteligentes. O hábito de fofocar que minha mãe cultiva com as vizinhas sempre me deixou irritada. Às vezes eu batia a porta e fechava todas as janelas só para não ouvir aqueles murmúrios. Prefiro a conversa civilizada e inteligente. No tempo em que redigia a tese, inclusive, procurava sempre ir a algum café ou bar tranquilo para falar de livros, filmes e música. Claro, e sobre o Padre Vieira. Eu me interessava sobretudo pela questão do gênero: nos mecanismos que diferenciam a fofoca da conversa civilizada e inteligente. Por isso tentava ficar bem quieta para ouvir o que os outros estavam dizendo. Agora compreendo por que ele ficou mudo, deve ter me visto em algum lugar, em algum café civilizado e inteligente, e concluiu que adoro o silêncio», lemos em Dos nervos.

Mais adiante: «Minha mãe sempre me disse, e olha que, que eu precisava. Mas acho que vou ser bem clara com o médico, e dizer que posso perfeitamente criar sozinha o nosso filho. Tenho um bom emprego e, mais, com uma conversa civilizada e inteligente, minha mãe… Por outro lado minha mãe sempre repetia, e olha que ele, que meu pai. Quanto aos meus alunos, o médico… ».

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RICARDO

31/03/2015

Destaque do Blog: OS VELHOS MARINHEIROS OU O CAPITÃO DE LONGO CURSO, de Jorge Amado

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«Como se por um passe de mágica deixasse Periperi  de ser um pacato subúrbio da Leste Brasileira , habitado por velhos à espera da morte, e se transformasse em estação interplanetária de onde decolavam  audaciosos pilotos para a conquista dos espaços siderais…»

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 31 de março de 2015)

Os velhos marinheiros ou O capitão de longo curso desde 1976 é um livro independente. Quando foi lançado originalmente, em 1961, era a segunda das «Duas histórias do cais da Bahia»[1] — a outra, mais curta, ficou bem mais famosa: A morte e a morte de Quincas Berro D´Água. Agora, com a adaptação cinematográfica de Marcos Jorge em cartaz (O Duelo, insosso e infeliz título) espera-se que «a completa verdade sobre as discutidas aventuras do comandante Vasco Moscoso de Aragão, capitão de longo curso» seja finalmente reconhecido como uma das obras-primas de Jorge Amado, o qual, de 1958 (ano de Gabriela, cravo e canela) a 1969 (ano de Tenda dos milagres), passando pelos velhos marinheiros, pelos pastores da noite (1964) e por Dona Flor e seus dois maridos (1966), estava em estado de graça como prosador e ficcionista. É a sua fase áurea[2].

Vasco Moscoso de Aragão, em 1929, às vésperas da liquidação da República Velha, instala-se em Periperi, sacudindo a pasmaceira do balneário de aposentados, onde o maior foco de interesse é a vida alheia, principalmente os trâmites de um processo movido por Chico Pacheco. O lúdico homem do mar, com histórias mirabolantes, seus instrumentos náuticos, a geografia variada e exótica que descortina para seus numerosos admiradores (sua casa torna-se uma atração local), ofusca Pacheco que, invejoso e desconfiado, intenta desmascará-lo como um farsante, um charlatão.

Essa rivalidade é contada vinte anos depois por um narrador (envolvido ele mesmo em imbróglios sentimentais, eróticos e financeiros), a partir do mote: «o que é a verdade[3]. Conheceremos os verdadeiros fatos biográficos de Aragão, apurados por Pacheco, em sua ânsia de desbancar o desafeto: neto de um comerciante sovina e rico, que queria fazer dele um sucessor, seu temperamento sonhador tornava-o uma decepção. Só com a morte do avô, quase aos 30 anos, o futuro capitão de longo curso começará a viver como sempre quis, com um grupo de amigos que forma a “nata” da sociedade baiana (na perspectiva da dona de uma famosa “pensão de moças”, Carol), pândego e pródigo.

O amigo dele, Georges Nadreau, capitão dos portos, nota que, apesar de ter “tudo”, Vasco vive «com a crista caída». O motivo dessa insatisfação faz de Os velhos marinheiros uma espécie de versão pícara e estendida do genial O espelho, de Machado de Assis, onde um alferes só se sentia “existindo” quando fardado.  Vasco anela por um título que o nobilize (essa fixação por ser “doutor”, ou outro tratamento equivalente, forma um fundamento recorrente da nossa desigualdade social, e atitudes recentes de certos juízes só ratificaram sua permanência na mentalidade brasileira), ser apenas “Seu” Aragão lhe parece  aviltante (e ele se sente inferior ao grupo de amigos): «…entrava na Pensão Monte Carlo e Carol saudava-o com ternura, seu  Aragãozinho, após ter dito Coronel, Doutor, Comandante, Tenente aos outros quatro».

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Assim, todo um esquema é montado para que ele obtenha a condição de Comandante (até uma condecoração), mesmo nunca tendo pisado numa embarcação. Nasce assim o herói náutico de Periperi — pelo menos até ser desmistificado pelo rancoroso Pacheco.

Entretanto, se a fabulação corre solta em todo o romance, é na sua terceira parte, quando Vasco embarca como Comandante (peça de decoração, de fato — não podemos esquecer o lado ridículo do  personagem com sua obsessão com a aparência e as formalidades) numa viagem, que Amado deita e rola no estado de graça sob o qual foi escrito Os Velhos Marinheiros, pois o discurso narrativo embaralha a auto-ilusão do personagem (viagens e experiências fabulosas) e a realidade, num triunfo de linguagem que embaralhará igualmente a questão da verdade e do apego aos fatos[4]:

«O Comandante sorriu. Um dia, quando estivessem vivendo na casa de janelas verdes sobre o mar, em Periperi, nas noites de lar tranquilo, ela fazendo tricô, ele cachimbando, contar-lhe-ia o que lhe sucedera quando, nas costas da Turquia, uma apaixonada e insensata maometana se escondera em seu beliche e ele a descobrira quando já ia o barco em alto-mar. Muitas histórias lhe contaria, aflições de SOS, perigos em portos de ópio e contrabando, tinha uma vida excitante a entregar-lhe, a depositar em seu seio, a dividir com ela.»

O resultado não podia ser mais lindo (só acho os parágrafos finais um tanto quanto proselitistas, num tom que me incomoda um pouco: « Onde está verdade, respondam-me por favor; na pequena realidade de cada um ou no imenso sonho humano?»), um dos pontos altos da nossa prosa de ficção. Muitos (entre os quais eu me incluo, durante um longo período de desdém, forçoso é fazer esse ‘mea culpa’) torciam o nariz quando se falava do escritor baiano como candidato nacional ao Nobel. Hoje, na revisão de obras como essa, tomamos consciência do quão injusto foi seu nome nunca ter sido anunciado. os-velhos-marinheiros-jorge-amado-10432-MLB20029188095_012014-F TRECHO SELECIONADO

«Expliquei-lhe minhas preocupações em torno da atitude assumida pela população de Periperi naquela primeira fase da luta entre o Comandante e Chico Pacheco.    

Não concordou Telêmaco com o Meritíssimo, “que entende aquela  besta do comportamento dos homens?”. Não eram, segundo ele, as provas concretas e materiais—diplomas, mapas, cronógrafo—a causa fundamental do apoio dado ao Comandante.  Não era assim tão simples e fácil, nem dão os homens tanto valor às provas materiais (…) Que lhes oferecia Chico Pacheco? As tricas de um processo judicial contra o Estado, era pouco. Se ainda fosse um processo criminal, com mortes, esposa adúltera e amante sórdido, facadas ou tiros, júri emocionante, promotor e advogado, ciúme, ódio e amor, talvez tivesse alguma possibilidade… Mas essa pendência em torno de uma aposentadoria era quase nada para o muito de que necessitavam, sua carência de vida mais verdadeira e profunda.» oduelo-fotos-7-650x400patricia-pillar-e-joaquim-de-almeida-no-filme-o-duelo-original ____________________________

NOTAS

[1] Sob o título geral de “Os velhos marinheiros”.

[2] Sei que essa minha afirmação vai de encontro ao estabelecido pela crítica em geral, que valoriza mais a produção anterior, caso de títulos como Terras do sem-fim ou Jubiabá. Mas sem desmerecer esses, e ainda outros títulos marcantes, como Capitães de areia, Mar morto, a escrita de Amado nesse período está longe do brilhantismo posterior.

[3] Amado usará ainda mais brilhantemente esse foco narrativo naquele que é o meu romance predileto dentro da sua obra, Tenda dos milagres.

[4] E, mutatis mutandis, tornando-se um belo ancestral da linguagem exercitada por Ricardo Lisias em O livro dos mandarins.

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26/03/2015

A QUESTÃO É ESTA, NÃO HÁ OUTRA: GONÇALO M. TAVARES E A TRAGÉDIA DA SOBREVIVÊNCIA

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«Os acontecimentos que o céu nos proporciona manifestam-se sob as mais diversas formas; e muita coisa acontece, para além de nossos temores e suposições; muita vez o que se espera, nunca sucede; e o que nos assombra, realiza-se com a ajuda dos deuses» (Eurípides, Alceste)

«Não se trata já de intervir no destino,

esse sentido abstrato para onde antigamente

                  [caminhavam as coisas

(como se fosse um plano inclinadíssimo).

Trata-se, sim, de algo bem mais concreto

                  [e ofensivo:

uma tentativa de intromissão no normal

                  [funcionamento

dos órgãos humanos (…)

Que intervenham no vago destino mas não

                  [em vísceras vivas… »

(Gonçalo M. Tavares, Os velhos também querem viver)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 24 de março de 2015)

Era de se esperar que um autor tão prolífico como Gonçalo M. Tavares mostrasse sinais de arrefecimento. No entanto, Os velhos também querem viver (Editora Foz) prova que sua inventividade continua afiada: trata-se de um poema narrativo, em cinco partes (além de prólogo e epílogo) que segue os acontecimentos de Alceste —a mais antiga (encenada pela primeira vez em 438 a.C.) entre as tragédias preservadas de Eurípides—, ambientando-os em Sarajevo durante o cerco pelo exército sérvio (1992-96), guerra recente que pulverizou a Iugoslávia[1].

O protagonista, Admeto, é atingido por uma bala, nos azares da refrega, e deve morrer[2]. O deus Apolo, não concordando com o «nobre noivado entre causa-efeito» exige da morte exceção para seu protegido. Seu desejo será atendido se alguém se oferecer a substituir o morto. Todos, inclusive os pais de Admeto, se recusam, mas sua esposa, Alceste, aceita o sacrifício. Moribunda, faz com que ele prometa nunca colocar outra mulher dentro de casa.

Por essa altura, Hércules chega a Sarajevo. Admeto é conhecido por sua hospitalidade e esconde o luto que há na casa por Alceste, o que escandaliza servos e cidadãos (há um Coro, composto de gente mutilada pela guerra), ainda mais que o famoso herói se revela um fanfarrão, bebendo e festejando à larga. Um dos servos, num momento de revolta, revela o ocorrido e ele, envergonhado, se propõe a resgatar Alceste da morte. Acontece que ele a traz de volta sob um véu, sem se dar a conhecer, e pede que Admeto a receba, em flagrante quebra da promessa solenemente feita. Hércules o admoesta: «Qual o sentido do sacrifício de Alceste?/Qual o sentido de ela te dar a sua vida se depois tu/vivo/ficas a lamentar-te de o estar?» Ou seja, mais que sobreviver, “viver” é trair os mortos.

É nessa linha, também, o embate—durante os funerais de Alceste—entre Admeto e o pai, Feres. O filho acusa o pai de covardia por não ter se oferecido em seu lugar, o pai não entende por que não deveria continuar a viver, mesmo velho, com poucos anos pela frente. Heroísmo, códigos de honra, afetos e laços entre as gerações ficam em xeque diante do apego à sobrevivência (ainda mais numa cidade em ruínas, onde a morte é presença diária): «Aos mortais Apolo, o deus, pergunta/um a um, como num mero interrogatório policial:/Queres viver?/Sim, todos respondem, Sim, queremos viver!//E a questão é esta, não há outra… » Diga-se, de passagem, que o final “feliz” a diferenciar Alceste de outras tragédias (tornando sua reputação canônica um tanto quanto problemática) ganha um cunho impiedosamente irônico em sua nova versão (para ser franco, nem o final da peça de Eurípides, «a volta feliz de Alceste»–estas as últimas palavras da peça[3]—, apesar do reencontro dos esposos proporcionado por Hércules, me parece tão auspicioso assim, ainda que se furte à mortandade habitual nas obras do gênero—não dá para apagar os acontecimentos anteriores, e principalmente a quebra da promessa em nome da hospitalidade, para não falar da própria situação inicial[4]).

O entrelaçamento de um poderoso mito grego (com importantes desdobramentos éticos), daqueles que fundamentaram a civilização europeia (e ocidental, por extensão), com um episódio histórico (Sarajevo, em plena consolidação da União Europeia) cuja maior consequência foi desvelar as fraturas (para não dizer a falência) desse projeto civilizatório, que não resolveu dilemas recorrentes, em particular a guerra e as distinções de classe e de gênero (no caso de Admeto, até o privilégio de ter alguém para morrer em seu lugar[5]), é um grande trunfo de Os velhos também querem viver.

Entretanto, o que impressiona fortemente é a exatidão milimétrica da linguagem, que recria Eurípides num compasso à João Cabral de Melo Neto, desde a «bala inequívoca» que atinge Admeto e se aloja «na casa mais casa que um homem tem/a sua cabeça, o seu cérebro»[6]: «Os velhos, note-se, sempre pareceram formas/humanas/de, em plena vida, se publicitar a morte;/formas experientes de anunciar algo que/se aproxima/por baixo, por cima, por todos os lados».

Deuses e semideuses estão presentes na Sarajevo do genial autor português (nascido em Angola). Nem eram necessários: a vida nua e o arbítrio do destino e dos homens são o que há de mais constante na existência.

____________

[o texto acima foi publicado no LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO, em 25 de março de 2015, VER:

http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2015/03/a-questao-e-esta-nao-ha-outra-goncalo-m.html]

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TRECHO SELECIONADO

«De fato, se existissem instrumentos técnicos

capazes de transformar a tensão do cortejo

                      [em energia explosiva,

toda a cidade de Sarajevo iria pelos ares,

e Sarajevo assim não precisaria de inimigos,

bombas ou cerco: bastaria um sacrifício,

e a insatisfeita perplexidade que nos outros

                     [daí resulta,

para a cidade colapsar e se render.

 

O tremor não vem, pois, do cansaço ou da carga

                     [física

de quem carrega o caixão;

um morto pesa, estranhamente, na direção oposta,

fenômeno que vai contra os preconceitos da  velha

                    [Física

e muitos outros.

Um morto pesa para cima, faz força no sentido

                    [do solo para o céu;

como se imóvel saltasse, ou quisesse saltar,

dali para o que está no topo do nada, esse nada

                    [que existe,

mas no lugar mais afastado.

A sensação, pois, de que o transporte de um morto

                    [tem limites simbólicos

e não apenas de linhas traçadas no chão:

é necessário descanso, mesmo para os que

                   [passaram para aquele lado

onde não há cansaço».

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ANEXO

Abaixo vão alguns trechos marcantes de Alceste: quando Admeto fala de sua situação ao coro; quando o seu pai, Feres, contesta suas recriminações; e, por fim, aquele belo recurso do teatro clássico, em que uma personagem secundária (e mais “comum”) narra para nós as ações de um protagonista.

«Amigos, a sorte de minha mulher é, em minha opinião, mais feliz do
que a minha, embora pareça o contrário. Nenhuma dor a atingirá jamais e
de muitos sofrimentos saiu gloriosa. Eu, porém, que já devia ter morrido,
escapei ao destino para arrastar uma vida miserável; compreendo-o agora.
Como poderei eu transpor a entrada desta casa? A quem dirigirei a palavra
ou quem me saudará, que possa alegrar a minha chegada? Para onde me
voltar? A solidão da minha expulsar-me-á, quando diante dos olhos eu
tiver o leito vazio da minha mulher e as cadeiras em que se sentava, e sob o
teto um solo coberto de pó. E os meus filhos, lançando-se sobre os meus
joelhos, hão de chorar a mãe, enquanto os servos lamentarão a boa senhora
que a casa perdeu. Eis o que se passará no interior da minha casa. Mas, no
exterior, os esponsais dos Tessálios e as reuniões de mulheres hão de
impelir-me de novo para o palácio; não suportarei ver as companheiras de
minha mulher. E qualquer inimigo meu poderá dizer estas palavras: “Vede
como ele vive na vergonha, ele que não ousou morrer, dando em troca
aquela que desposou para escapar cobardemente ao Hades. Julgará ele,
depois disto, que é um homem? E ainda odeia os pais, por não ter querido
morrer.” Esta a fama que há de somar-se à minha desgraça. Que vantagem
terei eu em viver, amigos, prejudicado na reputação e mergulhado na
infelicidade?»

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«Ó filho, quem julgas tu, na tua insolência, que estás a atacar com as
tuas injúrias? Um Lídio ou um Frígio comprados com o teu dinheiro? Não
sabes que sou tessálio, filho de pai tessálio e livre por nascimento?
Abandonas-te a muitos excessos, mas, depois de lançares contra mim os
teus juvenis sarcasmos, não vais partir assim. Gerei-te a criei-te para seres
senhor deste palácio, mas não tenho obrigação de morrer por ti. Não recebi
dos antepassados, nem é grega essa lei de que os pais devem morrer pelos
filhos. Feliz ou infeliz, é para ti que nasceste. O que devias receber de mim
já o possuis. És chefe de muitos homens e deixar-te-ei terras de muitas
jeiras que recebi de meu pai. Em quê, pois, te causei dano? De que te privo
eu? Não morras por mim, que eu não morrerei por ti. Regozijas-te de ver a
luz? E pensas que o teu pai não tem o mesmo direito? Imagino como será
longo o tempo debaixo da terra, e a vida é breve, mas agradável.
Entretanto, tu, sem pudor, lutaste para não morrer e estás vivo: escapaste à
sorte imposta pelo destino, matando-a a ela. E falas da minha cobardia, ó
celerado, quando afinal tu te deixaste vencer por uma mulher que morreu
por ti, por um jovem lindo como tu? Descobriste uma boa maneira de
nunca morrer, se persuadires sempre a mulher que tiveres na ocasião a
morrer por ti. E vens agora insultar os teus por não quererem fazer isso,
quando tu próprio não passas de um cobarde? Cala-te e pensa que, se tens
amor à vida, os outros também têm; e se continuas a dirigir-me palavras
desagradáveis, vais ouvir muitas do mesmo gênero, e merecidas.»

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«CORO
Então que ela saiba que, morrendo em glória, é de longe a mais
nobre mulher debaixo do sol.

CRIADA
Como não há de ser a melhor? Quem o contradirá? Que terá de ser a
mulher capaz de exceder? E como pode alguém demonstrar mais amor por
um esposo do que oferecendo a vida por ele? A cidade inteira conhece
esses fatos; e as coisas que fez em casa, ouvi-las-ás com admiração.
Quando se apercebeu de que chegava o dia marcado, banhou o alvo corpo
em água do rio e, tirando de uma câmara de cedro um veste e adereço,
vestiu-se como lhe competia. Depois, colocando-se em frente ao altar de
Héstia, orou assim: “Senhora, visto que vou para debaixo da terra, tens-me
aqui a teus pés, pedindo-te pela última vez, que veles pelos meus filhos
órfãos: une um em casamento com uma esposa querida, a outra dá-a a um
nobre esposo. Que os meus filhos não morram novos como sua mãe que já
sucumbe, mas felizes, na terra de seus pais, terminem uma vida aprazível.”
Aproximou-se de todos os altares que estão na casa de Admeto,
coroou-se e fez preces, ao mesmo tempo que cortava folhagem de ramos de
mirto., sem chorar, sem gemer, sem que o mal próximo lhe alterasse a
beleza natural da face. E depois, lançando-se para o quarto nupcial e
caindo sobre o leito, aí chorou e disse: “Ó leito, onde desatei o meu cinto
virginal com aquele homem por quem morro, adeus! Não te odeio: só a
mim perdeste. Morro por não ter querido trair a meu esposo e a ti. Outra
mulher te possuirá, não mais leal, mas talvez mais feliz.”
Caindo de joelhos, beija o leito e inunda-o de lágrimas, afasta-se de
cabeça baixa, arrancando-se para fora da câmara nupcial, mas, depois,
retrocedendo muitas vezes, volta de novo para o leito. Os filhos, agarrados
às vestes da mãe, choravam; e ela, tomando-os nos braços, acariciava ora
um ora outro, como quem ia morrer. Em casa, todos os criados choravam,
lamentando a sua senhora. E ela estendia a mão direita cada um, e ninguém
era tão vil que não recebesse a sua palavra e que não lhe correspondesse.
São estes os males que há na casa de Admeto. Atingido pela morte, ele
teria perecido, mas foi salvo e, no entanto, suporta tal dor que jamais
esquecerá.»

Goncalo-M.-Tavaresimages

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NOTAS

[1] Aliás, Sarajevo aparece em pontos nevrálgicos da história europeia contemporânea, basta lembrar de que um atentado ali ocorrido foi o estopim da Primeira Guerra.

[2] Em Alceste, Apolo toma a palavra logo no início para explicar o contexto da sentença de morte de Admeto:

«Ó casa de Admeto, na qual eu me resignei aceitar a mesa de mercenário, eu que sou um deus! De tudo foi Zeus o causador, ao destruir meu filho Asclépio, lançando-lhe o fogo ao peito. Por este motivo, enfurecendo-me, mato os Ciclopes, artífices do fogo de Zeus; e o meu pai impôs-me, como expiação, ficar a serviço de um homem mortal. Vindo para esta terra, apascentei os bois do meu hospedeiro e guardei a sua casa até este momento. Sendo eu justo, encontrava um homem justo no filho de Feres, que livrei da morte, enganando as Parcas; e as deusas prometeram-me que Admeto escaparia à morte iminente se entregasse em troca outro morto aos senhores dos Infernos. »

Mas é bom lembrar que o mito grego tem outras variantes: Admeto ganhou a mão de Alceste ao aparecer diante do pai dela num carro puxado por leões e javalis, façanha que realizou com a ajuda de Apolo. Porém, durante o sacrifício da festa de casamento, Admeto se esquece de honrar a deusa Ártemis, e encontra seu quarto cheio de cobras. E nesse momento que o deus que serve e protege negocia com as Parcas o acordo com que redundará no sacrifício da esposa.

[3] Pelo menos na tradução de J. B. de Mello e Souza, publicada nos Clássicos Jackson, volume XXII (e que pode ser lida em www.ebooksbrasil.org/eLibris/alceste.html). Na versão sem indicação de autoria, em http://arnobiorocha.com.br/wp-content/uploads/2011/04/alceste1.pdf, o Coro encerra a peça assim:

«Muitas são as formas do divino e muitas as ações imprevistas dos deuses. O que esperávamos não se realizou; para o inesperado o deus achou caminho. Assim terminou este drama».

[4] Admeto, na peça de Eurípides, despede-se de Hércules: «Sê feliz, Hércules! Possas tu retornar mui breve a nosso lar! Que os cidadãos de Feres e todos os habitantes da Tessália celebrem este ditoso acontecimento por festas e danças; que em todos os altares a chama do holocausto se erga, em meio de preces de gratidão! Porque uma vida melhor se vai seguir a dias tão funestos! »

Em outra tradução: «Boa sorte e oxalá tenhas certo o regresso! Aos cidadãos e a toda a tetrarquia ordeno que festejem com danças estes felizes acontecimentos e que os altares fumeguem com a carne propiciatória dos bois. Trocamos agora o passado por uma vida melhor; não negarei que sou feliz.».

Invertendo a frase de Albert Camus sobre Sísifo, para que nós, modernos, tenhamos um mínimo de empatia com o herói euripidiano, “é preciso imaginar Admeto infeliz”, o que talvez  Gonçalo M. Tavares indique na passagem derradeira de seu Os velhos também querem viver:

«Admeto espera, mas Hércules não se faz demorar:

com a mão direita tira o véu da frente do rosto

                        [daquela mulher.

Admeto estremece: é Alceste;

                         está viva. »

[5] «Em tempo de guerra quem faz mais falta:

o homem que fora de casa combate

ou a mulher que dentro de casa protege os filhos

que mais tarde sairão de casa para combater?

Não há resposta e nunca houve resposta,

dentro ou fora de Sarajevo».

[6] «E sim, agora, neste instante: Admeto, o esposo
da nossa heroína,
atingido por uma bala inequívoca, uma
bala de cima,
cai à porta de casa como se o corpo recebesse
encomenda maligna
deixado por carteiro de nome: morte certa,
morte exata,
morte de resto zero.
Uma bala má ali está, então, alojada
na casa mais casa que um homem tem
-a sua cabeça, o seu cérebro-
e Admeto, no centro de Sarajevo,
não tem outra opção senão deixar-se morrer (…)

Porém o Deus Apolo tem ideias distintas,
não concorda com esse sistema antigo-
o nobre noivado entre causa/efeito;
não apoia essa necessidade que um corpo
moribundo tem
de solo, descanso,e nada..»

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17/03/2015

ALICE NÃO MORA MAIS AQUI: Lisa Genova e o Alzheimer

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 17 de março de 2015)

Embora a nova capa de Para Sempre Alice[1] se valha do medonho costume de copiar o cartaz da versão cinematográfica, pelo menos nos livramos do constrangedor subtítulo que poluía a edição anterior do romance de Lisa Genova pela Nova Fronteira, «Quando não há certezas possíveis, só o amor sabe o que é verdade» !!!???

Como se sabe, por sua interpretação a admirável Julianne Moore, uma das grandes atrizes do nosso tempo, ganhou um esperado (e tardio) Oscar. Sua personagem, Alice Howland, tem a mente deteriorada precocemente—aos 50 anos—pelo Alzheimer. Intelectual e professora (em Harvard) reputadíssima, na área da psicologia que pesquisa a linguagem e suas ligações com os mecanismos do cérebro—o que permitiu que ela escrevesse um livro em parceria com o marido, John, da área da biologia—, os 24 capítulos do romance percorrem um arco, de setembro de 2003 a setembro de 2005 ( com o acréscimo de um epílogo ‘fora do tempo’, por assim dizer, pois é assim que estará Alice no País do Alzheimer[2]), através do qual acompanhamos a rapidez com que a doença vai causando seus estragos cognitivos e físicos: «Ainda conseguia ler e compreender textos curtos, mas o teclado do computador se tornara uma mixórdia indecifrável de letras. Na verdade, ela havia perdido a capacidade de compor palavras com as letras do alfabeto no teclado. Sua capacidade de usar a linguagem, aquela coisa que mais distinguia os seres humanos dos animais, a estava abandonando, e Alice sentia-se cada vez menos humana à medida que ela partia». Ou então: «o cheiro desagradável de seu corpo lhe informou que fazia dias que ela não tomava banho, mas não conseguia reunir a coragem nem o conhecimento necessário para entrar na banheira».

Contudo, nem uma doença trágica consegue fazer de Para Sempre Alice um grande livro, basicamente porque Lisa Genova usa um filtro cor-de-rosa em demasia para relatar esse caso individual que poderia dizer respeito a todos, como acontece em A Morte de Ivan Ilitch, por exemplo (sei, claro, que é injusto comparar qualquer escritor com Tolstói). Para começar, a existência de Alice é ajustadíssima ao status quo[3]. Para ela, ter uma carreira como a sua, do marido e dos filhos, é o ideal (e a autora parece concordar com sua heroína). Por isso, o único ponto discordante, até os sintomas começarem a se manifestar, é a rebeldia da caçula, Lydia, que desistiu da formação universitária e deseja ser atriz (os detalhes da sua vida em Los Angeles são estereotipadíssimos). Mesmo com a evolução da sua doença, os conflitos do romance não saem do clichê: tendo a esposa encerrado abruptamente a carreira, John se debate (e entra em confronto com os filhos) entre a lealdade ao casamento e novas perspectivas profissionais. E assim, Lydia, que era a filha que não se entendia com a mãe, de repente começa a ser a mais dedicada a ela.

É por isso que o desfecho me chocou tanto, apesar de ‘tocante’, com sua apologia da afetividade (em detrimento do intelecto). Em termos de reflexão sobre a condição humana, me parece totalmente falso, até apelativo. No fim das contas, o único mal solto no mundo parece ser o Alzheimer, e mesmo ele pode ser confinado dentro das paredes da harmonia familiar. E assim, a romancista estreante, que escreve bem, e nos proporciona alguns momentos de voo menos curto (como o das instruções de suicídio que uma ainda lúcida Alice escreveu para seu futuro ‘eu’ já comprometido cognitivamente—este até chega a tentar colocá-las em prática, entretanto as esquece no tempo de subir uns lances de escada), desperdiça bagagem profissional (era neurocientista) e munição ficcional numa historinha que renderia no máximo um telefilme, um daqueles nos quais, para variar, só o amor saberia o que é verdade quando não há mais certezas possíveis.

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NOTAS

[1] A ótima tradução brasileira para STILL ALICE, publicado em 2007 de forma independente nos EUA, e em 2009, em edição tradicional.

[2] Era o título que eu tinha planejado para a resenha, mas José Geraldo Couto antecipou-se em sua incisiva crítica à mediania do filme (mesmo com uma atriz muito acima da média), VER http://www.blogdoims.com.br/ims/alice-no-pais-do-alzheimer; então apelei para outra forte referência, desta vez o filme de Martin Scorsese.

[3] O personagem-título da novela de Tolstói também é ajustadíssimo, em sua obsessão a fazer tudo comme il faut, mas essa alienação e conformismo nunca são seguidos pela visão autoral. Devo dizer que evidentemente Alice é mais simpática ao leitor que Ivan Ilitch, mas se ele analisar um pouco mais fundo, vai achar seu modo de viver complacente e no fundo, no fundo mesmo, desagradável e egoísta.

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03/03/2015

UM CINTILANTE MOSAICO DE DÚVIDA: Thomas Pynchon e seu “Vício Inerente”

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«__ Falando sozinho de novo—disse Clancy.—Você precisa encontrar o verdadeiro amor, Doc.

   A bem da verdade, ele pensou, eu me contento em só achar o meu caminho nessa história. Os seus dedos, dotados de opinião própria, começaram a rastejar na direção da sebe plástica. Talvez se ele a revistasse por tempo suficiente, noite suficientemente avançada, encontrasse alguma coisa que pudesse ajudar—algum minúsculo fiapo perdido da sua vida que ele nem sabia que tinha desaparecido, algo que faria toda a diferença» 

«…de repente as leis do acaso, decidindo-se por um clássico foda-se, instruíram  a máquina de centavos de Puck a acertar também... »

«…quando diversos tipos de caos estouraram…»

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 03 de março de 2015)

      Na semana passada, comentei Uma Breve História do Tempo e a proposição do autor, Stephen Hawking, de uma Teoria de Tudo, título do filme que deu o Oscar a Eddie Redmayne. Já Paul Thomas Anderson teve sua quarta indicação[1] ao prêmio como roteirista pela adaptação (dirigida por ele, e que estreia este mês no Brasil) de Vício Inerente [“Inherent Vice”, 2009], romance em que Thomas Pynchon, um dos mais cultuados autores contemporâneos (candidato recorrente ao Nobel), useiro e vezeiro da Teoria do Caos — que trata das instabilidades no cerne de sistemas complexos e deterministas —, faz uma sombria paródia do romance noir à Raymond Chandler & Dashiell Hammet[2].

Numa conjunção aziaga, a Califórnia dos anos 1970, onde a ação ocorre (há um intermezzo em Las Vegas[3]), é governada por Ronald Reagan, e o presidente é Richard Nixon. A guerra do Vietnã, que desmoralizou o país, está em seus estertores, enquanto a cultura hippie ainda floresce. O detetive particular Doc Sportello, maconheiro em tempo integral (não dispensa um ácido, se pintar), investiga o sumiço de Shasta Fay Hepworth (os personagens têm nomes rebarbativos, como costuma acontecer no gênero[4]), antigo e conturbado caso, agora amante do poderoso empresário Michael Wolfmann, igualmente desaparecido (talvez sequestrado ou assassinado). Esses eventos estão ligados ao sinistro navio Canino Dourado, uma das fachadas de um insidioso cartel de drogas, atuante em todas as esferas da sociedade, inclusive clínicas de reabilitação: «se o Canino Dourado conseguia deixar os seus fregueses chapados, por que não ir para o outro lado e vender também a eles um programa que os ajudasse a largar? Deixá-los indo e vindo, o dobro do lucro e sem precisar se preocupar com fregueses novos—enquanto a Vida Americana fosse algo de que as pessoas tivessem de fugir…»[5].

Coy Harlingen, sax tenor de uma banda de surf music, supostamente morrera de overdose, entretanto aparece o tempo todo nos caminhos da investigação (e ligado a uma milícia direitista violenta, os Vigilantes da Califórnia, ou mais singelamente, viggies), e Doc começa a suspeitar (a paranoia é a seara do autor de O Arco-íris da Gravidade, uma das obras-primas do século passado[6]) de que tudo e todos estão interligados numa indescortinável, porque caótica, teia de crime e poder: «O mundo acabava de ser desmontado, qualquer um aqui podia estar metido em qualquer golpe que você pudesse imaginar, e já estava mais do que na hora, como dizia  o Salsicha, de dar o fora daqui, Scooby, meu filho».

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As referências às identidades assumidas por Coy e à dupla Salsicha-Scooby Doo ajudam a delinear, ainda que ligeiramente, aspectos tipicamente pynchonianos de Vício Inerente: as inúmeras analogias de ambientes e situações com contatos extraterrestres, ou descidas em planetas desconhecidos e inóspitos[7]; pessoas que surgem e somem como truques de mágica[8]; a realidade postiça de Hollywood e Las Vegas; a associação do uso de drogas com estados alterados, alucinações, trips diversas (ou hippiefanias); tudo isso proporciona um clima de insubstancialidade, a sensação de que somos seres fractais, jamais euclidianos[9] («Agora, duas ou três linhas ocorriam a Doc ao mesmo tempo, exibindo-se em uma espécie de padrão hiperdimensional no pedaço de parede vazia do escritório que ele frequentemente usava para esses exercícios»), numa . realidade (?) “borrada” («e do lado de fora das janelas o neon da cidade começou a se alongar em compridos borrões espectrais»).Ou seja, regidos pelo caos e acaso, e se houver uma ordem subjacente, ela é nossa antagonista[10]. Em termos literários, como se o universo de corrupção e desmoralização da sociedade de um James Ellroy fosse invadido pela fantasia distópica de um Philip K. Dick ou um William Gibson. O romance, aliás, aponta para a futura hegemonia do mundo virtual  e da “informação”, com Doc roçando os primórdios da computação e seus usuários e programadores, descritos em termos que lembram os “chapados” por outros meios: «e eu juro que parece ácido, um outro mundo estranho—tempo, espaço, essa porcariada toda»

Por outro lado, os delirantes detalhes das mais diversas subculturas que impregnam a narrativa comprovam que Pynchon jamais permite que seu belo romance da maturidade (um tanto subestimado, ao que me parece) esmoreça num fácil pastiche de um gênero, embora ele até se valha de frases típicas da pulp fiction mais deslavada: «Doc estava com uma ereção e seu nariz escorria». Autor que sofre de horror vacui (horror ao vazio), ao mesmo tempo em que o insinua, ele satura suas obras de tal forma que elas se tornam sistemas próprios e autônomos (muitos, infelizmente, acham difícil adentrá-los; já outros, como eu, tornam-se viciados), porém incisivos como poucos, com relação aos impasses políticos do que chamamos de realidade[11].

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TRECHO SELECIONADO

Que explica o título do romance de Pynchon e o título do meu post:

«Doc pegou a sua lente e examinou cada imagem até que uma a uma elas começaram a sair flutuando em manchinhas coloridas. Era como se o que quer que tivesse acontecido tivesse chegado a algum tipo de limite. Era como achar o portal do passado sem vigilância, desproibido porque não precisava ser. Embutido no ato de retorno havia por fim um cintilante mosaico de dúvida. Algo como o que os colegas de Sauncho que trabalham com seguros marítimos gostam de chamar de vício inerente.

__Isso é igual ao pecado original?—Doc especulou.

__ É o que você não pode evitar—Sauncho disse…»

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NOTAS

[1] As anteriores foram por Boogie Nights, Magnólia & Sangue Negro (por este último ele concorreu ainda como diretor e como co-produtor). Escusado dizer que ele não ganhou por nenhuma. Não sou entusiasta dos filmes de Anderson, mas que ele tem ambição e ousadia, isso não dá para negar (e isso dá margem para seus intérpretes ousarem e brilharem, também).

[2] E também a apropriação do noir por Hollywood. O herói do livro sempre evoca a figura de John Garfield, intérprete de vários filmes no gênero, inclusive da clássica versão do livro mais famoso de James M. Cain, O destino bate à sua porta.

[3] «Olha só tudo isso. Como é que isso pode ser de verdade? como é que alguém pode levar isso a sério? »

  A respeito dos lugares de jogatina menos vistosos, por assim dizer, em Las Vegas:

«Os jogadores aqui tendiam a jogar por dinheiro, cuidando de suas vidas esperançosas ou desesperadas, chapados ou caretas, cientificamente ou calcados em superstições tão exóticas que não podiam ser prontamente explicadas, e em algum lugar nas sombras o senhorio, a financeira, a comunidade dos agiotas, estavam sentados invisíveis e calados, batendo os pés dentro de sapatos caros, ponderando opções de castigo, leniência—e até, raramente, misericórdia»

[4] Outros exemplos:  Sauncho Smilas, Rudy Blatnoyd, Puck Beaverton, Rhus Frothingham, Trillium Fortnight…

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[5] Todas as citações são da maravilhosa tradução de Caetano W. Galindo (há um genial “pau-pites” na pág. 389). Também inspirada é a capa de Elisa V. Randow.

[6] O substantivo “paranoia” e seus adjetivos correlatos são utilizados à farta em Vício Inerente («ou será que tenho que começar a ficar paranoico de verdade?»), mas gostaria de chamar a atenção de que ele muitas vezes brinca com isso (Pynchon= paranoia+ironia+caos):

«__Eu posso dizer uma coisa em voz alta? Será que tem alguém ouvindo?

__ Todo mundo. Ninguém. Faz diferença?»

[7] Dois exemplos tomados ao acaso: «Como viajantes do espaço em uma nave espacial»; «e foi como pousar em outro planeta».

[8] «…e—será que Doc tinha piscado ou alguma coisa assim?—sem mais nem menos desapareceu»

[9] Um dos indicadores é o uso contínuo do ponto de interrogação para frases e declarações supostamente afirmativas.

[10] Frequentando seus lugares usuais, Doc não reconhece ninguém e nem sequer os ambientes e aí lemos: «Ninguém que ele reconhecesse. Ele pensou brevemente em ir para o seu apartamento, mas começou a recear que não fosse reconhecê-lo também, ou pior, que o apartamento não o reconhecesse—não estivesse lá, a chave não coubesse ou alguma coisa assim»

[11] Um ponto que não pude desenvolver na resenha acima e a respeito do qual gostaria, entretanto, de chamar a atenção, é para a renitente e ao mesmo tempo insustentável inocência do herói do livro, Doc Sportello, que toca num ponto nevrálgico do imaginário norte-americano. Se ele tem intuições do caos como meio de administrar totalitariamente o sistema em plena “democracia” («e quando no fim os patriotas e os tiranos são as mesmas pessoas?»), ao longo da narrativa, também tem a atitude criticada na passagem seguinte:

«__ E você—ela diz a Doc—um dia vai ter que se conformar.

__ Como assim?

__ Ser como todo mundo».

 

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26/02/2015

NAVEGANDO POR MARES DE TRAMPA: “Combateremos a Sombra”, de Lídia Jorge

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 25 de maio de 2010)

Na passagem dos anos 1970 para a década seguinte, dois poderosos nomes surgiram na ficção portuguesa: António Lobo Antunes e Lídia Jorge. O primeiro tem se dedicado nos últimos anos a um fluxo ininterrupto de romances “totais”. Já a segunda, que estreou há trinta anos, com o talentoso O dia dos prodígios, tem sido menos prolífica. Sua obra mais recente é Combateremos a Sombra[1].

Na noite da virada do milênio, o psicanalista Osvaldo Campos atrasa-se no seu consultório para a festa do réveillon, o que acarreta o fim do seu casamento. Após um curto período de desagregação psicológica (chega a agredir a ex-mulher), ele volta à pacata rotina de atendimento dos pacientes, vivendo no local de trabalho, e adotando como divisa, numa atitude de tabula rasa com relação à existência pregressa, a afirmação de um dos muitos clientes não-pagantes que aceita, para desespero da sua secretária, Ana Fausta (uma personagem secundária memorável): “Professor, navego por dia mares de trampa, para conseguir caçar um, dois peixes”. A vida, então: uma travessia minimalista por mares de excremento ou de armadilhas e logros, conforme se queira entender a metáfora.

O dr. Campos tem uma “paciente magnífica”, a sua “visita da noite”, Maria London, filha de um magnata. Um dia, descobre que as elaboradas fantasias dela a respeito de navios de cruzeiro que aportam em Lisboa e nos quais o pai a embarca regularmente, são bem reais e correspondem a um submundo pesado de tráfico, bem nas barbas (ou com a conivência) das autoridades. Por outro lado, na noite do réveillon que virou sua vida do avesso conhecera casualmente uma angolana no prédio onde fica seu consultório. Ao longo dos meses nos quais a narrativa se desenvolve, o incauto psicanalista (que a acreditava manteúda de um sujeito poderoso) descobre que ela é testemunha de vários crimes (trabalhava numa clínica onde iam se aliviar os cagões, aqueles que conhecemos como mulas de drogas, e um deles morreu por excesso de carga; além disso, ela fotografou trabalho escravo de imigrantes ilegais), e fora poupada pelos seus executores (um deles, colega de juventude), que a mantiveram escondida num apartamento.

Os dois iniciam uma ligação amorosa e, após enviá-la para um refúgio seguro em Roma, o dr. Campos resolve enfrentar o submundo que descortinou através das revelações de Maria London e de Rossiana, a sua amada, elaborando dossiês e entrando em contato com organizações internacionais, com a Interpol, a polícia, órgãos da imprensa e até a Presidência.

Como sempre, essa atitude quixotesca tem resultados desastrosos e o dr. Campos nunca reencontrará Rossiana em Roma. Em contrapartida, permite a uma das maiores autoras da atualidade encarar de frente o novo milênio e seu desafio à imaginação literária. Combateremos a Sombra é um senhor romance.

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TRECHO SELECIONADO

Abaixo temos um relato de Rossiana e de sua visão-de-mundo como fotógrafa:

“Emprestaram-me uma Yashica, e num papel exposto numa parede, inscreveram-se dez rapazes e cinco raparigas. Como dizer? O que eu sabia pouco mais era do que aquilo que eles sabiam, mas entendemo-nos. Não há nada como crianças a ensinarem crianças…Eu disse-lhes mais ou menos isto: Pois podemos chamar àquilo que vamos fazer, a forma como vamos trabalhar e aos objetos e ângulos que vamos escolher, tudo o que voa… Malta, disse eu, o pessoal vai andando pelo nosso bairro adiante, e lá onde encontra um objeto com interesse, uma situação entre gente que diga alguma coisa com jeito, um sapato bonito na lama, uma gaiola sem pássaro lá dentro, uma coisa assim esquisita por ser bela e dê vontade de levar para casa, e dê vontade de a gente se agarrar a ela, a malta fotografa para ver como é. Mas para que se perceba que voa, tem de ter à mostra o local de onde parte… Daqui de onde estamos, todos vemos como a vizinha tem um vaso com uma azalea à janela. Se só fotografarem a azalea, é uma merda de usar em todos os lugares, até numa estufa de flores, não vale a pena. Mas se a azalea tiver junto dela o cortinado puído da janela da vizinha, a azalea voa, a azalea diz: Porra, eu sou a harmonia no meio das coisas rotas e puídas, eu voo. Compreenderam o que diz a azalea? TUDO O QUE VOA será assim…. Uma rapariga fotografou a língua dum homem velho de olhos fechados a tomar a hóstia dominical e eu achei que isso era digno de TUDO O QUE VOA, mas alguém tomou o efeito pela causa e foi acusar-nos de provocação e a fotografia teve de ser retirada… Mas ficaram os gatos com guizo a olharem para pássaros sobre telhados de zinco. Ficaram duas pernas de miúdo sujas de lama, puxando um carrinho. Ficaram dois ovos a cavalo num bife pousados sobre metade dum prato. Ficaram duas raparigas a comporem a gravata do pai tetraplégico. Ficaram duas rosas vermelhas, uma delas ainda em botão, plantadas num velho penico de esmalte onde alguém num tempo remoto tinha pintado um nome: Senhora…”

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NOTA

[1] Nota de 2015- Quando escrevi a resenha acima, comentei o romance a partir de sua edição portuguesa, pela Dom Quixote (2007); recentemente saiu uma edição brasileira pela Leya.

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24/02/2015

Destaque do Blog: UMA BREVE HISTÓRIA DO TEMPO, de Stephen Hawking

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«Pode-se dizer que o tempo teve início no Big Bang, no sentido de que tempos anteriores simplesmente não teriam definição…» (Stephen Hawking, Uma Breve História do Tempo)

«… toda a ciência desta Terra não me dirá nada que me assegure que este mundo me pertence. Vocês o descrevem e me ensinam a classificá-lo. Vocês enumeram suas leis e, na minha sede de saber, aceito que elas são verdadeiras. Vocês desmontam seu mecanismo e minha esperança aumenta. Por fim, vocês me ensinam que esse universo prodigioso e multicor se reduz ao átomo e que o próprio átomo se reduz ao elétron. Tudo isto é bom e espero que vocês continuem. Mas me falam de um sistema planetário invisível no qual os elétrons gravitam ao redor de um núcleo. Explicam-me este mundo com uma imagem. Então percebo que vocês chegaram à poesia: nunca poderei conhecer. Tenho tempo de me indignar?  Vocês já mudaram de teoria…» (Albert Camus, O Mito de Sísifo)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 24 de fevereiro de 2015)

« O objetivo final da ciência é fornecer uma teoria única que descreva todo o universo (…) Sempre ansiamos por compreender a ordem subjacente do mundo… nossa meta não é nada menos do que uma descrição completa do universo onde vivemos. »

Eddie Redmayne levou todos os prêmios mais badalados (Golden Globe, SAG, Oscar) ao interpretar Stephen Hawking.  E o sucesso de A Teoria de Tudo[1] rendeu nova edição brasileira (atualizada e corrigida) do mais popular livro de divulgação científica do cosmólogo inglês, Uma Breve História do Tempo (1988)[2], bem no ano em que a Teoria da Relatividade Geral comemora seu centenário.

Como relata Hawking, a partir de Einstein, fomos obrigados a mudar nossa concepção de espaço e de tempo: eles não são apenas um pano de fundo imutável para os eventos do universo, mas são “quantidades” dinâmicas; mais ainda, co-dependentes, de forma que é mais exato o conceito de espaço-tempo.

A grande revolução na física teórica foi a proposição de que o universo não é eterno: teve um início (o agora tão popular big bang) e muito provavelmente terá um fim (big crunch). O próprio Einstein não aceitava essas conclusões (propostas há apenas 50 anos, à época em que Hawking fazia seu doutorado em Cambridge e lutava com as manifestações iniciais da sua doença neurológica degenerativa) a partir de sua teoria; convencido de que o universo era estático, chegou a inserir em suas equações uma “constante cosmológica”[3].

De todo modo, não obstante sua importância fundamental, a Teoria da Relatividade só permite uma descrição (e, portanto, compreensão) parcial do universo, com sua mirada no extraordinariamente vasto. A descoberta de partículas e subpartículas e o impulso dado à mecânica quântica, com a adoção do Princípio da Incerteza de Heisenberg[4], fizeram com que o extraordinariamente minúsculo ganhasse o centro do palco.

A “Teoria de Tudo” é o esforço de uma vida, após anos dedicados ao estudo das “singularidades” (eventos cósmicos que desafiam noções da física clássica, um campo gravitacional onde “tudo está dentro de nada”), entre elas os buracos negros, na tentativa de encontrar as equações que permitam conciliar essas teorias parciais, a da relatividade e a da mecânica quântica, na direção para o qual a passagem tirada de Uma Breve História do Tempo que abre esta minha resenha indica. Uma teoria da gravitação quântica.

Uma busca linda, envolventemente sintetizada por Hawking[5] — só a parte em que ele enumera as numerosas partículas é um pouco árida, e sinceramente acho chocante no nível da física em que ele atua (mesmo que sejamos leigos), ilustrações tão chinfrins[6], dignas dos livros didáticos mais elementares. Ninguém conseguirá ver a grandeza das proposições nesses esqueminhas e gráficos hilários.

No final, porém, fica um travo de fracasso; de que, feitas as contas, só há teorias e de que elas estão muito longe, apesar das equações complicadíssimas, de explicarem de fato o universo, apesar da profusão de modelos cósmicos, nenhum inteiramente válido, não mais do que a Cabala ou outras concepções cosmológicas ancestrais. O grande cientista pode nos brandir frases como «não se pode discutir com um teorema matemático», contudo ele mesmo chega a temer por suas concepções («Já estudei muito os buracos negros e todo o meu trabalho iria por água abaixo se descobríssemos que eles não existem»).

Portanto, não deixa de ser temerária (mas sem a arrogância de um Richard Dawkins, decerto) a afirmação de que «…podemos estar próximos de encerrar a busca pelas leis definitivas da natureza». Entretanto, numa espécie cuja existência e sobrevivência se devem à desordem entrópica (como Hawking afirma, a certa altura), todos os voos da imaginação são possíveis, como indica a epígrafe de Camus. Ainda bem.

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TRECHO SELECIONADO

«… por que a desordem aumenta na mesma direção do tempo em que o universo se expande? Se acreditarmos que o universo se expandirá e depois voltará a se contrair, como a proposição sem-contorno parece sugerir, a questão passará a ser entender por que devemos estar na fase de expansão e não na de contração…

     As condições na fase de contração não seriam adequadas para a existência de seres inteligentes capazes de fazer a pergunta ´Por que a desordem aumenta na mesma direção do tempo em que o universo se expande?’. A inflação nos primeiros estágios do universo, que é prevista pela proposição sem-contorno, significa que o universo deve estar se expandindo a uma taxa muito próxima da taxa crítica na qual escaparia de entrar outra vez em colapso por uma margem mínima e, desse modo, não demorará muito a entrar em colapso. A essa altura, todas as estrelas já terão se extinguido e os prótons e nêutrons nelas provavelmente terão decaído em partículas de luz e radiação. O universo se encontraria em um estado de quase completa desordem… A desordem não poderia aumentar muito, pois o universo já estaria em um estado de quase completa desordem. Entretanto, precisa haver uma seta termodinâmica forte para que exista vida inteligente. A fim de sobreviver, os seres humanos têm de consumir alimento, uma forma ordenada de energia, e convertê-la em calor, uma forma desordenada de energia. Assim, a vida inteligente não poderia existir na fase de contração do universo. Isso explica por que observamos as setas do tempo termodinâmica e cosmológica apontando na mesma direção. Não é que a expansão do universo cause o aumento da desordem, mas sim que a condição de sem-contorno leva a desordem a aumentar e faz com que as condições sejam adequadas para a vida apenas na fase de expansão… »

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NOTAS

[1] Como se sabe, o filme de James Marsh (2014) é baseado no livro de Jane Hawking.  No entanto, há um roteiro muito superior (de Peter Moffat), que rendeu um telefilme da BBC, Hawking (2004), dirigido por Philip Martin, e com interpretação, essa sim brilhante (e não apenas correta), de Benedict Cumberbatch, luminoso como Hawking.

Quem quiser conferir:

https://www.youtube.com/watch?v=U_ytm34YVCU

[2] A Brief History of Time, que comento na tradução de Cássio de Arantes Leite (Intrínseca).

Não custa lembrar que a edição original do livro e a sua primeira tradução (lançada pela Rocco, e depois muito criticada devido a erros e imprecisões conceituais) foram, junto com o trabalho de Carl Sagan, um momento pioneiro na divulgação de uma área hoje razoavelmente conhecida e que conta com os seus best sellers (Brian Greene, Marcelo Gleiser). Assim se explica uma parte do charme e do sucesso do seriado The Big Bang Theory (em conexão com um certo triunfo da cultura geek, ou nerd).

[3] “Na teoria da relatividade, não existe tempo absoluto único; em vez disso, cada indivíduo tem sua própria medida de tempo, que depende de onde ele se encontra e de como está se movendo.

    Antes de 1915, o espaço e o tempo eram vistos como um palco fixo onde os eventos ocorriam, mas que não era afetado pelo que acontecia nele… Era natural  pensar que o espaço e o tempo prosseguissem eternamente.

    A situação, no entanto, é bastante diferente na teoria da relatividade geral. Espaço e tempo passaram a ser quantidades dinâmicas… Espaço e tempo não apenas afetam como também são afetados pelo que acontece no universo (…) Roger Penrose e eu demonstramos que a teoria da relatividade geral de Einstein sugeria que o universo deve ter um início e, possivelmente, um fim.”

[4] Segundo o qual, nunca podemos ter certeza exata ao mesmo tempo sobre a posição e a velocidade de uma partícula; quanto maior a precisão com que sabemos um valor, menos preciso será o outro.

[5] Infelizmente, devido às limitações características de uma resenha não poderei abordar alguns aspectos especialmente fascinantes do livro de Hawking, por exemplo o fato de que as suas teorias implicam uma noção do universo “sem bordas nem contornos” e todas as suas consequências:

“…ao combinarmos a relatividade geral com o princípio da incerteza da mecânica quântica, é possível que tanto o espaço quanto o tempo sejam finitos sem bordas nem contornos…”

[6] De autoria de Ron Miller.

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17/02/2015

Ervas daninhas no jardim: VIOLETA VELHA E OUTRAS FLORES, de Matheus Arcaro

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  17 de fevereiro de 2015)

Matheus Arcaro organizou cuidadosamente seu livro de estreia, Violeta velha e outras flores: vinte e dois contos dispostos em seis seções, e sentimos fortemente a afinidade temática que rege esses agrupamentos; por exemplo, o conto-título, no qual o protagonista, já idoso, rememora a relação permeada de violência com o filho (em que um sempre é o elo mais fraco) está em companhia de outros cinco onde situações-limites de desamparo afloram: a estudante destruída pelo vício até chegar à indigência total (“Alice”); a mulher com câncer, com um diagnóstico-sentença de poucos meses de vida, que procura cura espiritual (ou mero conforto?) num centro espírita (“A cura); o residente  de uma casa de repouso que, no dia do aniversário de noventa anos, espera ansiosamente os familiares (“Visita); a moça atropelada («O farol do carro apagou as luzes do meu porvir»), em estado vegetativo (“Festa”).

Em outros blocos temos o despertar de uma sensibilidade infantil para o selvagem coração da vida (“Casulo Rompido”); situações que desnudam a hipocrisia e as máscaras das relações instituídas, como o casamento (“Até que a morte os separe”); temos até relatos que transitam entre o filosófico e o paródico, como a visitação ao inferno, ao paraíso e ao purgatório, com a oferta de se decidir por um deles concedida ao protagonista (“Está tudo escrito”); sem contar experiências como  “A fúria sem som”, onde o relato de um deficiente mental, abusado por uma cuidadora (com resultados trágicos) e misturando instâncias temporais de toda uma vida, remete à parte mais famosa e intrincada de O som e a fúria (1929), de William Faulkner.

Portanto, temos um escritor jovem (30 anos), mas que leva muito a sério seu ofício, com uma intuição estrutural acurada[1]. Não obstante essas qualidades ponderáveis, que mostram um jardineiro dedicado, o que realmente importa em Violeta velha e outras flores, os relatos, revela a intrusão de ervas daninhas que comprometem tais cuidados com o jardim.

Grosso modo, o que a meu ver (pois é preciso dizer que o livro vem colhendo fartos elogios) incomoda na coletânea como uma falha grave é a falta de uma voz pessoal, de uma personalidade de autor que ilumine de forma peculiar, única, todo o cultivado buquê de temáticas e técnicas narrativas. Não sentimos em nenhum momento um universo ficcional com a marca inconfundível de Matheus Arcaro. Um ou outro conto ameaça timidamente um desabrochar nesse sentido, caso de “Festa” ou “Maquinando”, todavia sempre sentimos que falta algo essencial[2].

Por outro lado, em sua prosa, ele se deixou levar pela sereia do “escrever bonito”, caindo inúmeras vezes no pior beletrismo, aquele que transformou em escritores irremediavelmente anacrônicos Coelho Neto ou Afrânio Peixoto, e que faz dos contemporâneos Nélida Piñon (Vozes do Deserto) e Evandro Affonso Ferreira (O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam) exemplos de afetação e tom postiço (no fundo, subliterário).

Deparamo-nos, com trechos como «As papilas salivares censuram aos lábios o direito da separação»!?; «O ar árido e o hálito do sol, entrelaçados feito jovens amantes, salgam seus olhos»!?; «Como a viúva que levanta o véu do caixão para o beijo derradeiro na boca frígida, as cortinas se abrem»!?;«suas reflexões diluíam-se no reflexo que arrombava sua retina»!?; «a lua lambeu seus pés»!?[3]

Claro que há também trechos bons («Com o vestido florido, Clarice parece costurada ao ambiente»;«O esforço ineficaz daquele homem em escombros trouxe um espelho à sua frente; viu-se pelada numa cadeira de rodas, com o tempo ancorado nos ombros»;«Eram seis da tarde, mas o crepúsculo habitava-o há horas») infelizmente estrangulados entre a floração malsã de imagens de gosto duvidoso[4], piñonescas.

Ao fim e ao cabo, seria aconselhável ao jardineiro a poda implacável: melhor concentrar-se menos nos contornos do jardim e mais com a qualidade de cada flor[5]. Como lemos (aliás, uma passagem ruim) em “Reencontro”: «Como germinariam flores na boca se seco está o espírito?»

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TRECHO SELECIONADO

«será que vou pro céu não estou no mesmo degrau que o padre Ambrósio ou que as senhoras que puxam o terço de terça à noite porém não posso ir pro mesmo lugar que um matador de aluguel ou um político decerto foi pra evitar esse tipo de confusão que Deus inventou o purgatório o padre disse que não se fica lá por muito tempo só até pagar os pecados mais graves eu me esforço pra seguir os ensinamentos dele amar o próximo e tal mas é difícil sem crédito celular da porra»

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NOTAS

[1] Que encontrou na edição da Patuá o excepcional talento de Leonardo Mathias, que realizou um de seus melhores trabalhos.

[2] “A fúria sem som” talvez seja o conto mais impecável da coletânea do ponto de vista da tessitura textual, e mesmo assim tem um ar de exercício estilístico de oficinas criativas.

[3] O conto de abertura, “Casulo rompido”, já é comprometido por passagens e expressões infelizes, como “o menino moldado por seus genes”, “como se algo de dentro da flora o sugasse suavemente”, “líquido salso”, além de uma certa falta de rigor, como em “Ele era um títere encantado; um ser no qual o êxtase espreguiçava seus tentáculos” (afina, títere ou ser?, os dois não dá para ser, não?).  O que  nos leva também às frases sem qualquer sentido, como esta, de “Teclado”: “Júlio parecia com o que devia parecer. Um livro erótico de capa sóbria”!?  Ou às afirmações banais e estereotipadas: “ele tinha que lavar o ranço do passado não vivido” (“Noite nua”)!?

[4] O já citado “Visita” fornece um bom exemplo desse estrangulamento: veja-se o primeiro parágrafo, marcado pelo excesso de imagens: “Inspirou como se erguesse a existência com os pulmões. Elas virão! A bofetadas, o tempo lhe ensinara que a vida não é uma equação  pitagórica: uma delas pode ter passado mal; nesta época do ano, a gripe costuma atacar  os que estão com o escudo em repouso. Ou, quem sabe, o carro pode ter enguiçado no caminho; estes carros modernos são mais frágeis que um coração empoeirado. Sentindo a menção do pensamento, o órgão  debateu-se no calabouço torácico, mas logo foi domado pelo marca-passo e, resignando-se como um escravo recém-açoitado, voltou à sua função de tesoureiro da esperança.” (de “Maquinando”)

   Ao longo do conto o leitor se depara com a felicidade que “fora concubina” do protagonista; uma mulher que carregava no peito “sublimes paradoxos” e uma filha com “hálito hialino”!?

[5] E mesmo no quesito “seleção”, há reparos a se fazer: ter escrito vinte e dois contos não é razão para publicá-los todos. O que justificaria a inclusão de “Guerra” e “À beira do abismo”?

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10/02/2015

Carmine, o Curioso e a Senhora da Ficção: “Liga, Desliga”, de Colleen McCullough

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“Carmine havia acabado de completar seu primeiro ano na Universidade de Chubb quando Pearl Harbor foi atacado; então, ele postergou a faculdade e se alistou. Por puro acaso, foi transferido para a polícia militar e, depois que passou pela fase de tirar guarda e prender soldados bêbados, descobriu que amava o trabalho (…) Quando a guerra e o período de ocupação no Japão chegaram ao fim, ele era major, qualificado para completar sua formação na Chubb através de um programa de aceleração. Então, com um bom diploma embaixo do braço… ele decidiu que gostava mais do trabalho policial (…) Holloman não era grande o bastante para ter uma divisão de homicídios nem qualquer das subdivisões que as forças policiais das cidads grandes possuíam, então Carmine podia ser designado para todo tipo de crime. No entanto, assassinato era sua especialidade e ele contava com uma formidável taxa de sucesso: quase cem por cento; nem todos condenados, é claro.”

“Eu jamais teria me fixado nela se não houvesse desenvolvido tamanho fascínio por Carmine, o Curioso. Mas já que, apesar de toda a sua curiosidade, ele não é presciente… jamais me fez as perguntas que poderiam ter acionado a chave em seu cérebro teimoso.”

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 10 de fevereiro de 2015)

Falecida há alguns dias, aos 77 anos, Colleen McCullough era uma escritora que rompia fronteiras: muitos títulos de uma carreira prestes a completar quatro décadas tornaram-se best sellers (só Pássaros Feridos vendeu 30 milhões de exemplares), nem por isso menos apreciados por quem gosta de ficção que não seja mero entretenimento.

Se mesmo obras menores como A Paixão do Dr. Christian (1985)[1] ou A Canção de Troia (1998) podem ser lidas sem a sensação de desperdício de tempo, quando acertava em cheio, caso da já referida história do padre Ralph de Bricassart e Meggie Cleary (1977, seu segundo romance — a estreia se deu dois anos antes, com Tim), de Uma Obsessão Indecente (1981), do primeiro volume da notável heptalogia sobre o período pré-imperial da Roma Antiga (Primeiro Homem de Roma, 1990), ou ainda do delicioso e curto (para os padrões dela) As Moças de Missalonghi (1987) a australiana se mostrava digna da fidelidade de um leitor.

Após encerrar o ciclo Senhores de Roma, dedicou-se a desenvolver a série policial iniciada em 2006, com Liga, Desliga. A partir de Assassinatos Demais (2009), o protagonista, Carmine Delmonico, era alçado a capitão da polícia em Holloman (Connecticut); até 2013 já havia cinco de suas investigações — McCullough, lá no seu refúgio na Ilha de Norfolk, mesmo gravemente doente, continuou prolífica.

Quando um leitor mais experimentado se depara com a edição brasileira de Liga, Desliga[2], tudo parece contra o livro: embaixo do título, o apelativo “o jogo do assassino está apenas começando…”; na contracapa: “belas adolescentes estão sendo cruelmente assassinadas. Vale a pena mais um thriller de assassino em série?; ainda mais investigado por um detetive “dedicado e solitário como Carmine nos é (mal) apresentado na orelha? Mais um investigador disfuncional? Já não os há às pencas?

Ultrapassado esse estágio de má vontade, uma lida nas páginas iniciais proporcionará a primeira surpresa mcculloughiana: a identidade de Jimmy, acordando dentro de um congelador destinado aos cadáveres de animais que servem de cobaias para o Hug, renomado instituto de pesquisas neurológicas. Ali, partes do corpo de uma adolescente assassinada são casualmente encontradas. O ano é 1965 (Colleen utilizou suas experiências como neurofisiologista e o período em que viveu nos EUA) e os funcionários do Hug passam a ser os suspeitos do que se revelará uma sucessão (até então ignorada) de sequestros, estupros brutais e desmembramentos de moças de família, todas muito parecidas. Por causa da etnia (latinas, mulatas e negras), em plena época de distúrbios civis, os crimes (bem como o tipo de ciência praticado no Hug — aliás, focalizado com surpreendente ceticismo pela autora) despertam a fúria de grupos raciais militantes. Mas no centro do mistério está uma família tão marcada pela tragédia e certas taras quanto os Cleary de «Pássaros Feridos».

É gratificante acompanhar o (lento) desenvolvimento de Liga, Desliga, principalmente porque ela desilude quem procura um daqueles enredos em que os investigadores deslindam as ações e motivos dos criminosos, trocando-os em miúdo para os leitores (pelo contrário, aqui os agentes da Lei ficam “por fora” e fracassam, em larga medida). Entretanto, mesmo com todos os méritos da narrativa, caberá ao último capítulo (no qual o título se justifica), cujo único defeito é ser muito curto (poderia ser uma seção do romance), iluminar o conjunto, dando-lhe dimensão insuspeitada. Mesmo quem desconfiar da identidade do assassino levará um susto e tanto. É imperdoável revelá-la[3].

Portanto, se não tivesse escrito mais nada, a grande Colleen McCullough ainda ficaria como um dos melhores autores policiais contemporâneos. Contudo foi uma faceta a mais de uma legítima Senhora da Ficção.

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TRECHO SELECIONADO

“__ O problema é que você está neste caso há tanto tempo que já esgotou todas as probabilidades e não tem mais onde olhar, exceto para as improbabilidades.

__ Existe um viés religioso, e está ligado à raça!

__ Concordo, mas a religião não é o que interessa aos Fantasmas. O que interessa a eles é o fato de que são as famílias tementes a Deus que produzem o tipo de garota que eles querem.

__ Os Bewlee estão escondendo alguma coisa, têm de estar—Carmine resmungou.—Caso contrário, Margaretta não se encaixa.

__ Volte para o básico. Se você acha que os Fantasmas são estupradores, antes de assassinos, então você não está procurando por um fanático religioso de qualquer cor ou seita, cristã ou não. Está procurando por um homem ou dois que odeiam todas as mulheres, algumas mais do que outras. Os Fantasmas odeiam a virtude aliada à juventude aliada à cor aliada a u rosto aliado a outras coisas que não sabemos. Mas sabemos sobre a virtude, a juventude, a cor, o rosto. Nenhuma delas era totalmente branca, e nenhuma será, disso eu tenho certeza absoluta. Seu melhor grupo de amostragem é o das latinas católicas, só isso. As garotas são criadas um tanto imaturas para sua idade, estritamente supervisionadas e intensamente amadas. Você sabe disso, Carmine!… A resposta está nos elementos  básicos do caso.”

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NOTAS

[1] Cujo título original é A Creed for the Third Millennium.

[2] On, Off, que comento na tradução de Sibele Menegazzi (Bertrand Brasil).

[3] Desde O Assassinato de Roger Ackroyd creio que não há um final (e o foco narrativo) de romance do gênero que exija tanto discrição daqueles que já o leram.

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03/02/2015

ENTRE A OPRESSÃO E A UTOPIA: “Os pecados da tribo”, de José J. Veiga

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“__Tenha paciência, seu Oldívio. Está ruim para todos. Isso é fase.

__ É. Fase permanente..”

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 03 de fevereiro de 2015)

Com o benefício da passagem do tempo constatamos que Os Pecados da Tribo (1976), quinto livro de José J. Veiga, marcou o auge de uma carreira até então composta por clássicos, desde a estreia com Os Cavalinhos de Platiplanto (59): A Hora dos Ruminantes (66), A Estranha Máquina Extraviada (68) e Sombras de Reis Barbudos (72), numa fluida oscilação entre conto e romance.

Em seguida, o grande autor goiano, cujo centenário estamos celebrando (nasceu em 2 de fevereiro de 1915), continuou a publicar com regularidade, nunca mais, todavia, com a mesma ressonância, ainda que sempre fiel ao seu universo, no qual o atraso e as estruturas arcaicas da nossa sociedade transpareciam através de parábolas e alegorias etiquetadas como “realismo fantástico”: tivemos, por exemplo Aquele Mundo de Vasabarros (82), A Casca da Serpente (89), até o derradeiro Objetos Turbulentos (97), antes de sua morte em 1999, aos 84 anos.

Como o prestígio de Veiga esteve estreitamente ligado ao que a sua “grande fase” tinha de alusivo ao período da ditadura, seria o caso de uma obra datada, envelhecida de forma irremediável?

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Não é o caso. Ainda que possamos ler, nas entrelinhas de Os Pecados da Tribo, alusões ao sombrio regime pós-64, o romance vai fundo num diagnóstico mais amplo e complexo de certa mentalidade que preside o exercício (quando não a tomada à força) do governo no Brasil e como essa recorrência autoritária se entranha no imaginário popular, fazendo com que a consciência histórica vá se esgarçando e o que é fruto do arbítrio se “naturalize”[1]. Um episódio memorável é o da lei que obriga toda a população a soltar fogos de artifício: “O estrangeiro que chega aqui de noite fica penando que somos o povo mais alegre e festivo do mundo… Mas de dia o quadro é bem outro: um povo de cara fechada, testa franzida, cabeça baixa, pensando na quantidade de foguetes que vai ter de soltar de noite…”[2]. Alegria e comemoração por decreto, e com severas penalidades.

Com o colapso de uma civilização antiga (como a História é obliterada, ela só é conhecida através do diz-que-diz e dos seus vestígios, muitos dos quais apagados pelos líderes que chegam ao poder, os Umahla), o “território” tornou-se um agrupamento de clãs, evocando os costumes africanos ou indígenas[3]. Tudo parece improvisado e provisório, porém tal desorganização apenas mascara a cerrada teia que envolve a todos. O narrador é um homem que só quer viver tranquilo, no seu canto (sua atividade predileta é a pescaria), mas que tem de manter uma atitude de suspeita e reserva num ambiente onde não se sabe o que é proibido e perigoso[4] (inimigos e delituosos são “evaporados”—não pode haver termo mais incisivo quanto à supressão de indesejáveis[5]); Rudêncio, seu irmão, ao contrário, participa ativamente das mudanças de governo, ascendendo nas instáveis hierarquias, e torna-se cada vez menos confiável e fraterno:

“__ Você ainda vai ouvir falar dele. Todo o território vai ouvir falar dele.

    Perguntei de que natureza seria essa função, Rudêncio se trancou. Não podia adiantar mais nada.

__ Vamos ouvir falar bem ou mal?

__Depende do lado em que a pessoa estiver. De que lado você está?

    Era o outro Rudêncio falando, o genro do Umahla, o pai dos netos do Umahla, o Rudêncio que às vezes me amedrontava…”

Mesmo pacato, até mesmo passivo, o obscuro irmão de Rudêncio fará parte de uma vaga conspiração: a construção de um navio na floresta, “completo em todas as suas partes e instrumentos, como se destinasse mesmo a enfrentar o mar e seus perigos, apesar de vivermos longe do mar?”. Com esse projeto absurdo e temerário, temos uma das mais tocantes imagens da utopia já apresentadas pela ficção. Quanto à provável represália dos agentes do regime: “E não tem muita importância que descubram o nosso plano. Se por acaso descobrirem, o que é que encontrarão? Um sonho dentro de cada um de nós”[6]. Passagens como essa e o agudo e incessante fervor fabulatório provam que Os Pecados da Tribo e o melhor da obra de José J. Veiga são uma leitura ainda necessária. Pelo menos enquanto a interrogação “Que país é este?” se fizer presente.

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TRECHO SELECIONADO

“Dizemos que aqui não acontece nada, mas às vezes acontecem coisas incompreensíveis. Como ontem, por exemplo. Ainda não tínhamos acabado de comer a papa da manhã, chegaram uns homens no descampado aí em frente, tocaram o berrante e todo mundo atendeu correndo. Os homens nos puseram em forma na beira da estrada e explicaram o motivo da convocação. Era para abrirmos um buraco circular na dimensão já arcada com umas estacas (…) Comparada com o que dizem do tempo antigo, a vida aqui não é ruim, mas tem os seus momentos bem duros, principalmente depois que evaporaram o velho Umahla. Antes a gente ainda tinha certas pequenas regalias, quando havia abusos dos de cima uma queixa na Casa do Couro, às vezes, dava resultado; agora não há a quem se queixar (…) Vendo que o meu setor não estava progredindo, um dos homens se agachou na beira do buraco para fiscalizar o meu trabalho. Fiz de conta que não estava sendo observado e continuei a luta com o terreno duro. Depois de algum tempo ele me tocou com o chicote dobrado e perguntou por que eu estava atrasado. Expliquei que o terreno ali era muito duro e ainda grudava na picareta, como ele podia ver.

__ Duro, é? Pois vai ficar mole num instante. Vou fumar um cigarro na sombra daquela árvore. Se quando eu voltar você não tiver igualado com os outros, vai levar umas lambadas disto aqui—disse ele, e esfregou o chicote dobrado no meu nariz.

   Não encontro explicação para o que aconteceu. Eu não estava fazendo corpo mole, o terreno era duro mesmo; mas quando o homem voltou para verificar o resultado da ameaça, a minha parte já estava rente com a dos outros, se é que não estava um pouquinho mais funda. Mesmo assim o homem boleou o chicote e mandou uma lambada que só não me pegou em cheio no ombro porque recuei em tempo, já adivinhando a maldade. Mas a ponta do chicote me acertou o braço esquerdo de raspão, e o lugar ainda está inchado e dolorido. Marquei bem a cara do homem; se eu resolver entrar para a brigada de Rudêncio, vou ajustar essa conta (…)

    Depois eles nos mandaram recolher as ferramentas nas carroças, acomodaram-se em cima como puderam e foram embora cantando uma música marcial. Nós ficamos ali com as mãos inchadas e cheias de bolhas, o corpo doendo, e aquele buraco enorme quase na nossa porta.

    Hoje muitos aqui acham que tudo não passou de um divertimento de segundos escalões desocupados, e que se tivéssemos resistido eles teriam ido embora desapontados. Mas quem ia resistir? Mandaram, cavamos…”

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NOTAS 

[1] Nesse sentido, Veiga me lembra a obra de Manuel Scorza (1928-1983) como  Redoble por Rancas (no Brasil, Bom dia para os defuntos) no uso do “fantástico” e do “insólito” em estreita união com a notação realista. Embora, a meu ver, os recursos estilísticos do autor peruano  sejam mais apurados, ambos se beneficiam da oscilação ambígua, ou seja, os personagens às vezes tomam as coisas como elas são (a Cerca da  multinacional que corta o ir-e-vir dos habitantes de Rancas e arredores é um exemplo cabal) e às vezes confundem com fenômenos da natureza, como a chuva, ou com intempéries, como a seca (além de um forte componente “lendário”). Mas, por questão de brevidade, faço um paralelo “grosso modo”, bem esquemático.

No romance de José J. Veiga lemos:

: “O hábito de fumar charuto de folha de nanica foi herdado dos zuumbas, antigos habitantes do território, e esteve proibido durante muito tempo, por motivos nunca explicados. Alguém que não gostava do cheiro, ou da cor da fumaça, ou do tamanho dos charutos, e podia proibir, proibiu… Muitas vezes na história o pecado de hoje acaba sendo a virtude de amanhã. Ontem prendiam gente por beber água de chuva; hoje se compra água de chuva nos armazéns do Estado em bonitas botijinhas que são depois aproveitada para guardar mel.”

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[2] Vale ressaltar que a estrutura de Os pecados da tribo é basicamente episódica, uma característica da obra de Veiga, mais contista nesse sentido do que romancista propriamente dito.

[3] E há um “estilo de vida”, um sentimento de superioridade com relação a outras organizações sociais:

“Nós até estaríamos relativamente felizes se não fosse essa nuvem. Antes de sermos apanhados pelos últimos acontecimentos nossa vida era bem melhor, por exemplo, do que a dos Aruguas, povo tão perto de nós em distância e tão longe em civilização. Exteriormente eles têm quase tudo o que temos porque imitam o nosso estilo de vida; mas sendo tão atrasados, imitam mal”.

[4] “__ É melhor não dizer nada. Quanto mais falar, mais encalacrado fica—disse o turunxa.

__ Por que vou me encalacrar?

__ Tão inocente! O que foi que eu fiz para me encalacrar!

__ Pegar caira não é proibido.

    O turunxa titubeou, pensei que ia desistir. Eles não conhecem leis, e para se garantir inventam proibições. Geralmente acertam porque quase tudo é proibido hoje. Abaixei-me para apanhar o cesto e os embornais enquanto a vantagem estava do meu lado. O turunxa se refez da hesitação e me atalhou:

__ Peraí. Está resolvido não. Você sabe de cor tudo o que é proibido?

__ Isso não. Ninguém sabe…”

[5] Outro belo episódio do livro é o da promessa à mãe, que não quer ser “evaporada” (pois é o destino dos mortos, também, como se fosse necessário apagar-lhes a existência da lembrança dos vivos);  assim, o narrador e a irmã, Zulta (Rudêncio jamais poderia participar disso), a colocam num balão (uma ação totalmente ilegal):

“Ficamos olhando calados até que ela desapareceu na imensidão do céu e da noite. Calados apagamos a fogueira, eliminamos os sinais e fomos tomar uns goles de canilha para festejar o cumprimento da promessa e também para acalmar os nervos.

     Sabíamos que mamãe estava contente, e isso nos deixou eufóricos pelo resto da noite.”

[6] Por isso, considero o último capítulo, “O recado do lago”, um dos mais bonitos da nossa prosa (uma passagem: “…ninguém falava, só cantávamos, quem não sabia ou não queria cantar ficava olhando como encantado, numa alegria tão rara que me deu tristeza de pensar que quando os pavios se queimassem todos e as luminárias se apagassem, como já ia acontecendo com algumas, toda aquela beleza de acabaria, e dentro de mais algumas horas, com o nascer do sol, aquela noite seria apenas uma lembrança, e dias depois um sonho talvez até inacreditável”).

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