MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

26/01/2016

Destaque do Blog: OS PAPÉIS DE ASPERN, de Henry James

842540._SX540_SY540_papeis-de-aspern

«Essas coisas me atingiram então quase com a palpitação que haviam causado, os sucessivos estados afetando minha consciência de tal modo que, quando a porta do aposento se fechou atrás de mim, julguei estar realmente face a face com a Juliana de algumas das mais primorosas e célebres poesias de Aspern. Eu fiquei acostumado a ela posteriormente, embora nunca completamente; mas, enquanto ela se manteve lá diante de mim, meu coração bateu tão disparado como se o milagre da ressurreição houvesse acontecido em meu benefício. Sua presença parecia de algum modo conter e expressar a própria presença do poeta e, naquele primeiro momento em que a vi, eu me senti mais próximo a ele do que nunca sentira um dia nem sentiria futuramente».

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 26 de janeiro de 2016)

Este ano é marcado pelo centenário da morte de Henry James. De sua grandiosa obra, o mais recente lançamento (pela Penalux), em nosso país. é a versão de Chico Lopes para Os papéis de Aspern (“The Aspern Papers”, 1888)[1], no qual um editor que idolatra um grande poeta já falecido[2] consegue infiltrar-se — em Veneza — no desolado casarão onde vivem obscuramente a idosa Juliana Bordereau (amor da juventude de Jeffrey Aspern) e Miss Tina[3], uma sobrinha solteirona, com o objetivo de se apossar de supostos documentos (correspondência, manuscritos inéditos) que enriqueceriam a fortuna crítica e biográfica do cultuado autor.

   «Perdera, antes de ter saboreado, um afeto que prometia encher toda a sua vida». Esta frase, de O altar dos mortos (1895)[4], revela o cerne do universo jamesiano, povoado por relatos em que uma pessoa morta é que dá a palavra final sobre a vida das personagens principais: a vida que seria possível e não foi e, mais especificamente, a sombra “do que não foi” sobre o que “é”.

Nesse sentido, como romance curto, Os papéis de Aspern é exemplar como introdução, sintetizando vários desdobramentos obsessivos: para começar, todos são americanos — durante toda a sua longa produção, James explorou imbróglios envolvendo conterrâneos seus em terras europeias[5]; depois, o escrutínio ético e moral do ardor estético; não poderia, ainda, faltar uma atmosfera de intriga, tanto no sentido mundano, de boataria, quanto no conspiratório, com o narrador usando ardis (a certa altura, Miss Tina indaga:  «Então era uma trama premeditada, uma espécie de conspiração?»; «So it was a regular plot — a  kind of conspiracy?») e, sorrateiramente, sendo envolvido numa soturna teia: «Estaria eu ainda em tempo de salvar meus bens? Essa questão estava em meu coração, pois o que agora vinha a ocorrer era que, na inconsciente celebração do sono, eu havia retornado a uma passional apreciação do tesouro de Juliana. Os pedaços que o compunham eram agora mais preciosos do que nunca, e uma ferocidade positiva havia se introduzido em minha necessidade de adquiri-los. A condição que Miss Tina havia ajuntado a este ato não mais aparecia como um obstáculo digno de reflexão, e, por uma hora, nesta manhã, minha imaginação arrependida deixou-a de lado. Era absurdo que eu não fosse capaz de inventar nada; absurdo que renunciasse tão facilmente e me afastasse inapelavelmente da ideia de que o único modo de me tornar possuidor dos papéis era me unir a ela pelo resto da vida. Eu poderia não escapar do laço, porém ainda poderia ter o que ela tinha»[6].

Sobretudo, o que se destaca — afora a grandiosa, com toques sinistros (a viseira) e até sórdidos, figura de Juliana (que diálogos geniais os das transações financeiras com o seu inquilino) — é a cegueira do homem, o autoengano de um protagonista, e que talvez tenha chegado ao cume num texto bem mais tardio, A fera na selva (1903). Nesta novela notável, John Marcher arrasta uma mulher, May Bartram, para acompanhá-lo durante anos numa expectativa: a de que algo portentoso vai acontecer com ele, qual uma fera que, na selva, se preparasse para dar o bote. No final, quando Marcher descobre o que era esse “algo”, lemos afirmações que serviriam perfeitamente para o narrador de Os papéis de Aspern, com relação à pobre Miss Tina: «A fera estivera mesmo na emboscada, a fera havia atacado… havia atacado quando não descobrira… O horror de despertar — este era o conhecimento — conhecimento cujo sopro as lágrimas em seus olhos pareciam gelar. Através delas, entretanto, tentou prendê-lo, segurá-lo; manteve-o diante de si para que pudesse sentir a dor. Isto pelo menos, atrasado e amargo, tinha algum gosto de vida»[7].

A incapacidade de separar o vivido do ideal e do simbólico, separar a paixão e o amor do gosto estético, separar o egoísmo do homem absorvido por suas preocupações da compreensão real do mundo feminino[8], incapacidade dramatizada de maneiras diferentes em Os papéis de AspernA fera na selva pode causar uma ressaca de angústia no leitor, mas nos prova que Henry James foi um dos autores mais implacáveis que já existiram. Ter um gosto tão apurado quanto o dele, e ainda assim saber o quanto esse gosto pode ser mesquinho, estéril,  nada intemerato, é prova de uma lucidez intimorata.

5000670papeis_aspern_01

 

ORIGINAL DA EPÍGRAFE

«They come back to me now almost with the palpitation they caused, the successive feelings that accompanied my consciousness that as the door of the room closed behind me I was really face to face with the Juliana of some of Aspern’s most exquisite and most renowned lyrics. I grew used to her afterward, though never completely; but as she sat there before me my heart beat as fast as if the miracle of resurrection had taken place for my benefit. Her presence seemed somehow to contain his, and I felt nearer to him at that first moment of seeing her than I ever had been before or ever have been since».

james

TRECHO SELECIONADO

«Sei apenas que, pela tarde, quando o ar estava brilhando especialmente com o pôr do sol, encontrei-me diante da igreja dos Santos João e Paulo, erguendo os olhos para o pequeno rosto de queixo quadrado de Bartolommeo Colleoni, o terrível condottiere24 que monta firmemente seu enorme cavalo de bronze no alto pedestal no qual a gratidão veneziana o mantém. A estátua é incomparável, a mais bela de todas as figuras a cavalo, a menos que a de Marcus Aurelius, que cavalga benignamente diante do Capitólio Romano, a supere; mas eu não estava pensando nisso; apenas me descobri olhando fixamente para o capitão triunfante como se ele trouxesse um oráculo em seus lábios. A luz ocidental brilha em toda a sua intensidade feroz nessa hora e a torna maravilhosamente pessoal. Mas ele continuou a olhar para muito longe de minha cabeça, na imersão vermelha de outro dia, – ele vira tantos se acabarem na laguna ao longo dos séculos! – e, se estava pensando em batalhas e estratagemas, eram de uma qualidade diferente de qualquer uma que eu tivesse a lhe contar. Ele não podia me orientar quanto ao que fazer, tanto quanto eu poderia erguer meu olhar para ele […]Sem ruas e veículos, o rugido de rodas, a brutalidade dos cavalos, e com seus pequenos caminhos tortuosos onde as pessoas se aglomeram, onde as vozes soam pelos corredores de uma casa, onde o passo humano circula como se contornasse os ângulos da mobília, e os sapatos nunca se gastam, o lugar tem a característica de um imenso apartamento coletivo, no qual a Piazza San Marco, no seu ângulo mais ornamentado, e palácios e igrejas, de resto, fazem o papel de grandes divãs de repouso, mesas de entretenimento, extensões da decoração. E de algum modo, o esplêndido domicílio comum, familiar, doméstico e ressonante também evoca um teatro com seus atores batendo os calcanhares sobre pontes e, em procissões esparsas, tropeçando em fundações. Quando se está sentado numa gôndola, as calçadas que, em certos trechos, margeiam os canais, assumem ao olhar a importância de um palco, igualando-se a ele num ângulo semelhante, e as figuras venezianas, movendo-se de cá para lá contra o cenário desgastado de suas pequenas casas de comédia, nos parecem membros de uma companhia teatral sem fim».

«I only know that in the afternoon, when the air was aglow with the sunset, I was standing before the church of Saints John and Paul and looking up at the small square-jawed face of Bartolommeo Colleoni, the terrible condottiere who sits so sturdily astride of his huge bronze horse, on the high pedestal on which Venetian gratitude maintains him. The statue is incomparable, the finest of all mounted figures, unless that of Marcus Aurelius, who rides benignant before the Roman Capitol, be finer: but I was not thinking of that; I only found myself staring at the triumphant captain as if he had an oracle on his lips. The western light shines into all his grimness at that hour and makes it wonderfully personal. But he continued to look far over my head, at the red immersion of another day– he had seen so many go down into the lagoon through the centuries– and if he were thinking of battles and stratagems they were of a different quality from any I had to tell him of. He could not direct me what to do, gaze up at him as I might […] Without streets and vehicles, the uproar of wheels, the brutality of horses, and with its little winding ways where people crowd together, where voices sound as in the corridors of a house, where the human step circulates as if it skirted the angles of furniture and shoes never wear out, the place has the character of an immense collective apartment, in which Piazza San Marco is the most ornamented corner and palaces and churches, for the rest, play the part of great divans of repose, tables of entertainment, expanses of decoration. And somehow the splendid common domicile, familiar, domestic, and resonant, also resembles a theater, with actors clicking over bridges and, in straggling processions, tripping along fondamentas. As you sit in your gondola the footways that in certain parts edge the canals assume to the eye the importance of a stage, meeting it at the same angle, and the Venetian figures, moving to and fro against the battered scenery of their little houses of comedy, strike you as members of an endless dramatic troupe».

767076._SY540_

NOTAS

 [1] É a terceira, em 1984 foram publicadas as de Maria Luiza Penna (Global) e Álvaro A. Antunes (Interior edições); só li a primeira, desconhecendo a existência da segunda até há poucos dias.

[2] «Eu o havia invocado e ele viera; pairava diante de mim metade do tempo; era como se seu fantasma luminoso houvesse retornado à terra para me assegurar que considerava a questão como sua não menos que minha e que tínhamos que conduzi-la fraternal e afetuosamente até uma conclusão. Era como se ele houvesse dito: “Pobre querido, tenha calma com ela; ela tem alguns preconceitos naturais; é só uma questão de lhe dar tempo. Por mais estranho que lhe possa parecer, ela foi muito atraente em 1820. Enquanto isso, não estamos juntos em Veneza, e que melhor lugar existe para o encontro de amigos queridos? Veja como a cidade reluz com o verão avançado; como o céu e o mar e o ar róseo e o mármore dos palácios todos tremeluzem e se fundem”. Minha excêntrica missão particular tornava-se parte do romantismo e da glória geral – eu sentia até uma camaradagem mística, uma fraternidade moral com todos aqueles que, no passado, haviam estado no serviço à arte»; «I had invoked him and he had come; he hovered before me half the time; it was as if his bright ghost had returned to earth to tell me that he regarded the affair as his own no less than mine and that we should see it fraternally, cheerfully to a conclusion. It was as if he had said, “Poor dear, be easy with her; she has some natural prejudices; only give her time. Strange as it may appear to you she was very attractive in 1820. Meanwhile are we not in Venice together, and what better place is there for the meeting of dear friends? See how it glows with the advancing summer; how the sky and the sea and the rosy air and the marble of the palaces all shimmer and melt together.” My eccentric private errand became a part of the general romance and the general glory– I felt even a mystic companionship, a moral fraternity with all those who in the past had been in the service of art».

[3] No original. Miss Tira:

«…foi assim que a altamente trêmula solteirona provou chamar-se, de um modo um tanto incongruente»; «…(for such the name of this high tremulous spinster proved somewhat incongruously to be)».

[4] VER AQUI NO BLOG: https://armonte.wordpress.com/2012/04/21/the-heart-of-the-matter-jamesiano-a-sombra-do-que-nao-foi-sobre-o-que-e/

[5] «Seu país de origem abrigara a maior parte de sua vida, e sua musa, como se dizia na época, era essencialmente americana. Era por isso que eu o prezara a princípio; porque, numa época em que nossa terra natal era crua e provinciana, quando a sua famosa falta de “atmosfera” não era sequer lastimada, quando a literatura ali estava perdida, e a arte e a forma, quase impossíveis, ele havia encontrado meios para viver e escrever como um dos grandes; para ser livre e universal e totalmente destemido, para sentir, entender e expressar tudo»;  «His own country after all had had most of his life, and his muse, as they said at that time, was essentially American. That was originally what I had loved him for: that at a period when our native land was nude and crude and provincial, when the famous “atmosphere” it is supposed to lack was not even missed, when literature was lonely there and art and form almost impossible, he had found means to live and write like one of the first; to be free and general and not at all afraid; to feel, understand, and express everything».

[6] «Was I still in time to save my goods? That question was in my heart; for what had now come to pass was that in the unconscious cerebration of sleep I had swung back to a passionate appreciation of Miss Bordereau’s papers. They were now more precious than ever, and a kind of ferocity had come into my desire to possess them. The condition Miss Tita had attached to the possession of them no longer appeared an obstacle worth thinking of, and for an hour, that morning, my repentant imagination brushed it aside. It was absurd that I should be able to invent nothing; absurd to renounce so easily and turn away helpless from the idea that the only way to get hold of the papers was to unite myself to her for life. I would not unite myself and yet I would have them».

[7] VER AQUI NO BLOG: https://armonte.wordpress.com/2013/05/05/atrasado-e-amargo-algum-gosto-de-vida-a-madona-do-futuro-e-a-fera-na-selva/

[8] Curiosamente, como típico herói jamesiano, o narrador é acusado por Juliana de se interessar por atividades “pouco viris”, como se preocupar com as flores do jardim.

12625694_792748624162469_1083707490_n

capaloja-hjames

19/01/2016

“Rebentar”, de Rafael Gallo, e a fênix da narrativa em terceira pessoa

Rebentar249078_642011965813476_1281362071_n

«Ângela põe os joelhos ao chão e se inclina sobre o vaso, pronta a vomitar algo que a nauseia mas não existe. Não há nada para rebentar agora, a não ser a sombra de Felipe dentro de si».

«Testa as velhas chaves que tem nas mãos, em uma iniciativa inútil cujos resultados já poderia ter previsto. A maioria gira em falso dentro do buraco da fechadura. Ângela deixa a porta apenas encostada e assim ela permanecerá. Não há muito mais que possa fazer. Nunca teve a chave para fechar o quarto do filho».

«Refletindo sobre todos esses lados da história, Ângela vê o quanto a perda de seu filho não se tratara somente da perda de um filho, mas de tantas outras coisas».

«O envelhecimento digital servira, no caso, como o impulso definitivo que colocara em movimento o processo de sua renúncia. As luzes de suas esperanças já estavam bastante desbotadas, bem como as sombras de seu luto, mas o retrato de Felipe crescido e amargurado era o elemento que faltava para dar corpo aos sentimentos confusos que se erguiam dentro dela. Não precisava mais buscar por aquele cuja face era a de um homem alheio; seu filho estava perdido de qualquer maneira, ainda que pudesse ser encontrado».

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 19 de janeiro de 2016)

Rebentar é um romance de 370 páginas que flui e reflui sobre a decisão de uma mãe cujo filho fora raptado quando criança, trinta anos antes:  encerrar o assunto, isto é, desistir de quaisquer buscas e expectativas, dentro de si mesma e perante os outros[1]. No fim, diz ela, «fiquei apenas preservando a integridade da ausência dele».

Mas não é a própria Ângela quem conta a história. Na contracorrente da tendência cada vez mais predominante de vozes narrativas em primeira pessoa, e apesar da adesão solidária ao foco de sua protagonista, Rafael Gallo fez a arriscada, temerária, aposta na terceira pessoa, numa época em que ela sofre descrédito por parte dos jovens escritores (e não apenas eles).  Isso não representaria problema algum na ficção dos EUA, onde se mantém uma vigorosa tradição de realismo psicológico e mineração dos inesgotáveis veios de dramas familiares, onde se aventuram mesmo autores do nível de Anne Tyler, Russell Banks ou Joyce Carol Oates, mas a qual, sabe-se lá por que, praticamente inexiste na nossa, com raras exceções, como foi o caso de Estranhos no Aquário (2012), de Adriana Armony[2].

É mais fácil encontrar um romance brasileiro atual com escritores e seus dilemas como personagens do que a tragédia de uma mãe que perde o filho interminavelmente, sem se sentir no direito de prosseguir com a sua existência:

«É a mesma escuridão antiga, abatendo‑se sobre ela como uma noite que sempre volta a cair. O que a impediria de acabar com tudo nesse momento, sozinha em casa? Se antes o único motivo para que não se suicidasse era a possibilidade de o filho voltar? De ele contornar todas as improbabilidades e reaparecer, batendo suavemente à porta da casa como se intocado por todos os perigos do tempo? Felipe regressaria e a vida estaria resolvida por completo, a promessa de um mundo reordenado se cumpriria.

    Mas agora não havia mais essa esperança. Não mesmo? O que restara então, o que se desenhava exatamente nessa sombra cujos contornos se alteravam no coração de Ângela? Já não sabe mais de si, perdeu‑se no caminho»[3].

E é uma história que a minha geração, impactada com o caso Carlinhos (cujo sumiço, em 1973, em plena ditadura militar, causou comoção, entrou para o imaginário nacional — e pessoal —, nunca foi solucionado), esperava há muito: «Escolher um lugar onde procurá‑lo era sempre escolher que em todos os outros ele poderia estar se perdendo naquele mesmo instante, longe de seus olhos. De dentro da ferida aberta o tempo jorrava. Nada sanava a iminência da morte, nada estancava essa hemorragia das horas entornadas à ausência do filho. Três décadas da família seriam ceifadas em um único golpe, ainda incompreendido a tal altura. Ângela não sabia o que fazer naquele dia, não soube mais dali em diante, perdida em um labirinto sem direção. A vida passava rapidamente a ser essa constante vigília falida, essa crença no vazio, como uma entidade a abrigar o filho até que a mãe o reencontrasse»[4].

O perigo da opção do romancista estreante pela 3ª. pessoa (afora o sentimentalismo, o edificante ou o clichê da “superação”) era resvalar num tom explicativo, didatizando o processo de Ângela para o leitor: «Passara a postar‑se ali todos os dias, restabelecendo a vocação do porto, que já não guardava mais nenhuma embarcação; apenas a mulher ancorava‑se ali com sua solitude, tentando não ser levada pelas correntes do tempo». Trechos como este mostram quão perto ele esteve de afundar sua prosa em água rasa.

O que aconteceu foi uma experiência similar à que tive com a minha primeira leitura[5] de um romance de José Saramago (guardadas as imensas diferenças, para não dizer proporções, entre os dois): um longo e denso fluxo narrativo que espraia até o limite um núcleo básico, num  movimento concêntrico ou irradiante a agregar imagens e formulações, incessantemente retomadas e enriquecidas, de forma que até afirmações óbvias, banais, ou expressões do mero senso comum [6]ganham peso e lastro (há um excesso de “adentrares” e “perpassares”, mas são somente pequenas afetações—e estamos diante de um gênero literário no qual não existe a impecabilidade): «Tem vontade de escapar dali, sair rua afora, talvez em direção ao antigo cais. Não pode fazer isso. Precisa ser mais forte do que esse impulso e evitar recaídas em seus antigos hábitos. O rebentar das ondas que presenciava no cais abandonado sempre lhe servira como modelo de constância, mas agora ela teria de reverter as marés e mirar‑se nesse exemplo de força como se através de um espelho: a resistência mantida no sentido oposto, o de não mais voltar a abrigar‑se na sombra do mar ou de qualquer lugar abandonado»; ou, ainda: «Ela pensa em Felipe, fazendo dele uma bússola a indicar o caminho de seus sentimentos. A passagem do ano não faz com que a memória do filho seja mais triste ou mais alegre: ele não “deveria estar aqui”, tampouco poderia ser iluminada qualquer esperança de renovação em sua história somente por conta dessa virada de página no calendário. Felipe é apenas o que foi; nenhum réveillon, ano ou qualquer outra pontuação do tempo mudaria algo disso. O novo ciclo a se celebrar não pertencia a ele, mas apenas àqueles que ainda estavam ali para dar o nome de “novo tempo” aos dias que tinham diante de si. Sim, poderia ser uma alegria para Ângela ter essa perspectiva nas mãos, essa vontade de encontrar‑se de novo com um tempo em branco. Era isso o réveillon»[7].

Não sei se Gallo criará uma obra como a de Saramago. Todavia, alguém que realiza a façanha de concretizar um texto como Rebentar, nos mínimos detalhes e em grandes cenas inesquecíveis (como, por exemplo, a tremenda narração da destruição do quarto de Felipe, o filho, mantido intocado, o que é fulcral na relação de Ângela com o tempo[8]), é um talento considerável.

foto1_24788_500x500Carlinhos1

TRECHOS SELECIONADOS

Quatro passagens maravilhosas (creio não ser um exagero, dadas a extensão e a envergadura de REBENTAR):

1

«As luzes dos carros piscando: as luzes dos vagalumes piscando. Felipe corria atrás deles, as mãos no ar, tentando reter aqueles brilhos incapturáveis dentro da escuridão da noite. Ângela perde o fôlego por um segundo; até o instante imediatamente anterior, essa lembrança estava completamente perdida em sua memória. Conforme a cena é remontada em sua cabeça, a mulher chega a se perguntar se não perdeu a sanidade, se não está criando uma história apenas em sua imaginação e convencendo‑se de já tê‑la vivido. Porém fica cada vez mais claro: esse dia de fato existiu, ela havia tido aquela experiência com o filho e se esquecido completamente. Como pôde?

Aconteceu em um fim de semana no sítio de Sérgio, amigo de Otávio atualmente falecido. Felipe devia estar com uns quatro anos e, visitando o campo pela primeira vez, deslumbrava‑se a cada instante com as descobertas do lugar. Sérgio e sua esposa, vendo a alegria do garoto com aquelas maravilhas, levaram‑no de noite, junto com Ângela, a um recanto do sítio onde diziam ter algo especial para o menino ver. Ele ficou tomado de espanto ao ver os vagalumes, todas aquelas pequenas lamparinas aladas brilhando no ar do recanto de mato onde não havia nenhuma outra luz. Felipe nunca imaginara que poderia existir um bichinho que se acendesse; corria atrás deles, absolutamente encantado. O som de seu riso constante era o perfeito espelhamento daquelas pequenas cintilações riscando o ar. Na volta, durante o jantar, o menino não parava de falar naquilo, especialmente para o pai, que não fora ao passeio por ter preferido descansar na casa. “Os vagalumes furam o escuro com a luz deles”, dizia com sua voz graciosa.

Como você pôde se esquecer disso, Ângela? Ao invés da culpa ou da gravidade que poderiam — e costumavam — acometê‑la em tudo que se relacionava com Felipe, um sorriso brota em seu rosto, complacente e tocado pela alegria dessa recordação. Incrível uma lembrança reaparecer assim, intacta, depois de tantos anos apagada. A mulher chega a rir sozinha, pensando que agora os vagalumes haviam furado o escuro de seu esquecimento com as luzes deles. Tudo o que Ângela tem vontade nesse momento é de ser capaz de conseguir preservar o alumbramento dessa memória, a primeira surgida nova em meio a todas as outras, sempre tão impregnadas das sombras do pesar pela perda do filho que se sucederia. Incrível algo assim acontecer».

reb-blog

                                              2

«A movimentação no piso de cima chama a sua atenção, não consegue evitar. Ela tenta decifrar os gestos por trás dos sons abafados pela alvenaria, como se ouvisse as sombras dos movimentos. São passos que parecem se ajuntar no ponto acima de si. Um ou outro estalo indica o manuseio de alguma ferramenta, bem como a colocação de objetos sobre o piso, que ela não consegue discernir por exato. De repente, um golpe desferido com muita força irrompe um estrondo assustador contra sua vigília. Ela se curva e fecha os olhos em um reflexo. É brutal o choque contra a superfície que é ao mesmo tempo o teto que a protege e o chão a ser destruído do lado avesso. Ângela tem a sensação de que a cobertura vai se abrir em um rasgo e desmoronar inteira sobre sua cabeça. Perde o fôlego com o susto. Outra pancada e mais outra, e logo uma série de colisões contra o teto, feito uma chuva férrea. Ângela sente seu corpo ficar trêmulo, o formigamento vibrando sob a pele em um agito de temor. Ela ainda tenta manter‑se sob controle, tomando um copo nas mãos para lavá‑lo. Abre a torneira e, sob a água e o sabão que esguicha freneticamente, o copo lhe escapa e se parte em cacos no fundo da bacia. Ângela vê as espirais vermelhas que escapam fugazes adentro da água a descer pelo ralo e, só então, sente o corte arder em sua mão. Estanca‑o com um pano. As marretas e clavas continuam a arrancar o chão sobre sua cabeça. Ela não aguenta mais.

Depois de se apressar e pegar as chaves do carro na sala, Ângela sobe as escadas chamando por seu Antônio. Logo as ferramentas param de golpear, como em um cessar‑fogo. Ela consegue avisar ao homem que precisa sair para resolver umas pendências na rua. O mestre de obras assente. Ela deixa a casa depressa, pensando, somente quando já está em seu carro, que talvez não fosse recomendável abandoná‑la assim, sem nenhuma supervisão. Os sons das marretas a alcançam na garagem e a fazem sentir que deve mesmo partir, sem pudor de deixar para trás aquilo que agora parecia só ruína».

22386502689_6238eaf886_z

3

«Ela se detém um pouco antes de chegarem ao limiar de entrada, observando os cartazes feitos pelos alunos, que estavam fixados à parede do corredor. Nas cartolinas coloridas, fotos de revistas e jornais dividem espaço com lantejoulas e frases escritas com canetinhas. Todas trazem mensagens sobre cuidados com o meio ambiente e com o uso da água, em caligrafias e discursos carregados de inocência, como se salvar o mundo fosse algo muito simples.

— Esses trabalhos são da turma do ano passado. Preciso pedir pra tirarem daí depois.

— Eles ainda fazem trabalhos desse tipo, com cartolina, cola e tudo mais?

— Foi o que eu disse: algumas coisas nunca mudam.

Algumas coisas nunca mudam. A turma de Felipe havia feito cartazes iguais a esses, com a ajuda das outras professoras, para homenagear o coleguinha perdido e dar sua pequena contribuição às buscas. Ângela apreciou o gesto a princípio, já que era um chamado a mais por seu filho, outra forma de suas fotos e sua busca se espalharem. Porém depois se desgostou ao ver que os mesmos cartazes continuavam na escola, quando tentou voltar a dar aulas. Mais de seis meses depois, com o menino ainda desaparecido e sua turma já em outro ano, aquelas cartolinas fixadas à parede pareciam apenas um memorial precário, simbolizando a invalidez de uma procura que já deveria ter se resolvido, ou ao menos ainda estar ativa, urgente, não paralisada no mesmo ponto. Naqueles cartazes, esquecidos como esses de agora, Ângela vira a busca por seu filho se assemelhar a esses votos ingênuos para que o mundo parasse de desmatar ou que ninguém nunca mais jogasse lixo em nenhum rio. O fim do desaparecimento de seu filho era um sonho vão como esses? Os cartazes dos alunos daquela época já demarcavam que, infelizmente, algumas coisas nunca mudam».

27-08-rebentar-rafael-gallo-sp-sesc-bauru

4

«A aceitação da perda irreversível de Felipe e a esperança por revê‑lo eram incompatíveis, nunca poderiam existir juntas. Ou ele estava apto a ser reencontrado ou a sua recuperação era impossível, não caberia um meio‑termo para Ângela. Ela se preparara o quanto pudera, caminhara uma longa distância adentro de seu desapego e da reorganização de sua vida, sentia‑se uma nova pessoa agora e parecia pronta para levar sua renúncia adiante, baseada na ideia de que o menino estava perdido de forma irrevogável. Já desfizera grande parte dos traços de sua própria casa e de sua resistência ao tempo e à ausência; estava prestes a encontrar um novo endereço para si, aonde o filho não saberia chegar; pedira a remoção dele dos registros de busca e anunciara a todos os conhecidos que não mais esperaria pelo seu retorno. Mais do que isso, empenhara‑se por resolver no interior de suas emoções a ausência de Felipe. Não poderia ter feito a mínima parte dessas coisas, desatado qualquer um desses laços, se ainda estivesse sujeita a acreditar que o filho poderia ser recuperado, surgido de volta em uma terça‑feira comum feito essa […]O fato de aquele homem não ser Felipe já não significava que um outro poderia sê-lo, somente confirmava que nenhum homem podia receber o nome pertencente a seu filho. Incomodava-lhe demais essa constatação, sem perceber o quanto o aparente desperdício de algumas horas fora importante para levar embora de si muitas das últimas nódoas do tempo. A mulher lastimava‑se pelo fracasso em relação a seu próprio encerramento pessoal, mas não deixava de ser um avanço a constatação dessa mudança em seu olhar: ela já não media o acerto ou erro em sua vida pela volta do filho ou não. Sua perda parecia um fato consumado agora, e Ângela sentia ter se desviado dessa aceitação em nome de uma quimera fugaz. Ir até o abrigo atrás de um morador de rua fora como tentar recolher uma sombra com as mãos. De novo sua vida se encaminhara para uma espécie de naufrágio: o desapego não tinha se mantido de pé até o fim. E dessa vez tudo dependera de uma escolha que ela própria havia feito. Não podia mais se permitir ter uma recaída na esperança de regresso do filho impossível, como alguém que se entrega a um vício antigo, sem perspectiva. Precisava encontrar novas maneiras de seguir adiante com sua vida, em um mundo no qual, como ela agora percebe claramente, as coisas nunca poderiam ser tão remansadas quanto ela sonhara».

2015-823509358-2015060919435.jpg_20150609

NOTAS

[1] Por exemplo:

«Como fazer isso? Como ser a mãe que comunica ao pai da mesma criança perdida a decisão de deixar de tentar tê‑la de volta? […]Ele é a pessoa que será mais afetada por sua decisão; na verdade, é o único que compartilha o mesmo laço que ela intenta romper, por isso o único que participa dessa renúncia e poderia fazê-la voltar atrás, caso não aceitasse esse encerramento da história que também é dele. Ela vislumbra desmoronarem todas as frases e gestos planejados, todos os caminhos que teria construído ao redor do centro de sua conversa. Os ponteiros do relógio na parede talham o tempo opaco de silêncio ».

Ou então:

«Ângela protelou bastante a conversa com Isa sobre sua renúncia; qualquer pequeno contratempo ou ocupação servia como desculpa para adiar um pouco mais o convite a um encontro. A tamanha perplexidade de Suzana diante do anúncio de sua decisão, semanas antes, e sua recusa inicial em aceitar a ideia tiraram de Ângela o pouco de segurança que poderia ter em abrir‑se para outras pessoas a respeito desse assunto».

[2] VER AQUI NO BLOG: https://armonte.wordpress.com/2013/01/02/o-agora-e-muitas-vezes-estranhos-no-aquario-e-o-percurso-ficcional-de-adriana-armony/

[3] «No fim de tudo, o tempo passaria e se esgotaria para ele e o filho, ela e Otávio. Para todos. O dia em que a existência teria seu termo chegaria de um jeito ou de outro; agora restava a Ângela apenas escolher entre chegar ao término de sua própria vida ainda ancorada à sua tragédia, ou ao menos tendo rumado para outros caminhos. A morte é o espelho derradeiro, e Ângela queria que seu reflexo nele pudesse ser visto não com resignação, mas com algum sentimento de realização maior. Ainda havia tempo para si».

[4] «O desaparecimento na galeria era o centro vertiginoso da espiral que apenas se abriria mais e mais, infindável. Em que momento exato o menino se perdera? De que forma? Nunca saberia nem mesmo isso. É aterrador pensar que seu filho pode sumir sem você nunca descobrir sequer como aconteceu. Enquanto perpassava os corredores da galeria, Ângela pensava em sair à rua; quando saía, pensava em voltar aos corredores. Felipe teria que atravessar alguma daquelas portas. Ou já teria partido? Por qual das mil portas a bater em vão atrás de si ele saíra? O menino se fora e a sombra em seu rastro se estendera invisível, ao longo dos anos. O labirinto se erguia em torno de Ângela, impossível de ser trespassado por ser feito apenas de saídas. Como reencontrar o filho no avesso de um caminho? A ampulheta do tempo rebentara e os grãos passaram a vibrar sob sua pele, carregados nas correntes do sangue».

[5] E depois ratificada pelas leituras posteriores.

[6] Duas amostras:

«Iria ao centro de sua ferida e tentaria curá‑la de dentro para fora»;

«“Feliz Ano‑Novo!”: o mar de vozes rebenta em gritos sobre a praia. Ondas de aplausos e comemorações se erguem por todos os lados. É um novo ano, um calendário com todas as páginas a serem preenchidas».

[7] Mais um exemplo:

«Diante de seus olhos, o mar: a imensidão que parecia não ter fim, cuja margem oposta não se vê, bem como o fundo inalcançável e escuro. Mas o mar também era isso que chegava até ela e a cercava: essas águas cujo vapor ela podia respirar, nas quais poderia molhar suas mãos e adentrar com poucos passos. O mar também era o que estava a seu alcance».

[8] «Ela abriu a porta com urgência, não mais se importando com aquela proteção leviana dos panos sob o vão da entrada. O quarto continuava exatamente igual. Isso, de forma inesperada, fez daquele espaço um estranhamento. Em meio à reforma, o cômodo permitia a sensação de um recanto familiar para onde a mãe regressara, mas algo já não estava mais no mesmo lugar. Ângela ainda não conseguia perceber com exatidão, mas o fato de o mundo ter se transformado até o limiar daquela porta, de as renovações do tempo alcançarem uma proximidade tão grande, demarcava mais claramente o quão defasado estava aquele quarto infantil sem ninguém: o dormitório vazio, um sonho em si mesmo […]Tentara proteger o quarto do filho de todas as maneiras possíveis — apartara‑o da reforma, vedara‑o com panos, removera o pó a invadi‑lo — para quê? Tudo o que fora realizado ao redor, tudo o que as reformas e o tempo estavam ainda por fazer, acabara por quebrar algo dentro daquele abrigo, talvez um de seus alicerces invisíveis».

rebentar

13/01/2016

TRADUÇÕES INÉDITAS QUE SE DESTACARAM EM 2015

des2

(uma versão do texto abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 12 de janeiro de 2016)

Como sempre digo, não dá para ler tudo, nem gostar de tudo. Por isso, faço uma lista de destaques entre traduções de Iivros ainda inéditos (apesar das várias versões diretas de obras anteriormente traduzidas do francês ou do inglês, não as levei em conta) por aqui, dentro do meu recorte pessoal, limitado, de leituras:

Livro do Ano: submissão (Alfaguara- trad. Rosa Freire d’ Aguiar), de Michel Houellebecq: os impasses do Ocidente diante do islamismo assombram o romance moderno desde sua fundação, com Dom Quixote. Não é surpreendente, então, que embasem a mais perturbadora obra do gênero (inclusive devido aos acontecimentos na França) desta década.

Destacaram-se também (por ordem alfabética dos autores), e de antemão pedindo desculpas pelos comentários genéricos:

752229_Ampliada

O ROSTO DE UM OUTRO (CosacNaify- trad. Leiko Gotoda), de Kobo Abe – o rosto associado à noção de identidade dando ensejo a mais uma fábula-pesadelo do originalíssimo autor japonês (do clássico Mulher das Dunas) —indicado apenas para leitores fortes, rsrsrs;

des3

TRÊS VEZES AO AMANHECER (Alfaguara- trad. Joana Angélica d’Avila Melo), de Alessandro Baricco- desdobramento extraordinário do livro anterior (Mr.Gwyn) do grande escritor italiano, concretizando o conceito de “quadros escritos”;

mal-entendido-em-moscou1

MAL-ENTENDIDO EM MOSCOU (Record- trad. Stella Maria da Silva Bertaux), de Simone de Beauvoir- o furor reacionário desencadeado pela inclusão da pensadora francesa no ENEM aumentou o interesse por esse texto “deixado na gaveta” e no qual se imiscuem as tensões e dissensões com Jean-Paul Sartre, companheiro de toda a vida;

beckett_livro

TEXTOS PARA NADA (CosacNaify- trad. Eloisa Araújo Ribeiro), de Samuel Beckett- na 13º. e última dessas experiências de derrisão com a prosa narrativa, lemos: «Enfraquece ainda, a velha e fraca voz, que não soube me fazer, sumindo para dizer que vai embora… »;

des5

A DIFICULDADE DE SER (Autêntica- trad. Wellington Júnio Costa), de Jean Cocteau- textos de cunho biográfico de uma força descomunal, produzidos durante uma grave enfermidade, por um dos maiores personagens da cultura do século 20;

des1

O VÉU ERGUIDO (Grua- trad. Lilian Jenkino), de George Eliot – a autora genial de romances imensos (Middlemarch), exercitando-se, em 1859, na arte da novela, roçando o sobrenatural numa alegoria sobre o medo do futuro e o autoengano;

modiano 2modianomodiano 3

REMISSÃO DE PENA/ FLORES DA RUÍNA/PRIMAVERA DE CÃO (Record- trad. Maria de Fátima Oliva do Couto), de Patrick Modiano- a leitura conjunta desses romances do Nobel 2014 lança luz sobre o seu projeto obsessivo e reiterativo: narradores que tentam evocar algo de permanente, que remanesça (“flores da ruína”), em meio a uma memória fuliginosa e dissolvente;

des4

ROSA CANDIDA (Alfaguara- trad. André Telles), de Audur Ava Ólafsdóttir – romance sobre a imprevisibilidade que abre ao leitor brasileiro uma fresta para a ficção praticada na Islândia;

QUANDO O IMPERADOR ERA DIVINO site-240x360

QUANDO O IMPERADOR ERA DIVINO (Grua -trad. Lilian Jenkino), de Julie Otsuka-  já em seu primeiro romance, a autora de O Buda no sótão expunha cirurgicamente o apartheid vivido por famílias japonesas nos EUA;

lan_oslargados

OS LARGADOS (Alfaguara- trad. Joana Angélica d’Avila Melo), de Michele Serra- brilhante reflexão ficcional sobre a arte de ser pai na pós-modernidade, diante dos nossos adolescentes hiperconscientes de si mesmos e seus aplicativos;

medium_1289

SONHOS EM TEMPO DE GUERRA (Biblioteca Azul- trad. Fabio Bonillo), de Ngũgĩ Wa Thiong’o- belíssimo e ao mesmo tempo desolador volume de memórias do escritor queniano, sempre cotado como um dos favoritos para o Nobel, e cujo romance Um grão de trigo foi também traduzido este ano (pela Alfaguara, por Roberto Grey);

absolutamente-nada-e-outras-historias-robert-walser-8573265833_600x600-PU6eb48df7_1

ABSOLUTAMENTE NADA E OUTRAS HISTÓRIAS (34- trad. Sergio Tellaroli), de Robert Walser- excepcional seleção  (lançada no final de 2014)de inclassificáveis 41 textos curtos do admirável prosador suíço: «Ir à cidade, eu fui, e queria, sim, comprar algo de belo e de bom para mim e para você; boa vontade não me faltou, estudei, estudei, mas a escolha era difícil e a cabeça estava em outro lugar, por isso não consegui, por isso não comprei absolutamente nada.  Hoje, vamos ter de nos contentar com absolutamente nada, não é mesmo? Absolutamente nada é o que há de mais rápido para preparar e, de todo modo, não causa indigestão… »;

1168-20150109113834

O SOL E O PEIXE (Autêntica- trad. Tomaz Tadeu), de Virginia Woolf- a autora de algumas das maiores obras-primas da literatura, também era uma arguta ensaísta e cronista, como atestam as nove preciosas amostras aqui reunidas;

d28168e2-e037-4b08-9656-24a9114bf084

AS RÃS (Companhia das Letras- trad. Amilton Reis), de Mo Yan –um pouco prolixo, mas importante romance do Nobel 2012 sobre a interferência da esfera pública numa ilusória “vida pessoal” (no caso, a política governamental chinesa do f ilho único).

Capa_Um grao de trigo.indd

TRECHO DE UM GRÃO DE TRIGO

«Quanto mais fraca ficava, mais ela o detestava. Fosse o que fosse que ele fizesse ou arranjasse, lá vinha ela diminuir o seu esforço. Assim, Mugo vivia assombrado pela imagem da própria inadequação. Ela possuía um modo de acabar com ele, numa pergunta, talvez, sobre suas roupas, sua cara ou suas mãos, que fazia todo seu orgulho despencar. Ele fingia ignorar as opiniões dela, mas como podia fechar os olhos a suas expressões e sorrisos enviesados?

Seu único desejo era matar a tia.

Uma noite esse pensamento demente o possuiu. Ele fervia por dentro. Naquela noite Waitherero estava sóbria. Ele não usaria um machado ou panga. Iria pegá-la pelo pescoço e estrangulá-la com as próprias mãos. Dê-me forças; dê-me forças, meu Deus. Olhava-a se debater, como uma mosca entre as patas de uma aranha; seus gemidos e gritos abafados pedindo piedade chegavam a seus ouvidos. Ele apertava com mais força, obrigava-a a sentir a força de suas mãos de homem. O sangue acorria para a ponta de seus dedos. Ofegante, estava profundamente fascinado pela audácia e a coragem do próprio gesto.

“Por que você está me olhando assim?”, Waitherero perguntou, rindo guturalmente. “Eu sempre disse que você era esquisito, do tipo capaz de matar a própria mãe, hein?”

Ele se encolheu. A forma como ela o via por dentro era dolorosa.

 Waitherero morreu de repente de velhice e de tanto beber. Pela primeira vez desde o casamento, suas filhas vieram até a cabana, fingiram não ver Mugo, e a enterraram sem fazer perguntas nem derramar lágrimas. Voltaram para casa. E então, estranhamente, Mugo sentiu falta da tia. Quem mais poderia agora chamar de parente? Queria alguém, qualquer um, que representasse uma família para ele, não importava se fosse bom ou mau. Tanto fazia, desde que ele não ficasse abandonado, excluído».

traduçoes

 

 

05/01/2016

DESTAQUES NACIONAIS – LISTA DE 2015

15302197

(uma versão do texto abaixo foi publicada originalmente em A TRUBUNA de Santos, em 05 de janeiro de 2016)

Como sempre digo, não dá para ler tudo, nem gostar de tudo. Por isso, faço uma lista de destaques dentro do meu recorte pessoal, limitado, de leituras, ressaltando apenas que editoras ‘pequenas’ como a Patuá, a Reformatório ou a Confraria do Vento, por exemplo, obtiveram larga vantagem, em quantidade e qualidade, em lançamentos de autores nacionais de valor. Incluí alguns (seis entre dezenove) títulos lançados em 2014 também orientado por essa conclusão; afinal, muitas vezes é lentamente um livro vai abrindo seu caminho, demorando para cair em nossas mãos, e isso deveria ser levado mais em conta. Felizmente, Homero que o diga, não há prazo de validade para textos

Livro do Ano: Como conversar com um fascista (Record), de Marcia Tiburi. Além da precisa reflexão sobre a intolerância política, esses ensaios representam um verdadeiro manual de sobrevivência para a selva de ranços ideológicos destes dias que correm:

«Fechado em si mesmo, o fascista não pode perceber o ‘comum’ que há entre ele e o outro, entre ‘eu e tu’. Ele não forma mental e emocionalmente a noção do comum, por que, para que esta noção se estabeleça, dependemos de algo que se estabelece com uma abertura ao outro. Fascista é aquela pessoa que luta contra laços sociais reais enquanto sustenta relações autoritárias, relações de dominação. Às vezes por trás de uma aparência esteticamente correta de justiça e bondade. Mesmo em circunstâncias esteticamente as mais corretas, e politicamente as mais decentes, o ódio é uma força que tende a falar bem alto. O fascista usa o afeto destrutivo do ódio para cortar laços potenciais, ao mesmo tempo que sustenta, pelo ódio, a submissão do outro. Como personalidade autoritária, ele luta contra o amor e as formas de prazer em geral. Um fascista não abraça. Ele não recebe. É um sacerdote que pratica o autoritarismo como religião e usa falas prontas e apressadas que sempre convergem para o extermínio do outro, seja o outro quem for».

Destacaram-se também (por ordem alfabética dos autores), e de antemão pedindo desculpas pelos comentários genéricos:

liv10liv6Retornaremos das cinzas para sonhar com o silêncio

O livro dos cachorros (Patuá), de Luís Roberto Amabile- São poucos os cachorros, porém muitas as surpresas e perplexidades para o leitor dessa brilhante coletânea de contos , ao mesmo tempo divertida e inquietante;

Amores, truques e outras versões (Confraria do Vento), de Alex Andrade- a imersão da eterna insatisfação de Don Juan (num contexto homoerótico) na modernidade líquida de redes sociais e aplicativos;

Retornaremos das cinzas para sonhar com o silêncio (Patuá), de Marcelo Ariel- Um atordoante repertório de referências como invólucro para um lirismo incomum: «Nesse fogo/Que queima somente/aqueles que/com a intensidade/ do mundo formam/uma só tessitura»;

liv11

Esse tal de amor e outros sentimentos cruéis (Reformatório), de Mário Bortolotto- Textos confessionais e crônicas sobre a condição de outsider de uma personalidade marcante da cena cultural e boêmia de São Paulo;

UM_DIA_TOPAREI_COMIGO_1447280183534633SK1447280183B

Um dia toparei comigo (Foz), de Paula Fábrio- Uma narradora autocentrada torna-se o símbolo literário mais representativo de uma geração «que aprendeu tudo na sessão da tarde», num dos melhores romances dos últimos anos;

Rebentarliv2

Rebentar (Record), de Rafael Gallo- Para quem já não acreditava mais na possibilidade de se explorar a densidade psicológica de personagens em 3ª. pessoa, o impacto que o jovem e fantástico romancista imprime à história da mãe que “desiste do filho”, há 30 anos desaparecido, é imenso;

Ofícios do Tempo (Positivo), de Donizete Galvão- Antologia que permite a introdução ao universo de um grande poeta falecido repentinamente: «No curral da insônia, /rumino palavras pastadas/na ribanceira dos dias»;

46040979

O contrário de B. (Confraria do Vento), de Bruno Liberal- Multifacetada reunião de 13 relatos, explorando relações atávicas e opressivas, a manter um edifício social patriarcal, patrimonialista e preconceituoso;

liv5

Concentração e Outros contos (Alfaguara), de Ricardo Lísias – mosaico excepcional da produção de um autor que, aos 40 anos, já é uma referência fundamental da ficção, desde textos iniciais até suas recentes e geniais ‘Fisiologias’;

A_IMENSIDAO_NTIMA_DOS_CARNEIR_1442151960526640SK1442151960B

A imensidão íntima dos carneiros (Reformatório), de Marcelo Maluf- O medo inoculado através do destino familiar, dando azo a uma notável fabulação, sem contar a qualidade da prosa, em torno da imigração libanesa e da ressonância da mansidão bíblica;

42962803liv3

A bela Helena (7Letras), de Miriam Mambrini- Através da criação de um alter ego, a protagonista delineia uma faixa social de um lugar e época (o Rio, anos dourados) muito mitificados, e mostra a tarefa árdua que é dar forma à experiência realmente vivida;

Fôlego (Confraria do Vento), de Rafael Mendes -o universo familiar nos oprime e, mesmo assim, nunca é uma história unívoca; o que é deixado à sombra é o eixo  dessa bela novela de estreia;

liv9liv1

Julho é um bom mês para morrer (Patuá), de Roberto Menezes- uma legítima obra-prima do romance, na qual o relato feminino e o destino das mulheres de uma família compõem uma poderosa alegoria do país;

29 (Modelo de Nuvem), de Marcos Messerschmidt- O haicai contemplativo da tradição modula-se a uma dicção moderna e urbana: «a flor ensaia o absurdo/ descola do galho /espalhando multidões»;

esculturas_fluidasliv7

Esculturas fluidas (CEPE), de João Paulo Parisio-  travessia solerte e apaixonante pela corda bamba entre o banal e um moto contínuo de lirismos lapidares («Nunca concluí um pensamento/Minha contribuição definitiva/serão meus pressentimentos»);

Arranhando paredes (Bartlebee), de Bruno Ribeiro- textos cujo exuberante hiper-realismo parece até documentário perante a ressurreição de ameaças de golpe, da onda reacionária e do sensacionalismo autoritário de certos programas jornalísticos;

15071586

A casa das marionetes (Reformatório), de José Santana Filho- uma revisitação do passado familiar em tom operístico e prosa de alto refinamento, captando tanto a «uniformidade do sangue» coletivo quanto o sopro forte dos «ventos internos» individuais;

O-prinicipio-300x450

O princípio de ver histórias em todo lugar (Oito e Meio), de Leonardo Villa-Forte- Excelente romance de estreia, equacionando a incapacidade de recomeçar a vida com a dificuldade de não dá para aprender com manuais e oficinas, e nem sob o domínio da incerteza e da suspeita.

editoras

TRECHO SELECIONADO ( de REBENTAR)

«No fundo, entendia como algo terrível a possibilidade de que lhe entregassem um homem qualquer e dissessem: “este é o seu filho”. Todos esperariam, então, que ela levasse o estranho para dentro de sua casa, compartilhasse das horas e do alimento com ele e, finalmente, o colocasse para dormir naquele quarto que reservara para Felipe, em cuja cama o homem jamais caberia. Ainda mais perturbador do que essas pequenas questões práticas seria conviver com esse indivíduo sob a obrigação de tecer nele, ponto a ponto, o amor maternal que o abrigaria. Ângela percebia que nunca seria capaz disso, não poderia ser essa mãe. Essa forma de amor estava por demais ligada a Felipe, pertencia completa e unicamente ao menino que criara junto a si por cinco anos, quase seis. Ainda que impressões digitais, testes sanguíneos e outros recursos atestassem a identidade daquele homem, a formação íntima que faria dele seu filho de verdade não podia ser recuperada. Era esse contato, essa longa fiação do amor, que poderia realmente fazer de um homem alguém digno de receber o nome de Felipe.

A única alternativa ao vazio da ausência de Felipe, então, passara a ser o vazio da estranheza de um adulto desvinculado dela. Ângela finalmente soube e sentiu que não podia mais possuir o que tanto sonhara para si. Restava, na prática, pouco mais do que aceitar que sua história como mãe daquele menino buscado estava terminada. O envelhecimento digital servira, no caso, como o impulso definitivo que colocara em movimento o processo de sua renúncia. As luzes de suas esperanças já estavam bastante desbotadas, bem como as sombras de seu luto, mas o retrato de Felipe crescido e amargurado era o elemento que faltava para dar corpo aos sentimentos confusos que se erguiam dentro dela. Não precisava mais buscar por aquele cuja face era a de um homem alheio; seu filho estava perdido de qualquer maneira, ainda que pudesse ser encontrado».

marciatiburi21

 

 

29/12/2015

UM MUNDO QUE DIZ NÃO: “O Contrário de B.”, de Bruno Liberal

Foto-446040979

«O garoto está no quarto ouvindo os risos da mãe. Deita na cama e tapa os dois ouvidos com as mãos que ardem. Sente vergonha de tudo. Ainda não sabe qual foi seu erro. Não sabia que não podia desenhar na mão, não sabia que não podia desenhar caveira, não sabia que não podia desenhar pintos. Fica com raiva de todo mundo. Observa os brinquedos na estante branca. Todos estão virados para sua vergonha. Sorriem com suas caras escrotas de brinquedos».

«As crianças brincam na prainha da ilha e apontam para mim. Dão com a mão dizendo tchau. Fazem uma algazarra danada jogando água para cima. Também quero dizer tchau e sorrir como elas e ver que sorrindo eu posso desfazer esse sentimento ruim. Todos eles. Muitos».

«Ele guarda as fotografias dos mortos na sua imensa parede do quarto, bem em frente a sua cama. Gosta de dormir assim. Chama de “meus mortos”. Olhar suas caras azuladas, seus últimos registros. Eram tantas fotos coladas na parede que nem sabia mais quem eram seus pais, que foram os primeiros no painel e agora eram apenas a mesma massa de perdição».

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 29 de dezembro de  2015)

Numa canção que marcou época (Brincar de Viver), Maria Bethânia nos fala da «arte de sorrir/cada vez que o mundo diz não». Um “não” contínuo e acachapante se infiltra, ao longo dos treze contos de O Contrário de B., nos interstícios de todas as relações humanas, corroendo casamentos, vínculos geracionais, laços com bichos de estimação[1], a ligação com a natureza («Procura um abraço na escuridão, uma segurança, um último refúgio. O vento cria um sussurro alongado na fração de tempo de uma respiração profunda. Ela treme acocorada, sentindo no chão as pedras machucarem os pés descalços. O que encontra é a feiura de tudo no mundo», lemos no aflitivo Dente de Cachorro); até mesmo nas noções de caráter e personalidade.[2]

São situações de abuso, opressão, miséria, violência, estupro, culpa, doença, indiferença, e mesmo o que nos é mais íntimo se reveste de repugnante e aversiva estranheza: «O velho lembra de ver a mulher deitada na cama, dormindo com a boca aberta. Não é uma imagem bonita. Lembra de ter achado ela velha. Lembra que foi o último dia que viu sua esposa dormindo. Depois disso a largou e foi aquela confusão toda» (Pater Familias[3]); ou então: «Ela me beija como se beijasse a testa de uma velha e desce do carro animada. Vê-se que muda instantaneamente o semblante: está sorrindo. No carro franzia a testa e olhava pela janela distante, evitando olhar para mim. Eu via apenas seu reflexo na janela de vidro. Era um fantasma ali presente. Parece que minha ausência faz sentido e esse distanciamento toda noite é importante para ela. Sinto isso, que ela gosta cada vez mais de ficar longe de mim» (Nós contra Eles).

E a arte de sorrir? Nesses inóspitos coágulos ficcionais, seja de momentos efêmeros, seja de longas convivências, explorados por Bruno Liberal, ela é exercitada na desfaçatez, no delírio ou no cinismo cafajeste. Como o dos pais sorridentes e odiosos, sob a ótica ressentida dos protagonistas, de dois pontos altos do livro, Reza de Gato Morto (que faz um arco entre o célebre gato preto obsedante de Poe com a obra radical de uma Hilda Hilst — por exemplo, A Obscena Senhora D: «Os vizinhos a chamam de velha dos gatos. Velha doida. Velha do amarelo. Velha da morte[…] exala um cheiro de excremento. As crianças mijam no seu muro por conta disso. Dizem que a velha é porca») e Esse Último Sorriso: «Eu lembro da cara de papai sorrindo no caixão. Com aquele bigodinho safado dele. Aquela cara de eterno piadista»[4].

Outro momento muito forte é Distante, com o quadro da mulher devastada pelo câncer e levando uma surra do marido truculento, entrevisto por mais um filho dilacerado entre o atavismo, a perplexidade e a revolta, «…sofrendo, sorrindo, sangrando, agarrada nele e fazendo carinho no cabelo do pai»[5].

O jovem contista (nasceu em 1981) consegue fazer uso tanto de uma prosa crua quanto de imagens e formulações de uma exatidão atordoante (quando B., adolescente sem-teto e faminto, surta, comete um crime, quase é linchado: «Gritavam várias coisas. Tudo que já ouviu. Tudo que eles queriam que B. fosse»[6]).

Essa fusão oferece grande dinamismo, mas também o virtuosismo pode trazer desequilíbrios, como no conto-título, onde a tessitura visceral do conjunto é prejudicada por frases excessivamente retóricas («Um redemoinho de esperanças. Anéis superficiais que se esvaem na incerteza das horas»); isso acontece inclusive num texto curto e cortante como Dente de Cachorro («E sente que os espinhos também choram. E que seus olhos são cristais em queda livre»); por vezes, a estrutura de um conto é que soa artificiosa demais, como em Não precisa gritar (o qual me parece mais a justaposição de dois textos, com nítida desvantagem do segundo, uma alternância de vozes de pais e mães, com relação ao acabamento do primeiro[7]).

Uma coisa é certa, porém: mesmo com alguns acordes estridentes, desafinados mesmos, não há tempos fracos ou desinteressantes, entre os parênteses obsessivos e focos ziguezagueantes, na música verbal de O Contrário de B.: a arte de narrar, cada vez que este mundo renitentemente patrimonialista, patriarcal e preconceituoso diz não: «No fundo do rio, com todo esse silêncio desesperado, a mãe pensa que fez tudo certo na vida, que ama demais o marido, a família, a farra, as brincadeiras dele. Eles dançavam juntos, bebiam juntos, se amavam o tempo todo. Olhando os vultos dos mortos sendo arrastados por essa correnteza espinhosa, lembrou que foi feliz. E caída no rio era um pontinho escuro vazio. Ela pensou também: “me solta, filho da puta!”».

LARA-ZANKOUL-the-zoo

TRECHO SELECIONADO

«Mãe tá doente.

Fala assim com um desprezo palpável. A menina nem levanta a cabeça. Continua criando seus buracos, seus abismos. Depois ela pega um punhado de farinha na cozinha e vai tapando. São agora manchinhas brancas no chão.

Ela sorri um pouco e olha nos olhos de Ícaro.

Tá vendo? Tá vendo? É a cara de mainha…

Na verdade a doença da mãe é um câncer. Foi diagnosticado por uma médica em Juazeiro. A médica estava falando ao celular com o filho, fez assim com a mão para dizer aguarde um pouquinho.

Que legal filhão, olha, mamãe tem que ir trabalhar. Beijão. Pede para Francisca fazer a carne que tirei do congelador tá bom? Beijão.

 Desliga o telefone. O pai e a mãe esperando sentados na cadeira o atendimento que haviam marcado há quatro meses.

Dona Mariana, as notícias não são boas. A senhora está com câncer.

Oxe, quié isso?

 E a doutora explicou de uma forma que dona Mariana entendesse apenas o principal: seu estado era terminal. Não havia tratamento. Despachou-a e chamou o próximo paciente pensando que Francisca nunca faz o almoço direito, sempre coloca óleo demais na carne».

12459952_1946552348903158_629299333_n

 NOTAS

[1] Como constatamos no cruel Hoje Não:

«Imagine se levo o dourado e chego para ele no meio do shopping, na frente de todo mundo e estendo um filhote tão lindo.

Ele ficaria maluco!

Imagine todo mundo me olhando e dizendo que puta pai que eu sou. E as crianças todas dizendo que também querem um daquele e os outros pais todos putos comigo. Rá. Eles iam ficar putos com o melhor pai do mundo».

[2] Há um conto chamado Possibilidade de Estar Incompleto.

[3] Os dois primeiros contos têm esse título, ambos muito bons (embora eu tenha ficado confuso com o uso dos nomes dos personagens no segundo deles, do qual retirei a citação acima). Segundo o próprio autor, respondendo-me gentilmente, “os dois contos são como um universo paralelo, algo que poderia ter acontecido se alguma variável fosse alterada…”.

[4] Nesse conto, o meu predileto, há um diálogo explícito com a obra de Raduan Nassar.

Em Reza de Gato Morto, lemos:

«Achei a senhora feia no enterro, até comentei com sua irmã. Disse que a maquiagem estava horrível. Papai escolheu o caixão mais barato, o serviço mais porco. Sempre foi assim conosco, tudo do mais barato. Senti pena da senhora. Ave Maria, me perdoe. Não sei rezar. Fico com esses lamentos o tempo todo. Lembro do papai rindo com os amigos no enterro» .

[5] Outra visão dos pais juntos é uma das passagens mais intensas do lado “cru” de Liberal, no ótimo Obedeça Seu Pai (cujo início é justamente a repreensão e punição a um menino que desenhou um pênis):

«Está em cima da esposa agora, os dois nus, suados. Seu filho ouve um barulho estranho e abre a porta. Vê os dois se mexendo com um ritmo muito específico. Não entende aquilo, acha que você está matando sua mãe.

Papai?

 Você dá um salto de cima da mulher com um reflexo fantástico. Grita: sai daqui desgraça!

Sua esposa ainda está com as pernas abertas. Apenas estica o pescoço para ver a cena. Você vai em direção à porta com o pênis ainda duro balançando e batendo nos lados das pernas. Seu filho fica estático. É uma escultura de concreto. Você o empurra e fecha a porta com chave. Ele fica caído no corredor sem entender. Chora. Você retorna e sua esposa está de quatro, esperando continuar aquilo…».

[6] Outro exemplo: «Não dá para ser algo que não existe dentro».

[7]  Onde encontramos algumas das melhores páginas da coletânea:

«Nas redes sociais isso é tão lindo que você parece a mãe mais cuidadosa do mundo, mais atenciosa, mais carinhosa. Mas você nem o escuta. Fica assim no celular o tempo todo rindo e mexendo os dedos nessa tela de vidro e rindo e mandando mensagens e tirando foto o tempo todo.

(Você nem vê que ele está com 39 graus de febre)

 E no aniversário dele você parecia uma mãezona. Gritava o tempo todo “filhinho, filhinho”. E na hora dos parabéns você foi abraçá-lo e ele se esquivou. Correu para a avó.

(Não adianta chorar agora)

 Ele correu para outra pessoa.

Isso abre uma ferida imensa. Um abismo entre seu filho e você. Cada um de um lado, se olhando mutuamente, tecendo suas armas um contra o outro. Ambos se protegendo. E essa dança nunca acabará, pode ter certeza».

Bruno-Liberal.-Divulgação-11

22/12/2015

Destaque do Blog: O PRINCÍPIO DE VER HISTÓRIAS EM TODO LUGAR, de Leonardo Villa-Forte

IMG_8872 (1)

O-prinicipio-300x450

«Como ignorar as pistas? Um sinal destrói tudo. Basta que se esbarre numa faceta suspeita da pessoa, que se leia seu caderno, que se ouçam seus assobios, e tudo se corrói. Resta esperar o abalo final, o sopro que leva ao desabamento»

«– Não, não – ele disse espantado, antes de levantar a franja da testa e segurá-la por sobre a cabeça –, você entendeu errado, não sou eu quem pula da janela. Nunca quis pular de uma janela. Você acha que tudo que escrevo tem a ver comigo e com a minha realidade?»

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 22 de dezembro de 2015)

De Dom Casmurro, passando por São Bernardo, para citar pontos altos, há toda uma linhagem de narradores abraçados ao seu rancor, em razão de  terem sido hipoteticamente traídos, investigando de forma obsessiva os indícios  deixados pela amada, e que se solidarizariam com o protagonista de O princípio de ver histórias em todo lugar, quando afirma: «Se Cecília iria ou não me trair, bom, isso estava fora do meu alcance. O que havia de perverso era a sua capacidade de deixar pistas. E, no entanto, o que eu podia fazer? As pistas já existiam, não havia retorno».

Essa suspeita (Cecília está viajando a trabalho por alguns meses[1]) se une a uma vocação literária interrompida ou frustrada, tanto faz, e também a uma neurótica inquietude diante da fachada das coisas e dos seres, como o nome de uma lanchonete, Copa 74: «Lembrei que a seleção brasileira não havia ganho a Copa do Mundo de 1974, fato que torna o nome do Copa 74 um mistério. O destaque daquele ano foi a Holanda, com seu esquema tático no qual os jogadores variavam o posicionamento confundindo os adversários. Mesmo assim, a campeã foi a Alemanha Ocidental. Talvez o nome da lanchonete tivesse sua origem numa admiração do dono pelo futebol alemão ou holandês, mas nesse caso seria mais coerente que o letreiro do local não fosse colorido de verde e amarelo. Um dia eu desvendaria esse mistério»[2].

Quando visita a casa de Luiz Cláudio, um dos cinco alunos da oficina literária que resolve ministrar para enfrentar a ausência de Cecília e provável rompimento: «Havia algo realmente esquisito naquela família. O que Luiz escondia? Era preocupante a maneira como tratavam Rebeca, exibindo-a aos seus convidados. Além disso, a garota era nova demais para um casal da idade deles. Cogitei ser adotada. Que destino teria aquela criança trancada no quarto? Quantas perguntas».

O romance mescla o envolvimento do improvisado professor com seus alunos a oito (há também um e-mail atribuído a Cecília) dos textos supostamente escritos por eles (não custa lembrar que Leonardo Villa-Forte já se revelou um contista peculiaríssimo com seu livro anterior, O explicador, presente na lista de destaques de 2014 desta coluna[3]) e os quais exploram (sempre com certo clima de violência física, iminente ou praticada) o território do abandono, da mutilação, da falta de comunicação, do comportamento obsessivo, com laivos sedutores de novos começos e de escapadas inesperadas, tabulas rasas. Todos são bons; um deles em especial: Desonra contagiosa, onde há um desafio perverso entre avô e neta, é uma das leituras que mais me impressionaram em tempos recentes.

Sem perder sua já inequívoca personalidade como autor (não fosse a boa safra de 2015[4]O Princípio de ver  histórias em todo lugar bem podia ser o romance do ano), é curioso verificar como essa ficção de (auto)enganos consegue associar elementos de dois dos universos literários mais relevantes da atualidade: o descontrole emocional que afeta percepção do mundo e linguagem dos personagens de Ricardo Lísias[5]; e a exploração lúdica da circularidade irracional dos métodos lógicos aplicados ao cotidiano, tão presente na obra de Gonçalo M. Tavares[6].

Assim, cuidem-se. Tudo aqui é movediço e instável. E o leitor desse carioca de trinta anos, portador de pacatos olhos azuis (estava na hora de Chico Buarque passar essa tocha)[7], tem de ser, antes de tudo, um forte:

«–Tem certeza? – ela perguntou com um ar grave e desconfiado –.

_Como assim tem certeza? Certeza do quê exatamente? ».

1512406_10204629450591359_1297590881604573088_n

 

TRECHO SELECIONADO

«A garota encostou o banquinho na cama e o escalou. Rapidamente passou para o meu colchão. A cama era alta e eu tive que me conter para não impedir a pirralha e acabar fazendo com que ela caísse dali. Falei para descer, mas a máscara do nebulizador dificultava ainda mais a audição da minha voz frágil. Ela passou a me tocar, testando a espessura da minha pele, apertando alguns pontos e me olhando para ver a reação. Virei cobaia, pensei furioso. Mas não a interrompi. Meu coração batia mais rápido. Será que a danada tinha preparado errado a minha nebulização? Os toques da garota não eram de todo desagradáveis. Há tempos não sentia uma pele tão lisa e fresca. Ela tocava meus pés, minhas mãos, a barriga, o corpo todo. Checava minha reação em cada ponto e, se minha expressão fosse de prazer, repetia o toque no local, rindo por ter descoberto um botão certo. Deixei que me explorasse até o momento em que quis tocá-la também. Minha mão escorreu fácil pelo seu rosto suave. Ela me olhou com carinho. Brinquei com seus cabelos, tão livres, espalhando-os para um lado e para o outro como se fosse o vento. Desci para a cintura, bem fina, e apertei seus ossos fortes. Com os olhos fechados, senti a maciez delicada de sua pele ao passar minha mão por debaixo de sua saia. Afastei a calcinha com o dedo e lembrei como era me sentir um homem potente.

Tive a sensação de que a garota parou de me tocar, mas mesmo assim continuei por algum tempo.

Quando abri os olhos, a garota sustentava uma expressão congelada, sem emoção alguma. Peguei na sua mão, querendo que ela falasse, mas tudo que fez foi abaixar a cabeça[…]

Ronei disse andando em direção ao corredor, carregando sua filha nos braços. Quando ele ficou de costas para mim, pude ver de novo a expressão distante da garota, o olhar inerte no rosto mais sem vida que já vi».

10487320_594577390665538_8184016767511085972_nleonardo villa-forte

 NOTAS

[1] «Nesses três meses, além do sexo, eu sentiria falta do seu ouvido. Ele não estaria lá para receber minhas ligações quando regularmente ao meio-dia eu era tomado pela frustração e pelo desânimo na agência. Seu ouvido não estaria lá quando eu precisasse de alguém para fingir interesse nas ideias estapafúrdias que tenho em noites de insônia. Quem mais escutaria com paciência minhas soluções para problemas que não existem? A quem eu contaria os detalhes dos projetos que quero realizar? Durante um trimestre viveríamos em contraste: ela cercada de pessoas e novidades; eu sozinho, na mesma. Imersa em trabalho, encontros, reuniões, passeios, Cecília sentiria a vertigem dos que são apresentados a uma quantidade alta de estímulos num período curto de tempo. Já a mim faltariam assuntos, acontecimentos, pessoas, novidades. Restariam, sempre comigo, as minhas suspeitas» .

[2] Sem que possamos deixar de lado a sua notável capacidade de fantasiar:

«Peguei uma latinha de água tônica na geladeira e fui até a janela. Abri a latinha e, ao ouvir o estampido do alumínio, pude me ver vestindo um robe lilás, acendendo um charuto cubano e ostentando, na mão cheia de anéis, uma dose de uísque trinta anos. Meus cabelos estavam molhados, brilhosos, penteados simetricamente para trás. Mulheres em trajes de verão circulavam pela minha casa, que se tratava de um imóvel suspenso no meio do mato, de frente para a praia, quase todo feito em madeira, com a assinatura de um arquiteto de grife. O que não era madeira era pintado da cor madeira. Eu me referia a esse elegante, rústico e caríssimo conjunto arquitetônico como “bangalô”. A ducha ficava na varanda, do lado de fora, num box natural feito com bambus. Tomava-se banho observando o mar e a chuva. Eu oferecia bebidas, reunia pessoas, contava piadas…Poucas tinham graça, mas algumas moças riam delas mesmo assim. Depois eu pedia licença e ia chorar no banheiro.

Longe dessa história da qual despertei, e cujo final me parecia uma traição a mim mesmo, eu olhava a rua e a chuva que começara a cair forte».

[3] Apesar de uma certa falta de polimento na prosa, em vários momentos. Tais descuidos já não estão presentes no romance, mas o aprimoramento da linguagem por vezes resvala para trechos gratuitos, os quais, se não chegam a comprometer o conjunto, pouco acrescentam, por exemplo:

« Talvez ela fosse bipolar – disse Carina.

– Bipolar – repeti, e levei um pé frente ao outro. – Bi. Polar – fui em frente, coçando o queixo e olhando pro chão. – Bipolaridade. Dois polos. – Sim – Carina me alcançou – dois extremos. Humores extremos. A pessoa vai do entusiasmo ao abatimento, da expansão ao recolhimento. Fala, fala, fala, e depois cai num mutismo miserável. Tudo num intervalo bem curto de tempo. Já estudei isso para uma matéria. Dizem que fica difícil reconhecer qual das partes é o próprio eu. Isso se você acredita que há um eu unificado, sabe, uma identidade estável. – Entendi. Bipolar. Bipolaridade – repeti comigo, seguindo adiante. – Bipolo. Aqui e ali. Em um e no outro. Bi. Dois. Bipersonalidade. Biamor. Bigamia. Multi. Sim, multi. Multiamor. Multipolar. Multi… ».

[4] Lembro aqui, por exemplo, títulos como Julho é um bom mês para morrer, de Roberto Menezes; A imensidão íntima dos carneiros, de Marcelo Maluf; Um dia toparei comigo, de Paula Fábrio.

12399092_1942536335971426_2072034260_n

[5] Uma amostra:

«Desenvolvi estratégias de fuga e obtenção de alívio. Uma delas se tratava de telefonar para alguém assim que pusesse os pés em casa no final do dia. Fiz isso na própria quarta-feira, no dia seguinte à partida de Cecília. Era preciso telefonar preparado para alongar a conversa o máximo que pudesse. Um dos meus primeiros alvos foi o restaurante árabe.

– Alô, Denílson – falei ao reconhecer a voz do garçom do outro lado.

– Opa, boa noite, patrão. O que vai ser hoje?

Fiz um pedido. Mudei de ideia. Fiz um novo pedido. Mudei de ideia. Fiz um terceiro pedido. Perguntei como estava o movimento. Sugeri que abrissem aos domingos. Perguntei por que ainda não haviam montado filiais em outros bairros. Daí fiquei sem assunto e quis mudar o pedido outra vez. Infelizmente o cardápio do árabe é escasso.

Falar com um estabelecimento comercial é um caso raro de interação onde se pode ter a certeza do que se pede, do que será oferecido e do preço a ser pago. Não se encontra isso em toda relação.

– E pra beber? – perguntou Denílson.

– Vou beber água, mas tenho água em casa. Obrigado, Denílson, estou esperando – respondi e desliguei satisfeito, sentindo a glória da objetividade.

Cecília era fã do árabe. Foi estranho fazer o pedido só para um. Era a primeira vez que isso acontecia. Cecília me apresentou o restaurante anos atrás. Rapidamente sua comida se tornou a minha preferida. Além de pedir só para um, notei outro elemento esquisito na minha fala: “Tenho água em casa”, repeti para mim mesmo, “Tenho água em casa”, buscando a maneira conforme a pronunciei da primeira vez: “Tenho água em casa”. A entonação havia subido em “tenho” e em “água”, à maneira de um destaque, um sublinhado. Tenho: eu queria ter algo, e se não tinha mais uma mulher pelo menos eu tinha água. Não é uma substituição equilibrada.».

  O restante do episódio, que deixo em aberto, para a descoberta de outros leitores, aprofunda esse desassossego maníaco.

[6] Não resisto, para exemplificar, a citar um dos contos, O e :

«O – Não sou pacato, só não vejo problema onde não há.

 – E onde não há problema? No mundo de hoje, onde é que não se pode mexer?

O – Mexer? Mas quem aqui está querendo mexer?

 – Não sei, por um momento me passou pela cabeça essa ideia de mexer em algo. Mas talvez você não entenda isso. Você é muito pacato.

O – Não sou pacato!

 – Sim, você já disse, mas talvez tenha que dizer três vezes até eu acreditar. Para que mexa em alguma coisa. E, mesmo assim, eu nunca acreditaria tão bem quanto como se você me demonstrasse isso com uma ação.

(O dá um soco em  )

 – É, acho que agora você demonstrou com uma ação.

O– Sim, mas…

  – Dar um soco. Essa deve ser realmente uma maneira inédita de expressar a necessidade de se expressar.

O – Desculpe, .

 – Talvez vivêssemos num mundo melhor se todo mundo que precisasse demonstrar algo fosse lá e desse um soco em alguém, não acha?

O – Já pedi desculpas. Não sei o que passou pela minha cabeça.

  – Eu sei. Você sentiu que a ideia de ser “pacato” poderia ser uma ideia que se vinculasse à sua pessoa. Você sentiu essa pressão. A distância entre a ideia de quem é “O” e a ideia do que é ser “pacato” estava perigosamente diminuindo. Ameaçadoramente diminuindo, eu diria. Então você me bateu.

O – Pare com isso, vamos.

 – Mas agora você aproximou mais ainda as duas ideias, porque percebi: quem dá soco é gente pacata.

O–  , foi só um soquinho.

 –O soco é dado desde o nascimento da humanidade. Se você ainda dá socos, é porque foi tão pacato que não teve a audácia de ousar novos modos de expressão. Você, O, é tão rígido e engessado quanto um guarda-chuva. Ou melhor, muito mais! Fico surpreso por habitarmos o mesmo século».

[7] Aproveitando a alusão  aos olhos do autor para citar uma passagem reveladora (e há muitas focadas na questão dos olhares e nas qualificações a eles associadas):

« De frente para o espelho do elevador, lembrei de uma frase de um livro. O narrador dizia que certo personagem estava com os olhos duros. Sim, olhos duros. Era interessante a imagem, mas seria aplicável à realidade? Como avaliar os olhos e detectar que estão duros? Meus olhos podem estar atentos, concentrados, talvez até secos, mas duros? Não seria um exagero da ficção? Ou talvez o personagem tivesse olhos tão geneticamente diferentes dos meus que os dele pudessem ficar duros, enquanto os meus só ficam atentos».

PRINCIPIO-DE-VER-HISTORIAS_CAPA_FINAL_1000

15/12/2015

O QUE O ESQUECIMENTO AINDA NÃO CONDENSOU: “Um Dia Toparei Comigo”, o livro do desassossego de Paula Fábrio

9816225d27b19146d2d600a3084e9535PAULALANC

«Só o esquecimento é que condensa…»

(Mário de Andrade)

«Meu pensamento fixo, inventando cenas, passeios prosaicos pelas ruas, de mãos dadas com Luis. Criava diálogos de mim para mim, como se eu namorasse a mim mesma. Imperdoável esse outro inventado e suspirado, que por acaso tem corpo e, com certeza, a alma diversa da sonhada. A despeito de todas defesas que a razão erigia, soberba, a fim de desfazer atalhos, enganos e futuros martírios, havia momentos breves, muito breves, em que a alma sonhada colava perfeita sobre a alma real, e a isso podemos chamar felicidade».

«Tudo tende a ficar nebuloso, incerto e verdadeiro. Há pouco eu disse que as lembranças se transformam, com o passar do tempo, em suposições e mentiras. Pensando bem, enganei-me. Com o correr dos anos, as histórias tornam-se cada vez mais fiéis aos sentimentos»

(Paula Fábrio)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 15 de dezembro de 2015)

A certa altura de Um Dia Toparei Comigo, Isabel, a narradora, evoca um personagem do escritor italiano Elio Vittorini, mesclando-o ao avô: «Embarcou para fugir. Fugir dele próprio. E sobretudo da pobreza, mas já não podia ser outro. A ruína de buscar um ponto de fuga dentro de si […] Furores que acompanharam meu avô, que pôde ser ele próprio. Embora tivesse um baralho no bolso. Na verdade, mais parecia um baralho quando disposto em forma de leque sobre a cama. Identidades falsas, com nomes que não se repetiam, mas se multiplicavam em cadência quase lírica, todos italianos ou aparentados do grego. Sentia-se livre, assim, para viajar o mundo».

Uma imagem muito pertinente ao modo-de-ser do romance de Paula Fábrio: a do baralho único (opressivamente único), em desdobramento múltiplo (o leque). Isabel parte em viagem para a Espanha com a companheira, Virginia (ambas se desforrando de passados economicamente penosos—seja pela extrema pobreza, seja pela decadência), que a sustenta, e acaba apaixonada por um emigrante brasileiro, Luís.

Cada ponto do itinerário é detalhado, porém como a excursão é também incursão, as sobreposições de topografias, eventos e seres são incessantes, além das leituras —  até uma lista de títulos ao final (se bem que esse seja um ponto vulnerável de um livro memorável, o que menos me convenceu); por exemplo, nos Pireneus encaixa-se a Serra dos Órgãos, como antes, em Sevilha, a Natal nordestina;  Ramires, o tio de Luís tomado por tumores e cuja piora dita o das viajantes, entremeia-se à culpa com as disposições tomadas antigamente com relação a um  pai arruinado e devorado pelo câncer, quase uma estratégia de fuga para iniciar, enfim, a própria vida (aliás, a morte de um velhinho no edifício onde ela mora propicia os motes embaralhados de evasão e culpa-frustração: «Hoje o primeiro velhinho morreu. E eu começo a envelhecer. Não eram coisas boas para se pensar. Mas não havia escape. Seu Odair morrera. Uma pneumonia sem cura, sem velório. Meu voo para Madri e o enterro do lado de cá do Atlântico. Ninguém sai ileso. Malas arrastadas no corredor, um cartão de pêsames escrito às pressas e, depois, depois a fuga»).

Mas a vida se inicia realmente? O que transborda nesse atordoante narrar-se (e aos outros[1]) é a ausência, um desencontro consigo mesma, cuja filiação (malgrado seu título aluda explicitamente ao poema de Mário de Andrade ao qual pertencem os versos seguintes: «Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta/Mas um dia afinal eu toparei comigo»[2] ) mais pertinente talvez seja com a prosa desenvolvida por Fernando Pessoa no Livro do Desassossego, com esse «eu, pessoa desinteressante, menina parva, tolinha» que revela, de repente: «Enquanto sou minha melhor máscara»[3], lembrando também o “eu” que é um “ela” em tantos relatos de Marguerite Duras. Um debruçar-se egocentrado a um ponto incômodo; no entanto pelas contraditórias vias do talento, desvelando o mundo à sua volta e delineando, inclusive, os contornos de uma geração que viu tudo na sessão da tarde:  «… convidei Virginia para provar o pão catalão e a água vichy catalã. Nosso primeiro restaurante estrelado e a tal toalha de linho, e o tal tiramisú, o confit de pato. Começava a me apaixonar pela Espanha. Alguns diriam, mas você não está mais na Espanha. E eu não saberia dizer o que sinto numa ocasião dessas. Eu vi tudo na sessão da tarde, o toureiro, a castanhola, o flamenco, não eram todos espanhóis? Mas antes de enveredar por esse nó na cabeça, melhor assentar as malas no hotel aveludado».

modernismo-brasil-1-fase-13-7289789896711801

TRECHO SELECIONADO

«Naquela idade a gente se misturava. Uma mistura do tipo eu faço o favor de ter gente como você aqui dentro de casa. Uma mistura óleo e água que não resistiu à adolescência. Mistura repulsiva agora. Hoje madames se encontram no café, os olhos correm a desviar para o lado, para baixo, amedrontados, quase gritam, como se as sujeiras debaixo do tapete ficassem disponíveis à sociedade com o mero contato dos olhos.

 De uma hora para outra, deixaram de atender ao telefone. Com o tempo, nem o cumprimento na mercearia onde todos do quarteirão compravam do mesmo cesto de pães. Meus pés passavam pela calçada, e rápido alguém puxava a cortina para esconder o interior, os segredos da sala de estar, os móveis refinados; seu sucesso constituía obstruir minha curiosidade.

Naqueles tempos, em casa, havia apenas moléstia. E minha mãe dizia, eles têm medo de pegar minha doença. Não sei se era realmente a enfermidade dela, mas algo em mim parecia fantasmagórico para aquelas pessoas, algo contagioso, capaz de sujar suas mãos, comer seus ventres.

Deveria ter superado, caso contrário não estaria aqui a mastigar a cortina da sala fechada. Não há ninguém em casa. Paloma está estudando para o vestibular. Pois sim, desde já, desde os quatorze anos. Paloma não pode dar uma volta até a esquina. Paloma não está. Para você. Fique bem claro. Para você não há o doce mais caro, nem o passeio no veleiro. Para você não há, não há, não há. Eu olhava para mim com tamanha curiosidade, checava as axilas, não, não estavam fedidas. Seria meu cabelo? Será que na última visita comi um pedaço a mais de bolo? Minha irmã já havia me repreendido, não, não faça cocô na casa dos outros, não coma todo o lanche que servem à mesa, não coma, caso contrário vão pensar que não temos comida em casa. Os outros. Eles não podem pensar que a gente é pobre. Podemos dizer a todos que temos um apartamento no Guarujá, nosso pai ainda é diretor da empresa aérea e aquela mulher que varre a porta de casa não é nossa mãe, é a empregada. Claro, tudo isso minha irmã disse antes da doença e do desemprego. Depois, a vergonha foi bem maior. Como se a mãe houvesse morrido. Teria sido melhor se estivesse morta, ela dizia. Nesses tempos de moléstia, quando as vizinhas, as moças de boa família estudavam desde os quatorze anos para o vestibular, quando eu já não fazia cocô na casa dos outros, nesse tempo, os vizinhos sabiam algo sobre mim. Algo que eu pretendo descobrir. Algo podre. Invisivelmente podre».

12369835_776305362473462_1237119688_o

NOTAS 

[1]« No Caminito, no bairro de La Boca, seu Ramires e a esposa esboçaram os passos do tango – voltei por um instante a Luis, que vibrava com aquela espécie de diário de viagem saída de seus lábios, vibrava como se somente o tio e a tia houvessem conhecido a cidade e fossem os únicos a dançar a convite dos bailarinos. Em pensamento, eu criticava sua narrativa mediana, ao mesmo tempo me via de pé na rua-museu, contemplando as paredes das casas de zinco e madeira com suas cores berrantes e diversas. Questionava se seu Ramires notara a tentativa de reconstrução do passado. O passado fabricado, quase igualzinho. Vermelhos, azuis e amarelos novos em folha nas paredes das casas que antes recebiam restos de tinta do porto e pigmentos de esperança dos estivadores genoveses. Mas não importam as conclusões de seu Ramires, tampouco meu ar sabe-tudo, a realidade é indelével. Basta olhar ao redor».

[2] A esse poema de 1929 (publicado em Remate der Males) pertence também o belíssimo verso que usei como epígrafe e que me diz muito sobre o romance.

[3] «Sete anos antes, eu e Virginia descobrimos Natal e redescobrimos o verão. Vinte e oito graus nos acompanhavam das dunas até o Morro do Careca, na Ponta Negra. À noitinha, no restaurante vazio, em formato de arquibancada, nossos encontros clandestinos com os gatos. Ali, realizávamos a filosofia boba dos desocupados. Interessava-me o verão, o sotaque nordestino, o ventilador que nunca desliga entre as aroeiras. Contava para Virginia: o realejo noticiou, você ganhará a rifa. Como tenho sorte! Ganhei uma caixa de bonecos no primeiro ano na escola. Mal formulo cenas agradáveis e ouço meu pai, menina ingenuazinha. Os professores arranjaram para você ganhar. Refuto sua voz. Insisto no verão. Insisto em escutar uma canção que fale do mar. Insisto, insisto, insisto. No bumerangue riscando o céu no descampado; a cabeça cheia de planos e o tempo em aberto para ser escrito desde a primeira letra. Era o que eu buscava em Natal, a vida no seu início. A garantia solar de que ainda havia estrada pela frente, para os planos dourados, pelo menos parte deles. Não seria assim que nascem as excursões, e se transformam em incursões? ».

paula_fabrio

12/12/2015

“A vida que às vezes nem parece ter sido a sua”: os rumos da ficção de Michel Laub

hqdefault42135374

[uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 08 de dezembro de 2015]

A Maçã Envenenada é a segunda parte de uma trilogia (iniciada com o excelente Diário da Queda, 2011[1]) sobre “os efeitos individuais de catástrofes históricas”, nas palavras do próprio Michel Laub, um autor fiel aos seus temas: no novo romance, assim como no anterior, ou em Longe da Água (2004), a narração evolui em volutas retomando  um ponto fortuito da juventude, que se revestiu, na dinâmica da trajetória de vida, como signo de desvio, de “queda”, cristalizando a irrevogabilidade do acaso e prefigurando um destino: são as passagens que «em quarenta anos de vida analisada» permanecem numa zona de sombras. Agregam-se a esse instante inflexivo as amizades e lealdades escorregadias e a reflexão geracional.

A Maçã Envenenada evoca, já pelo título (refere-se a um verso da canção Drain You), o lendário Nirvana, e aquela concepção romântica que a morte precoce de um artista carrega, de não conseguir lidar com a realidade corrompida[2]. Ao rememorar o suicídio de Kurt Cobain, revive também o namoro tumultuado com a intensa e destrutiva Valéria, à época do show do cantor e sua banda aqui no Brasil (a ida ao show é um elemento narrativo da maior importância, muito bem trabalhado). O gancho para esse recuo aos anos 1990 é a entrevista com uma sobrevivente daquele memorável genocídio em Ruanda, cuja vontade de viver mesmo tendo passado por horrores funciona como a sombra desse drama afinal tão burguês.

Equacionando Cobain, o primeiro amor, a sobrevivência, o talentoso autor gaúcho nos oferece suas “canções de inocência e experiência” contra um pano de fundo basicamente irônico, quando não cínico como foi o da geração sobre a qual se debruça. Quando canta a inocência, ou algo muito parecido com ela, apesar da contenção e parcimônia do narrador, o relato é incisivo. Faz falta um aprofundamento da “experiência” e a questão no seu bojo: «Uma pergunta que também era: por que eu não consigo agir de outro modo? ».

De fato, sempre elogiada por inserir na narrativa um veio ensaístico, esse é o ponto onde, conforme amadurece e requinta sua fabulação, a prosa laubiana se mostra mais frágil. Raramente sai da zona de conforto, da moldura que adotou como base, eximindo-se de aprofundar os temas perturbadores e dramáticos que suas histórias nos oferecem, contentando-se com afirmações genéricas e alusivas, o que me parece estranho numa obra onde as questões morais são importantes. Por exemplo, ao falar da sobrevivente de Ruanda: «Adianta esta mulher ter passado por uma experiência tão radical, Valéria, se ao término tudo o que ela faz é dar uma lição aguada de breguice…»[3]. Como ele não vai muito adiante na reflexão, fica parecendo a opinião fútil de alguém comodamente refestelado na sua melancolia pós-moderna. O que é injusto, claro, pois duvido que Laub seja tão superficial. O que ele, como autor, não pode, ou não deveria, é continuar mantendo a mesma parcimônia de seus personagens e suas meias-vidas («essa sensação quase absoluta, que às vezes me assustava porque é só estender a liberdade e de um instante para outro você não tem mais passado, nem sente falta de nada porque é como se nada tivesse acontecido, ou só as coisas que você escolheu, as lembranças boas e inofensivas, e nada do que você disse ou fez a uma pessoa tem consequências porque nunca mais precisará encontrá-la, nem pensar nela, nem imaginar e confrontar o que foi feito dela em outro tempo e outro continente numa vida que às vezes nem parece ter sido a sua»).

Quarenta anos de vida analisada já dão matéria para cantar também a pós-inocência. Tomara que a sua ficção se arroje nessa direção.

VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/08/24/as-cancoes-da-inocencia-e-da-experiencia-de-michel-laub-a-maca-envenenada/

laub

NOTAS

[1] VER: https://armonte.wordpress.com/2012/11/08/auschwitz-alzheimer-alcoolismo-amizade-e-quebrando-o-circulo-natalidade-diario-da-queda-de-michel-laub/

[2] «como ele incorporou o espírito de uma época esmagada pelo fim das utopias».

[3] Por exemplo, parar para pensar que, depois de uma experiência tão radical, talvez não tenha muita importância para Immaculée Ilibagiza expressar-se através de um discurso mais “refinado” e afinado com padrões estéticos “exigentes”. Talvez esses padrões sejam muito pequenos, acanhados, para ela, e tanto faz que os cultuadores dos padrões não bregas, a ouçam e lidem com ela com um respeito condescendente e envergonhado.

421623_340392766003497_339235612785879_946366_764582296_nimg-1021465-kurt-cobain

01/12/2015

O MÁGICO E O UMBRAL: AS BIOGRAFIAS CONJETURAIS DE HERMANN HESSE

SWITZERLAND-LITERATURE-HERMANN-HESSECapa Demian V3 MF

[uma versão do texto abaixo foi publicada no LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO em 18 de novembro de 2015, ver: http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2015/11/o-magico-e-umbral-as-biografias.html]

1

Não deixa de ser um fato inusitado, apesar de auspicioso, a Record publicar uma edição comemorativa dos cinquenta anos da tradução de Ivo Barroso para Demian História da juventude de Emil Sinclair[1].  Texto-ícone do século vinte, fez a cabeça de muitos. Nele encontramos a famosa e nietzschiana frase: «Quem quiser nascer tem que destruir um mundo».

Hermann Hesse (1877-1962) publicou-o em 1919 sob pseudônimo e houve muita especulação na época sobre a verdadeira identidade do autor. Quando foi descoberta, o livro passou a ser considerado uma espécie de divisor de águas na sua trajetória artística. E um grande salto, constata-se hoje, embora na memória de quem aqui escreve e tenham permanecido, durante anos, após a primeira leitura, muitos aspectos irritantes e literariamente derrisórios, a saber:

1) essas pessoas (guias, como são denominadas) que aparecem do nada e que dão ao leitor a ideia de que o universo inteiro está voltado para o destino do protagonista, Emil Sinclair;

2) os símbolos (o pássaro heráldico meio gavião meio fênix, o sinal de Caim, a mãe que se chama Eva), que são exaustivamente explicados para o leitor, como se este fosse retardado;

3) a ausência absoluta de um pano de fundo mínimo para as reviravoltas íntimas do personagem, já que todos à sua volta parecem fantasmas;

4) os diálogos irreais e inverossímeis, e, se pensarmos na faixa etária dos personagens (se é que se pode chamar de personagens seres tão esquemáticos, pedantes e pomposos).

Recapitulemos o fio de enredo: Emil Sinclair, aos 10 anos, oriundo de uma família extremamente religiosa, fica à mercê de outro menino, Kromer, que faz chantagem com ele. Um terceiro garoto, Max Demian, forasteiro que começou a estudar no mesmo colégio de Sinclair, aproxima-se dele e consegue afastar Kromer.

A experiência com Kromer faz Sinclair entrar em contato com o que ele chama de mundo sombrio, subjacente ao mundo luminoso representado pela família. Demian revela, através de uma reinterpretação da história de Caim, que não existe tal dicotomia: o mundo é ao mesmo tempo luminoso e sombrio. Mas Sinclair ainda não está preparado para aceitar tal verdade (e «the readness is all», como diria Hamlet), e através de suas experiências como adolescente mantém uma visão dualista: ora cai na esbórnia, na dissipação, ora cultua a pureza e a santidade[2].

Durante essa trajetória, Demian manteve-se afastado da vida de Sinclair e este teve como único amigo o organista (e sacerdote frustrado) Pistórius, que lhe ensina tudo sobre Abraxas, divindade da Antiguidade a um só tempo Deus e Demônio, congregando em si o luminoso e o sombrio.

A aproximação da guerra é o paralelo coletivo da busca de Sinclair: ele tem de sair da casca, isto é, destruir um mundo, para nascer um novo homem; e o mundo carcomido da Europa talvez tenha de passar pela destruição para renascer como a ave fênix: «A ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer tem que destruir o mundo».

As quatro objeções mencionadas só funcionam se forçarmos a barra para enquadrar convencionalmente Demian como romance ou novela. Sem essa muleta classificatória, o texto revela suas qualidades e o seu alcance. E nos damos conta de que foi escrito por um poeta que se exprime num relato lírico, projeção poética de experiências pessoais, que não demanda qualquer verossimilhança, pois se fundamenta numa simbologia particular. Que se aceita ou não.

Só mais tarde é que Hesse conseguiu se reequilibrar como narrador, conservando as conquistas de Demian. Surgiram, assim, seus autênticos romances: O lobo da estepe, Narciso e Goldmund e O jogo das contas de vidro.

Vencidos (parcialmente, é preciso confessar) certos preconceitos literários, é fascinante observar, numa releitura, como Hesse trabalha com vários elementos do imaginário cristão (a história de Caim, a figura de Eva, os dois ladrões crucificados com Jesus, a luta de Jacó com o anjo) para lançá-los de encontro a conceitos do pensamento religioso oriental, principalmente aqueles que são o que talvez de mais coerente e pertinente se tenha pensado sobre o mundo e a existência, isto é, aqueles que se baseiam na impermanência de todas as coisas, mesmo as que amamos; e, além do orientalismo (que daria origem ao seu belíssimo livro seguinte, Sidarta, de 1922[3]), a presença da psicanálise de feição junguiana, com o uso insistente dos sonhos e do inconsciente coletivo, sem contar uma inequívoca tendência edipiana.

Aliás, tudo isso está representado no texto pela mudança de significado de outro símbolo importante: o umbral (ou soleira) que a princípio servia para delimitar o mundo luminoso e o mundo sombrio, e depois é retomado como símbolo de passagem, mas uma passagem que faz tudo convergir e que congrega tudo, inclusive as contradições.

E se o livro parecia antes egocentrado em demasia, agora parece simplesmente individualista[4]. No melhor sentido da palavra. Num mundo uniformizado, onde todos querem se nivelar pelo denominador comum do consumo e da facilidade, ler o processo de constituição de uma individualidade verdadeira e poderosa é algo eletrizante. O próprio texto encarrega-se, por sua vez, de investir contra o rebanho, a submissão à massa:

«Os filhos de Caim, marcados com o “sinal”, atemorizavam os demais, e aquele sinal passou a ser explicado não como a distinção que realmente era, mas exatamente como o contrário. Passaram a dizer que os homens assim marcados eram pessoas suspeitas e ímpias, o que, na verdade, ocorria. Pois os homens corajosos, as pessoas de caráter, sempre inquietaram os demais. Tornava-se, portanto, francamente incômoda a existência de uma raça especial de homens sem medo e capazes de infundir medo aos demais, e então lhes atribuíram um apodo e uma lenda amarga para se vingarem daquela raça e justificarem de certo modo os temores sofridos…. Entendes?

 — Acho que sim… Mas… nesse caso, Caim não era mau e toda a narração da Bíblia está errada.

 — Está e não está…. Essas histórias da remota antiguidade são sempre em essência verdadeiras, mas nem sempre foram recolhidas e explicadas com toda a garantia de exatidão. Para resumir, minha opinião é que Caim era um verdadeiro homem, e lhe arranjaram essa história porque o temiam. A origem do assunto não passou de um murmúrio, como tantas dessas coisas que se contam por aí; mas a fábula tinha cunho de verdade no que diz respeito a Caim e seus filhos trazerem um sinal e se diferençarem dos demais homens… ».

 

 2174837

                                                   2

Em Autobiographical writings, traduzido no Brasil como Minha vida, Theodore Ziolkowski reuniu doze textos autobiográficos de diversas épocas, feições e níveis de qualidade. Nenhum deles é desperdício de tempo, três são especialmente lindos.

O meu favorito, de longe, é Hóspede do Balneário (1924); como esquecer, contudo, A infância do mágico (1923) ou Autobiografia resumida (1925)? Este último é muito curioso e instigante: até certo ponto, Hesse parece estar nos contando de uma forma poética e concentrada os caminhos da sua vida, mas em determinado ponto, assim como fez com seus personagens nos romances, ele inventa um destino biográfico para si, fazendo um exercício de biografia conjetural. Assim, por exemplo, a persona, ou eu lírico, que nos narra sua autobiografia mostra como anelou por ser poeta desde a adolescência («A questão era a seguinte: a partir do meu décimo terceiro ano de idade tornou-se claro que eu queria ser poeta ou nada»). Vocação assumida e até bem-sucedida enquanto carreira profissional, por incrível que pareça, de repente uma terrível cisão interna, que a Primeira Guerra acarretou, fez com que abraçasse um pacifismo revoltante para seus concidadãos e amigos, amargando um terrível isolamento («vi-me denunciado como traidor»).

O sofrimento e os conflitos, tanto externos quanto interiores (faz um severo exame de consciência, «obrigado a procurar a causa de meus sofrimentos não externamente, mas dentro de mim») desemboca numa radical transformação pessoal. Nós sabemos, por Demian, que isso aconteceu de fato com Hermann Hesse.  Mas ele transforma seu poeta num pintor, envolvido também com magia, que acaba sendo preso («Com mais de setenta anos de idade, logo após ter sido escolhido por duas universidades para receber graus honorários, fui levado a julgamento por ter seduzido uma jovem usando mágica»). Na prisão, ele pinta uma paisagem (atravessada por um trem) na parede da cela e a fantasia biográfica vai se encaminhando para um fim digno de Borges:

«Foi diante desse quadro em minha cela que eu me achava um dia, quando os guardas chegaram mais uma vez, com seu chamamento tedioso e tentaram arrancar-me de minha atividade feliz. Nesse momento senti cansaço e algo como uma revolta contra toda aquela azáfama, aquela realidade brutal e sem espírito. Se não me permitiam ficar com meu inocente jogo de artista, sem ser perturbado, nesse caso devia recorrer àquelas artes mais severas a que havia dedicado tantos anos da vida. Sem a mágica, aquele mundo era intolerável.

   Chamei ao espírito a fórmula chinesa, mantive-me por um minuto com a respiração suspensa e me libertei da ilusão da realidade. Depois solicitei afavelmente aos guardas que fossem pacientes por mais um momento, já que tinha de entrar em meu quadro e procurar alguma coisa no trem. Eles riram como costumavam fazer, pois me consideravam mentalmente desequilibrado.

   Foi quando me tornei pequeno e entrei em meu quadro, embarquei no trenzinho e segui nele para o túnel pequenino e negro. Por algum tempo a fumaça de fuligem continuou a ser visível, saindo do buraco redondo, depois se dispersou e desapareceu, e com ela todo o quadro e eu com ele.

   Os guardas ficaram para trás, tomados de grande embaraço».

Esse texto fantasioso e notável prolonga a vivência descrita em Infância do Mágico, onde são acrescentados aos detalhes reais (ele evoca os pais, o avô de uma forma extraordinária) elementos “fantásticos” que, na verdade, reproduzem as percepções de qualquer criança imaginativa: «Duradouro foi o meu sonho infantil de que o mundo me pertencia, que somente o presente existia, que tudo se achava arrumado em volta de mim para tornar-se um belo brinquedo… Tudo era prenhe de realidade e tudo era prenhe de mágica, os dois cresciam conscientemente lado a lado, ambos me pertenciam… Como era diferente o aspecto da nossa porta dianteira, o barracão do jardim e da rua em uma noite de domingo, confrontado com a manhã de segunda-feira! Que semblante inteiramente diverso o relógio da parede e a imagem de Cristo na sala de visitas apresentavam no dia em que o espírito do vovô dominava, em confronto com aqueles dias quando dominava o espírito de meu pai, e como tudo isto mudava outra vez e por completo naquelas horas quando não havia mais o espírito de pessoa alguma, senão o meu próprio, dando às coisas sua assinatura, quando minha alma brincava com as coisas e lhes conferia nomes e significados novos… Como era pouco o que se mostrava fixo, estável, duradouro…».

Em 1924, o futuro amigo íntimo (a essa altura, longe disso; apesar de se conhecerem há muitos e muitos anos) Thomas Mann lançava A montanha mágica. Hesse, por sua vez, sofrendo com a ciática, passou algumas semanas na estação de águas de Baden. Escreveu então uma longa e apaixonante crônica da sua estadia, que parece ser a contrapartida miniatural do enciclopédico e ciclópico livro do colega. Uma joia rara, desde o momento em que ele desce na estação, reconhecendo seus “companheiros” e “concidadãos” no universo da ciática, ao mesmo tempo sentindo-se superior por poder andar um pouco mais desembaraçadamente, sem tantos indícios de invalidez: «Via-me cercado de longe e de perto por colegas sofredores, competidores junto aos quais eu era vastamente sofredor. Que sorte a minha ter vindo a tempo, ainda na primeira etapa de uma ciática camarada, ainda com os primeiros sintomas débeis de artritismo inicial! Fazendo a volta e apoiado na bengala fiquei olhando o leão-marinho por algum tempo, com aquela sensação conhecida de satisfação, provando que a língua não pode ainda exprimir os processos psicológicos, pois os opostos linguísticos, maldade e solidariedade, aqui se encontram unidos com a maior profundeza».

A partir daí não há uma página em que o leitor não tenha um trecho deslumbrante em sua percepção da natureza humana, dos próprios processos íntimos neuróticos (a insônia e seus tormentos, e a premente, mas quimérica necessidade de encontrar um quarto de hotel “tranquilo”). Enfim, uma obra-prima de um mágico que tirava existências da cartola.

12289727_538054313025555_4464770567280203164_n

ANEXO

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em primeiro de dezembro de 2015)

Não deixa de ser um fato inusitado, apesar de auspicioso, a Record publicar uma edição comemorativa dos cinquenta anos da clássica tradução de Ivo Barroso para Demian. Mas se trata de uma obra que fez a cabeça de gente sem conta. Hermann Hesse publicou-o em 1919, sob pseudônimo, e houve muita especulação na época sobre a verdadeira identidade do autor. Quando foi descoberta, o livro passou a ser considerado uma espécie de divisor de águas, e um grande salto mortal, na sua trajetória artística.

Recapitulemos o fio do enredo: Emil Sinclair, aos dez anos, oriundo de uma família extremamente religiosa, fica à mercê de Kromer, que faz chantagem com ele. Um terceiro garoto, Max Demian, forasteiro, aproxima-se dele e consegue repelir o colega assediador.

A experiência com Kromer faz Sinclair entrar em contato com o que ele chama de mundo sombrio, subjacente ao mundo luminoso representado pela família. Demian revela, através da reinterpretação da história de Caim, que tal dicotomia não se sustenta: o mundo é luz e sombra. Sinclair, contudo, ainda não está preparado para aceitar essa verdade, e através de suas experiências como adolescente mantém uma visão dualista: ora cai na esbórnia, na dissipação; ora cultua a pureza e a santidade.

Durante essa trajetória, Demian manteve-se afastado da vida de Sinclair e este teve como único amigo o organista (e sacerdote frustrado) Pistórius, que lhe ensina tudo sobre Abraxas, divindade da Antiguidade, a um só tempo Deus e Demônio.

A aproximação da guerra é o paralelo coletivo da busca de Sinclair: ele tem de sair da casca, isto é, destruir um mundo, para nascer um novo homem; e o mundo carcomido da Europa talvez tenha de passar pela destruição para renascer como fênix: «A ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer tem que destruir o mundo». Aliás, tudo isso está representado no texto pela mudança de significado de outro símbolo importante: o umbral (soleira) que a princípio servia para delimitar o mundo luminoso e o mundo sombrio, e depois é retomado como símbolo de passagem, que faz tudo convergir e congrega todos os dados do existir, inclusive as contradições e dilaceramentos.

Demian foi escrito por um poeta que se exprime num relato lírico, projeção cifrada de experiências pessoais, que não demanda qualquer verossimilhança, pois se fundamenta numa simbologia muito particular. Que se aceita ou não. Vencido certo pé-atrás literário, é fascinante observar, numa releitura, como Hesse trabalha com vários elementos do imaginário cristão (Caim, Eva, os dois ladrões crucificados com Jesus, a luta de Jacó com o anjo) para lançá-los de encontro a conceitos do pensamento místico oriental  que se baseiam na impermanência de todas as coisas, mesmo as que amamos; e, além do orientalismo (que daria origem ao seu belíssimo livro seguinte, Sidarta, de 1922), a presença da psicanálise de feição junguiana, com o uso insistente dos sonhos e do inconsciente coletivo.

Um livro individualista. No melhor sentido da palavra. Num mundo uniformizado, onde todos querem se nivelar pelo denominador comum do consumo e da facilidade, ler o processo de constituição de uma individualidade verdadeira e poderosa é algo eletrizante. Enfim, uma obra-prima de um mágico (figura artística muito prezada pelo Nobel de 1946) que tirava existências da cartola, em inesquecíveis biografias imaginárias

0,,16078071_303,00

NOTAS

[1] Publicada primeiramente pela Civilização Brasileira.

[2] Essa polarização reaparecerá nas trajetórias dos protagonistas de um grande romance da maturidade de Hesse, Narciso e Goldmund (1930).

[3] Traduzido no Brasil por Herbert Caro, também em 1965.

[4] Bom lembrar que a “individuação” é o objetivo da psicanálise junguiana.

hesse_sign

413yluanFnL._SY417_BO1,204,203,200_

24/11/2015

Destaque do Blog: UM CORAÇÃO ARDENTE, de Lygia Fagundes Telles

Lygia Fagundes Telles, por Tomás Rangel30369316

«Não senti nenhum medo ou asco quando descobri o dedo meio enterrado na areia, uns restos de ligamentos e tecidos flutuando na espuma das pequeninas ondas. Há pouco encontrara as carcaças dos peixinhos que escaparam das malhas das redes. Lavado e enxague, o dedo parecia ser da mesma matéria branca dos peixes, não fosse a mundana presença do anel, toque sinistro numa praia onde a morte era natural. Limpa.».

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A Tribuna de Santos, em 24 de novembro de 2014)

«Sou uma mulher que gosta de apagar seus rastros», declarou uma vez Lygia Fagundes Telles, e constatando quantos títulos ela já suprimiu nas suas constantes reedições, concordaríamos de pronto, não ocorresse um curioso fenômeno: a cada vez que a grande escritora restringe o cânone de sua obra, “filhos pródigos” (aliás, título original de A Estrutura da Bolha de Sabão) insistem em se apresentar e bagunçar o coreto.

Os dez relatos de Um Coração Ardente, por exemplo, faziam parte de coletâneas deixadas no limbo: O Cacto Vermelho (1949), Histórias do Desencontro (1958), Histórias Escolhidas (1964), O Jardim Selvagem (1965). Emanuel, um dos pontos altos dessa inesperada reunião, e no qual a protagonista, sentindo-se inferiorizada dentro do círculo de conhecidos, ridicularizada por uma desastrada virgindade tardia, fornece detalhes de seu gato de estimação, projetando-os como se fossem de um amante bem-sucedido, num jogo perverso de mistificação e mortificação, pertencia a um rastro mais recente, e já apagado: Mistérios (1981).

As histórias de infância e pré-adolescência formam um conjunto à parte, todas muito cruéis e fortes, como o sorrateiro romance entre a exuberante parente mais velha e um menino «Pareciam pertencer a um outro mundo tão acima do nosso, ah!, como éramos pobres»—, flagrado pela narradora de As Cerejas (se alguém desejar algum dia saber na prática o que é atmosfera narrativa, basta ler essa obra-prima); Biruta e Dezembro no Bairro, por sua vez, delineiam a miséria material e afetiva, tendo o natal como pano de fundo, de dois garotos: um órfão agregado como faz-tudo numa casa burguesa, que se afeiçoa a um vira-lata traquinas; a turma de “remediados” na terrível descoberta de como é pobre e doente um colega, cujo pai—fazendo um bico como Papai Noel—fora humilhado e “zoado”, como se diz por aí.

675201-MLB20303021138_052015-Y

Também notáveis são as histórias de comportamento escuso e hipocrisia social, caso de As Cartas[1] e O Noivo, este último roçando o fantástico e o macabro, pois o noivo se lembra de todas as conquistas e amores da sua existência, menos daquela com quem se casará (ele sequer se dava conta do compromisso e da cerimônia), e pode estar desposando a Morte. Mais evidentemente sobrenatural é O encontro (ironicamente, constava de um livro intitulado Histórias do Desencontro), onde a heroína se sente sonhada por alguém, enleada numa teia, ao adentrar numa paisagem nova, que reconhece, entretanto, a cada instante, nos mínimos detalhes, vendo-se diante de uma malfadada versão-encarnação de si mesma, numa «trama do é, será, foi», como diria Borges:

   «Encostei-me a um tronco e por entre uma nesga da folhagem vislumbrei o céu pálido. Era como se o visse pela última vez.

    “A cilada” – pensei diante de uma teia que brilhava suspensa entre dois galhos. No centro, a aranha. Aproximei-me: era uma aranha ruiva e atenta, à espera. Sacudi violentamente o galho e desfiz a teia que pendeu em farrapos. Olhei em redor, assombrada. E a teia para a qual eu caminhava, quem? Quem iria desfaze-la? Lembrei-me do sol, lúcido como a aranha. Então enfurnei as mãos nos bolsos, endureci os maxilares e segui pela vereda.

   “Agora vou encontrar uma pedra fendida ao meio.”E cheguei a rir, entretida com aquele estranho jogo de reconhecimento: lá estava a grande pedra golpeada, com tufos de erva brotando na raiz da fenda. “Se for agora por este lado, vou encontrar um regato.” Apressei-me. O regato estava seco mas os pedregulhos limosos indicavam que provavelmente na próxima primavera a água voltaria a  correr por ali.

   Apanhei um pedregulho. Não, o estava sonhando. Nem podia tersonhado, mas em que sonho podia caber uma paisagem tão minuciosa? Restava ainda uma hipótese: e se eu estivesse sendo sonhada? Perambulava pelo sonho de alguém, mais real do que se estivesse vivendo. Por que não?»

13560612

Esse apego ao insólito, contudo na cadência de uma prosa lúcida e límpida, serve como mote para O Dedo, verdadeira poética da arte lygiana. A descoberta de um dedo (com um anel) na praia oferece a chance para as ilações mais extravagantes e passionais, típicas de um coração ardente: «Sou do signo de Áries e os de Áries são apaixonados, veementes. Achei um dedo, um dedo! Devia estar proclamando na maior excitação. Mas hoje minha face lúcida acordou antes da outra e está me vigiando com seu olho gelado».[2]

Coração ardente ou olho gelado e vigilante? Para a sorte e prazer de seus fiéis leitores, a Lygia Fagundes Telles nunca falta fogo, porém ele arde sem se ver, a não ser nos lampejos de uma prosa toda feita de delicadezas perigosas.

12278766_536003256563994_6007998138286252594_n

TRECHO SELECIONADO

   «Fui com Madrinha para a saleta. Um raio estalou de repente. Como se esperasse por esse sinal, a casa ficou completamente às escuras enquanto a tempestade desabava.

 – Queimou o fusível! – gemeu Madrinha. – Vai, filha, vai depressa buscar o maço de velas, mas leva primeiro ao quarto de tia Olívia. E fósforos, não esqueça os fósforos!
Subi a escada. A escuridão era tão viscosa, que se eu estendesse a mão poderia senti-la amoitada como um bicho por entre os degraus. Tentei acender a vela mas o vento me envolveu. Escancarou-se a porta do quarto. E em meio do relâmpago que rasgou a treva, vi os dois corpos completamente azuis, tombando enlaçados no divã.

    Afastei-me cambaleando. Agora as cerejas se despencavam sonoras como enormes bagos de chuva caindo de uma goteira. Fechei os olhos. Mas a casa continuava a rodopiar desgrenhada e lívida com os dois corpos rolando na ventania.

– Levou as velas para a tia Olívia? – perguntou Madrinha.

    Desabei num canto, fugindo da luz do castiçal aceso em cima da mesa.

– Ninguém respondeu, ela deve estar dormindo.

-E Marcelo?
– Não sei, deve estar dormindo também.

    Madrinha aproximou-se com o castiçal.

– Mas que é que você tem, menina? Está doente? Não está com febre? Hem?! Sua testa está queimando… Dionísia, traga uma aspirina, esta menina está com um febrão, olha aí!

   Até hoje não sei quantos dias me debati esbraseada, a cara vermelha, os olhos vermelhos, escondendo-me debaixo das cobertas para não ver por entre clarões de fogo milhares de cerejas e escorpiões em brasa, estourando no chão».

o-jardim-selvagem-lygia-fagundes-telles-1-edico-1965-13933-MLB64635885_500-Ohistorias-do-desencontro-lygia-fagundes-telles-1-edico_mlb-o-155893120_9246HISTORIAS_ESCOLHIDAS_1291493633B

NOTAS

[1] Este conto tem um dos finais mais admiráveis já escritos:

«Lembrei-me mais uma vez daquele olhar estrábico, aflitivamente vago. Desatei a rir. Acendi outro fósforo e senti um verdadeiro alívio quando finalmente a chama foi avançando e agora eram as cartas que se contraindo com estalidos secos pareciam rir».

[2] Não menciono o conto-título (que era também uma das Histórias do Desencontro) nem o hoffmanniano ou lovecraftiano A ESTRELA BRANCA (de O Cacto Vermelho) porque os considero muito inferiores aos outros.

004_1384797465

« Página anteriorPróxima Página »

Blog no WordPress.com.