MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

27/12/2014

SUSAN SONTAG (1933-2004), SEU ROMANCE VULCÂNICO E SUA REPUTAÇÃO INCANDESCENTE

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(a resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 08 de janeiro de 2005)

Em minha resenha de 25 de julho de 1993 (VER ABAIXO), sobre O AMANTE DO VULCÃO[1], incorri num grave erro de avaliação. A morte recente de Susan Sontag (28 de dezembro, aos 71 anos) proporciona a chance de corrigi-lo, já que apareceu na imprensa muita bobagem mesquinha e vingativa a seu respeito. Chegou-se até a falar de um suposto “insucesso literário”, que “não a amargurou a ponto de desinteressá-la pelas qualidades alheias (vaticina num tom “simpático” Nelson Ascher, na Folha de São Paulo). Quem, entretanto, leu O amante do vulcão  sabe que se trata de um dos mais belos romances do final do século passado.

O meu erro consistia em afirmar que era preciso esquecer a Sontag pensadora para apreciar a emoção e o impacto do livro, centrado no triângulo amoroso formado pelo casal Hamilton e o Almirante Nelson no final do século XVIII.

Na verdade, o veio ensaístico percorre toda a estrutura narrativa e a alimenta. Amalgamam-se reflexão, biografia e colagem romanesca, ou seja, vemos em ação o gosto enciclopédico que marcou o romance modernista. Mais ainda, Sontag parece ter aglutinado preocupações e inquietações de toda uma vida (e que vida!), dadas a vivacidade e fluência com que instila habilmente ideias  no transcorrer da longa existência de Lord Hamilton, embaixador inglês em Nápoles, desde seu primeiro casamento, quando se destaca como cortesão, como colecionador (as reflexões sobre o ato de colecionar são um capítulo à parte) e como estudioso do Vesúvio.

Viúvo, toma como esposa a antiga amante de seu sobrinho favorito, e passará para a História como um famoso corno, em razão do romance dela com o maior dos heróis britânicos no período napoleônico. Aliás, Sontag, que nos faz gostar muito dos seus personagens, não os poupa no tocante às infâmias que cometem por defender os privilégios do Ancien Régime: instigado por sua paixão por Emma Hamilton, Nelson concordará em participar da terrível perseguição, em Nápoles, àqueles que presumivelmente aderiram ao “espírito revolucionário”, o qual acarretou a deposição da monarquia francesa.

Passado esse momento de erupção passional (da História, do amor entre os dois, do esgarçamento do espírito clássico rumo ao temperamento romântico), o julgamento dos compatriotas do trio (e da posteridade) não é nada generoso. Nelson é ainda poupado (a culpa recai sobre a mulher, a tentadora) por ser um herói popular, uma “lenda viva”: “Ele é um guerreiro, o melhor já produzido por seu belicoso país, prestes a tornar-se a maior potência imperial que o mundo já viu. Todos os admiram. A criação da sua reputação já foi longe demais. Não se pode permitir que seja destruída. Mas quem se importa com uma mulher gorda e vulgar ou esse velho emaciado e exausto? Eles podem ser destruídos. A sociedade não terá nada a perder. Nada de importante foi investido neles.”

   Ascher vaticinava em seu horroroso necrológio uma purificação póstuma de Susan Sontag das “polêmicas circunstanciais” em que se meteu devido às convicções políticas (equivocadas, para ele). Nisso, compartilhará o destino da sua maravilhosa heroína de O amante do vulcão:  ambas nunca vão dar paz a seus detratores incomodados, sempre serão maiores do que o destino que querem impor a elas.

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(a resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  25 de julho de 1993)

É preciso esquecer um pouco a Susan Sontag ensaísta para aproveitar a emoção e o impacto do romance O amante do vulcão, no qual o talento literário da autora explode como o Vesúvio, centro das atenções do protagonista, Lord Hamilton.

Uma figura histórica: é o embaixador inglês da Nápoles do século XVIII. Após a morte da esposa, recebe “de presente” do sobrinho a cortesã Emma, com quem acaba casando. Estouram as perturbações revolucionárias e surge o Almirante Nelson, com sua irresistível aura de herói. Uma existência que era a observação impessoal da fúria e do terror da natureza (o vulcão) passa a testemunhar a erupção dessa mesma fúria e terror nas convulsões sociais e também dos debates passionais de um triângulo amoroso.

Já se disse (Kundera) que há três possíveis modos de narrar: ou se conta ou se descreve ou se pensa uma história. O último caso, que é o de O amante do vulcão, implica uma colaboração explícita do narrador, de uma persona de que ele se serve para comentar o que está narrando. Sontag acompanha Hamilton com carinho, muito próxima, quase como que sussurrando no seu ouvido. Pode não mudar em nada o destino dele, porém nos envolve apaixonadamente em suas cogitações, até na relutância e reticência de sua vida interior, esse vulcão inativo.

Hamilton é um colecionador, e Sontag faz inesquecíveis reflexões sobre o ato de colecionar, o que já seria digno de nota dada a qualidade da prosa. Mas ela ainda demonstra um fôlego vulcânico ao nos mergulhar na época em que o romantismo e toda a ideologia burguesa dos valores individuais, dos “abismos” pessoais, começam a se delinear.

Há um ritmo à Vivaldi,  ora num andamento ligeiro, milagrosamente leve, ora com uma melancolia que representava uma portentosa sensação crepuscular, bem apropriada a uma época agonizante, mas sem necessidade de grandiloquência. Passamos da grotesquerie operística da corte de Nápoles (muito antes da unificação italiana), com seu rei que detesta ficar sozinho (até para defecar precisa de companhia) à torrente irracional e alucinante da turba massacrando a família de um duque sem saber exatamente por quê.

Pois a sociedade e o indivíduo, como o vulcão amado por Hamilton, têm seus períodos adormecidos. E de repente tudo pode ficar incandescente. O que seria um bom adjetivo para esse grande e afortunado romance.

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NOTA

[1] The Volcano Lover (1992), que comento na tradução de Isa Mara Lando.

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23/12/2014

TRADUÇÕES DE 2014-ALGUNS DESTAQUES

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Minha lista de destaques entre as traduções de 2014 será possivelmente de uma graça finita para muitos. Como meu espaço no jornal A TRIBUNA diminuiu, ative-me a 16 títulos (aquele que considero “o” livro do ano e + 15), incluindo apenas (salvo engano) aqueles ainda não traduzidos no Brasil, o que me fez excluir as novas versões de clássicos da ficção científica lançadas pela Aleph, novas versões de clássicos (A Besta Humana, por exemplo, ou Paradiso), e também Michael Kohlhaas, obra-prima que apareceu em duas versões este ano (mas já tinha sido traduzido antes) até mesmo o importantíssimo As aventuras do bom soldado Svejk, o qual já tivera versão brasileira em 1967, pela Civilização Brasileira, como Aventuras do bravo soldado Schweik. De resto, não custa reafirmar, como sempre faço, que não dá para ler tudo nem gostar de tudo. Sempre se pode dizer que mais vale um Buda no sótão do que um pintassilgo que não alça voo.

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 23 de dezembro de 2014)

Tradução do ano- O Idiota da Família (1971), de Jean-Paul Sartre (cujo primeiro volume foi traduzido por Julia Rosa Simões), tentativa talvez quimérica de investigar até os últimos limites a vida de um indivíduo (Gustave Flaubert), num estilo inigualável em sua vivacidade e ousadia, apesar do cipoal informativo-interpretativo, que visa a fusão do que é privado e coletivo (L&PM).

Entre o que pude ler, em ordem alfabética (por sobrenome de autor) as seguintes obras, até então inéditas em nosso país, destaco:

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Hóspede por uma noite (1939)- Sch.I.Agnon (Nobel 1966) faz o protagonista retornar à terra natal, num feriado religioso, para constatar as marcas deixadas pela guerra nas tradições da comunidade judaica—e apesar do horror que hoje representa o estado de Israel, como ignorar um autor desses? (Perspectiva; tradução de Zipora Rubenstein);

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Espírito e Espírito de Época: Hermann Broch (1886-1951) foi um dos maiores romancistas do século passado (“A Morte de Virgilio”, “Os Sonâmbulos”). Também era um notável ensaísta, meditando sobre os rumos da arte nos impasses da modernidade—são essenciais suas formulações sobre o mal, o kitsch e o des-estilo (Benvirá; tradução de Marcelo Backes);

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Contos Escolhidos– 16 textos do Nobel de 1933, Ivan Búnin, mostrando com precisão sutil o outono do mundo czarista na Rússia, no melhor que a ficção de atmosfera e de costumes pode oferecer (Amarilys, tradução de Márcia Pileggi Vinhas);

desmedida

Esperança do Mundo/A Desmedida na Medida/A Guerra Começou, Onde Está a Guerra?(1935-42)- Em três volumes, os Cadernos do início da carreira de  Albert Camus, preciosos laboratórios (ou forjas) de sua obra (Hedra; tradução de Raphael Araujo & Geske Samara);

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Os Luminares (2013)- A jovem Eleanor Catton reinstaura para o gênero romanesco os grandes desafios formais: no caso, uma estrutura toda governada pelas interações astrológicas (Biblioteca Azul; tradução de Fábio Bonillo)[1];

tempo presente

O Melhor Tempo é o Presente (2012)Falecida este ano, Nadine Gordimer deixou esse extraordinário romance final, em que a trajetória de um casal compõe incisivo (e desconfortável) panorama da primeira geração pós-apartheid (Companhia das Letras; tradução de Paulo Henriques Britto);

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Vida e Destino– romance confiscado em 1961 pelo estado soviético e que só apareceu em sua plenitude há um quarto de século.  O ucraniano Vassili Grossman se vale da proverbial grandiosidade russa para pintar um afresco multifacetado sobre a guerra e o antissemitismo (Alfaguara; tradução de Irineu Franco Perpetuo);

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Em Uma Só Pessoa (2012)- No universo de John Irving, maior fabulista do nosso tempo, a fluidez da identidade sexual já esteve presente, mas nunca no grau desse seu mais recente romance, como sempre caudaloso e extravagante (Rocco; tradução de Léa Viveiros de Castro);

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Colares de Xangô e Sapatos Bicolores (2012)- A histórica reaproximação dos EUA com Cuba aumenta o interesse desse belo romance de William Kennedy, caleidoscópio de lugares e experiências (que multiplicam uma cena infantil), entre os quais a ilha de Fidel às vésperas da Revolução (Biblioteca Azul; tradução de Elton Mesquita);

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História Policial (1977)-Imre Kertész (Nobel 2002) demonstra a implacável lógica das ditaduras e seus projetos de poder, que exigem a supressão de indivíduos (Tordesilhas; tradução de Gabor Aranyi)[2];

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O Súdito (1918)- Como pode ter demorado tanto uma tradução brasileira de um romance satírico desse quilate, no qual Heinrich Mann expõe a mentalidade reacionária do Império Prussiano, sob a dinastia Hohenzollern, que levou a Alemanha para o caminho das guerras mundiais? (Mundaréu; tradução de Sibele Paulino) — merecia até dividir com O IDIOTA DA FAMÍLIA a primazia nessa lista;

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Paraíso Reconquistado– Finalmente, uma versão brasileira (realizada por uma equipe coordenada por Guilherme Gontijo Flores) do clássico poema de 1671, onde John Milton dramatiza — com um teor poético que nada fica a dever aos melhores momentos da Bíblia — as tentações de Jesus no deserto (Cultura);

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O Buda no Sótão (2011)- Julie Otsuka forjou uma voz coletiva inesquecível para narrar a imigração japonesa para os EUA, numa obra-prima contemporânea (Grua; tradução de Lilian Jenkino)[3];

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O país dos cegos– 18 histórias de H.G. Wells (1866-1946), selecionadas e traduzidas por Bráulio Tavares,  num definitivo mostruário da sua fabulação, que incorporava elementos da luta de classes, da exploração do trabalho e da desfaçatez colonial (Alfaguara);

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Formas de voltar para casa: um dos melhores livros do século até agora, este do chileno Alejandro Zambra, em que os contrastes entre a geração dos seus pais e a dele, fazem a discussão política penetrar nos meandros mais inesperados (Cosacnaify; tradução de José Geraldo Couto).

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ALGUNS TRECHOS SELECIONADOS

“__ Lauderback assim o disse, exatamente—disse Moody. Ele balançou a cabeça.—Fico pensando se devo acreditar nas intenções do senhor Lauderback ao citar o nome desta jazida tão casualmente ao senhor Balfour esta manhã.

__ O que quer dizer com isto, senhor Moody?

__Não confia nele, em Lauderback?

__Seria muito pouco lógico desconfiar do senhor Lauderback—disse Moody—, visto que nunca na vida encontrei o homem. Estou muito ciente do fato de que os acontecimentos pertinentes dessa história estão sendo transmitidos de segunda mão, até, em alguns casos, de terceira mão. Tomo como exemplo a menção à jazida Dunstan. Francis Carver aparentemente mencionou o nome dessa jazida ao senhor Lauderback, que por sua vez narrou ao senhor Balfour, que por sua vez retransmitiu sua conversa a mim, hoje à noite! Todos vocês hão de convir que eu seria um tolo em tomar como verdadeiras as palavras do senhor Balfour.

     Mas Moody subestimara sua plateia ao questionar tópico tão delicado quanto a ´verdade´. Houve uma explosão de indignação ao redor da sala.

__ Quê? Não confia em um homem que lhe contou a própria história?

__ Posso asseverar que isso é verdade, senhor Moody!

__ Que mais ele poderia lhe dizer, salvo aquilo que contaram a ele?

    Moody foi tomado de surpresa.

__ Não creio que qualquer parte de sua história tenha sido adulterada ou omitida—ele replicou, dessa vez com mais cuidado. Olhou de rosto em rosto.—Queria apenas observar que não de pode nunca assumir como própria a verdade de outro homem.

__ Por que não?—Essa pergunta imediatamente ecoou de toda parte.

    Moody fez uma pausa por um instante, refletindo.

__ Em um tribunal—disse ele finalmente—, uma testemunha jura dizer a verdade, ou seja, sua própria verdade. Ela concorda com dois parâmetros. Seu depoimento deve conter toda a verdade, e esse depoimento não deve conter nada além da verdade. Apenas o segundo desses parâmetros é um limite real. O primeiro, é claro, é grandemente uma questão de discrição. Quando dizemos ´toda a verdade´, dizemos, mais especificamente, todos os fatos e impressões que são pertinentes ao assunto em questão. Tudo que não é pertinente não é apenas irrelevante, é também, em muitos casos, intencionalmente enganador. Senhores—disse ele, embora senha abordagem coletiva lhe houvesse saído esquisita, considerando a companhia diversificada  que ele tinha na sala—, eu defendo que não há verdades totais, e sim apenas verdades pertinentes, e a pertinência, hão de convir,  é sempre uma questão de perspectiva. Não creio que nenhum de vocês haja perjurado de alguma maneira esta noite. Eu acredito que me deram a verdade, e nada além da verdade. Mas suas perspectivas são muitas, e hão de me perdoar se eu não tomar por integral a sua narrativa”   (de Os Luminares)vie et destin

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“…os alemães tinham chegado aos tanques de petróleo, e o óleo ardente jorrava sobre o Volga (…) O petróleo jorrava negro, lustroso,  vindo dos depósitos que haviam sido crivados de balas incendiárias; parecia que as cisternas armazenavam rolos enormes de fogo e fumaça, agora liberados.

    A vida que dominara a Terra havia centenas de milhões de anos, a vida rude e assustadora dos monstros primitivos, elevara-se das profundezas, voltava a bramir, batia os pés, urrava, devorando avidamente tudo ao seu redor… As chamas eram tão volumosas que o turbilhão de ar não conseguia fornecer oxigênio às moléculas ardentes de gás carbônico, e uma abóbada negra e oscilante separara o céu estrelado de outono da terra em chamas. Visto de baixo, o firmamento fluido, gorduroso e negro era um horror.

    As colunas de fogo e fumaça, ao se precipitarem para o alto, ora assumiam o aspecto de seres vivos tomados pelo desespero e pela fúria, ora se assemelhavam a choupos e álamos chacoalhantes. O negro e o vermelho giravam nas nesgas do fogo como cabeleiras negras e ruivas de mulheres dançando desgrenhadas…” (de Vida e Destino)

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“__ Não entendo os senhores, não os entendo. O que querem de mim? Pois se o Estado confia em mim…

__ Bem, sim.—Díaz balançava a cabeça como um professor primário.—O problema é que nós não confiamos no Estado…

__ Não entendo, não entendo… Então acreditam em quê?

__ No destino. Mas no momento nós é que assumimos o papel do destino: portanto, em nós mesmo—disse Díaz com seu sorriso inigualável…”  (de História  Policial)

“ Diederich andava muito na rua nestes dias frios e

úmidos de fevereiro de 1892, na expectativa de grandes

acontecimentos. Na avenida Unter den Linden algo havia

mudado, mas ainda não se sabia o quê. Nas esquinas estava

postada a polícia montada também na expectativa.

Os transeuntes chamavam a atenção, uns aos outros, sobre

esta demonstração de força. — Os desempregados! — Todos

paravam para vê-los chegar. Vinham da direção norte

em pequenos grupos, marchando lentamente. Ao chegarem

à avenida Unter den Linden, hesitaram como que perplexos.

Entenderam-se através de olhares e dirigiram-se

para o palácio imperial. Lá permaneceram mudos, com as

mãos nos bolsos, deixaram-se respingar pela lama lançada

pelas rodas dos carros, encolheram os ombros sob a chuva

que caía sobre os seus surrados casacões. [… ]

Um policial a cavalo gritava para que eles fossem

adiante, que se afastassem mais para o lado ou até para

a próxima esquina — mas já estavam parados novamente;

o mundo parecia estar submerso entre suas largas e encovadas

faces, iluminadas pela noite, e o muro que se erguia

ali adiante, sobre o qual escurecia.

— Eu não entendo — disse Diederich — por que a

polícia não toma medidas mais severas. Isto é uma turma

de rebeldes.

— O senhor não se preocupe — respondeu Wiebel.

A polícia tem suas instruções. Os senhores lá em cima

têm as suas intenções bem calculadas, disso o senhor pode

estar certo. — [… ]

O trânsito de carruagens ficou paralisado; os pedestres

aglomeravam-se e eram arrastados pela torrente lenta

em que submergia a praça e por este mar turvo e sujo

de miseráveis que avançava viscoso, com sons abafados, e

do qual se erguiam, como mastros de navios afundados,

varas com os cartazes: PÃO! TRABALHO! Um murmúrio

irrompia da massa, ora aqui, ora acolá:

— Pão! Trabalho! — Crescia, revoando sobre a massa

como um trovão:

— Pão! Trabalho! — […]

A polícia os vai empurrando. […] Então alguém diz:

— Aquele lá não é Guilherme?

Ninguém sabia como era possível marchar em massa

compacta por toda a extensão da rua e até os flancos do

cavalo que o imperador montava: ele em pessoa. Viam-no

e o acompanhavam. Grupos de manifestantes eram dissolvidos

e arrastados pela massa. Todos olhavam para o

imperador. Era um ondular confuso, desordenado, ilimitado,

e acima deste ondular um jovem senhor de capacete:

o imperador. […]

Dos lados, onde as fileiras eram menos cerradas, pessoas

melhor vestidas diziam umas às outras:

— Graças a Deus, ele sabe o que quer!

— Mas o que é que ele quer?

— Mostrar a essa turba quem está com o poder! [.. . ]

Não se pode dizer que ele seja covarde. Gente, este é um

momento histórico![… ]

Um jovem com um chapéu de artista que caminhava

ao lado de Diederich disse:

— Isto é velho! Em Moscou, Napoleão fez o mesmo:

somente, sem proteção, misturou-se com o povo.

Diederich respondeu: — Mas isto é maravilhoso… —

e a voz lhe falhou. O outro encolheu os ombros: — Tudo

encenação, e não das melhores.

Diederich fitou-o, tentando imitar o olhar faiscante

do imperador, e disse:

— O senhor também é um destes. — Mas não estaria

cm condições de explicar o que queria dizer com ‘destes’.

Sentiu apenas, pela primeira vez em sua vida, que lhe cabia

defender uma causa justa contra as críticas de seus

inimigos. Apesar de seu nervosismo, olhou ainda para os

ombros do jovem: não eram largos. Ademais, todos ao

seu redor mostravam-se indignados. Com isso, Diederich

tomou uma atitude. Com a sua barriga, empurrou o inimigo

de encontro ao muro e começou a bater nele. Outros

o ajudaram. O chapéu já caíra ao chão, e pouco depois

o homem caíra também. Diederich. já seguindo os

outros, comentou com os que lhe haviam ajudado:

— Aposto que esse não serviu no exército! — [.. . ]

Um senhor idoso, com suíças grisalhas e a cruz de

ferro, também estava lá e apertou a mão de Diederich:

— Bravo, jovem, bravo!

— Não é de se perder a calma? — perguntou Diederich

ainda ofegante. — Quando um sujeito como aquele

quer estragar um momento tão solene. [.. . ]

— Permita-me, prezado senhor — alguém gritou, agitando

seu bloco dc anotações. — Temos de noticiar isso.

Como pano de fundo, sabe? O senhor surrou um companheiro?

 

— Ninharia — Diederich ainda ofegava. — De minha

parte poderíamos iniciar logo o combate ao inimigo interno.

O nosso imperador já está conosco.

— Ótimo — disse o repórter, e escreveu: ‘Na agitada

multidão, ouviam-se de pessoas de todas as classes sociais

manifestações da maior lealdade e de inabalável confiança

no imperador’.

— Viva! — gritava Diederich com todos. E em meio a essa avalancha de pessoas ele alcançou o Portão de Brandenburgo. Dois passos à sua frente cavalgava o imperador.

Diederich podia ver-lhe o rosto, a sua fisionomia seria,

o seu olhar faiscante; mas esta imagem se turvou a

seus olhos de tanto que gritava.” (de O Súdito)

“Uma de nós os culpava por tudo e desejava que eles morressem. Outra os culpava por tudo e desejava que ela estivesse morta. Outras aprendiam a viver sem pensar neles em absoluto. Nós nos lançávamos ao trabalho e ficávamos obcecadas pela ideia de arrancar mais uma erva daninha. Deixávamos os espelhos de lado. Parávamos de pentear o cabelo. Esquecíamos a maquiagem…Esquecíamos de Buda. Esquecíamos de Deus. Desenvolvíamos uma frieza interna que ainda não derreteu. Temo que minha alma tenha morrido…” (de O Buda no sótão)

…sou contra a nostalgia.
Não, não é verdade. Eu gostaria de ser contra a nostalgia. Para onde quer que eu olhe há alguém renovando votos com o passado. Recordamos canções que na verdade nunca nos agradaram, voltamos a ver as primeiras namoradas, colegas de curso por quem não tínhamos simpatia, saudamos de braços abertos gente que repudiávamos.
Me assombra a facilidade com que esquecemos o que sentíamos, o que queríamos. A rapidez com que assumimos que agora iremos rir das mesmas piadas. Queremos, julgamos ser de novo os meninos abençoados pela penumbra.
Estou nessa armadilha…” (de FORMAS DE VOLTAR PARA CASA)

destaques resenha

REFERÊNCIAS NO BLOG

[1] https://armonte.wordpress.com/2014/09/30/destaque-do-blog-os-luminares-de-eleanor-catton/

[2] https://armonte.wordpress.com/2014/07/10/o-filho-incorrigivel-das-ditaduras-imre-kertesz-e-historia-policial/

[3] https://armonte.wordpress.com/2014/11/04/o-buda-no-sotao-de-julie-otsuka-destaque-entre-as-traducoes-de-2014/

16/12/2014

“Michael Kohlhaas” e a mentira convertida em ordem universal

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“… Lutero enviou ao príncipe eleitor da Saxônia uma carta na qual revelava ao soberano, depois de uma amarga menção aos senhores Fulano e Beltrano, camareiro e copeiro de Wenzel von Tronka[1], que se encontravam à volta de sua pessoa e que havia, conforme todo mundo sabia, desconsiderado sem mais a queixa, usando da franqueza que lhe era característica, que, sendo tão terríveis as circunstâncias, não restava outra coisa a fazer a não ser aceitar a sugestão do comerciante de cavalos e lhe conceder anistia pelo que havia ocorrido, retomando seu processo. A opinião pública, observou ele, estava do lado daquele homem de um modo altamente perigoso (…) as coisas facilmente poderiam escalar a um grau em que nada mais se conseguiria fazer usando apenas o poder do Estado. Concluiu dizendo que nesse caso extraordinário era necessário deixar de lado os escrúpulos de não negociar com um cidadão do Estado que apelara às armas, que o mesmo de certo modo havia sido colocado fora dos vínculos estatais através do procedimento que lhe havia sido imposto; e que, em resumo, para sair da questão, seria necessário considerá-lo antes uma força estrangeira que atacara o território, o que aliás parecia adequado na medida em que se tratava de fato de um estrangeiro, e não de um rebelde que se levantara contra o trono.”

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 16 de dezembro de 2014)

No ano em que sua versão cinematográfica é exibida no Brasil, Michael Kohlhaas (1810) ganhou duas novas traduções: a de Marcelo Backes (Civilização Brasileira) e a de Marcelo Rondinelli (Grua).

A novela de Heinrich von Kleist (que se suicidou aos 34 anos, em 1811) tem como protagonista “um dos homens mais honestos e terríveis da sua época”[2] (o século XVI). Ao tentar atravessar, como sempre fizera, a propriedade do fidalgo Wenzel von Tronka, o comerciante de cavalos é surpreendido com a exigência de documentos, deixando como penhor dois animais (com um servo). Descobrindo, em Dresden, que fora enganado, ao voltar constata que seu servo fora ignominiosamente expulso e que seus belos cavalos foram usados (de uma maneira que os depauperou) no arado. Não obtendo satisfação do fidalgo, primeiramente ele tenta as chamadas vias legais com petições rejeitadas após longa demora (o judiciário é controlado por parentes de Von Tronka, cortesãos chegados ao Príncipe da Saxônia); quando começa a se impacientar, sua leal esposa toma as rédeas do assunto, com resultados fatais; daí então, vendendo suas propriedades e colocando os filhos sob proteção, Kohlhaas se torna um chefe justiceiro, espalhando o terror.

Kleist delineia o paradigma supremo de um comportamento recorrente, que podemos conferir em Coração Valente ou na série Desejo de Matar (com Charles Bronson), ou em todas as manifestações que mexeram com o nosso país (e outros países) em tempos recentes[3]: a exigência da justiça, do cumprimento da lei, através de uma ação que não se conforma com o moroso (e sobretudo tortuoso) protocolo judiciário, e que por isso invariavelmente descamba para o banditismo e para a violência: a pretensa ordem social é posta em questão, e o protesto acrescenta mais um elemento ao caos[4]. Kohlhaas começa, ele próprio, a afixar mandados em que determina a entrega do fidalgo fujão (depois que o vingador arrasou seu castelo) e congrega atrás de si uma multidão de descontentes e desocupados, muitos deles dignos do epíteto “escória”—aliás, um dos asseclas prejudicará muito a causa do comerciante.

Se o lado épico do relato (o assalto de Kohlhaas a vários burgos e seus informes à população, baseados no seu direito à reparação, ele colocando o mundo pelo avesso) já é possante, o momento em que o herói (de caráter complexo), graças ao salvo conduto, negociado por Lutero e que garante sua liberdade (e que no entanto lhe será de precária valia), permanece em Dresden novamente aguardando por uma ratificação oficial e judicial dos seus prejuízos, alça Michael Kohlhaas a uma das maiores obras-primas já escritas. Um tanto porque a exigência do “homem honesto e terrível”, da maneira como dá azo a trâmites bizarros (e incidentes narrativos inesquecíveis), beira o absurdo (no que este tem de cômico e inquietante): ele quer os mesmos cavalos que deixara com o fidalgo, devolvidos ao seu estado físico original; e outro tanto porque cada vez fica mais claro que, no presumível estado de direito, “a mentira se converte em ordem universal, como formulou um admirador incondicional de Kleist, Franz Kafka, um século depois (em O Processo).[5]

   Exemplo de absurdo também é a atitude do Príncipe da Saxônia: deixando a administração dos negócios públicos tornar-se insustentável e arbitrária, à mercê da incúria e da injustiça de cortesãos intrigantes e ciosos dos seus privilégios, sua obsessão é recuperar o vaticínio de uma cigana sobre o futuro da sua linhagem nobre, e que foi parar na mão de Kohlhaas. A tentativa de entrever os caminhos da Providência acrescentando outra pitada de tempero ao desconcerto do mundo.

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TRECHO SELECIONADO

“Entrementes, o príncipe eleitor da Saxônia, entregue a seus pensamentos lastimáveis, havia convocado dois astrólogos, chamados Oldenholm e Olearius, que eram muito respeitados na Saxônia na época, e pedido seu conselho acerca do conteúdo do misterioso bilhete, tão importante para toda sua estipe e sua descendência; os homens, depois de uma investigação profunda, que durou  vários dias, na torre do castelo de Dresden, não conseguiram entrar em acordo sobre se a profecia dizia respeito a séculos tardios ou se referia aos tempos atuais, e se talvez a coroa polonesa, com a qual as relações continuavam assaz hostis, estava incluída nos termos e assim, devido àquela disputa entre sábios, em vez de amenizar a inquietude, para não dizer o desespero em que se encontrava o infeliz soberano, apenas tornou o sentimento ainda mais agudo, fazendo-o aumentar a um grau que era totalmente insuportável para sua alma (…) o príncipe eleitor, o coração cheio  de desgosto e arrependimento, foi se trancar em seu quarto como alguém que estivesse completamente perdido, e lá ficou durante dois dias, cansado da vida, sem tomar qualquer alimento, até que no terceiro dia depois de um breve anúncio  ao palácio do governo de que viajaria até o príncipe de Dessau para caçar, desapareceu de Dresden repentinamente. Para onde ele foi, e se de fato chegou a ir a Dessau, deixaremos em aberto, na medida em que as crônicas a partir das quais contamos, comparando-as, nesse ponto se contradizem e se anulam de modo bem estranho.”

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NOTAS

[1] Acredito haver um erro de revisão nessa passagem: Fulano e Beltrano são camareiros da Corte e não do fidalgo Von Tronka, seu parente.

[2] Utilizo a tradução de Backes, contemplada com o Prêmio Paulo Rónai, pela Biblioteca Nacional.

[3] Reconheço que são exemplos desencontrados e arbitrários, mas todos podem evocar outros.

[4] Conforme (no Posfácio de sua tradução) nos diz Marcelo Backes “…Kohlhaas é, antes de mais nada, um John Locke obrigado a pegar em armas, um filósofo liberal de espada na mão. Abandona o pacto social, que não lhe concede a satisfação legal que lhe é devida, e busca o direito natural do ser humano.”

[5] Ainda seguindo a linha de argumentação de Backes, “…Seu caso [o de Kohlhaas] desde o princípio não tem saída, e em determinado momento as coisas inclusive começam a andar por si...”,  mostrando que o imperativo épico (a necessidade e a possibilidade de ação de um herói) já se encontra ferido de morte, o que desaguará nas fábulas kafkianas.

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09/12/2014

Das cavernas de aço ao sol desvelado: o futuro da humanidade segundo Isaac Asimov

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 09de dezembro de 2014)

De Isaac Asimov (1920-1992), a Aleph vem reeditando não apenas o clássico ciclo de romances sobre a Fundação[1], como também as aventuras de Elijah Baley, a segunda das quais é O sol desvelado (belo título brasileiro para “The naked Sun”,1957—a tradução é de Aline Storto Pereira[2]): o investigador viaja para Solaria a fim de elucidar um assassinato (ali inexistem forças policiais, pois nunca houvera um crime), com seu parceiro, o robô Daneel Olivaw, cuja aparência reproduz a dos Siderais (pelo menos em sua versão “idealizada” pelos terráqueos como Baley),  habitantes de colônias, que nutrem profundo desprezo pelo nosso planeta-origem — onde há forte resistência à integração de robôs nas engrenagens produtivas.

Em Solaria, o número de habitantes é escasso: a natalidade e o crescimento populacional são rigidamente controlados, os serviços são executados por uma legião de robôs, e o que torna o homicídio do Dr. Delmarre ainda mais enigmático é a aversão que os solarianos desenvolveram à presença física de outros indivíduos: a não ser em raros e contrafeitos momentos, todo contato é holográfico. Por isso, as suspeitas recaem sobre a esposa, Gladia, único ser humano na propriedade, além do morto. Não obstante, não se consegue imaginar como ela teve acesso ao marido de forma a agredi-lo com uma arma não encontrada.

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A investigação de Baley tem como obstáculos principais essa rejeição ao contato pessoal por parte dos solarianos (afora a arrogância com que são tratados os oriundos da Terra) e seu pânico em estar num planeta onde se vive na superfície, fazendo-o enfrentar espaços abertos — com uma visão direta do sol, daí o título: “Ele evitava olhar para aquele vazio azul, isto é, vazio a não ser pelos tons de branco aglomerados de algumas nuvens ocasionais e o brilho do sol desvelado. Ainda assim Baley foi capaz de lutar contra o desejo de correr, de voltar para um ambiente fechado (o próprio Asimov era o oposto daquele que sofre de fobia claustrofóbica:  era aficcionado por espaços pequenos fechados e não gostava muito de viajar).

Aliás, o primeiro romance da série chama-se As Cavernas de Aço (“The caves of steel”, 1954[3]) exatamente porque assim são as cidades da Terra no futuro asimoviano: conglomerados urbanos no interior do planeta, com alucinante concentração populacional, totalmente isolados do que restou da natureza, e nos quais os pequenos luxos da privacidade são arduamente conquistados.

Genial urdidor de tramas, nem sempre o notável bielorrusso (que viveu a maior parte de sua existência nos EUA) mostrou-se um prosador inspirado, e isso empana um pouco do brilho da narrativa de As Cavernas de Aço. Mas em O Sol Desvelado o estilo apresenta-se menos “tímido”, e ele permite-se alguns voos que permitem ao leitor apreender de forma cabal os efeitos psicológicos de questões como ocupar um espaço pessoal, proximidade, percepção do impacto físico do mundo à nossa volta.

Se a fábula é inteligentíssima e a narrativa mostra um domínio maior como escritor, o que deixa pasmo o leitor é a reflexão civilizatória atualíssima[4]: ao contrastar as culturas da Terra e de Solaria, o autor de O Fim da Eternidade antecipou dois perigos que parecem antípodas, no entanto são interfaces do mesmo fenômeno: de um lado, a superpopulação e o colapso de uma organização social para a qual a natureza passa a ser uma ameaça quanto mais destruídos os recursos do planeta; por outro, ancorados numa dependência alarmante da tecnologia (a servidão, a par da sua presença mais e mais ostensiva, dos seres positrônicos, que ocupa boa parte do imaginário dos livros protagonizados por Baley, incluindo sua complicada parceria com Daneel), indivíduos cada vez mais isolados em seus nichos, com relacionamentos virtuais substituindo os reais, e uma indiferença gritante com relação ao resto do universo. O resultado nunca é a melhora da condição humana, e sim, como aponta um sociólogo solariano, “conforme uma pessoa avança rumo ao topo, encontra cada vez menos pessoas para desfrutar de tudo isso. Invariavelmente, há uma preponderância dos despojados”.

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NOTAS

[1] Incluí a trilogia inicial na lista que 100 maiores romances do século XX que preparei para A TRIBUNA na virada do milênio.

[2] Pela Hemus, que publicou anteriormente as obras de Asimov no Brasil, saiu como Os robôs.

[3] Pela Hemus (e foi um dos primeiros Asimov que li, justamente nessa versão), Caça aos robôs.

[4] Minha avaliação é completamente oposta à de Antonio Luiz M.C. Costa, o qual aponta o envelhecimento da visão asimoviana do futuro e tacha de “datados” tanto As cavernas de aço quanto O sol desvelado, entre outros fatores, pelo tratamento das questões de gênero:

http://www.cartacapital.com.br/blogs/antonio-luiz/a-robotica-de-asimov-uma-ciencia-passadista-1515.html

Apesar de não concordar muito com o texto (penso que ele passa longe do “coração” do universo asimoviano), ele chama a atenção para aspectos bem interessantes.

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03/12/2014

O TUDO-NADA DA EXPERIÊNCIA: “A Obra em Negro”, de Marguerite Yourcenar

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 16 de junho de 1998)

Se 1968 é o ano que ainda não terminou, como quer o título de um livro de sucesso, uma das razões, para quem gosta de literatura, é que há trinta anos, em meio àquela época de contestação e rebeldia, publicou-se uma das maiores, mais contestatórias e rebeldes obras de ficção do século XX: A obra em negro (L´oeuvre au noir, em tradução de Ivan Junqueira), embora o romance de Marguerite Yourcenar só tenha aparecido naquele momento em virtude de uma querela judicial que se arrastava desde 1965.

A obra em negro é a história de Zênon, filho bastardo dentro de uma abastada família flamenga, que deixa Bruges, sua terra natal, após matar numa briga o aprendiz de artesão Perrotin, tornando-se com os anos um famoso (e para a Igreja, herético) médico, filósofo e alquimista, na linha de Leonardo, paracelso, Giordano Bruno.

Na primeira parte, A vida errante, após um perfil de Zênon aos 20 anos, a grande escritora belga (de expressão francesa) acaba mostrando-o quase sempre de viés, mais como um objeto da opinião pública, que especula a respeito de suas várias transgressões, em meio a mentiras, boatos e distorções. Conhecemos também, paralelamente, a trajetória de algumas pessoas ligadas a Zênon: sua mãe, Hilzonda, que morre num cerco aos anabatistas, rebeldes religiosos; seu primo, Henri-Maximilien, que abandona a família para engajar-se em qualquer guerra…

obra em negro

É no capítulo “Conversa em Innsbruck” que conhecemos o Zênon já maduro, resultado das viagens e perseguições, enfim, de uma vida precária e ameaçada. E a princípio não se tem certeza de que se pode simpatizar com um tipo tão opiniático, tão lúgubre e amargo, tão consumido pela experiência.

Se a primeira parte já é interessante, com seu painel do século XVI, onde se vive, grosso modo, o conflito entre o Catolicismo e a Reforma Protestante, A obra em negro cresce vertiginosamente (e também a figura de Zênon, que passa a ocupar o primeiro plano quase que exclusivamente) nas duas outras partes, A vida imóvel e A prisão. O belo filme de André Delvaux, com um notável Gian-Maria Volonté no papel central, concentra-se mais nesse ponto da história, muito menos movimentado, porém mais denso: Zênon decide voltar clandestinamente a Bruges, estabelecendo-se como o médico Sebastian Theus, de certa forma protegido pelo compassivo prior dos franciscanos, Jean-Louis de Berlaimont (que foi admiravelmente encarnado por Sami Frey na versão cinematográfica). Depois da morte do prior, por causa de confusões sexuais de noviços no mosteiro, acaba nas mãos da Inquisição, sentenciado à fogueira, da qual escapa pelo suicídio.

Da vida imóvel de Zênon emerge o grande tema das maiores obras de Yourcenar, na minha opinião: o tudo-nada que é a experiência. Ela nos descreve a experiência da vida da forma mais detalhista, para depois nos mostrar a sua dissolução e a sua negação. É o que faz Zênon,  no abismo (título do capítulo-âmago do romance), experimentando os limites do corpo e da mente, de forma que, em meio aos resíduos do que ele viveu e pensou e sentiu, ele consegue roçar o não-ser.

A ironia é que, engajado nessa experiência de superação dos limites da nossa condição, ele se vê ao mesmo tempo enredado (no sentido mesmo da vítima na teia de aranha), num contexto histórico que não deixa muitas saídas para quem não professe um dogma ou pertença a um partido, a uma determinada associação. Tendo escolhido uma existência sem laços, Zênon sempre será o suspeito, o dissidente, o que traz em si o princípio da negação, embora dele se diga: “por estar mais familiarizado com o procedimento que consiste em negar tudo—para depois ver se em seguida se pode reafirmar alguma coisa—e, em desfazer tudo—para ver depois tudo se refazer em outro plano ou de outra forma…”

Ou como ele mesmo diz, é preciso morrer um pouco menos tolo do que quando se veio ao mundo.

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02/12/2014

A BALADA DE ADAM HENRY: Ian McEwan, a dimensão do irreparável e a fachada cinzenta

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“Homens ocultavam recursos em contas do exterior, mulheres exigiam para sempre uma vida de conforto. Mães impediam crianças de ver os pais apesar de ordens judiciais; pais se negavam a oferecer sustento aos filhos apesar de ordens judiciais. Maridos agrediam esposas e filhos, esposas mentiam ou maquinavam ardis, um ou outro, bêbados, viciados em drogas ou psicóticos; e crianças, na prática, eram obrigadas a tomar conta de pais incapazes, crianças de fato vítimas de abusos sexuais ou mentais, ou ambos, seus depoimentos transmitidos numa tela ao tribunal. E fora da área de competência de Fiona, em casos das cortes criminais e não das varas de família, crianças torturadas, mortas de fome ou por espancamento, espíritos maus arrancados de dentro delas em ritos animistas padrastos jovens e cruéis quebrando ossos de bebês sob os olhares abobalhados e cúmplices das mães, e drogas, álcool, sujeira doméstica extrema, vizinhos indiferentes e seletivamente surdos para não ouvir os gritos, assistentes sociais descuidados ou atarefados demais para intervir…”

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 02 de dezembro de 2014)

A leitura de A Balada de Adam Henry me fez relembrar das bem-sucedidas peças de Peter Shaffer, como Real Caçador do Sol (1964), Equus (1973) e Amadeus (1979), nas quais com inteligência cênica (e boa dose de esquematismo, pois todas seguiam uma fórmula) um indivíduo disfuncional e incômodo[1], entretanto cheio de vida, no sentido pleno do termo (no que tem de dor e horror também) colocava em xeque o protagonista aparentemente realizado, “ajustado”. Textos de uma época em que a razão ocidental e seus parâmetros eram questionados visceralmente, ainda guardavam um quê da contracultura.

Fiona Maye, a protagonista de Ian McEwan em seu novo romance, é uma juíza da vara de família. Uma decisão controversa de sua parte afetará o futuro de Adam Henry, a poucos meses de se tornar maior de idade (o título original, The Children Act, refere-se à lei britânica correspondente ao nosso Estatuto da Criança e do Adolescente): testemunha de Jeová, ele recusava a transfusão de sangue que o salvaria de sequelas tenebrosas do tratamento de leucemia e da morte certa. Visando o seu bem-estar e pleno desenvolvimento (em especial, depois de visitá-lo no hospital), dentro do entendimento que a lei permite, apesar das convicções arraigadas do próprio rapaz e do respeito ao relativismo cultural, Fiona determina que ele receba a transfusão.

O problema é que Adam é um exaltado (e poeta, resgatando o sentido romântico que outrora revestia o epíteto), amante do absoluto (para quem foi jovem e idealista, será fácil reconhecer-se), por mais ridículo que pareça para os padrões atuais, quando até a juventude parece mergulhada na ironia e na negatividade. Ele se afasta da comunidade religiosa a que pertencia e passa a seguir Fiona, a qual representaria uma instância suprema diversa, a justiça secular, com outra sabedoria (pobre e iludido Adam!) e o poder de transfigurar o destino das pessoas. E dessa forma, no parco contato direto que tem com a mulher que salvou sua vida, ele a confronta com possibilidades transgressivas e insólitas (por exemplo, deseja morar com ela).

Mas nós, leitores, conhecemos muito bem, a essa altura, a juíza (Adam é focalizado de modo mais oblíquo — pudera, é um personagem espinhoso, roçando o improvável), sabemos que o marido a largou, à beira dos 60 anos, “por falta de ardor”, e que ela vive o cotidiano mais rotineiro e convencional, no que tais palavras podem sugerir de estreito, mesmo com uns laivos diferenciais (é musicista amadora, porém talentosa). Embora profissional capaz, justa, e uma boa pessoa, não há ninguém mais distante de ser um indivíduo estimulante — capaz de mudar, de fato, fora das prerrogativas legais, qualquer existência — do que ela.

Por infelicidade, num determinado momento, Fiona se deixa levar pela vitalidade voraz de Adam e comete uma ação impensada e ominosa, por todos os padrões da “normalidade”. E então, mesmo num formato narrativo limitado (vejo em A Balada de Adam Henry a vocação de um conto longo, esticado em demasia), Ian McEwan tem a oportunidade de colocar numa fábula de ambientação contemporânea a dimensão do irreparável, fundamento de seu livro mais celebrado, Atonement-Reparação (2001). Nele, o dano causado era retificado através das várias versões literárias que a perpetradora, uma escritora, se propôs ao longo da vida como expiação (uma delas, justamente o romance que líamos).

A questão fascinante suscitada pelos dilemas morais (numa época em que se prega, mas pouco se pratica, o respeito à diversidade) e pelos atos de consequência desastrosa no tecido narrativo de A Balada de Adam Henry se descortina quando o irreparável que se pratica não tem nem o esteio da reelaboração literária dos eventos. De volta a uma forma mais sucinta (não obstante Sweet Tooth-Serena, seu livro anterior, ser uma de suas melhores realizações), McEwan talvez atingisse novamente a voltagem crispada e implacável de sua obra-prima, Amsterdam (1998).

Nada feito. Ele preferiu (assim como sua Fiona) o morno, o cauteloso, aquele voo confortável nas asas da elegância estilística que já comprometera consideravelmente o escopo de Sábado (2006), outra fábula moral sobre a atualidade que prometia muito e resultava desfibrada. Temos muitas passagens citáveis (“Até onde era neurologicamente possível não pensar, ela não tinha nenhum pensamento”, na excelente versão de Jorio Dauster), nada incomuns, contudo, no time de prosadores britânicos de alto coturno, como Margaret Drabble ou Julian Barnes, para citar apenas dois nomes do seu naipe e próximos em faixa etária (e ambos já traduzidos no Brasil[2]).

O leitor, talvez injustamente, se sente meio Adam Henry, forçando a entrada para uma possível (e desejável) exploração em profundidade dos meandros morais o nosso estágio civilizatório, deparando-se com um cutucar a onça com vara longa demais, de dentro de uma zona de conforto bem delimitada. Daí a inesperada nostalgia pelos dramas maniqueístas (nunca chegavam ao fundo, decerto), todavia nada escassos em ardor, do mencionado Peter Shaffer. O Ian McEwan de A Balada de Adam Henry é todo ele uma impecável e indevassável fachada cinzenta

VER TAMBÉM NO BLOG

https://armonte.wordpress.com/2012/06/26/esplendores-e-miserias-de-reparacao/

https://armonte.wordpress.com/2012/06/28/destaque-do-blog-serena-de-ian-mcewan-ou-as-praticas-invasivas/

balada

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NOTAS

[1] Como Atahualpa, em Real Caçador do Sol, pertencente a uma civilização diferente, “bárbara”, na visão do conquistador europeu. Mas sua função dramática não é muito diferente do perturbado Alan Strang de Equus e do Mozart tal como figurado em Amadeus.

[2] De Margaret Drabble recomendo  A era do gelo (1977), A geração do meio (1980) e A trilha luminosa (1987), publicados pela Rocco assim como diversos livros de Barnes, mais conhecido no Brasil nos últimos anos, após ter recebido o Booker Prize por O sentido de um fim (2011).

VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/01/24/o-escritor-como-personagem-conan-doyle-e-seu-caso-dreyfus/

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28/11/2014

Destaque do Blog: O IRMÃO ALEMÃO, de Chico Buarque

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 25 de novembro de 2014)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada no LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO, em 26 de novembro de 2014, VER http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2014/11/um-inferno-repleto-de-livros-o-irmao.html)

Boa parte do impacto da leitura de O Irmão Alemão reside— a meu ver— menos no aproveitamento ficcional de uma contingência biográfica, a existência do meio-irmão do título (e seus desdobramentos na vida do narrador), e mais na exploração (física e simbólica) do espaço da biblioteca da família Hollander:

“E quando não havia ninguém por perto, eu passava horas a andar de lado rente às estantes, sentia certo prazer em roçar a espinha de livro em livro. Também gostava de esfregar as bochechas nas lombadas de couro de uma coleção que, mais tarde, quando já me batiam no peito, identifiquei como os Sermões do Padre Antônio Vieira (…) Até os nove, dez, onze anos, até o nível da quarta ou quinta prateleira, durante toda a minha infância mantivesse essa ligação sensual com os livros.

       Nessa casa tomada (“Até então, para mim, paredes eram feitas de livros, sem o seu suporto desabariam casas como a minha, que até no banheiro e na cozinha tinha estantes do teto ao chão”), onde o pai — leitor voraz e eminente intelectual — pontifica, quase um minotauro no labirinto, sujeitando a mãe a um papel servil (“no fundo ela sempre soube que meu pai, embora marido extremoso, não a distinguia muito bem da biblioteca”), o acesso do filho apaixonado pelos livros é restrito (tanto que será clandestina sua “descoberta” do irmão alemão, a partir de uma carta metida num volume no qual ele não poderia mexer: “Preciso guardá-lo exatamente em seu lugar, pois se meu pai não admite que eu mexa nos seus livros, que dirá neste”), índice do distanciamento paterno:

…“uma noite em casa, no meio do jantar, sem mais nem menos lancei esta: eu não me envergonharia de ter um filho alemão. Meu pai ficou com o garfo suspenso diante da boca aberta, enquanto meu irmão continuava a folhear a Playboy à esquerda do prato. Só mamãe, depois de um momento atônita, se manifestou: ma quem tem vergonha de um filho tedesco, Ciccio? Sei lá, disse eu, só sei que o Thomas Mann tinha vergonha da mãe brasileira. Era uma afirmação controversa, pelo que havia lido a respeito, mas feita com o propósito de suscitar  uma reação do meu pai.  Ele poderia retrucar que o próprio Mann reconhecia traços da ascendência latina em seu estilo, ou que a mãe lhe inspirara belos personagens para seus romances, poderia dizer em suma que eu estava falando asneira. Mas pronto, estaria estabelecida uma ponte entre nós, talvez daí em diante meu pai me ouvisse de vez em quando, me corrigisse, de algum modo me filiasse…”

A biografia de Francisco de Hollander, conforme seu torto relato, será então imantada por essa biblioteca monstruosa e invasiva: nunca conseguirá exatamente sair dali, e suas experiências serão arremedos, vivências de segunda mão, transando com as mulheres que passaram primeiramente pelo quarto do irmão, grande sedutor, e nada intelectual (nem por isso o pai lhe regateará a estima e o afeto), ou paródias de relacionamentos com estranhos, a partir das fantasias obsessivas em torno de Sergio, o “fratello tedesco”, como diria a mãe (personagem que roça perigosamente o farsesco, tão caricato é o seu modo de expressão).

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Os dois irmãos de Francisco        quase que fraternamente, por assim dizer, terão um destino fantasmático similar, fruto de regimes arbitrários: enquanto os vestígios de um se esfumam nas medidas profiláticas tomadas pela burocracia nazista com relação à raça pura, e depois na divisão da Alemanha na Guerra Fria, o outro, na superfície mais engajado num donjuanismo cafajeste (o próprio Francisco flerta desajeitadamente com o que poderíamos chamar de “delinquência playboy”), desaparece durante a Ditadura pós-64.

No final, com a morte do pai, o labirinto é franqueado. Nem por isso será de muito proveito a quem que levou uma vida postiça e “emprestada”. Francisco e a mãe (tomada pela cegueira), já bastante idosa, continuam, por anos, naquele sacrário esvaziado de sentido e pleno de perdas: “Não tínhamos mais hora, o jantar era servido antes do meio-dia, tirávamos cochilos aqui e ali, nos recolhíamos com o dia claro. Que dia é hoje?, ela me perguntava. Vinte e cinco de janeiro de 1973. Ainda?…Ela estranhava que o tempo ultimamente andasse tão pesado, e de fato, lá em casa, 1973 levou alguns anos para passar. Mesmo quando a situação no país tendia  a se amenizar, fiz bem em mantê-la desatualizada, porque o nome do meu irmão não constava em nenhuma lista de beneficiários da anistia… Logo se restaurou a democracia no Brasil e nos países vizinhos,  até o muro de Berlim veio abaixo,  mas à minha mãe eu pedia um pouco mais de paciência”, veja o leitor que engenhoso registro de passagem de um extenso período de tempo.

Chico Buarque criou o equivalente contemporâneo de Bibliomania (1836), de Flaubert, ou de Auto-de-fé (1935), de Elias Canetti: uma fábula terrível e ácida sobre o culto bibliófilo que se transforma, ao fim e ao cabo, em cegueira e negação solipsista, e mais incisiva ainda com relação ao papel dos intelectuais em momentos de irracionalidade histórica, quando forças retrógradas tomam o poder.

Alcir Pécora, em resenha para a Folha de S.Paulo, criticou duramente a narrativa de O Irmão Alemão por sucumbir à “borgiária”, à emulação de Borges (o autor mais identificado universalmente com bibliotecas; em contrapartida, na sua autobiografia As Palavras, de 1964, Sartre descreveu a “neurose da literatura” interiorizada nesse trato obsessivo, fetichismo puro, com o objeto-livro, inclusive em edições raras, de colecionador, que transformam a biblioteca num capital). Parece-me que ocorreu justamente o oposto: a hipertrofiação do elemento borgiano e o quase emparedamento no meio de incontáveis volumes escancaram o grotesco da perspectiva “o paraíso deve ser algo parecido como uma biblioteca”[1].

E na figura de Francisco de Hollander, tal como se depreende de sua autoapresentação, o grande poeta da nossa MPB demonstra que andou lendo atentamente a nossa prosa atual: não foram poucas as vezes em que O Irmão Alemão me trouxe à memória o universo de Ricardo Lísias e sua triturante e incômoda reinvenção ficcional de dados biográficos, em textos como O Céu dos Suicidas (2012). Entre os pontos de contato mais óbvios, estão o desamparo no mundo explícito (as cenas em que o narrador aborda transeuntes oferecendo-se para acompanhá-los em seu percurso) e a irrisão raivosa que beira o histérico nas suas tentativas de ação:

“Com certeza riem dos meus sapatos, do meu relógio de segunda mão,  do meu jeans fodido, sujo de giz e de outras melecas, que não tiro do corpo e cujos bolsos me ponho agora a apalpar. Súbito enfio a mão no bolso esquerdo até o fundo, e a cartolina por baixo da caixa de chicletes só pode ser o cartão de visita do afinador de pianos. De fato é, e apesar de curvo e desbotado, tendo sobrevivido a um ou outro mergulho no tanque de lavar roupa, ainda traz legíveis as coordenadas de Lázar Rosenblum. Abandono a algazarra da sala e disparo até o telefone da secretaria, mas na casa do Lázar sua mulher me informa que ele saiu, vai passar a manhã cuidando do piano da TV Record. Ali acontece o famoso festival de música popular,  e dona Dalila me fala de seus cantores prediletos, começa até a cantarolar uma balada romântica quando corto a ligação. Em vinte minutos de caminhada chego ao Teatro Record,  onde encontro uma fila na bilheteria e uma pequena aglomeração junto à porta lateral. É a entrada dos artistas, protegida por seguranças a quem apresento o cartão de visitas do Lázar,  depois de forçar a passagem entre fãs e puxa-sacos. O cartão passa de mão em mão,  e um funcionário suarento vem me avisar que estou barrado, porque já tem um afinador no palco. Pois foi ele quem me chamou, afirmo cheio de moral, me passando pelo pianista do João Gilberto. Mas o João Gilberto não tem pianista nem concorre no festival,  segundo os dedos-duros à minha volta,  então me esgueiro até o bar ao lado e peço um café no copo para tomar com um pé na calçada.  Minhas pálpebras custam a se reerguer cada vez que pisco os olhos,  e estou no quarto copo de café  quando o Lázar sai pela porta dos artistas. Tem um chilique quando o arrasto pelo paletó, já não faz ideia de quem eu seja…”— não estranharia em ver essa passagem em Lísias ou, para citar outro exemplo da prosa relevante dos nossos dias, em Alexandre Dal Farra e seu Manual da Destruição (2013).

Essa “influência”, na falta de termo melhor, fez muito bem a Francisco de Holanda: resultou no seu romance menos “policiado” e mais pessoal. Só não entendi a utilidade das duas notas finais (esclarecendo os vínculos entre ficção e biografia!) e o linguajar da mãe, acordes desnecessariamente dissonantes de uma composição de mestre.

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NOTA

[1] E olhe que a minha formação de leitor seguiu um pouco os passos do narrador de O Irmão Alemão, esse apelo sensorial-sensual dos livros, presente inclusive nos meus dias como leitor já naquela outrora conhecida como “meia-idade”, quando percorro prazerosamente meus milhares de volumes espalhados pela casa inteira (embora sem o componente bibliófilo, da aquisição de livros raros e primeiras edições).

VER aqui no blog:

https://armonte.wordpress.com/2014/06/19/existe-o-romance-buarquiano-sobre-budapeste-e-leite-derramado/

https://armonte.wordpress.com/2013/06/19/a-poesia-da-prosa-de-chico-110409/

https://armonte.wordpress.com/2012/05/13/sob-o-signo-de-bauman-ficcoes-da-modernidade-liquida-vila-matas-chico-buarque/

chico

irmão alemão

18/11/2014

Como conhecer as coisas senão sendo-as?: Os nadifúndios de Manoel de Barros (1916-2014)

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Há quem  receite a palavra ao ponto de osso, de oco,

ao ponto de ninguém e de nuvem.

Sou mais a palavra com febre, decaída, fodida, na

sarjeta.

Sou mais a palavra ao ponto de entulho.

Amo arrastar algumas no caco de vidro, envergá-las

pro chão, corrompê-las

até que padeçam de mim e me sujem de branco.

Sonho exercer com elas o ofício de criado:

usá-las como quem usa brincos.

(de Arranjos para assobio, 1980)

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 18 de novembro de 2014)

“Bom era/ser como o junco/no chão: seco e oco./Cheio de areia, de formiga e sono./Ser como pedra na sombra (almoço de musgos)/ ser como fruta na terra, entregue/aos objetos…”

Foi já quarentão que o recém-falecido — aos 97 anos — Manoel de Barros chegou às formulações poéticas na feição que o tornaram tão querido, no seu quarto livro (estreou em 1937, com Poemas concebidos sem pecado[1]), Compêndio para uso dos pássaros (1961). A popularidade imensa de que desfrutava viria bem mais tarde, na esteira de O guardador de águas (1989), com o qual iniciou uma prolífica (às vezes repetitiva e diluidora) produção provecta, com títulos famosos como O livro das ignorãças, Livro sobre nada (onde lemos: “Nasci para administrar o à toa/o em vão/o inútil” e “Senhor, eu tenho orgulho de ser imprestável!”[2]), Retrato do artista quando coisa ou Memórias inventadas.

Os treze poemas de Compêndio para uso dos pássaros se organizam em duas partes. Na primeira, ele orquestra visões infantis sobre as coisas e os seres, e pela primeira vez, pelo menos nesse grau de intensidade, as imagens inusitadas que o consagraram como um dos nossos maiores criadores de poesia (não confundir com a associação regressiva de uma suposta autenticidade com o apego ao mundo rural, como certa apropriação piegas de sua obra sugere).

Se em Poesias (1956) lemos estes bonitos e convencionais versos, “Ah como é bom a gente ter infância!/Como é bom a gente ter nascido numa pequena cidade/banhada por um rio./Como é bom a gente ter jogado futebol no Porto de Dona/ Emília, no Largo da Matriz/ E se lembrar disso agora que já tantos anos são passados, aqui nos deparamos com: “O menino caiu dentro do rio, tibum/ ficou todo molhado de peixe”, “Meu bolso teve um sol com passarinhos”, ou seja, a força anímica e mesmerizante das águas, dos pássaros, das árvores, dos peixes, num moto contínuo, as identidades quase permutáveis: um lambarizinho “se beijou todo de água, “vi um rio indo embora de andorinhas, “na areia tem raiz/ de peixes e de árvores. E em vez do óbvio “como é bom a gente ter infância”, uma topografia lírica inusitada: “O córrego ficava à beira/de um menino.

compêndio leya

É temerário escolher qual o mais bonito e seminal entre os poemas mais longos (na verdade, aglutinação inspirada de pequenas unidades), “Poeminhas pescados na fala de João”, “A menina avoada”, O menino e o córrego”, ainda que essa primeira parte se encerre com os breves  “Noções sobre João-Ferreiro” (“Seu caminho consiste para um esvoo rente/ rente até o chão ervar-se/ de seu corpo) e o soneto “Um bem-te-vi”.

Na segunda, os poemas são mais concisos, e a mirada, adulta, perseguindo evocativamente “um rumo/ nem desconfiado, no qual as madrugadas trazem “estes começos de coisas/indistintas:/ o que a gente esperou dos sonhos/ os cheiros do capim/ e o berro dos bezerros/ sujos a escamas cruas…”. O fecho não poderia ser mais perfeito, com “Um novo Jó”, do qual retirei os versos que abrem esta resenha, e cuja epígrafe, de Jorge de Lima, encerra todo um projeto: “como conhecer as coisas senão sendo-as?”

A que alturas andava esse objetivo de “ser as coisas”, vinte e cinco anos atrás, quando Barros, no limiar da sua fama tardia, lançou O guardador de águas? Nele, combinam-se poemas de várias páginas, versos longos e de forte teor narrativo com desenhos, versos breves e aforismáticos, todos explorando “nadifúndios” (Não tenho bens de acontecimentos), “Coisas/ Que ele apanhava nas ruínas e nos montes de borra de/ mate (nos montes de borra de mate crescem abobreiras/ debaixo das abobreiras sapatos e pregos engordam…)/ De forma que recolhia coisas de nada, madeiras, falas/ de tontos, libélulas — coisas / Que o ensinavam a ser interior, como silêncio/ nos retratos”.

E qual efeito guardar águas acarretou para a dicção poética?: “A água passa por uma frase e por mim./ Macerações de sílabas, inflexões, elipses, refegos./ A boca  desarruma os vocábulos na hora de falar/ E os deixa em lanhos na beira da voz”. Talvez a súmula se encontre nestes versos: “Ai frases de pensar!/ Pensar é uma pedreira. Estou sendo./ Me acho em petição de lata…”[3]

Viver é calejar-se, gastar-se, desencantar-se. Mas numa equação (que pesco no Compêndio, que me parece uma ótima introdução ao singular universo do poeta mato-grossense) proposta por Manoel de Barros é possível a transfiguração do cansaço existencial pelo lirismo radical: Hoje sofro de gorjeios/ nos lugares puídos de mim.

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TRECHOS SELECIONADO

A MENINA AVOADA

I

Vi um pato andando na árvore…

   Eu estava muito de ouro de manhã

perto daquele portão –

  Veio um gatinho debaixo de minha

janela ficou olhando para meu pé rindo…

    Então eu vi iluminando em cima de

nossa casa um sol!

   E  o passarinho com uma porcariinha

na boca se cantou.

     Fiquei toda minada de sol na minha boca!

    

   II

   Quis pegar

   entre meus dedos

    a Manhã.

    Peguei vento.

   Ó sua arisca!

 

    Nas ruas do vento

    brincavam os passarinhos

    perto de meu quarto

     junto do pomar.

 

    Estes passarinhos

    sempre eram fedidos a árvores com rios

   que eles traziam da mata

   antes de chover.

 

               III

   Manhã?

   Era eu estar sumida de mim e todo-mundo

me procurando na Praça

    estar viajando pelo chão

    que a água é atrás

    até ficar árvores

    com a boca pendurada para os passarinhos…

(…)

      VI

    Você brincou de mim que uma borboleta

no meu dedo tinha sol?

   Você ia pegar agora

o que fugiu de me rosto agora?

 

    Na beira da pedra aquele cardeal,

    você viu?, fez um lindo ninho

    escondido bem

    para a gente não ir apanhar

seus filhotes, que bom.

 

    Ó meu cardeal,

    você não é um sujeito brocoió à toa!

    Você é um passarinho de atravessado…

(…)

         X

    O bigode do pai crescia no quarto.

    João, caindo aos restos de ninho, chegava

    cheirando a pássaros com ilhas.

    Ia buscar minha boca e voltava do

mato em perfumes…

    Árvore?

    Era a terra debaixo dela ser escura…

(…)

        XV

     Ainda estavam verdes as estrelas

       quando eles vinham

    com seus cantos rorejados de lábios.

    Os passarinhos se molhavam de

        vermelho na manhã

   e subiam por detrás de casa para me

espiarem pelo vidro.

     Minha casa era caminho de um vento

comprido comprido que ia até o fim do mundo.

    O vento corria por detrás do mundo

corria lobinhando — ninguém

   não via ele

   com sua cara de alma.

nadifúndios

________________________________________

NOTAS

[1] Do qual transcrevo o último poema, bem dentro da toada modernista de então (para nós, agora, d´antanho):

Informações sobre a Musa

Musa pegou no meu braço. Apertou.

   Fiquei excitadinho pra mulher.

   Levei ela pra um lugar ermo (que eu tinha que fazer uma

lírica):

__ Musa, sopre de leve em meus ouvidos a doce poesia,

a de perdão para os homens, porém… quero seleção,

ouviu?

__ Pois sim, gafanhoto, mas arreda a mão daí que a hora

é imprópria, sá?

    Minha musa sabe asneirinhas

   Que não deviam de andar

    Nem na boca de um cachorro!

    Um dia briguei com Ela

    Fui pra debaixo da Lua

    E pedi uma inspiração:

__ Essa Lua que nas poesias dantes fazia papel

principal, não quero nem pra meu cavalo; e até logo, vou

gozar da vida; vocês poetas são uns intersexuais…

   E por de japa ajuntou:

__ Tenho uma coleguinha que lida com sonetos de dor

de corno; por que não vai nela?

poemas concebidos sem pecado

[2] 13.

Venho de nobres que empobreceram.

Restou-me por fortuna a soberbia.

Com esta doença de grandezas:

Hei de monumentar os insetos!

(Cristo  monumentou a Humildade quando beijou os

pés dos seus discípulos.

São Francisco monumentou as aves.

Vieira, os peixes.

Shakespeare, o Amor, a Dúvida, os tolos.

Charles Chaplin monumentou os vagabundos).

Com esta mania de grandeza:

Hei de monumentar as pobres coisas do chão mijadas

de orvalho.

 

11.

Prefiro as máquinas que servem para não funcionar:

quando cheias de areia de formiga e musgo — elas

podem um dia milagrar de flores.

 

(Os objetos sem função têm muito apego pelo aban-

dono)

 

Também as latrinas desprezadas que servem para ter

grilos dentro — elas podem  um dia milagrar violetas.

 

(Eu sou beato em violetas)

 

Todas as coisas apropriadas ao abandono me religam

a Deus.

Senhor, eu tenho orgulho de ser imprestável!

 

(O abandono me protege)

 

8.

Nasci para administrar o à toa

                                    o em vão

                                    o inútil.

Pertenço de fazer imagens.

Opero por semelhanças.

Retiro semelhanças de pessoas com árvores

                                de pessoas com rãs

                                de pessoas com pedras

                                 etc etc.

Retiro semelhanças de árvores comigo.

Não tenho habilidades pra clarezas.

Preciso de obter sabedoria vegetal.

(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã

no talo)

E quando esteja apropriado para pedra, terei também

sabedoria mineral.

(Livro sobre nada, 1996)

MATERIA_DE_POESIA_1251423478P

[3] Outro exemplo, tirado de Matéria de poesia (1970):

(Passeio número 1)

Depois de encontrar-me com Aliocha Karamazoff,

deixo o sobrado morto

    Vou procurar com os pés essas coisas pequenas do chão

perto do mar

     Na minha boca estou surdo

     Dou mostras de um bicho de fruta.

 

(Passeio número 2 )

   Um homem (sozinho como um pente) foi visto da

varanda pelos tontos

    Na voz ia nascendo uma árvore

    Aberto era seu rosto como um terreno.

 

(Passeio número 3)

Raízes de sabiá e musgo

subindo pelas paredes

   Não era normal

o que tinha de lagartixa na palavra paredes.

 

(Passeio número 4)

O homem se olhou: só o seu lado de fora subindo

a ladeira…

   Caminhos que o diabo não amassou — disse.

   Atrasou o relógio

    Viu um pouco de mato invadindo as ruínas de

sua boca!

2LIVRO SOBRE NADA

LNarranjos

manoel de barros_90anos2

13/11/2014

PAISAGENS ESCARPADAS: “O herói do nosso tempo”, de Liérmontov

Lermontov

(uma versão do texto abaixo foi publicado no Letras in.verso e re.verso, em 12 de novembro de 2014: VER http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2014/11/o-heroi-do-nosso-tempo-texto.html)

PREÂMBULO

“E ele, rebelde, busca a tempestade

Como se na tempestade houvesse paz…” (trecho de “O veleiro”, trad. Paulo Bezerra)

Nos seus trinta anos (1825-55) como czar da Rússia, Nicolai I instaurou o terror e a opressão, sem desdenhar de artimanhas para se livrar dos contestadores: assim, Mikhail Liérmontov — sucessor de Puchkín como grande poeta nacional e feroz adversário do regime, por isso mesmo exilado no Cáucaso a partir de 1837 — morreu num suspeitíssimo duelo aos 27 anos: tirou-se proveito de seu gosto por provocações e brincadeiras para forjar um incidente que lhe seria fatal. E, assim, sua breve existência se deu entre datas que se refletem cabalisticamente: 1814-41.

Houve tempo para deixar uma obra que não só apresenta um título emblemático como também mostrou-se seminal para a tradição romanesca russa: Grigóri Alieksândrovitch Pietchórin, o “herói do nosso tempo”, terá seus avatares em Dostoievski, Tolstoi, Turgueniev e até mesmo no mais tardio Tchekhov, só para citar quatro mestres.

O palco das paradoxais aventuras de Pietchórin é o Cáucaso, espécie de ímã para a imaginação russa, no que apresenta de território invadido, desafio e fronteira entre civilização e barbárie (basta lembrar que a derradeira obra-prima de Tolstoi transcorre nesse cenário: Khadji Murát)[1]. Uma paisagem de cordilheiras escarpadas e perigosas, mimetizando o sobrenome e o caráter do personagem: como nos ensina Paulo Bezerra, na introdução de sua tradução de O Herói do Nosso Tempo[2], Pietchórin vem de “pietchóri”: “cadeia de penhascos” (ou seja, um terreno acidentado e inóspito, conquanto possa ter sua beleza). E talvez um dos poemas de Liérmontov, “O rochedo”, multiplique essa simbologia, como podemos aventar a partir da seguinte estrofe (em tradução de Guilherme Zani): “Há um rastro de umidade na dobra/ Do velho rochedo. Isolado/ Pensa profundamente, parado./E silente no deserto chora”.

herói do nosso tempo

I

“Da tempestade da vida fiquei apenas com algumas ideias — e nenhum sentimento. Faz muito tempo que não vivo com o coração, mas com a cabeça. Peso e analiso minhas próprias paixões e atos com rigorosa curiosidade, mas com isenção. Há em mim dois seres: um vive no pleno sentido da palavra, outro pensa e julga-o; o primeiro talvez se despeça para sempre de você e do mundo daqui a uma hora, enquanto o segundo… o segundo…”

O Herói do Nosso Tempo é dividido em duas partes, e o protagonista só assumirá o relato (através do seu diário) após duas histórias (“Bela” e “Maksim Maksímitch”) em que episódios da sua vida são contados por meio da interposição de narradores: há um primeiro, que atravessa o Cáucaso e ganha como companheiro na acidentada viagem o velho militar Maksim Maksímitch. É este que lhe confidencia como, durante sua convivência com Pietchórin numa distante guarnição, sempre ameaçada por ataques dos “bandidos” tchetchenos, o jovem oficial levou a cabo o rapto de uma donzela, Bela, em troca do fabuloso cavalo de um célebre malfeitor rebelde, Kázbitch.

Conseguindo vencer a relutância da moça, que acaba se apaixonando por ele, logo em seguida Pietchórin, entediado, se desinteressa dela (que terá um triste fim, devido à vingança de Kázbitch). O que importou para ele foi o perigo, a emoção da aventura, do rapto, do logro do tchetcheno, mas essa euforia passou rapidamente.

Aqui temos um primeiro autorretrato do “herói do nosso tempo”:

“… tenho a alma corrompida pela sociedade, a imaginação intranquila, o coração insaciável; nada me basta: eu me acostumo à tristeza com a mesma facilidade com que me acostumo ao prazer, e minha vida vai ficando dia a dia mais vazia; resta-me um recurso: viajar. Tão logo seja possível, viajarei; apenas não será para a Europa, Deus me livre! Irei à América, à Arábia, à Índia — talvez eu morra no caminho, em algum lugar!”

No segundo relato, o narrador conhece pessoalmente Pietchórin, testemunhando a frieza com que ele trata o velho companheiro de guarnição, o qual ficara todo animado com a possibilidade de reencontrá-lo, ao ponto de esquecer pela primeira vez na vida, suas “obrigações”[3]. Por conta da desilusão de Maksim Maksímitch (narrada com uma destreza psicológica digna de Proust; e assombrosa quando lembramos da idade em que morreu Liérmontov), o narrador se depara com um inusitado presente: os papéis pessoais de Piétchorin, que comporão o restante do volume.

Em “Taman”[4], o leitor conhecerá os eventos da passagem do herói por essa “detestável” cidade costeira e como o feitio do seu caráter faz com que ele tenda a desbaratar situações que já vêm de longa data (no caso, pessoas humildes envolvidas com contrabando), por desfastio, por capricho (mas, como ele afirma, “que tenho eu a ver com as alegrias ou as desgraças humanas, eu, um oficial errante, e ainda por cima andando com salvo-conduto oficial”). E assim se encerra a primeira parte, que esboça um retrato negativo.

Na segunda, formada por dois textos, “A princesinha Mary” (de longe, o mais longo) e “O fatalista”, ainda encontraremos o mesmo homem caprichoso, volúvel, byroniano, tomado por um don-juanismo crônico com relação à vida (“nada me basta”, não esqueçamos), mas por alguma razão, mais humano e simpático para o leitor (menos quando mata seu cavalo de exaustão, num de seus momentos maníacos, quando se empolga efemeramente).

“A princesinha Mary” se passa na estação de águas de Piatigorsk, um oásis de mundanismo em meio ao tumultuoso Cáucaso (como alerta o médico Werner a Pietchórin, com relação a um comprometimento amoroso que pode significar casamento forçado: “O ar das estações de águas é perigosíssimo; quantos jovens maravilhosos, dignos de um melhor destino, vi saírem daqui direitinho para o altar…”). Ali, além de reencontrar uma antiga amante (casada), nosso herói se envolve num triângulo amoroso com a princesinha do título e outro jovem, Gruchnítski,  “interessante” por usar um capote (as moças da sociedade pensam que ele é um oficial degradado) e que se revela em toda a sua personalidade “cacete” ao se graduar como oficial. Vemos, então, o velho fetiche pelo traje que marca a narrativa russa, desde Gógol, com efeitos cômico-patéticos:

“Meia-hora antes do baile, Gruchnítski apareceu em minha casa com todo o brilho de seu uniforme de infantaria. Do terceiro botão pendia uma corrente de bronze com um monóculo de lentes duplas; as dragonas de tamanho descomunal apontavam para cima como as asas de Cupido;  as botas rangiam; a mão esquerda segurava as luvas de pelica marrons e o quepe, a direita desfazia a cada instante o topete crespo em pequenos caracóis; seu rosto traduzia presunção e ao mesmo tempo certa insegurança; seu aspecto solene  e seu andar sobranceiro me fariam dar gargalhadas se isso estivesse de acordo com as minhas intenções…”

Curiosamente, esse ser ridículo será alvo de uma surda rivalidade por parte do narrador, que resolve conquistar a princesinha, através de uma atitude estudadamente distante e indiferente. E por que, uma vez que ele não pretende se casar ou se envolver seriamente, e aquela sociedadezinha provinciana o entendia mortalmente (além de considerar o outro pretendente visivelmente inferior a ele mesmo)?:

“Tenho uma paixão natural por contradizer; toda a minha vida não passou de uma cadeia de contradições tristes e desastrosas com o coração e a razão. A presença de um entusiasta deixa-me dominado por um frio gélido e fico a pensar que ligações constantes com um fleumático melancólico me transformariam em sonhador e apaixonado. Confesso ainda que, naquele instante, uma sensação desagradável porém conhecida correu pelo meu coração: era a sensação da inveja, e digo corajosamente inveja porque tenho o hábito de confessar tudo a mim mesmo. É difícil haver um jovem que, após encontrar uma mulher bonita que lhe prende a indolente atenção e de repente a vê dando preferência a outro, que tampouco conhece e ainda por cima na sua presença, é difícil, repito, é difícil encontrar um jovem (naturalmente  da alta sociedade e acostumada a dar asas ao seu amor-próprio) que, num caso desses, não experimente uma desagradável surpresa.”

Esse imbróglio sentimental (atrelado a outro, seu caso adúltero, que é  retomado) o levará a experimentar emoções que o desgostam (entre elas, a inclinação inequívoca pela princesinha, como um Valmont, de As relações perigosas, que se deixasse enfeitiçar por Mme. de Tourvel, apesar de sua perversidade[5]) e até o arrastará a atos extremos, como um duelo com Gruchnítski (o qual vai perdendo o pé na comicidade e revelando-se quase um vilão[6]). E diante da possibilidade de morrer na contenda, Pietchórin faz uma reflexão prenhe de contradições (crença numa sorte pessoal, num destino, aliada à sua sensação de fastio, seu “spleen” byroniano):

“Mas nós vamos tirar a sorte!… E então… então…e se a sorte pender para o lado dele? E se minha estrela finalmente me trair?… Não seria nada do outro mundo: ela passou tanto tempo servindo aos meus caprichos… No céu não há mais constância que na terra.

     Bem! Se é para morrer, que venha a morte! O mundo não vai sofrer grande perda, e além disso eu mesmo já estou bastante enjoado. Sou como o homem que boceja no baile e só não vai embora porque sua carruagem ainda não chegou. Mas a carruagem está à espera — adeus!

    Memorizo todo o meu passado e involuntariamente me pergunto: para que vivi? Com que fim nasci?… Mas devo haver algum fim e alguma alta missão, porque sinto em mim forças imensuráveis; mas não descobri essa missão de me entreguei à tentação de paixões ingratas e vazias.  Do crisol dessas paixões saí  duro e frio como o fero, mas perdi para sempre o ardor das aspirações nobres, a mais genuína flor da vida (…) Meu amor não trouxe felicidade a ninguém, porque nada sacrifiquei por aqueles a quem amava; eu amava por mim mesmo, para meu próprio prazer, apenas satisfazia uma estranha necessidade do coração, devorando avidamente os sentimentos, a ternura, as alegrias e tristezas das pessoas amadas — e nunca pude saciar-me. Era como alguém que, atormentado pela fome, adormece exausto e sonha com manjares finos e vinhos espumantes; devora extasiado os dons etéreos da imaginação e experimenta uma sensação de alívio… Entretanto, mal acorda, o sonho se dissipa, restando-lhe uma fome redobrada e o desespero!”.[7]

Essa questão da “sorte” — como um destino especial — em relação às aleatoriedades da vida, será retomada no relato final, “O Fatalista”, que humaniza ainda mais a figura de Pietchórin e faz o leitor lamentar o prosador que a literatura perdeu de forma tão abrupta.

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II

 “Sinto em mim essa avidez insaciável que devora tudo o que encontra no seu caminho; olho para os sofrimentos e alegrias dos demais somente naquilo que me diz respeito, como para um alimento que sustenta as minhas energias espirituais. Eu mesmo não sou mais capaz de fazer loucuras sob o impacto da paixão. Minha ambição foi esmagada pelas circunstâncias, mas se manifestou sob outro aspecto, pois a ambição nada mais é que sede de poder, e o meu primeiro prazer é subordinar à minha vontade tudo o que me rodeia; despertar por si sentimentos de amor, fidelidade e pavor não será o primeiro sinal e o maior triunfo do poder? Servir de motivo para os sentimentos e alegrias de alguém sem ter para tanto qualquer direito real não será o sustento mais doce do nosso orgulho? E o que é a felicidade? Um orgulho satisfeito? Se eu me considerasse melhor, mais poderoso que todos no mundo, seria feliz;  se todos me amassem,eu encontraria para mim fontes infindas de amor.”

Ainda permanece a questão crucial: por que esse don juan autocentrado e árido (e sempre contraditório) deveria ser considerado “o herói do nosso tempo”? Na passagem acima encontramos a chave política que permite entrever o projeto de Liérmontov: “Minha ambição foi esmagada pelas circunstâncias” (leia-se, os arbítrios de Nicolai I). Toda uma geração sofreu esse impacto de um regime repressivo. E, pelo avesso, Pietchórin simboliza a sociedade do seu tempo, e ele se torna um pequeno Nicolai, com sua sede de poder: “o meu primeiro prazer é subordinar à minha vontade tudo o que me rodeia”. Ou seja, quanto mais afastado da Corte, ali no distante Cáucaso, quanto mais enredado nas intrigas de uma microcosmo social ínfimo, quanto mais colado ao seu egoísmo, ao seu orgulho, à sua autossabotagem (como um Fernando Pessoa avant la lettre), mais ele descortina a paisagem social inóspita sob o autoritário czar, ainda que tenha oferecido para o público — colhendo descontentamento — “uma fábula sem a moral da história no final” (mas talvez a moral da fábula seja a reação do próprio Nicolai após a leitura: “Livros como este pervertem a moral e exacerbam o caráter… As pessoas já são propensas demais à hipocondria ou à misantropia, então para que estimular tais tendências com semelhantes escritos? Trata-se de um talento deplorável, que revela a mente deformada do autor”. Caso clássico de rejeição ao reflexo do espelho).

“Descobrimos em nós a única substância verdadeira: eis porque tivemos de cavar abismos intransponíveis entre conhecer e fazer, entre alma e estrutura, entre eu e mundo, e permitir que, na outra margem do abismo, toda a substancialidade se dissipasse em reflexão; eis porque nossa essência teve de converter-se, para nós, em postulado e cavar um abismo tanto mais profundo e ameaçador entre nós e nós mesmos”, escreveu Lukács (e poderiam ser reflexões do diário de Pietchórin) no seu clássico A Teoria do Romance (1920), no qual caracteriza o herói problemático do “romantismo da desilusão”, aquele que esbarra no sem-sentido de um mundo burguês todo reificado, já que a costura épica que fazia necessária e possível a ação heroica foi esgarçada até romper-se:  Afortunados os tempos para os quais o céu estrelado é o mapa dos caminhos transitáveis e a serem transitados, e cujos rumos a luz das estrelas ilumina, inicia o grande pensador húngaro o seu ensaio.

Pietchórin, o herói do nosso tempo, tem a perfeita consciência disso, numa passagem de “O fatalista”:

“Voltei para casa pelas ruas desertas. A lua, cheia e vermelha como o clarão de um incêndio, começava a aparecer por trás da linha denteada dos telhados; as estrelas brilhavam plácidas no firmamento azul-escuro, e achei engraçado quando me lembrei de que, outrora, homens muito sábios imaginavam que os astros celestes influíam nas nossas insignificantes disputas por um pedaço de terra ou certos direitos imaginários!… Pois sim! Esses lampiões que eles supunham acesos apenas para iluminar-lhes os combates e triunfos brilham sempre com o mesmo esplendor, ao passo que as suas paixões e esperanças há muito se extinguiram junto com eles, como uma fagulha acesa na orla de um bosque pisada por um andarilho despreocupado. Mas, por outro lado, que força de vontade lhes dava a certeza de que todo o céu, com seus incontáveis habitantes, os contemplava com simpatia, silenciosa, é verdade, porém invariável!… E nós, seus mesquinhos descendentes, que vagamos pela terra sem convicções nem orgulho, sem prazer nem pavor, salvo aquele medo involuntário que nos oprime o coração quando pensamos no fim inevitável, já não somos capazes de grandes sacrifícios nem pelo bem da humanidade nem pela nossa própria felicidade, porque a sabemos impossível, e passamos indiferentes de uma dúvida a outra como os nossos antepassados se lançavam de um equívoco a outro, sem termos, como eles, nem esperança nem aquele prazer indefinido porém verdadeiro que a alma encontra em qualquer luta contra os homens ou contra o destino.

    Muitas ideias semelhantes ainda me passavam pela mente; eu não as retinha porque não gosto de me deter em nenhuma espécie de pensamento abstrato. Afinal, que se ganha com isso?… Na minha primeira juventude fui um sonhador: gostava de acalentar imagens ora lúgubres, ora radiantes que me pintava a imaginação irrequieta e ávida. Mas que me restou de tudo isso? Apenas o cansaço, como depois de um combate noturno contra fantasmas, e ainda uma recordação vaga e cheia de lamentações.  Nesta luta inútil gastei o ardor da alma e a constância da vontade, indispensável a uma vida real. Mergulhei nessa vida após tê-la vivido na imaginação, e senti  tédio e nojo como quem lê a imitação barata de uma obra que há muito se conhece.”

um herói do nosso tempo

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NOTAS

[1] Lemos no livro de Liérmontov: “Sem querer, fiquei impressionado com a capacidade do homem russo de se adaptar aos costumes dos povos entre os quais lhe ocorre viver; não sei se essa qualidade de sua inteligência é censurável ou elogiável; o fato é que ela mostra a sua incrível  flexibilidade e a existência daquele evidente bom senso que perdoa o mal em todos os lugares onde o considera necessário ou acha impossível extirpá-lo.

[2] Publicada em 1988 pela Guanabara e em 1999 pela Martins Fontes (que, deslealdade muito comum entre as nossas editoras, não faz nenhuma referência à edição anterior). O texto original, Герой нашего времени, foi publicado em 1840.

Nunca se poderá enaltecer suficientemente a importância crucial de Paulo Bezerra para um conhecimento maior (e direto) da literatura russa no Brasil. Não posso, entretanto, deixar de fazer um reparo quanto a um vezo que acabou se tornando incomodamente recorrente (e que torna árdua a leitura de suas traduções do romances dostoievskianos publicadas pela 34, por exemplo): a inflação de notas de rodapé. Será que é muito importante para o leitor saber, por exemplo, na própria página em que aparece o nome, e criando um ruído na fruição da bela tradução, que Ekaterinogrado é a “aldeia cossaca de Ekateronográdskaia, no norte do Cáucaso. Transformou-se posteriormente na cidade de Ekaterinodar, hoje Krasnodar”!!!??? Um glossário no final do volume, para os curiosos, seria muito menos intrusivo.

[3] O próprio Pietchórin confessa: “Não tenho aptidão para amizades. Entre dois amigos, um sempre é escrevo do outro, embora (…) nenhum dos dois o reconheça; ser escravo é coisa que não consigo, e mandar, neste caso, é um trabalho enfadonho porque além de tudo ainda é preciso enganar; além do mais tenho um criado e dinheiro!”

É preciso dizer que existe um componente inegável de subalternidade na amizade de Maksim Maksímitch com relação ao colega mais jovem.

[4] Incluído, em tradução de Aurora Fornoni Bernardini, na Nova Antologia do Conto Russo/1772-1998 (Ed. 34, 2011).

[5] Não esqueçamos que Pietchórin é movido pelo don-juanismo, pela necessidade de combater o tédio pela multiplicidade de experiências, pelo seu aspecto quantitativo, inclusive com relação às mulheres.

[6] Um aspecto vaudevillesco também se insinua no relato: há inúmeras cenas em que Pietchórin surpreende conversas a seu respeito, postado de uma forma que permanece oculto (é assim que ele descobre as tramas do antagonista contra ele). Assim, apesar de seus aspectos realistas e “modernos”, O Herói do Nosso Tempo paga seu tributo ao folhetim romântico.

As maquinações perversas em torno do duelo ganham um aspecto dolorosamente irônico, quando se sabe como foi o fim de Liérmontov.

[7] Nosso herói é profundamente hamletiano, como se vê.

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11/11/2014

O PROFUNDO DAS COISAS E A CONTORÇÃO DAS VÍRGULAS: a problemática edição de “Nossa Teresa- Vida e morte de uma santa suicida”

1michelinynossa teresa

“Tolerar, ao contrário do que se vende por aí, não significa aceitar, aceitar com plenitude, como requer qualquer verdadeira aceitação. Tolerar significa, antes, uma espécie de licença especial para que o outro, com seus exotismos e discrepâncias, possa existir. Tolerar é aguentar o outro apesar dele mesmo. É tomar xicarazinhas de café e sorrir no cumprimento, e, sob a impunidade das portas fechadas, sejam elas as de casa ou a do próprio coração, reconstruir o outro segundo os moldes que nos interessam e que no outro não se encaixam.” (trecho de Nossa Teresa)

“O profundo das coisas não está na pauta do dia. De nenhum dia.” (idem)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 11 de novembro de 2014)

Devido ao arrojo e à qualidade, inclusive dos projetos gráficos, a Patuá tornou-se o selo editorial independente mais prestigiado do país. É comum ver títulos do seu catálogo entre os finalistas dos prêmios mais badalados. E é bem possível que isso aconteça (não obstante certos reparos que farei a seguir) com um de seus últimos lançamentos, Nossa Teresa – Vida e morte de uma santa suicida, romance de estreia (após alguns livros de poemas) da pernambucana Micheliny Verunschk, aos 42 anos.

Em V., cidade interiorana onde a estatística de suicídios impressiona (“o suicídio em V. é uma doença antiga, mas as pesquisas não avançam, porque para analisar o tema a cidade se fecha em copas”), havendo um Cemitério dos Proscritos (o suicídio sendo anatematizado em todas as religiões — mas, se olharmos de perto, os mártires e santos não foram suicidas?) a fervorosa adolescente Teresa, cujo nome evoca outras figuras femininas da tradição católica, mata-se, abrindo caminho para que o ambicioso padre Simão ascenda na hierarquia da igreja até ser eleito papa. Ele, “que tinha consigo a certeza de que os caminhos para alcançar a mão de Deus são mais que tortuosos, incapaz por si próprio de ser um “santo homem de Deus, no entanto “não deixava escapar a íntima vontade de descobrir, lapidar, orientar a santidade de alguém.

A canonização de Teresa, com seus trâmites burocráticos e ligados ao mundo material e mercantil (“O que não contou para sua canonização , no entanto, foram as histórias de vida daqueles tantos que a sua mão, a força do seu exemplo, conduziu pelos caminhos  do suicídio, coisa realmente espantosa”), é a espinha dorsal do relato, feito por um narrador que, em razão de um “acidente isquêmico transitório” fica cego e a um só tempo guia o leitor e discute continuamente com ele, açulando-o (“foi como pás de terra sobre um vivo que eu quis compor essa narrativa, foi como uma tampa de madeira sobre um cataléptico que eu quis contar a minha história), através do passado de V., seus cidadãos suicidas, e também por delírios e êxtases religiosos (em meio à fome, à guerra, ao desconcerto geral do mundo), tais como o sebastianismo e o terrorismo movido pela jihad, compondo uma cartografia narrativa estilhaçada e múltipla do que a religião tem tanto de processo civilizatório quanto de instrumento da barbárie.

Agregadas, portanto, à curta (em número de anos vividos) e longa (após a morte) existência simbólica de Teresa, outras autoimolações, como a de Severa, grávida do professor do filho, futuro escritor famoso, ou a de Samir, que explode um avião, como ato de fé; biografias que a narrativa sugere, mas não desenvolve, como a de outra Teresa, que daria “um livro igual a esse que você lê agora. Talvez até melhor; e mesmo aqueles que não se suicidaram, nem por isso deixaram de ser afetados pelo ato, como os pais de Teresa, recusando a devoção em torno da filha.

Nossa Teresa apresenta até uma virtual biblioteca de suicidas (também uma Babel, pois há na essência das mensagens para os que ficam “uma importante falha no ato comunicativo”)[1]. Outro momento a destacar é o capítulo de depoimentos de diversos conterrâneos da santa. Aí, temos a medida do talento inegável de Micheliny Verunschk.

Infelizmente, houve açodamento no lançamento do livro. É evidente que, com seu background poético, sua verve narrativa e o escopo temático que sua inventiva explora, seu texto não está suficientemente lapidado: “nenhuma vírgula se contorce se não for para o bem da exatidão, afirma o narrador, em suas contínuas espicaçadas no leitor. No entanto, não é o que constatamos ao longo do leitura. Há imagens e afirmações de gosto duvidoso, passagens de prosa inflada e que pouco acrescentam ao vigor da narrativa, escorregadelas em lugares comuns (o que é bem diferente de trabalhar criativamente com afirmações repisadas do tipo “do pó vieste, ao pó voltarás” ou “nada de novo sob o sol”)[2] e assustadores deslizes gramaticais, inaceitáveis numa autora que trabalha em alta voltagem de linguagem[3].

Todos cometemos erros aqui e ali, parece quase inevitável, e nesse ponto é que entra o crucial trabalho de editoração; por isso, a publicação de Nossa Teresa, tal como está, foi bastante precipitada e inglória: além da ausência, de revisão do texto digna do nome (o que Flávio Rodrigo Penteado, o responsável, fez exatamente?), a impressão acrescentou outros horrores, separando palavras, de uma linha para a outra, de maneira bisonha[4].

Tal como está, Nossa Teresa ficou como o arcabouço apaixonante de uma obra que pode, ainda, transformar-se num exemplo relevante da nossa ficção recente, digna de todos os prêmios. Por mais que respeite tanto o arrojo da autora como da editora (caso não esmoreça no nível de qualidade, sua marca até agora), uma segunda edição, completamente revisada, se faz urgente.

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NOTAS

[1] “O que significam a carta, o bilhete, a anotação feita às pressas, o diário, o poema, o testamento do suicida? Quantas tristes, curiosas, eloquentes,  saudosas, raivosas mensagens se acumulam nas palavras finais daquele que nos deixa. Quanta culpa deixou de herança o seu suicida? Você a partilhou com quem? Com um? Com muitos? Com nenhum? É uma exclusividade sua, a qual acaricia como a um animalzinho insone nas horas mais terríveis? Acaso conseguiu esquecê-la? Não se despreza um presente, ainda que este seja uma mágoa.

   Teresa não deixou uma linha sequer. O que queria dizer ela com isso? (…) Não será importante esse pedaço de papel, por mais ínfimo que seja (…) pelo menos para tentar comunicar o incomunicável?

    Teresa brinca entre as exceções , mas a regra diz que , caso se quisesse, poderia ser erguida uma Biblioteca de Babel com todas as mensagens desses náufragos (…) Em V., a sucursal dessa biblioteca imaginária não seria tímida, bem sabemos. O prédio para abrigá-la poderia ser apropriadamente a antiga casa colonial da Rua do Mercador, a mesma na qual nascera e morrera Luis Osvaldo de Azevedo. É de praxe esse tipo de homenagem a escritores, embora haja quem prefira saudá-los com um nome de rua ou praça ou até com uma estátua mal-ajambrada numa localidade qualquer em que o dito desavisadamente passou. Soubesse que o colocariam ali em duro metal, estático à merda dos pombos e maus cheiros de toda ordem da cidade, teria mudado de trajeto, talvez de trajetória.

   A biblioteca dos suicidas de  paredes verdes por fora e vermelha por dentro sugeririam um aconchego de fruto ou a queda num poço. Eu poderia ser o bibliotecário. Sou vaidoso e gosto do papel. Me orgulharia de saber a exata localização de cada volume. As mensagens, encadernadas, catalogadas, organizadas por tema (morte por tiro, defenestração, envenenamento, enforcamento, asfixia por gás), sexo, idade, motivos aparentes (desilusão amorosa, dívida, problemas familiares, desajuste social) e, claro, maravilha das maravilhas, tudo estaria ligado em rede compondo uma árvore com infográficos, fotografias, relações de todas as espécies inclusive com suicidas  de outros lugares, famosos e anônimos. E eu, já cego, como cabe a todo genuíno bibliotecário, saberia os lugares e movimentos de todos pelo tato, pelo gosto,  pelos cheiros, pela audição, pelo sentido ultrassuperior que agrega todos os outros sentidos quando se é cego. E eu sentiria os movimentos dessa biblioteca pela respiração.”

[2]  “A vida não é uma novela. Seria, antes,  como tenho dito,  um novelo”!!!????

[3] Cf, por exemplo, págs. 123 e 140.

[4] Cf, por exemplo, págs. 36, 52, 125, 132.

nossa teresa resenha

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