MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

19/05/2016

O HOMEM QUE PREFERIA NÃO FAZER

Herman Melville Bartleby, o escrevente

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em dezessete de maio de 2016)

 

“Preferiria não fazer (I would prefer not to) ”, uma das afirmações mais célebres da literatura ganha tradução de Tomaz Tadeu, pela editora Autêntica: Já houve muitas outras; até agora, a minha favorita era a de Luís de Lima (Rocco); Pinheiro de Lemos traduz de maneira bem eficaz: “Preferia não fazê-lo” José Olympio; Confesso que não gosto da solução de Irene Hirsch: “Acho melhor não” (Cosac Naify), sem graça e no fundo pouco poética.
Estou falando da desconcertante recusa do personagem – título de Bartleby, o escrevente (1853), em cumprir as tarefas designadas a ele pelo patrão, o narrador, dono de um escritório em Wall Street. A situação se complica porque mesmo demitido, Bartleby se recusa a deixar o local de emprego (o qual transformou-se em moradia: “De pronto senti todo o drama: Que solidão e desamparo terríveis estão sendo revelados aqui! A sua pobreza é grande, mas a sua solidão… que horror! Pensem nisso. Num domingo, Wall Street é tão deserta quanto Petra, e todas as noites de todos os dias são um imenso vazio. E até este edifício, que nos dias de semana fervilha com vida e labor, à noite ecoa de tão absoluta inatividade e durante todo o dia dominical jaz abandonado. E é daqui que Bartleby faz seu lar…”). Apesar da irritação e dos problemas que o estranho individuo lhe acarretam, esse patrão acaba sentindo-se responsável pelo seu destino. Na verdade, é como se no mundo capitalista se infiltrasse um vírus de não-produtividade que colocasse em xeque todas as regras da economia e da hierarquia social.
Herman Melville escreveu uma obra prima muito adiante do seu tempo. Bartleby é um personagem que antecipa todos os anti-heróis do século seguinte, e até do nosso.  O autor de Moby Dick era realmente um visionário e poeta da prosa.
Por isso não apreciei a solução de Irene Hirsch para a emblemática declaração do bizarro escrevente. Há poesia na recusa de Bartleby, pois é uma recusa dentro de uma formulação da Possibilidade: “prefiro”, “preferia” ou “preferiria” não fazer, ou seja, há a possibilidade de fazer, mas abriu-se um pequeno e decisivo lapso: a “preferência”. Não é uma recusa propriamente dita: não vou fazer. É uma preferência que, manifesta, abole a possibilidade de fazer o que é solicitado. É minha opinião que tudo isso se perde no “acho melhor não”.
A superioridade indulgente do patrão sofre um profundo arranhão: “Pela primeira vez em minha vida, fui tomado por um sentimento de opressiva e doída melancolia. Eu não conhecera até então senão uma leve e nada desagradável tristeza. O laço comum da humanidade fez com que eu fosse golpeado por um irresistível desalento… Pois tanto eu quanto Bartleby éramos filhos de Adão”.
              Mas como todo texto em que o narrador nos fala de outro individuo, ele – mesmo sem o saber – termina por se revelar tanto quanto o seu objeto de estudo o interesse. Um dos mistérios de Bartleby, o escrevente é o mal-estar e a má consciência do patrão. Tente, caro leitor, descobrir o porquê mergulhando em páginas inesquecíveis. É mais ou menos como descobrir se Capitu traiu Bentinho.

VER AQUI NO BLOG: https://armonte.wordpress.com/2011/09/27/parede-e-muro-o-medico-e-o-mutismo-do-monstro/

Bartleby, o escrevente - Jornal

10/05/2016

Destaque do Blog: CORPO DE BAILE, de João Guimarães Rosa

Guimarães Rosa      João Guimarães - Corpo de Baile VOL 1

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Depois de décadas reordenadas em três livros diferentes (Manuelzão e Minguilim; Noites do Sertão; No Urubuquaquá, no Pinhém), o leitor pode encontrar finalmente as sete estórias – para utilizar um termo caro a João Guimarães Rosa – de Corpo de Baile na formação original de 1956, em dois volumes.

O primeiro é composto por três textos sensacionais: Campo Geral; Uma Estória de Amor e A Estória de Lélio e Lina. Minguilim é o protagonista de Campo Geral, certamente o texto mais famoso de Guimarães Rosa, depois de Grande Sertão: Veredas. E embora haja várias narrativas incríveis evocando o mundo da infância, é provável que nenhuma seja tão inesquecível quanto a história do menininho que vive “em ponto remoto, no Mutúm”. Hipersensível, míope (até que lhe coloquem óculos), ligadíssimo na mãe e no irmão Dito (cuja morte é o centro dramático do texto), com um pai ignorante, violento e desconfiado, Minguilim faz com que participemos da sua “descoberta do mundo” de uma forma que nos devolve nosso próprio sentimento de infância. É uma ótima iniciação para quem quiser conhecer pela primeira vez o universo do nosso maior escritor pós-Machado.

Campo Geral sempre eclipsou injustamente Uma Estória de Amor (festa de Manuelzão), uma obra-prima. Seu protagonista é o encarregado da fazenda Samarra, o qual, finalmente estabelecido na vida, resolve inaugurar uma capelinha nas terras do seu patrão e, por conta disso, suspender a labuta da vida numa grande festa: “Amanhã é que ia ser mesmo a festa, a missa, o todo povo, o dia inteiro. Dião de dia! ”

Manuelzão, em meio à festa, descobre-se numa encruzilhada. Sua saúde já não é tão boa, a morte não é tão remota, ele tem medo de retornar à miséria na qual nasceu, e pesa-lhe não ser o dono do lugar, ainda que respeitado. Tem um filho do qual não gosta nem respeita, numa atração inequívoca pela nora. Mas o que a festa começa a desmanchar nele é a alienação de si mesmo, de quem sublimou no trabalho ininterrupto todas as perplexidades da vida. Nem novo (como os vaqueiros que se divertem) nem velho (como Seo Camilo, a quem recolhe como agregado ou o Senhor de Vilamão, um latifundiário caduco), ele sente solidão de quem tem que estar em atividades constantes para não cair na angústia.     Enquanto Miguilim descobria o mundo, Manuelzão tenta redescobrir o seu sabor dificultosamente, através das estórias contadas na festa pelos representantes daqueles seres que não se consomem na luta pela vida, párias de uma sociedade obcecada pelo produtivo: Joana Xaviel e Seo Camilo, figuras que atraem Manuelzão assim como o irmão de sua nora, Promitivo, com sua vadiagem simpática, enquanto o filho trabalhador lhe causa antipatia.

No Pinhém, noutra fazenda, transcorre a intriga da belíssima Estória de Lélio e Lina: o jovem vaqueiro Lélio, forasteiro no lugar, tem a idosa Dona Rosalina, num singular caso de amor entre idades antípodas, para atar os fios da sua educação sentimental em meio aos companheiros de trabalho e às mulheres, solteiras, casadas ou “para uso” da região. Um trecho pode esclarecer o que se passa entre eles: “Isso aos outros Lélio não podia explicar, repetido longe dela aquele fraseado se esfriava de valor, era preciso escutar direto quando ela falasse, era preciso gostar da velhinha. Dizia aquilo, o siso da gente achava que ela estivesse ensinando outro poder inteiro de se viver”. Poucos textos da nossa literatura têm momentos tão bonitos quanto aquele em que Lélio e Dona Rosalina se conhecem, ou aquele da visita dele à amante, Jiní, esposa de Tomé (ele, irmão de Miguilim), após a partida do marido, em que ele sente o estrago feito pelo adultério, a ausência do amigo, atração sexual, repulsa, tudo ao mesmo tempo. Como todos os maiores escritores, Guimarães Rosa é tanto um fabulador quanto um psicólogo, um filósofo, um pedagogo das emoções, ou, resumindo tudo, um arqueólogo das relações humanas como Irving Howe chamava Doris Lessing. (Continua na próxima semana).

(Uma versão da resenha acima foi publicada originalmente em três de maio de 2016 em A TRIBUNA de Santos)

 

 

João Guimarães - Corpo de Baile VOL 2

 

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Na semana passada, comentei o primoroso primeiro volume com três tas sete estórias de Corpo de Baile. O segundo é mais irregular e desarmônico, porém representa um experimento de linguagem quase ímpar em nossa prosa.

O Recado do Morro, o texto de abertura, é uma obra-prima na qual a tentativa de assassinato do galã sertanejo, Pedro Orósio, que está guiando um estrangeiro (que parece ser uma brincadeira de Guimarães Rosa consigo mesmo, a respeito da sua mania de anotar tudo), um padre e um fazendeiro pelas serras de Minas, por parte de sete desafetos, é desmascarada através de uma série de indícios revelados por miseráveis, simples de espíritos, loucos místicos, crianças, até que um cantador os recolhe e organiza numa forma que dá chance a Orósio de préfigurar seu destino, escapar dele e voltar ao seu lugar de origem. Objeto de estudos até obsessivos, é um daqueles textos que já valem a obra inteira. Por um simples motivo: é uma leitura deliciosa, saborosa, um fino biscoito fabricado com malícia e artimanha por alguém que estava em vias de revelar a maior pirâmide (Grande Sertão) da nossa literatura.

O protagonista de Lão-Dalalão é Soropita e ele está voltando para casa, “em meio-sonhada ruminação”. Ex matador famoso, acabara casando com uma prostituta de Montes Claros, Doralda e tornando-se fazendeiro, “dono de seus alqueires”: “todos o respeitavam, seu nome era uma garantia falável”. Só que, no caminho, esbarra com Dalberto, antigo companheiro dos tempos de vaqueiro e, como é de praxe, é obrigado a acolhê-lo como hóspede, embora tencione até mata-lo. Por quê? Devido à possibilidade de Dalberto ter conhecido Doralda na sua época de quenga, o que destruiria seu bom nome na região, mas também por ciúme. Soropita pertence à galeria dos grandes ciumentos retrospectivos (obcecados com o passado amoroso da amada) cujo grande representante na nossa ficção é o Bentinho de Dom Casmurro. Além de Dalberto, Soropita também fica tomado pela cisma de que Doralda pudesse ser conhecida (em todos os sentidos, inclusive bíblico) pelo “preto Iládio”, em razão de um violento ódio racial, materializado em violentas imagens sexuais.

Aliás, o que faz com que Leão-Dalalão seja uma das obras-primas de Guimarães Rosa é a maneira como ele insinua no texto a voltagem erótica (e psicologicamente intrincada) das fantasias sexuais de Soropita, que chega a imaginar Doralda na cama com Dalberto no momento mesmo em que este lhe confidencia a paixão por outra prostituta e a sua vontade de casar com ela.

No Urubuquaquá, temos a fazenda do personagem-título de Cara-de-Bronze, um dos relatos mais desafiadores de Rosa e um dos raros que justificariam a fama de difícil, quase ilegível. Ele abusou tanto da sua inventividade que, na tentativa de desdobrar os planos do texto, colocando até notas de rodapé, acabou forçando a barra em dois aspectos: ao propor um inconvincente roteiro cinematográfico no meio da narrativa e, de forma mais pernóstica ainda, ao incluir no rodapé referências a Goethe e Dante, com citações não traduzidas em alemão e italiano.

Nem por isso é menos fascinante o grande coro de vaqueiros que comenta a volta do Grivo (o qual já foi companheiro de infância de Minguilim, em Campo Geral) da enigmática viagem ordenada pelo patrão. O que o Grivo foi fazer, o que foi buscar? Qual a missão confiava a ela? Talvez trazer notícias da vida de Cara-de-Bronze perdeu no processo de ser latifundiário, “ajuntando suas duras riquezas” (há um certo paralelo com a situação do protagonista de Festa de Manuelzão): “Eu estava cumprindo lei. De ver, ouvir e sentir. E escolher”. A viagem do Grivo (durante a qual ele esbarra em Nhorinhá, aquela mesma que aliviava os dilemas da paixão de Riobaldo por seu colega jagunço, em Grande Sertão) dá vazão ao amor de Guimarães Rosa pelo nome das coisas, dos lugares, dos seres, num atordoante inventário-catálogo enumerando o mundo que escapou ao desalentado perrengue Cara-de-Bronze, cujo verdadeiro nome, como de praxe no universo roseano, passa por várias metamorfoses (Sigisbé, Sijisbel Saturnim, Xezisbéo Saturnim, Zijisbéu Saturni, Jizisbéu Saturnim, Sezisbério, Segisberto Saturnino).

(Também complicada, contudo não tão perfeita como realização artística, é a ciranda amorosa de Buriti a narrativa mais longa escrita pelo genial autor mineiro, tirando Grande Sertão. Nela reaparece o Miguilim de Campo Geral, agora médico e adulto, “estrangeiro” de sua terra natal. Ele chega à fazenda do Buriti-Bom (na região há um colossal buriti, um símbolo fálico gritante), uma espécie de pórtico para os Gerais. Ela pertence a iô Liodoro, patriarca-garanhão, o qual todas as noites sai para se satisfazer com suas várias mulheres. Na casa, há três moças: Lalinha, nora de iô Liodoro, que foi busca-la na cidade grande quando o filho a abandonou e a trouxe para viver com a família num estado de espera pela volta do marido, alimentado por rezadeiras e mandingas; Glorinha, assim como a feiosa Maria Behú, é filha de iô Liodoro (e todos são parentes da inesquecível dona Rosalina, de Estória de Lélio e Lina, outro texto de Corpo de Baile) e será a amada do titubeante, hesitoso e angustiado Dr. Miguel.

Buriti demora a engrenar. Começa sob o ponto-de-vista de Miguel (alterando dois tempos diferentes e um deslizar suave entre a 1ª e a 3ª pessoas) e oscila entre momentos geniais e cansativos. A arte de Guimarães Rosa às vezes beira a monotonia de tanto reiterar os mesmos pontos e o leitor tem a imprenssão de que ele não soube encontrar o “ponto” do bolo. Em compensação, quando o ponto-de-vista passa a ser o da Lalinha, o texto cresce em intensidade, precisão e sofisticação ao nos fazer compartilhar das noites em que sogro e nora (iô Liodoro e Lalinha) se comprazem num jogo de sedução peculiaríssimo, mostrando que as noites do sertão nada ficam a dever a D.H. Lawrence ou a qualquer outro mapeador da presença do desejo em nossas existências.

(Uma versão da resenha acima foi publicada originalmente em dez de maio de 2016 em A TRIBUNA de Santos)

Livros - Capas da 1ª Ed. - Corpo de Baile

Corpo de Baile - Vol. 2 - Jornal Corpo de Baile - Jornal

 

 

24/04/2016

OS 400 ANOS DA MORTE DE CERVANTES

Filed under: autores centrais — alfredomonte @ 11:53
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CERVANTES

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em dezenove de abril de 2016)

 

Ao que parece, Shakespeare e Cervantes morreram no mesmo dia: 23 de abril de 1616. Não se sabe se isso corresponde à estrita verdade dos fatos, mas como lenda literária é uma beleza, pois os dois criaram os mais duradouros personagens da Era Moderna, Hamlet e Dom Quixote.

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Vladimir Nabokov, o autor de Lolita, considerava Dom Quixote  “antiquado, sórdido e grosseiro”. Trata-se de uma exceção porque o livro de Cervantes (cujo primeiro volume chega, em 2005, aos 400 anos), é particularmente amado por todos os que gostam de ler e que veem em seu protagonista um símbolo da curiosa atividade que é a leitura.

O genial escritor do século XVIII Laurence Sterne faz várias referências brincalhonas e carinhosas a Cervantes em seu extraordinário (e quixotesco) Tristram Shandy“Gentil Espírito do mais brando humor, que outrora pousaste na pena desembaraçada do meu amado Cervantes”, lemos, por exemplo, no capítulo 24 do volume IX.

Cervantes (1547-1616) passou muitos anos como prisioneiro em Argel, até que conseguissem pagar seu resgate (era época de corsários e guerra com os árabes, e tudo isso permeia seu grande romance). Publicou O Engenhoso Fidalgo em 1605, quando se encontrava empobrecido e esquecido, e o sucesso foi tamanho e o livro se difundiu de tal forma que alguém (certamente um inimigo literário, que utilizou o nome de Alonso Fernando de Avellaneda), em 1614,  publicou a continuação apócrifa das aventuras da dupla Quixote-Sancho Pança (na verdade, esse falso Quixote não é destituído de graça), ainda que no final do original aparecesse até o epitáfio do herói (junto com os epitáfios de Sancho, de Dulcinéia e até do cavalo Rocinante).

No ano seguinte, apareceu então o segundo livro, O engenhoso Cavaleiro D. Quixote de La Mancha (já que num dos episódios mais divertidos e irreverentes do primeiro o dono de uma estalagem sagra como cavaleiro o fidalgo enlouquecido pela leitura de romances de cavalaria), poucos meses antes da morte do autor. Ele queria que, através das aventuras farsescas (e aí entram os famosíssimos episódios da luta contra moinhos de vento ou contra odres de vinho, que se afiguram gigantes a D. Quixote, rebanhos que viram exércitos inumeráveis, estalagens que se tornam castelos, etc) dos seus dois heróis, jogados no mundo que nada tem de idealizado, e através de um humor nem sempre brando e sim às vezes bastante escrachado, os leitores sentissem a insuficiência da literatura ligada aos feitos heroicos, tema amplamente discutido, em vários momentos; o principal deles, quando D. Quixote é conduzido, enjaulado,  a sua casa –acreditando-se enfeitiçado– pelo cura e pelo barbeiro da sua aldeia, e o primeiro deles conversa com um cônego, e é aí que Cervantes expõe de forma clara seus pontos-de-vista e faz profissão de fé do tipo de relato ficcional e de teatro que ele gostaria que fossem  praticados, além de colocar a teoria em prática nos diversos relatos intercalados à história principal.

O que ele acabou realizando foi o paradigma da ficção ocidental, praticada a partir dele, o livro-referência de todos os romancistas (Nabokov que resmungue à vontade). Ou alguém pensa que a matriz da jornada de Frodo e Sam Gamgi (sem contar a própria relação entre eles), em O senhor dos Anéis, é outra?

DOM QUIXOTE

 

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Quando se lê com atenção O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de La Mancha fica impossível não se constatar que, há 400 anos, o mundo muçulmano já assombrava, como hoje, o Ocidente e fazia parte do seu imaginário, obrigando-o também a lidar com seu mal-estar (e sua má fé) diante de uma alteridade tão evidente. Sancho Pança sempre se refere aos defeitos e destemperos dos mouros e na constelação de monstros e no bestiário do romance as alusões a eles são constantes também; há até uma das novelas intercaladas à narrativa principal (a história do Cativo, ocupando três longos capítulos) que evoca a vida de Cervantes, prisioneiro-refém em Argel durante muitos anos.

As novelas dentro do romance são outro aspecto fascinante. Ao colocar na boca de certos personagens (o cura da aldeia de D. Quixote, em sua conversa com um cônego, quando traz de volta para casa, enjaulado, o fidalgo lunático, o qual crê estar enfeitiçado) sua severa condenação à prática ficcional das novelas de cavalaria e ao teatro de seu tempo, Cervantes está propondo uma outra prática de ambos, de que ele seria o representante (já que não se furta a citar o próprio nome em seu texto, ou insinuá-lo).

O ponto central da argumentação está na inverossimilhança, no exagero, no fato de que as novelas de cavalaria não têm estrutura discernível (portanto, uma condenação formal), enquanto que o teatro da época está infestado de lances inconvincentes destinados a embasbacar o público crédulo. Certamente há aí intenção polêmica e vingativa com relação a inimigos literários, notadamente Lope de Vega, o autor de “Fuenteovejuna”. No prefácio ao 2º volume, essa atitude se reafirmará, pois, contra-atacando, ele mira detratores e rivais, inclusive plagiadores que usaram seu personagem, obrigando-o a escrever uma continuação, O Engenhoso Cavaleiro Dom Quixote de La Mancha, publicada um ano antes de sua morte.

Qual seria o procedimento em contrário? Este apresentará uma contradição  instigante e produtiva: criticando a irrealidade e a falta de forma, Cervantes não pode se escusar de ver a trama de um feitio teatral (e fundamentalmente vaudevillesca, tanto nas partes, como na novela do “Curioso Impertinente” quanto no todo do livro), fazendo com que todos os seus personagens, que são de diferentes lugares e esferas sociais possíveis, se encontrem, quase que se acotovelando (é isso mesmo, chega a faltar espaço), por assim dizer, na humilde estalagem que a D. Quixote parece um castelo encantado. Tirando isso, e também as convenções que de tão visíveis se tornam risíveis e até ingênuas (toda heroína é a mais bela mulher do mundo, só que ele reúne quatro delas num mesmo local; todos infalivelmente sempre choram juntos quando cada personagem toma a palavra e conta as suas desventuras), o que vemos é um tipo peculiar de ficção impondo-se: a novela sentimental, onde um fundo aventuroso não impede a interiorização, a discussão às vezes profunda dos sentimentos.

Ficamos com a impressão de que as aventuras trapalhonas de D. Quixote e Sancho Pança são apenas a moldura desse que é o verdadeiro cerne, o miolo da obra (embora não seja o que tenha ficado de mais marcante para a posteridade; quem é que lembra da história do Curioso Impertinente ou do Cativo, enquanto todos citam os moinhos de vento, ou Dulcinéia, até sem ter lido o romance). Enfim, o que está supostamente apenas intercalado à aventura principal é o que Cervantes gostaria que estivesse sendo lido e representado (sendo ele o principal autor, é claro) em seu tempo, uma vez que as fascinantes e amalucadas andanças do Cavaleiro da Triste Figura e seu criado representam a liquidação de um gênero anterior.

CERVANTES JORNAL

05/04/2016

O POUCO MENOS QUE A BÍBLIA: O 150 anos de “Crime e Castigo”

Filed under: autores centrais — alfredomonte @ 14:40
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VÁRIOS ROMANCES NUM SÓ: OS 150 ANOS DE CRIME E CASTIGO

ca. 19th century --- Portrait of Russian novelist Feodor Dostoyevsky (1821-1881).  Undated photograph. --- Image by © Bettmann/CORBIS

(Resenha publicada em A TRIBUNA de Santos em 04 de abril de 2016

Crime-e-Castigo

 

 

Quem já leu CRIME e CASTIGO jamais consegue esquecer determinadas cenas desse magistral romance de Dostoiévski publicado há 150 anos. Sem contar atmosfera toda, permeada pelo assassinato da velha usurária e de sua irmã, temos por exemplo o momento em que o protagonista Raskólnikov, na primeira visita em que faz para a prostituta Sônia, inclina-se e beija seus pés, dizendo: “Eu não me inclinei diante de ti, eu me inclinei diante de todo o sofrimento humano”.

Algum outro autor que não fosse um Dostoiévski conseguiria partir o coração do leitor com uma cena tão potencialmente ridícula (e, aliás, não faltam elementos “ridículos” em todos os grandes textos do genial autor russo)?

O mesmo Raskólnikov, muito tempo depois, na Sibéria, sofre o impacto da revelação do seu amor por Sônia (a quem tratava tão mal, apesar de ela ser a “representante viva do sofrimento humano”), ao olhar pela janela do hospital da prisão: “Ela estava em pé e parecia esperar algo. Nesse momento alguma coisa cortou o coração de Raskólnikov”. E do leitor também, por mais que lute contra essa emoção quase masoquista.

E o suicídio do inesquecível vilão psicológico que é Svidrigáilov (apaixonado por Dúnia, irmã de Raskólnikov), estourando os miolos e dizendo: “Para a América”?

E as maravilhosas cenas que envolvem Catierina Ivánovna (madrasta de Sônia), a personagem feminina mais marcante de um livro onde não faltam personagens marcantes? A reunião de exéquias do marido dela, a sua loucura pelas ruas de Petersburgo, e a sua morte (ela é tuberculosa) são momentos indescritíveis, que mostram bem a diferença entre ler uma cena inesquecível e comentá-la.

É engraçado haver tanta gente que lê histórias “edificantes”, de “superação” (quando não religiosas), e CRIME e CASTIGO, essa obra-prima da literatura, é o livro mais edificante e religioso já escrito. Todo o processo narrativo consiste em humilhar o orgulho intelectual de Raskólnikov, que o levou a cometer um crime para verificar se pertencia à família dos grandes homens (a quem é “permitido tudo”), até que ele aceite com humildade a sua redenção através do amor cristão de Sônia. É duro de engolir, é piegas, leitor, é isso que você está pensando? Experimente, então, ler impunemente o romance. Todos os julgamentos desse tipo ficam suspensos diante de Dostoiévski.

Teatro, folhetim, drama psicológico e metafísico, parábola de redenção mística, debate de ideias, painel social. É isso CRIME e CASTIGO e a obra desse russo que viveu de 1821 a 1881: é apenas um pouco menos que a Bíblia: “Sim, mas como matei? Aquilo lá é jeito de matar? Por acaso alguém vai matar como eu fui naquele momento? Algum dia eu te conto como eu fui. Por acaso eu matei a velhota? Foi a mim que eu matei, não a velhota! No fim das contas eu matei simultaneamente a mim mesmo, para sempre”.

Crime e   cASTIGO

 

 

22/03/2016

Destaque do Blog: OS HERDEIROS, de William Golding

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William-Golding

(Resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 22 de março de 2016)

 

Ao longo de sua carreira, William Golding nunca mais repetiu o sucesso de sua estreia com Senhor das Moscas (1954). Entretanto, ele escreveu obras ainda mais geniais a respeito da natureza da humanidade, dos ritos civilizatórios de agregação e exclusão, como no caso do seu romance seguinte, Os Herdeiros (1955), que acaba de sair em tradução pela Alfaguara.
Seu protagonista é Lok, jovem homem-macaco que, com seu clã (mais sete indivíduos), procura a segurança de uma plataforma rochosa, após o inverno. Inesperadamente são atacados por criaturas diferentes, que se vestem com peles e que mantêm estranhos rituais.

Lok é um dos poucos sobreviventes dos ataques e, observando os costumes do “povo novo”, vai desenvolvendo um misto de fascínio e de terror diante de seus procederes cotidianos. O que Lok não imagina é que para o “povo novo” ele é um demônio, uma ameaça.
Podemos ler, então, a obra-prima de Golding como uma parábola a respeito das estruturas instintivas e emocionais através das quais se constituiu o ser humano, e também de sua incapacidade em compreender a alteridade, a existência do Outro. Nesse sentido, é bem esclarecedor o clímax, após uma hecatombe da natureza que provoca a fuga do “povo novo” (levando um bebê do clã de Lok). O herói sobrevive, irremediavelmente solitário. Na última imagem que temos dele, quando o autor despoja-o cruelmente até do seu nome—mencionando-o como “a criatura”—, como se o estivesse deixando para trás no passado, ele está ao da “figura” que dele fez um membro do “povo novo”. Portanto, temos juntos uma “imagem”, uma das formas da Humanidade de representar sua mente, de dar forma ao conteúdo dela, de racionalizá-la, em seus medos, suas visões e suas fantasias, e o próprio ser representado, em sua realidade irredutível.
O pessimismo de Golding é tal que, no capítulo seguinte, o último, ele mostra Tuami, membro do “povo novo”, sonhando em utilizar num companheiro de grupo a faca que está fazendo.
O que impressiona no Nobel de 1983 é que ele é um dos raros grandes autores contemporâneos que se atêm à narrativa. Seu estilo parece até pobre, às vezes, pois ele procura expressar tudo através da ação e da reação dos personagens e da descrição intensa do ambiente físico. Não há discursos, digressões, moral da história ou reflexões por parte do narrador.
Ele também escapa totalmente do estereótipo do escritor “que faz pesquisas”. Os Herdeiros é um livro ambientado na pré-história, mas não há nenhuma tentativa de criar verossimilhança histórica ou “clima de época”.
O autor de Homens de Papel descreve mecanismos de ação do ser humano, diante da natureza, dos outros seres, dos próprios sentimentos e percepções. Isso, por si só, já cria um poderoso efeito convincente para a história de Lok, do seu clã e do “povo novo”, e se o livro nada tem de “histórico”, também não cai no tom fácil da “fábula”, do universozinho inventado para provar algo. O que significa, somando tudo, que William Golding escreve textos extremamente originais.

Resenha Jornal

16/03/2016

O QUIXOTE KAFKIANO: “O Castelo”

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Franz Kafka Kafka O CASTELO

(Resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 08 de março de 2016).

Há 90 anos, Max Brod – mais uma vez desobedecendo às determinações de Franz Kafka – publicou postumamente a obra-prima da maturidade do amigo falecido em 1924: O Castelo, extraordinária alegoria da condição humana, ao mesmo tempo terrível e cômica (da qual o agora consagrado Michael Haneke fez uma versão quase didática – para o bem ou para o mal – em 1997).

Ao se pensar em alegoria, se pensa imediatamente na sua decodificação inequívoca: alegoria de quê? Infelizmente, as coisas não são tão fáceis com Kafka, e temos de fazer eco ao lamento de vários comentadores das suas obras: que interpretação dar para a história de K., que chega à aldeia dominada pelo Castelo do Conde Westwest e se apresenta como agrimensor contratado? Como se sabe, houve um erro nos trâmites administrativos e essa contratação era desnecessária. Oferecem a K. emprego como zelador da escola da aldeia, em meio à confusão que ele arranja não só por suas tentativas malogradas de entrar em contato com o alto escalão do Castelo (especialmente Herr Klamm), como também por se tornar amante de Frieda (a quem todos no lugarejo atribuem uma ligação com Klamm), encarregada do bar na Estalagem dos Senhores, isto é, utilizada pelo pessoal administrativo do Castelo como se não bastasse, ele também se torna íntimo de uma família proscrita na aldeia, cuja história ocupará boa parte do romance e espelhará a de K.

  1. é isso: um erro administrativo. Sua individualidade é o elo mais frágil e fantasmagórico de uma incessante tramitação burocrática de memorandos, dossiês e processos. Ele, com teimosa paciência, tenta afirmar-se enquanto indivíduo, entretanto malogra porque ninguém consegue compreendê-lo, é sempre aceito ou rejeitado pelo cargo que ocupa ou não ocupa (agrimensor ou zelador) ou pela situação de seu processo no Castelo (que se parece muito com um julgamento).

Quando encontra um interlocutor, como Amália e Olga, as irmãs proscritas, ou Pepi, substituta de Frieda no bar da Estalagem dos Senhores, esse interlocutor é quem toma a palavra e monologa interminavelmente sobre suas próprias desventuras.

Foram citadas, neste meu texto, as mulheres da história: Pois há uma atmosfera difusa e viscosa de sexualidade em O Castelo, a qual parece ir minando a força do herói, ou melhor, parece ser a única dimensão em que se permite a ele alguma ação, ainda que leve a diversos equívocos. Esse clima promíscuo liga-se à opressão do Castelo na medida em que se anula o que é privado e o que é público no romance: quando K. e Frieda transam no bar da Estalagem dos Senhores pela primeira vez, o ato é assistido pelos ajudantes de K. recrutados pelo Castelo, os quais testemunham igualmente toda a intimidade do casal quando passam a morar juntos, e não apenas os ajudantes como também criadas, professores, alunos. Dificilmente há um momento na narrativa em que K. consiga ficar sozinho e geralmente nesses parcos momentos ele está perdido.

O grande autor de Praga escreveu alguns textos sobre filhos oprimidos (O veredicto, A metamorfose), numa clave mais evidentemente autobiográfica. Em seus dois grandes romances (O processo é o outro) tudo se complica: filhos sem pais se lançam no mundo, literalmente perdendo-se e desorientando-se, o que demonstra como ele reelaborou ao extremo os resíduos biográficos na sua obra, tornando a interpretação mais complexa e tortuosa.

Milan Kundera afirmou que o romance começava com as aventuras de Quixote e o caminho desse gênero literário terminava com as tentativas quixotescas de K. de alcançar o Castelo. É a mais pura verdade. Quase um século depois, continuamos em volta dele.

 

Kafka - CASTELO

COMO SE O IMPOSSÍVEL NÃO FOSSE: OS CONTOS DE “NOVE, NOVENA”

Osman Lins NOVE, NOVENA

(Resenha publicada originalmente em  A TRIBUNA de Santos, em 15 de março de 2016).

Nove, Novena, publicado em 1966, foi o primeiro livro excepcional (depois viriam os romances Avalovara e A Rainha dos Cárceres da Grécia) de Osman Lins, um dos nossos escritores fundamentais, e que anda injustamente esquecido. Trata-se de nove contos de forte teor experimental e vertigem temática, com poucos rivais à altura como, Corpo de Baile, de Guimarães Rosa, ou Papéis Avulsos, de Machado de Assis.
Por exemplo Os Confundidos, mostra a questão da incomunicabilidade entre casais um dos temas dominantes de uma forma inovadora, ainda que seja o mais “fácil” de Nove Novena: um casal discute seus problemas num diálogo aparentemente simples, mas no qual as vozes acabam por se confundir. Como afirmou Sandra Nitrini: “há alternância entre oito segmentos de diálogos e sete trechos descritivo-narrativos, expondo a organização geométrica e equilibrada do texto. Esse aspecto fica mais evidente, quando se percebe o jogo entre a transparência do discurso do diálogo e o registro inusitado das marcações teatrais, que oscila entre os polos da definição e indefinição”. O texto não permite muitas vezes saber quem faz uma ação: “Um de nós levantou-se, ou irá ainda levantar-se, entreabrir a cortina, olhar a noite”.

A cada conto, a experimentação se radicaliza: em Conto Barroco, há três possibilidades narrativas para a situação do  matador que vem executar um “serviço” e se envolve com a amante do homem que deve executar, uma das quais mostra como ela acaba sendo a vítima; em O Pássaro Transparente, a alternância entre a primeira e a terceira pessoa compõe uma trajetória de frustração do protagonista, que assume o destino do pai como patriarca da família, quando imaginava que seria aquele que romperia o círculo (ironicamente, quem faz isso é a sua amada da juventude, ao se tornar uma artista, que pinta justamente o quadro que dá título à narrativa).

Nos 20 fragmentos de Pastoral, o narrador, Baltasar, mostra sua condição de pária no sítio do pai até mostrar sua própria morte (e o seu velório: “estirado na mesa, sem velas, dedos cruzados, a pele de raposa cobrindo-me as virilhas. Sentados e mudos, nos lugares de sempre, meu pai, Joaquim e meus irmãos, rodeiam-me… Talvez com remorso, talvez com alívio, pois nunca mais verá este seu filho, que em nada se parece com ele e que, todos os dias, fazia-o recordar a mulher que foi capaz de deixá-lo, meu pai contempla-me”), ao tentar impedir que sua égua acasale com um garanhão, numa tentativa patética de negar o atavismo reiterado pelo universo patriarcal.

Os grandes destaques são os dois textos desafiadores, onde as personagens ganham símbolos identificadores, ao invés de nomes, para marcar sua intervenção: Pentágono Hahn e Retábulo de Santa Joana Carolina. No primeiro, uma elefanta de circo (a Hahn do título) serve de convergência para cinco personagens, os quais representam fases diferentes da existência. E no segundo, quase que unanimemente considerado o mais perfeito entre os textos de Osman Lins, o leitor descobre o que é, de fato, a morte e vida Severina na trajetória da professorinha primária viúva que tenta sobreviver com seus diversos filhos em meio à miséria nordestina, e nessa luta inglória toca a transcendência e a santidade, em meio à “impregnação das coisas”.

Joana Carolina diz, no oitavo “mistério” (entre os 12 que compõem a narrativa), que é uma lei sua “agir sempre como se o impossível não fosse”. Ao que parece, era a lei de Osman Lins como escritor.

NOVE NOVENA

01/03/2016

AS VEREDAS DO MÍNIMO SERTÃO: “Outros Cantos”, de Maria Valéria Rezende

Maria Valériaoutros cantos

“Nem pensei em voltar para a passagem no muro. Deus atirou-me para dentro de seu samburá de estreita boca, já não me debato. Soube logo que subiria, mas não por qual caminho, até que vi, pouco mais adiante, numa parede suja daquele mesmo beco, a marca do menino magro, fresca e brilhante, um fio de vermelho líquido ainda escorrendo. O único sinal que eu, vagamente, podia interpretar, neste mundo estranho onde nunca antes sequer imaginei penetrar. Meti-me pela viela que, alguns metros adiante, ao topar com uma parede de zinco e madeira carcomida, quebrava-se para a esquerda. Ninguém. Tive a impressão de que já não havia mais ninguém nesse labirinto, só eu e o menino pichador, porque pouco antes de que o caminho se bifurcasse, mais acima, vi outra vez a rubra assinatura. Sem outro fio senão aquele para guiar-me, eu o segui. Hesitei na bifurcação, mas ela estava lá outra vez, a marca, dizendo-me que lado escolher, direção que tomei sem mais duvidar, entranhando-me na armadilha das ruelas intrincadas”. (Trecho de O Muro, de Maria Valéria Rezende)

“… por estar mais familiarizado com o procedimento que consiste em negar tudo—para depois ver se em seguida se pode reafirmar alguma coisa—e, em desfazer tudo—para ver depois tudo se refazer em outro plano ou de outra forma…” (Trecho de A Obra em Negro, de Marguerite Yourcenar)

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 1° de março de 2016)

Havia que aprender tudo para poder ensinar. Não havia fórmula já testada nem material a seguir. Inventar fazendo, era o jeito”. Depois de ganhar o Jabuti de livro do ano, com    Quarenta Dias, Maria Valéria Rezende lança um novo romance em meio à nostalgia do período autoritário que assola o país: Outros Cantos, onde registra as transformações sofridas pela sociedade brasileira nas últimas décadas.

Trata-se de uma narrativa-palimpsesto: Maria, a narradora, empreende uma viagem de ônibus pelo sertão pós-2002, impactada pelo seu desenvolvimento, inclusive nos piores aspectos (consumismo, uniformização, diluição da cultura popular autentica), e numa longa noite entre vigília e sonolência, raspa camadas da memória de sua primeira experiência sertaneja em plena ditadura, quando se esconde num finalzinho de mundo chamado Olho d’Água, como militante subversiva ao regime militar, com a missão de preparar a futura—mas incerta—vinda de outros revolucionários. O tempo passa, sem notícias do exterior; sem orientação e objetivos a longo prazo, ela descobre “um mundo ao rés do chão”, “o território das coisas mínimas”, a opressão da materialidade do existir, da necessidade de não desperdiçar nada, que rege o cotidiano de um lugar onde a miséria é soberana. Contrariando estereótipos consagrados pela literatura e pela indústria cultural, também descobre a vitalidade, o humor e a alegria desse povo, apesar do fatalismo de suas crenças e relações e da meta (ainda utópica, infelizmente) de emancipá-lo: “Pareciam todos ter nascido já sabendo o que fazer, o que cantar, dançar, recitar, eles, a face festiva, o contraponto da natureza hostil ao seu redor”.

Além da sobreposição de tempos diversos do sertão, Outros Cantos, também aproxima instancias espaciais diversas: temos cidades “desenvolvidas” do vasto mundo, como Paris e Rio de Janeiro, até outros rincões de penúria e populações explorada por onde a viajada Maria teve experiências que colorem ainda mais os fios do tear de sua permanência em Olho d’Água – o deserto argelino, o México. Não falta sequer uma misteriosa e multiforme figura masculina a desassossegá-la em todos os momentos, originando uma coleção de objetos-talismãs.

Portanto, são muitas as viagens que o leitor poderá percorrer nas páginas – porventura as mais belas que a grande escritora santista já produziu, em especial as 50 primeiras. Em sua memória, contudo, será impossível de raspar alguns trechos extraordinários do sertão-palimpsesto: a tortura e a beleza do trabalho com o tear e suas tinturas, a projeção cinematográfica em Olho d’Água, as festas que marcam o final de ano e da lida (cujo material é escondido do Dono – pois há um latifundiário – e seus jagunços). A precisão do texto e as formulações definitivas sobre as “lições de coisas” (para usar um título de Drummond) e seres fazem com que essa veterana de muitas veredas da luta ao lado do povo se aproxime de uma antípoda (no espectro político, não no talento), também apaixonada por viagens e obrigada a uma vida imóvel e vertiginosa em suas descobertas: a conservadora Marguerite Yourcenar (1903-1986), em obras como Memórias de Adriano e A Obra em Negro. Findo o livro, temos a forte impressão que as aventuras de Maria jamais terão um desfecho.

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TRECHO SELECIONADO:

Trabalhava-se ali tanto quanto nunca pensei que se pudesse trabalhar. O caminhão chegava aos sábados, carregado de fio de algodão cru. Aos domingos, todos, menos os poucos vaqueiros, permaneciam escondidos em suas casas, por respeito estrito à lei divina do repouso semanal ou pela exaustão feita lei, e a rua se despovoava como as cidades sagradas do M’Zab às sextas-feiras. Mas na madrugada do dia seguinte, neste outro vale, de areia entre paredes brancas, recomeçava-se um ciclo eterno: velhas banheiras de ágate rachado e salpicado de ferrugem, sobre suas patas de animais estrangeiros, resgatadas de algum ferro-velho de antiga vida urbana, serviam como cubas para tingir o fio que devia ferver por horas, em água salobra e anilinas corrosivas, sobre fogueiras alimentadas sem cessar pela lenha pobre, rapidamente consumida, exigindo um constante vaivém de meninos, fileira de formigas bípedes.

Mexer, sem parar, o fio e a tinta borbulhante, retirar com longas varas as meadas coloridas, fumegantes, e pô-las a secar sobre uma sucessão de cavaletes rústicos, desenlear o fio, já seco, e enrolá-lo em grandes bolas para depois urdir os liços, entremeando as cores em longas listras, transformar o povoado naquele espantoso arco-íris desencontrado, era trabalho de macho. Começava ao primeiro anúncio de luz do dia, no meio da única rua, e prosseguia até que eles já não pudessem mais ver as próprias mãos e o som do aboio viesse rendê-los, interrompendo-se apenas com o sol a pino, quando desapareciam todos por cerca de duas horas, prostrados pela fome e pelo calor. Em uma semana estava pronta a urdidura para transformar o fio bruto nas redes que me haviam embalado a infância e cuja doçura em nada denunciava o esforço sobre-humano e a dor que custavam.

Às mulheres cabia a estranha dança para mover os enormes teares, prodígios de marcenaria, encaixes perfeitos, sem uma única peça de metal, apenas suportes, traves, cunhas, pentes e liços, chavetas e cavilhas de jacarandá, madeira tanto mais preciosa quanto de mais longe vinha, os pés saltando de um para outro dos quatro pedais que levantavam alternadamente os liços, os braços a lançar as navetas e a puxar o fio, estendendo faixas de cor, a fazer surgir o xadrez das redes que eu tão bem conhecia, feitas berços no alpendre de meu avô, feitas mercadoria nas estreitas ilhas de verdura no meio das avenidas da metrópole, braços tão rápidos que pareciam ser muito mais de dois, transfigurando aquelas sertanejas em deusas indianas.

A cadência para seu trabalho e para o trabalho dos outros vinha do baque ritmado dos liços e dos pés, do assobio das lançadeiras e do rascar dos pentes, que escapava pelas portas e janelas dos quartos de tear que constituíam quase toda a casa de cada família. A melodia, quando havia, era a da cantilena das velhas e das meninas, assentadas em tocos de troncos tortos, à pobre sombra das algarobas, a trançar varandas e punhos para as redes.

Era das mulheres também a tarefa infindável de buscar água potável na única fonte a escorrer, preguiçosa, em oásis com coqueiral, mancha verde à meia encosta da colina que se elevava sozinha na paisagem, assim como a obrigação de controlar o movimento do burro a mover a nora para fazer subirem os alcatruzes de barro do fundo de um poço estreito, trazendo a água salobra, único bem que lhes dava fielmente aquele fundo de mar há milênios esvaziado. O canto sob as algarobas era sinal de que já estavam os potes cheios, as cabras amarradas a algum esqueleto de arbusto, o fogo aceso sob os telheiros entre as casas e os currais, moído o milho e consumido o cuscuz da madrugada, o feijão a ferver nos caldeirões de barro enegrecido, ou sinal de que já se haviam esvaziado os pratos de sua parca mistura de feijão com farinha, talvez enriquecida por laivos de sabor da carne de um preá ou de uma rolinha, saídos do bisaco de algum vaqueiro. Aquelas tarefas também eu tinha de aprender a cumprir”.

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16/02/2016

CORES E FORMAS DOS LUGARES COMUNS DE NARA VIDAL

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«Escolhi cores e formas de casa. Que casa? Já não sei dizer. Já se misturou, já era. Mas tem um colorido de carnaval qualquer, pra dar pulso ao ar parado […] A vida serviu para dar parcimônia às alegrias. Tem uma estrada de terra aqui perto. Quando chove vejo gente com galochas, bem preparadas. Não enxergo nem um chinelo arrebentado afogado no lamaçal da rua que nunca ajeitam. Hoje também tem pedrinhas, feitas de menos sonhos, menos alegrias, não por nada, mas porque a gente cresce… » (Para a Calma, Nara Vidal)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 16 de fevereiro de 2016)

Livro no qual não colam classificações estritas e estreitas, Lugar Comum (ed. Pasavento) apresenta um título armadilhesco, inclusive por existir a expressão que sinaliza o banal, aquilo que jamais sacode e inquieta a imaginação. Lugar comum pode ser o rincão de globo terrestre compartilhado por familiares e vizinhos; também pode ser o conceito (tão malbaratado) de que habitamos uma mesma casa planetária, algo mais palpável ainda quando se vai viver fora do país natal.

O verdadeiro lugar comum revelado nos 80 pequenos textos é Nara Vidal, ou melhor seu aguçado olhar autoral alinhavando retalhos de uma rica tradição do imaginário mineiro vinculado às raízes afetivas, contrastadas ao “sentimento do mundo” (e seu apelo: «A viagem era dela, mas queria ver de perto os olhos saltitantes da mãe que demorou uma vida pra botar em prática sonhos de lugares e geografia», lemos em Estreito de Dover), o boitempo drummondiano, os baús de ossos de Pedro Nava; mais perto de nós, o brado de Milton Nascimento:  «Sou o mundo/sou Minas Gerais».

Afinal, com um oceano de permeio, essa moradora—nascida na Guarani mineira—da Inglaterra faz jus a um tipo de prosa curta, diáfana e ao mesmo tempo cheia de vigor, tecida por um dos maiores nomes de seu país de adoção, Virginia Woolf, com fios em cuja meada não se distinguem o cronístico, o memorialístico, o ensaístico, o confessional, o observado, o deduzido-inventado, aproveitando a fecunda lição de Proust:  «quando nada subsiste de um passado antigo, depois da morte dos seres, depois da destruição das coisas, sozinhos, mais frágeis, porém mais vivazes, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis, o aroma e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, chamando-se, ouvindo, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, levando sem se submeterem, sobre as suas gotículas quase impalpáveis, o imenso edifício das recordações».

Ou, nos termos da própria Nara Vidal:

«O perfume deveria ser esfregado e não pulverizado. Duas gotas no pulso esquerdo e no direito, como num abocanhar frenético, perfumava-se. Ao passar dos namorados, ela percebeu que a nuca também deveria ser esfregada vigorosamente com a mão. Ouviu falar que perfume na pele era como impressão digital. A mistura do seu corpo com o líquido dava aquele ar mágico, profundo e inesquecível. O cheiro, ela não queria só para ela. Queria, ao esfregar namorados, passar o seu encanto adiante e assim acontecia.

  Não demorou muito, depois da nuca, Marieta descobriu que, entre os seios, morava um ponto que acumulava seu perfume de forma impetuosa. Já estava bem mais experiente quando passou a perfumar-se com uma gota abaixo do umbigo. Ali não esfregava. Como se salpicasse água, deixava que o tempo desse conta de misturar a química do seu cheiro natural com o perfume já, então, sofisticado e francês.

   Ao longo da vida Marieta casou-se três vezes. Coincidia com o término de cada acordo de amor eterno, o cheiro enfraquecido do perfume caro. Como se não se fixasse mais nos seus pontos estratégicos, estudados com arte e precisão. Ainda o tempo, deu conta de fazer Marieta descuidar-se e não mais esfregar perfume no pulso, na nuca ou entre os seios. Há muito não deixava a gota cair embaixo do umbigo—era desperdício. O cheiro avassalador de Marieta acabou-se. Assim como cada amor, enfraqueceu. Assim como o amor com o qual se acostumou, perdeu a doçura, o propósito, o encanto. Viraram lugar comum: o perfume e o amor».

Há o seu quê de desarmônico em Lugar Comum, a triagem poderia ter sido mais rigorosa, entretanto a presença de alguns fios tênues e incolores não desbotam o colorido predominante, em especial nas lindas passagens (como a que cito abaixo, de A Vista da Torre) nas quais se mostra que um lugar comum de todos em sua formação são os ritos de passagem:

    «Era verão pelo Hemisfério Norte. Intenso. Tinha chegado com tudo. Desde a madrugada anterior, Londres e região viam tempestades de deixar os trópicos amuados de ciúmes. Trovões e relâmpagos de altos sons e todos os tons de rosa. Meu menino dormia. Minha menina desceu as escadas para nos encontrar na sala. Dizia que o barulho estava alto, ao ponto de meter na valentia dela certo medo.

   Fomos então par a torre da princesa, no topo da casa. A janela dava para o telhado. Feito gatos, nós três com metade da gente pra fora. E de lá ficamos vendo os relâmpagos, ouvindo os trovões […] Olhei pra minha menina, feliz, de mãos dadas com o pai […] Testemunhei ali, na minha frente, a construção de uma lembrança. Guardei a impressão de que bem assim, vamos fazendo a vida».

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TRECHO SELECIONADO

«03 h 45 min da tarde. Os olhos tentavam, no meio de buzinas, risos, xingamentos, bancas de jornal, achar uma ilha deserta. Precisava saber antes das quatro. Todo mundo passava por ela e ninguém sabia o medo que carregava na bolsa.

     O couro marrom já desbotado tinha nas alças fiapos de linhas se soltando. Precisava de uma bolsa nova. De uma bolsa nova seria bom precisar. Daria tudo para precisar mesmo de uma bolsa nova. Bolsa ordinária, barata. Lá dentro dela, outro caminho: algo extraordinário dobrado quatro vezes em papel A4, no envelope lacrado. Andava com a impressão de ter ali dentro um bicho vivo. E não deixava de ser. Titubeou por mais alguns passos. Os olhos já vidrados desesperavam-se por um canto quieto. Tentou a praia. Era janeiro. Não ia dar certo. No parque, talvez. O cheiro de xixi lhe embrulhou o estômago. Mal sabia ela o que estava embrulhado no envelope.

    Em volta dela, um homem sem as pernas. Uma criança suja chorando. Cheiro de sangue. Um parque sem passarinho algum. Sentou-se num banco, com nojo e desespero. Precisava abrir aquela bolsa. Faltavam dois minutos pras quatro. Traçou pra si mesma o plano de coragem: até antes das quatro saberia a notícia, qualquer que fosse.

    Um homem passou pedindo dinheiro. Insistiu. Precisou sair dali. O relógio da Siqueira Campos ria dela. Perdera a vez. 04h02min. Aquilo só poderia ser má notícia.

    Tentou um café. Cheio. Garçom que não deixava ninguém em paz. Se fosse pra casa talvez nunca mais saísse de lá. Pensou no pai da amiga que recebeu no ponto de ônibus a notícia da morte da mulher. O pobre rodopiou zonzo e ninguém viu o que era só dele, lá dentro da cabeça daquele homem sem sorte.

    Ela queria o mesmo. O que quer que fosse, no envelope, ela precisava se passar por nada, anônima. Tinha que saber que o mundo não ligava. O que estivesse escrito naquela folha era só dela.

    Amou tanto durante a vida. Poderia até amar mais. Sabe-se lá!

   Desistiu do café. Caminhou até o forte no fim de Copacabana. Pelo menos tinha vento lá. Em coração de tambor, a bolsa aberta. As mãos passam desinteressadas pelo resultado do exame que trouxe boas notícias. Abraça com os dedos apertados e trêmulos o envelope branco. Gira os dedos pelo tamanho do papel e abre, rasgando as pontas. No canto do olho já salgado de ansiedade, confere: 04h48min. Suspira e abre os olhos. Não sabe se foi o sol ou o que estava escrito. Ficou cega».

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09/02/2016

O GRANDE ROMANCE AMERICANO: “A Sangue Frio”, de Truman Capote

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA  de Santos, em 9 de fevereiro de 2016)

Harper Lee foi, sem dúvida, a figura mais notória no mundo literário em 2015, com a publicação de Vá, Coloque Um Vigia, décadas após seu até então único romance, o premiadíssimo O Sol é Para Todos (1960). Curiosamente, há alguns anos, ela não passava de uma parceira coadjuvante na obsessão de seu amigo de infância Truman Capote (1924-1984). em relatar os acontecimentos de A Sangue Frio (In Cold Blood, 1966), em dois filmes de temática semelhante e resultados artísticos desiguais: o superestimado Capote e o ótimo InfamousConfidencial (interpretada por Catherine Keener e Sandra Bullock, respectivamente).

A maior ironia nisso tudo é que o empenho do genial, nem por isso menos venenoso e competitivo, Capote em criar um dos candidatos ao mítico título de “grande romance americano” estava relacionado ao ciúme corrosivo com o prestígio alcançado, àquela época. pela amiga, a quem desejava superar e ofuscar. E embaralhou a questão ao ponto de insistir que inventara um gênero, o romance de não-ficção, quando apenas seguia a lição do Flaubert de Madame Bovary: os fatos reais servem ao talento narrativo, não o contrário.

Ou alguém pode achar crível que ele “entre” na pele da dupla responsável pelos terríveis crimes acontecidos em novembro de 1959 numa cidadezinha do Kansas, em pleno “cinturão da Bíblia”, somente baseado em documentos e depoimentos? Ou na mente de cada pessoa da família? Na dos investigadores, vizinhos da região, parentes dos assassinos?

Veja-se um trecho em sequência a uma visita dos detetives do caso à irmã de Perry Smith, o sentenciado com o qual Capote desenvolverá uma doentia ligação:  «E então a tristeza, como a névoa marinha noturna que cobria as luzes da rua, fechou-se em torno dela. Ela dissera que tinha medo de Perry, e tinha, mas seria apenas de Perry que tinha medo, ou antes de uma configuração de que ele fazia parte, os destinos terríveis que pareciam reservados para os quatro filhos de Florence Buckskin e Tex John Smith? O mais velho, o irmão de que ela mais gostava, tinha-se matado com um tiro; Fern caíra, ou se jogara, de uma janela; e Perry era dado à violência, um criminoso. Assim, num certo sentido, ela era a única sobrevivente, e o que a atormentava era a ideia de que, com o tempo, ela também acabaria vencida…».

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     Norman Mailer escreveu em A Canção do Carrasco  (1979): «A gente era criado sabendo o que estava certo, e livre para fazer o que estava errado». Essa frase ajuda a entender por que Capote escreveu um livro tão poderoso e ainda fascinante (além de inaugurar a era dos assassinatos torpes por motivação banal no imaginário cultural, assim como Psicose, de Robert Bloch, inaugurou a dos serial killers). De um lado, aquelas pessoas vivendo sob a égide da religião, achando que Deus fez o mundo para se viver assim, mas que não têm problemas com armas, com a matança estúpida de animais, e com a exclusão social, “sabendo o que estava certo”. E que se surpreendem com a violência dos assassinatos. Do outro lado, os “perdedores”, aquelas vidas fraturadas e errantes, “livres para fazer o que estava errado”.

E é por isso que num dos trechos cruciais, alguém observa: «As pessoas não estariam tão alteradas se isso tivesse acontecido com outros, não os Clutter. Com uma família menos admirada, menos próspera. Mas eles representavam tudo que as pessoas daqui valorizam e respeitam, e o fato de uma coisa dessa ter acontecido com eles, é o mesmo que alguém dizer que Deus não existe. Dá a impressão de que a vida não tem sentido…». Então, não importam muito as mesquinharias biográficas que cercaram a produção de A Sangue Frio (e ele e Harper Lee pagaram um preço bem alto). O grande romance americano foi escrito. Cinquenta anos depois continua uma obra-prima.

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