MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

27/12/2016

Destaque do Blog: “Falso Trajeto”, de Fabio Weintraub

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente, em A TRIBUNA de Santos em 27 de dezembro de 2016)

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“Contraditório, e daí?/as pessoas mudam/os tempos mudam//não sou neurótico de guerra/pra ficar defendendo/territórios já anexados//o ostracismo cansa: se voltei ao mainstream/é porque estou vivo//tenho cinquenta anos/não vou posar de herói/quero que se foda/a coerência do criador/é a obra que importa//não vou bancar o mártir//o Brasil está desse jeito/por ser católico, culpado e de esquerda/vamos ser ricos, não coitados//não se se tem jabá: cala a boca/ouça a música (pessoas jurídicas não odeiam).

Há um mistério na poesia de Fabio Weintraub, que fica evidente na antologia FALSO TRAJETO (Editora Patuá): Ela parece opaca (muitos diriam: sem atrativos), misturando temas triviais, especulações metafisicas, poemas sobre partes do corpo (mãos, mão e perna), poemas sobre quedas e muitos poemas onde o “eu lírico” é quase um narrador. Há uma profusão de títulos já carregados de simbolismos, os quais parecem não ter muita relação com os versos do autor. E mais: são poemas sem imagens fortes, boas para citações, quase destituídos de figuras de linguagem.

No entanto, o leitor fica hipnotizado com cada poema, relendo e relendo, constatando o brilho profundo desse poeta ímpar.

Northrop Frye (um crítico genial) utilizava o termo sparagmós para descrever situações de despedaçamento, de fragmentação do indivíduo e sua busca de sentido e unidade. Veja-se o poema mão e perna: “tua perna adormeceu/o que ela sonha? //que salta a corda lançada/ao chão perto do patíbulo/que é cruzada sem calcinha/sobre o joelho macio/que molha a canela no sangue/antes de entrar no gesso/que despede o cachorro/atracado à panturrilha/que ajoelhada no milho/é deixada atrás da porta/que se arruína em trombose/e avacalha dois cortejos://de núpcias/de exéquias”.

Enfim, o trajeto existencial pode ser falso, errático e sujeito a acidentes, mesmo numa condição letárgica (Aliás, Fábio Weintraub é o grande lírico da letargia). Porém, o grande poeta paulista escreve certo por linhas tortas, onde o chão é o limite: “qual britadeira/bate a bengala/contra o chão/como se quisesse/vingar-se da infirmeza/dando ao pavimento/a irregularidade/em que/os demais/também/tropeçarão”.

 

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20/12/2016

SUGESTÕES DE LIVROS PARA O NATAL

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(Uma versão da resenha abaixo, foi publicado originalmente em A TRIBUNA de Santos em 20 de dezembro de 2016)

AS HORAS, Alex Andrade, Penalux: Personagem tentando enfrentar a solidão e o abandono, numa coletânea de contos que mostra a evolução do autor carioca;
LITURGIA DO FIM, Marilia Arnaud, Tordsilhas: Um confronto com o passado resulta num dos romances mais lindos dos últimos tempos, em linguagem e densidade;

PASSOS AO REDOR DO TEU CANTO, Maria Carolina de Bonis, Patuá: A poesia atual em pleno vigor, como, de resto todos os gêneros;

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A UTÓPICA TERESEVILE, André Jorge Catalan Casagrande, Garimpo: Romance que revela um episódio histórico praticamente desconhecido;

O INSTANTE-QUASE, Juliana Diniz, 7Letras: O melhor livro de contos de 2016, simplesmente brilhante;

ESTAÇÃO DAS CLÍNICAS, Iacyr Anderson Freitas, Escrituras: O leitor ri e chora com as mazelas do corpo em relação ao “espírito”;

ROTEIROS PARA UMA VIDA CURTA, Cristina Judar, Reformatório: Uma Alice pós-moderna nos levando para uma assustadora hiper-realidade;

A VISTA PARTICULAR, Ricardo Lísias, Alfaguara: A exuberância criativa do autor, transforma um artista “distraído” num arauto da sociedade do espetáculo. Genial;

GALVEIAS, José Luís Peixoto, Companhia de Letras: O grande escritor português e seu romance mais intrigante, sempre mostrando o “atraso” na vida rural de seu país;

AMORA, Natalia Borges Polesso, Não Editora: Premiada coletânea de contos que giram em torno do lesbianismo, porém vão muito além da temática;

OUTROS CANTOS, Maria Valéria Rezende, Alfaguara: Talvez a obra-prima da autora sobrepondo vários estágios da sua vida e do sertão;

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VÉSPERA DE LUA, Rosângela Vieira Rocha, Penalux: Romance de 1989, pioneiro de muitas práticas da atualidade;

O SOL VINHA DESCALÇO, Eduardo Rosal, Reformatório: O melhor livro de poemas de 2016;

COMO SE ESTIVÉSSEMOS em Palimpsesto de Putas, Elvira Vigna, Companhia de Letra: Simplesmente, o livro do ano, sem nenhuma chance para qualquer outro;

FALSO TRAJETO, Fabio Weintraub, Patuá: Uma poesia que parece opaca exigindo várias releituras, que a tornam fascinante;

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13/12/2016

OS NOVOS TRUQUES DA CARTOLA DE ALEX ANDRADE

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente no jornal A TRIBUNA de Santos em 13 de dezembro de 2016)

Em Amores, Truques e outras versões, Alex Andrade contava aventuras e uma procura incessante de amores baseado na quantidade e multiplicidade, ressaltando a mesma insatisfação. Gostei muito da coletânea, mas fiquei preocupado de que ele ficasse restrito ao universo homoafetivo.

AS HORAS (Penalux), então, aparece para dissipar qualquer dúvida sobre o seu talento, pois é um livro que vai em diversas direções. Lendo com atenção percebe-se uma linha contínua entre os contos: dessa vez, são casais nos quais um elemento é mais fraco e vulnerável que o outro; são homens e mulheres à espera do amado (a) chegando às raias da insanidade, da necrofilia mesmo uma velhinha quase octogenária ainda sonha em viver um grande amor: “A velha abriu a boca em xingamento e começou a chorar. E era um choro bobo, manso e inútil. Chorava feito criança. E fazia algum tempo que não chorava assim, e lembrou-se de que há muito tempo não fazia quase nada, não tinha sequer vontade de fazer alguma coisa. E percebeu que o tempo passara depressa. Mas ocorre que precisava urgentemente acreditar que poderia fazer tudo o que não pôde. E que mesmo com a idade que tinha necessitava perigosamente amar”. (“Tá vendo o dia lá fora?”).

Emblemático na coletânea é o seu texto mais longo e ambicioso “Eu não amava Rolling Stones à toa”, onde o abandono por parti da esposa espelha o da mãe do protagonista num fluxo incessante de nostalgia, alucinação, mal-estar físico e solicitações da realidade (a síndica do prédio). No momento brilhante!

Outro ponto alto é Poema, no qual a protagonista que dá o título é uma descendente legítima dá Macabea de Clarice Lispector (mas também me lembrou o mundo de José Luiz Peixoto, onde o personagem-título se chamava Livro) sem que o autor perca sua marca pessoal, e talvez tenha escrito um texto mais bonito de sua carreira até agora.

O único senão a pontar em AS HORAS são escorregadas vez em quando num tom de autoajuda ou de filosofia de botequim: por exemplo: “A velha trave testemunha de tantos gols, o grito dos meninos, Ruth cantando e arrastando a barra da saía ou do vestido, o que fosse, o menino que jamais conheceu, todas essas memórias, a solidão de ser quem jamais sonhou, o tempo, a incerteza de saber se seria infeliz ou se ainda poderia sonhar. E não há nada que se possa fazer. Eis a vida que escorre como se as comportas estivessem abertas para a água escapar. Transbordando tudo” (“Tempo”). Estivesse na primeira pessoa, seria perdoável e coerente, jamais na terceira pessoa.

Ainda assim, considero Alex Andrade um autor já plenamente maduro. Espero novos truques de sua cartola.

 

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29/11/2016

Destaque do Blog: ESTAÇÃO DAS CLÍNICAS, DE IACYR ANDERSON FREITAS

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 29 de novembro de 2016)

Corredores de hospital, sangue fezes, câncer, tumores, gases, alzheimer, este é o universo que percorrem os poemas de ESTAÇÃO DAS CLÍNICAS (publicado numa edição caprichada pela editora Escrituras). Um poema é emblemático: “o espírito sangra/desde o princípio//já o corpo/hoje sangra/escondido//o que o outro/lhe sugere/em sigilo”.

Faz tempo que eu tenho vontade de comentar a poesia de Iacyr Anderson Freitas, uma das melhores da literatura contemporânea, embora com uma certa ressalva: que sua perícia técnica engessava seus poemas num formalismo excessivo. Em ESTAÇÃO DAS CLÍNICAS, sem perder o rigor poético, ele aparece mais solto e cru, misturando o visceral e o jocoso (principalmente nos títulos, como em “Camilinho, acamado”: “dois dias de dores/no baixo-ventre/ou quase//e/o médico/o de sempre/:gases//nada de grande/importância//até para sofrer/lhe falta/substância”): “cada segundo/sabe o sal/ de sua queda//tudo existe para cair//até o não//de nenhum/chão”.

Quem já foi internado e se viu cercado pela burocrática da vida medicalizada, uma das características da nossa época, vai ao mesmo tempo rir e chorar com a verdade profunda que Iacyr imprimi em “raiz tão profunda”: “era só tirar/uma verruga/coisa boba de tudo/e foi aquela tortura//sete dias internado/e a morte/na agenda/para o próximo/sábado//é que a verruga era funda/assim tão funda/assim tão funda/e tão alva//que feria/a alma”.

Um dos belos lançamentos de 2016, ESTAÇÃO DAS CLÍNICAS pode ser resumido pelos maravilhosos versos finais de “Menos um dia”: “para ascender mais um dia/ao calvário//de nenhum/calendário”.

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22/11/2016

“PORQUE MEIO QUE GOSTO DE FAZER E REFAZER TRAÇOS”: A MAIOR AUTORA BRASILEIRA DA ATUALIDADE

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 22 de novembro de 2016)

(Ele espantado com ele mesmo, demorando para terminar aquele café da manhã, mais uma xícara, e mais uma.
Porque ele nota que não foi o xixi, o problema. Foi a ideia de que a garota estava achando o que ela falava importante).

Elvira Vigna deixa seus leitores, inclusive os críticos, como baratas tontas. Eu, por exemplo, já considerava “Por Escrito” o auge da sua produção, e eis que ela publica COMO SE ESTIVÉSSEMOS EM PLAIMPSESTO DE PUTAS¸ um livro ainda mais extraordinário e cruel, com suas recorrentes personagens de origem humilde que reinventam, mesmo carregando os traços do passado.

O incrível do romance é que ela parte de um fio mínimo de enredo: a narradora e João trocam intimidades no escritório prestes a ser fechado. João conta que conheceu uma garota de programa, Lola e casou-se com ela. Mas ele não conseguiu dominar a compulsão de procurar outras garotas de programa.

A partir daí nós vamos desvendando o passado e o futuro por várias décadas, tudo misturado labiríntico. A chave desse jogo exasperante, é que não apenas o vivido surge, como também o possível não-realizado; ou seja, as ausências são importantes quanto a existência “real”. Temos uma narradora que faz suposições, e lança hipóteses admitido que não tem controle das vidas de João e Lola. Por isso, as cenas são retomadas, e algum detalhe não percebido, muda toda a sua interpretação dos fatos, o que permiti que, nas suas últimas páginas, Elvira Vigna atinja o cume da prosa de ficção da literatura deste século.

Esperando uma nova obra perturbadora, eu me pergunto: Como não se descobriu que Elvira Vigna é a nossa maior escritora da atualidade?

“Lola fica lá, pensando, sozinha. E ela está um pouco triste porque risadas, principalmente as internas, quando acabam, é assim mesmo. Fica, na ausência delas, a tristeza que estava lá desde sempre”.

TRECHO SELECIONADO:
Barulhinhos, ruídos.
Um recado que chega, uma bobagem dessas. Não era para ser nada. As garotas, um ruído de fundo na vida de João. Ia apagar o recadinho naquele dia mesmo, ou no outro. As perguntas também, apagadas, ou quase. Passadas por cima, outras coisas por cima”.

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15/11/2016

Desencontro no espelho entre autor e personagem: “O Marechal de Costas”, José Luiz Passos

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 15 de novembro de 2016)

“O vigor da alma macerada pela dúvida, ou insuflada pelo arroubo da imagem pública, quase sempre arremata o fado desses protagonistas que pelejam consigo, fazendo do amor-próprio a companhia constante de um segundo eu, um que não raro é infiel e inimigo. O resultado é que todos eles temem o espelho; e os que encontram conforto nele, nos deixam intuir a ironia que se lhes impõe sob a máscara nem sempre confortadora de um autoengano engenhosamente sutil. ” (José Luiz Passos, “Machado de Assis: o romance com pessoas”, 2007)

“Emarame. Ato de ir e vir ao mesmo tempo, também o duplo, o indissolúvel movimento, ante o espelho, de um corpo refletido em seu cristal, desde que ambos, corpo e reflexo, sejam contemplados por alguém. Silvino era, na realidade, um enérgico utopista”. (José Luiz Passos: O MARECHAL DE COSTAS)

Na ordem do dia, temos mais um vice que se torna o presidente do país, em pleno mandato do titular; temos o resgate do indicioso “ordem e progresso” como lema do governo; temos um impasse com relação aos caminhos da república. José Luiz Passos, em O MARECHAL DE COSTAS (Editora Alfaguara), resgata a figura do primeiro vice alçado a presidente, com a renúncia prematura do Marechal Deodoro, o qual proclamou a república em 15 de novembro de 1889.

Era uma oportunidade de ouro para o autor do admirável “O Sonambulo Amador” de fazer um paralelo entre os primórdios republicanos e o nosso tumultuado cenário político. Infelizmente, ele optou por deixar óbvia as similaridades entre os períodos, colocando segmentos da época contemporânea (abordando as manifestações contra o governo de Dilma Roussef, até o impeachment), alternando-se com a exploração biográfica da vida de Floriano. Esse recurso narrativo simplesmente não funciona e desfibra o romance, divido em cinco partes.

Nas duas partes iniciais, o leitor desfruta de um dos encantos da refinada prosa de Passos, a formação da imaginação moral de um personagem. Floriano é fisgado pelo mito napoleônico (como tantos jovens de sua época), tem uma rígida formação militar positivista, luta na guerra contra o Paraguai; ao mesmo tempo, é obcecado por vaginas, mantendo uma caderneta com desenhos de várias formas do órgão sexual feminino.

Nas partes seguintes, o encanto se desfaz, os segmentos digressivos se multiplicam; e, quanto à vida de Floriano, já presidente, sucumbi a resumos de fatos históricos, sem nenhum traço autoral mais relevante; pelo contrário, parece mais um hábil apanhado acadêmico, que não nos ajuda a compreender melhor a figura do Marechal de Ferro. Embora trace o apurado perfil de Dom Pedro II, é de pasmar que Passos, profundo conhecedor da obra de Joaquim Nabuco, faça dele uma figura tão inexpressiva, comentando os acontecimentos do governo florianista (a revolta da armada, por exemplo) de forma tão superficial, perdendo a chance de confrontar personagens históricos fascinantes.

Mas, realmente decepcionante é a parte atual, onde uma suposta bisneta de Floriano trabalha como cozinheira de uma família abastada no Rio de Janeiro (vale lembrar, que Floriano era alagoano) todos os personagens ligados a ela são caricatos e rasos.

No final, temos páginas cintilantes num todo opaco. Mais do que de costas o Marechal é visto de longe, muito longe.

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01/11/2016

Destaque do Blog: A VISTA PARTICULAR de Ricardo Lísias

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em primeiro de novembro de 2016).

José de Arariboia é um artista plástico que está conseguindo certo renome, um pouco pela já veterana galerista Donatella (cujo pai fez fortuna com o mercado de obras de aquisição duvidosa, após o final da Segunda Guerra, auxiliado por uma rede de fascistas e nazistas, radicados no Brasil).

Só que Arariboia é um personagem de Ricardo Lísias, cada vez mais se torna “distraído” com relação à realidade sua volta. Essa distração o leva a subir o morro da favela Pavão-Pavãozinho. Não se sabe o que acontece com ele ali. Reaparece numa espécie de procissão mística até o mar de Copacabana. Os vídeos do acontecimento “bombom” no YouTube – curiosamente, foram gravados e editados pelo traficante do morro, Biribó.  Depois de um tempo de recolhimento, Arariboia procura Biribó para propor um projeto: partes da favela transformar-se-ão em “instalações”.

A partir daí A VISTA PARTICULAR (Alfaguara) vai dando pancadas e mais pancadas na complacência do leitor. Durante as Olimpíadas, a “instalação” de Arariboia é transferida para perto do evento esportivo, com partes denominadas “boca de fumo” e “mãe com filho bandido e outro na escola”, por exemplo. O menino é assassinado com uma bala perdida pela polícia e o cadáver incorporado como elemento estético. O projeto da Arariboia vai adquirindo tal dimensão na mídia e nas redes sociais, que a comunidade inteira do Pavão-Pavãozinho acaba sendo levado em exposição na Europa, antes passando por Minas Gerais: “O transporte de Comunidade brava: turismo Brasil formou uma fila imensa de ônibus na rodovia que liga os estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais. A televisão acompanhou tudo de cima, imagem que aliás foi aproveitada por mais um vídeo do Biribó. É com alegria que no primeiro ônibus do cortejo ele conta para o Pê que uma produtora europeia de cinema e vídeo o procurou interessada em levas suas filmagens para o cinema. Isso de internet é muito bom, entusiasmou-se, as uma hora temos que dar um salto.
A montagem do morro foi mais tranquila. Arariba tinha deixado à disposição uma série de materiais, já com as instruções do lugar de tudo. Não era preciso. Com a experiência, os moradores sabiam perfeitamente erguer os barracos, lembravam-se dos lugares onde deveriam ficar a vendinha, a boca de fumo, a igreja evangélica e a biblioteca comunitária. De qualquer forma, não é preciso deixar tudo igual. A arte contemporânea tomou para si, com grande criatividade, o aspecto efêmero das coisas humanas. Haverá alguma pulsão de morte na obra de Zé Arariba?, um crítico se pergunta em um longo artigo de jornal. Esse, por razões que não vêm ao caso, nosso artista leu e ficou abalado. Afinal de contas, estou sempre despedaçando alguma coisa. Às vezes fico pensando se vale mesmo a pena”.

Poucas vezes, o uso da miséria e exclusão social, transformadas em espetáculo (lembram da abertura das Olimpíadas?), a naturalização e estetização da violência, foram tratados de forma tão ácida na ficção brasileira. Ricardo Lísias volta à exuberância narrativa de sua obra-prima O LIVRO DOS MANDARINS, inclusive com a utilização de recursos que lhe são caros, como a redução do nome do personagem ao longo do romance (Arariboia, Arariba, Arara), o relato em espiral e a completa alienação do protagonista: a favela “ganha um mundo”, saindo do controle de Biribó, e Arariboia se desliga totalmente do projeto. Ironicamente, um artista que era considerado um pintor do universo carioca, anuncia um projeto com título #partiuBrasil.

Lísias nunca foi tão conciso e eloquente. Até a interferência do narrador no relato mostra, no final das contas, que tudo é uma representação multiplicada ao infinito da suposta realidade, tudo é simulacro, e às vezes oportunistas. A VISTA PARTICULAR, não poupa ninguém. Faca só lâmina.

 

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25/10/2016

A Perigosa Poesia Movediça de Maria Carolina de Bonis: “Passoa ao Redor do Teu Canto”

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 25 de outubro de 2016)

Levei um susto quando li os primeiros versos de PASSOS AO REDOR DO TEU CANTO (Editora Patuá): “Entrar no teatro pelas portas dos fundos/Esperar até que cortinas se fechem/Sentar-se numa cadeira detrás do palco/Baixar os olhos e soletrar um verso/Heroico com as formas de adeus”.  Pareceu-me algo decalcado do universo da grande Wisława Szymborska, Nobel de 1996, bastante em voga por aqui, pelo menos nas redes sociais (daqui a pouco, provavelmente surgirão os apócrifos).

Mas era um equívoco, pois Maria Carolina de Bonis apresenta uma voz poética muito própria, exercitando uma poesia “entre duas portas”; (“É cíclico o caminho”; o título já indica esse movimento). Ela parte de um estar-no-mundo, na casa, dos móveis, enfim nas coisas, regredindo a estágios minerais e vegetais, procurando “a origem ágrafa”: (“Chega a hora de nos tornarmos eternos/Como se fosse estranho envelhecermos”); são muitas as imagens de florestas, semeadora, colheita, algas, pedras, grutas, e às vezes temos uma impressão de imagens que se colidem desarmonicamente. Também é preocupante esse “olhar de exílio”, com que dispensa as camadas mais próximas da realidade: (“Vivo/onde as moscas contornam/minha ausência”).

Ao final de PASSOS AO REDOR DO TEU CANTO, nos damos  conta de que ele foi pensado não como reunião de poemas, e sim como um livro, o que absorve todas as supostas desarmonias; além disso quanto ao exílio, um diálogo latente perpassa todos os poemas, e ela nos sugere que margens, contornos, estão para ser transbordados e extrapolados: “Sou o contorno do testamento das pátrias/O desterro gutural dos nômades/Gruta movediça que nem em pedra cristaliza/O opaco do chão de terra batida//E uma aldeia para que pudesse inaugurar/Os lugares onde não estou/Soa além do contorno do cão/A invenção da sinceridade”.

Portanto, temos um contra-dizer: “Dizer está sempre fora do que dizemos/o ato se reproduz em deslocamentos/volta antes e me encontro depois/a língua se desdobra fora do contorno ao redor/dos teus lábios lentamente ao redor da sala meus passos”; ou ainda: “Eu não sou o que digo/Mas é como se fosse”; mais um exemplo: “A ida será um regresso/Desse lado, avesso/Do traço em linhas do excesso//Os contornos da carne/Habitando os limites do corpo/O gozo da terra/Teu corpo, agora/Nos guizos do vento”.

Uma das viagens literárias mais interessantes dos últimos tempos é acompanhar Maria Carolina de Bonis, em suas aventuras “Dos fios que se perdem dos fios/Que se atam”.  Tomara que o fio que seguirmos não nos leve para as conclusões inquietantes de Teu retrato: “Hoje meu espelho está vazio//Apanha-me em relances/Conjuga-me em silêncio/E soletra as placentas recolhidas//Ao canto do deserto/Na mesma margem/Que caminha a/Semelhança secando/Meus contornos”.

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18/10/2016

O enxofre como metáfora do atraso: “Galveias”, de José Luís Peixoto

 

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 18 de outubro de 2016)

“… respondia que era de Galveias e todos continuavam a olhá-la na mesma expectativa, como se não tivesse dito nada”.

Artista multimídia (com fortes ligações com o universo do heavy metal), o português José Luís Peixoto deve ter apreciado a premiação, merecidíssima, do glorioso Bob Dylan com o Nobel de Literatura. Nascido em 1974, fez de sua cidade natal o espaço ficcional de seu mais recente romance, GALVEIAS. Nele, o autor super-antenado com a pós-modernidade se debruça sobre o arcaico, o ultrapassado historicamente, tanto no sentido pragmático quanto no sentido simbólico.

Em janeiro de 1984 (mas a cronologia do romance é muito intrincada), o povoado é sacudido por algo – nunca identificado – que cai do céu. A partir daí o cheiro de enxofre assola Galveias, modificando até o sabor da comida e exacerbando comportamento das pessoas. Sem a complacência nostálgica dos programas turísticos que exaltam o encanto passadista das petrificadas aldeias portuguesas, Peixoto mostra uma sociedade em plena deterioração, encurralada em seu atraso, como podemos ver na seguinte passagem (de um capítulo extraordinário, com o foco narrativo voltado para os cachorros da cidadezinha): “Mas o cão de Barreta, deitado, com o focinho assente na pedra, com as narinas abertas, não tenha esses pensamentos. De olhos fechados, sentia o interior fresco de cal, as formigas que seguiam por um caminho quase reto, preocupadas, e que desapareceriam num buraco de terra entre dois paralelos de granito; sentia as pequenas ervas mortas, sem uma brisa que as fizesse tremer; sentia o sol sobre as telhas lá em cima, barro antigo, manchas secas de musgo, superfície, tempo; sentia o seu próprio corpo, a sua própria presença, lugar e peso, órgãos internos e pelo, respiração, idade; e, claro, sentia a doença podre sobre Galveias, instalada, a fazer parte do cheiro, da forma e da cor de todas as coisas”.

Mesmo aqueles que vão para fora mantêm um provincianismo asfixiante. É o caso do carteiro Joaquim Janeiro, o qual constitui família em Guiné-Bissau, mas não revela para ninguém em Galveias porque sua mulher é negra. Em contrapartida, quando ele narra para sua família africana (sempre com a participação da vizinhança) anedotas de sua aldeia, elas adquirem um ar de fabula que deixa a todos admirados, como se fossem passadas num lugar grandioso. Não há melhor ilustração da arte de contar histórias. Além disso, num parágrafo, ele passa ao leitor várias gerações de médicos.

As histórias envolvidas pelo enxofre oscilam entre o grotesco, o cômico e o brutal. Por exemplo, temos uma esposa que se vinga da suposta amante do marido, jogando bosta e engalfinhando-se com ela em plena rua; temos uma cena que mostra o amor do casal, durante a qual vários coelhos são esfolados; em outro capítulo, um homem é espancado por “ter dito algo” ao filho caçula, o qual revela, tarde demais ter aprontado o homem errado.

Para mim, o momento mais patético desse belíssimo romance é a história do casamento de João Paulo e Cecília. Vendo as fotos tiradas dois meses antes, o noivo percebe que todos parecem já seres antigos, quase fantasmagóricos.

GALVEIAS mais uma vez, após obras-primas como Cemitério de Pianos e Livro, confirma minha convicção de que José Luís Peixoto é o grande autor lusitano surgido neste século.

 

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11/10/2016

Expectativas quanto ao Prêmio Nobel de 2016

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 11 de outubro de 2016)

No próximo dia 13, é bem provável que Haruki Murakami seja anunciado como o vencedor do Nobel de Literatura 2016, o que era aguardado há alguns anos. Para mim, será uma grande injustiça, pois o escritor japonês, a cada obra torna-se mais bizantino e artificioso. Seu romance ambicioso em três volumes, 1Q84 revelou-se uma abobrinha, uma mixórdia quase ilegível. Em compensação os outros quatro autores mais cotados (Philip Roth, Ngugi wa Thiong’o e Joyce Carol Oates) são notáveis. Eu tenho um apreço todo especial pela obra de Oates, e torcerei por ela, mas não dá para negar a influência universal dá obra de Roth, e o queniano Thiong’o, escreveu um admirável livro de memórias (Sonhos em Tempos de Guerra); aliás, a academia sueca tem uma longa dívida com países africanos.

A morte de Umberto Eco, escancarou o desprezo por uma magnifica geração de intelectuais e escritores italianos. Favorito há tempos atrás, o grande Claudio Magris deveria ser finalmente reconhecido, são dele algumas das obras mais inclassificáveis e apaixonantes das últimas décadas (Danúbio; Microcosmo; Alfabetos).

No entanto, o descalabro mais evidente é com a nossa língua. Dá para acreditar que em 116 anos só um autor foi premiado (José Saramago)? Atualmente, Portugal apresenta a literatura mais interessante dá União Europeia. Além dá venerável decana Agustina Bessa-Luís (A Sibila), temos o gênio António Lobo Antunes, único autor que rivaliza com Joyce Carol Oates na produção incessante de romances ciclópicos. Outro gênio, com uma escritura que não parece com ninguém é António Vieira (Olhares de Orfeu). Dá mesma geração temos a maravilhosa obra de Lídia Jorge (Combateremos a Sombra), e Almeida Faria (A Paixão). É tão notável a ficção portuguesa, que até os mais jovens mereceriam o Nobel, caso de José Luís Peixoto (o maior escritor surgido nesse século), Gonçalo M. Tavares e Walter Hugo Mãe.

No caso do Brasil nossos maiores escritores são nonagenários, se isso for um empecilho: Lygia Fagundes Telles, Dalton Trevisan e Rubem Fonseca. Contudo a escritores menos macróbios: Raduan Nassar, Maria Valéria Rezende, Francisco J. C. Dantas, além de poetas como Carlos Nejar e Adélia Prado. E o que disser da obra peculiaríssima de Elvira Vigna, um diamante nunca lapidado, porque ela se move num universo cheio de arestas? E já seria a hora de reconhecer a originalidade e contundência da obra de Ricardo Lísias, expoente de uma nova e explosiva geração literária.

E por falar em Ricardo, o Nobel que sempre ignorou a extraordinária literatura argentina, bem poderia premiar Ricardo Biglia, que passa pelo drama de ser portador da E.L.A (Esclerose Lateral Amiotrófica), não só pela tragédia de cunho pessoal, como pela sua desafiadora obra (Respiração Artificial; Nome Falso; O Último Leitor).

Mas isso são meros palpites. De minha parte, estarei fazendo figa para Joyce Carol Oates ser galardoada ao invés de Murakami.

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