MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

29/01/2015

MERLIN REVIVE: a Trilogia de Mary Stewart

MStewart-2-Obit-blog427121020788_1GG

(o texto abaixo tem como base a resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 19 de julho de 1994, com o título “Fôlego épico marca Trilogia de Merlin”)

Por terra e água voltará ao lar e ficará escondida numa pedra flutuante até ser erguida novamente pelo fogo. Assim tinham dito os antigos e teriam reconhecido aquele lugar como eu; ou como o pescador que voltara do Sobrenatural, admirado com os salões do rei das sombras. Ali a espada ficaria segura até a chegada do jovem que teria o direito de erguê-la (…) Larguei-a ainda enrolada no pano sobre a mesa de pedra e voltei pela lagoa. Os ecos encheram o ambiente e parei um pouco enquanto diminuíam, tornando-se um murmúrio. Naquele silêncio até minha respiração era ruidosa demais e parecia uma intrusão. Deixei a espada em sua longa espera silenciosa e voltei rapidamente à luz do dia…”

(trecho de As Colinas Ocas)

A inglesa Mary Stewart, nascida em 1916, chegou bem perto dos cem anos, mas foi um dos muitos nomes importantes da literatura a falecer em 2014. Sua obra de maior prestígio, a Trilogia de Merlin, está sendo reeditada pelo selo Hunter Books. Os três volumes fizeram muito sucesso quando lançados pela ed. Best Seller no início dos anos 1990[1], em traduções de Vera Maria Marques Martins, Marcília Britto e Evelyn Kay Massaro. São eles: A caverna de cristal (“The crystal cave”, 1970[2]), As colinas ocas (“The hollow hills”, 1973) e O último encantamento (“The last enchantment”, 1979).

Com relação ao resto de sua produção paira aquela reputação ambígua das autoras (Victoria Holt, por exemplo) que exploraram mistérios góticos anacrônicos, mas ao que parece ainda bem atrativos, unindo suspense e alto grau de romantismo, cuja forma mais popular é a daqueles livros vendidos em banca, “Júlia”, “Sabrina” e similares. É o caso de “Nine coaches waiting” (1958), “The moon-spinners” (1962) ou “Touch not the cat” (1976)[3].

Também não se deve esquecer que o êxito da Trilogia no Brasil veio no bojo de um daqueles periódicos recrudescimentos do interesse pelo ciclo arturiano; nesse caso, o maior responsável foi o ciclo As brumas de Avalon (1983), de Marion Zimmer Bradley— e também o filme Excalibur, de John Boorman, lançando em 1981—, cuja maior consequência, uma vez que se voltava para uma figura comumente secundária na trama geral, a fada Morgana, foi ter criado uma febre pela releitura do papel de outros personagens que orbitavam em torno de Arthur e dos cavaleiros da távola redonda; tanto é assim que, paralelamente ao trio de romances de Mary Stewart em torno do mago Merlin, a Best Seller publicava a Trilogia de Guinevere (1987-93) da norte-americana Persia Wooley[4]. De modo curioso, são as mulheres que capitaneiam as releituras da velha lenda patriarcal (talvez concretizando a farpa verbal lançada por Morgause a Merlin: “Tem mesmo certeza de que estais protegido da magia das mulheres?”)

A singularidade da série de Mary Stewart está em apresentar a juventude de Merlin, visto sempre como homem maduro ou mesmo um ancião. Os três volumes fazem uma impressionante reconstituição de uma época, o século V d.C., quando, na Bretanha (Inglaterra e parte da França) confluíam tradições romanas, celtas e bárbaras, iniciando assim a Idade Média.

51-i0KQynaL._SY344_BO1,204,203,200_

Merlin é o filho bastardo de Ambrosius, o homem que inicia o trabalho de unificação da Bretanha, continuado por seu irmão Uther e consumado pelo filho deste, Artur. Criado longe do pai, desde a infância Merlin tem visões que o diferenciam (e uma aparência “morena”, a qual, como acontece com a Morgana de Brumas de Avalon, o marginaliza de seu povo). A caverna de cristal gira em torno do reconhecimento de Merlin por Ambrosius e de como este utiliza os dons do filho para sua vitória. Após sua morte, Uther tem uma noite adúltera com Igrayne, que gerará Artur, o qual será escondido por Merlin e cuja educação é o centro de interesse (bem absorvente) de As colinas ocas; O último encantamento, por sua vez, fixa a decadência dos poderes de Merlin — após o triunfo de Artur — e seu amor por Nimuë (o ex-pupilo fica espantado: “Pensei que você fosse um sábio”, ao que ele retruca: “Porque sou um sábio, sei bem demais que o amor não pode ser contestado. Aconteça o que acontecer daqui por diante, é tarde demais...”), que ficará como sua sucessora.

São 1.300 páginas de um fôlego épico (malgrado o narrador não ser um guerreiro) que inexiste, por exemplo, nos quatro volumes de Marion Zimmer Bradley, cujo maior defeito é banalizar a grandiosa (e ao que parece inesgotável) lenda através de cenas domésticas que parecem recortadas do cotidiano norte-americano contemporâneo. Na trajetória de seu Merlin, Stewart compõe um mapa ficcional da Bretanha, explorando cada parte dela com uma riqueza de detalhes geográficos e topográficos e um emaranhado de personagens, e isso incrivelmente não atrapalha em nenhum momento a leitura. E assumindo a voz de Merlin (o relato é em primeira pessoa), cria um personagem fantástico, e não só ele. Há uma grande vilã, Morgause, meia-irmã de Artur, que tem um filho com ele e envenena o seu tutor, cumprindo um papel que geralmente é atribuído a Morgana (como no belo filme de John Boorman), e o próprio único e eterno rei aparece mais aprofundado e interessante que em outras versões, nas quais parece mais uma marionete do destino.

Difícil dizer qual o melhor volume. Cada qual apresenta sua voltagem de emoção e ritmo próprio, e portanto todos são memoráveis, embora o leitor saia meio desconcertado da leitura do terceiro (por causa do final)[5], que ainda assim apresenta a passagem mais extraordinária de toda a massa narrativa, quando Merlin é enterrado vivo e acorda na sua tumba (a caverna onde foi instruído na magia), sem poderes:

    “…e eu continuava deitado no estranho limbo criado por um corpo inerte e uma mente ativa (…) Não havia a menor esperança de mover as pedras que selavam minha tumba, mas eu talvez conseguisse atrair a atenção de alguém que passasse por ali. Esse local era um santuário desde tempos imemoriais e pessoas do vale subiam regularmente o monte levando oferendas para o deus que guardava a fonte sagrada ao lado da caverna. Era bem possível que agora esse ponto tivesse se tornado ainda mais santo, porque Merlin, o profeta do Grande Rei, mas que primeiro fora o médico dessa gente humilde, estava enterrado ali…”

Bela e apurada como entretenimento e narrativa, rica como alegoria místico-política de um momento-chave da história ocidental (em “As colinas ocas”, Merlin nos diz: “… fui obrigado a continuar cuidando da capela. Imagino que qualquer outro, como o Velho, manteria o lugar para seu próprio deus, mas esperei apenas que qualquer um o ocupasse…”), a Trilogia de Merlin deixa a sensação (quiçá injusta) de que as brumas exploradas posteriormente não passam de fumaça diante dessa construção romanesca de primeira.

livroms4

(uma versão do texto acima foi publicada no Letras in.verso e re.verso, em 28 de janeiro de 2015, VER http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2015/01/merlin-revive-nova-edicao-da-trilogia.html)

_________________________________________________________________

4582095371_0b9926c2b1

[1] A autora acrescentou posteriormente dois livros à série, The Wicked Day (1983) e The prince and the pilgrim (1995)

[2] Traduzido no Brasil também como “A gruta de cristal” (ed. Record)

[3] Mas há vários outros de sua autoria traduzidos no Brasil. Considero “Não toque no gato” (que li numa edição do Círculo do Livro)  muito bom, dentro do seu gênero.

[4] De resto, todos esses ciclos têm sua origem na mais prestigiada de todas as retomadas das lendas arturianas, uma das obras literárias mais amadas do século passado: a tetralogia “O único e eterno rei” (1938-1958 — há ainda um volume póstumo, publicado apenas em 1977), de T.H. White, cujo falecimento em janeiro de 1964, aos 57 anos.

[5] “Agora chegamos à parte de minha crônica que é a mais difícil de contar. Se é ou não verdade que o cometa com cauda de dragão veio anunciar o fim dos poderes mais elevados do mago Merlin, como afirma a crença popular, o fato é que não tenho certeza se o que lembro foi real ou um sonho.”

Lady Mary Stewart

livro-a-gruta-de-cristal-mary-stewart-2626-MLB4811535727_082013-F

27/01/2015

O atulhamento e o vácuo do universo familiar: “Fôlego”, de Rafael Mendes

45e8f4939bc3bd36e4b87ab1e324d227_XL

safe_image

“Em que parte da memória estão armazenadas as palavras exatas que ele falava depois de umas cervejas no sangue, quando decidia reunir a família na cama de casal e, através de promessas sem sentido, nos fazia chorar?” (trecho de Fôlego)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 27 de janeiro de 2015)

“Você há de concordar comigo quando afirmo que as nossas lembranças mais significativas, as minhas, as suas e as de Mateus, estão sempre atreladas ao pai, ele estivesse presente ou não…”

Assim Manuela se dirige a Pedro, filho do pai com outra mulher (ele manteve duas famílias paralelas), incitando-o a colaborar na reconstrução do passado, que até então parecia ser a tarefa de Mateus, narrador da maior parte de Fôlego, estreia num texto mais longo do paulista Rafael Mendes, 31 anos, após um livro de contos, “A Melhor Maneira de Comprar Sapato”.

O relato de Mateus (entremeado com curtas intervenções da irmã, a partir do enterro do pai — que cometera suicídio) pontua a “derrota” desse estranho pater familias, incapaz de sair do círculo sufocante da dependência dos sogros, vivendo num puxadinho ligado à casa deles, encanador mais por bico do que por competência — segundo o filho, “E além de tudo era um mau encanador”[1]; na visão da rebelde Manuela, “Pai, o senhor tá fedendo a merda; se fosse pela sogra, como ela confidencia, já viúva, à filha, casada com ele (e evangélica fervorosa), tudo seria diferente, contudo a decisão do marido de “ajudar o genro” amarrou o destino de todos: “Se o Paulo não fizesse isso, contra a minha vontade, talvez você estivesse em Curitiba uma hora dessas, e a história seria outra…”, instaurando uma onipresente sensação de falta de espaço, de corpos e fados se entrechocando, tendo como cristalização a asfixiante asma do narrador.

A história não pode ser outra, o vivido é um só. Fôlego mostra que a história, todavia, é sempre outra, mesmo com esse sufoco todo, daí a outra família, a existência paralela levada em outra cidade, e sobretudo o suicídio desconcertante, que coloca a todos em xeque. E enquanto Manuela escolhe o caminho do confronto, a partir da orientação sexual, Mateus tentará dilatar esse mundo de confinamento e aperto com uma trajetória “proativa”, como se costuma dizer, ascendente. Malgrado esse projeto, otimista e frágil, a história sempre é outra, e sua narrativa terá de ser completada pelos irmãos, tarefa em aberto, ligada ao futuro enraizado a esse passado, a esse pai fugidio e esquivo, presença-ausência, eterno retorno…

O ponto fraco da novela de Rafael Mendes reside numa certa falta de confiança no leitor: Mateus e Manuela às vezes atropelam a nossa leitura e já querem nos impor, com um discurso quase didático, a “moral da fábula”, as conclusões que nós mesmos poderíamos tirar desse universo de afetos no ambiente da periferia da Grande São Paulo. Um exemplo: “Alguém precisava contrabalançar a minha postura egoísta, a minha intempestividade, e esse alguém só podia ser ele. Talvez seja por isso que nesses dias nos mantivemos distantes um do outro. Só mesmo Mateus para aguentar tudo calado, pacientemente, ainda que lhe sufocasse. Agora, no entanto, eu entendo que aquela postura era um embuste, um disfarce, e que na verdade quem mais sofreu com a situação que vivenciamos foi o Mano.”!!??

O vigor do texto está justamente em que, assim como os personagens se recusam a ser apenas os partícipes de uma “só história”, unívoca e coesa, as palavras ajudam a compor um quadro no qual o que é deixado à sombra se impõe — as vidas dos avós, da mãe (diga-se, de passagem, que um dos méritos de Fôlego é se furtar totalmente ao vezo redutor, para não dizer caricatural, com que o fervor evangélico é comumente retratado), da outra mulher do pai e, claro, deste, que por si só valeria a leitura. E um dos momentos mais bonitos da nossa ficção mais recente é justamente a apreensão, num pequeno haicai narrativo sobre a aparência desse pai, no último encontro com o filho, que conjuga seu “fracasso” e o seu “mistério”: “Na lanchonete, meu pai tomava cerveja no balcão. Pediu um x-salada para mim e mais uma garrafa para ele. O lugar estava cheio de gente (…) Um cheiro de fritura, uma faladeira, um abafamento que sobrevinha da chapa quente. Eu não queria dizer nada e também não queria ouvir. Meu pai tomou um gole. Disse que se sentia cansado, que trabalhou o sábado inteiro, que no dia seguinte começaria um novo serviço. Vi suas têmporas inchadas, sua barba por fazer, as olheiras, os fios de cabelo branco. Não estava feio, mas nas já não era bonito.”

10941025_419653298198991_6220899476718719930_n

TRECHO SELECIONADO

“Ela nunca me disse nada a respeito disso, mas para mim não é absurdo que minha mãe tenha se apaixonado pelo meu pai à primeira vista (…) Frequentando os botecos, meu pai já conhecia as mulheres solteiras do bairro. Mesmo sem querer, ele as cativava, atraía para si os olhares. Até mesmo as mocinhas de família e algumas donas de casa reparavam nele. Meu pai falava pouco, apenas o necessário. Embora modesto, de gestos contidos, ele conservava um charme natural; era diferente, misterioso, convidativo. Esse jeito dele chamou a atenção também de minha mãe. Não foi com dificuldade que ela ouviu os elogios dele, nos dias seguintes ao serviço feito na casa de meu avô. Meu pai a acompanhou ao colégio algumas vezes; fazia o favor de carregar as sacolas de frutas se topasse com minha mãe na feira. E em cada oportunidade ele articulou um  gracejo, um comentário breve, aludindo à beleza dela: a pele branca, os traços finos, os olhos claros. Minha mãe não demorou a gostar daqueles elogios, a esperar por eles, a andar devagar pelas ruas do bairro, na expectativa de encontrar meu pai…”

3749aaa8ee129d7e919bddcc7e09cd36_XL

______________

NOTA

[1] Ser um “mau encanador” de certa forma contraria o atavismo sufocante das frases imediatamente anteriores à passagem: “Para mim, meu pai já nasceu encanador. Já nasceu com as mãos sujas, com o macacão fedorento, carregando aquela caixa de ferramentas pesada.”

FotorCreated

20/01/2015

Destaque do Blog: ARTHUR BISPO DO ROSÁRIO- O SENHOR DO LABIRINTO, de Luciana Hidalgo

110358601GGLuciana-Hidalgo1

“É que alinhavar toda uma existência dava muito trabalho. E exigia toda a linha disponível no mundo dos homens.” (Luciana Hidalgo)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 20 de janeiro de 2015)

   A aguardada exibição de sua versão cinematográfica em circuito comercial renova o interesse por Arthur Bispo do Rosário- O Senhor do Labirinto, publicado em 1996.

Não que o livro de Luciana Hidalgo (que co-escreveu também o roteiro do filme de Geraldo Motta e Gisella de Mello) precisasse disso. Premiado, referência absoluta no tocante à vida do artista que passou a maior parte da sua longa existência institucionalizado em manicômios (da véspera do natal de 1938, data de uma transfiguradora experiência “mística”— ou de um radical surto esquizofrênico — até sua morte, em 1989), realiza uma admirável mescla, bem ao modo de seu protagonista, cuja  característica é o aproveitamento de materiais diversos (tornando-se assim um pioneiro da pós-modernidade), de biografia e ensaio, numa narrativa que lembra o rendendê, o bordado de incomum refinamento praticado na terra natal de Bispo do Rosário, nascido em 1909 em Japaratuba (“rio de muitas voltas”),  em Sergipe.

Mas foi noutro Rio (a Cidade Maravilhosa), com outras voltas, que o nordestino negro e pobre teve seu encontro com a nêmesis da doença mental diagnosticada, malgrado sua personalidade ímpar ter sempre permitido que ele estabelecesse suas próprias regras, e principalmente suas obsessões estéticas, de forma que, ao ser “descoberto” pela imprensa e pelo establishment das artes plásticas (paralelamente à abertura política do começo dos anos 1980 e à mudança na orientação do tratamento psiquiátrico, até então beirando o mundo totalitário das mais sombrias distopias), era “o senhor de seu latifúndio, um grande salão rodeado por dez quartos-fortes, dignos de seu mundo. A sala de espera do juízo final.”

Como demonstraria depois num excelente romance sobre Lima Barreto (O Passeador, Rocco, 2011), a talentosa escritora carioca desenha universos interiores de urgência crônica, contrapostos à marginalidade e exclusão forçadas, caminhando no fio da navalha entre normalidade e insanidade (tal como etiquetadas pela medicina em voga em determinada época), fracassos e pequenas vitórias obtidas a alto preço (em termos pessoais).

thumbOpasseador

No caso de Arthur Bispo do Rosário, sua vocação demiúrgica, de salvação do mundo, através da criação de mantos (como o célebre Manto da Apresentação), estandartes, “assemblages”, isto é, colagens com objetos, ou, como caracteriza a biógrafa, numa das suas formulações exemplares, “pequenos bazares do universo. Um dos elementos mais importantes dessa recriação minaturizada do mundo era a nomeação (de pessoas, em especial): “Quando eu subir, os céus se abrirão e vai recomeçar a contagem do mundo. Vou nessa nave, com esse manto e essas miniaturas que representam a existência. Vou me apresentar.”

Luciana Hidalgo, com toda a fidalguia já inscrita no seu sobrenome, nos apresenta a vida e a obra de Arthur Bispo do Rosário sem condescendência ou melodrama, e também sem aparatos conceituais, tentando explicá-la, torná-la palatável e unívoca. Rio de muitas voltas, o senhor do labirinto é um exemplo do descaso, da injustiça, das mazelas sociais[1], e um indivíduo complexo e inesgotável (além de um poderoso criador). Até um momento biográfico especialmente delicado, seu conturbado relacionamento (platônico) com a estagiária Rosangela Maria Grillo, é narrado com uma sobriedade que o torna mais triste e contundente. Não que o veterano paciente da Colônia Juliano Moreira não lance suas frases dignas do teatro elizabetano: “Tudo bem, eu já entendi. Pode ir que eu vou ficar por aqui reconstruindo o mundo.”

Aliás, o estilo de O Senhor do Labirinto (afora seu personagem, claro), é a sua maior força. Tratando de uma vida com escassas fontes, toda ressignificada pela loucura e pela cifrada combinação de signos e materiais artísticos, sem maiores alardes, quase como quem não quisesse nada, essa ariadne dos labirintos de vidas descarrilhadas vai inoculando no leitor sua prosa ao mesmo tempo faca só lâmina e rendendê de grande beleza: “O tempo, fosse qual fosse, urgia, era precioso”. Ela e Arthur Bispo do Rosário nos fazem sentir isso no coração e na mente a cada palavra.

10920920_416841345146853_3083355676430334198_n

304095-970x600-1senhor_do_labirinto

_________________________________________________________

 NOTA

[1] Somos apresentados às “sórdidas estatísticas” ligadas ao tipo de instituição que era um manicômio ao longo do século passado, e que coincide justamente com a biografia de Bispo do Rosário, a não ser em seus últimos anos.

Diga-se de passagem, tem sempre alguém que evoca o que foi feito no regime soviético, especialmente no período stalinista, com dissidentes de toda ordem (e, de fato, foi um horror inominável), como uma espécie de epítome do totalitarismo.

Mas o que pensar do discurso abaixo, feito pelo diretor empossado da Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, ao lançar a pedra fundamental do manicômio?
Também não se propõe uma erradicação, por segregação, de indesejáveis e dissidentes? Pior: é um discurso ainda presente, sob novas roupagens:

“Foi, pois, jubiloso e esperançado que compareci a esta festividade,  a fim de saudar o Sr. Ministro da Justiça, que vem remodelando a Assistência a Alienados, pela fundação destas Colônias… e pela provável promulgação de uma nova legislação na qual serão resolvidos delicados problemas atuais de higiene e defesa social pertinentes aos deveres do Estado para com os tarados e desvalidos da fortuna, do espírito ou do caráter,  para com os ébrios, loucos e menores retardados, ou delinquentes e abandonados, assim como para com os indesejáveis inimigos da ordem e do bem público, alucinados pelo delírio vermelho e fanáticos das perigosíssimas e sanguinárias doutrinas anarquistas ou comunistas, do maximalismo ou bolchevismo.”

   Com referência ao período pós-1964, lemos: “Um conflito que impediria a liberdade no país, sem mudar muito aquele asilo de alienados, cárcere público, quartel-general de vidas há muito cassadas.”

bispo do rosario fichaarthur-bispo-do-rosc3a1rio-manto

15/01/2015

OS TRABALHOS E OS DIAS NA POESIA DE DONIZETE GALVÃO

10931407_869792149752087_2778682631485404110_nDonizete galvão

[uma versão da resenha abaixo foi publicada no LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO, em 14 de janeiro de 2015, VER http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2015/01/os-trabalhos-e-os-dias-na-poesia-de.html]

“De fato a linhagem agora é de ferro:  nunca, de dia,

se livrarão da fadiga e da agonia, nem à noite,

extenuando-se: os deuses darão duros tormentos.

Todavia, para eles aos males juntar-se-ão  benesses…”

(Hesíodo, Trabalhos e Dias, versos 176-9, trad. Christian  Werner)

“Poderia ser este o lugar.

Este o tempo de repouso.

Mas a roda dentada nunca para…” (Donizete Galvão)

Entre os trinta e seis poemas reunidos em Ofícios do Tempo (ed. Positivo), dois podem ser considerados nucleares, inclusive por sua concisão e perfeição:  “Memória do paraíso/não tenho não. /Lembro-me da dor. /Da vergonha. /Do desgosto. /Da gota de suor/pingando do rosto.” (depois da queda); “Nu/bailo/numa/navalha//Sem/nada/que me valha/só/me prende/um fio/de esperança” (equilíbrio).

Ao destacá-los, corre-se o risco de sublinhar o lado mais abstrato, mais “condição humana”, relegando a segundo plano uma das linhas de força da poesia de Donizete Galvão,  cuja morte prematura completa um ano agora em janeiro: a concretude das referências, na intersecção delicada e perigosa do rural e do urbano, do eu lírico que traz as marcas do interior profundo de Minas mesmo na mais caótica das metrópolis, São Paulo. Diga-se, de passagem, que a antologia levada a cabo no volume (sob responsabilidade de Lindsey Rocha Lagni), muito feliz nesse aspecto, ressente-se de uma incômoda uniformização do fazer poético de Galvão, passando ao leitor a (falsa) impressão, ainda mais quando a autora do posfácio, Marina Ianelli, nos diz que estamos diante do “sumo do sumo” da obra[1], de que sua vocação, por assim dizer, é a dicção do verso curto, “simples”, “claro”, e sobretudo muito calcada, como em boa parte do melhor lirismo a partir do modernismo, nas perplexidades do cotidiano, o que deixa de fora uma linha mais “ambiciosa”, mais intelectualizada, no diálogo com a mitologia, cujo exemplo mais notável é “Nós e Filoctetes”, ponto alto de A carne e o tempo (1997)[2]. Feita tal ressalva, e assumindo que nenhuma seleção, por mais criteriosa e feliz, dá conta de todas as facetas de um universo complexo, voltemos à dialética entre a “condição humana” e  o contigencial que domina esse póstumo e oportuno Ofícios do Tempo.

Como já apontado, o rural ainda é muito presente nessa experiência do contingencial, particularmente como substrato da memória. Mas, aqui, o grande poeta mineiro foge totalmente de certa deturpação malsã e kitsch desse universo rural a infestar tantas narrativas infanto-juvenis e muito da recepção do universo de um poeta como Manoel de Barros, leitores não levando em conta de que se tratava de uma topografia lírica extremamente peculiar (além de tardia), e desabrochada a partir do uso incomum da linguagem, e não de uma representação de alguma realidade rural encantada que já houvesse existido e que se perdeu nos processos de urbanização.

O rural que emerge da memória lírica de Donizete Galvão é um mundo de trabalhos e dias (o que não deixa de apontar, se pensarmos no poema de Hesíodo, para a “condição humana”)[3], de ofícios, como observamos em reboco:

“Sexta feira:

dia de rebocar o chão.

É preciso ir ao curral

e trazer na bacia

o estrume das vacas.

Melhor aquela pasta

que solta fumaça,

ainda cheirando a capim.

Na beira do barranco,

perto do córrego,

cava-se a tabatinga.

Do branco do barro

com o verde da bosta,

que se mistura com os dedos,

surge uma argamassa

com que se barreiam

o piso da cozinha,

a taipa e os lados da trempe.

Para quem não tem muito,

tudo tem serventia:

a argila, a bosta da vaca,

o perfume da grama,

o giro ágil das mãos,.

Faz-se sem saber como,

sabendo-se desde sempre

essa alquimia.”

Por conta dessa vivência, o eu lírico pode interligar os topói da vida alienada na era burguesa e da “vida de gado”, fruto da massificação, com relação ao seu (e ao de tantos outros) cotidiano urbano, de uma forma que recupera a contudência das analogias, em poemas como curral, onde orquestra toda uma movimentação  da cidade, em diversos estratos sociais (“saem dos subterrâneos das garagens… saem dos conjugados sem luz do sol… saem de bairros Jardim Qualquer Coisa… saem de buracos sob a linha do trem…saem das esquinas, nos semáforos…saem dos portões com grades…saem das lojas de mármore e vidro…”), e autorretrato como boi, ele um “Boi com crachá/ e carteira assinada./Boi comprovado./Boi indistinto /na boiada da cidade…”.

Oficios-do-tempo-65756

Nessa vida bovina, a única “distinção” é a insônia onipresente: “No curral da insônia,/rumino palavras pastadas/na ribanceira dos dias”. Aliás, a insônia mesma torna-se um “trabalho” dentro dos “dias”, como mostra, já a partir do título, lida:

“Peleja

para pegar

no sono.

Repele

os becos

em que

os pensamentos

giram em falso.

Rumina

os restolhos

ofertados

pelo dia.

Coloca

cunhas de

imagens

de bicas d´água

e pastagens

para que represem

os círculos infernais…”

Mais adiante, no lapidar insônia:

“Passou a noite na capina.

Quanto mais capinava

mais tarefa espichava.

Acordou com o corpo moído.

Agora o olho desconfiado

não quer mais dormir

com receio  de trabalho

                  dobrado.”

bruegel-1525-1569-verc3a3o

Mas outro poema, além de reboco, situado numa sexta-feira alçada a um plano simbólico que permeia a civilização ocidental (a da Paixão), talvez seja a mais cabal demonstração da arte com que esse poeta fazia os grandes temas da “condição humana” passarem pelo crivo dos “trabalhos e dias”, pelo “áspero caroço” dos instantes, engolidos ainda assim, pela roda dentada[4]:

“A mulher que ganhou os peixes

não traz os olhos cabisbaixos

nem os ombros arqueados.

Treze peixes finos e prateados

deslizaram para dentro da sacola.

A mulher que ganhou os peixes

dá uma gostosa gargalhada.

Para que bairro de Belo Horizonte

irá com sua sacola de peixes?

Vai comentar o presente

com o cobrador de ônibus?

Usará a frigideira  preta

que fica no armário da pia?

Vai passar os peixes na farinha,

fritá-los e servi-los bem sequinhos.

Quem dividirá os peixes com ela?

O marido aposentado? Os filhos?

Haverá um gato eriçado

defendendo o inesperado das tripas?

A mulher que ganhou os peixes

não os salgou com sua mágoa.

Recebeu-os como um milagre

embora lhe fossem dados de esmola.” (sexta-feira da Paixão)

Assim, nessa nossa condição mais-que-contingente, onde tanto não tem cabimento na linguagem (“…nenhuma palavra / traduz o tormento / somente grito/gemido/uivo/corte/ferimento/podem dizer/o que não tem/cabimento”), é necessário e urgente ficar atento (“… a atenção: /forma natural/de oração” lemos no poema inaugural, e um dos mais belos, da antologia), sob o vento frio de julho, aos virtuais pêssegos da primavera (afinal, Hesíodo nos diz em seu poema sobre os trabalhos e os dias, após narrar o mito de Pandora: “…Lá mesmo só Esperança, na casa inquebrável /ficou, dentro do cântaro, sob as bordas, e não porta/afora voou…[5]), mesmo sendo a morte nosso horizonte, fazendo o equilibrista  estremecer de calafrio, na  “antecipação do abismo”.

Numa poética que é “Roçar de andorinha/entre voo e pouso”, o mundo da experiência, sendo também desejo, pede e não encontra o fio que a solde:

“Os pensamentos saltam do trilho

e ferem e vibram e caotizam,

sem que nenhum fio

possa soldá-los…”

trabalhos-e-os-diashesiodo

____________________________________________________

VER TAMBÉM NO NO BLOG

https://armonte.wordpress.com/2014/02/04/donizete-galvao-1955-2014-a-travessia-das-coisas-e-a-edificacao-de-escombros/

________________________________________________

5406806_1GG

NOTAS

[1] Composta pelos seguintes livros: Azul Navalha (1988); As faces do rio (1991); Do silêncio da pedra (1996);

A carne e o tempo (1997); Ruminações (1999); Mundo mudo (2003); O homem inacabado (2010).

[2]  Do qual cito um trecho:

 “Naqueles dias tão transparentes,

ela pressentia a noite que depois viria?

 

Aquela película de mágoa acompanhou-a,

dormente por dormente, desde o Rio?

 

Nas conversas com o vento,

sabia que um dia abriria em mim

a mesma ferida que consigo trazia?

 

Nas súbitas aparições de santos,

antevia os mesmos signos da melancolia,

impressos nas correntes dos genes,

a memória da dor gravada nos neurônios?

 

Seriam também meus os vincos de sua carne triste?

 

Se acaso soubesse disso, me avisaria

que nem pó de carvão, nem água boricada,

nem mesmo a visita do filho de Aquiles

fechariam a ferida que nós dois possuíamos?”

FILOCTETES14231-MLB163041967_9135-Y

[3] O próprio poeta nos diz explicitamente:

“Baldados os trabalhos e os dias,

os abraços em gente sem serventia

e os apertos de mão de última hora.

Ama só aqueles de quem nasceu,

a quem deu vida e os amigos

cujos afetos enraizaram-se na alma.

Que não se gaste apreço ao geral,

ao que por todo mundo é gostado,

às imagens e notícias em demasia…”

No trecho acima, de tatu-bola, temos uma espécie de convocação para a concentração no ofício de viver e seus afetos, um não à dispersão, à falsa ideia de se estar “conectado” com o mundo em geral, tão vendida nos dias atuais.

[4] “Um tapete de goiabas

estende-se sobre a grama.

Os jacintos em bloco

ergueram as suas flores.

Poderia ser este o lugar.

Este o tempo de repouso.

Mas a roda dentada nunca para.

Mói o caramujo envolto em formigas.

Mói o cão içado do poço por um balde.

Mói os fios de cabelo de Anita

que protegem os pés de rosa.

Mói as rosas.

(Em direção ao rio,

lá vai a mulher com a pedra no bolso.

Lá está ele na cama

com os tubos no nariz.)

Há perfumes de jacintos

e  goiabas vermelhas de outono.

Cada instante tem sua polpa

e no centro o áspero caroço.” (a dureza do instante)

[5] versos 96-8 (ed. Hedra, 2013)

donizete

13/01/2015

“As duas faces de janeiro” e as obsessões de Patricia Highsmith

PAR5433215056288AS_DUAS_FACES_DE_JANEIRO_1254581907B

“__ Escute, Rydal, se é dinheiro o que está procurando, talvez possamos chegar a um acordo.

__ Ah-h—Rydal sorriu e sacudiu o fósforo para apagá-lo—Não me oponho a um pouco de dinheiro, mas duvido que você e eu possamos um dia chegar a um acordo.

      Chester riu com desprezo.

__ Não dou dinheiro a pessoas om quem não chego a um acordo.

__ Não? Pense de novo.

__ Pena que não deixou claro desde o início que era um chantagista. Poderia ter-me dito que era um chantagista. Poderia ter-me dito antes de irmos para Creta.

__ Não era claro para mim antes de Creta. Acho que foi o fato de ter-me associado a você que me tornou obcecado por dinheiro…”

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 13 de janeiro de 2015)

No ano em que completou meio século, As Duas Faces de Janeiro (cuja tradução — de Marcelo Pen — acaba de ser relançada pela Benvirá[1]) transformou-se no filme de estreia como diretor do roteirista iraniano Hossein Amini (de Branca de Neve e o caçador), ora em exibição em Santos.

Fugindo da investigação de seus negócios escusos nos EUA, o quarentão Chester MacFarland leva a esposa, Colette (25 anos), para uma viagem pela Europa. Em Atenas, chamam a atenção de outro americano, Rydal Keener: Chester se parece muito com seu pai, recém-falecido, com quem tinha uma relação problemática; Colette, com a garota que fora sua paixão adolescente, com resultados desastrosos, como uma acusação de estupro. Ao segui-los, testemunha o assassinato de um policial; ajudando Chester a ocultar o cadáver, envolve-se com o casal de uma forma tortuosa e escusa (e sobretudo gratuita[2]: “As palavras pareceram sair de dentro dele vindas de lugar nenhum. Estava se oferecendo para cometer perjúrio. E por que motivo? Por quem? Um homem cujo ar cavalheiresco era só aparente, Rydal podia perceber agora; um homem cujas roupas tinham bom corte, tendo sido feitas por encomenda, mas cujas abotoaduras eram vistosas; um homem cuja disposição parecia desonesta, pois ele era desonesto”) que os levará a Creta, onde se cristaliza a mescla de fascinação  e ódio entre os dois homens; e depois à França, quando ambos, foragidos da justiça, usando identidades falsas, já são inimigos declarados[3], Chester procurando despistar Rydal, sempre em seus calcanhares…

De todos os 21 romances de Patricia Highsmith (1921-1995) publicados em vida[4], As Duas Faces de Janeiro talvez tenha sido o mais trabalhado e revisto, com várias versões rejeitadas por sua editora (que não o achava “à altura de uma escritora como ela”): “Um clima muito pouco saudável cerca o texto [que] transmite forte sensação de repulsa; ou então: “o livro só faz sentido se houver um relacionamento homossexual entre Rydal e Chester…Não conseguimos gostar de nenhum personagem, e mais difícil ainda é acreditar em algum deles[5].

TheTwoFacesOfJanuaryMinotaur

De fato, vindo na sequência da sua maior obra fora da série Ripley, O Grito da Coruja (1962), esse livro, cujo título evoca a dualidade de Jano (tocando fundo nos movimentos interiores dos personagens: Chester a princípio sempre se reinventando para o futuro, vezo essencial para sua vigarice; Rydal, fixado no passado; depois, a inversão entre eles), desconcerta o leitor e, no seu terço final, resvala para o exasperante[6], com uma narrativa estática e atitudes que soam singularmente inverossímeis, em especial num homem maduro que sempre viveu de golpes e da esperteza (“Quebrado, jurou a si mesmo que ficaria rico, e depressa.Assim, passou a operar de modo cada vez mais escuso, podia perceber agora, embora ao começar não tivesse a intenção de ficar milionário tornando-se um vigarista. Fora uma coisa gradual. Uma coisa gradual e ruim, Chester sabia. Mas agora estava preso a isso, realmente afundado nisso, entregue a isso como um viciado à droga”).

Entretanto, sem deixar de reconhecer alguns desequilíbrios sérios do romance enquanto tal, essa mirada apenas ratifica os equívocos das avaliações acima citadas sobre o manuscrito, o principal deles centrado na questão crucial de acreditar nos personagens (e gostar deles), sem contar a latente homossexualidade da trama. Pois bem, qual a novidade? Boa parte do universo de Patricia Highsmith é a exploração da atração-desejo de tomar o lugar entre dois homens. Pode-se até chegar ao ponto de afirmar que todos os cenários, por mais interessantes e bem-descritos que sejam, na Grécia ou na França, e mesmo o labirinto de Creta (onde acontece um episódio crucial)  só servem, em As Duas Faces de Janeiro,  para que a autora coloque tal obsessão em movimento[7], num labirinto psíquico que faz de tudo o mais mero acessório (inclusive Colette, o suposto pomo da discórdia). Portanto, não tem muito sentido cobrar verossimilhança nas atitudes e eventos (e assim dá para entender melhor a falta de jogo de cintura por parte de Chester, na reta final da narrativa), embora, a meu ver, os aficcionados e experimentados nos dédalos highsmithianos sentirão menor desconforto (nesse sentido, pelo menos) com esse livro tão peculiar e estranho. O aventureiro de primeira viagem talvez não aprecie muito a iniciação, pois os mapas da grande escritora texana geralmente levam a territórios proibidos ao conforto turístico[8].

TWO FACES OF JANUARYtwo-faces-of-january-mortensen-isaac-dunst-1

TRECHO SELECIONADO

“Chester pôs a mão no radiador, que ainda não dava sinais de estar perdendo a frieza. Teve um pressentimento de que à noite continuaria frio e que Colette ficaria acordada até o dia raiar dançando em algum lugar com Rydal, em vez de tentar dormir. A energia de Colette era supreendente—patinar no gelo a tarde inteira em Radio City ou andar a cavalo no Central Park, e então dançar numa festa até de madrugada, por exemplo. A energia da juventude, claro. Simplesmente não conseguia estar à altura. Suas pernas não aguentavam. Bem, as coisas ainda não tinham chegado a esse ponto e, se o cômodo  não aquecesse em duas horas, mudaria de quarto ou de hotel…”

2faces-not-couple

____________________________________________

NOTAS

[1] Anteriormente publicada pela Editora A Girafa (2004). O título original é The Two Faces of January.

[2] Como sói acontecer no universo da autora de que me ocupo. Mas como a minha linha de argumentação mostrará, estamos longe do gratuito, que é apenas a superfície, a proverbial ponta do iceberg.

[3] Rydal: “Eu o detesto. Creio que isso me fascina. Não desejo matá-lo, nunca desejei matar ninguém. Mas devo confessar que gostaria de vê-lo desabar.” A questão, como sempre, é quem se revela o mais fraco. Em O Talentoso Ripley, o protagonista precisa matar o “amigo” a quem ama, Dickie, porque se descobre o mais fraco dos dois, e não há outro jeito.

[4] Small G foi publicado postumamente, em 2004. O último publicado em viva foi Ripley debaixo d´água (1992), quinto da série Ripley.

[5] Utilizo informações colhidas na biografia A talentosa Highsmith, de Joan Schenkar, na sua versão brasileira (feita por Ricardo Lísias, Globo, 2012).

Capa Highsmith final.pdf

[6] O mesmo problema acontecia com  This sweet sickness (1960), mesmo assim um romance superior (há duas edições brasileiras, uma com o título Essa doce obsessão; outra, como Esse doce mal), a meu ver.

[7] Além do seu fascínio pela vigarice, pelas identidades falsas, e pelo dinheiro, no sentido mais literal possível: a obra de Highsmith em geral, e As duas faces de janeiro é muito ilustrativo, é pródiga em quantias, em notas que aparecem em cena, em detalhes financeiros exaustivos. Por exemplo, há a cena em que Andreou (aliado de Rydal, mas contratado por um iludido Chester para eliminar o antagonista) exibe o dinheiro que recebeu do americano: “…ele o havia trazido consigo também para exibi-lo, Rydal pensou. Ele fitou as notas novas de quinhentos dólares na mesa de madeira ao lado dos pratos sujos de guisado. Por alguns segundos todos miraram o dinheiro…”; anteriormente: “Notou a falta de jeito de Chester, sua falta de coragem em mencionar o dinheiro, possivelmente sua sovinice e, a despeito de todas as suas roupas gastas, Rydal achou-se bastante superior a Chester MacFarland”.

Num dos momentos da narrativa, em que se faz uma caracterização do “caráter” de Chester, lemos: “Rydal tentou explicar que Chester era o tipo de homem que se sentia mais à vontade depois de constranger as pessoas, ou procurar constrangê-las, a aceitar dinheiro”.

[8]Era uma  cidade desinteressante, Canéia, mas ele apreciava cidades desinteressantes, porque elas obrigavam as pessoas a examinar coisas—por falta do que fazer—que de outra forma passariam despercebidas…”

10917274_414343512063303_7892753339577713271_n

tumblr_static_patriciah

08/01/2015

O LIVRO DE HENRIQUE: um grande romance de Heinrich Mann (1871-1950)

mann152_v-contentgross1livro-a-juventude-do-rei-henrique-iv-heinrich-mann-fgratu-14735-MLB20089260327_052014-F

“Ele avança imperceptivelmente. Tudo lhe serve, seus esforços e os dos outros que o querem expulsar ou matar. Certo dia perceberão que ele é famoso, e marcado pela sorte. Mas sua verdadeira sorte é sua determinação natural. Ele sabe o que quer, por isso distingue-se dos indecisos. Especialmente, ele sabe o que é bom, e o que a consciência dos seus iguais considera certo. Isso lhe dá, claramente, uma posição singular. Nenhum daqueles que fazem seu jogo nesse ambiente denso está tão seguro das leis morais quanto ele. Não se deve buscar em outra parte a origem de sua fama, que jamais empalidecerá…”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de dezembro de 1993)

Thomas Mann é o maior escritor do século. Seu irmão Heinrich, embora mais conhecido por causa de O anjo azul (Der Blaue Engel, 1930), a clássica adaptação de Josef von Sternberg de seu Professor Unrat (1905), também era grande, como prova A juventude do rei Henrique IV (“Die Jugend des Königs Henri Quatre”, 1935 — que comento em versão de Lya Luft). O lançamento da Editora Ensaio certamente é uma das traduções mais importantes deste ano.

Henrique foi um dos protagonistas da guerra religiosa que dividiu e empobreceu a França nos séculos XVI e XVII, envolvendo os grandes clãs nobres da Europa. Morta Jeanne, sua mãe, fanática huguenote (como eram chamados os protestantes franceses), ele é atraído para a Corte parisiense pela rainha-mãe, Catarina de Médicis (que envenenou Jeanne), com cuja filha — Margarida de Valois — se casa. Dias depois ocorre a famosa Noite de de São Bartolomeu, na qual os protestantes são massacrados. Henrique é mantido prisioneiro na Corte. Os filhos de Catarina vão se sucedendo no trono, e o reinado de Henrique III transforma o Louvre num palácio gay, com orgias e disputas de favoritos…

A teia de acontecimentos é contada com vivacidade ímpar, com discretas participações de Nostradamus e de ninguém menos do que Montaigne, que se torna amigo do futuro rei e influencia seu modo de pensar, baseado na tolerância e no conhecimento empírico das motivações humanas.

Tal resumo asséptico e praticamente insípido não dá conta do romance riquíssimo que é Henrique IV. Heinrich Mann surpreende um momento histórico em que as massas eram manipuladas via fanatismo religioso, como acontece em épocas de insegurança e miséria (a nossa, por exemplo). Por detrás dessas disputas intolerantes há sempre o espectro do poderio econômico e político (as outras potências europeias, Espanha e Inglaterra, fomentam a maldade de Catarina porque lhes é útil e conveniente). Cada seção do livro se encerra com uma moral dos acontecimentos e da evolução pessoal de Henrique, a quem conhecemos desde a infância. Sua maturidade e morte são narradas em outro volume, publicado em 1938.[1]

Sem o impacto que causou nos anos 1930, ainda assim é enorme a impressão que causa no leitor de hoje (malgrado o espinhoso e desajeitado texto em português, que parece aspirar a que concordemos com a opinião de Nigel Hamilton de se tratar de um empreendimento linguístico intraduzível), pela irreverência paródica de certos trechos, mas em especial pelo seu lado bem-humorado, cheio de vida. Elíptico, Mann realiza um fabuloso tour-de-force com a narração em terceira pessoa, que desliza para a própria fala ou pensamento dos personagens, quer individualizados, como Henrique ou Margarida, por exemplo, quer em momentos coletivos (como o pensamento do povo em momentos culminantes da narrativa: as núpcias, o massacre).

Um empreendimento cada vez mais difícil, só tentado vez em quando por alguém da estatura de uma Susan Sontag (em seu O amante do vulcão, outra grande tradução de 1993): o casamento entre o prazer de contar fatos passados e o prazer de ser significativo. Um raro prazer.

heinrich_mann__gesammelte_werke_in_einzelbaenden___die_jugend_des_koenigs_henri_quatre-9783100478139_xxl

TRECHO SELECIONADO

Henrique virou-se bruscamente. Não ouvira nada, mas entrementes Catarina de Médici entrara bamboleando, e fora até o centro do quarto. Ele reconheceu apenas seu contorno, pois estava ofuscado pela luz, mas ela avistara o rapaz e o examinava. As mãos dela estariam escondidas nas pregas do vestido? Vestia preto, e começou a falar com ele, na sua voz gasta.  “Mas ela está viva!” pensou o amargurado filho da morta. Com ódio ouvia-a protestar sua grande dor pela perda de sua boa amiga Jeanne, e que estava feliz por finalmente tê-lo ali consigo. Ele acreditou, mas decidiu: sua chegada não seria um bem para ela. Seus olhos tinham-se acostumado à claridade mais débil. Realmente, ela ocultava as mãos! Então ainda meteu a mão de Deus na sua fala. O filha da morta segurava a língua com os dentes, do contrário teria exigido: madame, deixe-me ver suas mãos! Mas ela fez isso! Tirou de seu vestido as mãozinhas gordas que ele queria ver, e depositou-as sobre a mesa diante da qual se sentou.

    Henrique deu uns passos irados, rápidos e impensados. A velha rainha tinha à sua frente a imensa mesa larga, atrás dela quatro fortes suíços com longas lanças. Era fácil ficar calma, a voz bonachona:

__ Como tenho pena de você, meu rapaz! Dezoito anos, não é, e já duplamente órfão! Pois encontrará em mim sua segunda mãe, que orientará seus passos, os passos dos jovens muitas vezes são apressados demais. Eu sei que vai me agradecer, meu jovem, sua natureza é viva e natural. Nós dois merecemos nos darmos bem.

     Era cruel. Sobre a mesa adivinhava-se um invisível copo de veneno, os dedinhos da velha esgueirando-se até ele, enquanto o abismo falava através dela. Era um feitiço, era preciso rompê-lo! Certas palavras e sinais teriam talvez feito aquele rosto cor de chumbo com as bochechas caídas rebentar e desmanchar-se no ar. Mas Henrique naquele instante tenso fez coisa diferente: descobriu que a assassina de sua mãe era digna de comiseração- como no fundo do poço do Louvre, o resto da torre que sobrava sobre os séculos soterrados. Mas em breve será removida. Talvez afinal ela faça a mesma coisa. Ela ou sua linhagem construíram a fachada bonita do palácio ao sol do meio-dia. E ela pessoalmente ainda está aí, como o passado louco e mau. O que é ruim mas muito velho acaba sendo ridículo, ainda que deseje matar. Apesar de seus tardios crimes, desperta misericórdia pela sua impotência, e decadência!

     O jovem Henrique exclamou em voz clara e confiante:

__ Como são verdadeiras suas palavras, madame! Um dia lhe agradecerei, certamente.  Que meus atos sejam sempre da mesma naturalidade que os seus! Farei esforços para agradar a uma tão grande senhora…”

hmann2

__________________________

NOTA

[1] “Die Vollendung des Königs Henri Quatre”, ainda inédito em português.

64609924

06/01/2015

EM DIREÇÃO AO QUE IMPORTA: os belos haicais de “29”, de Marcos Messerschmidt

29marcos com gata

“trinta e quatro dias numa clínica,

quarenta dias nos bosques do Japão,

onze meses sem beber.  

vinte e nove anos

enterrados em mim.”  

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de janeiro de 2015)

Na minha lista de destaques de 2014, publicada na semana passada, alguns autores (como Thiago Roney, Leonardo Villa-Forte, Rafael Sperling, todos com 29) beiravam os 30 anos[1]. O gaúcho Marcos Messerschmidt já alcançou a marca, mas antes, como um rito de passagem, escreveu os 70 haicais — emoldurados por dois poemas mais longos — que compõem 29. “Dia de chuva /bom começo/bom fim para um haicai.

Em seis seções, a forma japonesa consagrada, essencialista, muito focada na contemplação da natureza, e que teve um mestre como Bashô (1644-94: “Calou-se o sino/ O que chega a mim agora/ é o eco das flores),  é inteligentemente mesclada a notações urbanas, a clínicas de reabilitação, a autores-fetiche, cuja marca seria uma antípoda prolixidade, caso de Roberto Bolaño, os beatniks (como Kerouac ou Ginsberg), Bukowski, para não falar em Baudelaire e do santo padroeiro da abertura, o mais expansivo e derramado, Walt  Whitman (“poeta da relva/obrigado/ por me ensinar /a abraçar /a humanidade”; mais adiante: “em três linhas/ sou todo[s] /sou invencível”).

Já há tempos vem me enfadando o constante (e já estereotipado)  apelo à “literatura” como matéria do próprio fazer literário. E, Bolaño (malgrado sua culpa no cartório com relação à famigerada metaficção)[2], Whitman e especialmente Baudelaire à parte, nunca fui muito fã dos autores caros a Messerschmidt (“embriagado/ entre Bukowski/ e Baudelaire, lemos na seção Trêmula Cicuta, e eu me pergunto se não é misturar vinho fuleiro com o melhor champanhe — todavia, parece que o autor de Cartas na rua é irresistível para jovens escritores). Mesmo assim, o talento do poeta estreante logrou alguma alquimia secreta e imponderável, talvez o uso de uma cicuta nada trêmula no seu conciso discurso lírico,  conseguindo driblar miraculosamente, na maior parte de 29, os déjà vu, cacoetes geracionais e até mesmo a geralmente insuportável infestação de referências literárias e metalinguísticas (que, no livro, por causa da destreza de toque, se reduz a um suave veneno). haicaicesarea tinajero

Na primeira seção, Flores do Dilúvio, “a flor ensaia o absurdo/ descola do galho /espalhando multidões, e é onde a natureza parece mais presente, junto com os  “chamados irresistíveis da rua; na segunda, A Caminho da Barbearia, a ênfase nas referências começa a ser mais evidente, em meio a versos fantásticos, mesmo com quebra da forma usual (“o belo amigo coça sua melhor barba ), entretanto, como se afirmará na seção seguinte, Trêmula Cicuta, e creio que acabará tornando-se um dos haicais mais citados do livro, “encontro a forma/ nem redonda/ tampouco enquadrada”, espelhando uma rebelião vandalírica mais agônica: “maldigo o pai/ amaldiçoo o filho/ espírito não me contém; o quarto conjunto, Há Pouco, também tem como abertura um haicai que nasceu com vocação para citação: “pensei/ que fosse morrer/ era só a vida, e entre alusões até mesmo a personagens de Detetives Selvagens (para ser mais preciso, a mais-que-procurada poeta das garatujas,Cesárea Tinajero), temos momentos lindos: “o vaso quebra/ estilhaços/ de haicais, ou ainda: “em casa/ espera o mar/ fio solto da rede”, e eu penso que o admirador de Whitman tem uma dicção elíptica mais afinada com a nada garatujal Emily Dickinson, de todo modo a seção tem um fecho de ouro, um dos grandes momentos do lirismo brasileiro mais recente: “estávamos lá/ há pouco/ eis aí o símbolo”. Talvez por esse motivo, considero Disseca-se a seção mais inexpressiva de 29 — ainda bem que há o poema final, Still Beating, o qual começa assim: “nesta cidade baixa/ ensaio o voo torto/ em direção ao que me importa”. O encanto de fazer o percurso nas asas do voo torto do agora trintão Marcos Messerschmidt é que aquilo importa a ele passa a valer para nós também.

Archivo_Bolaño_Silla_DirectorPortrait-of-Basho-Watanabe-Kazan-detail-medium-postbit-248-thumb-600x407-17011

TRECHO SELECIONADO

Um haicai com um quê à Manoel de Barros:

“perto de ti, rio

sou menino

deságuo maturidades”

10906467_411514169012904_426341701170920512_n ___________________________________________

NOTAS

[1] VER https://armonte.wordpress.com/2014/12/30/livros-de-2014/

Lembrando que, na mesma lista, Antônio Xerxenesky, que aniversariou em dezembro, lançou seu F ainda com 29 anos, e que Débora Ferraz está com 27.

[2] VER https://armonte.wordpress.com/2013/07/13/estrela-cadente-roberto-bolano-o-visgo-da-literatura-e-o-desgaste-da-aura-de-um-autor/ Charles-BaudelairewaltwhitmanCharlesBukowski

30/12/2014

LIVROS DE 2014

por escrito

ESCLARECIMENTOS PRELIMINARES:

  1. Algumas das melhores páginas que li este ano estão em AS FANTASIAS ELETIVAS (Record), de Carlos Henrique Schroeder. Lamentavelmente, a partir do momento em que ele dá a palavra a um travesti, em um discurso-cabeça bolañesco, não mais me acertei com o seu romance, não o entendi mais, e não sei se por culpa minha, dele, de Bolaño, de Sebald, ou da entidade “Literatura”;
  2. Gostei muito de FAZENDA DE CACOS, de Marcelo Benini (Intermeios), e de fato ele já fazia alta poesia nas crônicas muito acima da média do gênero em O homem interdito, entretanto me pareceu estranho que ele figurasse solitário no meio de um mar de prosa, tal como é a lista —  fica a indicação;
  3. Fico devendo a indicação de qualquer título lançado em e-book ou similares (só leio publicações impressas), o que deverá certamente tornar-se um problema cada vez maior no futuro;
  4. Há dois títulos (o de Thiago Roney e o de Ana Miranda), na verdade lançados no final de 2013, cuja divulgação, porém — e para isso contribuem as circunstâncias editoriais, fora dos eixos “centrais” (O PESO DA LUZ não saiu pela poderosa e midiática Companhia das Letras) — ocorreu ao longo do ano corrente, pelo menos no que me concerne, por isso me façam um desconto.
  5. Não dá para ler tudo e gostar de tudo.

elvira

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 30 de dezembro de 2014)

Livro do ano- POR ESCRITO (Companhia das Letras). A veterana Elvira Vigna traça uma agônica alegoria do Brasil “moderno”, com uma protagonista que se reinventou ao longo da existência (como tantas heroínas da notável autora carioca), não conseguindo, porém, espalhar as pedras do passado, e só repousando em lugares límbicos e antissépticos (hotéis, aeroportos), sempre a caminho. Obra-prima.

Além dele, destaco (por ordem alfabética do sobrenome do autor):

casa caiMarcelo_Backes

A CASA CAI (Companhia das Letras)- Retomando um dos heróis de O último minuto, seu livro anterior, Marcelo Backes chega ao quadro mais amplo dentro de sua ambiciosa produção romanesca, tornando-se o Lima Barreto das mudanças no perfil urbano do Rio no século XXI;

irmão alemãoO mistério de Chico em O irmão alemão foto

O IRMÃO ALEMÃO (Companhia das Letras)- Naquele que talvez seja o mais pessoal e afiado de seus romances, Chico Buarque mostra como uma biblioteca labiríntica (monstruosa?) pode sequestrar a participação no mundo de uma família, enquanto a História dá voltas em torno de regimes autoritários;

caderno de um ausentejoao

CADERNO DE UM AUSENTE (Cosacnaify)- Um dos nossos grandes prosadores, com delicadeza cirúrgica, nos dá uma aula sobre a mortalidade, numa narrativa dirigida a uma filha recém-nascida, com o poder de “inventar metáforas em cores a partir de clichês cinzentos”. Como sempre, em João Anzanello Carrascoza, há carne nas palavras;

SAFARI_1404248565Bdill1

SAFÁRI (Rocco)- Na história de um advogado assassino, Luís Dill contraria o figurino do romance policial brasileiro, geralmente siderado por erudições fajutas, e retrata a desfaçatez de certa “elite” nacional valendo-se de referências caras ao imaginário dos nascidos na minha geração (anos 1960). Não obstante deploráveis e reacionárias declarações durante a época das eleições, o escritor gaúcho é um dos melhores ficcionistas da atualidade[1];

ENQUANTO_DEUS_NAO_ESTA_OLHANDODeboraFerraz Premio Sesc 2014 Foto Bruno Vinelli

ENQUANTO DEUS NÃO ESTÁ OLHANDO (Record)- Débora Ferraz (27 anos) mostra o desnorteio da narradora, no limiar da idade adulta, tendo de lidar com um “universo de emergências”, revitalizando o importante veio do  “retrato do artista quando jovem”. Bela e vigorosa estreia;

opesodaluzana

O PESO DA LUZ (Armazém da Cultura)- Lindo romance (com um  sutil toque quase infanto-juvenil) no qual Ana Miranda mostra um inventor e astrônomo amador paraibano que, em 1919, se envolve com a missão científica que, no Ceará, durante um eclipse, tenta provar a validade da teoria da relatividade;

LEGIAO_ANONIMAparisio

A LEGIÃO ANÔNIMA (Cepe)- Com a prosa elaborada (às vezes ligeiramente afetada) de seus contos, João Paulo Parisio nos leva a uma Recife quase bíblica em sua infestação de pecados, anjos decaídos e santas associadas à rataria. Até ao relatar uma formação escolar, ele nos mostra, em suas analogias certeiras, como toda civilização é mesmo um registro de barbárie;

dentro do segredopeixoto

DENTRO DO SEGREDO (Companhia das Letras)-A Coreia do Norte de Kim Jong-il  volta e meia está no noticiário, mas jamais da forma como aparece nesse inusitado relato do português José Luís Peixoto, que narra sua viagem pelo fechadíssimo país asiático em 2012;

capa-de-quarenta-dias10617535_10204975394571002_535510037_n

QUARENTA DIAS (Alfaguara)- Outra personagem paraibana, dessa vez uma Alice perdida na Porto Alegre dos dias de hoje, descobrindo, como usualmente acontece na obra de Maria Valéria Rezende, o Brasil profundo que resiste aos padrões globalizados.  Romance que poderia dividir o posto acima com POR ESCRITO, com o qual, aliás, tem muitos e surpreendentes pontos de contato;

capa-novapanela

O ESTOURO DA ARTÉRIA DE UM CAVALO HÚNGARO (Multifoco/Redondezas)- A inclusão dessa 2ª. edição de uma coletânea de contos publicada em 2012 se deve ao fato de que Thiago Roney (29 anos) reformulou-a drasticamente, tornando-a praticamente um novo livro,  mostrando seu afinco como escritor não só talentoso, mas disposto a se aperfeiçoar;

homem burro morreusperling

UM HOMEM BURRO MORREU (OitoeMeio)-Rafael Sperling (29 anos) explora afetos e a vida urbana através de uma linguagem marcada pelo hiperbólico e pela deformação de perspectivas, e sobretudo por um tom afrontoso, que nada poupa. Resultado: o melhor livro de contos deste ano;

nossa-teresamicheliny

NOSSA TERESA (Patuá)- Após alguns livros de poemas, aos 42 anos Micheliny Verunschk estreia no romance com um relato multifacetado a respeito de uma cidade pródiga em suicídios, inclusive o de uma menina em vias de ser canonizada. A força do texto supera problemas graves de edição e revisão;

CAPA_FRONT---O-explicador---Oito-e-meio---Leonardo-Villa-Forte_905Leonardo Villa-Forte - photo by Iafa Cac_905

O EXPLICADOR (OitoeMeio)- Leonardo Villa-Forte (outro com 29 anos)  aproveita uma das lições mais preciosas de Kafka: os personagens dos seus contos acreditam candidamente que o mundo veio com um manual de regras, que estão sempre sendo desconstruídas diante de seus olhos. Esse é o segredo do encanto peculiar de um livro onde o polimento da prosa deixa às vezes um pouco a desejar;

xerxenesky

F (Rocco)- Chegando em 2014 aos 30 anos, Antônio Xerxenesky realiza, através de uma assassina encarregada de eliminar Orson Welles na década de 1980, uma brilhante reflexão romanesca sobre o fracionamento imaginativo das últimas gerações. Junto a POR ESCRITO e QUARENTA DIAS, forma a trinca de ases desta lista.

f

TRECHO SELECIONADO

“Parecia que seguiria assim para sempre. Victor precisaria se acostumar a perder jogos que não seriam perdidos se o anão não fosse um anão e tivesse pernas normais.
Victor chegou a falar sobre o caso com seu terapeuta. O terapeuta perguntou se Victor não poderia conversar com o anão, a sós, e dizer que gostaria de parar de jogar no time do anão, pois seu espírito para aquele futebol era mais competitivo do que fraternal. Victor pensou que seria uma abordagem direta demais, que talvez provocasse ressentimentos, não só no anão como em todos os integrantes do grupo do futebol, caso ficassem sabendo. No entanto, saiu do consultório com a ideia na cabeça, sentindo-se até um pouco covarde por saber que dificilmente tomaria tal atitude.
Contra todas as expectativas, a sorte um dia chegou para Victor. No jogo seguinte, ele caiu no time adversário ao do anão. Finalmente Victor poderia ganhar um jogo. Sentiu-se entusiasmado desde o início, um entusiasmo4, que há tempos não ligava ao universo do futebol.
A certa altura do jogo, faltando pouco tempo para acabar, e com o placar ainda em zero a zero, a bola respingou e apareceu na frente de Victor, quicando. Como único defensor a ser superado, na sua reta em direção ao gol adversário, estava o anão. Foi instintivo…” 
(de O EXPLICADOR)

_________________________________________________

NOTA

[1] A tensão que se estabeleceu entre vários amigos e conhecidos ao longo das últimas eleições (em especial, o segundo turno para presidente) fez com que eu deixasse de lado alguns autores, os quais se manifestaram de um forma reacionária e para mim inaceitável. Mas já era tarde demais para excluir Luís Dill, cujo “Safári” (sem contar sua excelente produção na área da ficção juvenil) já tinha me conquistado e sempre esteve virtualmente “presente” na lista, antes de eu ler suas declarações rançosas. A admiração literária prevaleceu aqui, não sei se acontecerá o mesmo no futuro.

VER  NO BLOG

https://armonte.wordpress.com/2014/09/16/a-maior-travessura-da-menina-ma-elvira-vigna-do-caustico-ao-agonico-em-por-escrito/

https://armonte.wordpress.com/2014/11/28/destaque-do-blog-o-irmao-alemao-de-chico-buarque/

https://armonte.wordpress.com/2014/10/03/um-universo-de-emergencias-enquanto-deus-nao-esta-olhando-de-debora-ferraz/

https://armonte.wordpress.com/2014/04/08/destaque-do-blog-quarenta-dias-de-maria-valeria-rezende/

https://armonte.wordpress.com/2014/02/18/o-talentoso-mr-roney-os-contos-de-o-estouro-da-arteria-de-um-cavalo-hungaro-2a-edicao/

https://armonte.wordpress.com/2014/11/11/o-profundo-das-coisas-e-a-contorcao-das-virgulas-a-problematica-edicao-de-nossa-teresa-vida-e-morte-de-uma-santa-suicida/

https://armonte.wordpress.com/2014/08/12/o-tempo-que-apesar-dos-espelhos-caminha-em-uma-unica-direcao-o-inquietante-f-de-antonio-xerxenesky/

artigo final

27/12/2014

SUSAN SONTAG (1933-2004), SEU ROMANCE VULCÂNICO E SUA REPUTAÇÃO INCANDESCENTE

sontaglivro-o-amante-do-vulco-susan-sontag-1993-19560-MLB20173046284_102014-O

(a resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 08 de janeiro de 2005)

Em minha resenha de 25 de julho de 1993 (VER ABAIXO), sobre O AMANTE DO VULCÃO[1], incorri num grave erro de avaliação. A morte recente de Susan Sontag (28 de dezembro, aos 71 anos) proporciona a chance de corrigi-lo, já que apareceu na imprensa muita bobagem mesquinha e vingativa a seu respeito. Chegou-se até a falar de um suposto “insucesso literário”, que “não a amargurou a ponto de desinteressá-la pelas qualidades alheias (vaticina num tom “simpático” Nelson Ascher, na Folha de São Paulo). Quem, entretanto, leu O amante do vulcão  sabe que se trata de um dos mais belos romances do final do século passado.

O meu erro consistia em afirmar que era preciso esquecer a Sontag pensadora para apreciar a emoção e o impacto do livro, centrado no triângulo amoroso formado pelo casal Hamilton e o Almirante Nelson no final do século XVIII.

Na verdade, o veio ensaístico percorre toda a estrutura narrativa e a alimenta. Amalgamam-se reflexão, biografia e colagem romanesca, ou seja, vemos em ação o gosto enciclopédico que marcou o romance modernista. Mais ainda, Sontag parece ter aglutinado preocupações e inquietações de toda uma vida (e que vida!), dadas a vivacidade e fluência com que instila habilmente ideias  no transcorrer da longa existência de Lord Hamilton, embaixador inglês em Nápoles, desde seu primeiro casamento, quando se destaca como cortesão, como colecionador (as reflexões sobre o ato de colecionar são um capítulo à parte) e como estudioso do Vesúvio.

Viúvo, toma como esposa a antiga amante de seu sobrinho favorito, e passará para a História como um famoso corno, em razão do romance dela com o maior dos heróis britânicos no período napoleônico. Aliás, Sontag, que nos faz gostar muito dos seus personagens, não os poupa no tocante às infâmias que cometem por defender os privilégios do Ancien Régime: instigado por sua paixão por Emma Hamilton, Nelson concordará em participar da terrível perseguição, em Nápoles, àqueles que presumivelmente aderiram ao “espírito revolucionário”, o qual acarretou a deposição da monarquia francesa.

Passado esse momento de erupção passional (da História, do amor entre os dois, do esgarçamento do espírito clássico rumo ao temperamento romântico), o julgamento dos compatriotas do trio (e da posteridade) não é nada generoso. Nelson é ainda poupado (a culpa recai sobre a mulher, a tentadora) por ser um herói popular, uma “lenda viva”: “Ele é um guerreiro, o melhor já produzido por seu belicoso país, prestes a tornar-se a maior potência imperial que o mundo já viu. Todos os admiram. A criação da sua reputação já foi longe demais. Não se pode permitir que seja destruída. Mas quem se importa com uma mulher gorda e vulgar ou esse velho emaciado e exausto? Eles podem ser destruídos. A sociedade não terá nada a perder. Nada de importante foi investido neles.”

   Ascher vaticinava em seu horroroso necrológio uma purificação póstuma de Susan Sontag das “polêmicas circunstanciais” em que se meteu devido às convicções políticas (equivocadas, para ele). Nisso, compartilhará o destino da sua maravilhosa heroína de O amante do vulcão:  ambas nunca vão dar paz a seus detratores incomodados, sempre serão maiores do que o destino que querem impor a elas.

o-amante-do-vulco-susan-sontag-17979-MLB20147784299_082014-Fvolcano

(a resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  25 de julho de 1993)

É preciso esquecer um pouco a Susan Sontag ensaísta para aproveitar a emoção e o impacto do romance O amante do vulcão, no qual o talento literário da autora explode como o Vesúvio, centro das atenções do protagonista, Lord Hamilton.

Uma figura histórica: é o embaixador inglês da Nápoles do século XVIII. Após a morte da esposa, recebe “de presente” do sobrinho a cortesã Emma, com quem acaba casando. Estouram as perturbações revolucionárias e surge o Almirante Nelson, com sua irresistível aura de herói. Uma existência que era a observação impessoal da fúria e do terror da natureza (o vulcão) passa a testemunhar a erupção dessa mesma fúria e terror nas convulsões sociais e também dos debates passionais de um triângulo amoroso.

Já se disse (Kundera) que há três possíveis modos de narrar: ou se conta ou se descreve ou se pensa uma história. O último caso, que é o de O amante do vulcão, implica uma colaboração explícita do narrador, de uma persona de que ele se serve para comentar o que está narrando. Sontag acompanha Hamilton com carinho, muito próxima, quase como que sussurrando no seu ouvido. Pode não mudar em nada o destino dele, porém nos envolve apaixonadamente em suas cogitações, até na relutância e reticência de sua vida interior, esse vulcão inativo.

Hamilton é um colecionador, e Sontag faz inesquecíveis reflexões sobre o ato de colecionar, o que já seria digno de nota dada a qualidade da prosa. Mas ela ainda demonstra um fôlego vulcânico ao nos mergulhar na época em que o romantismo e toda a ideologia burguesa dos valores individuais, dos “abismos” pessoais, começam a se delinear.

Há um ritmo à Vivaldi,  ora num andamento ligeiro, milagrosamente leve, ora com uma melancolia que representava uma portentosa sensação crepuscular, bem apropriada a uma época agonizante, mas sem necessidade de grandiloquência. Passamos da grotesquerie operística da corte de Nápoles (muito antes da unificação italiana), com seu rei que detesta ficar sozinho (até para defecar precisa de companhia) à torrente irracional e alucinante da turba massacrando a família de um duque sem saber exatamente por quê.

Pois a sociedade e o indivíduo, como o vulcão amado por Hamilton, têm seus períodos adormecidos. E de repente tudo pode ficar incandescente. O que seria um bom adjetivo para esse grande e afortunado romance.

O_BENFEITOR_1279888101BCONTRA_A_INTERPRETACAO_1341701609Bsigno de saturno

_______________________________________________________

NOTA

[1] The Volcano Lover (1992), que comento na tradução de Isa Mara Lando.

regarding_f01cor_2014110307

23/12/2014

TRADUÇÕES DE 2014-ALGUNS DESTAQUES

Filed under: Livros que eu indico — alfredomonte @ 10:22
Tags: ,

capa_idiota_vol1.inddjeanpaul

Minha lista de destaques entre as traduções de 2014 será possivelmente de uma graça finita para muitos. Como meu espaço no jornal A TRIBUNA diminuiu, ative-me a 16 títulos (aquele que considero “o” livro do ano e + 15), incluindo apenas (salvo engano) aqueles ainda não traduzidos no Brasil, o que me fez excluir as novas versões de clássicos da ficção científica lançadas pela Aleph, novas versões de clássicos (A Besta Humana, por exemplo, ou Paradiso), e também Michael Kohlhaas, obra-prima que apareceu em duas versões este ano (mas já tinha sido traduzido antes) até mesmo o importantíssimo As aventuras do bom soldado Svejk, o qual já tivera versão brasileira em 1967, pela Civilização Brasileira, como Aventuras do bravo soldado Schweik. De resto, não custa reafirmar, como sempre faço, que não dá para ler tudo nem gostar de tudo. Sempre se pode dizer que mais vale um Buda no sótão do que um pintassilgo que não alça voo.

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 23 de dezembro de 2014)

Tradução do ano- O Idiota da Família (1971), de Jean-Paul Sartre (cujo primeiro volume foi traduzido por Julia Rosa Simões), tentativa talvez quimérica de investigar até os últimos limites a vida de um indivíduo (Gustave Flaubert), num estilo inigualável em sua vivacidade e ousadia, apesar do cipoal informativo-interpretativo, que visa a fusão do que é privado e coletivo (L&PM).

Entre o que pude ler, em ordem alfabética (por sobrenome de autor) as seguintes obras, até então inéditas em nosso país, destaco:

hóspedehóspede

Hóspede por uma noite (1939)- Sch.I.Agnon (Nobel 1966) faz o protagonista retornar à terra natal, num feriado religioso, para constatar as marcas deixadas pela guerra nas tradições da comunidade judaica—e apesar do horror que hoje representa o estado de Israel, como ignorar um autor desses? (Perspectiva; tradução de Zipora Rubenstein);

brochbroch

Espírito e Espírito de Época: Hermann Broch (1886-1951) foi um dos maiores romancistas do século passado (“A Morte de Virgilio”, “Os Sonâmbulos”). Também era um notável ensaísta, meditando sobre os rumos da arte nos impasses da modernidade—são essenciais suas formulações sobre o mal, o kitsch e o des-estilo (Benvirá; tradução de Marcelo Backes);

búninbunin

Contos Escolhidos– 16 textos do Nobel de 1933, Ivan Búnin, mostrando com precisão sutil o outono do mundo czarista na Rússia, no melhor que a ficção de atmosfera e de costumes pode oferecer (Amarilys, tradução de Márcia Pileggi Vinhas);

desmedida

Esperança do Mundo/A Desmedida na Medida/A Guerra Começou, Onde Está a Guerra?(1935-42)- Em três volumes, os Cadernos do início da carreira de  Albert Camus, preciosos laboratórios (ou forjas) de sua obra (Hedra; tradução de Raphael Araujo & Geske Samara);

os-luminares

Os Luminares (2013)- A jovem Eleanor Catton reinstaura para o gênero romanesco os grandes desafios formais: no caso, uma estrutura toda governada pelas interações astrológicas (Biblioteca Azul; tradução de Fábio Bonillo)[1];

tempo presente

O Melhor Tempo é o Presente (2012)Falecida este ano, Nadine Gordimer deixou esse extraordinário romance final, em que a trajetória de um casal compõe incisivo (e desconfortável) panorama da primeira geração pós-apartheid (Companhia das Letras; tradução de Paulo Henriques Britto);

vida e destinogrossman1

Vida e Destino– romance confiscado em 1961 pelo estado soviético e que só apareceu em sua plenitude há um quarto de século.  O ucraniano Vassili Grossman se vale da proverbial grandiosidade russa para pintar um afresco multifacetado sobre a guerra e o antissemitismo (Alfaguara; tradução de Irineu Franco Perpetuo);

EM_UMA_SO_PESSOA_1409237090B

Em Uma Só Pessoa (2012)- No universo de John Irving, maior fabulista do nosso tempo, a fluidez da identidade sexual já esteve presente, mas nunca no grau desse seu mais recente romance, como sempre caudaloso e extravagante (Rocco; tradução de Léa Viveiros de Castro);

sapatos bicolores

Colares de Xangô e Sapatos Bicolores (2012)- A histórica reaproximação dos EUA com Cuba aumenta o interesse desse belo romance de William Kennedy, caleidoscópio de lugares e experiências (que multiplicam uma cena infantil), entre os quais a ilha de Fidel às vésperas da Revolução (Biblioteca Azul; tradução de Elton Mesquita);

HISTORIA_POLICIAL_1393261252B

História Policial (1977)-Imre Kertész (Nobel 2002) demonstra a implacável lógica das ditaduras e seus projetos de poder, que exigem a supressão de indivíduos (Tordesilhas; tradução de Gabor Aranyi)[2];

o_suditomann-heinrich100~_v-img__16__9__l_-1dc0e8f74459dd04c91a0d45af4972b9069f1135

O Súdito (1918)- Como pode ter demorado tanto uma tradução brasileira de um romance satírico desse quilate, no qual Heinrich Mann expõe a mentalidade reacionária do Império Prussiano, sob a dinastia Hohenzollern, que levou a Alemanha para o caminho das guerras mundiais? (Mundaréu; tradução de Sibele Paulino) — merecia até dividir com O IDIOTA DA FAMÍLIA a primazia nessa lista;

paraíso reconquistado

Paraíso Reconquistado– Finalmente, uma versão brasileira (realizada por uma equipe coordenada por Guilherme Gontijo Flores) do clássico poema de 1671, onde John Milton dramatiza — com um teor poético que nada fica a dever aos melhores momentos da Bíblia — as tentações de Jesus no deserto (Cultura);

lancamentos_livro_julie_310814

O Buda no Sótão (2011)- Julie Otsuka forjou uma voz coletiva inesquecível para narrar a imigração japonesa para os EUA, numa obra-prima contemporânea (Grua; tradução de Lilian Jenkino)[3];

opaisdoscegos

O país dos cegos– 18 histórias de H.G. Wells (1866-1946), selecionadas e traduzidas por Bráulio Tavares,  num definitivo mostruário da sua fabulação, que incorporava elementos da luta de classes, da exploração do trabalho e da desfaçatez colonial (Alfaguara);

formas-de-voltar-para-casa

Formas de voltar para casa: um dos melhores livros do século até agora, este do chileno Alejandro Zambra, em que os contrastes entre a geração dos seus pais e a dele, fazem a discussão política penetrar nos meandros mais inesperados (Cosacnaify; tradução de José Geraldo Couto).

lidiotdelafamilledos

________________________________________________________________

ALGUNS TRECHOS SELECIONADOS

“__ Lauderback assim o disse, exatamente—disse Moody. Ele balançou a cabeça.—Fico pensando se devo acreditar nas intenções do senhor Lauderback ao citar o nome desta jazida tão casualmente ao senhor Balfour esta manhã.

__ O que quer dizer com isto, senhor Moody?

__Não confia nele, em Lauderback?

__Seria muito pouco lógico desconfiar do senhor Lauderback—disse Moody—, visto que nunca na vida encontrei o homem. Estou muito ciente do fato de que os acontecimentos pertinentes dessa história estão sendo transmitidos de segunda mão, até, em alguns casos, de terceira mão. Tomo como exemplo a menção à jazida Dunstan. Francis Carver aparentemente mencionou o nome dessa jazida ao senhor Lauderback, que por sua vez narrou ao senhor Balfour, que por sua vez retransmitiu sua conversa a mim, hoje à noite! Todos vocês hão de convir que eu seria um tolo em tomar como verdadeiras as palavras do senhor Balfour.

     Mas Moody subestimara sua plateia ao questionar tópico tão delicado quanto a ´verdade´. Houve uma explosão de indignação ao redor da sala.

__ Quê? Não confia em um homem que lhe contou a própria história?

__ Posso asseverar que isso é verdade, senhor Moody!

__ Que mais ele poderia lhe dizer, salvo aquilo que contaram a ele?

    Moody foi tomado de surpresa.

__ Não creio que qualquer parte de sua história tenha sido adulterada ou omitida—ele replicou, dessa vez com mais cuidado. Olhou de rosto em rosto.—Queria apenas observar que não de pode nunca assumir como própria a verdade de outro homem.

__ Por que não?—Essa pergunta imediatamente ecoou de toda parte.

    Moody fez uma pausa por um instante, refletindo.

__ Em um tribunal—disse ele finalmente—, uma testemunha jura dizer a verdade, ou seja, sua própria verdade. Ela concorda com dois parâmetros. Seu depoimento deve conter toda a verdade, e esse depoimento não deve conter nada além da verdade. Apenas o segundo desses parâmetros é um limite real. O primeiro, é claro, é grandemente uma questão de discrição. Quando dizemos ´toda a verdade´, dizemos, mais especificamente, todos os fatos e impressões que são pertinentes ao assunto em questão. Tudo que não é pertinente não é apenas irrelevante, é também, em muitos casos, intencionalmente enganador. Senhores—disse ele, embora senha abordagem coletiva lhe houvesse saído esquisita, considerando a companhia diversificada  que ele tinha na sala—, eu defendo que não há verdades totais, e sim apenas verdades pertinentes, e a pertinência, hão de convir,  é sempre uma questão de perspectiva. Não creio que nenhum de vocês haja perjurado de alguma maneira esta noite. Eu acredito que me deram a verdade, e nada além da verdade. Mas suas perspectivas são muitas, e hão de me perdoar se eu não tomar por integral a sua narrativa”   (de Os Luminares)vie et destin

grossman

 

“…os alemães tinham chegado aos tanques de petróleo, e o óleo ardente jorrava sobre o Volga (…) O petróleo jorrava negro, lustroso,  vindo dos depósitos que haviam sido crivados de balas incendiárias; parecia que as cisternas armazenavam rolos enormes de fogo e fumaça, agora liberados.

    A vida que dominara a Terra havia centenas de milhões de anos, a vida rude e assustadora dos monstros primitivos, elevara-se das profundezas, voltava a bramir, batia os pés, urrava, devorando avidamente tudo ao seu redor… As chamas eram tão volumosas que o turbilhão de ar não conseguia fornecer oxigênio às moléculas ardentes de gás carbônico, e uma abóbada negra e oscilante separara o céu estrelado de outono da terra em chamas. Visto de baixo, o firmamento fluido, gorduroso e negro era um horror.

    As colunas de fogo e fumaça, ao se precipitarem para o alto, ora assumiam o aspecto de seres vivos tomados pelo desespero e pela fúria, ora se assemelhavam a choupos e álamos chacoalhantes. O negro e o vermelho giravam nas nesgas do fogo como cabeleiras negras e ruivas de mulheres dançando desgrenhadas…” (de Vida e Destino)

der

“__ Não entendo os senhores, não os entendo. O que querem de mim? Pois se o Estado confia em mim…

__ Bem, sim.—Díaz balançava a cabeça como um professor primário.—O problema é que nós não confiamos no Estado…

__ Não entendo, não entendo… Então acreditam em quê?

__ No destino. Mas no momento nós é que assumimos o papel do destino: portanto, em nós mesmo—disse Díaz com seu sorriso inigualável…”  (de História  Policial)

“ Diederich andava muito na rua nestes dias frios e

úmidos de fevereiro de 1892, na expectativa de grandes

acontecimentos. Na avenida Unter den Linden algo havia

mudado, mas ainda não se sabia o quê. Nas esquinas estava

postada a polícia montada também na expectativa.

Os transeuntes chamavam a atenção, uns aos outros, sobre

esta demonstração de força. — Os desempregados! — Todos

paravam para vê-los chegar. Vinham da direção norte

em pequenos grupos, marchando lentamente. Ao chegarem

à avenida Unter den Linden, hesitaram como que perplexos.

Entenderam-se através de olhares e dirigiram-se

para o palácio imperial. Lá permaneceram mudos, com as

mãos nos bolsos, deixaram-se respingar pela lama lançada

pelas rodas dos carros, encolheram os ombros sob a chuva

que caía sobre os seus surrados casacões. [… ]

Um policial a cavalo gritava para que eles fossem

adiante, que se afastassem mais para o lado ou até para

a próxima esquina — mas já estavam parados novamente;

o mundo parecia estar submerso entre suas largas e encovadas

faces, iluminadas pela noite, e o muro que se erguia

ali adiante, sobre o qual escurecia.

— Eu não entendo — disse Diederich — por que a

polícia não toma medidas mais severas. Isto é uma turma

de rebeldes.

— O senhor não se preocupe — respondeu Wiebel.

A polícia tem suas instruções. Os senhores lá em cima

têm as suas intenções bem calculadas, disso o senhor pode

estar certo. — [… ]

O trânsito de carruagens ficou paralisado; os pedestres

aglomeravam-se e eram arrastados pela torrente lenta

em que submergia a praça e por este mar turvo e sujo

de miseráveis que avançava viscoso, com sons abafados, e

do qual se erguiam, como mastros de navios afundados,

varas com os cartazes: PÃO! TRABALHO! Um murmúrio

irrompia da massa, ora aqui, ora acolá:

— Pão! Trabalho! — Crescia, revoando sobre a massa

como um trovão:

— Pão! Trabalho! — […]

A polícia os vai empurrando. […] Então alguém diz:

— Aquele lá não é Guilherme?

Ninguém sabia como era possível marchar em massa

compacta por toda a extensão da rua e até os flancos do

cavalo que o imperador montava: ele em pessoa. Viam-no

e o acompanhavam. Grupos de manifestantes eram dissolvidos

e arrastados pela massa. Todos olhavam para o

imperador. Era um ondular confuso, desordenado, ilimitado,

e acima deste ondular um jovem senhor de capacete:

o imperador. […]

Dos lados, onde as fileiras eram menos cerradas, pessoas

melhor vestidas diziam umas às outras:

— Graças a Deus, ele sabe o que quer!

— Mas o que é que ele quer?

— Mostrar a essa turba quem está com o poder! [.. . ]

Não se pode dizer que ele seja covarde. Gente, este é um

momento histórico![… ]

Um jovem com um chapéu de artista que caminhava

ao lado de Diederich disse:

— Isto é velho! Em Moscou, Napoleão fez o mesmo:

somente, sem proteção, misturou-se com o povo.

Diederich respondeu: — Mas isto é maravilhoso… —

e a voz lhe falhou. O outro encolheu os ombros: — Tudo

encenação, e não das melhores.

Diederich fitou-o, tentando imitar o olhar faiscante

do imperador, e disse:

— O senhor também é um destes. — Mas não estaria

cm condições de explicar o que queria dizer com ‘destes’.

Sentiu apenas, pela primeira vez em sua vida, que lhe cabia

defender uma causa justa contra as críticas de seus

inimigos. Apesar de seu nervosismo, olhou ainda para os

ombros do jovem: não eram largos. Ademais, todos ao

seu redor mostravam-se indignados. Com isso, Diederich

tomou uma atitude. Com a sua barriga, empurrou o inimigo

de encontro ao muro e começou a bater nele. Outros

o ajudaram. O chapéu já caíra ao chão, e pouco depois

o homem caíra também. Diederich. já seguindo os

outros, comentou com os que lhe haviam ajudado:

— Aposto que esse não serviu no exército! — [.. . ]

Um senhor idoso, com suíças grisalhas e a cruz de

ferro, também estava lá e apertou a mão de Diederich:

— Bravo, jovem, bravo!

— Não é de se perder a calma? — perguntou Diederich

ainda ofegante. — Quando um sujeito como aquele

quer estragar um momento tão solene. [.. . ]

— Permita-me, prezado senhor — alguém gritou, agitando

seu bloco dc anotações. — Temos de noticiar isso.

Como pano de fundo, sabe? O senhor surrou um companheiro?

 

— Ninharia — Diederich ainda ofegava. — De minha

parte poderíamos iniciar logo o combate ao inimigo interno.

O nosso imperador já está conosco.

— Ótimo — disse o repórter, e escreveu: ‘Na agitada

multidão, ouviam-se de pessoas de todas as classes sociais

manifestações da maior lealdade e de inabalável confiança

no imperador’.

— Viva! — gritava Diederich com todos. E em meio a essa avalancha de pessoas ele alcançou o Portão de Brandenburgo. Dois passos à sua frente cavalgava o imperador.

Diederich podia ver-lhe o rosto, a sua fisionomia seria,

o seu olhar faiscante; mas esta imagem se turvou a

seus olhos de tanto que gritava.” (de O Súdito)

“Uma de nós os culpava por tudo e desejava que eles morressem. Outra os culpava por tudo e desejava que ela estivesse morta. Outras aprendiam a viver sem pensar neles em absoluto. Nós nos lançávamos ao trabalho e ficávamos obcecadas pela ideia de arrancar mais uma erva daninha. Deixávamos os espelhos de lado. Parávamos de pentear o cabelo. Esquecíamos a maquiagem…Esquecíamos de Buda. Esquecíamos de Deus. Desenvolvíamos uma frieza interna que ainda não derreteu. Temo que minha alma tenha morrido…” (de O Buda no sótão)

…sou contra a nostalgia.
Não, não é verdade. Eu gostaria de ser contra a nostalgia. Para onde quer que eu olhe há alguém renovando votos com o passado. Recordamos canções que na verdade nunca nos agradaram, voltamos a ver as primeiras namoradas, colegas de curso por quem não tínhamos simpatia, saudamos de braços abertos gente que repudiávamos.
Me assombra a facilidade com que esquecemos o que sentíamos, o que queríamos. A rapidez com que assumimos que agora iremos rir das mesmas piadas. Queremos, julgamos ser de novo os meninos abençoados pela penumbra.
Estou nessa armadilha…” (de FORMAS DE VOLTAR PARA CASA)

destaques resenha

REFERÊNCIAS NO BLOG

[1] https://armonte.wordpress.com/2014/09/30/destaque-do-blog-os-luminares-de-eleanor-catton/

[2] https://armonte.wordpress.com/2014/07/10/o-filho-incorrigivel-das-ditaduras-imre-kertesz-e-historia-policial/

[3] https://armonte.wordpress.com/2014/11/04/o-buda-no-sotao-de-julie-otsuka-destaque-entre-as-traducoes-de-2014/

« Página anteriorPróxima Página »

O tema Rubric. Blog no WordPress.com.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 1.388 outros seguidores