MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

18/10/2016

O enxofre como metáfora do atraso: “Galveias”, de José Luís Peixoto

 

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 18 de outubro de 2016)

“… respondia que era de Galveias e todos continuavam a olhá-la na mesma expectativa, como se não tivesse dito nada”.

Artista multimídia (com fortes ligações com o universo do heavy metal), o português José Luís Peixoto deve ter apreciado a premiação, merecidíssima, do glorioso Bob Dylan com o Nobel de Literatura. Nascido em 1974, fez de sua cidade natal o espaço ficcional de seu mais recente romance, GALVEIAS. Nele, o autor super-antenado com a pós-modernidade se debruça sobre o arcaico, o ultrapassado historicamente, tanto no sentido pragmático quanto no sentido simbólico.

Em janeiro de 1984 (mas a cronologia do romance é muito intrincada), o povoado é sacudido por algo – nunca identificado – que cai do céu. A partir daí o cheiro de enxofre assola Galveias, modificando até o sabor da comida e exacerbando comportamento das pessoas. Sem a complacência nostálgica dos programas turísticos que exaltam o encanto passadista das petrificadas aldeias portuguesas, Peixoto mostra uma sociedade em plena deterioração, encurralada em seu atraso, como podemos ver na seguinte passagem (de um capítulo extraordinário, com o foco narrativo voltado para os cachorros da cidadezinha): “Mas o cão de Barreta, deitado, com o focinho assente na pedra, com as narinas abertas, não tenha esses pensamentos. De olhos fechados, sentia o interior fresco de cal, as formigas que seguiam por um caminho quase reto, preocupadas, e que desapareceriam num buraco de terra entre dois paralelos de granito; sentia as pequenas ervas mortas, sem uma brisa que as fizesse tremer; sentia o sol sobre as telhas lá em cima, barro antigo, manchas secas de musgo, superfície, tempo; sentia o seu próprio corpo, a sua própria presença, lugar e peso, órgãos internos e pelo, respiração, idade; e, claro, sentia a doença podre sobre Galveias, instalada, a fazer parte do cheiro, da forma e da cor de todas as coisas”.

Mesmo aqueles que vão para fora mantêm um provincianismo asfixiante. É o caso do carteiro Joaquim Janeiro, o qual constitui família em Guiné-Bissau, mas não revela para ninguém em Galveias porque sua mulher é negra. Em contrapartida, quando ele narra para sua família africana (sempre com a participação da vizinhança) anedotas de sua aldeia, elas adquirem um ar de fabula que deixa a todos admirados, como se fossem passadas num lugar grandioso. Não há melhor ilustração da arte de contar histórias. Além disso, num parágrafo, ele passa ao leitor várias gerações de médicos.

As histórias envolvidas pelo enxofre oscilam entre o grotesco, o cômico e o brutal. Por exemplo, temos uma esposa que se vinga da suposta amante do marido, jogando bosta e engalfinhando-se com ela em plena rua; temos uma cena que mostra o amor do casal, durante a qual vários coelhos são esfolados; em outro capítulo, um homem é espancado por “ter dito algo” ao filho caçula, o qual revela, tarde demais ter aprontado o homem errado.

Para mim, o momento mais patético desse belíssimo romance é a história do casamento de João Paulo e Cecília. Vendo as fotos tiradas dois meses antes, o noivo percebe que todos parecem já seres antigos, quase fantasmagóricos.

GALVEIAS mais uma vez, após obras-primas como Cemitério de Pianos e Livro, confirma minha convicção de que José Luís Peixoto é o grande autor lusitano surgido neste século.

 

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11/10/2016

Expectativas quanto ao Prêmio Nobel de 2016

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 11 de outubro de 2016)

No próximo dia 13, é bem provável que Haruki Murakami seja anunciado como o vencedor do Nobel de Literatura 2016, o que era aguardado há alguns anos. Para mim, será uma grande injustiça, pois o escritor japonês, a cada obra torna-se mais bizantino e artificioso. Seu romance ambicioso em três volumes, 1Q84 revelou-se uma abobrinha, uma mixórdia quase ilegível. Em compensação os outros quatro autores mais cotados (Philip Roth, Ngugi wa Thiong’o e Joyce Carol Oates) são notáveis. Eu tenho um apreço todo especial pela obra de Oates, e torcerei por ela, mas não dá para negar a influência universal dá obra de Roth, e o queniano Thiong’o, escreveu um admirável livro de memórias (Sonhos em Tempos de Guerra); aliás, a academia sueca tem uma longa dívida com países africanos.

A morte de Umberto Eco, escancarou o desprezo por uma magnifica geração de intelectuais e escritores italianos. Favorito há tempos atrás, o grande Claudio Magris deveria ser finalmente reconhecido, são dele algumas das obras mais inclassificáveis e apaixonantes das últimas décadas (Danúbio; Microcosmo; Alfabetos).

No entanto, o descalabro mais evidente é com a nossa língua. Dá para acreditar que em 116 anos só um autor foi premiado (José Saramago)? Atualmente, Portugal apresenta a literatura mais interessante dá União Europeia. Além dá venerável decana Agustina Bessa-Luís (A Sibila), temos o gênio António Lobo Antunes, único autor que rivaliza com Joyce Carol Oates na produção incessante de romances ciclópicos. Outro gênio, com uma escritura que não parece com ninguém é António Vieira (Olhares de Orfeu). Dá mesma geração temos a maravilhosa obra de Lídia Jorge (Combateremos a Sombra), e Almeida Faria (A Paixão). É tão notável a ficção portuguesa, que até os mais jovens mereceriam o Nobel, caso de José Luís Peixoto (o maior escritor surgido nesse século), Gonçalo M. Tavares e Walter Hugo Mãe.

No caso do Brasil nossos maiores escritores são nonagenários, se isso for um empecilho: Lygia Fagundes Telles, Dalton Trevisan e Rubem Fonseca. Contudo a escritores menos macróbios: Raduan Nassar, Maria Valéria Rezende, Francisco J. C. Dantas, além de poetas como Carlos Nejar e Adélia Prado. E o que disser da obra peculiaríssima de Elvira Vigna, um diamante nunca lapidado, porque ela se move num universo cheio de arestas? E já seria a hora de reconhecer a originalidade e contundência da obra de Ricardo Lísias, expoente de uma nova e explosiva geração literária.

E por falar em Ricardo, o Nobel que sempre ignorou a extraordinária literatura argentina, bem poderia premiar Ricardo Biglia, que passa pelo drama de ser portador da E.L.A (Esclerose Lateral Amiotrófica), não só pela tragédia de cunho pessoal, como pela sua desafiadora obra (Respiração Artificial; Nome Falso; O Último Leitor).

Mas isso são meros palpites. De minha parte, estarei fazendo figa para Joyce Carol Oates ser galardoada ao invés de Murakami.

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04/10/2016

“O Sol Vinha Descalço”: O óbvio e o raro na poesia de Eduardo Rosal

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente no jornal A TRIBUNA de Santos, em 04 de outubro de 2016)

Como conhecer Deus/e participar da vida? ”. Geralmente, tenho um pé atrás com poesias sobre uma genérica condição humana, desatrelada das contingências, da nossa “situação” especifica no mundo. Por isso, foi uma imensa surpresa a leitura de O SOL VINHA DESCALÇO (Editora Reformatório), de Eduardo Rosal, que recupera o teor meditativo e metafisico de uma Hilda Hilst ou de um Carlos Nejar (para mim, o maior poeta brasileiro vivo); não esquecendo Adélia Prado (só que ela trabalha mais explicitamente com signos do catolicismo ligados às contingências do cotidiano).

Rosal utiliza o verso interrogativo, perseguindo os rastros de Deus e o porquê do nosso existir. É a parte mais marcante da sua coletânea: “Somos solitários míopes/mendigando o mesmo espelho?/o mesmo espectro? ”. O ponto alto dessa interrogação incessante é o poema Deuses do qual tirei os versos que abrem esta resenha. Em todos, o mesmo objetivo obsessivo: “viajar de volta/ao fim/tão bem desconhecido”. Ou seja, uma viagem sem mapas pela galáxia da finitude do ser (para lembrar o saudoso Léo Gilson Ribeiro): “Nem onde/nem sina”.

Outra vertente muito cara ao modernismo em geral, e que poderia cair na banalidade epigonal, é a exploração da memória afetiva, especialmente da infância. Mesmo aí, O SOL VINHA DESCALÇO demonstra grande força imagética: “A memória é uma ilha/cercada de futuros”. Sol, sombra, fumaça, são invólucros para o exercício de rememoração, além do confronto com a divindade que nos marca com a morte: “A terra na mão/o menino brinca/gerações/e gerações/o silêncio/sabe de cor//Terra—/memória/que não esqueço/de apertar”. O menino tenta segurar os seus bens humanos diante do fato estrondoso de que somos irremediavelmente efêmeros: “Há um deus que/me persegue/com a morte no calcanhar/numa esquina qualquer/desiste/sem curvar a espinha/ao medo/me deixa passar/cede minha vez/a outro deus/(ou me ama?)”; ou ainda: “Para retornar ao pó/é preciso ser carne//O menino talvez tenha lido ou escutado//Guardou bem”.

Eduardo Rosal, apesar de jogos de palavras bastantes eficazes (“Amor—ternura política”, vejam que achado genial!), pratica uma poesia do “significado”, embora hoje em dia ainda se valoriza mais a poesia do “significante”, por conseguinte é maior ainda o seu feito: “Ser só/este rascunho/de fracasso?/um terraço/onde o sol não bate?”.

Que não se enganem: sou todos//Nenhuma mudança me alcança/mas sou sempre outro//”, versos que lembram Fernando Pessoa. Mas com Eduardo Rosal é assim: mesmo lembrando outros poetas, ele se mantêm inteiramente pessoal, equilibrando apaixonadamente o óbvio e o raro: “Talhar o que escapa/inscreve o risco?/É óbvio e raro?//Ao passo que emerge/foge? E pressente/o passado?//Natimortos, vingamos/nas imagens – voláteis?/Depois da morte?//A fumaça se escreve/à nossa imagem/e semelhança?”.

O SOL VINHA DESCALÇO é um dos melhores livros deste início de século.

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27/09/2016

Destaque do Blog: “Roteiros para uma Vida Curta”, de Cristina Judar

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 27 de setembro de 2016)

 

Há cem anos, no coração do Modernismo, Virginia Woolf revolucionava, em seus textos curtos (para não dizer, em romances como Senhora Dalloway), a percepção dos objetos, das ruas, das novidades tecnológicas. Seus protagonistas eram “eus” quase evanescentes, os quais envolvidos na introspecção, mesmo assim nos revelavam o mundo que as cercava.

Por incrível que pareça, guardadas as devidas proporções, é o que acontece nos contos de ROTEIROS PARA UMA VIDA CURTA (Editora Reformatório). Os personagens de Cristina Judar esbarram o tempo todo com as pessoas que passam pelas ruas, pelas noitadas, por objetos e fenômenos da natureza, pelos ritos cotidianos (“essa coisa de portas que abrem e fecham continuamente. que, por sua vez, dão para as ruas e projetam na sala a presença maciça do trânsito e traços de conversa vindos do cômodo ao lado até aqui, onde estou sentada, nesta casa – com mesa, cadeira, pés juntos em sapatos com fivelas, meus olhos contraídos pela luz”, lemos em Fotofobia), aparentemente alheias ao seu redor, mas nos trazendo uma poderosa sensação de realidade. Mesmo aqueles que se isolam do mundo, em seu autismo e alienação, são confrontados com as exigências de existir (“Para a fobia social, cloridrato de venlafaxina; ranitidina para o estômago fraco; para o desânimo, estrasse; gordura para o fêmur em evidência”, lemos em Ótimas em Humanas). Contudo o “eu” parece mais insubstancial, mais líquido (para seguir o pensamento de Bauman), do que os de Virginia Woolf (“Vitorino não se via refletido, confortável ou identificado, apenas paralelo de sua própria imagem em baixíssima definição. dele, não havia vapores condensados, que viriam, possivelmente, do exalar de suas narinas. na insistência, ele não parava de respirar, tomava goles imensos de ar”, lemos em Blue Train).

Insubstancialidade e hiper-realidade, uma alquimia paradoxal, e perigosa também. Todos os textos de ROTEIROS PARA UMA VIDA CURTA têm momentos brilhantes e, em geral, Cristina Judar consegue finais surpreendentes e admiráveis, quase como se fossem as “chaves de ouro” dos sonetos antigos. É preciso dizer, todavia, que às vezes a “literatice” artificiosa prepondera sobre a literatura contundente (dentro da linhagem de Julio Cortázar, aliás, homenageado num dos melhores momentos do livro Certa Diversão).

Mas como não tira o chapéu para a criadora de uma Alice pós-moderna que perambula alucinoriamente pela cidade (“O vento condensado em novelos de lã amarela. Essa era a moldura de mim que ali havia. Foi em um sopro quando caí em mim. Cair em si é um daqueles exercícios difíceis de engolir, embora necessários e suscetíveis aos bueiros destampados da cidade. Então, nesse pedaço de mundo em que tudo é variável e relativo tornaram-se gigantescos os homens das calçadas ao meu redor”), para terminar de forma deliciosamente cotidiana e irônica: “No embalo practpract dos sapatinhos de verniz, chego em casa, mamãe me aguarda. No ar, cheiro de coelho assado. O jantar está servido”?

ROTEIROS PARA UMA VIDA CURTA é mais uma prova de que a nossa prosa de ficção, especialmente a publicada por editoras independentes, atravessa uma grande e estimulante fase.

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20/09/2016

Um romance histórico necessário para os dias de hoje: “A Utópica Teresevile”

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 20 de setembro de 2016)

Em pleno recrudescimento da intolerância, do preconceito, do retrocesso e da truculência, recomendo enfaticamente a leitura de A UTÓPICA TERESEVILE: baseado em fatos reais (não que isso seja uma virtude), o romance de André Jorge Catalan Casagrande narra uma experiência de socialismo utópico (sem as extravagancias de pensadores como Fourier) levada a cabo pelo médico francês Jean Maurice Fraive, com a anuência de Dom Pedro II e sua esposa, Tereza Cristina, num Paraná ainda não desbravado, quase despovoado. Teresevile seria uma comunidade onde vigoraria igualdade absolutas entre raças, sexos, com todo mundo trabalhando em prol de todos, usufruindo dos lucros.

O autor insere na história da colônia a trajetória de Raimundo, escravo que ganha a liberdade, graças ao doutor Faivre. Mas, aí percebemos que nessa sociedade igualitária, nem todos são tradados igualmente, Raimundo não é aceito pelos membros de Teresevile, quase todos franceses e preconceituosos quanto à cor de pele. Ele acaba se unindo a um quilombo que se instalou na região. Pior ainda, ele tem a experiência dolorosa de constatar a intolerância de sua própria gente, a qual rejeita sua esposa, Alice, por ser branca, acarretando uma tragédia.

Apesar do estilo ser bem claro, há uma sutil polifonia narrativa que Casagrande poderia até explorar com mais ousadia e riqueza, pois o resultado é tímido, o que é perfeitamente aceitável num primeiro romance. O que me incomoda em A UTÓPICA TERESEVILE é o esquematismo dos personagens que empobrece as relações e os conflitos pessoais e ideológicos, tornando previsível o desenrolar da trama, mesmo assim enriquecida por lendas de origem africana e indígena.

Ao fim e ao cabo, é um livro – se não totalmente realizado – fecundo em ideias, temas ainda presentes, ao resgatar um fato histórico que coloca em discussão o que é realmente civilização: “Minha única exigência às dezenas de famílias que assentei em Tereza Cristina era de que usassem da mesma misericórdia que tive para com eles, com outros miseráveis quando houvesse possibilidade e recursos. A esperança de que a benevolência se alastrasse pela face da terra é que me motivava – a despeito de tudo – a lutar por uma civilização mais igualitária, onde todos pudessem ser felizes desfrutando dos frutos oriundos de seu próprio labor”.

Em tempo: o historiador Josué Corrêa Fernandes pesquisou a colônia Tereza Cristina, resultando na obra Saga da Esperança: Uma Utopia Socialista à Beira do Ivaí, publicada pela Imprensa Oficial do Estado, em 2006.

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13/09/2016

Juliana Diniz e a permanência de um instante na ausência da palavra: “O Instante-Quase”

 

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 13 de setembro de 2016)

 

A expressão que dá título à coletânea (doze relatos com nomes de mulheres) O INSTANTE-QUASE (Editora 7Letras) já aparece no texto de abertura “Lúcia”, mas é emblematizada em “Lindalva”: uma noiva abandonada que percebe que a vida não passa, apesar da sua complexidade, de um “uni duni tê” de afetos e de escolhas (“O pai começa a recolher os restos de tecido em silêncio, sem perturbar o transe religioso da filha, atento ao olhar vidrado de Lindalva que destrói, ponto a ponto, sem dó ou indecisão, com golpes metálicos de tesoura, a lembrança tátil de um vislumbre de vida”). Por tanto, o admirável livro de estreia da cearense Juliana Diniz nos oferece um painel em que a sombra do que poderia ter sido paira sobre o que é.

Até nos estratos mais miseráveis da sociedade, ela vasculha as alternativas da existência. Um dos pontos altos de O INSTANTE-QUASE, “Perpétua”, é a história de uma mulher oriunda do sertão mais castigado pela seca que vai morar com o marido nas palafitas de Manaus, cercada pelo rio imenso e a mata (“Deu-se conta que a morte poderia acontecer de um susto, sem que aquele mundo farto de tanta vida notasse que ela deixou de existir”).

Juliana Diniz trabalha tanto com o realismo direto, quanto com o alusivo, o onírico (há um imaginário písceo explorado em “Perpétua” e em “Natália”, o qual se passa em outra classe social), o alegórico. Ou seja, ela sabe urdir “estórias” e também encontrar a linguagem lapidar para cada uma delas (só duas me passaram a sensação de fracas, mal desenvolvidas: “Gabriela” e “Marina”; em compensação temos momentos excepcionais como “Maria”, “Hilda” e “Olívia”: “Observo a janela aberta para o vazio e percebo que restamos apenas nós neste quarto estranho e sem lembranças, encastelados, quase desistentes, quase amantes, construindo a permanência de um instante na ausência da palavra”). Suas ficções curtas são tão caleidoscópicas que parecem romances encapsulados, na mesma linha de um mestre no gênero, a canadense Alice Munro (Nobel de literatura de 2013).

Um dos aspectos mais impressionantes dessa sabedoria textual numa autora tão jovem é a mistura que faz do arcaico, do recôndito, com os signos da modernidade: por exemplo, em “Lúcia” – conto no qual uma filha descobre a vida alternativa que a mãe poderia ter tido com o dono de um casarão antigo e aristocrático –; ou então em “Auxiliadora”, cuja protagonista é uma beata que se escandaliza ao descobrir que o juiz a quem serve fielmente durante décadas utiliza chats eróticos durante o expediente e encomenda viagra para seus encontros com uma fogosa amante (Auxiliadora planejará uma terrível vingança, trocando as pílulas de viagra por pílulas para pressão).

O Ceará já conta com contistas de peso, como Pedro Salgueiro, Tércia Montenegro e Raymundo Netto. Agora Juliana Diniz com sua prosa avassaladora vem mostrar aos pessimistas de plantão, sempre anunciando a morte da literatura, que a ficção está mais viva do que nunca. Nosso panorama literário encontra-se em ótimo momento e provavelmente ela será uma das suas principais figuras.

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06/09/2016

Matheus Arcaro e “o nada sem caroço”: O LADO IMÓVEL DO TEMPO

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 (A resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de setembro de 2016)

Em seu romance de estreia, o jovem Matheus Arcaro (cujo livro de contos, Violeta Velha e Outras Flores, critiquei duramente nesta coluna pela falta de uma personalidade autoral com contornos definidos), ousa um formatado filosófico – usando sua formação na área – muito pouco praticado por aqui. Não que isso seja problema. Basta lembrar da junção entre filosofia e fabulação em A Náusea (1938), de Sartre, e de O Agressor (1943), de Rosário Fusco. Isso sem contar a ficção de tendência cristã que formou um verdadeiro subgênero da prosa, de Dostoievski a Gustavo Corção (autor de Lições do Abismo), com sua temática de culpa e expiação.

O LADO IMÓVEL DO TEMPO (publicado pela Patuá) provavelmente ficará como um romance de exceção como os de Fusco e de Corção. Ele trata da eternidade e da angustia da finitude sem significado: Salvador dos Santos aos 70 anos resolve tornar-se um assassino em série a fim de ficar para a posteridade, após uma vida caracterizada pela esposa que o abandonou (após o fracasso de suas tentativas como poeta) por uma “aura insossa”. Infelizmente, mesmo com a breve celebridade por causa de cinco assassinatos, Salvador da eternidade só sente “o nada sem caroço”, “poderia muito bem dizer que fiz o que fiz porque fui um títere nas mãos do fracasso”.

Livro singular, O LADO IMÓVEL DO TEMPO é uma ótima narrativa, chegando a momentos extraordinários como a cena em que Salvador, ainda criança, contempla-se no espelho do guarda-roupa tomando consciência da própria identidade e do seu corpo. Também é um despertar erótico, apesar do clima repressivo de sua casa (o pai é pastor religioso e despreza o filho).

Malgrado sua qualidade como narrativa e linguagem (muito trabalhada), não acho totalmente convincentes considerações filosóficas coladas à percepção de Salvador porque o personagem não tem estatura para absorvê-las e, como o autor confunde o foco narrativo (aliás, com admirável habilidade) dá uma sensação forçada várias vezes.

Esse não é, para mim, o aspecto mais problemático do romance. Minhas restrições quanto a Violeta Velha e Outras Flores residiam na linguagem afetada e decorativa, com imagens e metáforas gratuitas e sem substancia literária. O talentoso autor incide no mesmo erro, principalmente nas primeiras páginas (“Salvador ergueu o jornal a um palmo das pupilas”, por exemplo). Tenho consciência de que essa minha implicância com uma linguagem “abonitada” representa uma idiossincrasia, e que outros leitores podem se apaixonar pela obra de Arcaro justamente por esse uso da prosa. Questão de gosto.

O inegável, porém, é que o autor de O LADO IMÓVEL DO TEMPO deu um salto impressionante do primeiro para o segundo livro, obrigando-nos definitivamente a ficar de olho nele, apesar de um certo “quê” de anacrônico e obsoleto nas suas escolhas, o que faz dele o parente mais próximo do grande e esquecido Rosário Fusco em nossa literatura do século 21.

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30/08/2016

Destaque do Blog: VÉSPERA DE LUA, de Rosângela Vieira Rocha

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 30 de agosto de 2016)

É bem oportuna a reedição, pela Penalux, de VÉSPERA DE LUA; escrito no final da década de 1980, o romance de Rosângela Vieira Rocha espantosamente antecipa uma das tendências mais fortes da ficção brasileira atual: o relato agônico feminino, no qual a protagonista encontra-se numa situação -limite, num ponto de inflexão da sua existência.

No caso de Paula, de VÉSPERA DE LUA, acompanhamo-la durante uma longa noite em que ela é atormentada por um problema recorrente: dores atrozes, pré-menstruação, além da perspectiva de um confronto definitivo com Ester, sua atual companheira. De forma não-linear, seguimos sua formação dentro do universo homoafetivo; iniciada pela mãe de uma amiga, depois apaixona-se por uma mulher casada que quer dividir suas amantes com o marido; agora ela sente o esgotamento da relação com Ester, de quem nos passa uma imagem de controladora e limitada intelectualmente, interessada apenas no corpo e na saúde (é professora de ginástica), vista de forma irônica e relutante por Paula.

O que aproxima da VÉSPERA DE LUA dos recentes romances de Elvira Vigna (Por Escrito), de Maria Valéria Rezende (Quarenta Dias), de Débora Ferraz (Enquanto Deus não está Olhando), de Roberto Menezes (Julho é um bom mês para morrer), é fato de que na trajetória da heroína, em pleno impasse, insinua-se uma alegoria do processo social brasileiro: por um lado, mentalidade retrógada, discriminatória, patrimonialista  e patriarcal, a qual agoniza, mas morta-viva ainda insisti em mostrar suas garras; do outro, novos comportamentos sociais trazendo comportamentos marcados pela diversidade e transgressão, para o bem e para o mal. É incrível que Rosângela Vieira Rocha tenha intuído temas e forma narrativa que hoje dominam nossa prosa. Se o romance poderia ter sido escrito em 2016.

Apesar de achar que ela resvala para um certo didatismo e tom explicativo, em alguns capítulos, encantou-me um procedimento que é bem raro por aqui e que tem como mestre Franz Kafka: a falsa terceira pessoa, disfarçando o relato em primeira pessoa; se o leitor reparar com atenção, toda a narrativa é permeada pela não-confiabilidade. Não sabemos se Paula é vítima de círculos amorosos viciados, ou se ela é artífice do seu emparedamento existencial (que ela chama de “enjuança”, um desgosto com a insuficiência dos afetos e das experiências, mais radical que o tédio). Como as heroínas dos romances acima citados, ela está com o pé nas forças retrógadas, porém não sabemos se será capaz de firmar o outro no Brasil mais libertário que vem se desenhando a trancos e barrancos:

“Depois da tentativa de suicídio, a família parou de fazer vista grossa à sua homossexualidade.
A trégua havia terminado.
Ministraram-lhe todos os cuidados que se ministram aos doentes portadores de doenças graves.
Teria sido mesmo assim? A lembrança daqueles meses é ambígua. Completa-a com a imaginação, construindo uma versão que, se não verdadeira, possui a vantagem de ser a sua. O conjunto, por assim dizer, não o reconstrói nitidamente”.

Nunca um título foi tão exato (além de belo). Estávamos na véspera da contemporaneidade literária e emancipatória do nosso país. Oxalá não retrocedamos.

Véspera de Lua - Jornal

23/08/2016

PÁSSAROS DE PERDIÇÃO: “Liturgia do Fim”, de Marilia Arnaud

Liturgia do Fim - Livro Marilia Arnaud

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 23 de agosto de 2016)

 

Se eu pudesse te levar a reconhecê-lo, então seria possí- vel, não uma nova vida – que para isso estamos ambos velhos demais –, mas uma espécie de paz, não a cessação, mas pelo menos um abrandamento das tuas intermináveis acusações…

…que se alguém por acaso quisesse calcular por antecipação como eu, o filho que se desenvolvia devagar, e tu, o homem feito, se comportariam um em relação ao outro, poderia supor que tu simplesmente me esmagarias sob os pés, a ponto de não sobrar nada de mim.

(Franz Kafka, Carta ao Pai)

 

Há um detalhe emblemático em LITURGIA DO FIM: em sua volta à fazenda natal, após trinta anos de afastamento (fora expulso), o protagonista Inácio rememora um presente do casamento dos pais, um conjunto de louça com motivo de pássaros, que o pai, homem brutal e tirânico, quebrará em mil cacos, guardados cuidadosamente pela mãe. É uma analogia com o íntimo do próprio Inácio, no reencontro com o pai, o outro único sobrevivente na numerosa família Boaventura: “Meu estômago escoiceava numa náusea de mil cacos de vidro”.

Nem construindo uma vida urbana, Inácio escapou de Perdição, o seu lugar de origem, e das estruturas elementares do parentesco: “Não compreenderei se lhe dissesse que durante todos os anos em que estive ao lado de Ieda e Isabel experimentei com frequência a sensação de que a vida, a vida real, a minha vida estava em outro lugar, como se ali, ao lado delas, eu fosse apenas um personagem investido de determinado papel, de certo modo conveniente, que me tinha sido oferecido sei lá por quem, porque eu não me lembrava de tê-lo escolhido, eu simplesmente aprendera as falas com relativa facilidade e, ao longo das temporadas, fora se tornando cada vez mais sofrível, até as falas e os atos restarem impraticáveis, até eu ter de me tirar de cena”.

Como uma ginasta que não comete erros, Marilia Arnaud, arma suas piruetas e saltos mortais em torno de uma coreografia de metáforas que vão se espiralando sem vacilo; muito pelo contrário, o leitor fica com a respiração suspensa entre a densidade do narrado e a linguagem grave e austera, contudo lindíssima, a qual só em conta paralelo em Francisco J. C. Dantas, autor da obra-prima, “Coivara da Memória”.

Já ouvi muitas vezes – e sempre achei uma bobagem – que é mais fácil um escritor masculino usar uma voz narrativa feminina, do que uma mulher fazer o contrário. Poderia citar diversos exemplos que contestariam esse preconceito.            Mas a leitura de LITURGIA DO FIM, basta.

Seu romance anterior, “Suíte de silêncios”, já revelava um enorme talento para a ginástica com as palavras e sua estreita relação com a dor de existir; porém, às vezes se deixava levar pelos estereótipos da famígerada “escrita feminina”.

Com LITURGIA DO FIM, na contracorrente de Inácio Boaventura, ela se libertou de todas as gaiolas. No panorama literário de 2016, merece incontestavelmente a medalha de ouro.

 

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TRECHO SELECIONADO:

“A camisa colocava-se ao meu corpo. Detive-me sob jabuticabeira para me secar um pouco, beber água e fumar um cigarro. As bolinhas pretas que recobriam o tronco e os galhos assemelhavam-se a um monstruoso enxame. Na trama negra do solo, insetos apascentavam-se de frutos maduros. A fumaça do cigarro não tornava menos fulgurantes as coisas ao meu redor. Um sabiá, de minhoca de bico, esvoaçava de um galho a outro, inquieto com a minha presença, os filhotes num pipilar aflito, resguardados no ninho algum lugar acima da minha cabeça. Metido entre a vegetação rasteira, um camaleão de pele verde mantinha um olho em minha direção, outro fixo na presa, um besouro de casco luzidio. Por toda parte abriam-se os cálices das onze-horas, e, num pedaço de chão, as delicadas nuvens desenhavam um céu de pétalas.

Fora de mim, vibrava em toda a plenitude um universo sólido, claro, reconhecível, do céu à terra a vastidão de um reino de beleza a resplandecer contra minha dor, mais insuficiente para remediá-la.

Num dos trechos mais íngremes da subida, em que a picada serpenteia entre um córrego e uma pedreira abandonada, a fachada da casa branquejou e um gavião enterrou-me o bico do peito, a mesma estocada de quando me virei para olhá-la naquela manhã que julguei ser a última em Perdição.

Depois de haver sido escorraçado por papai, estivera alguns dias escondido no grupo escolar abandonado, ideia de mamãe, que me levava comida e me pedia paciência e serenidade, pois logo, logo tudo iria se resolver da melhor forma. Eu não percebia como as coisas poderiam se arrumar com Joaquim Boaventura ofendido em sua honra de pai, desbancado em sua imagem de homem intocável e, além do mais, já me fazendo distante de Perdição.

Trancafiado dia e noite no quadrado de paredes emboloradas, ouvindo a suindara rasgar com seu grito a mortalha da noite, tão assustado quanto os ratos que cruzavam o chão de esteira onde eu dormia, debatia-me, como o autor de um crime indefensável, entre o desejo de morrer e o de me entregar. Qual a atitude menos indigna? De qualquer forma, estaria morto, porque se um pai, de quem um filho herda a vida, diz-lhe estás morto, não há por que duvidar, nem de quem se valer, sentença de condenação irrecorrível”.

Liturgia do Fim - Jornal

16/08/2016

Eça à beça: comentário sobre “Alves & Cia.”

Eça de Queiroz Alves & Cia

“Então começou para Godofredo uma existência abominável.
Tinham passado semanas e Machado voltara, ocupava agora, como sempre, a sua carteira, no gabinete de reps verde. Godofredo temera sempre aquele encontro, não julgara possível que eles pudessem passar dias, um ao lado do outro, manejando os mesmos papéis, tocando-se por mil interesses comuns, com a ideia daquele dia nove de julho, aquele encontro sobre sofá. Mas por fim tudo se passara convenientemente, e não havia atritos”.
 

(Uma versão da resenha abaixado, foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 16 de agora de 2016)

 

Em muito boa hora, a Grua incluiu em sua coleção “A arte da novela” um dos sextos de Eça de Queiroz, um dos autores geniais tanto em romances longos (caso de Os Maias) quanto no formato ficcional mais breve (caso de O Mandarim): ALVES & CIA, só publicado na década de 1920 e restaurado integralmente décadas depois.

O protagonista, Godofredo, surpreende a esposa, Ludovina, em flagrante adultério com seu sócio, dez anos mais jovem e bonitão. Despacha a esposa para a casa do pai (embora mantenha as aparências para sociedade) e tenta de todas as maneiras – incluindo o duelo – uma reparação por parte do sócio. No final, o episódio adultero vai sendo desconstruído até se diluir. É o retorno à “regularidade das coisas” (isso é, à bêtise, a estupidez que rege o cotidiano, como aprendemos com Flaubrt) tão prezada por Godofredo, malgrado seu temperamento vagamente romanesco: “… gostava de teatro, de dramalhões, de incidentes violentos. Lia muito romance. As grandes ações, as grandes paixões, exaltavam-no. Sentia-se por vezes capaz dum heroísmo, duma tragédia. Mas isto era vago, e movendo-se surdamente, e raramente, naquele fundo do coração onde ele os tinha prisioneiros. Sobretudo as paixões românticas interessavam-no: decerto não pensara nunca em lhes provar o mel ou fel…”.

ALVES & CIA é uma daquelas obras que, em ponto pequeno, sintetiza toda a produção de um autor. No caso de Eça, a sátira ácida ao provincianismo da sociedade portuguesa, a hipocrisia das instituições, o vazio de noções cristalizadas como a da “honra”, a tragédia que se dissolve na mediocridade (tema da sua maior realização, Os Maias); não falta nem o poder doméstico alcançado pela criadagem (como em O primo Basílio), por conta da convivência, quando não conivência, com pecadilhos dos patrões: Godofredo é obrigado a tolerar o desleixo da criada e da cozinheira para que elas não espalhem pela vizinhança o fim do seu casamento. Lendo suas 120 páginas, temos uma perfeita compreensão da passagem do Romantismo para o realismo.

Eu particularmente admiro os romances da fase final de Eça, A Cidade e as Serras e A Ilustre Casa de Ramires, os quais considero profundos e brilhantes, contra a opinião generalizada de que são uma capitulação ao conformismo; não há, como negar, contudo, o fascínio de sua fase mais provocativa e cruel, da qual muitos manuscritos vieram a lume postumamente, muitas vezes com mutilações, felizmente corregidas em edições recentes.

De qualquer modo, meu conselho é este: ler o grande autor português, seja em formato volumoso, seja          em formato curto, uma vez ao ano. Eça à beça.

 

ALves & Cia. Jornal

 

 

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