MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

11/12/2012

A terceira margem do riverrun joyceano: uma nova tradução de “Ulysses”

“Há o terrível risco da solenidade, que transforma tanto leitores quanto escritores em grandes carrancudos. Joyce escreveu Ulysses para entreter, para realçar a vida, para dar júbilo. É fácil demais destruir a vida alada, não tanto prendendo-a quanto ruminando-a.”(Anthony Burgess, Homem Comum Enfim)

I

Não pensei que viveria para ver uma terceira tradução de Ulysses e pouquíssimos anos após a segunda (a de Bernardina da Silveira Pinheiro, lançada em 2005, passados 40 anos da primeira, a de Antônio Houaiss). O autor dessa façanha, que acontece no 90º. aniversário do romance de James Joyce (1882-1941), é um jovem curitibano (nasceu em 1973), Caetano W. Galindo, que consegue transpor para a nossa língua um livro exigente sem torná-lo quase intragável (como fez Houaiss, respeitando-se o seu tour-de-force) nem enfraquecê-lo fugindo das soluções mais difíceis (como fez Bernardina, idem). A meu ver, finalmente Ulysses e o leitor brasileiro encontram-se de fato.

Ao publicá-lo em 1922, aos 40 anos, Joyce e a Europa tinham passado por uma guerra mundial e seus efeitos desagregadores estão presentes, mesmo que anacronicamente, na narração do dia 16 de junho de 1904, o bloomsday (que virou uma data comemorativa): não são poucas as alusões, no texto, denegrindo as práticas bélicas, a destruição de uma geração, e também o enfraquecimento do Império Britânico.

Tomando como modelo para seu esquema narrativo, a Odisseia de Homero (todos os dezoito episódios do livro são calcados em incidentes das aventuras de Ulisses em retorno ao lar após a Guerra de Troia), Ulysses contraria e parodia o figurino épico e seus arquétipos de virilidade agressiva e rivalidades guerreiras.

Joyce radicaliza o registro da experiência humana ao vislumbrar que somos feitos não só de ação e decisão (mesmo que no romance realista-naturalista normalmente elas sejam obstadas), mas nossa mente circunavega Poe associações, auto-lembretes pueris (como coisas que temos de comprar, uma dívida que alguém tenha com a gente etc), lembranças involuntárias, trechos de músicas, impacto de sensações, enfim, um mosaico fragmentário e muito particular (e é por isso que ele mexe nas palavras, na sua composição; um dos aspectos mais elogiáveis da versão de Galindo é não forçar a barra, como Houaiss tanto fez ao criar palavras horrorosas, e se basear na supressão do hífen e na junção cacofônica normal dos vocábulos, por exemplos olhão  destemanho). E é assim que ele nos convida para entrar na mente dos três protagonistas, o casal Bloom (ele em perambulações pela cidade, ela recebendo um amante), já não tão mais jovem (pelos padrões da época, no romance, aliás, se reitera bastsnte uma perspectiva de vida de 70 anos mais ou menos), embora ela seja uma mulher desejável, e Stephen Dedalus, que aos 22 anos, luta contra a paralisia da vontade, e do futuro, que se estende, aliás, à nação e a língua irlandesas, dominadas pelos ingleses. Stephen tem de se haver com seu lado Hamlet, embora o mundo de Joyce, assim como é antiépico  (embora Bloom, seu Ulisses moderno não deixe de apresentar as qualidades de astúcia e prudência do herói clássico) também é antitrágico por natureza. Ele confia muito no fluxo da vida, e não é por acaso que instituiu como recurso modernista essencial o fluxo de consciência dos personagens. Nosso dia a dia é feito pelos nossos movimentos pelas ruas, pelo espaço-tempo, mas também pelas viagens da nossa mente.

E sua proeza maior foi ter amarrado essa característica proteica a uma rigorosíssima estrutura narrativa. Sem contar a teia de alusões atordoantes que fazem do texto de Joyce um palimpsesto semelhante à Divina Comédia, de Dante (vale a pena ler a extraordinária biografia de Richard Ellmann, uma obra-prima do gênero, mas eu sinceramente acho que o leitor comum que queira apenas ler o romance, sem se aprofundar nessas veredas alusivas, não só culturais, mas de cidadãos e figuras históricas de Dublin e da Irlanda, bem como de personagens dos livros anteriores, como Dublinenses, pode fazê-lo tranquilamente e entender mesmo assim o plano geral do romance[1]), a paródia de vários estilos literários, a escolha de um léxico apropriado para  evocar cada episódio da Odisseia, cada momento do livro traz aconecimentos e encontros que serão completados adiante, nada é jogado fora ou acidental.

Quando Molly Bloom no célebre episódio final está na sua cama e ao mesmo tempo recapitula sua vida, rumina os vestígios do dia, fantasia, ressente-se do marido,  ainda que com inequívoca admiração pela sua peculiaridade, todas as peças do quebra-cabeça colocaram-se em seus devidos lugares (“toda a galáxia de eventos, tudo contribuía para constituir um camafeu miniaturizado do mundo em que vivemos”, lemos na pág. 915) e demos a volta ao dia em oitenta mundos (“algo que escapasse do soído e costumeiro”). E Caetano W. Galindo nos propiciou o equivalente brasileiro mais pertinente, até hoje, dessa viagem fascinante.

(resenha publicada, de forma mais condensada, em A TRIBUNA de Santos, em 12 de junho de 2012) 

II

Transcrevo abaixo um dos trechos de que eu mais gosto em Ulysses, que está no episódio das “Sereias”, que transcorre lá pelas 4 da tarde. É o momento em que Leopold Bloom, junto com Richie Goulding, ouve o pai de Stephen, o decadente e beberrão Simon Dedalus, cantando (pensando nas possibilidades perdidas dessa vida, e também nas possibilidades perdidas da sua vida, e também na mulher recebendo o amante e o que eles devem estar fazendo):

Na tradução de Galindo ficou assim:

“… Bloom curvava leopolda orelha,  virando  uma franja de toalhete para embaixo do vaso. Ordem. Sim, eu lembro. Ária linda. Dormindo ela foi até ele. Inocência à luz da lua. Detê-la ainda. Coragem, não sabem do perigo. Chamar o nome. Tocar água. Tine ginga. Tarde demais. Ela desejava ir. É por isso. Mulher.  Mais fácil deter o mar. Sim: está tudo perdido.

__Uma bela ária, disse Bloom perdido Leopold. Conheço bem.

    Nunca em toda sua vida havia Richie Goulding.

    Ele conhece bem também. Ou sente. Ainda matraqueando sobre a filha. Sábia criança que conhece o próprio pai, o Dedalus disse. Eu?

   Bloom de esguelha sobre desfigadado via. Rosto de tudo está perdido. Um dia foi Richie risonho. Piadas velhas agora rançosas (…)

   Piano de novo. Soando melhor que da última vez que ouvi. Afinado provavelmente. Parou de novo.

   Dollard e Cowley ainda incitavam o cantor recalcitrante a andar com aquilo.

__Anda com isso, Simon.

__ Anda, Simon.

__ Senhoras e senhores, fico-lhes profundamente grato por seus gentis pedidos.

__ Anda, Simon.

__ Não tenho dinheiro mas se me cederem um momento de sua atenção eu tentarei cantar a estória de um coração curvado em reverência (…)

(…) Quando primeiro vi aquela forma cativante.

   Richie se virou.

__ A voz do Si Dedalus, ele disse.

   Cerebrêbados, bochechas tocadas de chama, eles ouviam sentindo aquele fluxo cativante fluxo sobre pele membros peito humano e alma espinha. Bloom sinalizou a Pat, calvo Pat é um garçom ruim de ouvido, para entreabrir a porta do bar. A porta do bar. Assim. Está ótimo. Pat, garçom à espera, esperava, esperando ouvir, pois era ruim de ouvido junto à porta.

__ A mágoa de mim vi partir.

   Pela placidez do canto uma voz lhes cantava, grave, não chuva, não folhas em murmúrio, em nada como voz de cordas ou palhetas ou comèquechama saltérios, tocando seus ouvidos poucos com palavras, pouco o coração de cada um sua vida relembrada. Bom, bom de ouvir: a mágoa de cada um parecia de ambos partir quando primeiro ouviram. Quando primeiro viram, Richie perdido Poldy, mercê da beleza, ouviram de uma pessoa que não poderiam jamais esperar, a jura inteira  e pura primeira maduramor.

   É o amor que está cantando: a velha e doce canção do amor. Bloom desenrolou lento o elástico de seu pacote. A velha e doce sonnez la ouro de amor. Bloom enrolou uma meada em quatro dedosgarfos, esticou, afrouxou, e enrolou seu duplo confuso, em quatro, in oitava, embaraçando bem.

__ Pleno de esperança e deleitoso…

Os tenores ganham mulher sem precisar nem cantada. Aumenta o fluxo. Jogam flores aos pés deles quando a gente pode se encontrar? Minha cabeça toda. Tine todo deleitoso. Ele não pode cantar pras cartolas. Sua cabeça ela toda rroda. Perfumada pra ele. Que tipo de perfume que a sua esposa? Eu quero saber. Tin. Para. Bate. Última olhada no espelho sempre antes de ela abrir a porta. A sala. Lá? Como vai? Eu vou bem. Lá? O quê? Ou? Balinhas de menta, beijos doces, na bolsa. Sim? Mãos buscavam suas opulentas.

   Ai de mim! A voz subia, um suspiro, mudada: alta,c heia, clara, orgulhosa.

__ Mas, ai de mim!, era um sonho vão…

   Um timbre esplendoroso ele tem ainda. Ar de Cork mais suave e o sotaque deles também. Sujeitinho bobo! Podia ter ganhado oceanos de dinheiro. Cantando a letra errada. Consumiu a esposa: agora canta. Mas difícil de dizer. Somente os dois. Se ele não desmonta. Manter um trote pro desfile. As mãos e os pés dele cantam também. Bebia. Nervos tensos como corda de violino. Tem que ser abstêmio pra cantar. Sopa Jenny Lind: brodo, sálvia, ovo cru, uma xícara de creme. Para o lírico onírico.

   Em ternura acrescia: lenta, crescente. Cheia latejava. Isso é que é. Ah, dá! Toma! Lateja, um latejo, um orgulho pulsando ereto.

   Letra? Música? Não: é o que está por trás…”

No original (utilizo o texto da edição da The Modern Libary, 1992):

“…Leopold  bent leopold ear, turning a fringe of doyley down under the vase. Order. Yes, I remember. Lovely air. In sleep she went to him. Innocence in the moon. Still hold her back. Brave, don´t know their danger. Call name. Touch water. Jingle jaunty. Too late. She longed to go. That´s why. Woman. As easy stop the sea. Yes: all is lost.

__ A beautiful air, said Bloom lost Leopold. I know it well.

   Never in all his life has Richie Goulding.

    He knows it well too. Or the feels.  Still harping on his daughter. Wise child that knows her father, Dedalus said. Me?

   Bloom askance over liverless saw. Face of the all is lost. Rollicking Richie once. Jokes old stale now (…)

   Piano again.  Sounds better than last time I heard. Tuned probably. Stopped again.

   Dollard and Cowley still urged the lingering singer out with it.

__ With it, Simon.

__ It, Simon.

__ Ladies and gentlemen, I am most deeply obliged by your kind solicitations.

__ It, Simon.

__ I have no money but if you will lend me your attention I shall endeavour to sing to you of a heart bowed down (…)

(…)When first I saw that form endearing.

   Richie turned.

__ Si Dedalus´s voice, he said.

    Braintipped, cheek touched with flame, they listened feeling that flow endearing flow over skin limbs human heart soul spine. Bloom signed to Pat, bald Pat is a waiter hard of hearing, to set ajar the door of the bar. The door of the bar. So. That will do. Pat, waiter, waited, waiting to hear, for he was hard of hear by the door.

__ Sorrow from me seemed to depart.

   Through the hush of air a voice sang to them, low, not rain, not leaves in murmur, like no voice of strings of reeds or whatdoyoucallthem dulcimers, touching their still ears with words,  still hearts of their each his remembered lives.  Good, good to hear: sorrow from them each seemed to from both depart when first they heard. When first they saw, lost Richie, Poldy, mercy of beauty, heard from a person wouldn´t expect it in the least, her first merciful lovesoft oftloved word.

   Love that is singing: love´s old sweet song. Bloom unwound slowly the elastic band of his packet. Love´s old sweet sonnez la gold. Bloom wound a skein round four forkfingers, stretched it, relaxed, and wound it round his troubled double, fourfold, in octave, gyved the fast.

__Full of hope and all delighted…

   Tenors get women  by the score. Increase their flow. Throw flower at his feet when will we meet? My head it simply. Jingle all delighted. He can´t sing for tall hats. Your head it simply swurls. Perfumed to him. What perfume does your wife? I want to know. Jing. Stop. Knock. Last look at mirror always before she answers the door. The hall. There? How do you? I do well. There? What? Or? Phila of  cachous, kissing comfits, in her satchel. Yes?  Hnds felts for the opulent.

   Alas! The voice rose, sighing, changed: loud, full, shining, proud.

__But alas, ´twas idle dreaming…

   Glorious tone he has still. Cork air softer also their brogue. Silly man! Could have made oceans of money. Singing wrong words. Wore out his wife: now sings. But hard to tell. Only the two themselves. If he doesn´t break down. Keep a trot for the avenue. His hands and feet sing too. Drink. Nerves overstrung. Must be abstemious to sing. Jenny lind soup: stock, sage, raw eggs, half pint of cream. For creamy dreamy.

   Tenderness it welled: slow, swelling. Full it throbbed. That´s the chat. Ha, give! Take! Throb, a throb, a pulsing proud erect.

   Words? Music? No: it´s what´s behind…”

Na versão de Antônio Houaiss (utilizo a edição da Civilização Brasileira, 1982) ficou assim:

“…Bloom inclinava leopold orelha, dobrando uma franja do paninho para debaixo da floreira. Ordem. Sim, eu me lembro. Adorável ária. Em sono ela se fora para ele. Inocência na lua. Deixá-la ainda por longe. Bravos, não sabem do perigo. Xinga nomes. Toca na água. Sege ginga. Muito tarde. Ela ansiava por ir-se. É por isso. Mulher. Tão fácil como parar o mar. Sim: tudo é perdido.

 __ Uma bela melodia—disse Bloom perdido Leopold.—Conheço-a bem.

   Nunca em sua vida tinha Richie Goulding.

    Ele a conhece também. Ou ele pensa. Ainda assim harpejando a filha. Garota sabida que conhece o pai, disse Dedalus. Eu?

   Bloom de esguelha sobre o desfigadado via. Cara de tudo é perdido. Folgazão Richie outrora. Pilhérias de velho estilo agora (…)

   Piano de novo. Soa melhor que da última vez.  Afinado provavelmente. Parou de novo.

   Dollard e Cowley urgiam ainda o tardo cantor vamos com isso.

__ Com isso, Simon.

__ Isso, Simon.

__ Senhores e senhores, estou mui fundamente obrigado por suas gentis solicitações.

__ Isso, Simon.

__ Não tenho dinheiro mas se me emprestarem atenção eu me esforçarei para cantar-lhes sobre um coração em pena (…)

__ Ao ver primeiro a forma tão querida.

   Richie voltou-se.

__ Voz do Si Dedalus—disse ele.

   Cerebrespicaçados, faxes tocadas de flama, eles ouviam sentindo um fluir querido fluir sobre pele membros coração humano alma espinha. Bloom fazia sinal a Pat, o calvo Pat é um garçom duro de ouvido, para deixar entreaberta a porta do bar. A porta do bar. Assim. É bastante. Pat, o garçom, esgarçava-se, engonçando-se por ouvir, pois ele era de ouvir perto da porta.

__ Pareceu-me fugir toda a tristeza.

  Na caluda do ambiente uma voz cantava-lhes, baixo, nem chuva, nem folhas múrmuras, nem como a voz d cordas de junquilho ou comoé quechama dulcímeros, tocando-lhes as orelhas-quedas com palavras, os corações quedos deles cada um com vidas revividas. Bom, bom de ouvir: a tristeza deles cada um parecia de ambos partir quando logo ouviram, perdidos, Richie, Poldy, a misericórdia da beleza, ouvida de alguém de quem menos se esperaria, a primeira misericordiosa suavemente palavra dela sempreamada.

   Amor que é canto: a velha doce canção do amor. Bloom destacava, lento, a fita elástica do seu embrulho. Velha, doce, sonnez la ouro do amor.  Bloom atacava a fita à volta de quatro dedos em garfo, esticava-a, relaxava-a, e atacava-a, turvado em volta em duplo, quádruplo, em oitavo, agrilhoando-a rápido.

__ Esperança e delícias me acenavam.

Tenores conseguem mulheres em penca. Aumenta-lhes o fôlego. Jogam flores aos pés deles quando nos encontraremos? Minha cabeça, isso simplesmente.  Zum-zum que é delícia. Ele não pode cantar para cartolas. Tua cabeça simplesmente gera. Perfumada para ele. Que perfume é que sua mulher?  Eu quero saber. Tlim. Parada. Toque-toque.  Ultima olhadela ao espelho antes sempre que atende à porta. A sala de entrada. Está aí? Como vai? Vou bem? Está aí?  O quê? Ou? Caixinha do  tsén-tsén,  confeitos para beijinhos, na bolsinha dela. Sim? Mãos a sentir a opulência.

   Ai-ai! A voz  se erguia, suspirava, modulava: forte, cheia, brilhante, audaz.

__Mas era um sonho apenas essa vida.

  Timbre soberbo ele tem ainda. O ar de Cork suaviza também seu sotaque. Sujeito idiota! Podia ter feito montanhas de dinheiro. Pregou em freguesia errada. Arrebentou a mulher: canta agora. Mas quem pode saber? Somente eles dois mesmos. Mantém as aparências. Suas mãos e pés cantam também. Bebe. Nervos mais que estirados. Deve-se ser abstêmio para cantar. Dieta de Jenny Lind:  caldo, sálvia, ovos crus, meia pinta de creme. Para sonhos risinhos.

    Ternura e canto derramava: lento , esparramava. Cheio, ele pulsava. Isto é tizio. Ah, tira! Dá! Pulsa, um impulso, claro erguido latejando.

   Palavras? Música? Não: é o que é por trás…”   

Na versão portuguesa de João Palma-Ferreira (utilizo a edição da Livros do Brasil, 1984) fica assim:

“… Bloom aprestou o ouvido de Leopold, a dobrar uma franja da toalha sob o vaso das flores. Ordem. Sim, recordo. Bela ária. Era no sono que ela se chegava a ele. Inocência na lua. Valentes. Não conhecem o perigo. Contudo, ainda a mantém. Chamar por nomes. Tocar na água. O tilintar da tipoia. Demasiadamente tarde. Ela queria partir.É por isso. Mulher. Tão fácil deter o mar. Sim, está tudo perdido.

    Nunca na sua vida tinha Richie Goulding.

    Ele também sabe. Ou sente. A maçar a filha. Sábia criança que conhece o pai, disse Dedalus. A mim?

    Bloom de soslaio, sobre sem fígado, viu. O rosto de tudo está perdido. Outrora o exuberante Richie. Agora anedotas e velhos ditos (…)

   Outra vez o piano. Soa melhor do que última vez que ouvi. Afinado, provavelmente.  Parou de novo.

   Dollard e Cowley continuavam a instar para que o arrastado cantor se soltasse.

__ Vamos com isso, Simon.

__ A isso, Simon.

__ Senhoras e cavalheiros, sinto-me profundamente agradecido pelas vossas amáveis solicitações.

__ Vamos, Simon.

__ Não tenho dinheiro, mas se me emprestardes a vossa atenção, tentarei cantar-vos acerca de um coração destroçado (…)

(…)Quando a primeira vez eu vi essa forma sedutora.

    Richie voltou-se.

__ A voz de Si Dedalus—disse ele.

   Miolos excitados, rosto tocado pelo rubor, escutaram sentindo essa torrente sedutora, torrente sobre a pele, membros, coração humano, alma, espinha.  Bloom acenou a Pat, o careca Pat é um criado duro de ouvido, para entreabrir a porta do bar. Isso. Assim serve.  Pat, criado, esperou, esperando para ouvir pois era duro de ouvido, junto à porta.

__ A tristeza pareceu partir de mim.

       Através da quietude do ar uma voz cantava para eles, baixa, não chuva, não murmúrio de folhas,  como voz alguma de juncos ou junquilhos ou como se chamam saltérios atingindo-lhes os ouvidos com palavras,  tranquilos corações das  suas vidas recordadas. Bom, bom de ouvir: a tristeza pareceu afastar-se  de ambos quando primeiro ouviram. A primeira vez que viram, o perdido Richie, Poldy, misericórdia da beleza ouvida de uma pessoa de quem jamais se esperaria, a sua primeira palavra misericordiosa, suave de amor, palavra tão amada.

   Amor que canta: velha e suave canção de amor. Bloom desfez lentamente a fita elástica do embrulho. Suave e velha sonnez la ouro. Bloom enrolou uma meada em torno de quatro dentes do garfo, estirou-a, relaxou, atou em torno do seu perturbado duplo, quádruplo, em oitavo, atou-a fortemente.

__ Cheio de esperança e de todo o encanto.

   Os tenores conseguem mulheres ás dúzias. Aumenta-lhes o fluxo. Atiram-lhes flores aos pés. Quando é que nos encontramos? A minha cabeça, simplesmente. Retinir todo deliciado. Não pode cantar para chapéus altos. A tua cabeça gira simplesmente. Perfumada para ele.  Qual é o perfume que a sua mulher? Quero saber. Retine. Acabou. Bate à porta. O último olhar ao espelho antes que ela responda. O vestíbulo. Ali? Como passou? Vou bem. Ali? O quê? Ou? Um frasquinho de pastilhas, confeitos de beijos, no bolso dela. Sim? As mãos procuravam-lhe as opulências.

   Ah, a voz subiu, suspirando, alterou-se: alta, cheia, brilhante, orgulhosa.

__Mas, ah, era sonhar em vão…

   Ainda tem um tom glorioso. O ar de Cork é mais suave e também o seu acento. Estúpido homem!  Podia ter feito oceanos de dinheiro. Cantando letras erradas. Consumiu a mulher: agora canta. Mas custa dizer. Só eles, os dois. Se não se for abaixo. A trote para o cemitério. As mãos e os pés também cantam. Bebida. Os nervos sensíveis. Para se cantar deve ser-se abstêmio. A sopa de Jenny Lind: caldo, infusão de sálvia, ovos crus, meio quartilho de creme. Para sonhos em creme.

    Ternura a transbordar,  lenta, dilatante, cheia, latejava. A conversa é esta. Ah, dá! Toma! Pulsar, uma pulsação, pulsar orgulhoso e erecto.

  Palavras? Música? Não, é o que está atrás…”

Por fim, a versão de Bernardina da Silveira Pinheiro (utilizo a edição da Objetiva, de 2005):

“… Bloom inclinou o ouvido de Leopoldo, dobrando uma fímbria do guardanapo debaixo do vaso. Ordem.  Sim, eu me lembro. Uma bela canção. Dormindo ela ia para ele. Inocência sob a lua. Corajosas. Desconhecem o perigo. Ainda assim detê-la. Chamá-la pelo nome. Tocar a água. Tilintar lépido. Tarde demais. Ela ansiava ir. Eis por quê. Mulher. Tão fácil quanto reter o mar. Sim: está tudo perdido.

__ Uma linda canção—disse Bloom perdido Leopoldo.—Eu a conheço bem.

   \nunca em toda a sua vida tinha Richie Goulding.

    Ele também a conhece bem. Ou a sente. Ainda repisando o assunto de sua filha. Filha sábia que conhece o próprio pai, disse Dedalus. Eu?

    Bloom o olhou de soslaio por sobre sua ausênciadefígado. Rosto de tudo está perdido. O Richie brincalhão de antigamente. Velhas piadas batidas agora (…)

    Piano novamente. Soa melhor do que na última vez em que ouvi. Provavelmente afinado.  Parou de novo.

    Dollard e Cowley a instar com o vagaroso cantar para que cantasse logo.

__ Vamos, Simon.

__ Vamos com isso, Simon.

 __ Senhoras e senhores, estou profundamente agradecido por sua generosa solicitação.

__ Vamos com isso, Simon.

__ Não tenho dinheiro mas se vocês me emprestarem sua atenção eu vou tentar cantar para vocês sobre um coração oprimido (…)

(…)Quando primeiro vi aquela figura cativante…

    Com o cérebro tinindo de excitação, as faces atingidas pela flama, eles escutavam sentindo aquela torrente cativante fluir sobre a pele os membros o coração humano a alma a espinha dorsal. Bloom fez sinal para Pat, o calvo Pat que é um garçom que ouve mal, para que deixasse entreaberta a porta do bar. A  porta do bar. Assim. Basta. Pat, previdente, pacientou, pacientando para ouvir, pois ele era meio surdo, junto da porta.

__ …A tristeza parecia me abandonar.

   Através da quietude do ar uma voz cantava para eles, baixo, não era chuva, não eram folhas em murmúrio, como nenhuma voz de instrumentos de corda ou de sopro ou comovocêaschama cítaras, enternecendo seus ouvidos serenos com palavras, os corações serenos de cada um as suas vidas relembradas.  Bom, bom de ouvir: a tristeza de cada um deles parecia abandonar os dois assim que começaram a ouvir. Quando eles viram pela primeira vez, Richie e Poldy perdidos, a clemência da beleza, ouviram de alguém  de quem nem um pouco esperavam, sua primeira palavra misericordiosa tãoamada de ternoamor.

    Amor que canta: a antiga e doce canção de amor.  Bloom lentamente desenrolou a tira elástica de seu pacote.  A antiga e doce de amor sonnez la ouro.  Bloom enrolou uma meada em volta de quatro dedos bifurcados, esticou-a, relaxou,  e enrolou-a em  volta dos duplos, quádruplos dedos tensos, em óctuplo, e os atou firmemente.

__ Cheio de esperança e todo encantamento…

     Tenores conseguem mulheres aos montes.  Aumentam o desejo delas. Atire flores aos pés dele. Quando vamos nos encontrar? Minha cabeça ela simplesmente. Tilintar todo encantamento. Ele não pode cantar para cartolas. Sua cabeça ela simplesmente rodopia. Perfumada para ele.  Que perfume sua mulher? Eu quero saber. Tilint. Parar. Bater na porta. Último olhar para o espelho antes que ela abra a porta. O saguão. Lá? Como vai? Vou bem. Ali? O quê? Ou? Frasco de cachu, bals que favorecem o beijo, na sua bolsa. Mãos para apalpar os opulentos.

    Ai de mim elevou-se a voz, suspirando, alterada: sonora, vibrante, esplendorosa, gloriosa.

__ Mas, ai de mim, era um sonho vão…

   Como ainda é magnífico o seu timbre. A cantiga de Cork mais suave o sotaque dele também. Homem tolo! Podia ter ganho rios de dinheiro. Cantando palavras erradas. Consumiu sua mulher: agora canta. Mas difícil de dizer. Apenas os dois eles próprios.  Se ele não sucumbir. Mantém-se em forma apesar dos pesares. Seus pés e mãos também cantam. Bebida. Nervos hipersensíveis.  É preciso ser abstêmio para cantar. Sopa de Jenny Lind: caldo de carne ou peixe, salva, ovos crus, meia xícara de creme. Para um sonhar cremoso.

   Ternura ela se derramou: lentamente, se inflando, tremulou plenamente. Essa é a coisa certa. Há, teste! Tome! Trema, um tremor, um pulsar orgulhoso ereto.

   Palavras? Música? Não é o que está por trás….”


[1] “A verossimilhança no Ulysses é tão forte que Joyce tem sido ridicularizado como mais um mímico do que um criador, acusação que, sendo falsa, é o maior de todos os elogios. Depois da sua morte, quando a BBC estava preparando um longo programa a seu respeito,  emissários foram a Dublin e abordaram o dr. Richard Best para participar de uma entrevista. Por que vieram me procurar, questionou ele, todo truculento, o que os faz pensar que tenho qualquer coisa a ver com esse cara aí, Joyce? Mas o senhor não pode negar sua ligação, replicaram os enviados da BBC, afinal o senhor é um personagem do Ulysses.

   Esse incidente é útil. Até com um roman à clef, o que o Ulysses é em larga medida, não há chave que se adapte direito…” (James Joyce, de Richard Ellmann. Há uma tradução brasileira, publicada pela Globo, em 1989, e realizada por Lya Luft).

26/11/2012

COMO CHEGAR AO CASTELO?

(resenha publicada originalmente em “A Tribuna”  de Santos em 26 de dezembro de 2000)

Era  muito aguardada a tradução de O CASTELO, a única inédita entre as realizadas até agora por Modesto Carone e editada pela Companhia das Letras. Antes dela, tinhamos a versão de Torrieri Guimarães, com forte sabor lusitano, e a do obscuro D. P. Skroski, cujo nome já tem um sabor kafkiano, feita a partir da versão americana (o título original aparece como The Castle!!??) e com um texto truncado, cheio de erros de revisão, embora não faltem soluções interessantes.

Quando propus na minha coluna uma lista dos 100 maiores romances do século XX, O CASTELO (escrito por volta de 1922, mas só publicado postumamente em 1926) veio em terceiro lugar (vindo depois de A montanha mágica, de Mann, e de Luz em agosto, de Faulkner). Poderia vir em primeiro.  Junto da “classificação” havia o seguinte comentário: “Extraordinária alegoria da condição humana, ao mesmo tempo terrível e cômica. Não é à toa que kafkiano se tornou um vocábulo corrente, usual”.

Ao se pensar em alegoria, se pensa imediatamente na sua decodificação inequívoca: alegoria de quê? Infelizmente, as coisas não são tão fáceis com Kafka, e temos de fazer eco ao lamento de vários comentadores das suas obras: como interpretá-las? Como penetrar no seu mistério, no seu fascínio, na sua junção do terrítel e do cômico? Que interpretação dar para a história de K., que chega à aldeia dominada pelo Castelo do Conde Westwest e se apresenta como agrimensor contratado? Como se sae, houve um erro nos trâmites administrativos e essa contratação era desnecessária. Oferecem a K. emprego como zelador da escola da aldeia,em meio à confusão que ele arranja não só por suas tentativas malogradas de entrar em contato com o alto escalão do Castelo (especialmente Herr Klamm), como também por se tornar amante de Frieda (a quem todos no lugarejo atribuem uma ligação com Klamm), encarregada do bar na Estalagem dos Senhores, isto é, utilizada pelo pessoal administrativo do Castelo quando ele se encontra na aldeia, fazendo com que ela abandone seu posto.

Como se não bastasse, ele também se torna íntimo de uma família proscrita na aldeia, cuja história ocupará boa parte do romance e espelhará a de K.

K. é isso: um erro administrativo. Sua individualidade é o elo mais frágil e fantasmagórico de uma incessante tramitação burocrática de memorandos, dossiês e processos. Ele, com teimosa paciência, tenta afirmar-se enquanto indivíduo, entretanto malogra porque ninguém consegue compreendê-lo, é sempre aceito ou rejeitado pelo cargo que ocupa ou não ocupa (agrimensor ou zelador) ou pela situação de seu processo no Castelo (que se parece muito com um julgamento).

Quando encontra um interlocutor, como Amália e Olga, as irmãs proscritas, ou Pepi, substituta de Frieda no bar da Estalagem dos Senhores, esse interlocutor é quem toma a palavra e monologa interminavelmente sobre suas próprias desventuras.

Foram citadas, neste meu texto, as mulheres da história (embora haja várias personagens masculinas): Amália, Olga, Frieda, Pepi. Pois há uma atmosfera difusa e viscosa de sexualidade em O CASTELO, a qual parece ir minando a força do herói, ou melhor, parece ser a única dimensão em que se permite a ele alguma ação, ainda que leve a diversos equívocos. Esse clima promíscuo liga-se à opressão do Castelo na medida em que se anula o que é privado e o que é público no romance: quando K. e Frieda transam no bar da Estalagem dos Senhores pela primeira vez, o ato é assistido pelos ajudantes de K. recrutados pelo Castelo, os quais testemunham igualmente toda a intimidade do casal quando passam a morar juntos, e não apenas os ajudantes como também  criadas, professores, alunos. Dificilmente há um momento na narrativa em que K.  consiga ficar sozinho e geralmente nesses parcos momentos ele está perdido ou desorientado.

O grande autor de Praga escreveu alguns textos sobre filhos oprimidos (O veredicto, A metamorfose), numa clave mais evidentemente autobiográfica. Em seus dois grandes romances (O processo é o outro) tudo se complica: filhos sem pais se lançam no mundo, literalmente perdendo-se e desorientando-se, o que demonstra como ele reelaborou ao extremo os resíduos biográficos na sua obra, tornando a interpretação mais complexa e tortuosa.

O fator mais insólito do texto é a maneira côica, quase à moda de um pastelão do cinema mudo, com que Kafka vai estabelecendo situações intoleráveis: “No albergue foi logo para o quarto e deitou-se na cama. Frieda instalou-se num leito ao lado, no chão, os ajudantes haviam se enfiado ali, foram expulsos, mas voltaram de novo pela janela….volta e meia entravam também as criadas fazendo barulho com suas botas de homem, para trazer ou pegar algo.Se precisavam de alguma coisa entre as várias que entupiam a cama, puxavam-na sem nenhuma consideração por debaixo de K.”.

É preciso dizer que a versão de Modesto Carone deixa a desejar em alguns aspectos. Já foi uma opção infeliz, a meu ver indefensável, dividir os enormes parágrafos a que estamos acostumados, toda vez que um personagem toma a palavra, diluindo a densidade opressiva e “fechada” da obra-prima máxima de Kafka (quem se der ao trabalho de comparar com as versões anteriores pode constatar o que se perdeu em atmosfera). Além disso,  entre outros detalhes,  é difícil acreditar que, estando K. e Frieda nus na cama, uma criada atire sobre eles uma toalha (para Torrieri Guimarães, ela atira uma coberta e para o misterioso sr. Skroski um cobertor,o que é mais lógico, convenhamos).  Trechos inteiros ficam mais compreensíveis nas outras traduções. Há também erros gritantes, como na página 307 (mas há aí parece ser mais um caso de problemas com a revisão): “Ora, vocês são muito parecidas, mas o que distingue Amália de vocês duas é totalmente desfavorável a  ela” . Na verdade,  as duas irmãs, Amália e Olga, são parecidas entre si, e com o irmão, Barnabás,  suposto mensageiro entre Klamm e K., não há três irmãs mulheres.

O mundo nos arredores do Castelo já é labiríntico e opressivo sem tais falhas e erros, ocultos pela fanfarra das “traduções definitivas”. Sendo o mundo kafkiano o que é, sabemos aonde podem levar falhas e erros…

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/09/25/fascinio-de-kafka-nao-se-esgota/

https://armonte.wordpress.com/2009/12/14/o-processo-e-a-peste-a-culpa-e-a-inocencia-da-humanidade/

https://armonte.wordpress.com/2012/11/25/o-terror-nas-dobras-do-pastelao-o-desaparecido-de-kafka/

https://armonte.wordpress.com/2010/04/07/a-morte-do-caixeiro-viajante/

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https://armonte.wordpress.com/2010/06/29/um-verdadeiro-exercicio-de-parodia/

12/06/2012

O JOYCE DE BERNARDINA E OUTROS JOYCES

“… os inventos do Joyce são transparentes e sempre lindamente sonoros, parecem palavras que já deveriam estar na língua há muito tempo… e são necessários para contar melhor sua história, (e procedendo do mesmo modo pelo qual é feita toda a língua inglesa…  aliás, como acho que o Guimarães Rosa faz e já vi muito matuto e muita criança fazer:  simplesmente “aplica” a novas idéias, sentimentos ou matizes os modos de construção, composição e derivação que já estão, como possibilidade implícita, na língua que se fala)  e não pra fazer malabarismos linguísticos,  nada a ver com os roncos  “traduzidos” pelo  Houaiss,..” (Maria ´Valéria Rezende)

I

Causou rebuliço o ousado lançamento de uma nova versão de Ulisses. Outro livro de James Joyce , Um retrato do artista quando jovem (publicado em dezembro de 1916), já tinha sido escrupulosamente traduzido por Bernardina Silveira Pinheiro, também trazendo  arejamento em relação à única versão até então existente (no caso, a de José Geraldo Vieira), contudo  derrapando em soluções esquisitas e insatisfatórias (entre dezenas de exemplos: uma caixa no cap. 5, “pontilhada de vestígios de piolho”; a versão de Vieira parece mais sensata: “com marcas de cupim”; isso não o impediu de estragar o efeito do começo do romance, traduzindo “Certa vez –e que linda vez que isso foi…” quando  seria necessário começar como fez sua sucessora: “Era uma vez e uma vez muito boa mesmo…”).

Por esse motivo, e como Stephen Dedalus, protagonista de Um retrato, reaparece em Ulisses, é  conveniente iniciar um comentário sobre a nova tradução deste último mostrando o que Joyce fez ao depurar um gigantesco romance autobiográfico chamado Stephen hero, em cinco capítulos implacavelmente densos, nos quais mostra Stephen tentando libertar-se dos tentáculos da educação jesuítica, que o encaminharia a um destino clerical, o que seria, aliás, conveniente à sua família empobrecida brutalmente, tendo de mudar-se constantemente (são sempre despejados das casas), vivendo de penhoras. Ao desistir de ser padre, Stephen (anteriormente atormentado pelo sentimento de pecado mortal) passa a viver a culpa de ser um privilegiado dentro do seu próprio lar (essa culpa ainda o persegue em Ulisses, especialmente devido à morte da mãe).

Temos, também, o dilema da Irlanda, atada à sua dependência da Inglaterra. É preciso levar muito a sério Stephen quando afirma: “Esta raça e este país e esta vida me produziram” (mais adiante: “Quando a alma de um homem nasce neste país redes lhe são lançadas para impedi-la de voar… Vou tentar escapar dessas redes… A Irlanda é a velha porca que come a ninhada”).

Não se conseguirá entender a tensão impotência-paralisia/libertação-êxtase alcançada por Joyce no Retrato se não se entender o conceito de epifania, termo literário usurpado da religião (seria a irrupção de Deus no mundo contingente, frente aos sentidos humanos, por um fugaz momento). Stephen Dedalus, vagando com seus grilhões pelos labirintos da culpa e da inação, apartado dos outros, vive alguns momentos excepcionais de existência (o mais famoso deles no final do capítulo 4, logo após decidir não tornar-se padre). Depois, tudo se dissolve e volta ao ramerrão normal. Mas aquele momento adquiriu um valor, uma realidade, o experimentá-lo tornou-se um fim em si mesmo. É o êxtase, momento que gostaríamos de reter, e é impossível.

Para o leitor, são momentos de alívio, também, pois se temos acesso às saborosas discussões de familiares e amigos do seu herói, Joyce não nos poupa de muitas, muitas, muitas páginas onde faz desfilar toda a retórica jesuítica que ameaça aprisionar para sempre a alma de Stephen (“um certo instinto, mais forte do que a educação, se agitava dentro dele a toda aproximação daquela vida, um instinto sutil e hostil, e o armava contra o assentimento. O que aconteceu com o orgulho de seu espírito que sempre o fizera se  conceber como um ser à parte em qualquer ordem? … Durante toda a sua meninice havia meditado sobre aquilo que frequentemente pensara ser seu destino e quando chegara o momento de atender ao chamado ele tomara outra direção, obedecendo a um instinto caprichoso… os óleos da ordenação nunca untariam seu corpo. Ele recusara. Por quê?”), e nem da exposição de uma extensa teoria estética, na qual a idéia de epifania fica sugerida.

Ou seja, temos de nos arrastar na lama e na escuridão para atingir esses momentos de êxtase, que estão entre os mais belos da literatura:sua alma se erguera do túmulo da meninice, rejeitando suas vestes mortas. Sim! Sim! Sim! Da liberdade e da força de sua alma criaria orgulhosamente, como o grande artífice de cujo nome era portador, uma coisa viva, nova e bela, planando nas alturas, impalpável, imperecível!”

retrato do artista

II

Comentando Ulisses em outras oportunidades, ninguém mais do que eu  achava necessária um novo texto em português. Durante muitos anos, a versão de Antônio Houaiss imperou, mas tutelada pelos concretistas (Haroldo e Augusto de Campos & Cia. Ltda.), os quais, mesmo criticando-a pontualmente, sempre valorizaram o aspecto pesadamente lingüístico que a revestia, como se Joyce se limitasse a isso, e sua obra-prima não fosse uma das mais ousadas tentativas de abarcar a totalidade da existência através da representação literária (Osman Lins: “romance: mundo imerso no mundo”). E assim o leitor teve de conviver com soluções medonhas de transposição de palavras: “frescamaciadas”, “oculivacuna”, “cheiilambrigrudosos”, “cintilibrilhichispeantes”, “subobscurinfra”, “liquilactichuposos”, “undialvas” e outros ultrajes vocabulares.

Houaiss até estragara o fim do livro, pluralizando o “Sim” que fecha o monólogo-fluxo-de-consciência de Molly Bloom: “sim eu quero Sims”!!!! Para não morrer de tédio e exasperação, na tentativa de uma leitura completa, era preciso recorrer à ajuda da tradução castelhana de J. Salas Subirat e, mais recentemente, da circunspecta versão portuguesa de João Palma Ferreira (a de Houaiss também tinha forte sabor lusitano).

Ainda assim, a tradução de Bernardina Silveira Pinheiro decepciona em larga medida. Se a de Houaiss dava a impressão de uma intoxicação lingüística (quase ao ponto da overdose), a dela padece de certa inanição. É muito prosaica. Veja-se, como exemplo um trecho. Em Houaiss: “Vegetissombras flutuavam silentes na paz matinal desde o topo da escada ao mar que ele contemplava. Da borda para fora o espelho do mar branquejava, esporeado por precípites pés lucífugos” (esta última palavra comprova o dito acima e resume os defeitos da sua versão). Em Subirat: “Sombras vegetales flotaban silenciosamente en la paz de la mañana, desde la escalera hacía el mar que él contemplaba. Partiendo de la orilla del espejo del agua blanqueaba, acicateado por fugaces pies luminosos”.

alfa_ulisses

Em Bernardina tudo fica chocho: “Sombras-do-bosque flutuavam silenciosamente através da paz da manhã vindas do topo da escada em direção ao mar que ele contemplava. Dentro da praia e ao largo o espelho das águas esbranquiçadas, repelidas por pés apressados com calçados leves.” Por que esse “sombras-do-bosque”? Era até preferível “bosquessombras”.

Um dos maiores pecados bernardianos foi cometido na transposição da expressão-chave “agenbite of inwit”, que representa a culpa que Stephen Dedalus carrega desde Um retrato do artista quando jovem (pois como diz Cranly, o primeiro dos seus amigos provocativos e sexualmente ambíguos, antes do Buck Mulligan, de Ulisses: “sua mente está supersaturada da religião que você diz descrer”), impedindo-o de usufruir sua liberdade da miséria familiar (a narrativa vai se encarregar de lhe dar como pais simbólicos Leopold e Molly Bloom ao final do dia 16 de junho de 1904, o famoso “bloomsday”). Já José Antonio Arantes (na sua tradução de Homem comum enfim, de Anthony Burgess, dedicado a Joyce) notava que era difícil de traduzir a palavra arcaica “inwit” e acabava por misturar duas soluções: de Houaiss (“remordida do imo-senso”) e Augusto de Campos (“remorsura do ensimesmo”) em “remorsura do imo-senso”. Subirat passou longe com seu     “mordiscón ancestral del subconsciente”. E Bernardina mais ainda, num esquálido e espantoso “remorso de consciência”!!!! O maior prazer da sua tradução acaba sendo consultar as notas que acompanham cada página e que comprovam a teia quase infinita de alusões e signos tecida por Joyce, numa época em que nem se pensava em computadores, e que mostram que há muito com que se ocupar em futuras releituras.

(resenhas publicadas em A TRIBUNA de Santos, respectivamente em 25 de junho e 2 de julho de  2005)

09/06/2012

Personagem mesquinho, texto grandioso


(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 17 de outubro de 2000)

 

Bastará dizer que sou Juan Pablo Castel, o pintor que matou Maria Iribarne”. Uma das mais primorosas frases de abertura da literatura. Ficamos sabendo quem é o narrador, o que ele faz e o acontecimento principal da história que será contada.

Trata-se do início de O TÚNEL (El túnel, 1948, traduzido por Sérgio Molina).A Companhia das Letras aproveitou o lançamento de um texto inédito no Brasil de Ernesto Sabato, Antes do fim, para publicar também uma nova tradução do seu primeiro texto de ficção. Já houve duas anteriores: em 1961, a de Noelini Souza para a Civilização Brasileira (depois reeditada pelo Círculo do Livro), que tem diversos trechos suprimidos nas posteriores, e a de 1980, de Janer Cristaldo, para a Francisco Alves, ambos—tradutor e editora—responsáveis pela publicação de vários textos do argentino no Brasil.

O Túnel é uma história de ciúme e crime passional. A obsessão de Juan Pablo Castel por Maria Iribarne, a “única pessoa que o compreendia no mundo” desmascara o machismo desenfreado: para ele, Maria não pode ter vida própria, é um insulto e uma traição, não pode viver sem girar à sua orbita, “compreendendo-o infinitamente”. Narrando a história dos dois, o tom é de mártir: eu achava que tinha encontrado a única pessoa no universo que me compreendeu, mas ela me traiu etc etc. Como sempre nesses casos, a vítima se torna culpada.


O relacionamento é apresentado como um inquérito policial: há infinitos interrogatórios e sessões de tortura psicológica, Castel interroga, mas nunca acredita no que ouve.

Sintomaticamente, a lembrança que ele tem da mãe é a seguinte: “Minha mãe não perguntava se tínhamos comido alguma maçã, pois negaríamos. Perguntava quantas, dando astuciosamente como sabido o que ela queria saber: se tínhamos comido ou não a fruta. E nós, levados sutilmente por aquela ênfase na quantidade, respondíamos que tínhamos comido apenas uma maçã”. Também de forma sintomática, no momento em que Maria está “abrindo o coração”, por assim dizer, a Juan Pablo (eles estão numa paisagem que lembra a pintura dele que os aproximou), ele, que tanto a interrogara, está tão absorto nas suas próprias ruminações que não a ouve: “Tive a impressão que ela acabara de fazer uma confissão preciosa que eu, como um imbecil, perdera” (note-se o termo utilizado, confissão, como se ela fosse uma mentirosa contumaz da qual se precisasse arrancar a verdade).

Com todo esse peso patológico, e mesmo levando-se em conta como Juan Pablo Castel é um personagem desagradável, paranóico e misógino (pois sentimos um verdadeiro ódio às mulheres em várias passagens), O Túnel é uma obra-prima, rastreando de forma angustiante os mecanismos psicológicos que regem esse sentimento inquisitorial que é o ciúme (como Shakespeare, Machado de Assis, Proust, Graciliano Ramos e Graham Greene nos ensinaram) e todas as suas conseqüências: o desejo de posse, a necessidade de anular o outro.

Não deixa de ser curioso, portanto, que o resultado final tenha desagradado o autor.Terá sido revelador demais? Segundo ele, houve um certo empobrecimento da sua intenção inicial, que era mostrar um desespero metafísico, uma solidão absoluta.

Por isso, no seu livro seguinte, Sobre heróis e tumbas (1961), ele fez uma releitura dos fatos narrados em O Túnel, através de outro personagem desagradável, paranóico e misógino, num grau bem mais radical, Fernando Vidal Olmos. Este acredita que há uma conspiração de Cegos dominando o planeta e que Castel (o qual manifestara sua aversão a eles; e não esqueçamos a cegueira de Allende, marido de Maria Iribarne) fora uma vítima da vingança da Seita.

Sobre heróis e tumbas é um romance tão fascinante e poderoso que se corre o risco da versão de Vidal Olmos dos fatos prevalecer. Para se precaver dessa tentação, o leitor deve atentar para o seguinte: não é interessante que além de compartilhar com Castel várias características (o ódio à humanidade, a hostilidade para com as mulheres) haja também em Vidal Olmos uma obsessão com cegos quando lembramos que o maior escritor da Argentina, Jorge Luis Borges (que aparece como personagem e sobre o qual há várias páginas de discussão em Sobre heróis e tumbas), era cego, e quando sabemos que Ernesto Sabato teve com ele uma relação de amor-ódio, de admiração-rejeição (parece que também há uma mulher envolvida no imbróglio)?

Portanto, ao tentar tornar o narrador do seu primeiro livro menos mesquinho, engrandecendo-o com uma trama mais metafísica e épica (só que, como em Angústia, de Graciliano, é muito mais marcante o psicológico do que o metafísico em Ernesto Sabato), o grande escritor argentino só conseguiu insinuar novos mecanismos de rancor e vingança pessoal, mais dos seus outros “cantos escuros”, como James Ellroy. É o caso de dizer que a emenda saiu pior que o soneto. Felizmente, todos esses lados mesquinhos e escuros geraram ficções memoráveis. E O Túnel é, sem dúvida, o seu texto mais perfeito.

ANEXO: AS TRÊS TRADUÇÕES DO LIVRO

I

A tradução de Noelini Souza foi publicada pela primeira vez em 1961 pela Civilização Brasileira; em 1976, foi relançada pela Alfa-Ômega (com paginação semelhante), e alguns anos depois (é sempre difícil determinar) pelo Círculo do Livro.

Um trecho dessa tradução:

“Tão logo saí do correio ocorreram-me duas coisas: não havia dito na carta por que deduzira ser ela amante de Hunter  e não sabia o que me levava a feri-la tão impiedosamente: talvez fazê-la mudar sua maneira de ser, no caso de serem certas as minhas conjecturas?[1] Isso era evidentemente ridículo. Fazê-la correr para mim? Não era crível que o conseguisse com tais procedimentos. Refleti, todavia, que, no fundo da minha alma, só ansiava pela volta de Maria.[2] Mas,neste caso, por que não dizê-lo diretamente, sem magoá-la, explicando-lhe haver fugido do sítio por ter subitamente percebido os ciúmes de Hunter? Afinal de contas, minha conclusão de ser ela amante de Hunter, além de ultrajante, era completamente gratuita; em todo o caso era uma hipótese, que eu me podia formular com o único propósito de orientar minhas investigações futuras.

   Uma vez, pois, cometera uma asneira, com o meu costume de escrever cartas muito espontâneas e enviá-las em seguida. As cartas importantes têm de ser retidas pelo menos um dia, até que se vejam claramente todas as possíveis consequências.

   Restava um recurso desesperado: o recibo! Procurei-o em todos os bolsos, mas não o encontrei: deveria tê-lo jogado estupidamente por aí. Voltei correndo ao correio e entrei na fila das cartas registradas. Quando chegou a minha vez, perguntei à empregada, enquanto fazia um horrível e fingido esforço para sorrir:

__ Não me reconhece?

   A mulher fitou-me com assombro: decerto pensou que eu era louco. Para livrá-la do seu terror, disse-lhe ser a pessoa que acaba de enviar uma carta para o Sitio dos Umbuzeiros. O assombro daquela estúpida pareceu aumentar e, talvez com o desejo de comparti-lo ou de pedir conselho diante de algo impossível de compreender, volveu o rosto para um colega; depois, fitou-me de novo:

__ Perdi o recibo—expliquei.

  Não obtive resposta.

__ Quero dizer que necessito da carta e não tenho o recibo (…)

__ O senhor quer que lhe devolvam a carta?

__ Sim, é isso mesmo.

__ E nem sequer tem o recibo?

   Tive de admitir que, com efeito, não tinha esse importante documento. O assombro da mulher chegou ao auge. Balbuciou algo que não entendi e voltou a consultar com os olhos o colega.

__ É completamente impossível […] Que documentos possui para provar-me ser o remetente da carta?

__ Tenho o rascunho—disse, mostrando-o.

   Apanhou-o, olhou-o e me devolveu.

__ E como havemos de saber que o rascunho é o mesmo da carta?

__ É muito simples, abramos o envelope e verifiquemos.

   […]

__ Esse documento não serve—concluiu a harpia.

__ Acha a carteira de identidade suficiente?—perguntei com irônica cortesia.

{…]

__ Não. A carteira apenas não, porque aqui só estão as iniciais. Terá de mostrar-me também um atestado de domicílio.

  […]

   Uma fúria escondida explodiu afinal em mim e senti que alcançava também a Maria e, o que é mais curioso, a Mimi.

__ Mande-a de uma vez e vá para o inferno!—gritei, retirando-me.”

2

Em ‘1981, pela Francisco Alves, saiu a versão de Janer Cristaldo (o qual traduziu vários livros de Sabato). Nela, o trecho acima foi traduzido da seguinte forma:

“Mal saí do correio, me dei conta de duas coisas: não havia dito na carta por que havia inferido que ela era amante de Hunter; e não sabia a que me propunha ao feri-la tão desapiedadamente[3]: queria talvez mudar sua maneira de ser, no caso de serem corretas minhas conjecturas? Isso era evidentemente ridículo. Fazê-la correr para mim? Não era crível que o conseguisse com aqueles procedimentos. Refleti, no entanto, que no fundo de minha alma só ansiava que Maria voltasse para mim. Mas, neste caso, por que não o dizer diretamente, sem feri-la, explicando-lhe que havia ido embora da estância por ter notado de repente os ciúmes de Hunter? Afinal de contas, minha conclusão de que ela era amante de Hunter,além de ferir, era completamente gratuita: em todo caso, era uma hipótese que eu podia me formular com o único propósito de orientar minhas investigações futuras.

   Uma vez mais, pois, havia cometido uma bobagem, com meu hábito de escrever cartas muito espontâneas e enviá-las em seguida. As cartas importantes, devemos retê-las ao menos por um dia, até que vejamos claramente todas as possíveis consequências.

   Restava um recurso desesperado, o recibo! Procurei-o em todos os bolsos, mas não o encontrei: o havia jogado fora, estupidamente. Voltei correndo ao correio, mesmo assim, e me pus na fila dos registrados. Quando chegou minha vez, perguntei à funcionária, enquanto fazia um horrível e hipócrita esforço para sorrir:

__ Não me reconhece?

   A mulher me olhou com espanto: certamente pensou que eu era um louco. Para afastá-la de seu erro, lhe disse que era a pessoa que acabava de enviar uma carta à estância Los Ombúes. O espanto daquela estúpida pareceu aumentar e, talvez com o desejo de partilhar ou de pedir conselho ante algo que não chegava a compreender, voltou seu rosto para um companheiro…” etc etc

3

E, em 2000, apareceu pela Companhia das Letras, a tradução de Sérgio Molina (agora reeditada na Coleção Folha Literatura Ibero-Americana), em que o trecho é traduzido assim como se segue:

“Tão logo saí do correio, percebi duas coisas: não dissera, na carta, por que inferira que ela era amante de Hunter; e não sabia o que pretendia ferindo-a tão impiedosamente: por acaso fazê-la mudar sua maneira de ser; caso minhas conjeturas estivessem corretas? Isso era evidentemente ridículo. Fazê-la correr para mim? Não era crível que conseguisse isso com tais procedimentos. Refleti, contudo, que no fundo de minha alma eu só desejava que María voltasse para mim. Mas, nesse caso, por que não dizê-lo diretamente, sem feri-la, explicando-lhe que tinha ido embora da fazenda porque de repente notara os ciúmes de Hunter? Afinal de contas, minha conclusão de que ela era amante de Hunter, além de ferina, era completamente gratuita; quando muito, era uma hipótese, que eu podia formular lá comigo com o único propósito de orientar minhas investigações futuras.

   Mais uma vez, portanto, eu tinha cometido uma besteira com meu hábito de escrever cartas muito espontâneas e enviá-las em seguida. As cartas importantes devem ser retidas pelo menos um dia até que se vejam claramente todas as possíveis consequências.

   Restava um recurso desesperado: o recibo! Procurei-o em todos os bolsos, mas não o encontrei: devia tê-lo jogado tolamente por aí. Mesmo assim, voltei correndo para o correio e entrei na fila das cartas registradas. Quando chegou minha vez, perguntei para a funcionária, fazendo um horrível e hipócrita esforço para sorrir:

__ Não me reconhece?

   A mulher olhou-me com espanto: decerto pensou que eu era louco. Para tirá-la do engano, disse-lhe que era a pessoa que acabara de postar uma carta para a fazenda Los Ombúes. O espanto daquela imbecil pareceu aumentar e, talvez no desejo de compartilhá-lo ou de aconselhar-se diante de algo que não conseguia entender, voltou-se para um colega” etc etc.


[1] Na edição do Círculo, o ponto de interrogação foi omitido.

[2] Na edição do Círculo, o nome vem acentuado: María.

[3] Na verdade, está grafado “despiadadamente”..

Borges: de que secretas regiões da astronomia ou do tempo, de que antigo e agora incalculável crepúsculo, haverá alcançado este arrabalde?

(esta resenha foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 03 de julho de 2001, antes da Indústria Borges ser transferida para a Companhia das Letras; nesta nova fase, O LIVRO DA AREIA foi traduzido por Davi Arrigucci Jr.)

Além de editar a Obra Completa de Jorge Luis Borges (1899-1986), em quatro volumes, a Globo está relançando alguns títulos avulsos, que já trazem a bem-vinda mudança (na verdade, um resgate) do logotipo da editora.

E assim como fez a Companhia das Letras com as obras de Milan Kundera, os treze contos de O LIVRO DA AREIA (El Libro de Arena, Argentina-1975, em tradução de Lígia Morrone Averbuck) foram mesmo revisados (por Maria Carolina Araújo & Jorge Schwartz). Corrigiram-se, por exemplo, alguns trechos mal alinhavados em A noite dos dons; lia-se, antes: “Com uma chicotada, Moreira deixou-o estendido de costas no solo. Caiu de costas e morreu movendo as patas”; agora se lê algo mais eficiente e fiel ao original: “Com uma chicotada, Moreira deixou-o estendido no chão. Caiu de costas e morreu movendo as patas” (“De un talerazo, Moreira ló dejó tendido en el suelo. Cayó de lomo y se murió moviendo las patas”).

No entanto, o título anteriormente dado, A noite das dádivas, era bem melhor, e sente-se uma fidelidade demasiada ao espanhol em certas modificações. Por exemplo, se Borges pode colocar em seu original Adolfo Hitler, ao invés de Adolf, por que Adán de Bremen não pode virar Adão?

Em Como e Por que Ler, Harold Bloom afirma que o conto foi dominado, grosso modo, por duas tendências. Por um lado, a tchekhoviana, seguindo o impressionismo do autor de A dama do cachorrinho; por outro, a borgiana: “Em Borges, ouvimos a voz solitária de um elemento submerso no turbilhão, uma voz acossada por uma pletora de vozes literárias que a precederam (…) Borges encanta-nos e transporta-nos a um mundo de forças impessoais, onde a memória de Shakespeare constitui um imenso abismo, capaz de tragar-nos, fazendo com que percamos quaisquer resquícios da nossa pessoa”.

As palavras de Bloom caracterizam bem as narrativas (quase todas em primeira pessoa) de O LIVRO DA AREIA: nelas, encontramos solitários, senão misantropos: “Para um celibatário entrado em anos, o oferecido amor é um dom que não se espera” (Ulrica); “Por indecisão ou negligência ou por outras razões, não me casei e agora estou só. Não me dói a solidão, já é bastante esforço alguém tolerar a si próprio e suas manias” (O Congresso); “O homem esquece que é um morto que conversa com mortos” (There are more things); “Moro sozinho (…) Essas duas preocupações agravaram minha já velha misantropia” (O Livro de Areia).

Acossados por situações fantasmagóricas, onde o “eu” se dilui e a experiência de vida se torna sonho, esses solitários nem sequer acreditam na alteridade, pois um torna-se o outro e uma experiência alheia tem o mesmo peso do sonho: “No curso fui muitos, mas esse torvelinho foi um longo sonho”, lê-se em Undr. Dessa forma,  duas posturas divergentes, como a dos acadêmicos que protagonizam O suborno acabam indiferenciando-se. Borges já fizera uma experiência inesquecível nesse terreno, em Os Teólogos, um dos seus maiores contos. Como diz o narrador de O Congresso: “Haverá na terra algo sagrado ou algo que não o seja?”.

Mesmo que tudo seja sagrado, em O LIVRO DA AREIA encontramos dois textos que despertam aversão: O Outro & Utopia de um homem que está cansado.

O Outro ainda tem a fascinante situação do encontro entre o Borges de quase 70 anos com seu “eu” de 18, onde semelhança e alteridade entram em discussão. O conto torna-se discutível e antipático quando percebemos que o enfadado escritor aproveita o encontro para desautorizar seu “eu” jovem, suas opiniões, suas paixões políticas. E lemos pérolas do tipo: “A América, presa pela superstição da democracia, não se decide a ser um império” !!!!????

Já o desagradável Utopia de um homem que está cansado, que irrita desde o título (se ele estava tão cansado, por que não se matou de uma vez?), narra uma visita de Borges ao futuro, o qual se apresenta árido, povoado por homens tão enfadados quanto ele próprio e que vivem uma espécie de nirvana auto-complacente, com direito a um elogio do suicídio. O tom é blasé, permitindo-se até uma brincadeira  leviana com o holocausto: “É o crematório… dentro, está a câmara letã. Dizem que foi inventada por um filantropo cujo nome, creio, era Adolf Hitler”!!!???

Nesses passos em falso do mais importante autor da segunda metade do século XX, sentimos que ele está retocando a imagem que esculpiu para a mídia, a sua personalidade-clichê. Mas seis outros textos é que compensam a leitura de O LIVRO DE AREIA: 1) o conto-título, no qual se imagina um livro monstruoso porque infinito e irrepetível; 2) O Congresso, talvez o ponto alto da coletânea, no qual uma confraria torna-se tão abrangente que se confunde com o universo, tal como já acontecera com a loteria da Babilônia, ou tal como a memória de Funes, que anulava-se por não ser seletiva, por se confundir com a experiência; 3) O espelho e a máscara e 4) Undr, dois relatos que se passam em países remotos e lendários, onde o universo  é reduzido a uma única palavra (que pode ser qualquer uma), e que trazem a marca do melhor Borges; 5) A noite dos dons (meu favorito pessoal) e 6) Avelino Arredondo, que se acrescentam a uma das vertentes mais férteis do grande escritor argentino, o uso da história e da mitologia dos pampas e da banda oriental (Avelino, por exemplo, é o uruguaio que assassina o presidente Idiarte Borda, em 25 de agosto de 1897).

Sendo uma das melhores obras da fase final de Borges, O LIVRO DA AREIA funciona tanto para o leitor que se inicia na sua leitura, servindo como ótima introdução, como também para o leitor já aficionado, que pode apreciá-lo (às vezes, não) no exercício de sua maestria, depois de passar pelos desafios das suas criações supremas, Ficções & O Aleph, diante das quais (e do seu autor) a reação coincide com a experimentada pelo protagonista no final da lovecraftiana There are more things: “Como seria o habitante? Que podia buscar neste planeta, não menos atroz para ele do que para  nós? De que secretas regiões da astronomia ou do tempo, de que antigo e agora incalculável crepúsculo haveria alcançado este arrabalde e esta precisa noite? (…) Meus pés tocaram o penúltimo lance da escada, quando senti que algo subia pela rampa, opressivo e lento e plural. A curiosidade pôde mais do que o medo e não fechei os olhos.”

20/04/2012

Maggie Tulliver e Isabel Archer: o mundo é um moinho

Resenha publicada originalmente em  A TRIBUNA de Santos, em 19 de outubro  de 1993

Com a nova tradução de O moinho sobre o rio (The mill on the floss), de George Eliot, a tradutora Gilda Stuart e o Círculo do Livro continuam, após Retrato de uma senhora, de Henry James (ver texto abaixo), a publicação de clássicos indispensáveis.

No movimento desse moinho há águas bem mais profundas que as do mero enredo, embora ele nos envolva mostrando a engrenagem capitalista moendo as pequenas estruturas sociais do interior da Inglaterra pré-vitoriana. O romance trata de duas ruínas, a da família Tulliver e a do mundo interior de Maggie Tulliver, a protagonista, quase a ilustração da linda canção de Cartola, O mundo é um moinho: “Ouça-me bem, amor/ presta atenção, o mundo é um moinho/vai triturar teus sonhos tão mesquinhos/vai rduzir as ilusões a pó”…

O pai de Maggie, proprietário de um moinho, perde tudo para o advogado Wakem e tem de trabalhar como empregado na sua ex-propriedade para não se afastar das terras onde nasceu; Tom, o filho, vira uma máquina de trabalho para saldar as dívidas do pai, limpando o nome da família e, a longo prazo, para vingar-se de Wakem; a pouco cinvencional Maggie se envolve com o filho corcunda de Wakem, Philip. Mesmo com a morte do pai, a autoridade do irmão, a quem ela venera desde a infância (numa relação particularmente masoquista), impede o relacionamento que também será complicado por outros fatores e eventos…

Publicado em 1860, a trama de O moinho sobre o rio se ressente um pouco das convenções da época. Daí o feitio melodramático (a la Dickens), o sentimentalismo, os golpes do destino (literário), e sobretudo Philip Wakem, que parece ter saído da pior ficção romântica: deformado e sensível, isto é, reunindo em si o grotesco e o sublime, é um páreo duro para o marido desfigurado e manco de Angélica, a marquesa dos anjos da divertidíssima série francesa.

Por outro lado, se Flaubert—ao mostrar com objetividade a tacanha vida provinciana em Madame Bovary (1857)—“chapou” tudo pela mediocridade e imobilismo, Mary Ann Evans (o verdadeiro nome de Eliot), além do senso da natureza, da ligação com a terra, conseguiu captar com precisão o momento histórico em que as formas de vida tradicional são solapadas pelo moderno capitalismo, mergulhando o leitor nessa mentalidade moribunda e já arcaica, com personagens como as tias de Maggie, as quais praticamente roubam o livro, e ficam no mesmo nível das caracterizações provincianas do primeiro volume de Em busca do tempo perdido (Do lado Swann), de Marcel Proust, pois Eliot, visionariamente, antecipou alguns dos processos mais revolucionários e profundos da literatura modernista (e temos “vestígios” dela, além de Proust, nas obras de Lawrence e Virginia Woolf).

O seu prodigioso senso da passagem do tempo, das transformações microscópicas nas pessoas, é o mergulho inicial que desabrochará não só no projeto proustiano de recuperar o tempo perdido (e a lembrança de Proust ocorre muitas vezes também por conta do precioso detalhismo de O moinho sobre o rio), mas também em James, Conrad e Machado de Assis. E não seria machadiano o seguinte trecho: “… não é possível ser bom o tempo todo. A própria natureza aloja, de vez em quando, um parasita inconveniente num animal por quem não nutre qualquer má vontade. E aí Admiramos o cuidado dela pelo parasita…”?

Precedida por Jane Austen e pelas irmãs Brontë, George Eliot, dentro da grande tradição feminina da literatura inglesa, abriu caminho para as duas grandes autoras da atualidade, Doris Lessing e Iris Murdoch.

A MAIS IMPORTANTE TRADUÇÃO DO ANO

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 24 de agosto de 1993)

       Coube ao Círculo do Livro a mais importante tradução do ano: a de RETRATO DE UMA SENHORA (Portrait of a lady). Há tão poucas traduções de Henry James no Brasil que 1993 pode ser considerado uma festa para quem gosta de literatura: a Companhia das Letras lançou a coletânea A morte do leão e agora temos um de seus maiores romances, publicado em 1880-81 (porém, depois, muito modificado numa segunda versão).

O retrato de Isabel Archer, a moça americana que vai para a Europa, pertence à primeira fase da produção jamesiana, dedicada ao tema do cosmopolitismo, isto é, das relações entre americanos e europeus, e suas mútuas influências e desencontros.

Muitos escritores do século XIX (Tolstói, Flaubert, Ibsen, Machado, Eça) objetivaram mostrar como a mulher burguesa era tolhida pelas convenções. James enriquece a questão ao fazer com que Isabel herde (quase que gratuitamente) uma fortuna, a qual lhe daria a liberdade absoluta, sendo órfã, maior de idade, de espírito independente e inteligente.

Nem por isso deixa de embarcar num casamento frustrado: seu marido, Gilbert Osmond, parece odiá-la por não dominar seu espírito, mesmo mantendo-a numa teia de formalidades: “Ela podia reviver o incrédulo terror com que se dera conta da dimensão de sua morada. Entre aquelas quatro paredes, ela passara a viver desde então; iriam rodeá-la até o fim da vida. Era a casa das trevas, do mutismo, do sufocamento. A bela mente de Osmond não deixava entrar nela nem luz nem ar; a bela mente de Osmond, na verdade, parecia espiar por uma pequena janela lá do alto e zombar dela”.

Ao longo de RETRATO DE UMA SENHORA há uma asfixiante aparição de pretendentes, como se toda a vida da mulher fosse um estado de espera pelo “homem certo”. Apesar de toda a sua personalidade, Isabel faz esse jogo e se dá mal. É um aspecto apaixonante do livro, mas é pouco em se tratando de James. Interessa mais o vertiginoso aprofundamento psicológico, realizado num estilo filigranado de metáforas, e através dos mais extraordinários diálogos da história da literatura.

E as personagens, então?  Se as masculinas já são marcantes (Osmond; Ralph, o primo e responsável por Isabel ter herdado uma fortuna; os pretendentes preteridos, Lord Warburton e Caspar Goodwood), as femininas dominam o romance e são de uma qualidade que faria com que as maiores atrizes se estapeassem para interpretá-las. Quantas, no entanto, seriam capazes de dar conta das infinitas nuances de Madame Merle, a admirável intrigante que empurra Isabel para o casamento e quase destrói sua vida?

E as descrições dos lugares, então? O leitor parece sentir os cheiros e sensações de uma estadia na Inglaterra, em Florença ou em Roma, onde Isabel vai viver com o odioso marido.

E as cenas, então? Como deixar de falar da cena em que Isabel surpreende por acaso o elo entre Madame Merle e o marido e passa a suspeitar a possibilidade de que seu casamento tenha sido uma armação? E o momento de pura perfídia que é a cena das revelações da Condessa Gemini, irmã de Osmond? E…  leitor, o que você está fazendo, aí sentado lendo esta resenha, quando deveria já ter saído atrás do livro do ano?

02/04/2012

três comentários sobre REI LEAR

rei-lear-iiirei-lear-irei-lear-ii   

 O leitor brasileiro encontra diversas traduções de Rei Lear ao seu dispor. Neste comentário, o destaque ficará com a de Aíla de Oliveira Gomes não só por sua qualidade como também por ser apresentada numa edição bilíngüe. Ainda assim, é indispensável conhecer as versões de Millôr Fernandes (L&PM) e Bárbara Heliodora (Lacerda), entre as mais modernas. Há ainda versões mais antigas e tradicionais: a de Carlos Alberto Nunes (Ediouro) e a (em prosa) de Oscar Mendes e F.C. de Almeida Cunha Medeiros (Aguilar). Cinematograficamente, apesar da notável e austera versão de Peter Brook,  sempre vem à mente de imediato a transposição da trama para o Japão feita por Kurosawa no avassalador Ran, talvez o maior filme do último quarto do século XX.

    “Thou should’st not have been old till thou hadst been wise/ Não devias ter ficado velho antes de teres ficado sábio” diz o Bobo a Lear no final do primeiro ato quando este começa a perceber que foi ludibriado pela bajulação de duas de suas três filhas, Goneril e  Regan, no momento de sua prematura decisão de antecipar a herança delas e dividir o seu reino, quando também escorraçou e deserdou Cordélia, a única filha a se recusar a tal mistificação. A verdade, porém, é que Lear está tão imbuído de sua grandeza e tão auto-iludido que é fácil enganá-lo. Terá de passar por um duro aprendizado antes de reencontrar (no quarto ato) sua filha pródiga e mesmo assim será uma curta redenção.

    Assim como a história de Laertes reflete a de Hamlet (ambos procuram vingança pelo assassinato do respectivo pai e, em certa medida fracassam e se mostram aquém da tarefa), a tragédia de Lear também tem um espelho: o destino do cortesão Gloster (no original, Gloucester), enganado pelo filho bastardo, Edmund (um dos inesquecíveis criminosos shakesperianos, na linha de Iago e Macbeth) e que passa a perseguir o filho legítimo, Edgar, o qual tem de se disfarçar como mendigo (uma degradação que espelha a de Lear, quando este ficar vagando como um velho louco): Tom, o Maluco, pobre Tom (Poor Turlygod! Poor Tom! That’s something yet; Edgar I nothing am”: “Ser Tom é algo; ser Edgar é nada.”).

    Gloster será torturado numa cena tenebrosa, onde Regan e o marido lhe arrancam os olhos, incitados por Edmund, quando  começam a conspirar para obter o poder (e o bastardo, que dá o mote da trama –“The younger rises when the old doth fall”: “Caiam os velhos, que os jovens vão crescer” ainda colocará irmã contra irmã ao seduzir ambas). Cego, enxergará a verdade: “Ó Edgar, filho meu querido, que foste objeto das iras de teu iludido pai; se eu vivesse p’ra ver-te pelo tato, era como ter olhos outra vez e será conduzido, sem saber,  pelo filho disfarçado de louco, dando ensejo à famosa máxima: “É a maldição dos tempos quando é o demente que conduz o cego”. Pois Rei Lear, mostrando esse apocalíptico desencontro de gerações, alude constantemente a um crepúsculo da humanidade, um momento em que tudo é virado do avesso e o mundo é this great stage of fools”: “este grande palco de loucos“.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 19 de março de 2005)

shakespeare

“Gloucester: E quem és, meu senhor ?

Edgar: Um homem muito pobre, tornado submisso aos golpes do destino: que por artes de dores vividas e sofridas se tornou sensível à compaixão.” (Ato IV, cena VI)

Continuando o comentário a respeito de Rei Lear nada mais natural do que abordar a maneira poderosa com que Shakespeare mostra o aprendizado pelo sofrimento dos seus dois personagens centrais (Lear e Edgar), seguindo um dos fundamentos da mentalidade cristã.

    O trecho citado acima é  da tradução de Millôr Fernandes. A de Aíla de Oliveira Gomes (utilizada na seção anterior) é ótima, poética, porém um tanto “dura”. Millôr consegue um milagre de maleabilidade e precisão, sem sacrificar os efeitos do texto na maior parte das vezes, apesar de parecer não ter dado muito atenção à tensão estabelecida no uso alternado da prosa e do verso pelos personagens. É uma versão para os palcos e, sem desmerecer nenhuma das outras cinco que eu li (embora pairem  dúvidas sobre a de Pietro Nassetti, pela Martin Claret), fará muito bem quem entrar em contato com ela primeiramente.

    Pois bem, Edgar é o personagem mais visivelmente cristão de Rei Lear, e não é a toa que ele “herda” o reino no final (como um dos poucos sobreviventes da trama), contrastado com Lear, cuja autoridade se associa de forma pagã à própria natureza mesmo quando despojado do seu poder (na cena da tempestade parece que é ele quem a está convocando).

    Perseguido  e privado de sua herança e de seus direitos de homem nobre pelo pai (Gloucester), o qual se deixou enganar pelas intrigas do filho bastardo (Edmund), Edgar só começa a crescer como personagem quando resolve assumir a mais humilde e humilhada condição: disfarça-se como o Pobre Tom, o mendigo louco com quem um escorraçado (pelas filhas em favor das quais antecipou sua herança e partilha do reino) Lear compartilhará a noite da tempestade, percebendo todos os erros da Pompa  e da Vaidade e dando início à sua insânia curativa: “O homem é apenas isto ? Observem-no bem. Não deve a seda ao verme, a pele ao animal, a lã à ovelha, nem seu odor ao almiscareiro. Ah! Aqui estamos nós, tão adulterados. Tu não, tu és a própria coisa. O homem, sem os artifícios da civilização, é só um pobre animal, como tu, nu e bifurcado.”   Portanto, Tom vem como um emissário dos miseráveis e só emergirá como vencedor e triunfador (de forma muito relativa, devido à desoladora seqüência de mortes do quinto ato), resgatando sua condição, usurpada pelo meio-irmão, só depois de um exercício de despojamento e desnudamento, que também será de fortalecimento.

    Talvez nada mais nessa peça inexcedível seja tão emocionante quanto a dedicação com que ele guiará seu pai (a quem arrancaram os olhos), sem se dar a conhecer, sempre bancando o mendigo e o louco. Shakespeare  descarta qualquer pieguice ao fazer com que a cena de reconciliação entre ambos seja narrada e não presenciada pelo leitor/espectador.

    Também um traço cristão, e bastante incômodo, é a condenação da sexualidade que se põe na boca tanto de Edgar quanto do Bobo e de Lear, e que está no âmago da própria trama da peça (cujo início é a discussão, entre Gloucester e Kent, da bastardia de Edmund), já que tudo acontece em razão do adultério e o vilão se proclama “filho da natureza”. Lear diz que suas mãos cheiram a mortalidade” porque na parte de baixo do ser humano é tudo uso do demônio. Ali está o inferno, a treva, o poço sulfuroso- queimando, ardendo, fedendo, consumindo. Que asco! Asco!”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 26 de março de 2005)

 

 shakespeare-ii

Seria impossível finalizar o comentário sobre  Rei Lear sem aproveitar para, tardiamente, é verdade, fazer justiça ao esforço de anos (e ainda um “work in progress”) da nossa mais famosa crítica teatral, Barbara Heliodora, de apresentar versões íntegras, precisas e modernas de todas as obras de Shakespeare, seguindo os passos de Carlos Alberto Nunes e da dupla Oscar Mendes/Cunha Medeiros.

    Na verdade, sua tradução de Rei Lear não chega a ser tão primorosa como a de Aíla de Oliveira Gomes  nem tão brilhante e dinâmica quanto a de Millôr Fernandes, mesmo assim é eficaz e útil.

    Aliás, Barbara Heliodora tem sido sempre útil ao leitor brasileiro do autor de Hamlet, e não apenas por seu trabalho como tradutora. No livro Falando de Shakespeare encontramos um indispensável ensaio sobre Rei Lear, no qual vemos como o título da peça expressa um ponto fundamental, já que a abdicação de Lear, nos moldes em que é feita (abdica mas continua rei), é inadmissível cosmologicamente: “antes dos tempos modernos da monarquia constitucional, o rei reinava e governava, e ninguém poderia reter o título sem desempenhar plenamente as funções a ele ligadas. Em Rei Lear, após a abdicação, no vácuo deixado pelo rei, uma constelação de forças passa a ter brilho muito maior do que poderia acontecer se o monarca cumprisse adequadamente sua função de sol: ele deveria ser não só o astro mais brilhante do sistema, mas também a fonte da força de gravitação que o mantém em funcionamento harmônico (…) mesmo que o mal não esteja nele, ele é responsável pela tragédia, na medida em que, abdicando, deixa, como rei, de represar e manter sob controle o mal que, privado da ordem natural do Estado, aflora, explode, expande-se”.

    Daí a atmosfera de “mundo virado pelo avesso” (que assume proporções bem mais catastróficas do que imaginava Gloucester ao dizer para Edmund: “Embora conhecimento da natureza possa dar estas ou aquelas causas racionais, mesmo assim a natureza se vê açoitada pelas conseqüências: o amo esfria, os amigos brigam, os irmãos se separam. Nas cidades, motins; nos países, discórdias; nos palácios, traições; e quebradas as ligações entre o filho e o pai. Esse meu vilão se enquadra nessas previsões: é um filho contra o pai; o Rei se afasta do caminho da natureza: é um pai contra filha. Já vivemos o melhor de nosso tempo. Maquinações, fraqueza interior, traição, toda espécie de desordens nos levam inquietos para a cova”) e a sensação, conforme avança a ação e todas as personagens convergem para o campo de batalha, de que chegamos aos confins do universo, em Rei Lear. Kurosawa captou isso com a imagem final fortíssima e eloqüente do cego à beira do precipício, em Ran, sua adaptação da peça.

    E a grande ironia da peça é que a pergunta de Lear às filhas , logo no início, Qual das três vai dizer que mais nos ama”, que causa a ruptura entre ele e Cordélia, será respondida amplamente por ela no final, quando numa dessas situações de inversão, o pai vira filho, o velho vira criança o que dá ensejo a um trecho lindo e patético quanto este (ambos foram capturados por Edmund): “Não, não, não, não; vamos para a prisão / Pra cantar, como aves em gaiolas; / Quando pedires bênção, me ajoelho / E peço o teu perdão; vamos viver / Orar, cantar, contar histórias, rir  / Das borboletas douradas, e ouvir / Novas da Corte; e saber dos tolos / Quem perde ou ganha, quem ‘stá dentro ou fora ; / E observar o mistério das coisas / Quais espias de Deus; sobrevivendo / Na prisão a partidos e importâncias / Que variam com a lua.”

 

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 02 de abril de 2005)  

 

 

 shakespeare-iii

 

                                                                                                                         

 VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2010/12/03/a-mulher-negra-o-homem-dourado-e-o-malabarista-de-palavras/

https://armonte.wordpress.com/2010/08/10/o-bloomshakespeare/

https://armonte.wordpress.com/2010/12/04/hamlet-generico/

https://armonte.wordpress.com/2011/04/17/os-personagens-de-shakespeare-em-quatro-atos-longos-e-um-quinto-ato-curto/

https://armonte.wordpress.com/2010/12/05/o-contexto-de-shakespeare-sob-o-signo-da-peste/

 

     

 
 

05/02/2012

WISLAWA SZYMBORSKA (1923-2012)

Filed under: Homenagens,traduções — alfredomonte @ 12:04
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  A morte de Wislawa Szymborska nada tem de triste ou terrível, decerto. Uma senhora que “morreu tranquilamente, enquanto dormia“,  na sua casa (em Cracóvia) aos 88 anos (completaria 89 em dois de julho), apesar do câncer do pulmão, viveu uma longa  vida. E nesse caso específico uma longa vida no sentido da sabedoria poética, da consolidação em fórmulas líricas das percepções mais sagazes, lúcidas e pertinentes.

   Mesmo assim, sempre há um rastro melancólico, Para mim, porque faz pouco tempo que “descobri” a poesia de madame Szymborska (foi exatamente em outubro do ano passado).

   Minha queridíssima amiga (também grande escritora) Maria Valéria Rezende escreveu-me, afirmando  que eu “inoculei o veneno” da admiração por Zymborska nela. E me deu um grande presente: uma antologia de versões em várias línguas, que ela mesmo preparou.

    Para começar, vou transcrever algumas versões dos poemas que eu já tinha apontado como notáveis na minha resenha sobre o livro Poemas, a seleção feita por Regina Przybycien, e na minha pequena antologia de um poema para cada dia da semana da grande poeta polonesa. Há versões em francês, italiano, espanhol e inglês, e versões diferentes em português,  embora infelizmente nem sempre indicação do responsável pela versão, o que contraria meu costume aqui no blog, mas o que se há de fazer?, nem sempre é possível ser rigoroso.

UN CHAT DANS UN APPARTEMENT VIDE

 

Mourir. Il ne faut pas faire cela à un chat.

 que peut-il faire

Dans un appartement vide ?
 Grimper aux murs 
 se frotter contre les meubles?
 Apparement rien n’a changé 
 et pourtant rien n’est pareil.

 rien n’a été déplacé
 et pourtant rien n’est en place.

 et le soir pas de lampe allumée.

 un bruit de pas dans l’escalier
 mais ce n’est pas le bon.

 une main

Met le poisson dans l’assiette
 mais ce n’est pas la bonne. 
 Quelque chose ne commence pas 
 à l’heure habituelle,
 quelque chose ne se passe pas
 comme cela devrait.

 quelqu’un était là depuis toujours
 et soudain n’est plus
 s’obstinant à rester disparu. 
 On a fureté dans les armoires
 fouillé les étagères
 on s’est faufilé sous le tapis

Pour vérifier.

 on a même bravé l’interdit

En allant au bureau
 et en mettant les papiers en désordre  
 que faire maintenant ?
 Dormir et attendre.

 attendre qu’il revienne  s’il ose!
 Et lui faire savoir

Qu’on ne fait pas ça à un chat. 
 On avancera vers lui
 l’air détaché un peu hautain
 en faisant semblant de ne pas le voir.

 on marchera très lentement
 la patte boudeuse
 et surtout pas un bond

Pas un ronron, 
 du moins au début

  UN GATO EN UN PISO VACÍO


MORIR, ESO A UN GATO NO SE LE HACE.

PORQUE, ¿QUE PUEDE HACER UN GATO
EN UN PISO VACÍO?
SUBIRSE POR LAS PAREDES.

RESTREGARSE CONTRA LOS MUEBLES.

NADA AQUÍ HA CAMBIADO,
PERO NADA ES COMO ANTES.

NADA HA CAMBIADO DE SITIO,
PERO NADA ESTÁ EN SU SITIO.

Y LA LUZ SIGUE APAGADA AL ANOCHECER.

SE OYEN PASOS EN LA ESCALERA,
PERO NO LOS ESPERADOS.

UNA MANO DEJA PESCADO EN EL PLATO
Y NO ES, TAMPOCO, LA DE ANTES.

ALGO NO EMPIEZA
A LA HORA DE SIEMPRE.

ALGO NO SUCEDE
SEGÚN LO ESTABLECIDO.

ALGUIEN ESTABA AQUÍ, ESTABA SIEMPRE,
Y DE REPENTE DESAPARECIÓ
Y SE EMPEÑA EN NO ESTAR.

SE HA BUSCADO YA EN LOS ARMARIOS,
SE HAN RECORRIDO LOS ESTANTES.

SE HA COMPROBADO BAJO LA ALFOMBRA.

INCLUSO SE HA ROTO LA VEDA
DE ESPARCIR PAPELES.

¿QUÉ MÁS SE PUEDE HACER?
DORMIR Y ESPERAR.

¡AY, CUANDO ÉL REGRESE,
AY, CUANDO APAREZCA!
SE ENTERARÁ DE QUE ESTAS NO SON MANERAS
DE TRATAR A UN GATO.

COMO QUIEN NO QUIERE LA COSA,
HABRÁ QUE ACERCÁRSELE,
DESPACITO,
SOBRE UNAS PATITAS, MUY, MUY OFENDIDAS.

Y, DE ENTRADA,  NADA DE BRINCOS NI MAULLIDOS

IL GATTO IN UN APPARTAMENTO VUOTO

 

Morire . Questo a un gatto non si fa.

Perché cosa può fare il gatto

In un appartamento vuoto?
Arrampicarsi sulle pareti
strofinarsi contro i mobili?
Qui niente sembra cambiato
eppure tutto è mutato
niente sembra spostato
eppure tutto è fuori posto
la sera la lampada non è più accesa
si sentono passi sulle scale
ma non sono quelli
anche la mano

Che mette il pesce nel piattino
non è quella di prima. 
Qualcosa non comincia
alla sua solita ora
qualcosa non accade
come dovrebbe
qui c’era sempre qualcuno. Sempre.

E poi d’un tratto è scomparso
e si ostina a non esserci
in ogni armadio si è guardato
si è cercato sulle mensole
e infilati sotto il tappeto

Ma non ha portato a niente
si è  persino infranto il divieto

Di  entrare nell’ufficio

E si sono sparse carte dappertutto.

Cos’altro si può fare
aspettare e dormire 
che provi solo a tornare
che si faccia vedere se osa !
Deve imparare che

Questo non si fa a un gatto.

Gli si andrà incontro

Con aria distaccata

Un po’ altezzosi

Come se non lo si vedesse

 camminando  lentamente
sulle zampe molto offese
e soprattutto

Non un salto nè un miagolio.

Almeno non subito.

 CAT IN AN EMPTY APARTMENT

TRAD. 01
Die – you can’t do that to a cat.

Since what can a cat do
in an empty apartment?
Climb the walls?
Rub up against the furniture ?
Nothing seems different here,
but nothing is the same.

Nothing has been moved,
but there’s more space.

And at nighttime no lamps are lit.

Footsteps on the staircase,
but they’re new ones.

The hand that puts fish on the saucer
has changed, too.

Something doesn’t start
at its usual time.

Something doesn’t happen
as it should.

Someone was always, always here,
then suddenly disappeared
and stubbornly stays disappeared.

  

Every closet has been examined.

Every shelf has been explored.

Excavations under the carpet turned up nothing.

A commandment was even broken,
papers scattered everywhere.

What remains to be done.

Just sleep and wait.

Just wait till he turns up,
just let him show his face.

Will he ever get a lesson
on what not to do to a cat.

Sidle toward him
as if unwilling
and ever so slow
on visibly offended paws,
and no leaps or squeals at least to start.

Cat in an empty apartment

TRAD 02

Dying–you wouldn’t do that to a cat.

For what is a cat to do

in an empty apartment?

Climb up the walls?

Brush up against the furniture?

Nothing here seems changed,

and yet something has changed.

Nothing has been moved,

and yet there’s more room.

And in the evenings the lamp is not on.

 

One hears footsteps on the stairs,

but they’re not the same.

Neither is the hand

that puts a fish on the plate.

 

Something here isn’t starting

at its usual time.

Something here isn’t happening

as it should.

Somebody has been here and has been,

and then has suddenly disappeared

and now is stubbornly absent.

 

All the closets have been scanned

and all the shelves run through.

Slipping under the carpet and checking came to nothing.

The rule has even been broken and all the papers scattered.

What else is there to do?

Sleep and wait.

 

Just let him come back,

let him show up.

Then he’ll find out

that you don’t do that to a cat.

Going toward him

faking reluctance,

slowly,

on very offended paws.

And no jumping, purring at first.

 

 

Museu

 Há pratos, mas falta apetite
Há alianças, mas falta reciprocidade
pelo menos desde há 300 anos.
Há o leque – onde os rubores?
Há espadas – onde há ira?
E o alaúde nem tange à hora gris.
Por falta de eternidade juntaram
Dez mil coisas velhas.
Um guarda musgoso cochila docemente,
com os bigodes caindo sobre a vitrine.
Metais, barro, plumas de ave
Triunfam silenciosamente no tempo.
Apenas um alfinete da galhofeira do Egito ri zombeteiro.
A coroa deixou passar a cabeça.
A mão perdeu a luva.
A bota direita prevaleceu sobre a perna.
Quanto a mim, vivo, acreditem por favor.
Minha corrida com o vestido continua
E que resistência tem ele!
E como ele gostaria de sobreviver!

 In Quatro poetas poloneses. Organização e tradução Henrik Siewierski e José Santiago – edição da Secretaria de Cultura do Paraná, 1995.

 

    

  Quarto do suicida 

 

Vocês devem achar, sem dúvida, que o quarto esteve vazio.
Mas lá havia três cadeiras de encosto firmes.
Uma boa lâmpada para afastar a escuridão.
Uma mesa, sobre a mesa uma carteira, jornais.
Buda sereno, Jesus doloroso,
sete elefantes para boa sorte, e na gaveta – um caderno.
Vocês acham que nele não estavam nossos endereços?

 

Acham que faltavam livros, quadros ou discos?
Mas da parede sorria Saskia com sua flor cordial,
Alegria, a faísca dos deuses,
a corneta consolatória nas mãos negras.
Na estante, Ulisses repousando
depois dos esforços do Canto Cinco.
Os rnoralistas,
seus nomes em letras douradas
nas lindas lombadas de couro.
Os políticos ao lado, muito retos. 

 

 E  não era sem saída este quarto,
aos menos pela porta,
nem sem vista, ao menos pela janela.
Binóculos de longo alcance no parapeito.
Uma mosca zumbindo – ou seja, ainda viva. 

 

 Acham então que talvez uma carta explicava algo.
Mas se eu disser que não havia carta nenhuma –
éramos tantos, os amigos, e todos coubemos
dentro de um envelope vazio encostado num copo.

 

Tradução: Ana Cristina Cesar em colaboração com a polonesa Grazyna Drabik.

 

  

 

La habitación del suicida

 

 

 

Seguramente crees que la habitación estaba vacía.

 

Pues no. Había tres sillas bien firmes.

 

Una lámpara buena contra la oscuridad.

 

Un escritorio, en el escritorio una cartera, periódicos.

 

Un buda despreocupado. Un cristo pensativo.

 

Siete elefantes para la buena suerte y en el cajón una agenda.

 

¿Crees que no estaban en ella nuestras direcciones?

 

 

 

Seguramente crees que no había libros, cuadros ni discos.

 

Pues sí. Había una reanimante trompeta en unas manos negras.

 

Saskia con una flor cordial.

 

Alegría, divina chispa.

 

Odiseo sobre el estante durmiendo un sueño reparador

 

tras las fatigas del canto quinto.

 

Moralistas,

 

apellidos estampados con sílabas doradas

 

sobre lomos bellamente curtidos.

 

Los políticos justo al lado se mantenían erguidos.

 

 

 

No parecía que de esta habitación no hubiera salida,

 

al menos por la puerta,

 

o que no tuviera alguna perspectiva, al menos desde la ventana.

 

 

 

Las gafas para ver a lo lejos estaban en el alféizar.

 

Zumbaba una mosca, o sea que aún vivía.

 

 

 

Seguramente crees que cuando menos la carta algo aclaraba.

 

Y si yo te dijera que no había ninguna carta.

 

Tantos de nosotros, amigos, y todos cupimos

 

en un sobre vacío apoyado en un vaso. 

 

 

 

 

 le tre parole più strane

 

 quando pronuncio la parola  f u t u r o

 

la prima sillaba già va nel passato.

 

quando pronuncio la parola  s i l e n z i o

 

lo annullo.

 

quando pronuncio la parola  n i e n t e

 

creo qualcosa che non entra in alcun nulla.

 

discorso ufficio oggetti smarriti – adelphi

 

 

As três palavras mais estranhas

 

Quando pronuncio a palavra Futuro
a primeira sílaba já pertence ao passado.

 

Quando pronuncio a palavra Silêncio,
destruo-o.

 

Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não-ser.

 

Tradução: Elżbieta Milewska e Sérgio das Neves 

 

de Alguns gostam de poesia- Antologia- Czeslaw Milosz e Wislawa Szymbroska, Cavalo de Ferro, 2004

 

     

 

Las tres palabras más extrañas

 

 

 

Cuando pronuncio la palabra Futuro,

 

la primera sílaba pertenece ya al pasado.

 

Cuando pronuncio la palabra Silencio,

 

lo destruyo.

 

Cuando pronuncio la palabra Nada,

 

creo algo que no cabe en ninguna no-existencia.

 

 

 

Versión de Abel A. Murcia

 

 

 

 

 

 

Opinión sobre la pornografía

 

 

 

No hay mayor lujuria que el pensar.

 

Se propaga este escarceo como la mala hierba

 

en el surco preparado para las margaritas.

 

 

 

No hay nada sagrado para aquellos que piensan.

 

Es insolente llamar a las cosas por su nombre,

 

los viciosos análisis, las síntesis lascivas,

 

la persecución salvaje y perversa de un hecho desnudo,

 

el manoseo obsceno de delicados temas,

 

los roces al expresar opiniones; música celestial en sus oídos.

 

 

 

A plena luz del día o al amparo de la noche

 

unen en parejas, triángulos y círculos.

 

Aquí cualquiera puede ser el sexo y la edad de los que juegan.

 

Les brillan los ojos, les arden las mejillas.

 

El amigo corrompe al amigo.

 

Degeneradas hijas pervierten a su padre.

 

Un hermano chulea a su hermana menor.

 

 

 

Otros son los frutos que desean

 

del prohibido árbol del conocimiento,

 

y no las rosadas nalgas de las revistas ilustradas,

 

pornografía esa tan ingenua en el fondo.

 

Les divierten libros que no están ilustrados.

 

Sólo son más amenos por frases especiales

 

marcadas con la uña o con un lápiz.

 

De “Gente en el puente” 1986         

 

Versión de Abel A. Murcia

 

  

 

 

Tortures

 

 

 

Nothing has changed.

 

The body is susceptible to pain,
it must eat and breathe air and sleep,
it has thin skin and blood right underneath,
an adequate stock of teeth and nails,
its bones are breakable, its joints are stretchable.

 

In tortures all this is taken into account.

 

Nothing has changed.

 

The body shudders as it shuddered
before the founding of Rome and after,
in the twentieth century before and after Christ.

 

Tortures are as they were, it’s just the earth that’s grown smaller,
and whatever happens seems right on the other side of the wall.

 

Nothing has changed. It’s just that there are more people,
besides the old offenses new ones have appeared,
real, imaginary, temporary, and none,
but the howl with which the body responds to them,
was, is and ever will be a howl of innocence
according to the time-honored scale and tonality.

 

Nothing has changed. Maybe just the manners, ceremonies, dances.

 

Yet the movement of the hands in protecting the head is the same.

 

The body writhes, jerks and tries to pull away,
its legs give out, it falls, the knees fly up,
it turns blue, swells, salivates and bleeds.

 

Nothing has changed. Except for the course of boundaries,
the line of forests, coasts, deserts and glaciers.

 

Amid these landscapes traipses the soul,
disappears, comes back, draws nearer, moves away,
alien to itself, elusive, at times certain, at others uncertain of its own existence,
while the body is and is and is
and has no place of its own.

 

 

 

torture

 

 

 

Nulla è cambiato.

 

Il corpo è suscettibile al dolore

 

Deve mangiare respirare e dormire

 

Ha pelle sottile e subito sotto sangue

 

Ha una buona riserva di denti e di unghie

 

 

Deve mangiare respirare e dormire

 

Ha pelle sottile e subito sotto sangue

 

Ha una buona riserva di denti e di unghie

 

Ossa rompibili e giunture estensibili

 

Nelle torture  di tutto ciò si tiene conto.

 

Nulla è cambiato.

 

I! Corpo trema come tremava

 

Prima della fondazione di roma e dopo

 

Nel ventesimo secolo  prima e dopo cristo

 

Le torture sono così da sempre

 

 solo la terra è cresciuta di meno

 

E qualunque cosa accade

 

Sembra giusta dall’altra parte del muro.

 

Nulla è cambiato  c’è soltanto più gente

 

Oltre le vecchie offese  ne compaiono di nuove

 

Reali  immaginarie  temporanee e inesistenti

 

Ma il grido con cui il corpo  risponde loro

 

 era  è  e sarà un grido di innocenza

 

Secondo eterni registri e misure

 

Nulla è cambiato

 

Se non forse i modi  le cerimonie  le danze

 

Anche se !l gesto delle mani

 

Che proteggono il capo

 

È rimasto lo stesso.

 

Il corpo si torce  dimena e  divincola

 

 le gambe cedono  cade  le ginocchia in aria

 

Livido  gonfio  sbava e sanguina.

 

 nulla è cambiato tranne i confini

 

La linea dei boschi  litorali  deserti e ghiacciai.

 

Tra questi scenari l’anima (animula vagula blandula) vaga

 

Sparisce  ritorna  si fa più vicina  si allontana

 

Estranea a sè stessa  elusiva

 

Ora certa  ora incerta del proprio esistere

 

Mentre il corpo  c’è  e   c’è   e   c’è

 

E non ha un posto suo…

 

 

 

 

 

  

LA BREVE VITA DEI NOSTRI ANTENATI

 

 

 

Non arrivavano in molti fino a trent’anni.

 

La vecchiaia era un privilegio 
di alberi e pietre.

 

l’infanzia durava quanto 
quella dei cuccioli di lupo. 

 

Bisognava sbrigarsi

 

Fare in tempo a vivere
prima che tramontasse il sole,
prima che cadesse la neve.

 

Le genitrici tredicenni, 
i cercatori quattrenni di nidi

 

Fra i giunchi, 
i capicaccia ventenni-
un attimo prima non c’erano, 
già non ci sono più.

 

I capi dell’infinito si univano in fretta.

 

Le fattucchiere biascicavano esorcismi
con ancora tutti i denti della giovinezza. 

 

Il figlio si faceva uomo sotto 
gli occhi del padre.

 

Il nipote nasceva

 

Sotto l’occhiaia del nonno.

 

E del resto non si contavano gli anni. 

 

Contavano reti, pentole, capanni, asce. 
Il tempo, così prodigo 
con una qualsiasi stella del cielo, 
tendeva loro la mano quasi vuota, 
e la ritraeva in fretta, come dispiaciuto. 

 

Ancora un passo, ancora due
lungo il fiume scintillante,
che dall’oscurità nasce 
e nell’oscurità scompare. 

 

Non c’era un attimo da perdere, 
domande da rinviare
e illuminazioni tardive, 
se non le si erano avute per tempo.

 

La saggezza non poteva aspettare 
i capelli bianchi.

 

Doveva vedere con chiarezza, 
prima che fosse chiaro,
e udire ogni voce, prima che risuonasse.

 

Il bene e il male –
ne sapevano poco, ma tutto: 
quando il male trionfa, il bene si cela;
quando il bene si mostra, 
il male attende nascosto.

 

Nessuno dei due si può vincere 
o allontanare ad una distanza definitiva.

 

Ecco il perchè d’una gioia 
sempre tinta di terrore, 
d’una disperazione mai disgiunta 
da tacita speranza.

 

La vita, per quanto lunga, sarà sempre breve.

 

Troppo breve per aggiungere qualcosa.

 

 

 

  

The Turn of the Century

 It was supposed to be better than the others, our 20th century,

But it won’t have time to prove it.

Its years are numbered,

its step unsteady,

its breath short.

 

Already too much has happened

that was not supposed to happen.

What was to come about

has not.

 

Spring was to be on its way,

and happiness, among other things.

 

Fear was to leave the mountains and valleys.

The truth was supposed to finish before the lie.

Certain misfortunes

were never to happen again

such as war and hunger and so forth.

 

These were to be respected:

the defenselessness of the defenseless,

trust and the like.

 

Whoever wanted to enjoy the world

faces an impossible task.

 

Stupidity is not funny.

Wisdom isn’t jolly.

 

Hope

Is no longer the same young girl

et cetera. Alas.

 

God was at last to believe in man:

good and strong,

but good and strong

are still two different people.

 

How to live–someone asked me this in a letter,

someone I had wanted

to ask that very thing.

 

Again and as always,

and as seen above

there are no questions more urgent

than the naive ones.


 
 

21/12/2011

Destaque do Blog: SOBRE A REVOLUÇÃO

(resenha publicada, de uma forma ligeiramente mais condensada, sem a nota de rodapé e o anexo, em A TRIBUNA de Santos, em ’16 de agosto de 2011)

Já tendo atrás de si textos importantes (As origens do Totalitarismo, de 1951; A condição humana, de 1958, e Entre passado e futuro, de 1961), Hannah Arendt viveu em 1963 um momento especialmente fecundo publicando dois livros. O problema é que enquanto um, Eichmann em Jerusalém causou furor e polêmica, o outro, destinado a ser a sua obra-prima (trata-se, certamente, do seu trabalho mais vibrante, e só não é o melhor porque os títulos mencionados se ombreiam com ele), Sobre a revolução (On revolution), passou quase em branco e só foi ganhando  a sua reputação de clássico da reflexão política aos poucos (especialmente após a morte da autora, em 1975). Esperemos que a tradução notável de Denise Bottmann (ver ANEXO), uma das melhores de 2011, não sofra a mesma injustiça.

Em Sobre a revolução, Arendt procura rastrear a tradição revolucionária, com a premissa de que revolução é a instauração da liberdade, e não apenas libertação de um estado opressivo. Que fique bem claro, já que a agudíssima pensadora alemã gosta de definir bem as palavras: liberdade para ela é a participação no espaço público, no ato político[1], não aquela acepção de liberdade que gostamos de acalentar um tanto comodamente, de ausência de freios ou repressões. A revolução se tornou um “tesouro perdido” ao tentar garantir esse equívoco, confundindo libertação e liberdade.

Entre as duas grandes revoluções inaugurais, a Francesa (1789) e a Americana (que acarretou a independência dos EUA em 1776), ela—contrariamente ao estabelecido—dá mais valor à última, ainda que a primeira tenha sido a que estabeleceu o paradigma para a tradição revolucionária, cujo clímax será a ideologia marxista e a Revolução Russa (1917).

O fracasso da Revolução Francesa, pela ótica arendtiana, foi ter, muito cedo, deturpado seu rumo: ao invés de fundar uma forma de governo (a república) e estabelecer uma constituição, ela se deixou levar pelo apelo dos miseráveis, confundindo o futuro político com a questão social, indo na direção do estado do “bem estar”, que cabe mais à mera administração da coisa pública, e pervertendo a tarefa política da revolução, que é garantir o espaço público de liberdade para a participação do cidadão, não como uma vaga “opinião pública” ou mera  formulação de “direitos humanos”, como se a tarefa do estado fosse proteger a liberdade privada do cidadão contra ele mesmo (o poder constituído). Abriu-se um fosso entre governantes e governados e o antigo absolutismo real foi substituído pela idéia do estado-nação como um corpo único, representando “o povo”. O pior é que as ilações filosóficas de \Hegel a partir dos acontecimentos da França fizeram com que todo o pensamento da esquerda girasse em torno do conceito da necessidade, como se o processo histórico tivesse de passar irresistivelmente pelas mesmas etapas dialéticas, tanto que a Revolução Russa repetiu os desmandos e erros da Francesa.

Por outro lado, vindo de uma tradição colonial em que foram firmados pactos e promessas mútuas para a sobrevivência no novo continente, a Revolução Americana consolidou-se através do sistema federativo, a divisão entre os poderes e a promulgação de uma sólida Constituição, o que para Arendt representa um feito fabuloso e inédito na esfera política, embora algo igualmente tenha desandado pelo caminho: não obstante os cuidados dos Pais Fundadores (e ela nos faz admirar John Adams de uma maneira que  os cansativos capítulos de uma super-premiada minissérie que retrata sua vida sequer arranharam) em não confundir a instauração de uma verdadeira República com uma equivocada democracia (entendida  como a tirania da maioria): a representatividade, ou seja, o quociente de participação do cidadão (reduzido a mero votante) no espaço público, o verdadeiro exercício de sua liberdade, também ficou comprometido.

Assim como outra obra única que vai contra todo o senso comum e a divisão entre esquerda e direita, O homem revoltado (1951), de Albert Camus, Sobre a revolução, não fosse por mais nada, já seria obrigatório só por nos desincrustar dos blocos ideológicos habituais com que os acontecimentos foram olhados (com petrificados-petrificantes olhos de medusa) e interpretados ao longo destes últimos 200 anos. Nossas idéias de república, democracia, liberdade, representatividade, partidos e participação política são, todas elas, revolucionadas por um exercício de reflexão no mínimo originalíssimo e, no limite, transfigurador.


[1] A concepção de “espaço público” de Arendt, derivada da polis e da atividade política entre os gregos, é magnificamente desenvolvida em A condição humana.

      

                  ANEXO

A tradução de Fernando Dídimo Vieira (com revisão de Caio Navarro de Toledo), publicada em co-edição Ática/UNB, em 1990, é muito correta e funcional, como se pode ver pelos exemplos abaixo (e afinal serviu ao leitor brasileiro, sozinha por vinte anos)

. A meu ver, no entanto, a de Denise Bottmann (Companhia das Letras) é muito mais fluente, flexível e vívida, segue mais de perto a cadência do estilo e do pensamento de H.Arendt, e inclusive é mais atenta à sua peculiar pontuação, de alemã escrevendo em inglês.

Só há um trecho em que acho que a solução de Dídimo foi melhor: no final do primeiro capítulo (O significado da Revolução), no qual são comentados os erros desastrosos da Revolução Russa, Denise traduz da seguinte forma: “Foram enganados não porque as palavras de Danton e Vergniaud, de Robespierre e Saint-Just, e de todos os outros ainda ressoassem em seus ouvidos, foram enganados pela história, e se tornaram os bobos da história”; é o único caso em que dou preferência à solução de Dídimo: “Foram ludibriados, não em razão das palavras de Danton e Vergniaud, de Robespierre e Saint-Just, e de todos os outros que ainda soavam em seus ouvidos; foram ludibriados pela História e se tornaram os tolos da História”.

em negrito- tradução de Denise Bottmann

em itálico- tradução de Fernando Dídimo Vieira

Aqui, a dificuldade é que a revolução, tal como a conhecemos na era moderna, sempre esteve relacionada com a libertação e com a liberdade. E, como a libertação, cujos frutos são a ausência de restrição e a posse do “poder de locomoção”, é de fato uma condição da liberdade —ninguém jamais poderia chegar a um lugar onde impera a liberdade se não pudesse se locomover sem restrição —freqüentemente fica muito difícil dizer onde termina o simples desejo de libertação, de estar livre da opressão, e onde começa o desejo de liberdade como modo político de vida. O cerne da questão é que o primeiro, o desejo de estar livre da opressão, podia ser atendido sob um governo monárquico —mas não sob a tirania e muito menos sob o despotismo— ao passo que o segundo demandava a instauração de uma forma de governo que fosse nova, ou pelo menos, redescoberta ela exigia a constituição de uma república. Com efeito, não existe nada mais verdadeiro, mais claramente corroborado pelos fatos —que, infelizmente, têm sido totalmente negligenciados pelos historiadores das revoluções— do que a afirmativa de “que as disputas daquela época foram disputas de princípio, entre os defensores do governo republicano e os defensores do governo monárquico.”

O problema aqui é que a revolução, como a conhecemos na Idade Moderna, sempre esteve envolvida tanto com a libertação, como com a liberdade. E desde que a libertação, cujos frutos são a ausência de constrangimento e a posse da “faculdade de locomoção”, é, de fato, uma condição da liberdade —ninguém jamais seria capaz de chegar a um lugar em que impera a liberdade, se não pudesse se locomover sem restrições— torna-se amiúde muito difícil dizer onde termina o mero desejo de libertação, de ser livre de opressão, e onde começa o desejo de liberdade como opção política de vida. O ponto em questão é que, enquanto o primeiro, o desejo de ser livro da opressão, poderia ser realizado sob regime monárquico —embora não o fosse sob um poder tirânico, e muito menos despótico— o último necessitava da formação de uma nova, ou antes, redescoberta forma de governo, exigia a constituição de uma república. Nada, certamente, é mais verdadeiro e mais corroborado pelos fatos —os quais, infelizmente, têm sido negligenciados pelos historiadores das revoluções— do que a afirmação “de que as disputas daquela época eram disputas de princípio entre os defensores de um governo republicano e os de um regime monárquico”.

[…] essa segunda parte da tarefa da revolução, encontrar um novo absoluto para substituir o absoluto do poder divino, é insolúvel porque o poder sob a condição da pluralidade humana nunca pode chegar à onipotência, e as leis baseada no poder humano nunca podem ser absolutas.

{…} essa última parte da tarefa da revolução —encontrar um novo absoluto para substituir o absoluto do poder divino— é insolúvel, pois o poder, sob condição da pluralidade humana, nunca pode atingir a onipotência,  e leis que se baseiam no poder humano nunca podem ser absolutas.

Se  a libertação da pobreza  e a felicidade do povo eram os verdadeiros e únicos objetivos da revolução, então a tirada jocosa e blasfema de Saint Just: “Nada se assemelha tanto à virtude  quanto um grande crime” não passava de um comentário trivial, pois o que de fato se seguia era que tudo devia ser “permitido aos que atuam na direção revolucionária”.

   Seria difícil encontrar em toda a oratória revolucionária uma frase mais exata sobre as questões compartilhadas pelos fundadores e pelos libertadores, os homens da Revolução Americana e os homens da França. O rumo da Revolução Americana continuava comprometido com a fundação da liberdade e o estabelecimento de instituições duradouras, e aos que atuavam nessa direção não era permitido nada que estivesse fora do escopo do direito civil. O rumo da Revolução Francesa, quase desde o início, foi desviado desse curso de fundação pela imediaticidade do sofrimento; ele foi determinado pelas exigências de libertação não da tirania, e sim da necessidade…

Se a felicidade do povo e a libertação da pobreza eram as verdadeiras e exclusivas metas  da revolução, então a observação imaturamente blasfema de Saint-Just, de que “nada se assemelha mais à virtude do que um grande pecado”, seria algo de corriqueiro, pois que a ela se seguiria, de fato, que tudo deve ser “permitido aos que agem na direção da revolução”.

   Seria difícil encontrar, em todo o conjunto da oratória revolucionária, uma frase que apontasse, com maior precisão, quais os temas sobre os quais os fundadores e os libertadores, isto é, os homens da Revolução Americana e os homens da França, estivessem em dissensão. A direção da Revolução Americana permaneceu comprometida com a implantação da liberdade e o estabelecimento de instituições duradouras, e, àqueles que atuavam nessa direção, nada era permitido que estivesse fora do âmbito da lei civil. O rumo da Revolução Francesa foi desviado desse curso original, quase desde o início, pela urgência do sofrimento; isso foi ocasionado pelas exigências da libertação, não da tirania, mas da necessidade…

Como não existiam sofrimentos ao redor capazes de lhes despertar as paixões, não existiam carências avassaladoramente prementes que os tentassem a se submeter à necessidade, e nenhuma piedade que os desviasse da razão, os homens da Revolução Americana se mantiveram homens de ação do começo ao fim, da Declaração de Independência à montagem da Constituição. Seu sólido realismo jamais foi submetido à prova da compaixão, seu bom senso nunca foi exposto à esperança absurda de que o homem, que o cristianismo dizia ser pecador e corrupto por natureza, ainda pudesse se revelar um anjo…

Já que não existia, em torno deles, nenhum sofrimento que pudesse ter despertado suas paixões, nem carências avassaladoramente prementes que os levassem a submeter-se à necessidade, nem piedade para desviá-los da razão, os homens da Revolução Americana permaneceram homens de ação do princípio ao fim, da Declaração de Independência à organização da Constituição. Seu sólido realismo nunca foi submetido à experiência da compaixão, seu senso comum nunca foi exposto à absurda esperança de que o homem, que o cristianismo tinha como pecador e corrupto por natureza, podia ainda revelar-se ser um anjo…

E o problema é que essa paixão pela liberdade pública ou política pode ser facilmente confundida com o profundo ódio aos senhores, talvez muito mais veemente, mas essencialmente estéril em termos políticos. Esse ódio, sem dúvida, é tão antigo quanto a história documentada, e provavelmente até anterior, mesmo assim ele nunca resultou em revolução, porque é incapaz sequer de captar, e quanto mais entender,  a idéia central da revolução, que é a fundação da liberdade, isto é, a fundação  de um corpo político que garante o espaço onde a liberdade pode aparecer…

E o problema é  que essa paixão pela liberdade pública ou política pode ser facilmente confundida com o ódio exaltado pelos senhores, um ódio provavelmente muito mais veemente, porém, em essência, politicamente estéril. Esse ódio, sem dúvida, é tão antigo como a História, e talvez ainda mais antigo; ele nunca resultou em revolução, por ser incapaz de ao menos vislumbrar, quanto mais compreender, a idéia central da revolução, que é a instituição da liberdade, ou seja, a criação de um corpo político que assegure o espaço onde a liberdade possa aparecer…

… o poder é ainda público e está nas mãos do governo, mas o indivíduo perdeu o poder e deve ser protegido contra ele. A liberdade, por sua vez, trocou de lugar; não reside mais na esfera pública, e sim na vida privada dos cidadãos, e por isso precisa ser defendida contra o público e s seu poder. A liberdade e o poder se afastam, e assim tem início a fatídica equiparação entre poder e violência, entre política e governo, entre governo e mal necessário.

…o poder ainda é público e está nas mãos do governo, porém agora o indivíduo se tornou impotente, e deve ser protegido contra esse governo. Por outro lado, a liberdade mudou de lugar, não mais reside na esfera pública, mas na vida particular dos cidadãos, e, assim, deve ser defendido contra o público e seu poder. A liberdade e o poder se apartaram, e a fatal assimilação do poder com a violência, da política com o governo, e do governo como um mal necessário, começou.

…Para nós, é difícil entender tudo o que estava em jogo nessa passagem inicial da república para a forma democrática de governo, porque geralmente igualamos e confundimos o governo da maioria com a decisão da maioria. Esta, porém, é uma questão técnica, passível de ser adotada quase automaticamente em todos os tipos de assembléias e conselhos deliberativos, correspondam eles a todo o eleitorado, a reuniões de uma câmara municipal ou a pequenas comissões de conselheiros seletos para os respectivos governantes. Em outras palavras, o princípio da maioria é inerente ao próprio processo de tomada de decisões e, assim, está presente em todas as formas de governo, incluindo o despotismo, com a possível exceção somente da tirania. Apenas quando a maioria, depois de tomada a decisão, passa a liquidar politicamente —e, em casos extremos, fisicamente— a minoria adversária é que o mecanismo técnico da decisão da maioria degenera em governo da maioria.

…Torna-se difícil, para nós, perceber tudo o que estava em jogo nessa primeira transformação da república em uma forma democrática de governo, porque geralmente equiparamos e confundimos o governo da maioria com a decisão da maioria. Entretanto, essa última é um artifício técnico, suscetível de ser adotado quase automaticamente em todos os tipos de conselhos e assembléias deliberativas, quer seja o conjunto do eleitorado, quer sejam reuniões distritais ou pequenos conselhos de assessores escolhidos pelos respectivos governantes. Em outras palavras, o princípio da maioria é inerente ao próprio processo de tomada de decisão, e, portanto, está presente em todas as formas de governo, inclusive no despotismo, com a possível exceção, apenas, da tirania. Apenas onde a maioria, após a decisão ter sido tomada, começa a liquidar politicamente, e, em casos extremos, fisicamente, a minoria oponente, é que o artifício técnico da decisão da maioria degenera em governo da maioria.

…o endeusamento do povo na Revolução Francesa foi conseqüência inevitável da tentativa de derivar a lei e o poder da mesma fonte. A invocação dos “direitos civis” em que se fundava a monarquia absoluta moldara o governo secular à imagem de um deus onipotente e legislador do universo, ou seja, à imagem do Deus cuja Vontade é Lei. A “vontade geral” de Rousseau ou de Robespierre, ainda é essa Vontade divina, à qual basta querer para criar uma lei. Historicamente, não existe maior diferença de princípio entre a Revolução Americana e a Revolução Francesa do que a convicção unânime desta última de que “a lei é a expressão da vontade geral”, formulação que buscaríamos inutilmente na Declaração de Independência e na Constituição dos Estados Unidos.

 

…a deificação do povo, na Revolução Francesa, foi a conseqüência inevitável da tentativa de fazer derivar a lei e o poder de uma mesma fonte. A pretensão da monarquia absoluta  de estar fundamentada em “direitos divinos” havia dado origem a uma concepção de domínio secular segundo a imagem de um Deus cuja vontade é a lei. Historicamente, não existe diferença de princípio mais significativa, entre as Revoluções Americana e Francesa, do que o fato de que essa última afirmava, unanimemente, que “a lei é a expressão da vontade geral”, uma formulação que se pode procurar, em vão, tanto na Declaração de Independência, como na Constituição dos Estados Unidos…

19/12/2011

O labirinto do puritanismo e do empedernimento do espírito: “A LETRA ESCARLATE”

 

(o que se lê abaixo é a combinação de duas resenhas, ambas publicadas originalmente em A TRIBUNA de Santos: uma, em 05 de dezembro de 1995; a outra, em homenagem aos 150 anos do livro, em 25 de abril de 2000)

Alguém em Hollywood impressionou-se talvez com o sucesso do estapafúrdio O piano (uma das maiores abobrinhas já vistas nas telas) e pensou: por que não filmar A LETRA ESCARLATE (The Scarlet Letter, 1850), um dos romances mais geniais da literatura, geralmente considerado a maior obra de ficção dos EUA? Afinal, nele também aparecem roupas pretas, uma mulher que luta contra as convenções e os homens, puritanismo e hipocrisia vs. desejo, e indígenas por perto.

Por desgraça ou castigo dos céus, a tarefa coube ao ridículo Roland Joffé, que já cometera atentados como Os gritos do silêncio, A missão, Cidade da esperança. O resultado é um samba do crioulo doido, uma hecatombe de ruindade, versão picaretíssima e demagógica, certamente um dos piores filmes da década, com Demi Moore, Gary Oldman e Robert Duvall em caracterizações que nada têm a ver com o espírito da história criada por Nathaniel Hawthorne.

Esqueçamos o horror, o horror cinematográfico. O livro se inicia em Boston, no século XVII, com o castigo infligido a Hester Prynne, enviada à América pelo marido, homem bem mais velho e pelo qual esperou em vão por longo tempo. Engravida e é presa. Exposta em praça pública, recusa-se a revelar o nome do cúmplice e é obrigada doravante a carregar no peito a letra A de adúltera.

Justamente no dia em que é marcada dessa forma,aparece seu marido, que exige dela silêncio sobre sua identidade e passa a atuar como médico, com o nome de Roger Chillingworth. Seu objetivo: descobrir a identidade do amante de Hester e vingar-se dele. Sua vítima é o reverendo mais querido da cidade, Arthur Dimmesdale. Chillingworth torna-se seu amigo íntimo, passa a dividir casa com ele e assim inicia-se uma trama que abrange anos de torturas psicológicas e dilemas morais.

Pode-se ler A LETRA ESCARLATE sob esse prisma de discussão a respeito da moralidade convencional e puritana. Já na impactante (só ela já valeria a leitura) Introdução à sua obra-prima, Hawrhorne investe de forma dissolvente contra o conservadorismo paralítico e a mediocridade da Nova Inglaterra. Há, no livro, uma visão ácida, embora ambígua em sua crítica, do puritanismo enquanto empedernimento religioso, sufocando as possibilidades da América como o tão apregoado Novo Mundo.

No entanto, o triângulo Chillingworth-Hester-Dimmesdale e mais a menina que surge da união ilícita entre os dois últimos, Pearl (que o leitor brasileiro só encontrará com seu nome original na tradução de Sodré Viana, publicada pela José Olympio; as duas outras traduções que conheço, a de Elaine Farhart Sírio, pelo Círculo do Livro, e a de A. Pinto Carvalho, a única encontrada nas livrarias no momento1—na sua edição pela Ediouro, tendo sido lançada originalmente na antiga Coleção Saraiva—apresentam-na como Pérola), oferecem mais ao leitor atento.

Tal como O morro dos ventos uivantes, Moby Dick ou os contos de Poe, A LETRA ESCARLATE transcende o Romantismo convencional e projeta-se dentro da nossa época com uma surpreendente modernidade: através do aprisionamento mental do casal Hester-Dimmesdale à sufocante Nova Inglaterra do século XVII, o leitor vai percebendo coisas mal resolvidas dentro do coração humano (não é à toa que Dimmesdale liga-se à Chillingworth), que inconscientemente fazem com que procuremos o sofrimento ou laços que nos angustiam.

Hester poderia ir para outro lugar, outro continente, mas prefere ser a mulher da letra escarlate (como, mais tarde, outra personagem marcante preferirá ser a mulher do tenente francês, a figura feminina mal falada de outra cidadezinha): “…existe uma fatalidade, um sentimento que se impõe a nós, irresistível e inevitável, que quase invariavelmente compele os seres humanos a freqüentar e a rondar, como almas do outro mundo, os locais onde algum notável acontecimento influiu de modo decisivo em suas existências… O pecado e a ignomínia de Hester eram as raízes que a apegavam ao solo. Foi como um segundo nascimento, com maior poder de assimilação do que o primeiro, houvesse convertido a terra das selvas, com a qual outros peregrinos e imigrantes ainda não se tinham compatibilizado, em lúgubre e fatídico lar onde essa mulher transviada tinha de passar os restantes dias de vida…”

Esqueça-se o antiquado da linguagem, embora ela tenha a ressonância da retórica bíblica que faz da grande literatura norte-americana (e William Faulkner, para não falar de Herman Melville, é o maior exemplo disso) um assombro de beleza. Atente-se para a capacidade de escavar as motivações do ser humano, capacidade que torna um dos capítulos mais famosos e extraordinários do romance, O ministro no labirinto (que já foi traduzido também como O ministro confuso, por Farhart Sírio, e como O pastor no labirinto, por Sodrá Viana2), um dos grandes picos na região da sondagem psicológica. E pensar que em 1850, aqui no Brasil, os leitores tinham Joaquim A moreninha Manoel de Macedo para fazer frente à trinca norte-americana Hawthorne-Poe-Melville. Mas nos vingaríamos de forma avassaladora, décadas depois, com o riso de escárnio vindo do Além que povoa as memórias póstumas de Brás Cubas. Antes tarde do que nunca.

 

Adendo- O final acima segue a resenha de 2000. Na de 1995, era assim: Teríamos que aguardar ainda, em matéria de escavação do essencial, por Machado de Assis. Talvez o lado positivo da telenovelesca (a)versão de Joffé para A LETRA ESCARLATE seja fazer o leitor entrar em contato com um autor que escreveu outras coisas geniais, como o romance A casa das sete torres e contos como Os retratos proféticos e O véu negro do ministro.

1 Nota de 2011- A Companhia de Letras (em associação com a Penguin ) lançou, enfim, uma nova versão do romance neste ano, em tradução de Christian Schwartz; nela encontramos também Pearl. A tradução de A. Pinto Carvalho foi lançada também pela Matin Claret.

   Quanto ao filme de Joffé, ele só existe para mim, atualmente,  em associação mental  á engraçadíssima sátira ao Oscar e à loucura de ser indicado, realizada por Christopher Guest em For your consideration (2006), um dos melhores filmes dos últimos anos. Apesar de os “alternativos”–filme e atrizes—não conseguirem a indicação, nós conhecemos  os oficialmente indicados, e um deles é uma produção chamada, impagavelmente, de  O orgulho do rochedo de Plymouth, que resume o espírito dos filmes à  Joffé.

 

2 Na edição recente, foi traduzido como O pastor num labirinto.

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