MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

18/05/2012

O Mal e A Relva: a Babilônia satânica e a promessa edênica

(esse foi o  texto de divulgação para um curso que ministrei em Santos em agosto-setembro de 2007):

“…demônios insepultos no ócio

Acordam do estupor, como homens de negócio,

Estremecem a voar o postigo e a janela.

Através dos clarões que o vendaval flagela

O Meretrício brilha ao longo das calçadas;

Qual formigueiro ele franqueia mil entradas;

Por toda parte engendra invisível trilha

Assim como o inimigo apronta a armadilha;

Pela cidade imunda e hostil se movimenta

Como verme imundo que ao Homem furta o que o sustenta…”

(Charles Baudelaire, O Crepúsculo Vespertino)

“Pelas ruas de Manhattan, vagueio ponderando

Sobre Tempo, Espaço, Realidade —sobre assuntos como esses

[ao lado deles pondero sobre a Prudência.

A última revelação sempre permanece por ser feita a respeito da Prudência,

Pequenos e grandes, semelhantemente, são impelidos em silêncio

[da Prudência que se ajusta à imortalidade.”

(Walt Whitman, Canção da Prudência)

 

Dois poetas contemporâneos, porém tão estranhos um ao outro, Charles Baudelaire (1821-1867) e Walt Whitman (1819-1892), e dois livros fundadores da modernidade poética, As flores do mal (1857) e Folhas da relva (1855), os quais, em comum, tiveram a mesma rejeição inicial, e depois a incorporação crescente de novos poemas, representando a síntese do trabalho de uma vida.

Como aproximar os 162 poemas de rigorosa métrica e rima, e no qual o urbano, o satânico, a sensação de saturação civilizatória e de tédio, e, por fim, o decadentismo, abundam, e os 383 poemas em versos livres, de ampla respiração, em que se parece renomear o mundo e em que o eu se torna o cosmo, abolindo fronteiras entre corpo e alma, cultura e natureza, vida e morte?

O objetivo deste curso é a aproximação pela distância, a comparação pelo contraste, a certeza de que Babilônia e Éden convivem igualmente em nossos corações e mentes.

Serão quatro aulas:

1ª aula- Contexto do surgimento das duas obras, características gerais, impacto na lírica moderna, comparação de poemas fundadores da poética de Baudelaire e Whitman (por exemplo, “Hino à Beleza” e “ Canção de Mim Mesmo”, respectivamente).

2ª aula- Whitman, o poema a plenos pulmões:

“Tece, tece, minha vida intrépida,

Tece ainda um soldado forte e pleno para as grandes campanhas que virão,

Tece o sangue vermelho, tece nervos como se fossem cordas, tece os sentidos, tece a visão,

Tece certezas duradouras, tece dia e noite, a trama, a urdidura, tece incessantemente, não te canses,

Não sabemos qual a utilidade, ó vida, nem sabemos o objetivo, o fim, nem de fato devemos saber,

Mas sabemos o trabalho, a necessidade contínua que há de prosseguir a marcha da paz

[ envolta na morte tanto quanto a guerra contínua,

Pois as grandes campanhas de paz são tecidas com o mesmo fio metálico,

Não sabemos por que, nem o que e, contudo, tece, para sempre tece.”

3ªaulaBaudelaire e os “quadros parisienses”: tropeçando em palavras como em calçadas:

“Aquilo que os homens chamam Amor é coisa bem pequena, restrita e frágil, se comparada a essa inefável orgia, a essa santa prostituição da alma entregue por inteira, poesia e caridade, ao imprevisto que surge, ao desconhecido que passa.” (Spleen de Paris)

4ª aula- Filiações e parentescos: Poe como ponte, Pessoa como ponto de encontro.

21/04/2012

Mais uma vez: Com que roupa?

(Eis outro texto que pertence ao material do meu curso AS MARGENS DERRADEIRAS, de 2008, sobre a ficção curta do século XIX)

“As almas não tomam a forma de roupas.”

                (Joseph Conrad, Sob os olhos do Ocidente, 1911)

“Eu trazia uma túnica de brocado azul abotoada ao lado, com o peitilho ricamente bordado de dragões e flores de ouro…as calças de cetim cor de avelã descobriam ricas babuchas amarelas pespontadas a pérolas…E, pelas misteriosas correlações com que o vestuário influencia o caráter, eu sentia já em mim idéias, instintos chineses: o amor dos cerimoniais meticulosos, o respeito burocrático das fórmulas, uma ponta de ceticismo letrado, e também um abjeto terror do Imperador, o ódio ao estrangeiro, o culto dos antepassados, o fanatismo da tradição, o gosto das cousas açucaradas… Alma e ventre era já totalmente um mandarim. Não disse bonjour à Generala. Dobrado ao meio, fazendo girar os punhos fechados sobre a fronte abaixada, fiz gravemente o chin-chin…”

(Eça, O mandarim)

         Já vimos, com O capote, uma roupa “fazer” um homem (até no Além). Como a ficção do final de século viu esse problema? Aproveitando o gancho da passagem citada do texto de Eça, examinemos rapidamente duas obras-primas do conto, O espelho, de Machado de Assis, & A vida privada, de Henry James.

O espelho foi escrito, publicado na imprensa e depois incorporado à coletânea Papéis avulsos, tudo em 1882. É um dos melhores de Machado e traz uma atmosfera praticamente inédita na nossa literatura até então. Tem um daqueles subtítulos muito peculiares em Machado (e correntes na ficção do século XIX), que sempre brincava com teorias filosóficas e científicas: “Esboço de uma nova teoria da alma humana” .

Nos textos que vimos, não faltaram espelhos, é só lembrar o espelho que foi levado para o laboratório do Dr. Jekyll e acompanhou até o fim suas transformações, ou o clímax de William Wilson num salão de espelhos (e em A morte de Ivan Ilitch, a partir de certa altura, há uma rejeição do espelho). O espelho acompanha nosso sentimento de identidade, de unidade em forma e percepção dessa identidade. O que, como sabemos, é mera aparência.

A moldura narrativa de O espelho já é interessante por si mesma, porque é muito parecida com as que Henry James utiliza em certas histórias, a mais famosa das quais justamente A volta do parafuso (em A máquina do tempo, H.G. Wells também se vale do mesmo recurso): colocar uma reunião mundana como início da narração, com os participantes discutindo um assunto e um narrador tomando a palavra e nos levando ao centro da trama propriamente dita: Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, várias questões de alta transcendência, sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração aos espíritos. A casa ficava no morro de Santa Teresa, a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundia-se misteriosamente com o luar que vinha de fora. Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o céu, em que as estrelas pestanejavam… estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de coisas metafísicas, resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas do universo. Por que quatro ou cinco? Rigorosamente, eram quatro os que falavam…” Ou seja, há um primeiro narrador, ou para utilizar pedantescamente a teoria literária, uma primeira instância narrativa, que logo vai realçar a presença do quinto personagem, homem com a mesma idade dos companheiros, entre 40 e 50 anos, provinciano, capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que parece, astuto e cáustico”. Seu nome: Jacobina. Esse “casmurro” só usa da palavra já avançada a noite, “e não dois ou três minutos, mas trinta ou quarenta a partir do momento em que a discussão recai sobre a “natureza da alma”.

Jacobina, então, se torna o narrador (um narrador “em diálogo”, um efeito muito interessante), ao lançar a teoria (demonstrada claramente por um caso de sua vida, é o que afirma) de que “não há uma só alma, há duas. Ele não quer ser interrompido, portanto o registro comporta diálogo e conversação e monólogo, em suas poucas páginas.

Para Jacobina, Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro…A alma exterior pode ser um espírito, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior da pessoa. Metafisicamente, o homem é uma laranja (até aqui tudo tem um aspecto quase paródico, de salão, um tom mundano e refestelado, de atmosfera condescendente que exala uma reunião de pessoas bem-sucedidas).

Jacobina conta então que aos 25 anos era pobre, morava numa pequena vila, e fora nomeado alferes da guarda nacional, um acontecimento em sua casa e entre a parentada, todos orgulhosos dele (embora ele despertasse inveja e despeito de alguns rapazes). Uma de suas tias, D. Marcolina, viúva e morando a muitas léguas num sítio isolado, desejou vê-lo, e pediu que a visitasse e levasse a farda. Quando lá chega, a tia deseja retê-lo por um mês, pelo menos. A descrição do comportamento da tia dá trela à imaginação de um malicioso, o que não é o meu caso, bem entendido: “E abraçava-me! Chamava-me também o seu alferes. Achava-me um rapagão bonito. Como era um tanto patusca, chegou a confessar que tinha inveja da moça que houvesse de ser minha mulher”. Ela não queria chamá-lo senão de “senhor alferes”: “Se lhes disser que o entusiasmo da tia Marcolina chegou ao ponto de mandar pôr no meu quarto um grande espelho, obra rica e magnífica, que destoava do resto da casa, cuja mobília era modesta e simples…Era um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdara da mãe, que a comprara a uma das fidalgas vindas em 1808 com a Corte de D. João VI. Não o que havia nisso de verdade; era a tradição”. Portanto, temos a conjunção de coisas prestigiadas: o posto de alferes (simbolizado pela farda) e o espelho, ao qual a tradição (não necessariamente verdadeira) aureolara com uma linhagem, um pedigree, apesar dos maltratos do tempo: “estava naturalmente muito velho; mas via-se-lhe ainda o ouro, comido em parte pelo tempo, nos delfins esculpidos nos ângulos superiores da moldura, uns enfeites de madrepérola e outros caprichos do artista. Tudo velho, mas bom… era a melhor peça da casa.

A adulação e as finezas da tia e de seus agregados, os obséquios, o espelho enfim (isto é, todas as operações da vaidade que trazem à tona a onipotência narcisista, porém creio que as operações psíquicas freudianas pouco têm a fazer aqui no seu sentido estrito: Machado trata de forma mais social, perversamente social, a questão da identidade), operam o seguinte fenômeno: “O alferes eliminou o homem. A farda se torna então sua alma externa: “No fim de três semanas, era outro, totalmente outro. Era exclusivamente alferes.” Um ego social, construído pelo olhar dos outros.

Nesse ínterim, uma das filhas da tia adoece a cinco léguas dali e a mãe extremosa viaja para cuida dela, deixando o senhor alferes sozinho com os poucos escravos da casa, o que causa ele um sentimento de opressão: Era a alma exterior que se reduzia; estava agora limitada a alguns espíritos boçais. O alferes continuava a dominar em mim, embora a vida fosse menos intensa, e a consciência mais débil”. Continua adulado pelos escravos (“Nhô Alferes”), adulado até demais. Eles estão disfarçando uma fuga coletiva, que afinal se efetiva. E aí Jacobina fica realmente só: Achei-me só, sem mais ninguém, entre quatro paredes, diante do terreiro deserto e da roça abandonada. Nenhum fôlego humano. Corri a casa toda, a senzala, tudo; ninguém, um molequinho que fosse. Galos e galinhas tão somente, um par de mulas, que filosofavam a vida, sacudindo as moscas, e três bois. Mesmo os cães foram levados pelos escravos. Nenhum ente humano”. Repare-se na corrosiva crueldade machadiana nesse par de mulas que filosofavam a vida sacudindo moscas, uma atividade maquinal caracterizada por um verbo “nobre” e eminentemente “antropológico”.

Desnorteado, sem saber bem o que fazer, ele resolve permanecer ali, “tomando conta da casa”. Durante o resto da semana ninguém aparece ou volta: “Minha solidão tomou proporções enormes. Nunca os dias foram mais compridos, nunca o sol abrasou a terra com uma obstinação mais cansativa. As horas batiam de século a século no velho relógio da sala, cuja pêndula tic-tac, tic-tac, feria-me a alma interior, como um piparote contínuo da eternidade”. Eis um que não nasceu para Robinson Crusoé, para ser náufrago do seu ego social afagado e que o retirara da zé ninguenzice de rapazote de uma vila qualquer: E então de noite! Não que a noite fosse mais silenciosa. O silêncio era o mesmo que de dia. Mas a noite era a sombra, era a solidão ainda mais estreita, ou mais larga. Tic-tac, tic-tac. Com ninguém por perto, só lhe resta o tempo, a pura passagem do tempo, a identidade sem o elemento que a forma (o olhar), que a torna possível e viável, e na noite aprofunda-se o cochicho do nada, que é pior que o medo. Só o sono o alivia, por libertar a alma interior. Na vigília: Tic-tac, tic-tac. Levantava-me, passeava, tamborilava nos vidros das janelas, assobiava.Em certa ocasião lembrei-me de escrever alguma coisa, um artigo político, um romance, uma ode, não escolhi nada definitivamente; sentei-me e tracei no papel algumas palavras e frases soltas, para intercalar no estilo. Mas o estilo, como a tia Marcolina, deixava-se estar… Coisa nenhuma. Quando muito via negrejar a tinta e alvejar o papel… Recitava  discursos, trechos latinos, liras de Gonzaga, oitavas de Camões, décimas, uma antologia de trinta volumes.”  Como se vê, uma cultura decorada, aprendida num sentido decorativo, incapaz de auxiliar uma vida interior que, como a tia Marcolina, deixava-se estar. Fenomenologistas fariam a festa com trechos em que os objetos gritam sua existência na mais ofuscante evidência: negreja a tinta e alveja o papel!

Ginástica, beliscões nas pernas, dor ou cansaço, tudo esbarra no silêncio vasto, enorme, infinito, sublinhado pelo tic-tac. O silêncio é a passagem do tempo evidenciada. Finalmente, ocorre-lhe o espelho. Não olhara para ele desde que ficara só: “Não era abstenção deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo, naquela casa solitária”. Enfim ele supera o receio: Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra…levantei o braço com gesto de mau humor, e ao mesmo tempo de decisão olhando para o vidro; o gesto lá estava, mas disperso, esgarçado, mutilado…De quando em quando, olhava furtivamente para o espelho: a imagem era a mesma difusão de linhas, a mesma decomposição de contornos”. É claro, pois ele está vendo o Joãozinho, o rapazote da vila insignificante, sem o menor galardão social: um zero à esquerda, disperso, esgarçado, difuso, esfumado, “feições derramadas e inacabadas”

Vem a inspiração: vestir a farda de “senhor alferes”, vestir a personagem (releiam a epígrafe de Joyce, concernente à parte que escrevi sobre O capote), deixar o Joãozinho de lado: levantei os olhos e… não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida com os escravos [olhem que analogia maravilhosa; em Machado, o psicológico é sempre social], ei-la recolhida no espelho.Imaginai um homem que, pouco a pouco, emerge de um letargo, abre os olhos sem ver, depois começa a ver… Tudo volta ao que era antes do sono. Assim foi comigo. Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria, e o vidro exprimia tudo. Não era mais um autômato, era um ente animado”.  Ele ritualiza o evento: a cada dia, a uma certa hora, veste-se de alferes e fica diante do espelho, lendo, olhando, meditando, por duas ou três horas: “Com este regime pude atravessar mais seis dias de solidão sem os sentir” . Reinstalado na identidade social, deixou de sentir o puro tempo (e a narrativa termina abruptamente, num golpe teatral, com a instância primeira da narrativa retomando a palavra: Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas”).

Antes de comentar A vida privada, gostaria de abrir um parêntese e comentar  outro conto de Machado, o engenhoso Identidade (1887), que entra na linha doppelgänger, do duplo, embora de forma quase brejeira e um tanto faceta.

No primeiro parágrafo, o narrador introduz o tema que dá título ao texto: “Convenhamos que o fenômeno da semelhança completa entre dois indivíduos não parentes é coisa mui rara, talvez ainda mais rara que um mau poeta calado. Pela minha parte não achei nenhum. Tenho visto parecenças curiosas, mas nunca ao ponto de estabelecer identidade entre duas pessoas estranhas.” Daí então ele utiliza o gancho do “manuscrito achado”; no caso, um papiro: que entre dous indivíduos de família e casta diferentes a igualdade das feições, da estatura, da fala, de tudo, seja tal que não se possam distinguir um do outro, é caso para ser posto em letra de forma, depois de ter vivido três mil anos em um papiro, achado em Tebas. Vá por conta do papiro.” E o terceiro parágrafo apela para o Era uma vez um faraó cujo nome se perdeu na noite das velhas dinastias, mas suponhamos que se chamava Pha-Nohr” (Machado e o seu habitual recurso de lançar no alhures e no remoto os temas que quer abordar).

Pha-Nohr ficara sabendo que havia um sósia dele e ordenara que o trouxessem à sua presença: um escriba, Bachtan. “Eram mais do que dois homens parecidos, eram dois exemplares de uma só pessoa; eles mesmos não se distinguiam mais que pela consciência da personalidade (e, é claro, pela posição social). Pha-Nohr instrui o escriba na administração do império, e declara que irá colocá-lo no trono por um tempo indeterminado. O escriba agora sou eu. Tu és faraó. É a idéia de viver na pele de outro que seduz Pha-Nohr, sair do engessamento do palácio, tendo virado um herói decadentista (Imagine-se que Pha-Nohr começara a governar com 22 anos, tão alegre, expansivo e resoluto, que encantou a toda gente; tinha idéias grandes, úteis e profundas. No fim, porém, de dous anos, mudou completamente de gênio. Tédio, desconfiança, aversão às pessoas, sarcasmos amiudados e, finalmente, umas crises melancólicas, que lhe levavam dias e dias. Durou isto dezoito anos”). A princípio, Bachtan não se sente à vontade e Machado me sai com essa frase genial: “O escriba rolou a noite inteira, sem achar cômodo, no leito da vindoura Cleópatra.

No vasto mundo, um tecelão casado acolhe o falso escriba, que sente remorso por desejar a mulher do anfitrião, tão bondoso  e solícito. Mas ele ouve uma conversa do casal e descobre que o tecelão quer é roubar a caixa de pedras preciosas com a qual saiu do palácio para ganhar o mundo. A esposa não consente. Pha-Nohr resolve ir embora, entretanto presenteia  Charmion com algumas jóias.

O relato prossegue com as aventuras de Pha-Nohr pelo mundo nem sempre vasto, com muitas decepções e algumas multas, até que ele acaba nos braços da bela Charmion (cujos olhos não são de ressaca, todavia “encerravam, mais que nunca, todos os mistérios do Egito. Além dos mistérios, tinha ela um plano; essas mulheres calculistas de Machado!), a qual abandonou o marido. Os dois vivem juntos, ele é apaixonado por ela, ela jura que morre por ele, eles recebem como hóspede um moço viajante; no entanto a liberdade de não ser faraó é mais aborrecimento que prazer e ele sente saudades de Mênfis, “do poder que emprestara ao escriba… Trocara tudo por nada. Aqui emendou-se: Charmion valia por tudo.” Toma uma decisão: irão embora daquela cidade. Chegando em casa da rua nesse dia, “não achou nada, nem a moça, nem as pedras preciosas, nem as jóias, túnicas, espelhos, muitas outras cousas de valia. Não achou sequer o moço viajante que provavelmente, à força de falar de Babilônia, despertou na dama o desejo de irem visitá-la juntos”.

O desiludido Pha-Nohr torna-se aprendiz de embalsamador. Nova decepção: “tinha ido ali buscar uma oficina de melancolia e deu com um bazar de chufas e anedotas… Operavam os corpos gracejando, falando cada um dos seus negócios, planos, idéias, puxando daqui e dali, como se cortam sapatos. Pha-Nohr compreendeu que o uso encruara naquela gente a piedade e a sensibilidade” (como ele está vivendo em outra pele, o que é automático e maquinal no quotidiano não existe para ele, que está reaprendendo tudo e todos os códigos sociais). Sente medo de acabar assim. Torna-se barbeiro, bateleiro, caçador. Até que resolve retornar a Mênfis (note-se a idéia de um império tão vasto e um poder tão longínquo que parece ficar em outro planeta, tanto que o sósia do faraó, que na verdade é o faraó, nem é reconhecido nos diversos lugares das suas aventuras, pois o faraó paira muito acima do povo).

Nesse ínterim, o verdadeiro escriba e falso faraó engordou muito: Entrou; a corte esperava-o, em redor do faraó, e reconheceu logo que era impossível agora confundi-los, à vista da diferença na grossura dos corpos (portanto, semelhança e identidade são algo muito voláteis, como vimos experimentar diante do espelho o nosso amigo alferes ); mas a cara, a fala, o gesto eram ainda os mesmos. Bachtan perguntou-lhe placidamente o que é que queria; Pha-Nohr sentiu-se rei e declarou-lhe que o trono: Sai daí, escriba, concluiu; o teu papel está acabado.” Bachtan e todo o paço gargalham. Pha-Nohr faz um gesto de ameaças e o falso Pha-Nohr declara-o como sedicioso, perigoso para o Estado, mandando prendê-lo. Julgado, é condenado à morte: “Na manhã seguinte, cumpriu-se a sentença diante do faraó e grande multidão. Pha-Nohr morreu tranqüilo, rindo do escriba e de toda a gente, menos talvez de Charmion… A multidão, logo que ele expirou, soltou uma formidável aclamação: Viva Pha-Nohr! E Bachtan, sorrindo, agradeceu. Veja-se que enquanto Pha-Nohr esgueirava-se entre avatares diversos (como amante, profissional em várias áreas), numa vida cambiante e precária, sem fixar-se a um molde, Bachtan enrijeceu-se (tanto quanto seu corpo “engrossou”) num molde único, o de faraó, o papel mais fixado e inerte do universo. No final, ele é realmente o faraó e assumiu mais a identidade do duplo do que este a sua, socialmente muito mais precária e volátil.

Precárias e voláteis são as personas que habitam A vida privada. Henry James o publicou em 1892. Assim como O espelho, começa de forma mundana (é uma narrativa em 1ª. pessoa): Conversávamos sobre Londres em frente a uma imensa, ameaçadora e primeva geleira[1]. Estamos na Suíça onde natureza e vida civilizada convivem aparentemente sem atritos. É uma estação de férias, a trama transcorre num hotel, o narrador comenta a “resignação gregária” que toma conta de todos que não compartilham ou não querem compartilhar (“reconhecemos nossa sorte permanecendo juntos) da vulgaridade e da promiscuidade: Lord e Lady Mellifont, Clare Vawdrey (“a maior, na opinião de muitos, de nossas glórias literárias”), Blanche Adney (“a maior, na opinião de todos, de nossas glórias teatrais). Todos se conhecem de Londres e formam visivelmente um grupo fechado (nosso inocente prazer era sermos diferentes).

O clima de fofoca intra-grupo começa a partir do momento em que se tecem comentários sobre as prolongadas ausências de Lord Mellifont e Blanche Adney (a qual, também é casada, com o “pequeno Mr. Adney, o querido compositor”). O catalisador das conversas é Vawdrey, o qual “diferenciava-se das outras pessoas, mas nunca dele mesmo (exceto no sentido extraordinário sobre o qual prestarei algum esclarecimento [2]) e me parecia ser uma pessoa sem humores, sem suscetibilidades, sem preferências… dirigia-se às mulheres exatamente da mesma maneira como se dirigia aos homens, e conversava com todos os homens de igual maneira, sem se expressar melhor com as pessoas inteligentes do que com as obtusas. Eu costumava afligir-me com seu modo de gostar de um assunto, segundo me parecia, exatamente da mesma maneira quanto de outro… Suas opiniões eram prudentes e medíocres e refletir sobre suas faculdades mentais era desconcertante demais! Eu lhe invejava a saúde magnífica.”

Como dá para perceber, ele começa com um retrato simpático e cativante, e vai gradualmente revelando a má vontade que nutre em relação a Vawdrey. E assim temos de ter cuidado: provavelmente estamos diante de mais um daqueles narradores não-confiáveis. Por que eles aparecem tanto em Henry James(aliás, era o caso de perguntar por que também são tão importantes para Machado)? Há todo um lado bisbilhoteiro, fuxiqueiro, nesses personagens envolvidos em enigmas intrincados, e além disso, geralmente há uma situação de competição para os heróis (o que significa que James nunca se afastou muito, apenas as aprofundou vertiginosamente, das suas preocupações, uma vez que já num conto de juventude, Pobre Richard, tratava do assunto). Eles são de antemão derrotados (a derrota pode ser sentimental ou artística, ou envolver as duas coisas), obrigados a renunciar e a encarar sua impotência em impor-se ou pelo menos obter a solução dos segredos com os quais se envolvem. Não deixa de ser engraçado que alguns dos maiores mistérios da literatura sejam misturados com bisbilhotices e rivalidades mesquinhas.

Voltemos ao nosso amigo narrador, um tantinho invejoso de Vawdrey, o qual se sente absolutamente à vontade no “tedioso campo da anedota, no qual as histórias são visíveis ao longe, como moinhos de vento e postes de sinalização”. Um tantinho invejoso, mas cônscio de que o outro é tedioso e repetitivo. Ele percebe que Lady Mellifont parece desatenta, percorrendo com um olhar meio ansioso “os declives nas partes inferiores das montanhas.

Se Vawdrey é enfadonho, apesar do seu sucesso mundano, Lord Mellifont é “the one”: “Não digo o maior, o mais sábio, mais célebre, mas essencialmente o que ocuparia o primeiro lugar de uma lista e a cabeceira da mesa. Essa é, por si só, uma posição, e sua mulher estava naturalmente acostumada a vê-lo ocupando-a.” Espero que vocês percebam, apesar dos métodos indiretos e que retardam muito a ação narrativa, e portanto freqüentemente exasperantes, de Henry James, que o que está se estabelecendo aqui é um conjunto de aparências, como cada membro do grupo é notável por algo aparente, que lhe confere identidade social e coesão ao grupo. Quanto à Lady Mellifont, o narrador a princípio achara-a um pouco atemorizante e até mesmo “saturnina”: “Estava eternamente de luto e usava inúmeros adornos de azeviche e ônix… Eu tinha ouvido Blanche Adney chamá-la de Rainha da Noite, e o epíteto era bem descritivo se considerarmos a noite como algo sombrio.Ela tinha um segredo… Parecia alguém com uma doença indolor.” Ela confidencia ao narrador que fica nervosa quando o marido se mantém longe dela por algum tempo, embora não saiba o que possa temer: trata-se de uma sensação indefinível de que ele jamais voltará (nós saberemos depois o porquê).

Blanche Adney reaparece e Lord Mellifont não está em sua companhia. Perguntada a respeito do paradeiro dele, ela diz que ele entrou no hotel e aí ocorre uma troca de olhares entre a atriz e o narrador: O interesse nessa ocasião foi estimulado por alguma coisa especial que os olhos pretendiam dizer. O que eles geralmente diziam era: Ah, sim, sei bem que sou maravilhosa, mas não se precisa fazer estardalhaço disso. O que eu quero é apenas um novo papel, quero, e quero muito. Nessa ocasião específica eles acrescentaram vagamente, sub-repticiamente e, é claro, docemente, pois essa era a maneira como faziam tudo: Está tudo bem, mas alguma coisa aconteceu realmente. Talvez eu lhe conte mais tarde”, o que nos sugere duas coisas: uma cumplicidade entre ambos, e que ele é apaixonado por ela (dá para ver no “é claro, docemente”; mais adiante leremos: “É difícil ser breve ao falar dessa encantadora mulher que era bela sem beleza e perfeita com dúzias de defeitos”). Como se vê, tudo é narrado “vagamente, sub-repticiamente”, tudo acontece em surdina e nos bastidores.

Mesmo dentro do refinado grupo, os Mellifont se destacam por sua cerimoniosa existência. O marido “tinha um traje para cada função e um motivo para cada traje; e suas funções, trajes e motivos sempre constituíram uma parte das alegrias da vida, uma parte, pelo menos, da beleza e do romance da vida, para um imenso círculo de espectadores”. A mera presença de Lord Mellifont dá prestígio às coisas: “ele apresentava a vista como se ela fosse candidata a algum cargo e dava seu ´apoio´ aos próprios Alpes”.  Ele e Clare Vawdrey se conhecem desde pequenos. O narrador diz a respeito do hábito de se falar do Lord: Quanto a mim, quando falávamos dele, sempre tivera a impressão de estarmos falando dos mortos; havia indícios daquele peculiar acúmulo de relíquias. Sua reputação era uma espécie de obelisco dourado, um monumento funerário sob o qual ele poderia ter sido enterrado”. Ele é uma lenda viva: “Ele era, em si, um estilo… nunca em sua vida fora um convidado; ele era o anfitrião, o patrono, o poder moderador em qualquer assembléia… Confrontada com seu elevado padrão, a conversa de Clare Vawdrey sugeria mais a do repórter em contraste com a do poeta. Quer dizer, o grande escritor é menos interessante do que o homem elegante.

Vawdrey está escrevendo uma peça para Blanche Adney, que aos 40 anos deseja O papel, O supremo desafio: “Os anos haviam passado e elas os desperdiçara; em nenhuma das coisas que fizera realizara seu sonho, de modo que agora não tinha mais tempo a perder”. Nem é preciso ressaltar que ser atriz também é um viver de aparência, de ter que fazer a manutenção de uma imagem, de um ego social criado por olhares alheios. Estão todos os três, ela, o Lord e o escritor sob a luz de holofotes invisíveis. O narrador prevê que ela nunca conseguiria tal peça de Vawdrey (“estava de fato escrevendo uma peça; mas se a iniciara porque gostava da atriz, acredito que a deixava arrastar-se pela mesma razão… Se ele a enganava era apenas porque em seu desespero ela estava determinada a ser enganada”). Blanche pergunta ao autor sobre o terceiro ato e ele responde que antes do jantar escrevera uma magnífica passagem. O narrador replica que ele antes do jantar manteve todo o grupo “fascinado” no terraço. É uma tirada, apenas, só que embaraça Vawdrey, que dá uma desculpa. Todos o colocam na berlinda: quando teve tempo de escrever a tal passagem magnífica?

Blanche então diz que não acredita que ele tenha escrito uma só linha. E ele promete falar a cena para todos. Quando Blanche utiliza o verbo “ler”, ele a corrige: “ler, não; apenas falar”, e que não precisaria de um manuscrito. Na hora H, nosso leão doméstico começou a rugir fora do tom: esquecera completamente o texto. Ele sentia muito,as palavras não lhe ocorriam de forma alguma…dera um branco em sua memória. Ele não parecia nem um pouco envergonhado, Vawdrey nunca parecera envergonhado na vida… Afirmou que nunca esperara fazer um papel tão ridículo, mas percebíamos que isso não impediria que o incidente tomasse seu lugar entre suas mais risonhas Memórias. Nós é que estávamos humilhados como se ele nos tivesse pregado uma peça”. Quem salva a pátria, com seu tato e talento mundano, é Lord Mellifont. O narrador insiste no entanto: se Vawdrey quisesse, ele poderia pegar o manuscrito da suposta peça. O autor diz uma coisa estranha: Se houver realmente alguma coisa você encontrará sobre minha escrivaninha, quase como se não soubesse se tinha ou não produzido algum manuscrito. O narrador diz a Blanche que obteve permissão para pôr as mãos no manuscrito: Ela me fez jurar, por tudo que era sagrado, que eu o traria imediatamente e o entregaria a ela; e sua insistência era uma prova contra minha idéia de que seria tarde demais para Vawdrey começar a ler; além do que o encanto havia-se quebrado; os outros não se interessariam. Não era, ela me assegurou, tarde demais para ela própria começar a ler; eu deveria apossar-me, sem mais delongas, das preciosas páginas”. Em troca, o narrador quer saber o que acontecera entre ela e Mellifont (ela lhe joga na cara e poderia ser uma acusação a todo o universo jamesiano: Você é um perscrutador de corações, essa coisa frívola: um observador; é um universo todo voyeurístico [3]). Ele quer saber se Mellifont a cortejou. Ela ri e brinca a respeito da conveniência de ser cortejada numa geleira. O narrador pergunta então se ele “caiu nalgum precipício”. Ela diz que não sabe se ele caiu ou se subiu e acrescenta: É realmente estranho…preciso tentar entender.

Aí ele mostra suas cartas: acha que Vawdrey não tem sequer uma linha escrita, embora negue que deseje desmascará-lo. Blanche, conspiradora (e o tom conspiratório é uma das constantes nas histórias de James, é o lado mais complexo da base fuxiqueira que já mencionei): Por que não, se eu desmascarar Lord Mellifont? O narrador então diz significativamente (assumindo o papel de rival): “Ah, eu daria qualquer coisa por isso. Nesse projeto (frívolo) de desmascaramento temos os dois alvos do relato: o autor que parece não escrever (Vawdrey) e só representar o papel de autor; e o homem (Mellifont) que leva uma vida cerimonial, uma existência totalmente social.

Blanche ordena que ele vá olhar no quarto. No de Mellifont, ele pergunta. Resposta: Essa seria uma boa maneira! De descobrir…de descobrir!” Descobrir o quê? O que ela tenta insinuar sobre Mellifont?

O grupo deles se dispersa. O narrador se vê sozinho. A certa altura, surpreende Blanche num colóquio com o “dramaturgo” que não se sabe se produziu alguma peça. Então ele se resolve a apanhar o manuscrito, ver se ele existe de fato, e se juntar aos dois: Um minuto depois minha mão estava na maçaneta da porta que, naturalmente, abri sem bater… Um olhar prolongado por três segundos mostrou-me uma figura sentada a uma mesa perto de uma das janelas, uma figura que eu inicialmente tomara por uma manta de viagem jogada sobre uma cadeira. Recuei sentindo-me um intruso, porém ao fazer isso compreendi, mais rapidamente do que o tempo que me leva expressá-lo, primeiramente que esse era o quarto de Vawdrey e segundo que, surpreendentemente, seu próprio ocupante estava sentado à minha frente… antes que eu me desse conta, gritara: Alô, ei você, Vawdrey! Ele não se mexeu nem respondeu, mas minha pergunta  recebeu uma resposta ao abrir-se uma porta no outro lado do corredor. Uma criada com uma vela saiu de um quarto em frente, e com essa conveniente iluminação reconheci claramente o homem que um momento antes deixara lá em baixo, com toda certeza, conversando com Blanche Adney… como a pessoa diante de mim não desse sinal de ter ouvido, acrescentei: Se está ocupado, não vou perturbá-lo. Saí do quarto, fechando a porta…Fiquei lá, com a mão na maçaneta da porta, tomado pela mais estranha impressão da minha vida. Vawdrey estava sentado à sua escrivaninha, e isso era um lugar muito natural para um escritor, mas por que estava escrevendo no escuro e por que não me respondera?

Então nosso amigo Vawdrey se desdobra, tem um duplo, uma “identidade alternativa”, espécie de “sombra”, ego escritor que não precisa de luz para escrever, debruçado ininterruptamente na sua escrivaninha, e cuja existência é o ato da escrita, enquanto seu outro cumpre as obrigações mundanas, cumpre o papel de ego social[4]. Um ator. Com esse desmascaramento, termina a primeira parte de A vida privada  e ainda resta o segredo escondido na aparência de Lord Mellifont.

A segunda parte começa com o narrador refletindo sobre a estranha experiência da véspera: as grandes anomalias nunca são tão grandes no começo quanto depois que reflitamos sobre elas. Ele deseja esclarecer o mais depressa possível com Blanche “quem tinha estado com ela no terraço”, menos desejo de satisfazer minha curiosidadedo que apagar a sombra da minha estupefação”.  Como o dia está esplêndido, resolve dar uma caminhada solitária pelas montanhas, “e antes que o dia terminasse, esquecera que alguma vez me sentira perplexo. Mas no jantar, em companhia do grupo, meu pequeno problema voltou novamente. E convida Blanche Adney para uma volta (como se vê, os problemas se agitam à roda dos rituais mundanos, o mundo da politesse, da civilidade). Ele diz a ela que deseja um esclarecimento, ela pergunta se é a respeito de Lord Mellifont, o que o surpreende: “…minhas novas conjecturas tinham-me feito perder o fio da meada. Que aconteceu com sua memória, seu bobo? Falávamos sobre isso ontem à noite. Ah, claro, exclamei, lembrando-me, temos um monte de coisas para conversar. Quem estava com você aqui ontem à noite?… Ela olhou-me espantada e então deu uma risada: Está com ciúme do querido Vawdrey? Então era ele? Claro que era ele.” Mais adiante: “Em outras palavras, você e Vawdrey, distintamente, permaneceram aqui desde cerca de dez e cinco até a hora que mencionou?; Não sei se estávamos muito distintos, mas estávamos muito alegres. Onde você quer chegar, perguntou Blanche Adney; Simplesmente a isto, minha querida senhora: no horário em que seu companheiro se ocupava da maneira como descreveu ele também se concentrava em um trabalho literário em seu próprio quarto.” O corolário da revelação parece quase à Oscar Wilde. Blanche exclama: Ah, as excentricidades do gênio!” E ele: É verdade! Parecem maiores ainda do que eu imaginava”. O narrador diz a Blanche que a “sombra” no quarto parecia-se muito mais com Vawdrey do que ele próprio (já que ele parece, socialmente, uma “sombra” do que realiza artisticamente): Um é o gênio, o outro o burguês, e só conhecemos pessoalmente o burguês (aqui, parece que ele quer desacreditar Vawdrey mais por uma questão de rivalidade sentimental do que tirar deduções de uma descoberta fantástica). Ele propõe à Blanche que ela vá ao quarto do escritor: “Mas suponha que eu encontre o errado; O errado? Qual deles você chamaria de o certo?; O errado para uma dama visitar…”

Eles avistam Lord Mellifont e ela diz que tem algo a contar a respeito dele, uma “idéia tão cômica quanto a do narrador”: “se Clare Vawdrey é duplicado, Sua Senhoria aí tem o distúrbio oposto: ele não é nem inteiro… tenho a impressão de que se há dois Vawdreys, não há nem mesmo um Lord Mellifont inteiro” (ela fitou-me como se fora uma adorável conspiradora”).  Eles começam a tentar lembrar se já encontraram alguma vez Lord Mellifont sozinho. A suposição é de que, sem alguém presente, ele desaparece (como se vê, estamos no mundo do espelho de Jacobina agora). Blanche diz: Deve-se pegá-lo desprevenido. Precisa ir ao seu quarto, é o que tem de fazer (uma missão heróica encomendada pela dama amada). O narrador: Quando eu souber que ele não está lá?” Blanche: Quando souber que ele está lá!” O narrador: E o que vou ver então?” Blanche: “Não vai ver nada!” Resumo da ópera, segundo o próprio narrador:  “Lord Mellifont era inteiramente público e não tinha uma vida privada correspondente, ao passo que Clare Vawdrey era exclusivamente privado, não tendo vida pública”, isto é, pelo menos o “verdadeiro” Clare Vawdrey, se o artista é sua obra. O narrador sente a satisfação de ter obtido o desmascaramento desejado e se sente num “entreato”, após alguns acontecimentos capitais; sobra tempo para refletir sobre a “existência representativa do Lord: “Seria indubitavelmente exagerado dizer que sempre suspeitara haver, no contexto da existência de Sua Senhoria, alguma admirável possibilidade desse tipo; mas o fato é que, pelo menos, por mais indulgentes que essas palavras possam soar, eu tivera consciência de uma certa reserva de boa vontade para com ele. Secretamente eu me apiedara dele pela excelência de sua representação, me perguntara que rosto inexpressivo tal máscara precisaria esconder, o que lhe restaria nas horas implacáveis em que um homem fica sozinho consigo mesmo… Havia algo em Lady Mellifont, que dava sentido a essas indagações, algo que mostrava como, mesmo para ela, ele ainda deveria ser o personagem público e ela, acossada por perguntas semelhantes. Ela nunca as esclarecera: esse era seu eterno problema. Nós, Blanche e eu, portanto, sabíamos mais do que ela, mas não iríamos contar-lhe por nada desse mundo, nem ela provavelmente nos agradeceria se o fizéssemos. Preferia a dignidade relativa da incerteza.”

Mesmo com todas essas descobertas sobrenaturais, o mundanismo continua girando sua roda, através das regras da civilidade (em que cada um cuida da sua própria vida e bisbilhota as alheias). Ao discutirem a duplicação de Vawdrey num passeio pelas montanhas, o narrador explica a Blanche a economia psíquica do escritor e da sua “sombra” em termos que agradariam o Freud que criou os conceitos de ego, id e superego: “…eles são sócios de uma firma e um deles nunca seria capaz de continuar o negócio sem o outro… um sobreviver ao outro seria terrível para ambos. Surpreendentemente, Blanche afirma que gostaria que um deles conseguisse sobreviver. O narrador pergunta qual deles. Ela diz que se ele não consegue adivinhar, não vai contar. Ele: “conheço o coração das mulheres, vocês sempre preferem o outro”. Ela confessa então que está apaixonada.”Pobre mulher, ele não tem paixões”; “É exatamente por isso que o adoro”. Esse “desejo insano de encontrar o Autor” é uma perversa reformulação do arquétipo narrativo da prostituta e do santo (ainda mais se pensarmos nesses escritores monásticos como Flaubert, e James certamente foi um deles, e o mais enigmático, pois quase não se sabe nada das suas preferências sexuais ou afetivas, que “vivem para a sua arte”, no que o próprio Flaubert, decadentista avant la lettre chamava de misticismo estético). O narrador interrompe a confidência e diz que espera uma evidência da parte dela que comprove sua descrição, intensivamente sugestiva e plausível, da vida privada de Lord Mellifont e pede-lhe pormenores. Eles então encontram Lady Mellifont procurando o marido, ansiosamente. O narrador diz a ela para não se preocupar, que ele vai aparecer. E Blanche,maliciosamente, acrescenta: Tenho certeza que sim, se souber que estamos aqui!” Os dois prometem “achá-lo” e comentam entre si que ela “deve saber” e que não quer “que o marido desconfie”. O narrador acha que os desaparecimentos de Sua Senhoria implicam que “ele preferiria não voltar” (olha aí o Bartleby…), mas que sempre há algum público que força a sua volta. E Blanche afinal conta o que aconteceu 48 horas antes: Isso foi tudo o que houve… eu estava na mesma situação de Lady Mellifont: não conseguia encontrá-lo”; “Você o perdeu de vista?”; “Ele perdeu a mim… parece que esse é o processo. Ele supôs que eu me fora. E então…!, ela fez uma pausa com um olhar, isto é, com um sorriso expressivo”; “Você o encontrou, no entanto, já que voltou para o hotel com ele”; “Foi ele quem me encontrou. É também isso o que deve acontecer. Ele aparece a partir do momento em que sabe que alguma outra pessoa está ali” ( tudo é “suposição”, o elemento fantástico nos é dado indiretamente, como uma sugestão inquietante).

O narrador diz que não consegue “captar bem “ as leis que governam as reaparições. Blanche: É uma diferença sutil, que captei naquele instante. Eu estava pensando em voltar para o hotel, estava cansada, e insistira para que ele não voltasse comigo. Havíamos colhido flores raras, as que trouxe comigo, e fora ele quem encontrara a maioria delas. Isso o divertia bastante e percebi que desejava colher mais; porém eu estava fatigada e despedi-me dele. Ele não insistiu, que mais poder-se-ia esperar de seu tato, e eu estava muito desatenta na ocasião para adivinhar que a partir do momento em que eu não estivesse ali nenhuma outra flor seria, ou melhor, poderia ser, colhida. Estava já a caminho do hotel quando, após uns três minutos, percebi que trouxera comigo seu canivete, e eu sabia que ele iria precisar dele. Voltei alguns passos para chamá-lo, mas antes de dizer algo em voz alta, olhei em volta procurando por ele… Era um lugar que não oferecia nenhum tipo de esconderijo, uma grande e uniforme encosta sem obstruções ou cavidades, arbustos ou árvores… Ele tinha desaparecido, tinha sumido completamente, como uma vela apagada, por alguma razão que só ele conhecia. Foi provavelmente um momento de cansaço, ele está envelhecendo, de modo que com a sensação da volta do isolamento, a reação fora proporcionalmente grande, a extinção proporcionalmente completa. De qualquer forma, o palco estava vazio…Ele havia desaparecido, tinha deixado de existir. Mas assim que minha voz soou, gritei seu nome, ele surgiu na minha frente, como o sol nascente… exatamente onde deveria nascer, exatamente onde deveria ter estado e onde eu deveria tê-lo visto se ele fosse igual a outras pessoas.”

E aí aparece Lord Mellifont à frente deles: “ele simplesmente estava lá, como sempre estivera em todos os lugares, representando a figura principal da cena… Blanche Adney comunicou-se comigo silenciosamente, mas pude ler a linguagem dos seus olhos: Ah, pudéssemos nós atuar tão bem quanto ele. Ele ocupa o palco de uma maneira que nos deixa perplexos”.

Depois desse episódio, Blanche pede ao narrador que procure Vawdrey que saiu para um passeio também, para mantê-lo à distância, pelo tempo que puder, para que ela possa encontrar o outro: “Se eu conseguir chegar até ao que realmente escreve, se eu conseguir me entender com ele, vou ter o meu papel.”

Antes de procurar Vawdrey, o narrador resolve ir ao quarto de Lord Mellifont solicitar-lhe uma assinatura na aquarela que recebeu dele de presente (os dois conspiradores, portanto, não conseguem furtar-se cada um às suas curiosidades e tentações): “Ao examinar essa obra de arte eu notara que havia alo que certamente lhe faltava: o que mis senão o nobilíssimo autógrafo? Era meu dever, sem perda de tempo, sanar essa deficiência e, com essa perspectiva, entrei novamente no hotel… deparei-me com uma dificuldade com a qual minha extravagância não contara. Se batesse na porta, estragaria tudo: entretanto estaria preparado para dispensar tal cerimônia?”

Enquanto ele hesita com a mão na maçaneta (nesse vaudeville metafísico), uma porta se abre,como na vez anterior, mas não é uma criada, e sim Lady Mellifont que o pega no flagra: “Por algum tempo, enquanto permanecíamos ali, trocamos duas ou três idéias, tanto mais singulares pelo fato de não serem expressas. Tínhamo-nos surpreendido mutuamente espionando e até esse ponto nos entendíamos… Pude ver em seus olhos conscientes… a confissão de sua própria curiosidade e do medo das conseqüências da minha. ´Não faça isso´… A partir do momento em que minha tentativa pudesse parecer-lhe um ato de violência, eu já estava pronto para renunciar a ela; no entanto, julguei detectar em seu rosto assustado uma revelação, ainda mais profunda: a possibilidade de decepção se eu desistisse. É como se estivesse dizendo: ´Permito, se assumir a responsabilidade… não seria adequado ele pensar que fui eu´” Nosso amigo opta pela civilidade hipócrita, mostrando a aquarela, eu senti todas as suas delicadezas e dignidades, toda sua antiga timidez e devoção obstruindo sua grande oportunidade”. Ela pega a aquarela e a leva para seu quarto. Quando retorna, “pude perceber que vencera a tentação. E ela pede que ele deixe a aquarela com ela, que providenciará para que o pedido seja atendido. Na falta do que dizer, o narrador observa que o clima sofrerá uma mudança. Ela diz que ela e o marido então partirão… partirão imediatamente: “Achei engraçada a veemência com que fez essa declaração: parecia representar uma almejada fuga para um abrigo seguro, uma retirada com seu segredo intacto.” Ele daí tem a certeza de que ela sabe, mas que não vai nunca pôr à prova, apesar das tentações.

E é aí que ele vai cumprir a incumbência de entreter o Vawdrey ego social. Presos por uma tempestade, o narrador se aborrece e se desgosta com o vazio emanado pela conversação “inteligente”, “de salão” do interlocutor: “Os relâmpagos projetaram uma forte claridade sobre a verdade, que eu conhecia há anos e à qual os dois últimos dias haviam acrescentado extraordinária confirmação: a irritante certeza de que com referência a relações pessoais esse admirável homem de gênio considerava pessoas de segunda categoria como perfeitamente aceitáveis. E na verdade eram, conforme a sociedade se forma, mas havia algo de detestável no contraste que não podia deixar de ser mortificante para um admirador. O mundo era vulgar e estúpido e o artista seria um tolo em expor-se publicamente quando poderia tagarelar e jantar fora enviando um substituto. Mesmo assim, meu coração ficou pequeno ao vê-lo agir com tal imprudência. Não sei exatamente o que queria; talvez gostasse que ele fizesse uma exceção para mim, com toda sua generosidade e carinho, na vasta horda dos idiotas… mas a aplicação da sua norma de conduta era implacável. E sente inveja de Blanche por estar naquele momento na fruição dos verdadeiros lampejos do gênio.

Amainada a tempestade, voltam ao hotel e descobrem que foram motivo de preocupação (e desapontamento, por aparecerem tão somente “ensopados”). Blanche está entre os que os aguardavam. Ela não cumprimenta Vawdrey, voltando-lhe as costas e entrando no salão. O narrador vai atrás dela: “A primeira coisa que notei é que ela nunca me parecera tão bonita.Havia nela um brilho revelador e ela irrompeu num sussurro apressado, que era ao mesmo tempo o grito mais alto que jamais ouvira: Consegui o meu papel!… Foi o grande momento da minha vida… Nos nós entendemos.” Depois desse momento de exaltação da atriz, ele vai para o seu quarto e percebe que finalmente a violência da tempestade passara. Desce para o jantar e constata que a mudança do clima já dispersara o grupo, a começar pela súbita partida dos Mellifont. Outros veículos já estavam sendo pedidos, inclusive por Blanche Adney.

Clare Vawdrey pergunta ao  narrador se a desagradara de algum modo, pois ela mudara sua atitude com ele: “Não me lembro como lhe respondi, mas fiz tudo para consolá-lo viajando com ele no dia seguinte… eles fizeram as pazes em Londres, pois ele terminou a peça e ela a produziu. Devo acrescentar, contudo, que ela ainda esta à espera de seu grande papel. Tenho um muito bom na cabeça, mas ela não vem me visitar para me incentivar a escrevê-lo. Lady Mellifont sempre me dirige algumas palavras amáveis quando nos encontramos, mas isso não me consola”.

Creio que tudo está aí:: o decadentismo e sua obsessão por atmosferas refinadas e ultracivilizadas, os narradores não confiáveis, o doppelgänger, a fragilidade da identidade.. E mais ainda: pois afinal esse escritor que se duplica mostra bem a dubiedade da posição do artista, do produtor cultural, na sociedade capitalista; e ainda temos esse membro da nobreza que, no fundo, não existe, que é quase um fantasma de si mesmo: alegoria de uma classe social ociosa e parasitária?


[1] Utilizo a tradução de Onédia Célia Pereira de Queiroz (Nova Alexandria).

[2] Primeira indicação de que há algo “fantástico” na narração.

[3] E o narrador diz a ela: “Vejo peças à minha volta. O ar está cheio delas esta noite. O narrador é escritor também e essa é uma das formas de rivalidade com Vawdrey. E ele tem certa importância porque as pessoas vêm solicitar seu autógrafo.

[4] Autran Dourado : não há artista que não sinta que à medida que se realiza como artista perde como homem. A arte e a técnica que ele adquire são à custa da vida; a vida que ele vive é apesar da arte… Diferentemente do que podem fazer crer os romances biográficos e o cinema, a vida do artista não é nenhuma aventura, pelo menos no sentido tradicional do termo… Condenado à solidão,  observador lúcido e racional da vida, o artista é um ser que caminha mais rápida e  claramente do que os outros mortais para a morte; com a Parca convive o artista penosa e amargamente… O que se ganha em arte, perde-se em vida, o que se escreve, deixa-se de viver… Quando tomei consciência mais funda e mais lúcida do instrumento que tinha nas mãos, da minha arte, senti que me perdia para a vida e que tinha de abrir mão de todas as alegrias.” (Uma poética de romance: matéria de carpintaria, 1976, Rocco)

Truman Capote: “Então, um dia comecei a escrever, sem saber que estava me escravizando a um senhor nobre, mas impiedoso. Quando Deus nos dá um dom, também dá um chicote, e esse chicote se destina exclusivamente à nossa autoflagelação…. Numa história de Henry James, o personagem, um escritor já em plena maturidade, exclama. Vivemos nas trevas e fazemos o possível; o resto é a loucura da arte.

         Por enquanto cá estou eu, isolado nas trevas da minha loucura, completamente sozinho com meu baralho; e, naturalmente, com o chicote que Deus me deu.” (Música para camaleões, 1980, Companhia das Letras)

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The “heart of the matter” jamesiano: a sombra do que não foi sobre o que é

 

(o texto abaixo foi escrito em 2008, como parte do material de leitura para meus alunos do curso As margens derradeiras: textos do limite,  que abordava oito textos curtos e paradigmáticos do século XIX: O médico e o monstro, Bartleby, Memórias do Subsolo, A morte de Ivan Ilitch, O alienista, O mandarim, O coração das trevas & A volta do parafuso; em torno de cada um, analisei outros: William Wilson, O homem invisível, O duplo, O capote, A tumba dos ancestrais, O horla, O homem da areia, A vida privada, etc)

Da mesma safra de histórias (ou seja, da década de noventa do século XIX), e talvez a mais impressionante, depois de A volta do parafuso, é O altar dos mortos (publicado na coletânea Terminations, 1895). Ele é o mais necrófilo e explícito em termos mórbidos e neuróticos (Freud faria uma festa com esse texto) de uma série de relatos em que uma pessoa morta é que dá a palavra final sobre a vida das personagens principais: vemos isso em A fera na selva, no qual John Marcher  espera um grande acontecimento, a fera emboscada na selva da sua vida, descobre que esse acontecimento era uma mulher que morreu, May Bertram, esperando com ele (esperando que ele caísse na real); vemos isso em As asas da pomba, em que Merton Densher é apaixonado por Kate Croy, mas instruído por ela, se aproxima da rica Milly Theale, (que tem uma doença terminal), faz com que ela se apaixone por ele e lhe deixe sua herança, mas descobre no final que tinha se apaixonado por ela e fica sem a “pomba” agora morta (e que estendeu suas “asas”  mesmo após a morte), sem o dinheiro (ao qual renuncia) e sem Kate, a arquiteta da trama toda; vemos isso em O desenho do tapete, em que o grande escritor Hugh Vereker revela a um crítico (o narrador) que toda a sua obra tem um “desenho” secreto e, quando ele morre, o crítico chega a cortejar a viúva de um amigo  por estar convicto de que ela conhece o segredo. E assim por diante… As vezes penso que James  intuiu plenamente um tipo que faria praça no século XX: o homem cego ideologicamente, que se guia por uma abstração, sem perceber o que está próximo a ele e que o faria mais feliz ou pleno (e talvez nessas histórias, haja uma autocrítica à sua própria vida “de renúncia”). Os homens jamesianos (a não ser, entre os que eu conheço, o de Os bostonianos) não se deixam levar por ideologias políticas, mas seguem o mesmo processo de cegueira e limitação de horizontes.

Em O altar dos mortos começa com a informação de que o protagonista, George Stranson, todos os anos comemora uma data fúnebre, a da morte de Mary Antrim: “…ao chegar aquela data, ele se via forçado pela recordação, por uma obsessão tirânica.  Stranson “despertava para aquela festa de recordações com a mesma consciência com que se levantaria na manhã do casamento. Casamento era de resto coisa que, para ele, nunca houvera. Para a jovem que deveria ter sido sua esposa, o beijo nupcial nunca chegou a existir. Morrera de uma febre maligna, pouco tempo depois de ter sido fixado o dia do casamento. Perdera, antes de ter saboreado, um afeto que prometia encher toda a sua vida [1]”. Estamos aqui no “heart of the matter” jamesiano: a vida que seria possível e não foi e, mais especificamente, a sombra “do que não foi”  sobre o que “é”. Embora não tenha sido nunca um homem “de grandes paixões”, a sua vida era ainda dirigida por um fantasma pálido, era regulada por aquela presença soberana… fizera tudo, à exceção de uma coisa: nunca esquecera. Tentara introduzir na sua existência tudo quanto lhe pudesse preencher o vazio. Mas nada mais conseguiria erigir que uma casa cuja dona estava eternamente ausente. Se fosse só isso… Mas Stranson, aos 55 anos, tinha muitos fantasmas além de Mary Antrim: “Não tivera mais óbitos que os homens em geral, mas contara-os mais do que é comum… Habituara-se aos poucos a enumerar os seus mortos[vejam o possessivo, como se ele se apropriasse desses mortos, como se eles fossem sua propriedade]. Stranson  fica então obcecado pela idéia de fazer algo por esses “outros”: “Nem ele próprio se lembrava da altura em que tal idéia lhe tinha surgido, mas o resultado viria a ser um altar iluminado por inúmeros círios e dedicado a esse culto secreto Tal altar passou a ser parte integrante da sua vida espiritual”.

Pois bem, na véspera de uma de suas “comemorações” da data mais importante da sua vida, ele está olhando a vitrine de uma joalheria e encontra um velho amigo, Paul Creston, que ficara viúvo (Stranson até se recorda do semblante dele, “uma máscara tumefacta e enrugada, curvada sobre a cova aberta da esposa) e que viajara para a América. Lá ele encontrara uma nova esposa que apresenta ao revoltadíssimo Stranson, chegando ao cúmulo, apesar do constrangimento evidente, de convidá-lo para uma visita (convite , aliás, feito pela nova esposa): “Stranson determinou-se a nunca se aproximar novamente daquela mulher. Seria uma criatura humana, sim [2], mas Creston tinha o dever de não andar a exibi-la assim, descuidadamente, não devia sequer mostrá-la em público. Devia tomar as precauções de um falsário, de um assassino, para que ninguém sequer sonhasse com a extradição. Aquilo era uma mulher de exportação, para relações externas, para uso no estrangeiro: se Creston pensasse com cuidado, com honestidade, poupá-lo-ia de injuriosas comparações”. Ele se recorda da atração que tivera por Kate Creston, a falecida (das mulheres de que se recordava, era a única com quem teria praticado uma infidelidade). Veja-se a conclusão que ele tira do encontro, após ter pensado que a pobre Kate na vida do marido não tinha mais valor do que uma criada substituída por outra: “Tinha naquela noite a profunda impressão de que, neste mundo de indelicadeza, só ele próprio tinha o direito de manter a cabeça levantada. É mole? Nessa mesma noite, ele lê no jornal (vocês devem imaginar qual a seção favorita dele: os obituários) a notícia do falecimento de Acton Hague (onde James busca esses nomes infernais?): “Era o homem que, havia dez anos, tinha sido o seu maior amigo e que não fora substituído, uma vez afastado dessa amizade. Depois da ruptura, vira-o apenas uma vez… Acton Hague morrera no exterior, de uma doença causada pela mordedura de uma serpente venenosa. Não é revelado o motivo da ruptura, só que ela fora pública e vexatória, por ambos ocuparem cargos importantes.

No dia seguinte, que é o da “data”, ele vai ao cemitério e vaga pelos subúrbios, descobrindo inesperadamente uma igreja, na qual resolve repousar um pouco: “julgou pressentir na atmosfera pesada e suave uma corrente de ar hospitaleira… A sua única certeza era de ter fugido à bruma suburbana e ter encontrado um lar aquecido. Sente “comunhão” com a única pessoa ali presente, uma mulher de luto.

Stranson fica impressionado com o “oceano de luz” emanado pelos círios da igreja e o compara com seu próprio “altar dos mortos” espiritual: O altar que tinha diante dos olhos transformava-se pouco a pouco no seu próprio altar, a luz de cada um dos círios era um voto pessoal: contou-os, pôs-lhes um nome, reuniu-os e recordou silenciosamente todos e cada um dos seus mortos. Essa analogia é tão forte que tem uma idéia (ficou tão excitado com o prazer que ela lhe dava, que começou a andar): ser o patrocinador desse altar, dessa teia de luzes, pediria para cederem-na a ele e faria dela uma obra-prima de esplendor, uma colina de luz. Ornada diariamente com veneração, impregnada da atmosfera sacra da igreja, seria ali que ele ia ter a liberdade de exercer o seu culto…” Antes de ir embora, ainda repara mais uma vez na mulher de luto, que lhe parece muito distinta, embora “marcada pela vida”.

Demora um ano em negociações e trâmites eclesiásticos, mas consegue seu intento, cuja realização ganha contornos claramente sexuais: Stranson se encarregava do número de velas e o livre gozo da sua intenção.Quando a intenção atingiu o seu pleno desenvolvimento, o gozo tornou-se maior do que alguma vez pudera desejar. Quando longe daquele altar, o seu prazer era pensar no que havia realizado; quando perto,  o prazer era convencer-se do mesmo fato…. Por muito que uma vida fosse sobrecarregada de deveres, era mais fácil vivê-la quando, aos referidos afazeres, se somava uma nova razão de existir”. As pessoas notam e maliciam os seus “desaparecimentos”.  E ele, ali, feliz: “Acreditava que todo os que ajoelhassem no tapete por ele estendido no chão tinham de agir com o espírito da sua devoção: ele dava um nome a cada uma das chamas das velas, ao número das quais se juntavam sempre outras novas. Submetia-se a um princípio fundamental: que para elas sempre havia sempre um lugar; embora os que passassem por perto mais não vissem que um simples altar, quiçá o mais resplandecente de todos os altares. E em frente daquele altar, um homem de idade, sentado, imóvel, mergulhado em meditação ou numa espécie de sono, sofria a fascinação daquele mar de luzes” . Não deixa de ser sumamente irônico que ele associe um homem ultra-civilizado a uma prática que remonta aos povos primitivos, essa fascinação pelas chamas.  E ao mesmo tempo temos certo ecos do decadentismo nessa adoração civilizadíssima (“adaptava-se às suas inclinações, satisfazia-lhe o espírito, dava uma razão de ser à sua piedade, correspondia perfeitamente ao gosto dele pelas cerimônias de ritual solene e magnificente) que também tem a ver com o desaparecimento cada vez mais pronunciado das pessoas à sua volta: Eram cada vez mais numerosos os grupos de luzes acesas, pois Stranson enveredara já pelo obscuro desfiladeiro através do qual a nossa vida desce para a cova e, ao longo do qual, cada dia morre um dos que nos são queridos. A chama branca de Kate Creston acendera-se havia escassos dias, mas não tardaram a acompanhá-la mais recentes estrelas: pessoas por quem ele nunca se interessara muito começavam a chegar e a entrar para as fileiras da sua comunidade[3]. O negócio é radical: “Conhecia individualmente cada vela e se alguém as mudasse de lugar, ele reconhecê-las-ia pela cor da chama… não deixava de ter a consciência do caráter pessoal de cada uma das velas e do papel especial por cada  uma desempenhado no concerto geral; deu consigo, em certas horas, a desejar que alguns amigos seus morressem para com eles poder estabelecer, daquela forma, relações mais encantadoras do que as quem em vida com eles mantinha”. Antes da internet, Stranson descobriu a comunicação virtual.

Há uma ausência nessa “comunidade”: na luminosa falange não consta nenhuma vela para Acton Hague. Enquanto isso, todo ano, na mesma data, encontra na igreja a tal mulher de luto que lá estava quando lhe surgiu a idéia de concretizar o altar dos mortos: “Tantas vezes rezavam lado a lado que Stranson tinha a firme certeza de que ambos envelheceriam também ao lado um do outro, unidos no mesmo culto. Ela era mais nova, mas parecia ter o mesmo número de mortos, o mesmo número de velas”. Ou seja, assim como John Marcher engaja May Bertram ao seu destino à espera da fera na selva, Stranson, sem nunca ter trocado palavra com a mulher de luto, engaja-a abstratamente na sua aventura pessoal. Quem é essa mulher, sempre vestida de preto”: “devia ter tido uma longa seqüência de desgostos. Ao fim e ao cabo, uma pessoa que tantos entes queridos perdera não podia ser pobre, era antes riquíssima, após tantas renúncias a tanta coisa”. E aí a história dá uma guinada.

Num concerto de música, um dia por acaso Stranson se vê sentado ao lado da mulher da igreja, e ele pela primeira vez fala com ela: “Nunca julgara que ela pudesse ser tão bonita… concluiu também que nunca teria lhe passado pela cabeça que ela pudesse ser tão interessante. Mas a mulher (não ouvimos o nome dela ainda), após o concerto, abre seu guarda-chuva e some na multidão. Stranson fica louco de vontade de revê-la na igreja (e com raiva de si mesmo por essa vontade), mas é impedido por dez dias: “… a coisa se complicava, fato que muito aborrecia Stranson e o decepcionava, como se se tivesse quebrado um encanto e turvado a sensação de paz e sossego em que vivia… Perguntou entretanto a si próprio se deveria abandonar de vez o seu altar por causa do receio que entre os seus motivos e a sua intenção se estabelecessem quaisquer confusões”  . Quando consegue ir à igreja, ela não está presente: “a ausência dela vinha complicar o labirinto”. Vai mais três vezes e nada. Só a reencontra mesmo em outro concerto e pede para acompanhá-la (mas ela não se dirige à casa dela, um casarão velho, onde mora com a tia). E ele percebe que ela não é tão nova: “Mas o brilho ofuscado da beleza de outrora, era, aos olhos de Stranson, a prova evidente de quanto essa beleza tinha sido oferecida em sacrifício.Mas tudo quanto ela contou a Stranson era abstrato e sem referências. Podia ter sido uma duquesa divorciada. Podia também ser uma velha solteirona, uma professora de harpa”. Aviso aos navegantes: quem pensar que se trata de uma morta, tire o cavalinho da chuva, o relato não vai enveredar por esse caminho.

Os dois passeiam juntos, após se encontrarem na igreja: “Não lhe era permitido convidá-la a vir visitá-lo e ela nunca o convidou: dir-se-ia que não tinha casa decente em que pudesse recebê-lo. Tanto quanto ele, ela conhecia a sociedade londrina, mas por capricho do destino, ambos freqüentavam lugares desconhecidos dos mundanos. Ela obrigava-o sempre a deixá-la na esquina da rua onde morava… Durante meses, e até anos, Stranson ignorou como ela se chamava e ela também nunca pronunciou o nome dele… O que contava, para eles, era o mútuo entendimento, a perfeita comunhão de intenção e de culto”. Embora o foco narrativo tenha até então ficado restrito a Stranson,  o  narrador começa a arriscar um ponto de vista que envolva ambos, como quando afirma que se alguém os ouvisse julgá-los-ia “um casal de pagãos antigos a falar respeitosamente dos Deuses Lares. Nunca lograram saber (pelo menos Stranson sempre o ignorou) como é que ambos se tinham conhecido até esse ponto” ou ainda: “era natural e belo que ambos se comprazessem com a idéia de que eram um discípulo do outro. Ambos se sentiam satisfeitos por seu apostolado ter conquistado um único discípulo. A dívida dela talvez fosse superior à de Stranson: enquanto ela lhe fornecera apenas um adorador, ele edificara-lhe um templo magnificente”. De repente, no entanto, ela revela a Stranson de que o altar para ela significa apenas um morto (Sim, os meus mortos são um só” [4] ). No mais, “ela era a sacerdotisa do seu altar  e, quando tinha que viajar para o exterior, encarregava-o de guardá-lo; além disso, ele comunica a ela que deixará um legado para que se continue cuidando do altar; ela poderia gerir os fundos necessários.

À idéia dela de que o altar está quase repleto, Stranson replica que não, que no final se terá de acender um círio cujo brilho fará empalidecer o de todos os demais e que será o círio que representa ele mesmo, e que ela se encarregará de acender. E a minha, quem a acenderia?, perguntou ela gravemente” (será que ela não percebeu o monumental egocentrismo desse homem?).

Depois de um período de afastamento, devido a uma longa viagem, Stranson descobre que a tia dela morreu. Aí então ela o convida para sua casa (“De certo modo, era um acontecimento, e a verdade é que, em todo o período que aquela amizade durara, nenhum acontecimento se produzira”). Ali confessa que nunca quis que a tia soubesse da existência dele. Depois de recebê-lo no salão da tia, leva-o para os seus “domínios”, os seus aposentos: O quarto apresentava-se-lhe irradiando vida, era expressivo, as paredes de cor vermelha eram animadas por mil objetos e suvenires. Eram coisas muito simples, fotografias, aquarelas, textos manuscritos encaixilhados, flores secas, mas Stranson só precisou de um instante para intuir que todas aquelas coisas tinham uma significação em comum. Fora ali que ela sempre vivera e trabalhara…”

Tudo muda quando ele vê na parede o retrato de um cavalheiro e trata-se de Acton Hague: “Compreendeu então Stranson, enquanto lhe parecia ver o quarto a oscilar como uma cabine de navio, que móveis, objetos, tudo ali gritava a presença de Acton Hague, que a ele tinham sido consagrados todos aqueles anos e que o altar erigido por Stranson o havia ela, na sua paixão, consagrado ao culto de Acton Hague [vocês devem lembrar que a primeira vez em que ele a viu foi no dia seguinte à notícia da morte do ex-amigo]Que necessidade teria Acton de um círio próprio quando, no conjunto como no pormenor, ele e só ele estava presente naquele altar?” Mais uma vez, em Henry James, um morto ganha a parada, tem uma vantagem injusta na competição (Ele via-a e pressentia nela a inapagável marca do morto… Stranson não podia evitar a idéia de ter sido vítima de uma fraude: ela abusara dele, se bem que nem ela própria o suspeitasse” e mais adiante: “Stranson reconhecia-se ciumento, perversa e profundamente ciumento” ) .

Ele diz então que jamais se referiu a ele porque anos antes o falecido cometera um agravo contra ele. E jamais esqueceria: “Ela ficou calada e Stranson teve um sobressalto quando, no meio daquela atmosfera dominada pela presença de Acton Hague, não a ouviu replicar… Nunca ele conhecera nada mais maravilhoso do que ver aquela mulher, naquele quarto cheio de recordações, a deixá-lo adivinhar pouco a pouco que, da parte de Acton Hague, toda e qualquer injúria era impossível”.  Ela diz, por fim, que se soubesse da história entre os dois, jamais o teria levado até seu quarto.  Ela faz a pergunta fatal: se alguma das luzes do altar era por Acton? Ele nega e vejam só sua explicação: Ele é um dos mortos deste mundo e o seu morto também. Mas não pertence aos meus. Os meus mortos sãos os que morreram na minha posse, estando eu na posse deles. São meus na morte, porque foram meus na vida”. Depois de mais algumas frases, ela lhe diz “adeus”. Ele fica chocado e pergunta se não vão se encontrar novamente, e ela diz: “nunca”. Ele ficou consternado com a ruptura dos fortes laços que os uniam” e pergunta a ela o que mudou: “Se não o percebeu antes, como poderia percebê-lo agora?”  Mais explicitamente: Tudo muda de aspecto quando eu descubro que o senhor o conhecia e que ele não tinha nada”.  Ela, sem querer, dá a ele a dica a respeito de como é mesquinho o seu projeto de abarcar os mortos da sua vida através de um fetichismo possessivo (não que a adoração por um só morto da parte dela seja muito melhor): “o encanto está rompido porque ele não conseguiu dar a ela um sinal material, a prova exorbitante que lhe era exigida, de que o defunto dela era igual aos Outros (e para ele seria uma concessão demasiada).

Ele não a encontra mais na igreja e tem “a impressão de que todas as luzes do seu altar estavam extintas”. Ele acaba por abandonar seu rito, num ato de renúncia: “Ele não podia imaginar que ela fosse vingativa ou rancorosa. Não fora num movimento de cólera que ela o abandonara, apenas se submetera à implacável realidade, à áspera lógica da vida”. Para ela, ele se tornou novamente um estranho. Mesmo assim, ele insiste em ir à casa dela, ela aquiesce em que passeiem juntos novamente, mas tudo tem um ar de simulação: “Essas coisas derivavam e dependiam intimamente das visitas à igreja”. Não havendo o culto, não há relação possível.  De qualquer forma, “entre ambos estava Acton Hugue”.

Ademais, Stranson já não consegue caminhar como antes, tendo se acentuado seu declínio físico, “a vida dele não era mais que um trapo fora de uso”. E ele começa a pensar se tudo não se resume ao fato de amá-la. E ela aceita todos os simulacros da antiga “amizade”, até sinaliza com um “sorriso de estranha piedade” que percebe o que se passa com ele, ou seja, “aceitava tudo, menos a possibilidade de um retorno aos símbolos e ao culto de outrora, já que ele não incluiu Acton. E ele não consegue dar esse passo: “Stranson manteve a sua resolução inicial: não aceitar Hague” [vocês notaram que a antiga amada dele desapareceu do horizonte; outrora soberana presença, e embora eternamente ausente, dona da casa, agora só é um pálido fantasma esquecido].

E chegamos ao nono e último capítulo. Apesar dos percalços da sua relação com a sua nunca nomeada amiga, Stranson consegue dela a promessa de que o cultue após a morte: “podia contar com ela para eventual vigilante do seu tabernáculo”  (e aqui parece que ele ainda está competindo com Acton Hague). Portanto, ele quer pedir a ela que acrescente “uma, só mais uma, nada mais do que uma” (ou seja, a vela por ele e nem uma sequer por Acton, apesar de ela ter tomado o altar inteiro como objeto de culto pelo falecido).

E Stranson declina, já sente o que lhe resta de vigor abandoná-lo rapidamente: “O pior era não existir já o seu altar; quando, nos seus devaneios, evocava a capela, só o que via era uma enorme caverna escura (antes, como se viu, o altar era a conjunção de uma visão interna com a realidade da capela, dotada de significação pelo seu investimento libidinal): “Todas as luzes se tinham apagado. Os seus mortos tinham morrido pela segunda vez… Podiam as velas continuar a arder, mas o brilho particular que lhes era próprio jamais seria recuperado. Doravante a igreja estava vazia; tinha sido a presença de Stranson e da sua amiga quem chamara para ela todos os outros fiéis. Tinha bastado a parada de uma roda para tudo paralisar. Fora o silêncio daquela mulher que conseguira desfazer a harmonia do cântico”.

Incapaz de enfrentar a solidão e a velhice, Stranson volta ao altar (“foi com alívio que sentiu, momentos depois de ter sentado, que os mortos mantinham sobre ele o mesmo poder”). Mas seu coração começa a dar sinais de pane, “destruindo todo o conforto que o altar e os seus devaneios lhe prodigalizavam. Mesmo assim, nos meses seguintes, ele insiste em voltar, vivendo ardorosamente aos pés do altar numa “febre de exaltação… parecia-lhe que o seu altar aceso irradiava uma atmosfera quente, que o aquecia e quase o queimava”. Dá para perceber que Stranson já está cruzando o cabo da boa esperança, ou, digamos mais elegantemente, já está no umbral do seu mundo preferido, o dos mortos: “…errava por aquele campo de luz, por entre círios enormes, de candelabro em candelabro, de chama em chama, de nome em nome, passando de um claro e luminoso emblema para outro, de uma alma arrancada à treva do esquecimento para outra alma ressuscitada. Era no sentimento íntimo de ter salvado as almas dos seus mortos, o instinto secreto e profundo de Stranson encontrava um imenso gozo… Stranson sobrevivera a todos os seus amigos, datava de três anos a última das chamas que acendera, não tinha já ninguém para acrescentar. Chamava-os pelos seus nomes, fazia nova chamada e concluía que o rol estava completo.”

         A simetria do altar só reserva lugar para mais um: Entre todas as suas velas havia relações sutis e complexas, uma combinação que permitiria reconhecer o vazio que tanto impressionara a sua amiga exilada… onde ficava reservado o lugar para uma nova vela: Só mais uma, para completar o conjunto… só uma, só mais uma” , que seria acesa quando ele passasse a fazer dos Outros.

O clímax do relato se inicia quando ele cai de cama e fica sabendo que uma senhora veio informar-se a seu respeito. Ele resolve ir procurá-la, contra as ordens médicas, não a encontra em casa e segue para a igreja, recusando companhia de criado ou enfermeira (“Sabia perfeitamente o que é que essa gente pensava: tinham descoberta a sua ligação clandestina, o ímã que durante tantos anos atraíra Stranson, e davam certamente uma interpretação própria às estranhas palavras que tinham ouvido dele em delírios. A dama desconhecida era uma ligação comprometedora, nada mais evidente do que a pressa indecente com que o amo tinha ido ao encontro dela”). Ele vai à igreja porque acha que a encontrará ali e porque quer rever seu altar antes que as forças lhe faltem de vez.

No altar, “a fraqueza, o cansaço de viver abatiam-no. Parecia-lhe que viera ali para a suprema capitulação”. Percebe que jamais sairá dali: “Ofertara-se aos seus Mortos… desta feita os seus Mortos aceitavam-no”. Ele nota um fulgor maior na sua vela preferida, que sempre nomeara como Mary Antrim: “Tudo quanto ele implorava era um pouco de amor, um pouco de imortalidade” . Percebe então, atrás dele, uma mulher de luto. Ela fica aterrada ao ver o estado dele, mas deseja revelar uma coisa importante: por que ela veio à igreja novamente, após tanto tempo: “Esta tarde, como por milagre, desapareceu em mim o sentimento de distância que nos separava… Podia já vir aqui, vir com a mesma intenção que o trouxe. Bastava-me. É por isso que aqui estou. Não vim por mim, nem pelo meu Morto, o único que possuía. Vim por Eles, por todos Eles”. Coitada, ela não percebeu que o mundo de Henry James é um mundo do “tarde demais”?

Ela ajuda Stranson a aprumar-se num banco, amparado por ela. E ele diz que os mortos revelam que há um vazio, um vazio destruindo a harmonia e a simetria: “Dizem que o desenho não está perfeito. Só uma…Só mais uma, nada mais que uma” . E pergunta se não é o que ela queria dele? “Não! Mais nenhuma! gemeu ela com voz inaudível, como que horrorizada com a idéia”. Ele repete: “Sim só uma, só mais uma!” [5]. Daí  passa-se para o parágrafo final, quando ela percebe que ele já está nas últimas: “Sozinha, na penumbra da igreja, sentia um arrepio de terror pelo que pudesse vir a acontecer, porque o rosto de Stranson estava mortalmente pálido[6]. E nesse final enigmático não sabemos se ao perguntar se não é o que ela queria dele, ele renunciou ao lugar vazio e o cedeu a Acton ou não, só sabemos que a deixou com o arrepio de horror  ali sozinha de se saber “guardiã do tabernáculo”.


[1] Utilizo a tradução de Manuel João Gomes, da coletânea O altar dos mortos e outras histórias sobrenaturais de Henry James (Ed. Estampa). Não é ocioso, creio, indicar que François Truffaut adaptou o conto para o cinema (com modificações) no seu filme O quarto verde, de 1978.

[2] No original está assim mesmo: “She was perhaps a human being…”

[3] Hoje em dia ele poderia formar uma comunidade no Orkut, não é mesmo? No original: “It was only yesterday that Kate Creston had flashed out her white fire; yet already there were younger stars ablaze on the tips  of the tapers: various persons in whom his interest had not been intense drew closer to him by entering this company”.

[4] No original: Then of course in a flash he understood: Your Dead are only One?, She hung back at this as never yet: Only One, she answered…”

[5] No original, “Yes, one more, one more!”

[6] No original, “for his face had the whiteness of death”.

VER TAMBÉM NESTE BLOG:

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18/03/2012

Autodiagnósticos febris: O médico diante do monstro loquaz

(aproveito o lançamento de uma nova tradução de O DUPLO, realizada por Paulo Bezerra, para colocar aqui no blog um dos textos que escrevi para meu curso de maio-junho de 2008, AS MARGENS DERRADEIRAS, no qual uma das obras focalizadas era NOTAS DO SUBTERRÂNEO; alerto que, como os demais textos que coloquei dessa safra, toda a linha argumentativa é extraída de uma interpretação freudiana da obra condutora do curso, O ESTRANHO CASO DO DR.JEKYLL  E DO SR. HYDE)

“Sou um homem insignificante, como o senhor não ignora. Para sorte minha, porém, não lamento a minha insignificância. Ao contrário. Muito ao contrário, até me sinto orgulhoso por não ser um indivíduo notável, mas uma criatura medíocre…Só ponho máscara no rosto quando vou a algum baile à fantasia; não sei andar todos os dias pelo mundo com uma máscara pregada na cara.”

(Dostoievski, O Duplo, 1846)

“Não sonho? Ou sim? É engano.

Bem sei que estou acordado.

Eu sou Segismundo… Não?

Céus…o que é que foi mudado?

Que fez minha fantasia?

O que fizeram de mim?

Que houve enquanto eu dormia?

Isto que eu sou terá fim?”

(Calderón de La Barca, A vida é sonho, 1635)

 

Asseguro-lhes  que ter uma consciência exagerada é uma doença,  verdadeira e completa doença.Para o dia-a-dia do ser humano seria mais do que suficiente a consciência do homem comum…”

(Dostoiévski, Notas do Subterrâneo, 1864)

         Na época em que Dostoievski publicou Notas do Subterrâneo [1], em 1864, ele mantinha intensa atividade jornalística, que já resultara num livro narrando sua primeira viagem pela Europa, aos 41 anos, Notas de inverno sobre impressões de verão (1862-1863), do qual eu gosto muito.

Nas revistas para os quais colaborava, a ênfase era no pótchvienitchestvo (de potchva, solo), uma posição de defesa das raízes nacionais e populares, o famoso eslavismo contra o cosmopolitismo defendido por parte dos intelectuais. É a partir dessa posição que Dostoiévski julga cidades como Londres ou Paris de forma bem crítica e até ácida, principalmente com relação ao lar do Dr. Jekyll. Vejam o que ele escreve sobre a igreja anglicana: “É a religião dos ricos e já completamente sem máscara. Pelo menos é racional e sem embuste. Esses professores de religião, convictos até o embotamento, têm uma espécie de divertimento: ser missionários. Percorrem todo o globo terrestre, penetram nas profundezas da África, a fim de converter um selvagem, e esquecem os milhões de selvagens em Londres porque estes não têm com que lhes pagar.”

Pois bem, Dostoievski lançará em 1866 sua obra mais conhecida, Crime e Castigo.  No começo da década, ele publicara Humilhados e Ofendidos & Recordação da Casa dos Mortos, retomando sua carreira após o degredo na Sibéria, onde cumpriu pena por conspirar contra o Czar.

No período compreendido entre essas produções, a crítica em geral vê uma suposta “fase de transição” entre as primeiras obras, ainda muito românticas, tateantes, ou insatisfatórias, e as obras maiores (em tamanho, inclusive), aquela atordoante seqüência: Crime e castigo; O idiota (talvez o seu mais belo livro, em minha opinião); Os demônios; O adolescente e por fim sua obra máxima, o fascinante, tumultuado (pois é uma confusão dos diabos) e avassalador Os irmãos Karamázov, além dos menores (em extensão) e mais harmônicos O eterno marido e Um jogador.

Notas de inverno sobre impressões de verão, bem como o insólito e chocarreiro conto O crocodilo e Notas do subterrâneo pertenceriam à tal “fase de transição”. No livro de viagens e no conto (que ficou inacabado) prevalece o lado satírico (e, mais ainda, um lado vigorosamente intelectual de um autor sempre criticado e relativizado nesse plano devido às suas teorias messiânicas sobre o povo russo); além disso, vemos uma cabal demonstração de “consciência de autor”, quer dizer, do ato da escrita, desmentindo mais um preconceito: de que ele era um escritor “tomado”, tumultuoso, irregular (embora nos seus maiores livros isso seja um problema, que eu creio mais ligado aos problemas editoriais, de ter de entregar textos em prazos previamente combinados, já que Dostoiévski era um escritor bastante profissional e ao mesmo tempo um sujeito sempre endividado, do que de uma falta de controle artístico).

O tempo todo ele está consciente de estar sendo lido, de que seu texto satisfaz/contraria expectativas. Dostoiévski, felizmente, nunca se tornou um puro ideólogo. Em O Crocodilo, o narrador conta como Ivan Matviétch, seu “culto amigo, colega e parente em grau afastado, foi engolido por um crocodiloem exposição. Matviétch permanece vivo no interior do “mamífero” (como é referido ao longo do texto) e se serve da sua situação para tiranizar o amigo, que acaba por nos revelar seu ódio por ele (ódio que não se estende à esposa do engolido, muito pelo contrário).

Temos aqui outro precursor de Kafka (e também um descendente legítimo de Gogol, lembrando-nos o espírito malicioso de um Machado de Assis, que assinaria, sem problemas, passagens como: “…Qual a propriedade fundamental do crocodilo? A resposta é clara: engolir gente. Como conseguir, então, pela disposição do crocodilo, que ele engula gente? A resposta é mais clara ainda: fazendo-o oco. Já está há muito tempo resolvido pela física que a natureza não tolera o vazio. De acordo com isto também as entranhas do crocodilo devem ser justamente vazias para não tolerar o vazio; por conseguinte, devem incessantemente engolir e encher-se de tudo o que esteja à mão. E eis o único motivo plausível por que todos os crocodilos engolem a nossa espécie. Não foi o que sucedeu, porém, na disposição do homem: quanto mais oca é uma cabeça humana, tanto menos ela sente ânsia de se encher; e esta é a única exceção à regra geral”), inclusive pela “acomodação” de Ivan Matviétch na sua situação, que se lhe torna um quotidiano. Ele chega a imaginar toda uma existência feliz dentro do crocodilo. Pena que o texto não tece prosseguimento…

É preciso questionar esse conceito de “fase de transição”, que nos proporcionaria a seguinte paisagem: antes, obras imaturas; depois, obras grandiosas; e, no meio, essas… o quê?

Em primeiro lugar, creio ser muito duvidoso que no futuro mesmo os mais dedicados leitores, se os houver, vão se ocupar muito dos catataus da grande fase. Penso ser mais provável que Notas do Subterrâneo, até por ser um ponto de inflexão e conter em miniatura tudo o que depois se espraia em grandes painéis, acabará como o seu texto mais valorizado e estudado [2]; em segundo lugar, é bobagem, quando não preguiça, ignorar um texto como O Duplo (ou O Sósia), que, publicado em 1846, quando Dostoiévski tinha 25 anos, foi desprezado e decepcionou os críticos da época, que tinham gostado do seu primeiro livro, Gente Humilde. Para muitos, foi um atestado de que os primeiros juízos favoráveis eram apressados.

O pior de tudo é que essa visão negativa ainda prevalece, quando, na verdade O Duplo é a porta de entrada verdadeira para a grande ficção dostoievskiana posterior. É um texto tão original quanto William Wilson, mesmo com o tema similar do doppelgänger  (associado ao tema do homo burocraticus), e escrito num estilo tão saturado, tão denso que chega a ser quase intolerável. E é por isso que foi rejeitado: ali está o gênio em carne viva, cru, sem a menor manha ou técnica narrativa aliviadora. Perto dele, Notas do Subterrâneo é uma experiência de leveza.

O Duplo (que tem cerca de 120 páginas e é dividido em 13 capítulos) [3] começa com o despertar do protagonista, Goliádkin, que é… funcionário público, também num posto bem subalterno e insignificante. O despertar de Goliádkin é  uma ação tão contrariada que já cabe a pergunta: ele acorda para sonho ou pesadelo? De todo jeito, não é para a realidade, que ele não é capaz de percebê-la claramente, tão envolvido está nas operações do seu ego: por um lado, queria que seu id se soltasse e ele pudesse cuspir na cara das pessoas, desprezá-las frontalmente, por outro é torturado por um superego particularmente mortificante, e tomado por sentimentos de vergonha e asco por si mesmo.

Goliádkin vive num tugúrio com um criado que o despreza e que ele odeia, Petrúchka, por ser beberrão e insolente. Em Notas do Subterrâneo também haverá uma relação co-dependente e de ódio com um criado, Apollon.

No primeiro capítulo ele descobre que está de posse de 750 rublos (a impressão que se tem, conhecendo-se Dostoiévski e embora não se faça referência a isso no texto, é que tal quantia foi ganha no jogo, de tal forma o fato de possuí-la surpreende o recém-desperto Goliádkin); entrega-se então a uma fantasia (antes mesmo de Emma Bovary aparecer na literatura, o que ela fará apenas em 1857, já havia bovaristas): aluga uma carruagem cara, ordena a seu criado que vista libré (“a tiracolo, um espadim de lacaio), e sai pelas ruas de São Petersburgo ostentando uma fidalguia cômica,

Percebemos já de saída que Goliádkin não deseja ser ele. Também já de saída aparece uma figura onipresente na sua vida: o diretor da repartição na qual trabalha, Andrei Filíppovitch, que o reconhece na absurda condução (e o funcionário faltara ao expediente naquele dia). Em dúvida, se deve cumprimentar o superior, Goliádkin pensa: “Eu não sou eu. Sou um outro, uma criatura distinta; não sou mais eu. A hesitação nessa e em outras situações nos dá uma pista sobre o seu caráter: a irresolução, a incapacidade de levar as coisas até o fim (em Notas do subterrâneo há um trecho-chave a respeito do mecanismo mental desse tipo de personagem: “Eu estava tão acostumado a pensar e imaginar tudo segundo os livros, e a me representar todas as coisas do mundo conforme eu as criara antecipadamente em meus sonhos…”)

No capítulo seguinte, Goliádkin procura um médico com quem já se consultara, Krestián Ivánovitch Rutenspítz. Não tem hora marcada e sua aparição é tomada como uma descortesia; como o narrador futuro (quase 20 anos e uma estada na Sibéria depois) que fala do seu subterrâneo, Goldiákin tem consciência das suas gafes, mas parece não resistir a cometê-las e agravá-las. Ele vive em estado de vexame, no sentido social e moral (este último termo tomado como “percepção de si mesmo”, nesse período tão anterior a Freud). O Dr. Krestián dá conselhos a ele sobre um modo de viver melhor: “O senhor precisa cultivar relações com gente alegre, procurar ambientes onde haja bom humor; ir de vez em quando ao teatro e ao cassino, em companhia de outras pessoas; beber mesmo, com moderação. O que não lhe convém é ficar em casa, passar o tempo sozinho”, ao que Goliádkin replica que não teve “treinamento” para viver na Sociedade: “Não conheço as regras de etiqueta. Nunca tive tempo de aprender… E o trecho que coloquei como epígrafe da aula:Sou um homem insignificante, como o senhor não ignora. Para sorte minha, porém, não lamento a minha insignificância. Ao contrário. Muito ao contrário, até me sinto orgulhoso por não ser um homem notável, mas uma criatura medíocre [4] … Não sei dissimular… Só ponho máscara no rosto quando vou a algum baile de fantasia; mas não sei andar todos os dias pelo mundo com uma máscara pregada na cara”.

Como se vê, é como se Akaki Akakiévitch (de O capote) adquirisse de repente uma autoconsciência estridente. Temos também já um tagarela, como o será seu irmão espiritual na novela de 1864. E faz um discurso desses, tem esse de não saber usar máscara, um homem que naquele dia mesmo se proporcionou um dia de fantasia, dissociando-se da sua vida quotidiana!

É interessante também sublinhar essa idéia engenhosa da procura de um médico: Hyde quer ter sua existência reconhecida por Jekyll, quer que ele compartilhe do seu sofrimento, sem que possa resolvê-lo . Logo no início de Notas do Subterrâneo, o narrador já se apresenta como um “homem doente” (e também um homem “mau”, “desagradável” e que “sofre do fígado”, a homologia entre essas características morais e física é maravilhosa). E afirma: Não me trato, nunca me tratei, embora respeite os médico e a medicina. Além de tudo, sou supersticioso ao extremo; bem, o bastante para respeitar a medicina”. Ironicamente, a medicina, a idéia de cura que associamos a ela, é etiquetada como superstição. É uma das várias investidas demolidoras desse “homem subterrâneo” contra o Palácio de Cristal edificado com as noções de Razão, Saúde e Ordem Social.

Voltando ao Duplo, a visita ao médico também é importante em termos de intriga: nela, menciona-se uma suposta desfeita de Goliádkin a Klara Olsúfievna, a filha de um antigo protetor (ao que parece, ele foi o responsável pela “colocação” do nosso herói no serviço público). Numa recepção em sua casa, ela cantara uma ária e Goliádkin lhe dissera que ela a cantava “com muito sentimento”, mas não com o “coração puro”. E ainda dissera ao pai dela, Olsúf Ivánovitch: “sei muito bem quanto lhe devo, não me esqueço de todos os benefícios com que desde a minha infância, o senhor tem me distinguido. Sei apreciá-los e sou grato. Mas, um dia, o senhor terá que abrir os olhos. Abra os olhos e veja o que se passa em volta do senhor.”  Goldiákin aludia a puxa-sacos, bajuladores, que serão seus “inimigos” ao longo da narrativa (o chefe de todos eles sendo Andrei Filíppovitch). Bem, será que isso aconteceu mesmo? Ou foi imaginado pelo febril e bovarista Goliádkin, que deve ser mesmo protegido de Olsúf Ivánovitch, mas que provavelmente não seria recebido em recepções formais por família de condição tão [klara]mente superior.

Entre as intrigas dos inimigos, Goliádkin conta que espalharam o boato de que ele (só que ele se refere ao caso como se estivesse falando de um “outro”) estaria comprometido com uma alemã (cujo nome, Karolina Ivánovna, e a ambigüidade da posição social—cozinheira? cortesã? — nos remetem à “amiga” de Sua Excelência em O Capote, novela publicada quatro anos antes e adorada pelo jovem Dostoiévski), o que seria uma desonra para ele.

No capítulo seguinte, acompanhamos o Goliádkin de fantasia zanzando por uma galeria chique (joalheria, loja de móveis, de tecidos), reservando coisas que nunca teria dinheiro para pagar: “Quando algum negociante mencionava a conveniência de deixar um sinal para que os artigos ficassem reservados, respondia que sim, que sim, depois mandaria trazer o sinal. Ocupou-se assim por muito tempo, e ninguém poderia compreender o objetivo de suas idas e vindas.” Ao contrário de Akaki Akakiévitch, o mundo exterior existe para Goliádkin, só que na base da frustração e do desejo… ou seja, na outra margem. Ele não consegue s conformar com o fato de ser um pobretão. Além disso, a narração desse fingir fazer compras sublinha para o leitor sua tendência um tanto maníaca.

Após essas “idas e vindas incompreensíveis” e um encontro cheio de arestas com conhecidos da repartição num restaurante da moda, ele manda seguir para a residência de Olsúf Ivánovitch. Já temos um alerta de que algo está errado: Comportava-se como se estivesse a ponto de realizar alguma coisa sumamente desagradável Quem, acaso, o observasse, poderia pensar tudo, menos que estava se encaminhando para um jantar que, para ser ainda mais agradável, ia se celebrar em família, isto é, sans façon, como costumam dizer as pessoas da alta sociedade”.

Ao chegar, é barrado pelos criados. Insiste, diz que foi convidado, mas o criado mais graduado lhe afirma que não podem recebê-lo. Nesse momento vexatório (ou, num termo muito comum em Dostoiévski, “desagradável”; não só o comportamento, não só o que acontece a eles, porém até o caráter de muitos de seus personagens é desagradável), está chegando justamente Andrei Filíppovitch, que lhe pergunta o que aconteceu? “Não tenho que dar contas a ninguém dos meus atos. Trata-se da minha vida privada.” O chefe da repartição fica estupefato: “Goliádkin, que falava do meio da escadaria, olhava para o seu superior hierárquico de baixo para cima, com uma expressão de quem se preparasse para atacar. A cada frase subia um degrau. Andrei Filíppovitch olhou em volta, tomado de certa inquietação. À sua última pergunta, Goliádkin subiu correndo os degraus que ainda os separavam; o seu interlocutor, com presteza não menor, entrou para a ante-sala, fechando a porta atrás de si.”

O foco narrativo, então, se amplia e aproveita a onisciência da terceira pessoa para nos fornecer detalhes dos convivas da casa de Olsúf Ivánovitch por algumas páginas cáusticas, para mostrar que, embora ridículo, seu herói não está de todo errado em se sentir à parte desse mundo de máscaras. Logo, entretanto, o narrador confessa: “Não, descrever tudo isso, respeitável leitor, excede os poderes da minha inspiração. Prefiro calar-me. Volvamos, portanto, a Goliádkin, o verdadeiro e único herói desta verídica história”.

O verdadeiro herói enveredou por uma situação quase vaudevillesca: escondeu-se entre um grande armário e um velho biombo, em meio a um amontoado de trastes encostados e utensílios caseiros. Ali deixava correr o tempo, na situação de um espectador que não conseguia ver o espetáculo”. Dostoiévski sempre teve pendores teatrais, o que é bem diferente de um talento para o palco, e há sempre uma atmosfera histriônica nas suas histórias. Seu Hamlet interroga-se: “Devo entrar? Ou é melhor não entrar?” Eis a questão. Ele se resolve, “sensatamente”, a ir para casa. E mal adota essa resolução, encaminha-se para adentrar o salão, fazendo o contrário do que se propunha no início (para ele e também para o narrador do subterrâneo, seria muito salutar um regime de “preferia não fazer” bsrtlebyano; contudo, por que não havia de entrar onde todos entravam, ele conclui).

Ali, como não se dança naquele momento, sua presença desastrada, sua figura cômica (parece um espantalho) se destaca: “Caminhava como se obedecesse não à sua própria vontade, mas a uma energia estranha que o impelia cada vez mais para diante. Parecia achar-se num estado de transe em que os seus gestos e movimentos não estavam em correlação com os sentidos. Pisou no pé de um eminente personagem, pisou na cauda do vestido de uma respeitável matrona, tropeçou num tapete e quase caiu, esbarrando num criado que passava com uma bandeja… Só se deu conta de uma coisa: estava diante de Klára Olsúfievna. Naquele momento teria dado tudo que lhe pedissem para desaparecer subitamente… de repente o bulício intenso transformou-se em profundo silêncio como que por um golpe mágico… Pouco a pouco foram todos se aproximando, formando um círculo em torno dele, numa atitude de curiosa expectativa”. Ele ainda tenta balbuciar algumas frases corteses a Klára Olsúfiévna, e alguns parecem prestes a cair na risada. O seu superior lhe lança olhares reprovadores, até que pega firmemente a moça pelo braço e diz a Goliádkin: Que vergonha, homem! Que vergonha!” 

Ele vai para um canto mais afastado, tentando adquirir confiança e dominar a angústia. O criado que repelira a sua entrada vai até ele e lhe diz que alguém lá fora o espera. Goliádkin repete várias vezes que não pode haver ninguém à sua espera e diz: Estou aqui sozinho e por minha própria vontade. Não dependo de ninguém. Enquanto todos assistem à cena, expectantes, nosso herói (que, como todos os dostoievskianos fala muito consigo mesmo) “disse a si mesmo que chegara para ele um instante decisivo. Viu com clareza que nunca voltaria a se apresentar ocasião igual para um golpe de audácia com que afirmasse a sua personalidade. Era o momento de confundir e aniquilar os seus inimigos.” Ele reafirma ao criado de que há um engano e resolve tirar Klára Olsúfiévna para dançar. Um desastre: tropeça, quase a leva junto, os que estão em volta têm de amparar a moça e livrá-la do “par desastrado”. Enquanto todos o exprobram, alguém o agarra pelo braço e outra pessoa vai empurrando-o energicamente numa determinada direção: a saída: Imediatamente sentiu que lhe atiravam a capa sobre os ombros e que alguém lhe enterrava o chapéu na cabeça,..” Ou seja, sua tentativa de se chegar a uma sociedade melhor “sans façon” fracassa. Ainda estamos num universo balzaquiano de “ilusões perdidas”, apesar de Goliádkin ser uma figura, completamente à parte dos ditames do herói romântico ou mesmo realista. Não é simpático, não cria empatia, não é alguém por quem se torça. É um Bartleby ou Akaki Akakiévitch a quem se deu voz.

O próximo capítulo (o quinto) vai se encarregar de mudar tudo e deslocar Balzac e até mesmo Gógol (pois o uso do fantástico deste último é mais sarrudo) para o território de Poe e Hoffmann, do umheimlich, o insólito, o inquietantemente estranho que irrompe em nosso mundo.

Após a expulsão, Goliádkin “sentia-se não só esmagado, mas completa e literalmente aniquilado. Ele mesmo se negava a acreditar que, naquele momento, ainda conservasse a faculdade de viver”. O clima de Petersburgo, como já vimos, colabora para essa sensação de ser o último dos homens. Neve, vento ululante, chicotadas da ventania: “A chuva, a neve, o vento, toda a fúria dos indescritíveis temporais de novembro em Petersburgo, assaltavam Goliádkin de todos os lados…como se o tempo tivesse se aliado aos seus inimigos e jurado a sua perda.”

Já febril (e essa febre não baixará mais durante o resto da narrativa, o que pode nos levar a pensar que os posteriores acontecimentos poderiam ser delírios), ele caminha pela noite, remoendo a ignomínia de que fora vítima, quando percebe alguém na sua cola, um desconhecido que segue seus passos. Goliádkin sente uma sensação aterrorizante: “Tinha-lhe parecido haver reconhecido o estranho. Não era só isto, porém. O pior era que sabia que o conhecia; conhecia-o até muito bem. Tinha-o visto em outra ocasião… Sim, tinha-o visto em algum lugar e não fazia muito tempo… Mas onde? Não era isto, porém, o mais importante… a circunstância principal era que por nada deste mundo desejaria encontrar-se com ele uma segunda vez e muito menos, como agora, em meio à noite. Ainda mais: conhecia muito bem aquele indivíduo e até sabia o seu nome completo. Não obstante, por preço nenhum diria esse nome. Não queria dizê-lo, nunca o repetiria e nem queria admitir que o homem se chamasse dessa forma…”

É possível, de repente, que superego e id se separem bruscamente, após um incidente, como se estivessem numa ponte e cada um fosse para um lado?

Entrando em casa, Goliádkin pára, “como fulminado por um raio, no umbral da porta do quarto. Cumpriam-se plenamente todos os seus pressentimentos; tudo o que temera tornava-se realidade: o desconhecido ali estava, sentado à sua frente, também com o chapéu na cabeça e a capa nos ombros. Ria mansinho, olhava para ele, fazia acenos amistosos com a cabeça [esse comportamento burlesco já indica a quem cumprirá o papel de id]. Goliádkin quis gritar; mas não pôde; quis protestar contra aquilo, mas faltaram-lhe as forças… Havia reconhecido o seu visitante noturno, amigo e inimigo ao mesmo tempo. Não era outro senão ele mesmo… Mais do que um sósia, era o seu duplo, o desdobramento dele mesmo.

No dia seguinte, embora não haja sinais de seu duplo, Goliádkin se sente combalido e desconfiado e quase falta ao serviço (“em todas as ocasiões análogas comprazia-se sempre em justificar-se diante de si mesmo, invocando todas as razões plausíveis, de modo a deixar tranqüila a consciência”; nunca se viu maior fracasso no exercício da racionalização); não consegue vencer a ansiedade e indo à repartição, conhece o novo colega: seu sósia e homônimo. Acabrunha-se, ao que parece à toa: ninguém se espanta com a semelhança ou homonímia.

Ao acabar o expediente, Goliádkin é abordado humildemente pelo Outro, que pede a ele que o escute, já que de minha parte, desde que o vi, experimentei logo pelo senhor uma grande simpatia. Sem muita consciência do que está fazendo, Goliádkin Primeiro (como a narrativa doravante o chama) convida Goliádkin Segundo a sua casa e este “abre seu coração” durante duas ou três horas, confessando erros passados, infortúnios, calamidades e misérias que o reduziram quase à indigência: sequer tem um teto, não possui um mísero tostão para o uniforme regimental, nem um vintém para comer. Chora ao contar suas desditas e isso comove profundamente seu interlocutor, que também desata a falar (toda essa prolixidade revelava que Goliádkin se sentia muito satisfeito”). Vem a hora da vodca e aí o sentimentalismo e as boas intenções imperam. Surgem versinhos de amizade e um convite para morarem juntos e dividirem tudo. E o visitante é instado a dormir ali.

Na manhã seguinte, nem sinal dele. E Goliádkin se arrepende das efusões excessivas, das confidências e do convite para dividirem a moradia. As recriminações ásperas que faz a si mesmo deixam cada vez mais claro de que o superego está falando mais alto em Goliádkin Primeiro(“Nunca hei de aprender a me dominar, a me comportar como devo” ). Na repartição, ao abordar Goliádkin Segundo, este se desvencilha e diz que está sem tempo.

Há um momento em que GoliádkinPrimeirotem de levar papéis que copiara para Andrei Filíppovitch e seu sósia se declara preocupado com um borrão que percebeu na documentação, atrapalhando seu caminho. Enquanto se prepara para pegar um canivete para raspar o tal borrão, Goliádkin Segundo se apodera da pasta e entra na sala do superior, numa primeira atitude de velhacaria que depois será típica (ele se manifestará como um id velhaco, dissimulado, oportunista). Goliádkin percebe que seu duplo está sendo elogiado pelo chefe da repartição pelo trabalho que ele, o original, fizera: “Naturalmente, o primeiro movimento de Goliádkin foi protestar de modo enérgico e com todas as forças contra a preterição de que era vítima. Pálido e trêmulo, ousou dirigir-se a Andrei Filíppovitch. Este, porém, mal compreendeu que se tratava de assunto particular; rccusou-se a ouvi-lo, alegando a razão inapelável de que estava inteiramente atarefado com matéria de serviço. A secura e o tom cortante aniquilaram Goliádkin.” Ele procura tomar satisfações com o (é preciso reconhecer que se trata disso) rival traiçoeiro, só que ele lhe foge o tempo todo, e quando confrontado, sem escapatória, depois de fazer uma reverência insolente e sarcástica, com dois dedos deu inopinadamente um piparote na bochecha direita um tanto gorducha do seu adversário”, o que transforma Goliádkin Primeiro em alvo de ridículo (e aí percebe que o outro está angariando simpatia geral). E toda vez que o recrimina, o duplo lhe lança na cara as confidências da noite em que abriram os corações um para o outro.

Entre outros incidentes, pode-se destacar o seguinte: num restaurante, há um balcão onde a pessoa se serve de bandejas já preparadas. Goliádkin pega uma empada de uma delas. Na hora do pagamento, no caixa, este lhe cobra onze empadas. Espantado, ele diz que o caixa se enganou, mas de nada adianta: as empadas desapareceram e ele é obrigado a pagar as onze, em meio ao constrangimento geral. Nisso, ele vê Goliádkin Segundo esgueirando-se do local, a sorrir, fazendo-lhe acenos e piscando-lhe o olho: na mão ainda tinha um último bocado de empada que, a rir com gosto, levou à boca diante dos olhos assombrados de nosso herói”. Já se percebe o mecanismo psicólogo implícito aqui: Goliádkin delegou ao seu outro todas as ações baixas, todas as inconseqüências e atos vexatórios que se sentia tentado a fazer, mas que nunca levara realmente até o fim, só liberando-se, por fim, depois do ocorrido na casa de Klára Olsufiévna, quando ele se recolheu dentro de uma atitude defensiva e paranóica, enquanto soltava pelo mundo seu duplo malandro e capaz de qualquer coisa. Só que ele é que paga pelos feitos do outro, embora não mais aceitando a responsabilidade pelos vexames. E todos os inimigos se concentraram nele mesmo (na forma de outro), ele é o inimigo.

A partir daí procura desesperadamente colocar as coisas em pratos limpos com seu adversário. Escreve uma carta (um momentoem que Dostoiévskijá mostra o seu gênio porque a cada etapa da carta ele, Goliádkin, espicaçado pelo demônio da autoconsciência, se interroga se está adotando o tom certo, se não está muito áspera, se não envereda pelo ofensivo, e por momentos se congratula pela correção e cortesia da escrita, ou a energia e a decisão que se depreende dela). Ordena a Petrúchka que a leve ao ministério e entregue ao oficial de plantão para que seja encaminhada ao desconhecido endereço de Goliádkin Segundo. Horas depois, desconfiado, ele mesmo vai ao ministério interrogar sobre o destino da missiva, e acaba criando uma grande confusão e indispondo todos, do criado aos colegas, contra ele (há ainda o mal entendido com Karolina Ivánovna pairando no ar, mas não vem ao caso aqui).

É certo que o relato começa a ficar um pouco cansativo, o autor parece perder-se, não sabendo que direção tomar ou como resolver sua trama, além de saturá-la quase intoleravelmente com o comportamento maníaco de Goliádkin (lembremos que ele tinha 25 anos e escrevia algo de completamente diferente, que pode ter surgido da leitura do Capote, como já disse, mas que procurava nova direção, como Poe estava fazendo na América:  há até um capítulo  (o décimo) todo tomado por sonhos, relatados com minúcias).

Uma manhã, acorda e nada de Pétruchka. Começa a desconfiar de que ele se uniu ao campo inimigo (e que isso pode ter sido orquestrado na casa de Karolina Ivánovna, “parece que no covil daquela horrenda alemã se reuniram todas as potências infernais para perder-me… Bruxa maldita que me escolheu para vítima das suas intrigas secretas. A ela também devo atribuir a aparição daquele maroto”, será que a atração sexual, e o rebaixamento social conseqüente, contribuiu para a aparição do duplo, esse desdobramento que é uma fuga de si?).

Goliádkin resolve subornar um funcionário hierarquicamente inferior para ver se não havia “algo no ar” na repartição a respeito dele. O rapaz apura que não e no entanto só atiça as suspeitas paranóicas do herói: “Esses camaradas perceberam o que eu ia fazer e prepararam o terreno! O rapaz estava instruído…” De qualquer forma, algo ocorreu: Andrei Filíppovitch colocou um substituto na sua mesa. Goliádkin não pretendia entrar na repartição naquele dia, mas aparece seu sósia e ele acaba seguindo-o até lá dentro, onde passa por um vexame inominável: dá a mão ao rival e este, que não percebera a quem estava cumprimentando, de repente se dá conta e retira a mão prontamente, e não satisfeito com esse insulto, como se aquela mão fosse alguma coisa repugnante que lhe causasse náuseas, cuspiu para o lado, numa expressão de desgosto; tirou do bolso o lenço e pôs-se com ele a esfregar com força, do modo mais ofensivo, como se quisesse limpar de uma sujeira repulsiva, os dedos que haviam estado em contato com a pele de Goliádkin.”

É o velho processo, já visto em William Wilson e que depois se repetirá em Jekyll & Hyde: os duplos acabam por odiar-se. O sósia de Goliádkin faz isso de propósito, mirando uma platéia, depois de assim proceder, Goliádkin Segundo derramou olhares em volta, com expressão maliciosa, para ver que efeito produzira sobre os circunstantes.” E esse antagonista ainda ridiculariza Goliádkin Primeiro sob o pretexto que está diante de um conquistador, a quem as mulheres não conseguem resistir. Ele traz a público todos os recalques do seu sósia. O retorno do reprimido nunca é bonito de se ver.

Daí para frente, é um estado de exaltação atrás do outro, e pessoas que se recusam a ouvir, ou não entendem o que estão ouvindo. O resultado mais imediato é o afastamento de Goliádkin do cargo (ao que parece, mais ligado à questão Karolina Ivánovna do que a qualquer outra coisa, mas no clima de pesadelo que a narrativa vai assumindo, nada mais fica explícito, é como se estivéssemos atravessando uma região fuliginosa). E ele continua a perseguir seu rival, que lhe foge, que finge sentar e colocar os pingos nos “is” e o insulta novamente, e foge, e assim parece que estamos enfeitiçados, percorrendo a mesma roda infernal (o que parece muito moderno, de certa forma, porém infelizmente creio que é efeito do visível desalinhavamento narrativo).

Nessa confusão, Goliádkin Primeiro recebe uma carta de Klára Olsufiévna rogando que a espere com uma carruagem em frente à casa dela, pois pretende fugir com ele. Antes, há um incidente: Pétruchka se demite e alegando ir buscar uma capa de peles que pretende vender a Goliádkin, traz consigo pessoas que fazem com que seu patrão fuja, quando percebe a jogada do criado: levantou-se de um salto, calçou as galochas, vestiu a capa e pôs o chapéu. Apanhou uns papéis sobre a mesa e atirou-se escada abaixo… Sem atinar por onde andava, sem ver o que o cercava, caminhando sempre, Goliádkin prosseguia nas suas reflexões…”

Ele se vê meio que sem rumo na madrugada e se dá conta de que está numa situação igual à da noite em que emergiu seu sósia da neve, da chuva, da ventania (ou seja, das forças primitivas, que aparecem “sans façon”, forças primitivas muito presentes em São Petersburgo, principalmente para os funcionários subalternos). Aluga um carro, pede ao cocheiro que o leve à casa de Klára Olsufiévna e que espere. Ele ainda tentara procurar o ministro a qual sua repartição era subordinada, mas não conseguira atinar o que dizer de lógico e sensato que pesasse a seu favor: Vinha humilde e submissamente pedir-lhe que se dignasse ouvir-me; queria expor-lhe o meu caso. Mas agora tudo se transformou;  tudo o que eu tinha na cabeça se desfez. Além disso, aparece na cena o indefectível Andrei Filíppovitch junto com um cavalheiro que Goliádkin conhecia, que lhe era familiar, só não se lembrava de onde (não, não é o sósia desta vez, pois ele aparece logo a seguir, mostrando intimidade e desembaraço junto a seus superiores e ao estranho). O ministro ouve o (des)arrazoado de Goliádkin e promete daquele jeito vago, caro aos ministros: Está bem, está bem. Vá com Deus . Examinarei seu caso com atenção… E o ministro consultou com o olhar o desconhecido do charuto, que respondeu com um sinal afirmativo. Goliádkin compreendeu que havia uma grande confusão, que não sabiam quem ele era, que não o tratavam como deviam. Aqui ele parece estar remontando ao outro que criou no seu passeio de carruagem logo no início do relato, seu eu chique, socialmente melhorado.

Nada conseguindo de positivo, vai para a frente da casa de Klára Olsufiévna, cujas janelas estão todas iluminadas. Goliádkin se atormenta porque perdeu a carta dela. É uma prova contra ele, se fugirem? Quem a teria pegado? Provavelmente seu sósia-antagonista: “perdi meu destino; minha vida está destruída… haverá alguma possibilidade ainda? Que posso fazer?… Santo Deus! De que estou eu falando?” Ele começa a perceber o quão fora da realidade se encontra; e uma vez dada a partida nas suas fantasias não consegue parar. Pensa em desistir e ir embora com a carruagem que alugara. Goliádkin Segundo aparece, frustrando-lhe essa intenção, pois  arrasta-o para dentro da casa: Antes que pudesse coordenar os pensamentos, já se encontrava no salão. Estava pálido, com um ar perturbado, tomado de inquietação, olhando para toda aquela gente ali reunida. Horror… E todos olhavam para ele; todos procuravam chegar-se a ele; todos pareciam empurrá-lo de modo que ele teve a impressão de ser conduzido sem saber como em direção determinada.” Não é, como ele teme, para a porta outra vez. E sim à presença patriarcal de Olsúf Ivánovitch (e ao seu lado… Andrei Filíppovitch). Dessa vez, todos são muito amistosos e benévolos. Andrei Filíppovitch conduz nosso herói, “reconciliado com o destino e com os homens”, para fora com gentileza: “Lançando os olhos em volta, viu que ainda a seu lado estava Goliádkin Segundo. Sentia a necessidade de lhe estender a mão e de levá-lo para um recanto onde lhe pudesse falar à parte. Ali lhe pediu que o auxiliasse em todas as suas empresas e não o abandonasse no momento crítico, como verdadeiro amigo que era. Goliádkin Segundo assentiu com um gesto de cabeça e apertou-lhe a mão energicamente, como selando um compromisso.” Há uma atmosfera solene e ele pensa que parece o momento em que, numa família, algum dos seus membros se prepara para partir numa longa viagem.

Vozes exclamam “Já vem! Já vem! Todos os que estão sentados levantam-se (e Goliádkin se achava insignificante? Ele veio para o centro da cena no grande teatro do mundo). A reconciliação com o sósia é selada em público, depois de o ser à parte (só que ao nosso herói pareceu que o seu desleal amigo disfarçava um sorriso de zombaria, e que os circunstantes tomavam a cena como um gracejo. Julgou ver na fisionomia de Goliádkin Segundo um esgar sinistro. Era o beijo de Judas”).

Em meio a isso tudo, abrem-se as portas do salão e entra o personagem misterioso, que fumava charuto, e que estava na casa do ministro, “um homem alto e maciço, trajando casaca preta, com uma condecoração na lapela, de barba negra. Só faltava o charuto para completar a identidade. O olhar do recém-chegado deixou nosso herói paralisado de espanto. Temia-o sem saber dizer por quê.”

Esse homem não é Sigmund Freud, vindo do futuro, embora sem seu indefectível charuto, para explicar as raízes da dissociação da personalidade de Goliádkin, porque o superego precisou desse expediente para agüentar a vergonha da intervenção anterior na casa de Olsúf Ivánovitch, criar um duplo que fosse a lavação de roupa suja. Não, não, ele é o Dr. Krestián Ivánovitch Rutenspítz, que aparecera no segundo capítulo e que volta agora no décimo – terceiro. Quem o saúda é o duplo de Goliádkin, o seu odioso sósia, o homem de alma corrupta, em cujo rosto manifestava-se uma alegria perversa, enquanto esfregava as mãos em satisfação evidente.”

O doutor coloca Goliádkin num carro puxado por quatro cavalos. A escadaria iluminada está cheia de gente. Sem compreender bem o que acontece, ele só tem tempo de pensar: “Suponho que em tudo isto não há nada de repreensível. Nada que dê margem a uma punição. Nada que possa afetar minha situação oficial”. E põe a sua sorte nas mãos do Dr. Krestián Ivánovitch, Hyde se entrega a Jekyll.

O carro se afasta, todos vão reentrando na casa, e só o sósia, patética, lamentavelmente, corre atrás do carro, lançando com a ponta dos dedos beijinhos de despedida a Goliádkin: “por fim ele também se cansou e foi ficando cada vez mais para trás, até que desapareceu e não tornou a ser visto. Goliádkin sentiu as palpitações violentas do coração. O sangue lhe chegava em golfadas quentes à cabeça. Parecia-lhe que ia asfixiar-se. Queria desfazer-se das roupas, descobrir o peito para refrescá-lo com punhados de neve. Logo porém caiu sobre a sua alma o alívio da inconsciência”.

O carro atravessa um bosque sombrio e ele desperta, pela última vez na narrativa, para apavorar-se com aquele Krestián Ivánovitch que se tornou “outro”, diferente, um Krestián Ivánovitch antipático!” (ou seja, autoritário, com poder sobre ele). Submisso, ele diz ao médico que é um homem “independente” e também uma “criatura insignificante”: “Nosso governo te oferece, de graça, moradia, alimento, aquecimento e luz, e servidores para cuidar de ti, e ainda te queixas? Que queres ainda, homem? Grave e terrível como uma sentença de morte, soou essa resposta de Krestián Ivánovitvh. Goliádkin deixou escapar um grito e levou as mãos à cabeça. Estava chegando; mas havia muito tempo que sabia que era aquele o seu destino.”

Em 1864, Dostoiévski não precisará de nenhum elemento fantástico, do uso do doppelgänger ou do umheimlich para mostrar a dissociação, dilaceramento e fragmentação de um indivíduo.

Ele mostra tudo isso dentro do próprio discurso de um narrador que parece um ator monologando, em plena performance, num teatro do eu que considero precursor do universo de Fernando Pessoa, mesmo quando não recorre aos seus heterônimos, o Fernando Pessoa Ele Mesmo, que no entanto é um Outro, afirmando “sinto que sonho o que me sinto sendo” ou lamentando-se, no Fausto, tragédia subjectiva: “E neste orgulho certo/ Fechado mais ainda e alheado/ Me vou, do limitado e relativo/ Mundo e que arrasto a cruz do meu pensar”.

         Portanto, não há divisão em personagens diferentes do id e do superego, mas uma alternância de suas vozes dentro da narrativa, e um fingimento (no sentido pessoano) que confunde as identidades psíquicas. Não sei se consigo (pois acho que esse texto de Dostoiévski é o osso mais duro de roer dentro do curso), mas tentarei.

Notas do Subterrâneo é dividido em duas partes.

A primeira (e mais famosa), O subterrâneo, onde inexiste intriga e toda ela é um discurso autoflagelante, e onde o narrador de quarenta anos arrasta a cruz do seu pensar em onze capítulos.

A propósito da neve derretida (ou úmida, ou fundida, ou molhada, como também já se traduziu), com dez capítulos mais narrativos, evoca o narrador com a idade que Dostoiévski tinha quando publicou O duplo (será coincidência?).

Duas “indicações editoriais” emolduram a narrativa.

Na primeira, o autor que assina o livro alerta que “procurou expor aos olhos do público, mais nitidamente que de costume, um dos personagens de um tempo ainda recente” , e que tal personagem é um das pessoas que não só podem como devem existir na nossa sociedade, se levarmos em conta as circunstâncias em que ela de modo geral se formou”.  O ponto nevrálgico é que a geração da qual o personagem faz parte “está vivendo seus últimos dias. O narrador, como eu já disse, pertence à categoria muito pensada na Rússia dos homens supérfluos. Essa visão geracional, de um tipo social que vive seus últimos dias projeta uma ambigüidade proposital: é um diagnóstico psicológico (individual) ou sócio-histórico?

Na segunda, nas últimas linhas do texto, esse mesmo autor afirma que as notas continuam, só que ele preferiu (e tem o poder de) interrompê-las, chamando o narrador de paradoxista, como se tratasse de um ideólogo, um provocador, como mais tarde seria Nietzsche (o qual, aliás, admirava profundamente esse texto).

Atravessamos nesta aula uma ala de funcionários públicos. No primeiro capítulo, o narrador diz que, agora aos quarenta anos, graças a uma pequena herança (que lhe permitiu viver no subterrâneo do qual fala), abandonou o serviço público (“Eu tinha esse emprego para ter alguma coisa para comer).

No exercício da sua função, gostava de ser cruel e grosseiro com os solicitantes. Temos um indicação inicial do seu estilo performático de narrar, do seu fingimento, quando ele desmente essa afirmação: “Eu menti antes, quando disse que era um funcionário cruel. Menti de raiva. Apenas me divertia com os solicitantes… mas no fundo nunca me tornei mau. Constantemente observava em mim uma enorme quantidade de elementos contrários a isso. Sentia-os fervilhar dentro de mim… Eles me torturavam ao ponto de me dar vergonha” .

Mais uma vez, portanto, como em O duplo, alguém que nunca consegue ir tão longe nos seus desígnios misantrópicos: “Não apenas não consegui tornar-me cruel, como também não consegui me tornar nada: nem mau, nem bom, nem canalha, nem homem honrado, nem herói, nem inseto”, consolando-se com a idéia de que no século XIX é obrigação moral de um indivíduo inteligente “ser uma pessoa sem caráter”.[5] Para ter caráter, é preciso ter uma identidade, e como atribuir isso a esse narcisismo contrariado, esse inseto com discurso de dragão, esse Jekyll de si mesmo sonhando em soltar um Hyde, mas cujo refrão é “não consegui tornar-me”: Sou uma pessoa com um amor-próprio exagerado. Sou desconfiado e ressentido, como um corcunda ou um anão, embora, verdade seja dita, houvesse momentos em que, se me dessem uma bofetada, eu talvez ficasse alegre até com isso.”

Bartleby tinha uma parede diante de si, os seres pensantes (conseqüentemente inertes) têm um muro, o qual propicia um sentimento de tranqüilidade paras as pessoas “normais”, imersas na ação, pois é uma solução para a existência do ponto de vista moral e até místico: daqui não podemos passar. Essas pessoas normais hão de gritar: “é impossível rebelar-se: trata-se de dois e dois são quatro! A natureza não lhes pede licença, não se importa com seus desejos e nem se suas leis lhes agradam ou não. Os senhores devem aceitá-la tal como é e, conseqüentemente  [essa insistência em termos como “conseqüentemente” e o ritmo da prosa mostram que Dostoiévski está fazendo, em várias passagens, uma paródia do discurso filosófico racionalista], todos os seus resultados também. Um muro, portanto, é mesmo um muro… etc, etc. Ó meu Deus! Que tenho a ver com as leis da natureza e com a aritmética, se essas leis e dois e dois são quatro, por alguma razão, não me agradam! Evidentemente, não quebrarei esse muro com a testa, se realmente não tiver forças para isso, mas nem assim vou me resignar somente porque encontrei um muro e não tive forças para rompê-lo.”

Bem antes de Nietzsche e Freud, esse homem tão “mental” desmascara através de uma proposição fisiológica a falácia do discurso civilizatório. No capítulo 4, lemos: Eu lhes peço, senhores, que, quando tiverem oportunidade, ouçam com atenção os gemidos do homem culto do século XIX sofrendo de dor de dente, lá pelo segundo ou terceiro dia do seu sofrimento, quando ele já começa a gemer diferente de como gemia no primeiro dia, isto é, não geme apenas porque lhe doem os dentes; ele não geme como um camponês grosseiro qualquer, e sim como um homem que foi atingido pelo desenvolvimento e pela civilização européia… Seus gemidos tornam-se detestáveis, grosseiramente raivosos, e continuam por vários dias e noites. Mas ele mesmo sabe que os gemidos não terão utilidade alguma; sabe melhor do que ninguém que é em vão que ele tortura e irrita a si e aos demais; sabe que até a platéia que ele quer impressionar e toda a sua família já sentem repulsa ao ouvi-lo gemer, não acreditam nem um pouquinho na sua sinceridade e estão convencidos de que ele poderia gemer de outra maneira, mais simples, sem tremer a voz e bancar o original, de que ele está fazendo palhaçada de raiva, por pura maldade. Pois bem, a volúpia está precisamente em todas essas tomadas de consciência e nessas indignidades” .

Vocês perceberam que quando Freud começou a estudar os sintomas psíquicos, ele interessou-se pelo fenômeno então muito difundido (e não só entre as mulheres) da histeria, e que o discurso do narrador de Notas do Subterrâneo é basicamente histérico? Bom, mas será possível, será possível que um homem possa ter um mínimo de respeito próprio depois de ter tentado buscar o prazer até mesmo no sentimento da própria humilhação?”

No capítulo 5, há um desses trechos reveladores, quando ele evoca sua infância: “Eu fantasiava peripécias e criava uma vida para mim, ao menos para viver, de alguma forma. Quantas vezes eu ficava ofendido, sem nenhum motivo real, simplesmente porque queria? E sabia que havia me sentido insultado sem razão, que havia bancando o ofendido, mas levava a coisa a tal ponto que no final ficava realmente ofendido. Toda a vida, algo me atraía para fazer essas esquisitices, a tal ponto que, afinal, perdi o domínio sobre mim mesmo” [6] .

No capítulo 6 há um trecho especialmente pessoano: Ah, se eu não fizesse nada unicamente por preguiça! Meus Deus, como eu me respeitaria! E me respeitaria precisamente porque teria a capacidade de possuir ao menos a preguiça; pelo menos eu teria uma característica quase positiva, que eu mesmo teria a certeza de possuir. Pergunta: quem é ele? Resposta: um preguiçoso.” 

Mas em termos da dinâmica do texto, e pensando na mola de interesse do nosso curso, os capítulos centrais, ou o mais interessantes, dessa primeira parte, provavelmente são o sétimo e oitavo: o narrador revela a falácia do raciocínio que pensa ser necessário apenas abrir os olhos do homem aos seus “verdadeiros interesses”, isto é, àqueles que lhe trariam felicidade e bem estar, para que ele se atirasse a eles.

Ora, ora. Então, por que a humanidade tantas vezes age contra os próprios interesses? Por que a tendência destrutiva? Aqui temos mais um caso em que Freud, suas pulsões (Eros e Thânatos), seus princípios, do Prazer e da Realidade, foram antecipados pelos nossos autores: Que fazer com os milhões de fatos que demonstram que conscientemente, isto é, compreendendo perfeitamente suas verdadeiras vantagens, pessoas deixaram-nas de lado e lançaram-se por outro caminho, ao acaso, arriscando-se, sem que ninguém ou nada as obrigasse a isso, como se simplesmente não quisessem o caminho que lhes fora indicado…” [7]

Ou seja, não é a Razão que nos guia. No capítulo seguinte: Perdoem-me por ter filosofado dessa maneira, mas foram quarenta anos de subterrâneo!(…) Durante quarenta anos seguidos fiquei escutando pela fresta as palavras que os senhores diziam A conclusão é um paradoxo (no final, ele não é chamado de paradoxista?): “O homem gosta de criar e de abrir caminhos, isto é indiscutível. Mas porque ele também ama com paixão a destruição e o caos?”

A primeira parte termina com uma notação de clima que tem muito a ver com o que já foi colocado anteriormente (a neve, a condição “humilhada e ofendida’) e prepara também a segunda parte, seu título e alguns dos seus leitmotivs: “…sinto-me entediado, pois fico o tempo todo sem fazer nada. O ato de anotar é, de certo modo, um trabalho. Dizem que o homem se torna bom e honesto com o trabalho. Bom, pelo menos, eis aí uma chance. Agora está caindo uma neve quase molhada, amarela, turva. Ontem caiu também, nos dias anteriores também. Creio que foi por causa da neve molhada que me lembrei da anedota que agora não quer se desgrudar de mim. Então, que isso se transforme numa novela sobre a neve molhada.”

Um importante “mote” da 2ª. parte é o trecho do poema de Nekrássov, cujos versos falam de um “eu lírico” que recolheu uma mulher das “trevas da perdição” e ela lhe contou sua história, “cobrindo o rosto com as mãos / cheia de vergonha e horror, num desabafo entremeado pelas lágrimas “de indignação e de dor”. Curiosamente, ainda mais tendo em vista os acontecimentos narrados na novela sobre a neve molhada (a atitude do narrador para com a prostituta Liza), ele omite a seqüência do poema, no qual se diz que o eu lírico ouviu todo o desabafo “com piedade”, tendo perdoado tudo; ele então pede à (agora fica explícito) amada que não se importe com a opinião geral porque em minha casa, livre e orgulhosa / entra como legítima senhora”.

O narrador tem vinte e quatro anos, mas já é solitário “como um bicho do mato” e sua vida já é “sombria e desordenada”: Durante o trabalho na repartição, procurava não olhar para ninguém e percebia nitidamente que meus colegas não só me consideravam excêntrico como também (assim me parecia constantemente) olhavam-me com certa repulsa. Às vezes eu me perguntava: por que será que, além de mim, ninguém tem essa impressão de ser olhado com repulsa?” Como sempre, ele se auto-diagnostica: Está inteiramente claro para mim agora que, devido à minha desmesurada vaidade e, conseqüentemente, à tremenda exigência para comigo mesmo, eu me olhava com uma insatisfação furiosa que chegava às raias da aversão e, com isso, mentalmente transferia aos outros essa maneira de ver”.

Esse primeiro capítulo permite a Dostoiévski fazer uma incursão paródica pelo Romantismo russo, sobre a qual não poderemos nos estender (e na qual há alusão a três obras de Gógol: Almas Mortas, Memórias de um louco, Perspectiva Névski), e o próprio narrador se vê ironicamente como um “personagem típico do Romantismo”, o homem supérfluo que poderia enlouquecer (como fez o Goliádkin, de O duplo) ou se matar: “Mas aqui só enlouquecem os magrinhos e lourinhos… Em contrapartida, um número incalculável de românticos ascende aos cargos mais elevados. Quanto a ele: Eu, por exemplo, desprezava profundamente meu trabalho e apenas por necessidade não o mandava às favas, porque ficava lá sentado e recebia dinheiro por isso. E o resultado, notem bem, era que, apesar de tudo, não o mandava às favas.”

A princípio, parece que vamos repetir o ritmo da primeira parte. Mas logo aparece o primeiro núcleo anedótico que confere a essa segunda parte uma feição própria e mais ficcional: numa taverna, ele obstrui o caminho por onde precisa passar um oficial: “ele me pegou pelos ombros e, sem dizer nada, sem me prevenir ou dar uma explicação, afastou-me para o lado e passou, como se nem me notasse” [8]. Procedendo como um “covarde” na hora (por não reagir), ele se torna obcecado com esse oficial, acalentando a idéia de, na Perspectiva Névski (a famosa avenida central de São Petersburgo), em meio à multidão, “esbarrar” nele e fazê-lo sentir sua determinação em não recuar um milímetro, obrigando-o a reconhecer sua existência (ele leva dois anos preparando-se para esse confronto): “Eu me embriagava com a minha raiva, observando-o, e… todas as vezes cedia-lhe o caminho, furioso”. Ele chega a pedir dinheiro emprestado para estar condignamente vestido (seu vestuário é sempre uma fonte de mortificação, pois confirma sua insignificância social) no esbarrão: E, de repente, tudo terminou da melhor maneira possível… De repente, a três passos do meu inimigo, repentinamente me decidi, fechei os olhos e… nós nos chocamos fortemente, ombro contra ombro! Eu não cedi nem uma polegada e passei por ele como um igual! Ele nem ao menos se virou e fingiu que não notara, mas foi somente fingimento, estou certo disso… Voltei para casa sentindo-me completamente vingado de tudo… Aquele oficial foi transferido mais tarde, nem sei para onde. Faz agora uns quatorze anos que não o vejo. Que estará fazendo agora o meu querido amigo? Em quem estará pisando?”

Entre as pouquíssimas relações do narrador, está seu ex-camarada de escola, Símonov (eu tinha muitos ex-colegas em Petersburgo, mas não me dava com eles e já nem os cumprimentava na rua. Talvez eu tenha pedido transferência para outro departamento justamente para não ficar junto a eles e romper de uma vez por todas com a minha infância detestável [9]). Um dia, não suportando apropria solidão, sobe até o quarto andar onde ele mora, embora soubesse que o outro não se sentia muito à vontade com sua presença (como sempre, tais reflexões, como que de propósito, incitavam-me ainda mais a me meter em situações dúbias). Ali reencontra outros dois ex-camaradas (Ferfítchkin & Trudoliúbov), que parecem indiferentes ao vê-lo (um dos refrões da narrativa: pelo visto, consideravam-me algo semelhante a uma mosca), compreendendo que o que os constrange é o seu visível ar de fracassado, sua péssima aparência. O pior de tudo é que os três estão combinando uma despedida para um outro camarada, que é bonito e do qual todos gostam muito desde o tempo do colégio, Zverkov, oficial do exército e que está de partida para uma província distante. A idéia é cada um colaborar com sete rublos e oferecerem um jantar, na crença de que o endinheirado Zverkov pedirá champanhe por sua conta.

Embora apertado de grana, o narrador fica contrariado ao saber que sequer cogitaram contar com sua presença e se oferece para contribuir com mais sete rublos. Trudoliúbov ainda replica que ele nunca se deu bem Zverkov, contudo ele se agarra à idéia e insiste em se meter em mais uma situação dúbia. Contrafeitos, os demais combinam com ele um encontro às cinco horas no Hotel de Paris. Na rua, ele se atormenta: “Mas por que eu tinha de me meter nessa história? E logo para aquele calhorda, aquele porco do Zverkov. É evidente que não devo ir, é evidente que devo mandar tudo isso às favas: sou obrigado a ir, por acaso? Amanhã mesmo mando uma carta a Símonov, avisando. Mas o motivo verdadeiro da minha raiva era que eu tinha certeza absoluta de que iria ao jantar; de que propositalmente iria; e quanto mais falta de tato e de decência houvesse na minha ida, mais vontade eu tinha de ir. Note-se como o superego meio que dirige sadicamente as ações cegas do seu inimigo, o id. É um curso planejado e calculado para a vida em estado de vexame, que tanto obsedava Goliádkin. O resultado mais infame dessa operação psíquica é que, indo ao jantar, ele deixará de pagar o ordenado do seu criado (exatamente sete rublos).

Sua preocupação no dia seguinte é não ser o primeiro a chegar (além do problema da vestimenta: “minha calça tinha uma enorme mancha amarela na altura do joelho. Comecei a pressentir que somente essa mancha já tiraria nove décimos do meu amor-próprio). E já o acabrunha a mediocridade e baixo nível intelectual das conversas que terá de ouvir: Estava claro que o melhor seria não ir, mas isto já era totalmente impossível: quando algo começava a me puxar, eu me entregava inteiro, de cabeça. Senão, depois passaria o resto da vida implicando comigo mesmo: Viu só? Acovardou-se, acovardou-se diante da realidade, acovardou-se! Ao contrário, queria mostrar para toda aquela corja que não era absolutamente o covarde que eu mesmo me imaginava. Além disso: no mais intenso paroxismo da minha febre covarde, eu sonhava sair vencedor, fasciná-los e obrigá-los a me amar” (típico delírio narcisista, tentativa de recuperar a satisfação primordial, contrariada pelo Princípio da Realidade [10]). O “preferia não fazer” não tem efeito sobre ele, é movido por forças mais primitivas do que a vontade racional. E para o leitor e tão exasperante quanto aquele que prefere não fazer e não faz mesmo.

E é claro que acaba sendo o primeiro a chegar. Os outros só aparecem uma hora depois, em grupo (lembrem-se: eu sou único e eles são todos). O que mais impressiona o narrador é a atitude senhorial de Zverkov com relação a ele: Quer dizer que ele se considerava agora imensamente superior a mim em todos os sentidos?”

Símonov diz sem mais nem menos que esqueceu de avisá-lo da mudança de horário (com certeza, pensou que o narrador não teria cacife para participar da pândega). Ao ouvir Ferfítchkin dizer que não admitiria que fizessem isso com ele, Zverkov lança uma farpa mortífera: “Você mandaria que lhe servissem alguma coisa, ou simplesmente pediria o jantar, sem esperar, ou seja todos parecem querer que ele esteja cônscio da penúria e fracasso da sua vida: “De desgosto, tomei vários copos de Lafitte e xerez. Como não estava habituado, fiquei logo ébrio e, com isso, cresceu ainda mais meu ressentimento. De repente me deu a vontade de ofender a todos da maneira mais insolente e depois ir embora.”

Na hora dos brindes, ele faz um discurso embaraçoso, apregoando o que odeia e despreza e como ama a “verdade”, a “sinceridade” e a “honradez”, já estava começando a gelar de pavor e não entendia como podia estar dizendo aquelas coisas”, ou seja, ébrio ou não, ele está em performance, num desempenho histriônico para os ex-camaradas, como um “clown” intelectual. Como Ferfítchkin, já cheio, diz que merece um tapa na cara, ele o desafia para um duelo (eu devia estar ridículo desafiando-o, e isso de tal modo não combinava com a minha figura, que todos, inclusive Ferfítchkin, quase rolaram de tanto rir”). Todos querem que ele vá embora, e começam a ignorá-lo. E ele inicia um “passeio” pela sala por três horas. Até os criados olham espantados para aquele sujeito andando para lá e para cá, isolado e alucinado.

Os outros resolvem ir para um bordel, conclamados por Zverkov: “Eu estava tão torturado, tão alquebrado, que estava pronto a me matar para que tudo aquilo terminasse! Estava febril: meus cabelos, empapados anteriormente de suor, estavam secos agora e grudados na testa e nas têmporas.” E aí começa a pedir perdão a todos, e Ferfítchkin zomba dele, dizendo que é “medo de duelo” (é preciso lembrar os preceitos de honra daquela época, e como a palavra covarde tem um peso esmagador sobre um homem) A atitude mais abjeta dele é pedir dinheiro emprestado a Símonov para acompanhá-los ao bordel. A princípio este recusa, mas num último gesto desprezivo joga seis rublos na cara dele e vai embora com os outros, deixando-o sozinho, ou melhor, diante de um lacaio que testemunhou toda a cena.

Pensam que ele vai para a casa? Não, “preferia fazê-lo”, entretanto resolve ir atrás deles no bordel: “Ou eles todos se ajoelham, abraçam minhas pernas e imploram minha amizade… ou eu dou um bofetão em Zverkov!”

Até ele percebe o absurdo e o grotesco da sua fantasia de ter os amigos ajoelhados e implorando sua amizade, mas o mecanismo narcisista da sua mente não pára, e ele chega a se imaginar executando seu plano de agredir Zverkov e depois a prisão, o processo, a demissão, o degredo na Sibéria: Daqui a quinze anos, quando me libertarem, irei me arrastar no encalço dele, em farrapos, na miséria. Hei de procurar até encontrá-lo em alguma cidade de província. Ele estará casado e feliz. Terá uma filha já adolescente. Eu lhe direi: Olhe, monstro, veja minhas faces encovadas e meus farrapos! Perdi tudo, carreira, felicidade, arte, ciência, a mulher amada, e tudo por sua causa. Aqui estão as pistolas. Eu vou descarregar a minha pistola e… e eu o perdôo. Então atiro para o ar e desapareço para sempre…” Que melodramático nosso amigo, e isso num capítulo (é o quinto) que se inicia com a frase: “finalmente aí está o tal choque com a realidade”.

Esse choque se dará, sem que ele se aperceba inteiramente, a partir do crucial capítulo 6, quando o relato ganha novo rumo. No bordel, já não está mais a turma dos seus camaradas e a dona o encaminha para uma das moças, Liza. Horas depois, ele acorda ao lado dela, num quarto quase totalmente às escuras, a não ser pela chama quase extinta de um toco de vela.

Temos então um dos mais penosos diálogos da história da ficção, que podemos resumir assim: após fazer as perguntas de praxe sobre origem, idade e classe social, o narrador segue dois caminhos: um, cruel, tentando vingar-se nela das desfeitas sofridas, e pintando o quadro da vida da prostituta com talento literário, mostrando a juventude indo embora, as doenças chegando, as casas cada vez mais decadentes, até a morte num obscuro porão (ele associa essa trajetória ao cadáver de uma mulher que vira recentemente sendo retirado de um subsolo qualquer); o outro, em que se apresenta como uma espécie de salvador, que deseja o melhor para ela, retirá-la daquela vida e oferecer-lhe um puro e verdadeiro amor, nos moldes daqueles versos de Nekrássov. Um discurso em parte simulado, fingido, em parte verdadeiro, no sentido de que ele tem aqueles impulsos generosos e românticos, ainda que não consiga realizá-los devido aos motivos que conhecemos (a trapaça convive bem com o sentimento”, é a racionalização que ele oferece a si mesmo de mais essa performance). O tempo todo ele “fala como um livro” (eu me tornara tão patético que quase me deu um espasmo na garganta e… De repente, parei, ergui o tronco assustado e, inclinando amedrontado a cabeça, pus-me a escutar, com o coração disparado. Algo perturbador estava acontecendo. Já bem antes eu pressentira que estava revolvendo toda a sua alma e partindo o seu coração e, quanto mais eu me certificava disso, mais queria atingir esse objetivo o mais rápida e poderosamente possível. Foi o jogo, o jogo que me estimulou; aliás, não foi apenas o jogo…” [11] ), como ela inocentemente observa, revoltando-o e fazendo com que ele pinte em cores ainda mais negras a servidão presente e futura destruição que a aguarda. A reação dela é de desespero autêntico, com lamentos que se tornam uivos de dor pela repentina conscientização de sua condição miserável. E o tempo inteiro ele quer marcar sua posição como “superior” a ela, olhando-a de cima, mesmo nos arroubos apaixonados.

Abalado com a reação de Liza, ele se enternece e lhe dá seu endereço, pedindo a ela que o procure.

No dia seguinte, assim como Goliádkin Primeiro após a noite de confidências com seu duplo, o narrador se sente envergonhado com o sentimentalismo e as “compaixões” da véspera e se arrepende amargamente de ter fornecido seu endereço. “Que vou fazer se ela vier? E era esse sujeito que queria um choque de realidade. Ele pede dinheiro emprestado ao chefe de sua repartição para pagar Símonov, enviando uma carta, que, como as do protagonista de O duplo, é um momento psicológico revelador, já que ele se delicia com os próprios mecanismos retóricos, reinstaurando seu narcisismo através deles: “”Até hoje fico deslumbrado quando me lembro do tom verdadeiramente cavalheiresco, afável e aberto da minha carta. Com habilidade, nobreza e, principalmente, sem palavras supérfluas, assumi toda a culpa… Eu fiquei particularmente satisfeito com uma certa leveza, até mesmo beirando a displicência (aliás, inteiramente digna), que de repente transpareceu no meu estilo e, melhor do que quaisquer explicações, deixava-os entender imediatamente que eu encarava toda a sujeira de ontem com bastante independência… Não é que tem uma certa jocosidade digna de um marquês? admirava-me, relendo o bilhete.”

Entretanto, há uma nova e discordante nota: Liza, atrapalhando essa auto-complacência: “Sentia que havia algo dentro de mim, no fundo do coração e da consciência, que se recusava a morrer e se manifestava como uma angústia que me queimava… Não conseguia me controlar nem encontrar uma explicação. No meu íntimo algo crescia, crescia sem parar, dolorosamente, e não queria sossegar… Era como se um crime me pesasse na alma. Tornou-se um tormento para mim a idéia de que Liza viria à minha casa. Eu achaca estranho que, de todas as recordações da véspera, a dela me torturasse de maneira especial, totalmente isolada do resto.”  Ele se acabrunha com o estado da casa, o divã arrebentado, cujo estofamento sai em tufos, com o roupão que usa na intimidade, que mal lhe cobre o corpo,..

Mas o pior é saber que se valeu, com ela, de uma máscara mentirosa[12]: “Quando cheguei a esse ponto, explodi: Por que desonesta? Ontem eu estava falando com sinceridade. Lembro-me de que o meu sentimento era verdadeiro . A tragédia é que o sentimento de fato é verdadeiro, no sentido de ser uma aspiração, porém a máscara não é menos desonesta por isso. Fingir que é dor a dor que deveras se sente é ainda assim máscara. E nesse vaivém entre lembrar com pungência da figura singela e recriminar-se pelos “exageros”, lhe vem à mente os últimos versos do poema de Nekrássov que não figuravam na epígrafe do texto (aqueles em que a mulher perdida, mas amada pelo eu lírico, entra no seu lar como “legítima senhora”).

Estamos no capítulo 8 e de repente uma frase deliciosa e cáustica nos mostra o humor dostoievskiano (que parece prenúncio do teatro de Samuel Beckett, o de Fim de partida): Ainda bem que Apollon me distraiu durante esse período com suas grosserias. E Dostoiévski também vai revelar sua habilidade narrativa ao fazer confluírem, num desenlace teatral, as duas situações que envolvem o narrador: suas relações com Apollon, o criado, e  a expectativa da aparição de Liza, que ele deseja e não-deseja (mostrando a irresolução da sua existência).

Ele afirma que Apollon era uma praga, um flagelo enviado a ele pela Providência: “Nós nos espicaçávamos continuamente havia vários anos… Ele se relacionava comigo de uma maneira totalmente despótica, rarissimamente falava comigo e, se por acaso, olhava para mim, era com um olhar duro, majestosamente autoconfiante e permanentemente zombeteiro… Executava seu trabalho com um ar de quem estava me fazendo enorme favor. Aliás, quase não fazia nada para mim e nem se considerava obrigado a fazer alguma coisa.”

Durante os “dias de espera” da aparição de Liza, está se repetindo um tormento mútuo que segue regras: apesar de ter dinheiro para pagar Apollon, o narrador não o paga. Ele deseja que o criado um dia toque no assunto e seja obrigado a lhe pedir o pagamento (coisas que ele não faz, só lançando olhares “severos” e utilizando outros estratagemas de pressão). Seu desejo maior é que, uma vez conseguindo que Apollon lhe peça o pagamento, ele possa dizer que sim, tem o dinheiro, mas não paga porque não quer, “porque é assim eu quero, porque estou exercendo minha vontade de senhor”. Seria a apoteose do narcisismo, pois pela primeira vez a onipotência da fantasia não seria contrariada pela situação real.

O narrador crê que dessa vez conseguirá seu intento, mas “apesar de tudo Apollon saiu vencedor. Não agüentei nem quatro dias”. A derrota acontece porque está meio fora de si devido à possibilidade de Liza aparecer (e porque deseja ser derrotado, prolongando o tormento). Ele ainda tenta vencer o jogo, com o dinheiro na mão, dizendo que só vai dá-lo se o criado falar com ele com respeito. E recebe a seguinte resposta, esmagadora; “Isso é impossível” Apollon pega o dinheiro e se retira majestosamente. O narrador culpa Liza pelo acontecido e, histérico, ordena ao criado que vá chamar a polícia: quer denunciar a si mesmo: “ao ouvir a minha ordem, soltou uma risada, bufando.” O narrador diz a ele que não tem idéia do que vai acontecer, caso não cumpra a solicitação. Nesse momento de gritos e ataques, ele fica estarrecido ao ver que Liza está parada na porta assistindo à cena (foi por isso que eu afirmei que Dostoiévski entrecruza habilmente as duas situações). Apollon ironicamente anuncia a “visita” e tem início o penúltimo capítulo, o nono, que volta a citar os versos de Nekrássov que instituem a ex-mulher perdida como legítima senhora da casa do generoso eu lírico.

O detalhe mais impressionante do constrangimento entre os dois, quando ficam sozinhos, é o pensamento do narrador: “Eu senti confusamente que ela ainda pagaria caro por tudo aquilo”. E começa a se fazer de altivo, dizendo a ela que não tem vergonha de ser pobre. Quase ao mesmo tempo, corre até o quarto de Apollon e, implorativo, pede-lhe para ir a uma taverna próxima e buscar chá e torradas: Se não quiser ir, vai fazer uma pessoa muito infeliz! Você não sabe que mulher é essa… Ela é tudo!” Altivo é esse Apollon, com a pose com que vai executar essa “ordem”.

Voltando a ficar a sós com Liza (após Apollon ter trazido o que lhe fora pedido), ele pergunta a ela se o despreza. Ela não sabe o que responder e ele fica com raiva: “Ela é a causa de tudo isto, pensava, como se Apollon tivesse perdido o respeito por ele por causa dela! “O principal mártir era evidentemente eu mesmo, porque estava plenamente consciente de toda a baixeza asquerosa daquela minha raiva estúpida, e ao mesmo tempo não conseguia absolutamente me dominar”.

         Liza finalmente diz algo: quer abandonar o bordel. E num capítulo que começou com os generosos e convidativos versos de Nekrássov, recebe a seguinte e generosa réplica: “Para que você veio à minha casa, diga para mim, por favor.” E ele lhe dá uma aula de como é ridícula em pensar que poderia ser salva por ele e revela sua baixeza e mesquinharia, de uma forma tão mascarada e mentirosa como quando fez o discurso de “amor de salvação” na noite em que ficaram juntos (e as lágrimas que eu há pouco não consegui conter diante de você, parecendo uma mulherzinha, nunca lhe perdoarei! E estas coisas que confesso a você agora, também nunca lhe perdoarei… porque sou um canalha, porque sou o mais sórdido, o mais vil, o mais tolo, o mais invejoso de todos os vermes da terra, que não são nem um pouco melhores do que eu, mas que, sabe-se lá por que, nunca ficam constrangidos. Enquanto eu, toda a vida, vou receber petelecos dos mais reles insetos, esta é a minha sina”; note-se que tudo é sincero, mas também tudo é performático, tudo tem que ser hipertrofiado numa onipotência até da abjeção: o MAIS sórdido, o MAIS vil, etc etc).

Eu estava a tal ponto acostumado a pensar e a fantasiar tudo como nos livros e a imaginar que tudo no mundo era igual ao que eu antes havia criado nas minhas fantasias, que nem entendi de repente aquela coisa estranha. O fato foi o seguinte: Luza, que eu humilhara e esmagara, compreendeu muito mais do que eu poderia imaginar. De tudo a que assistira… ela percebeu que eu era infeliz” E ainda assim a coitada permanece ali e se sente inferior a esse fingidor da dor que deveras sente. E pior… ela se atira a ela, enlaçando o seu pescoço e chorando, fazendo-o chorar (“Do que eu tinha vergonha? Não sei, mas tinha”). E mesmo assim ele se permite ter inveja dela, do genuíno que percebe nas atitudes e reações dela. E, por essa razão, ele dá o seguinte desenlace à cena: leva-a para a cama, já que a odeia e sente atração ao mesmo tempo, um sentimento reforçando o outro.

E assim se consuma a sua vingança e chegamos ao último capítulo, em que não encontraremos Liza “livre e orgulhosa”, “legítima senhora” da casa e da vida do narrador.

O capítulo começa quinze minutos depois. Liza está sentada no chão, com a cabeça recostada na cama e já adivinhou que o arroubo sexual do narrador foi a maneira de ele descartar seus sentimentos, os quais não sabe se são autênticos ou fabricados: “…eu já não tinha capacidade de amar, porque amar para mim significa tiranizar e dominar moralmente [portanto, amar para ele é a relação dele com Apollon, patrão e criado a se torturarem]. Toda a minha vida eu nunca pude nem ao menos imaginar outro tipo de amor e cheguei ao ponto de que, agora, às vezes penso que o amor, na realidade, consiste no direito que o objeto do amor voluntariamente concede de ser tiranizado… E também nos meus devaneios no subterrâneo eu não imaginava o amor de outra forma que não fosse uma luta que partia sempre do ódio e terminava com a submissão moral, depois da qual eu não tinha idéia do que fazer com o objeto que se submetera.”

É nesse ponto que ele diagnostica que toda essa dinâmica psíquica acontece por ele estar afastado da “vida viva”, por ter se tornado incapacitado de experimentá-la sem sentir que o ar está lhe faltando. E é assim que se condena perpetuamente ao subterrâneo.

Ele começa a mostrar sinais de impaciência com a presença dela. Ela se veste, se arruma, ele toma sua mão e coloca ali cinco rublos: o que eu posso dizer com certeza é que fiz essa crueldade, mas não de coração, embora tivesse sido intencional, e que a fiz devido à minha cabeça ruim… Essa crueldade era tão falsa, intelectual, inventada, livresca, que eu mesmo não agüentei e ele sai correndo atrás dela, que desaparecera do mapa (na rua, neve, neve, neve).

Quando retorna, percebe que ela deixara a nota de cinco rublos. Em sua má consciência ele racionaliza que talvez tenha sido uma boa lição para ela, que talvez essa experiência de humilhação a purificasse e salvasse a sua vida, ou se não salvasse, ficaria sempre como um saldo de grandeza espiritual, que uma felicidade “barata” não se comparava a um sofrimento “elevado”: “Era isso que me passava pela mente, em casa, naquela noite, quase a ponto de morrer com a dor que trazia na alma. Eu nunca suportara tanto sofrimento e remorso…Nunca mais encontrei Liza e nem ouvi falar dela. Acrescento ainda que durante muito tempo fiquei satisfeito com minhas elucubrações sobre a utilidade da humilhação, apesar de eu mesmo naquela ocasião quase ter adoecido de angústia. Como se vê, o já tantas vezes citado teatro do eu continua com seu moinho em movimento: angústia, autogratificação, racionalização, desvario.

Nas últimas linhas do relato, o narrador se assume como anti-herói, incapaz para a vida, e que no entanto inventa para si uma vida de estufa: “…e por que às vezes ficamos irrequietos, inventamos caprichos? E o que pedimos? Nós mesmos não sabemos. Nós mesmos nos sentiremos pior se nossos pedidos delirantes forem atendidos”. Porque os pedidos delirantes vem da onipotência narcisista e não há suficiente “vida viva” para satisfazê-los.


[1] Assim é o título da tradução de Moacir Werneck de Castro (Bertrand Brasil); a mais tradicional no Brasil, a de Boris Schnaiderman (agora pela editora 34) foi intitulada Memórias do Subsolo, como também a tradução de  Ruth Guimarães, nos “Melhores Contos” (Cultrix); a tradução de Natália Nunes nas “Obras Completas” pela Aguilar chama-se Memórias do Subterrâneo. E agora em 2008 saiu uma nova tradução (direta do russo, como as de Werneck de Castro & Schnaiderman), feita por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares (L&PM), como Notas do Subsolo. Qual a melhor solução? Difícil saber.

[2] Esse meu momento “vidente” não quer dizer que eu ache isso bom. Na minha balança, apesar dos méritos de Notas do Subterrâneo e Um jogador, continuo preferindo O idiota, Os demôniosIrmãos Karamazov.

[3] Em russo, o título é Dvoiník. Só conheço duas traduções: a de Natália Nunes (nas “Obras Completas” da Aguilar) e a de Vivaldo Coaracy (pela José Olympio, como O Sósia).

[4] Notas do Subterrâneo: “Entregava-me com amor à mediocridade geral e com toda a alma temia qualquer sinal de excentricidade em mim. Mas como eu poderia ter resistido? Eu era instruído de uma maneira doentia, como deve ser o homem instruído do nosso tempo. Já eles, eram todos obtusos e parecidos uns com os outros, como um rebanho de carneiros. Talvez somente eu, em toda a repartição, tivesse permanentemente aquela impressão de ser covarde e servil, e isso se dava justamente porque eu tinha cultura. Mas não era apenas questão de parecer: de fato, eu era um covarde e um escravo. Digo isso sem nenhum constrangimento. Todo homem honesto neste nosso tempo é e deve ser um covarde e um escravo. Essa é a sua condição normal.”

[5] Concordo que a experiência de ler esse texto-performance é muitas vezes exasperante, ainda que de uma exasperação radicalmente diferente da que experimentamos com o personagem Bartleby. Mas é admirável a energia cênica que ele imprime, quando, após um jorro de palavras, consciente de que está sendo lido (daí o “fingimento” histriônico), ele diz, por exemplo: “Esperem! Deixem-me tomar fôlego! Acaso os senhores estão pensando que quero fazê-los rir? Ou ainda: Agora desejo lhes contar, queiram ou não ouvir, por que não consegui me tornar nem ao menos um inseto. Isso já é tanto Samuel Beckett quanto Pessoa.

[6] Ele estende isso a todos os homens: É a pura verdade. Observem-se melhor, senhores, e verão que é assim.”

[7] É preciso não esquecer também que o sempre polemista Dostoiévski escreveu essa primeira parte como uma resposta a uma narrativa famosa na época, Que fazer? (1863), de Nikolai G. Tchernichévski, uma espécie de romance programático do socialismo utópico. A imagem do Palácio de Cristal, aludida pelos dois textos, deriva-se do edifício de vidro construído em Londres para uma Exposição Internacional, representando o Progresso alcançado pela Civilização. Essa imagem do Palácio de Cristal foi a pedra-de-toque da análise do texto de Dostoiévski por Marshall Berman no clássico Tudo o que é sólido desmancha no ar (Companhia das Letras).

Há um trecho particularmente nietzschiniano: E porque os senhores estão assim tão firme e solenemente convencidos de que apenas o que é normal e positivo, ou seja, o bem-estar, é vantajoso para o homem? … Quem sabe o homem ame não apenas o bem-estar? Quem sabe ele não ame igualmente o sofrimento? Quem sabe o sofrimento é para ele tão vantajoso quanto o bem-estar? O homem, às vezes, ama o sofrimento de maneira terrível, apaixonada; isso é um fato. Para isso não há necessidade de consultar a história universal. Perguntem a si mesmos, se é que os senhores são homens e já viveram nem que seja um poucoEstou convencido de que o homem nunca renunciará ao sofrimento verdadeiro, isto é, à destruição e ao caos”.

[8] Note-se que ele se encontra na taverna porque, assim como o Dr. Jekyll, tem de vez em quando a necessidade de “vida irregular: “Surgia uma sede histérica de contradições, de contrastes, e entregava-me então à devassidão (isto é, ele virava, sem precisar desdobrar-se, um Goliádkin Segundo).

[9] Eu tinha sido colocado naquela escola por uns parentes distantes, dos quais eu dependia e de quem nunca mais soube nada. Deixaram-me lá, órfão…” É interessante notar que mesmo antes desse abandono, ele já era pensativo, calado, e desconfiado. Na escola, ele se isola num orgulho assustado, ferido e exagerado”.

[10] As ligações de Notas do Subterrâneo com O duplo são visíveis: basta ver como o narrador vai ao Hotel de Paris: “… embarquei no carro de luxo que contratara com meus últimos cinqüenta copeques e, como um senhor importante, cheguei ao Hotel de Paris.”

[11] Eu gosto muito de Notas do Subterrâneo quando atinge esse ponto balbuciante do estilo, uma frase meio que negando, relativizando a anterior, o que dá a medida de um discurso onde o narrador tem uma identidade difusa, fragmentada, ele mesmo não se conhecendo e não sabendo até que ponto finge, fala a verdade, usa máscaras. Teatro do eu.

[12] Vocês devem lembrar da preocupação de Goliádkin com máscaras pregadas na cara, e, aliás, é uma das epígrafes gerais desta aula.

27/09/2011

Parede e muro: O médico e o mutismo do monstro

Aproveito para colocar aqui no blog o texto-irmão de O MÉDICO E O MONSTRO LOQUAZ (https://armonte.wordpress.com/2012/03/18/autodiagnosticos-febris-o-medico-diante-do-monstro-loquaz/); escrevi ambos para a segunda aula do curso de maio-junho de 2008, AS MARGENS DERRADEIRAS– alerto que, como os demais textos que coloquei dessa safra, toda a linha argumentativa é extraída de uma interpretação freudiana da obra condutora do curso, O ESTRANHO CASO DO DR.JEKYLL  E DO SR. HYDE

 

“A burguesia, cortando-nos os laços com os nossos contemporâneos, encerra-nos no casulo da vida privada e define-nos, às tesouradas, como indivíduos. O que significa: como moléculas sem história que se arrastam de um instante para o outro. Pela contingência do nosso ancoramento na Natureza e na História, isto é, pela aventura temporal que nós somos no interior da aventura humana, descobrimo-nos singulares. Assim, a história nos faz universais na medida exata em que a fazemos particular.”

(Jean-Paul Sartre, “Merleau Ponty”, 1961)

Bartleby, o escriturário [1] foi publicado em 1856 (o ano do nascimento de Freud, em seis de maio) na coletânea The Piazza Tales. Já era a fase em que os escritos de Herman Melville não despertavam qualquer interesse, contrariando a expectativa comercial (e, para os padrões da época, artísticas) dos seus primeiros livros, enquadrados como “exóticos”, relatos aventurescos de mares distantes (tais como os  relatos similares de Robert Louis Stevenson décadas mais tarde): Typee (1846) e Omoo (1847)[2] .

Tendo como subtítulo “Uma história de Wall Street” (detalhe nem um pouco irrelevante, como veremos), Bartleby é narrado pelo patrão do personagem-título, muitos anos depois dos acontecimentos. Esse narrador, já de “certa idade, acaba de sofrer um golpe em sua carreira, que talvez tenha lhe dado o lazer e a motivação para remexer num episódio tão ínfimo, falando de um indivíduo insignificante de quem tem informações “escassas” e “vagas”: “Pouco antes da época em que esta pequena história começa, minhas ocupações haviam aumentado consideravelmente. O antigo e rendoso cargo —ora extinto no estado de Nova Iorque— de Conselheiro do Tribunal da Chancelaria, tinha-me sido conferido. Esse cargo, sem ser muito árduo, era no entanto perfeitamente compensador. Eu raramente perco a calma; muito mais raro ainda é eu me entregar a perigosas indignações perante erros e ofensas; mas permitam que aqui me deixe arrebatar declarando que considero a súbita e violenta extinção daquele cargo, decretada pela nova Constituição, como um ato…prematuro! tanto mais que eu contava com rendimentos vitalícios e, assim, só recebi proventos de uns breves anos. Mas falei disto só de passagem.”

Gostaria que não se perdesse esse trecho de vista, uma vez que ele será alavanca para nos ajudar a entender o narrador, tal como acontece com o Sr. Utterson em Jekyll & Hyde. Por enquanto, registremos apenas a matreirice do autor, “falei disto só de passagem”, como se numa narrativa curta e cerrada (não há divisão em capítulos ou segmentos) como Bartleby algo pudesse ser só de passagem.

Pois bem, o narrador tinha um escritório meio tabelionato meio advocatícioem Wall Street.Aprincípio se valia de três funcionários: dois mais graduados (Mr. Turkey ou Sr. Peru e Mr. Nippers ou Sr. Alicate) que se alternam em produtividade e atitudes extravagantes, isto é, um é sóbrio, comedido e eficiente pela manhã (Turkey) enquanto o outro parece vítima de indigestão e mau-humor, continuamente irrequieto e insatisfeito com os apetrechos e móveis  (Nippers), enquanto à tarde, um se torna falastrão e meio inconveniente, além de relaxado (Turkey), contrabalançado pela atitude mais calma e suave do colega (Nippers), mantendo-se assim o equilíbrio; também há um aprendiz e contínuo, guri, Ginger Nut, “Noz de Gengibre” (na versão de Irene Hirsch, Pão-de-Mel), o qual adquiriu tal nome devido à sua infatigável disposição de comprar para os outros funcionários bolinhos de gengibre.

Num dado momento (justamente quando o narrador é investido do cargo cuja extinção lhe é tão revoltante), é preciso contratar mais um escriturário (ou copista, é bom lembrar que é ainda uma época de cópias feitas à mão, antes mesmo das máquinas de escrever) e então… Bartleby: Em resposta a um anúncio, apareceu certa manhã no meu escritório um jovem… Ainda me parece estar vendo essa figura: um lívido perfil, tristemente respeitável, incuravelmente perdido!” Para o narrador, é um alívio contratar um jovem tão apagado, diante da fogosidade e arrebatamento alternados dos seus dois funcionários veteranos.

O escritório é dividido por portas de vaivém, patrão num cômodo, empregados no outro. Bartleby é instalado na parte do patrão, com um biombo para separá-los, ficando, como se diz no relato, “ao alcance da voz”. Isso fornece ao novo funcionário a seguinte vista: “Coloquei a sua escrivaninha junto de uma pequena janela lateral que originalmente proporcionava uma vista meio de lado para uns pátios sombrios, de tijolo, mas que agora, devido a subseqüentes construções, não dava para vista nenhuma, embora filtrasse algumas réstias de luz. A três pés das vidraças, erguia-se uma parede, e a luz descia do alto entre dois prédios altos, como de uma pequena abertura numa cúpula. Portanto, Bartleby vai se instalar  de uma forma no coração de Wall Street que parece tornar literal o significado do nome, “Rua da Parede” e que nos faz avaliar bem as perspectivas de sua existência como insignificante peça burocrática, que está ali à mão, “ao alcance do ouvido”. Justamente nessa condição, um dia o patrão o convoca para conferirem juntos um documento original e sua cópia (para verificar sua exatidão): “…sentei-me logo à escrivaninha com a cabeça inclinada para o original e estendendo impacientemente a mão direita para o lado com a cópia, de maneira que Bartleby, mal saísse do seu retiro, pudesse pegá-la e começar a tarefa sem mais demora.”  Todavia, ele ouve uma resposta inacreditável (e uma das frases mais célebres da ficção): I would prefer not to”, “Prefiro não fazer” [3]. O que impede o empregador de despedi-lo na hora; de, como diz, escorraçá-lo sem mais delongas do escritório? O fato de não sentir “inquietação, raiva, impaciência” ou, mais importante, “impertinência”: “O que fazer?  Mas o trabalho era urgente e resolvi deixar por isso mesmo o incidente, reservando-o para horas vagas”. Começa então a estranha relutância desse édipo em enfrentar o enigma da esfinge, ou pelo menos agir. Se Bartleby “prefere” não agir, o seu patrão não se decide a agir. Em poucos dias, acontece novo incidente e a mesma frase, desta vez testemunhados pelos outros três assalariados: “Com qualquer outro que não ele, eu teria ficado imediatamente irado, e, sem mais explicações o teria ignominiosamente banido da minha presença. Mas havia em Bartleby algo que na apenas me desarmava estranhamente, mas que, de certa forma, me tocava e me desconcertava. E o leitor? Creio que se o leitor contemporâneo se exaspera, imagine o da época, que nunca encontrara pela frente personagem desse tipo. Mas deixemos para depois de repassar o texto essa questão que me parece importante, a da reação do leitor. Por sua vez, o tipo de reação quase passiva de Bartleby (e nada irrita tanto uma pessoa série quanto uma resistência passiva), apesar da enormidade do seu “preferia não fazer”, é evidenciado pelo trecho seguinte:

Narrador: É como sempre se faz. Todo copista deve conferir sua cópia, não é assim? Não quer falar? Responda!

    (…) Tive a impressão de que, enquanto lhe falava, ele pesava cuidadosamente as minhas ponderações e que ele apreendia plenamente seu significado mas, ao mesmo tempo, uma soberana consideração o forçava  a responder daquele jeito.

Narrador: Então está decidido  a não fazer o que lhe peço? Mesmo sendo o meu pedido de acordo com a praxe e o bom senso?

    Em breves balbucios, ele me deu a entender que, nesse ponto, o meu raciocínio era correto. Sim: mas sua decisão era irrevogável!”

E é justamente a praxe e o bom senso que são colocados em xeque, já que a decisão irrevogável de Bartleby “desautomatiza” o quotidiano, obriga patrão e colegas a conviverem com algo completamente inusitado. E um outro efeito colateral: a atitude de Bartleby (Entrementes, permanecia sentado no seu canto, alheio a tudo que não fosse seu próprio e peculiar trabalho ali) força seu patrão a prestar atenção nele: “Sua última conduta memorável levou-me  a observar de perto sua atividade. Constatei que nunca saía para comer; que, aliás, nunca ia a parte alguma. Também não me lembro de tomar conhecimento de sua vida fora de meu escritório. Ele era uma sentinela perpétua naquele canto.” Embora se ocupe intimamente do “problema” que surgiu em sua vida, o narrador chega à conclusão provisória de que as excentricidades do empregado são involuntárias e de que ele lhe é útil, ainda assim. E sua auto-gratificação se compraz em manter Bartleby, auxiliá-lo mesmo, “agradá-lo em sua estranha obstinação”, o que custaria nada ou muito pouco: “Se eu demiti-lo, ele pode acabar com algum empregador menos indulgente, sendo tratado de forma rude, e talvez miseravelmente levado a passar fome”. Apesar dessa predisposição tão indulgente e boa para a auto-estima, a atitude de Bartleby o espicaça por dentro e ele procura criar situações, num “impulso diabólico”, um desiderato meio inexplicável, que levem o estranho funcionário a responder-lhe da mesma forma: Eu ardia por ser contrariado novamente”. Assim como o Sr. Utterson de Jekyll & Hyde, o narrador é um pouco nosso representante na trama e nos identificamos com seus sentimentos. Mas é preciso ser um leitor daquela época, ainda não treinado pela suspeita pós-nietzschiniana e freudiana, para não ver nesse ardente desejo de ser contrariado o impulso de Thânatos presente no id de ver tudo se desmantelar, de mandar às favas o edifício laboriosamente construído pelo esforço quotidiano, a meada cinzenta se desenrolando em frente a uma parede. Tudo bem que o superego afague o ego com idéias de bondade, generosidade e indulgência.

Há regras no jogo entre eles: Bartleby nunca aparece na primeira invocação do seu nome (“Como um fantasma, submetido às leis da invocação mágica, ao terceiro chamado ele apareceu à entrada de seu eremitério, lemos numa cena em que ele se recusa a ir à sala contígua chamar o colega Nippers). E o resultado do jogo: “…em pouco tempo se tornara fato concreto em meu escritório que um jovem escriturário pálido, que atendia pelo nome de Bartleby, tinha uma mesa lá; que ele fazia cópias para mim pela tarifa habitual de quatro cents por página (cem palavras), mas que ele estava permanentemente isento de conferir o trabalho feito por ele… além disso, o dito Bartleby em hipótese alguma era enviado em qualquer tipo de serviço trivial fora do escritório; e que mesmo que se lhe solicitasse fazer algo do gênero, normalmente ficava claro que ele preferia não fazer; em outras palavras, que ele simplesmente se recusava a fazer”. Vocês devem notar a ênfase constante do que é habitual (a tarifa habitualmente paga de 4 cents, conferir as cópias com o original) como argumento de qual deveria ser a atitude “normal”, isto é, ancorada no hábito, de Bartleby, e que ele contraria. Um dos encantos da narrativa é a necessidade contínua de racionalização (afinal, estamos em pleno coração de Wall Street, um lugar não muito afeito a fantasmagorias) da tolerância à peculiaridade bartlebyana: Sua constância, seu comedimento, sua produtividade incessante (exceto quando, de pé, atrás do biombo ele preferia sonhar acordado), seu absoluto silêncio e seu comportamento inalterável faziam dele uma aquisição valiosa. O mais importante de tudo era o seguinte: ele estava sempre lá.”

E é esse “ele estava sempre lá” (ou seja, era o primeiro a chegar, o último a sair), tão inocente e aparentemente tão importante no cômputo geral positivo, que levará o relato à sua próxima volta do parafuso, como se o primeiro ato tivesse terminado. Desse primeiro ato, que eu arbitrariamente delineei numa narrativa fortemente cerrada, uma palavra se destaca, em retrospecto: concessão. Foram feitas concessões inusitadas a um mero empregado. O motivo básico e inconteste: a produtividade em copiar, não importando a recusa em circunstâncias mais intermitentes. Bartleby é esquisito, porém é uma peça que funciona na engrenagem. Por ora.

Então, numa manhã de domingo as coisas mudam de figura: o narrador quer ouvir um pregador famoso na Trinity Church e, estando um pouco adiantado, resolve dar um pulo ao “seu” escritório. Anteriormente, ele nos explicara que havia algumas cópias das chaves: uma, com ele; outra, com Turkey, funcionário mais graduado; outra, com a faxineira; a quarta… ele não sabia com quem ficava. Vai descobrir: tenta colocar a sua na fechadura, notando que há resistência: “para minha consternação, uma chave girou do lado de dentro e segurando a porta entreaberta surgiu o rosto esquálido de Bartleby, o qual estava em mangas de camisa e num estranho e esfarrapado roupão, dizendo em voz baixa que sentia muito, mas estava muito ocupado naquele momento e preferia não permitir minha entrada, sugerindo-lhe que desse uma ou duas voltas pelo quarteirão, enquanto ele concluía os tais afazeres. O patrão obedece, e sua cabeça roda à procura de explicações (descartando as hipóteses mais imorais, pelo que conhece de Bartleby), até que volta ao escritório e o encontra desimpedido. Indícios revelam que o empregado se aloja ali como uma “alma penada”: “De pronto senti todo o drama: Que solidão e desamparo terríveis estão sendo revelados aqui! A sua pobreza é grande, mas a sua solidão… que horror! Pensem nisso. Num domingo, Wall Street é tão deserta quanto Petra, e todas as noites de todos os dias são um imenso vazio. E até este edifício, que nos dias de semana fervilha com vida e labor, à noite ecoa de tão absoluta inatividade e durante todo o dia dominical jaz abandonado. E é daqui que Bartleby faz seu lar…”  [4]Engraçada essa idéia de um lugar de alienação e mais valia parecer aconchegante nos dias de exploração do trabalho. Infelizmente, é um sentimento que todos nós temos: os lugares de atividade e agitação, abandonados, nos dão um sentimento intenso de desolação e de inóspito.  A superioridade indulgente do patrão sofre um profundo arranhão: “Pela primeira vez em minha vida, fui tomado por um sentimento de opressiva e doída melancolia. Eu não conhecera até então senão uma leve e nada desagradável tristeza. O laço comum da humanidade fez com que eu fosse golpeado por um irresistível desalento… Pois tanto eu quanto Bartleby éramos filhos de Adão.”

Do território da concessão, partimos agora para o reino da empatia. Ele relembra todos os indícios da pobreza (nunca o vira lendo nem um jornal, nunca ia a lugares para fazer uma refeição, nunca bebia cerveja, ou mesmo café ou chá) e da solidão (nunca soubera de um parente): “E acima de tudo, lembrei-me de uma certa expressão inconsciente de, como definir?, combalida altivez, pode-se dizer, ou uma certa reserva austera.

Só que a empatia é contraproducente e ao lembrar de todos esses indícios, instala-se (eu diria, reafirma-se) nesse outro filho de Caim o sentimento de prudência. Ele poderia ajudar Bartleby, realmente? “Eu poderia oferecer compaixão a seu corpo, mas não era seu corpo que lhe doía; era sua alma que sofria, e a sua alma eu não conseguia alcançar”. O médico está alienado de seu paciente, não há comunicação possível entre a margem de cá e a derradeira onde o outro se encontra. Um dos maiores encantos de Bartleby é a obstinada recusa de Melville em nos dar acesso à mente de seu personagem, e assim é fato: não conseguimos alcançar sua alma.

O narrador bem que tenta: faz perguntas a Bartleby a respeito de onde nasceu ou qualquer fato importante da sua vida. Prefiro não dizer, prefiro não contar, eis as respostas. Aliás, Bartleby prefere não responder. Irritado com tal ingratidão renitente, o impulso de demiti-lo é frustrado pela sensação de que seria impossível fazer mal ao mais infeliz dos seres humanos. Ele pede a Bartleby que seja razoável, pense com calma e adapte-se à rotina, como os outros. Resposta: “No momento, prefiro não ser um pouco mais razoável”. Aliás, a praga do verbo preferir pega no escritório e todos acabam  utilizando-o quase como um ato falho.

E Bartleby radicaliza (e nesse momento, creio que é a experiência comum, o leitor é levado à mesma exasperação sentida pelo narrador): No dia seguinte notei que Bartleby nada mais fez senão ficar de pé em frente de sua janela, no seu devaneio com a parede sinistra. Quando lhe perguntei por que, respondeu que decidira não escrever mais. Exclamei: O quê?! Mas o que é isso agora?! Não vai escrever mais? Ele: Não. Eu: E qual a razão? Ele: O senhor mesmo não vê a razão?” Esse trecho é importante porque se trata de um dos raros momentosem que Bartleby se manifesta diretamente. A arrepiante frase “o senhor mesmo não vê a razão?” parece levar o quotidiano a bater de cara naquela parede em frente, obsedante e determinante. É como se a razão estivesse ali materializada, à frente de ambos.

Prudentemente, o narrador deixa passar alguns dias para voltar à carga. Como Bartleby persiste em sua posição, ele lhe paga o salário, mais uma gratificação e diz: “Chegou a hora; precisa deixar este lugar. Lamento por você. Aqui tem dinheiro, mas trate de ir embora, já que é uma aberração no mundo prático e capitalista um funcionário que se recusa a trabalhar. Que preferia não trabalhar, melhor dizendo, e ao manifestar tal preferência concomitantemente a pratica. Resposta: “Prefiro não ir. O patrão insiste, lhe estende as notas de dinheiro e lhe saúda com um adeus: “Ele não retrucou sequer uma única palavra; tal como a derradeira coluna de um templo em ruínas, continuou de pé, mudo e solitário, no meio da sala deserta.”

E temos mais um jorro autocongratulatório do narrador por ter resolvido a situação com tanta elegância e discernimento: “…minha vaidade sobrepujou a minha compaixão. Não deixava de me congratular efusivamente pela forma magistral com que me livrara de Bartleby… A beleza do meu procedimento parecia consistir na sua perfeita tranqüilidade. Não houve a menor ameaça vulgar nem qualquer espécie de bravata…nem caminhadas exaltadas pela sala, berrando para Bartleby pegar seus cacarecos e ir embora com eles.” Ainda assim, ele fica apreensivo: irá realmente o escriturário embora? “Imaginei que toda a Broadway participava da minha ansiedade e discutia a questão comigo”. Ele vai mais cedo ao escritório e se depara com a presença de Bartleby, que não lhe permite a entrada, alegando estar ocupado. E o narrador mais uma vez obedece “ao poder assombroso que o inconcebível escriturário tinha sobre mim, poder do qual não conseguia escapar. É algo sem precedentes, como se o escriturário da triste figura tivesse obtido um triunfo sobre ele.

O que se poderia fazer? À pergunta: Você vai ou não vai me deixar? a inevitável, nevermoriana resposta será: “Prefiro não deixá-lo e se não fosse tão estranho dizer isso de tal personagem, parece haver uma ponta de malícia. Ou seria o mais absoluto desamparo? Revolta impotente do patrão: Mas que direito se arroga você para ficar aqui? Paga aluguel? Paga meus impostos? Ou será que este lugar lhe pertence?”

E assim Bartleby passa os dias no escritório, sem fazer nada, atrás do biombo, olhando a parede. O nirvana em Wall Street.Nummomento de auto-ironia, o narrador chega a dizer pra si mesmo: “… nunca me sinto tão à vontade como quando sei que você está aí. Pelo menos, eu sinto, vejo, penetro a razão-de-ser predestinada de minha vida. E fico contente. Outros terão papéis mais relevantes a desempenhar; quanto a mim, a minha missão no mundo, Bartleby, é a de lhe proporcionar um escritório para todo o tempo que desejar.” Ora, tal situação não poderia deixar de ter repercussão e se espalhar por Wall Street, o que desmoraliza o escritório e afasta alguns clientes, impressionados com o “fantasma que morava no meu escritório”, que não dá respostas e nem aceita tarefas, o que acaba por esgarçar a empatia do narrador. A meada cinzenta quer recuperar seus direitos… que nenhum fio fique solto: “Resolvi reunir todas as minhas energias e livrar-me de uma vez por todas daquela intolerável assombração” Mas há um lado Hamlet no narrador, que se atormenta: O que fazer? O que decidir? Ele então avisa Bartleby de que passou a achar inconveniente o local do escritório e pretende mudar-se. E que Bartleby não é convidado a acompanhá-lo na mudança: “No dia marcado, contratei carroças e carregadores, fui até o escritório e, como tinha poucos móveis, tudo foi retirado em poucas horas. Do começo ao fim da mudança o escriturário permaneceu de pé atrás do biombo, que eu determinara fosse a última coisa a ser removida… assim que o biombo foi retirado…ali ficou o imóvel ocupante na sala vazia. Demorei-me alguns instantes no vestíbulo para o observar, enquanto algo dentro de mim me censurava.” Mesmo assim ele se despede, “livrando-se” do peso morto, e podemos dizer que se encerra o segundo ato.

No novo escritório, por vários dias o narrador sente a inquietude e o temor de encontrar algum dia Bartleby ali instalado, ”cada ruído de passos no corredor deixava-me sobressaltado” … “mas esses medos eram desnecessários. Bartleby nunca me procurou.

Quem o procura é o novo locatário, que lhe comunica, angustiado, a permanência absurda de Bartleby e lhe diz: “o senhor é responsável pelo homem que lá deixou. Ele se recusa a fazer qualquer cópia, recusa-se a fazer qualquer coisa…recusa-se a deixar o local”. Nosso amigo argumenta que o desanimado fantasma: “não é nada meu.. não tem comigo qualquer relação nem é meu parente” e dias depois é novamente incomodado. Bartleby foi expulso do escritório e agora se recusa a sair do edifício: de dia  senta-se no corrimão das escadas  e de noite dorme no vestíbulo.  Todos estão se queixando. Clientes estão abandonando os escritórios…” E assim cabe ao narrador tomar providências, algo que ele preferia não fazer, com certeza, horrorizado com a idéia de se confrontar com Bartleby e sua própria má consciência.

Ele vai até o edifício, leva Bartleby até o antigo escritório e lhe expõe os fatos. Reposta: No momento, prefiro não me mudar”. O narrador lhe faz ofertas de empregos. Ele recusa, embora deliciosamente acrescente: “Mas não sou exigente(outra de suas raras manifestações, além das recusas em fazer algo que todos acham ser de praxe, habitual, razoável ou de bom senso). Como última cartada (e revelando uma motivação psicológica surpreendente), o narrador o chama para ir morar na sua casa. O monstro: “Não, no momento prefiro não me mudar”.

O narrador se vai, quase fugindo, querendo se afastar daquele demônio de recusa. Chega até a viajar e, na volta, encontra uma carta com a notícia de que Bartleby foi recolhido à Prisão Municipal por vadiagem. Nosso amigo vai até lá: “Assegurei… que Bartleby era um homem perfeitamente honesto e, apesar de suas inexplicáveis excentricidades, digno da maior compaixão. Contei tudo o que sabia a seu respeito e terminei sugerindo que lhe tornassem a detenção tão branda quanto possível, até que algo menos severo se pudesse fazer—ainda que, na verdade, eu não soubesse bem o quê.” Ele pede autorização para vê-lo e o encontra “de pé, completamente só no pátio mais isolado, o rosto voltado para uma alta parede” (isto é, continuando sua existência no escritório em Wall Street). Ao ser interpelado elo antigo patrão, replica: Já o conheço, e nada tenho a lhe dizer”. É quase uma acusação, mas de quê? Será que é mesmo uma acusação? Será que o narrador é mero representante de uma humanidade da qual o escriturário se desligou, como o Homem Invisível de Wells, no veredicto do Dr. Kemp?

Bem, de todo jeito, o narrador procura mitigar a existência do antigo funcionário, dando propinas a funcionários do lugar para que protejam e alimentem o rapaz. Mas Bartleby prefere não jantar. Dias depois, ele volta e encontra Bartleby integrado definitivamente à condição que escolheu: “O pátio estava numa calmaria total… Estranhamente enroscado ao pé do muro, joelhos fletidos, deitado de lado e com a cabeça encostada às pedras frias, assim deparei com o definhado Bartleby. Não se movia. Parei, depois avancei e, debruçando-me sobre ele, vi que seus olhos nublados estavam abertos; parecia, no entanto, profundamente adormecido. Não sei o que me levou a tocá-lo. Peguei sua mão, e um calafrio agudíssimo subiu pelo meu braço, desceu-me pela espinha e estremeci da cabeça aos pés.” O homem “da bóia” da prisão se achega e reclama que Bartleby nunca come. Vive sem comer?” O narrador responde: “Vive sem comer”. O homem ainda pergunta: Ele está dormindo. Resposta do narrador: “Com reis e conselheiros.

O narrador tem ainda uma última palavra a dizer, embora um prosseguimento da história “seja desnecessário”. Trata-se de uma versão, ou de um boato que ouviu sobre a vida pregressa ao escritório do esquisito funcionário: “Bartleby teria exercido uma função subalterna na Seção de Cartas Extraviadas, em Washington, da qual fora repentinamente demitido por uma reforma administrativa. Quando penso sobre esse boato, nem sei exprimir de forma adequada as emoções que sinto. Cartas Extraviadas! Não soa a homens extraviados? Concebam um homem propenso, por natureza e sina, a uma pálida desesperança: haverá melhor posto para desesperá-lo do que o contínuo manuseio dessas cartas extraviadas, mortas, e com elas alimentar a fornalha? Porque são incineradas todos os anos, às carradas. Por vezes, dentre as folhas dobradas de uma carta, o pálido funcionário retirava uma anel, o dedo ao qual estivera destinado estava talvez apodrecendo no túmulo; uma cédula remetida com solícita caridade, e aquele a quem se destinava a socorrer já não come, já nem tem mais fome; perdão para aqueles que morreram no desespero; boas notícias para seres que morreram na desgraça. Com mensagens de vida, essas cartas corriam para a morte.”

O aspecto que mais chamou a minha atenção na releitura de Bartleby que fiz para o curso foi o de como somos, no fundo, burgueses domesticados, nós, os leitores. Afirmei mais atrás que o narrador é nosso representante como o Sr. Utterson o é na tessitura da trama e da narrativa do texto de Stevenson. Ora, por que ele nos parece tão “natural” e “humano” em contraste com o quase inumano escriturário que prefere não fazer coisas de forma cada vez mais radical? Uma parte é fruto da construção do foco narrativo, lógico: vemos os fatos através dos olhos do patrão de Bartleby; o problema, creio eu, encontra-se mais fundo: somos leitores treinados num mundo de perda de “valores”, um mundo de suspeita (fruto da psicanálise), ou seja, em que a “normalidade” é colocada em xeque, bem como a “ordem” e o “progresso” conquistados pela burguesia; nem por isso deixa de ser para nós exasperante e enervante o comportamento do pálido escriturário, ao se recusar a trabalhar, ou condescender a cumprir as tarefas mais triviais, ou depois, mais tarde, a se retirar do escritório, ou ser acolhido na casa do ex-patrão, ou alimentar-se na prisão… Não nos identificamos com isso, tal atitude nos impacienta e nos aliena dele, consegue a nossa “concessão” (por abrir uma brecha crítica no automatismo do quotidiano), todavia não a nossa adesão ou “empatia” (no sentido de dizermos, “eu também sou um Bartleby”).

E assim, de certa forma, damos nosso aval ao mundo da produtividade e da atividade, o mundo “Wall Street”, em que a vida de um Bartleby é absurda, por que uma pessoa que tivesse a atitude do escriturário como um nosso colega, um nosso assalariado, alguém que convivesse conosco, nos deixaria malucos. Ou não?  É só recapitular: até o “terceiro ato” e o dilema que a recusa de Bartleby em deixar o edifício é resolvido por seu recolhimento à prisão, sua atitude positivamente nos desconcerta, mesmo que tenha um lado comicamente sinistro, como apresentam também os textos de Kafka (não copiar mais, não deixar o patrão entrar no próprio escritório). Ainda é um teatro do absurdo. Só as páginas finais revelam, no fundo, uma atitude trágica, de uma pessoa que não tem mesmo lugar no mundo em que as cartas em que perdões, esperanças, auxílio, prendas, destinavam-se a pessoas vivas, e que, extraviadas, são como símbolos de assombração, da morte que paira sobre a existência, no (no)nada que é a vida pode ser, se olharmos muito a mesma parede, copiando (a 4 cents por palavra, cem delas por página) documentos atrozes por serem outras tantas paredes na vida: certidões, testamentos, procurações, e o mais que houver na burocracia.

Eu tenho para mim que a empatia do narrador para com seu estranho funcionário, é retrospectiva, advinda da perda do cargo importante, que também lhe deixou a sensação de ser um elemento “sem lugar” no mundo produtivo, apesar das boas opiniões a seu respeito (como o ilustre John Jacob Astor, que ele invoca). Por que não deixa de ser contraditório, para quem nos afirma que ele e Bartleby eram ambos, “filhos de Adão”[5] (e isso me lembra o Sr. Utterson, afirmando, como homem indulgente que era, sua “inclinação pela heresia de Caim”, deixando seus semelhantes procurarem sua danação pelas próprias pernas), ele nunca ter feito o menor gesto para tirar Bartleby da prisão, e, sobretudo, esse trecho esclarecedor, no qual o narrador expressa seus temores quanto à permanência do pálido escriturário em seu escritório ad aeternum: “…fui assaltado pelo pensamento de que ele poderia ter uma vida muito longa e continuar ocupando a minha sala e negando a minha autoridade, constrangendo  meus visitantes, manchando minha reputação profissional, projetando a sombra da melancolia e da desconfiança no ambiente, sendo capaz de manter a alma grudada ao corpo graças às suas economias… e no final talvez viver mais do que eu e reclamar a posse do meu escritório por direito de ocupação perpétua”. Um trecho de admirável egoísmo. Quem é o monstro, afinal? Não irei ao ponto de dizer que, no fundo, no fundo, ele queira ver Bartleby neutralizado (recolhido em casa ou na prisão) ou mesmo destruído. Mas já não temos uma visão tão bondosa assim do seu empregador. Porventura devemos compartilhar sua perplexidade, só que não podemos nos aliar a ele, que só pensou em Bartleby após perder seu precioso cargo, que parecia definir seu lugar no mundo, já que não conhecemos suas relações de espécie alguma. Será que só há vazio e desolação na infeliz vida do infortunado escriturário em meio ao deserto de Wall Street? E nunca podemos deixar de nos guiar pelos indícios, como Bartleby progressivamente vai rechaçando cada vez mais o narrador (se ele é o representante da sociedade, no sentido de uma “boa vontade” universal, ele também é de certa forma o responsável pela sua condição e destino, não?; no entanto, ele não o relega a um  vestíbulo, aos corrimãos das escadas, e no final a um muro de prisão): “Já o conheço e nada tenho a lhe dizer é a maneira como Bartleby recebe o narrador no seu destino final. O narrador se defende: “Não fui eu que o mandei para aqui… De resto, para você não pode ser aviltante um lugar destes. Nada de ultrajante lhe resultará por estar aqui. E veja, o lugar não é tão ruim como seria de esperar. Olha, lá onde está o céu e aqui a grama.”. E Bartleby tem uma resposta inesquecível, uma daquelas poucas e lacônicas que lhe cabem no relato, essa, porém, sendo de uma lucidez mortífera: Sei onde estou, respondeu ele; não falou mais nada e eu o deixei.”

         .Acho que não é preciso sublinhar a hipocrisia de consolar um homem preso como vadio, afirmando-se que ele tem o céu e a grama à disposição, e que o lugar não é tão ruim, e mais ainda que nada de ultrajante e aviltante pode se associar à sua estada ali, como se a estada ali já não fosse o aviltante e o ultrajante. É nesse sentido que Modesto Carone, no seu posfácio à edição da CosacNaify, “Bartleby, o escrivão fantasma”, inclui o nosso amigo na categoria de unrealiable narrator, “narrador não-confiável” (técnica desenvolvida por Henry James & Machado de Assis no final do século, na qual o foco narrativo nos é fornecido por um narrador cujo ponto-de-vista se revela tão restrito e parcial que começamos a duvidar de sua versão dos fatos) [6]: “É o caso deste advogado que conta uma história facciosa, na medida mesmo em que espalha as pistas para ser descoberta sua deliberada parcialidade”. Sentimos, afinal, que mesmo espalhando essas pistas, ele sempre procura conquistar a nossa boa opinião, como a que tinha o falecido John Jacob Astor.

E é por isso que fica inviável irmanar totalmente, embora ambos nasçam da mesma situação alienante, Bartleby e Akaki Akakiévitch (de O capote, de Gógol), já que a inconsciência deste último da sua condição se mantém até o fim (quando é praticamente condenado à morte pela descompostura de Sua Excelência) enquanto que, mesmo sem se manifestar abertamente, ou mesmo por causa dessa não-manifestação explícita, o personagem de Herman Melville parece ter o dom de ter a última palavra, de obrigar à lucidez de encarar que o horizonte do universo em que ele e os Akáki Akakiévitch (in)existem é uma parede.

E no final, as próprias palavras do narrador se voltam contra sua existência tanto quanto a do seu funcionário: “Com mensagens de vida, essas cartas corriam para a morte. Ah, Bartleby! Ah, humanidade! Além da melancolia e do desamparo que revelam (e olhe que ele nos afirmou, a certa altura, não ter conhecido na vida, antes da revelação dos infortúnios de Bartleby, “uma leve e nada  desagradável tristeza), projetam a sombra da melancolia e da desconfiança sobre uma existência dedicada a produzir documentos e papelório, todos correndo para a morte, enquanto fazem as transações da vida.


[1] O título original é Bartleby, the scribner. Há traduções em que aparece como Bartleby, o escrivão e temos o famoso “escrivão” da nossa literatura, Isaías Caminha, de Lima Barreto (1909). Como o escritório do narrador cumpre função de cartório não seria incorreto também o título Bartleby, o escrevente. Há magnífica versão de Luís de Lima (Rocco), mas existem várias outras. As que eu tenho:  a de Olívia Krähenbül na série “Melhores Contos” (Cultrix); a de Pinheiro de Lemos (tenho pela Record; foi, entretanto, reeditada recentemente pela José Olympio); a de Cássia Zanon (L&PM); a de Irene Hirsch (CosacNaify), que, sinceramente, não me agradou, explicarei  na discussão do texto por quê.

[2] O que torna Melville contemporâneo, em idade e carreira artística, de Dostoiévski. O norte-americano nasceu em 1819 (em primeiro de agosto); o russo, em 1821 (30 de outubro); como disse acima, Typee inicia a carreira de Melville em 1846; em 1845, Dostoiévski lança seu primeiro livro, Gente Humilde; Melville viverá até 1891 (morre em 28 de setembro); não custa lembrar que Nietzsche, o qual exerceu na Filosofia influência similar a de Dostoiévski na literatura, nasceu  na época (meados dos anos 40)  em que essas primeiras obras apareceram: em 15 de outubro de 1844; Dostoiévski morre em 28 de janeiro de 1881.

[3] Apesar de eu gostar muito da versão de Luís de Lima, Pinheiro de Lemos traduz de maneira bem eficaz: “Preferia não fazê-lo”. Confesso que não gosto da solução de Irene Hirsch: “Acho melhor não”, sem graça e no fundo pouco poética. Pois há poesia na recusa de Bartleby, pois é uma recusa dentro de uma formulação da Possibilidade: “prefiro” ou “preferia” não fazer, ou seja, há a possibilidade de fazer, mas abriu-se um pequeno e decisivo lapso: a “preferência”. Não é uma recusa propriamente dita: não vou fazer. É uma preferência que, manifesta, abole a possibilidade de fazer o que é solicitado. É minha opinião que tudo isso se perde no “acho melhor não”.

[4] Não é ocioso notar que essa é mais uma história onde há uma marcante ausência de mulheres, inclusive na vida do próspero patrão de Bartleby, sobre a qual não temos, por mínima que seja, a menor alusão a qualquer relacionamento amoroso.

[5] Contudo, ele mesmo se intitula a certa altura, de “velho Adão ressentido”.

[6] O que mostra que Bartleby, escrito por volta de 1853, é antecipador em muitos pontos. Ficou famosa a idéia de Borges (no prefácio da sua tradução ao texto, em 1944) de que ele seria um precursor de Kafka. É engraçado que Borges lança a idéia muito de leve, muito sucintamente, porém ela ganhou  amplitude e carreira na Wall Street das teorias literárias (e sem parede).

15/09/2011

Quando nem o Monstro amedronta: Contos de fadas às avessas

(o texto abaixo foi escrito em 2008 como anotação inicial para um novo curso após “Margens Derradeiras- textos do limite”, desta vez enfocando as obras de Tchekhov e Pirandello—curso que acabou não acontecendo; essas anotações tentam fazer uma ponte entre os dois cursos, daí o texto ter parentesco com os que escrevi sobre O horla, O clube dos suicidas, O altar dos mortos, A tumba dos ancestrais, A causa secreta, Os fatos do caso do Sr. Valdemar)

“Sei que você fez os seus castelos

Que sonhou ser salva do dragão…

Desilusão, meu bem!”

      (Erasmo Carlos, Mesmo que esse homem seja eu, 1981)

“Assim, nos primitivos, pode claramente observar-se que o cair da noite revoluciona a sua concepção das coisas. Durante o dia, toda a sua atenção está voltada para o mundo exterior e concreto, mas com a obscuridade tudo se torna mágico e cheio de espíritos, porque o pôr do sol é acompanhado, no primitivo, da extinção da consciência diurna. Desde que a luz desapareça, reaparece o mundo interior, nessa altura tão real e concreto para o primitivo como o mundo exterior… Portanto, no primitivo, o interior é projetado para o exterior e manifesta-se sempre durante a noite. O mesmo não sucede a nós, para quem tudo isso se tornou obscuro e para quem a periodicidade diurna-noturna se desvaneceu.”

      (Carl Gustav Jung, O homem à descoberta da sua alma, 1934)

        Também será através de um dos temas recorrentes do século XIX, as fissuras na instituição do casamento que abordaremos O medo, de Pirandello (aliás, o casamento é alvo de dois romances revolucionários da passagem entre os séculos, devido à ambigüidade e a relatividade com que abordam o tema: Dom Casmurro, de Machado, de 1899; A taça dourada, de Henry James, de 1904).

         Pirandello, o “grande poeta das pequenas circunstâncias”, afirmou Mario Apollonio) nasceu poucos anos depois de Tchekhov (em 16 de junho de 1867), em Agrigento, na Sicília, e morreu muitos anos depois (em 10 de abril de 1936), em Roma.

         O medo é realmente um conto, com cerca de oito páginas, apresentando aquela característica central do gênero segundo Júlio Cortazar: “no romance o autor deve ganhar por pontos; no conto, por nocaute”. Além disso, dá para ver a verve teatral de Pirandello já a caminho de se definir, pois ele é todo construído por meio do diálogo, com pouquíssimas interferências narrativas. Uma delas é o parágrafo inicial: “Retirou-se da janela com um gesto e uma exclamação de surpresa; pousou sobre a mesinha o trabalho de crochê que tinha nas mãos e foi fechar depressa, mas com cuidado, a porta que comunicava com aquele quarto com os outros; depois esperou meio escondida pela cortina da outra porta de entrada” [1]; ora, aqui poderiam ser as “deixas” ou instruções para a movimentação de uma atriz que  ganhasse o papel para uma peça de um ato. Sabemos que se trata de uma personagem feminina pela indicação do trabalho de crochê, e toda o cenário doméstico.

         Lillina Fabris tem logo a seguir sua primeira fala: “Já está aqui?” pergunta (em voz baixa, num tom de contentamento) ao recém-chegado Antonio Serra, a quem tenta abraçar e se fazer beijar (mas com o seguinte acréscimo a essa marcação corporal: “para receber logo o habitual beijo furtivo”, e vemos então que não pode ser o marido o homem a quem está recebendo). Serra se esquiva, Lillina (recompondo-se rapidamente) pergunta-lhe: “Onde deixou Andréa?”

         Serra lhe diz que voltou antes, após ter inventado uma desculpa. E ela quer saber o que está havendo. Serra acha que o marido suspeita deles. Melhor ainda, não acha, teme. Com um espanto cheio de terror, Lillina quer saber se ele, Serra, se traiu de alguma forma. Ele evoca a noite da partida: “Andréa desceu na minha frente, lembra? Com a valise. Você estava com a lamparina na portão, não é? E eu, ao passar…Tive a impressão de que ele se virou quando descia…”

         Lillina apenas pergunta: Ele nos viu?” e como nada é explicado ou detalhado, ficamos nos perguntando que troca de intimidade houve para ser surpreendida: um olhar, um aperto de mão furtivo, um rápido beijo? E, no meio disso, ficamos sabendo que Serra “nunca intuíra a grandeza da alma e do amor” da amante. Aliás, o que o preocupa está bem claro: Deve estar para chegar… E nós, nesta incerteza, suspensos assim, à beira do abismo?”, diz após olhar o relógio, “empalidecendo”.

         Lillina quer saber tudo, vasculhar todos os detalhes e o amante retruca: O que você quer que eu diga? Nesta situação, as coisas mais insignificantes parecem alusões; cada olhar, uma insinuação. De qualquer forma, uma frase de Andrea,  já o inquietou antes mesmo da viagem: Deixar-se à luz de vela, numa escada”. Tocada, Lillina quer saber como o marido disse essa frase. Serra conta que ele a disse com naturalidade, e que depois falou do amor da mulher aos filhos.

         E nisso, entra a criada. Quando ficam a sós novamente ela insiste: “Mas me diga alguma coisa! Não conseguiu confirmar mais nada? Será possível que ele, violento como é e com essa forte suspeita, tenha conseguido fingir tão bem para você?”. Poderíamos imaginar Capitu e Escobar tendo esse mesmo diálogo.

         Serra: “Várias vezes tive a impressão de ler algo nas palavras dele. Mas no instante seguinte me dizia, para me acalmar: Não, é só o medo!” Lillina o interrompe, escandalizada: “Medo, você?” O sonho de um amante galante começa a sofrer um processo de desencanto. Ele continua e tem a primeira “fala” longa do texto: “Examinei e observei todos os movimentos dele, como me olhava, como falava comigo. Você sabe que ele não costuma falar muito… no entanto, nesses três dias, se você visse! Porém ele se fechava freqüentemente num silêncio longo e inquieto; mas toda vez saía do mutismo e tornava a falar de seus negócios. E eu me perguntava: Está preocupado com isso ou com outra coisa? Talvez agora só esteja falando para dissimular a suspeita. Uma vez até me pareceu que ele não queria apertar minha mão. E ele percebeu que eu a estendi; fingiu-se distraído, era realmente um tanto estranho, foi no dia seguinte à nossa partida. Depois de dar dois passos, voltou atrás… disse: Oh, desculpe, me esqueci de cumprimentá-lo… Mas tive a impressão de que ele evitava me olhar de frente… E, enquanto falava de assuntos aleatórios, de repente, achava um jeito de voltar a falar de você ou das crianças, bruscamente, fixando-me nos olhos e emendando algumas perguntas… Será que queria me pegar de surpresa? E ria, mas com uma felicidade feia no olhar”. E assim ele conta a Lillina como ficou “de pé atrás”, e ela o reprova dizendo que o marido deve ter, desse modo, percebido sua desconfiança: Mas se ele já suspeitava!, rebateu ele, sacudindo os ombros largos. Nesses detalhes é que vemos como os autores da época não deixavam escapar nada. Resposta estúpida, ombros largos (força, virilidade, figura masculina atraente; percebe-se por onde ele a seduziu, já nas primeiras linhas citou-se seu “peito hercúleo).

         “E depois? Nada mais?”, continua a argüir a amante. Um curiosamente “humilhado” Serra retoma seu relato: “no hotel… quis pegar um quarto só, com duas camas. Já estávamos deitados fazia um tempo, ele percebeu que eu não estava dormindo, isto é, percebeu, não: estávamos no escuro! Mas supôs. E veja… imagine! Eu nem me mexia. Ali, de noite… no mesmo quarto com ele, e com a suspeita de que ele sabia… imagine! Eu estava com os olhos arregalados no escuro, à espreita… quem sabe!” Note-se que há motivo para o adjetivo humilhado, já que Serra se mostra num papel curiosamente passivo em todo o relato, e aliás toda a sua atitude com relação ao marido de Lillina é meio subalterna. E um homem “com peito hercúleo”, de “ombros largos” ficar numa cama de “olhos arregalados”, numa tremenda expectativa que parece mais medrosa do que outra coisa… convenhamos! E é Andrea quem determina que ficarão no mesmo quarto de hotel. O mesmo Andrea que a certa altura lhe diz: “Você não está dormindo.  Pelo relato do amante, não foi uma pergunta de insone, foi uma afirmação de quem sabia que o outro estava acordado, que não podia dormir. E Serra conta que não respondeu, que fingiu estar dormindo. Ou pelo menos foi o que me pareceu”. E depois diz que não pregou os olhos por duas noites. Lillina: “Só isso?” Ela conclui tratar-se de fantasia, de cisma, principalmente pela incapacidade de domínio do marido: Você não o conhece… Dominar-se a esse ponto, sem deixar vazar nada… O que é que você sabe? Nada! Mas vamos admitir que ele tenha nos visto, enquanto você passava e se inclinava sobre mim…Não, ouça, não: não é possível! Você teve medo, só isso! Medo, você, Antonio!… ele não imaginou nada ruim. Não tem razão para suspeitar de nós”.

         E Serra só insiste, embora se sinta “apaziguado internamente pela inesperada confiança demonstrada pela mulher, pelo prazer de ser ainda mais tranqüilizado por ela” [2]. Lillina diz a frase-chavão: é preciso ter cuidado. Ele se irrita: mas agora? “Ela o olha com desdém: E agora você me acusa? Ele diz que não a está acusando, mas que sempre lhe chamou a atenção para que tomasse cuidado. E aí entramos num outro terreno, percebam pelo uso dos adjetivos: Sim, sim, confirmou ela, como nauseada”. Mais adiante, enquanto ele continua recriminando-a: Sim, fez ela, erguendo-se com um gritinho sarcástico, o medo!” Sem perceber, o amante perora: Medo… acha que não penso também em você? O medo… estávamos muito confiantes, aí está! Sim, e agora todas as nossas imprudências, todas as nossas loucuras me saltam aos olhos, e me pergunto como ele não suspeitou de nada até hoje…” Frases que não são as mais indicadas para as madames Bovarys da vida, que acham delicioso justamente esse “elemento de susto e perigo”.

         E na revolta “febril” de Lillina contra o bom senso (ou covardia e pusilanimidade) do amante, o leitor fica sabendo de detalhes do seu casamento com Andrea: “Você pode acrescentar que fugi com ele da minha casa, e que quase o forcei a fugir[3] ; eu, porque o amava, sim; depois o traí com você! É justo que agora você me condene, mais que justo! Mas ouça: fugi com ele porque o amava, e não para conseguir todo este sossego aqui, o conforto de uma nova casa; eu tinha a minha; não teria ido embora com ele. Mas ele, como se sabe, devia se desculpar perante os outros da leviandade a que se deixara levar, ele, homem sério, equilibrado…. Ah, mas a loucura já fora cometida: agora era preciso remediar, reparar logo! E como? Entregando-se inteiro ao trabalho, construindo para mim uma casa rica, cheia de ócio… Assim, trabalhou feito um estivador, não pensou senão em trabalhar, sempre, sem desejar mais nada de mim senão os elogios por sua operosidade, por sua honestidade, e também a minha gratidão! Tudo isso para mim, que o esperava impaciente, feliz quando voltava. Chegava em casa cansado, quebrado, contente com seu dia de trabalho, já preocupado com os afazeres do dia seguinte…. Pois bem, no final também me cansei de ter que arrastar esse homem para que me amasse, para que forçosamente correspondesse ao meu amor [o id romanesco quer lá saber do superego realista e burguês?]… O apreço, a confiança, a amizade do marido certas vezes parecem um insulto à natureza E você se aproveitou disso, você, que agora me acusa do amor e da traição, agora que o perigo bate à porta, e está com medo, bem vejo, tem medo! Mas o que você perde?”

         Eles discutem amargamente, nessa velha briga imemorial de amantes, quando um é casado, e o compromisso é tênue, e então ele diz “mais chocado do que comovido”: “Agora você vai chorar, vou embora”. E recebe uma réplica despreziva e vingativa: é claro, você não tem mais nada a fazer aqui”. Ele tenta dourar a pílula e dizer que nada acabou. Ela diz que não é mais possível a essa altura continuar, que é melhor terminar (é lógico que ela não quer isso, e sim que ele vocifere, rebata, suplique, enfim, o repertório “romanesco”; mas, como, se ele tem… medo?). E recebe um simples: “Como quiser”. Aí se revela a sua fúria medeiana: “Aí está o seu amor!”  Freud já não se perguntava: mas o que quer a mulher? Serra responde pelos homens: Você quer me enlouquecer”.

         E aí Lillina revela o que pelo menos ela quer: ela quer o drama, o palco, todas as emoções melodramáticos que uma fuga e depois um adultério não conseguiram lhe trazer: “A partir de agora não importa o que possa acontecer. Entre nós tudo acabou. E escute: seria melhor que ele soubesse de tudo. Melhor, sim, melhor! Que espécie de vida é a minha? Você imagina? Não tenho mais o direito de amar ninguém! Nem sequer os meus filhos… Quando me inclino para dar um beijo neles, tenho a impressão de que a sombra da minha culpa se projeta sobre suas frontes imaculadas! Não, não… Acabar com a minha vida! Faço isso, se ele não o fizer… Já não me resta mais nada” . E todo esse discurso de Medéia Bovary é ouvido por um “plácido e duro Antonio Serra.

         Então, ela começa a enxotá-lo. Que Andrea não o encontre ali. Ele pergunta se não é melhor que fique. Ela diz que não, não, que volte depois: “Devemos continuar usando a máscara juntos. Volte logo e tranqüilo, indiferente.  E aí vem uma série de falas entrecortadas e meio balbuciantes em que ele hesita e quer ficar e ela o manda embora, lhe diz adeus (e não é um adeus de educação, é uma cerimônia de adeus do adultério, que pode até continuar, mas como rotina paralela à rotina do casamento): Vá embora, ela o atalhou súbito, com aspereza. Serra sai prometendo que volta logo e então o narrador interfere mais longamente, depois de deixar que suas personagens falassem por si, a não ser pelas preciosas e precisas indicações que emolduram o diálogo : “Ela ficou no meio do quarto, com os olhos enviesados, como num pensamento atroz, que assumisse uma forma real diante dela. Depois balançou a cabeça e exalou a agonia interna num suspiro de desolado cansaço. Esfregou a testa com força, mas não conseguiu expulsar o pensamento dominante. Andou um pouco, inquieta, pelo aposento; parou diante de um espelho pendurado no fundo, perto da saída; a própria imagem refletida no espelho a distraiu, e ela se afastou. Foi sentar em frente à mesinha de trabalho, inclinando-se sobre ela, com o rosto oculto entre os braços; pouco depois reergueu a cabeça e murmurou [revelando o significado desses movimentos todos, que eram uma expressão de esperança e tênue expectativa]: “Será que ele não voltaria a subir a escada? Com uma desculpa…Balançou de novo, com desprezo e náusea no rosto, e acrescentou: Se não fosse o medo. Tem tanto medo! Ah, mas agora acabou… Acabou… Meus Deus, obrigada! Meus meninos… meus meninos… Pobre Andrea!” Veja-se a hipocrisia dessas palavras finais, quando ela ainda fica pra lá e pra cá no “palco” na esperança de que Antonio se arrependa e suba a escada com uma “desculpa” que volte a colocar todo o moinho romanescoem movimento… E ela se lembra dos “meus meninos” só depois que se consuma a cerimônia da covardia do amante.

         Isso nos leva a um ponto que não abordamos no nosso curso: em todos os nossos textos os personagens que vivem situações-limite são homens, à exceção da preceptora de A volta do parafuso, a qual, de todo modo, está afastada da condição comum das mulheres. Qual eram as derradeiras experiências das mulheres na ficção oitocentista, procurem puxar na memória: as que iam mais longe eram as aventureiras do amor e do sexo fora do casamento. Entregar-se aos amores, é o máximo que o quixotismo de Emma Bovary ou de Anna Kariênina pode esperar, elas que são as heroínas arquetípicas da ficção realista. E a ficção de cunho fantástico, ou “derradeiro”, como eu denominei aqui, não têm muitas representantes do sexo feminino, que possam ascender a uma condição “proibida” pelos limites sociais e físicos (uma Sra. Hyde, uma mulher invisível, um superego feminino despregado do id de uma William Wilson de saias, uma capitã de navio, Sra. Marlow que descobrisse uma negociante de marfim, Sra. Kurtz, que tivesse enlouquecido na selva, e assim por diante); portanto, no pórtico da ficção modernista, como é o caso da Lillina de Pirandello o máximo que a mulher pode fazer ainda é desesperar-se pela falta de coragem do amante: mesmo na aventura do adultério, a mulher não sai dos limites do seu lar, que a cerca como um palco ao qual estivesse condenada (a não ser no teatro de Ibsen ou Strindberg, os derradeiros em se tratando de teatro, e que ressuscitarão as mulheres-Medéias que vão até o fim, solapando maternidade e devoção familiar, caso de uma Hedda Gabler, ou da Nora, de Casa de Bonecas,  por exemplo).

         Já que não estamos no mundo dos grandes dramaturgos escandinavos (Ibsen influenciou muito James Joyce), vamos examinar outro casamento pirandelliano, dessa vez num meio mais explicitamente rural e siciliano (O medo deixa a situação social numa espécie de limbo, embora possamos captar os seus indícios, concentrando-se no cerne da questão; mas evidentemente se passa num meio próspero e mais para o urbano), e nas classes populares: alguns anos depois do entrevero truncado entre Lillina e Andrea, Pirandello escreveu Mal da Lua.

         Dessa vez não são os diálogos que dominam a narrativa e sim o chamado “narrador onisciente”, que no entanto já nos apresenta o relato em plena ação, apresentando-nos um casal: “Batá estava sentado, enrolado sobre si mesmo, num feixe de palha no centro da eira. Sidora, sua mulher, de vez em quando se virava para olhá-lo, preocupada, da soleira da porta em que estava sentada, com a cabeça apoiada no umbral e com os olhos semicerrados” [4]. Até este ponto, podemos até achar que se trata de uma briga doméstica, ou de alguma coisa corriqueira, apesar do marido estar enrolado sobre si mesmo, no centro da eira, e da mulher olhá-lo preocupada. Só sabemos que algo deve ter ocorrido. Logo depois sabemos que o calor é intenso, insuportável (é um momento próximo ao pôr-d0-sol): Tamanho era o calorão que, sobre a palha que permanecera na eira após a debulha, via-se tremer o ar, como um hálito de brasa”. Através do calor, ficamos informados de que estamos no meio rural. Batá, o marido, permanece taciturno e absorto olhando o chão. Seu único gesto, vão, mas reiterado, é bater uma palhinha nos seus sapatos: Havia no fulgor sombrio e imóvel do ar tórrido uma opressão tão sufocante que o gesto vão do marido, obstinadamente repetido, criava em Sidora uma aflição insuportável. Na verdade, cada ação daquele homem, e até mesmo sua simples presença, provocavam-lhe aquela aflição a cada vez dominada com maior dificuldade. É literalmente uma visão infernal do casamento, uma instituição à mercê de um ar tórrido. E não é exagero meu, veja-se o seguinte trecho: “Casada com ele havia apenas vinte dias, Sidora já se sentia vencida, destruída. Notava dentro e ao redor de si um vácuo estranho, pesado e atroz. E quase não acreditava que em tão pouco tempo tivesse sido levada para lá, para aquela velha roba [habitação rural] isolada, ao mesmo tempo estábulo e casa, no deserto daqueles restolhos, sem nenhuma árvore ao redor, sem um fio de sombra. É como um conto-de-fadas em que a princesa é aprisionada num lugar sombrio (a Bela, encastelada com a Fera, por exemplo). Só que essa é a realidade de Sidora, é o que ela conhece depois do “e foram felizes para sempre”. Ao invés de uma atmosfera “encantada”, que algo vai desfazer, trazendo a felicidade permanente, o “encanto” é na verdade o desencanto, ao lado de um homem taciturno, vinte anos mais velho do que ela e “sobre o qual parecia pairar agora uma tristeza mais desesperada do que a sua”.

         A grande diferença com relação às situações “encantadas” (no fundo, muito ambíguas) dos contos de fada, é que somos informados de  “sufocando o pranto e a repulsa, havia vinte dias não fizera outra coisa a não ser abandonar seu corpo àquele homem taciturno (o que a diferencia de Lillina, que teve um arroubo romanesco pelo marido Andrea, com o qual fugiu; a acomodação burguesa dele é que a desiludiu). Por que Sidora se casou com Batá? Por imposição da mãe, a qual, apesar dos avisos das vizinhas (que ela supunha invejosos), deu o consentimento, após ele pedir a mão da filha (imagine, Batá para a condição social dela, “era abastado” ), ainda que não se soubesse bem como ele de fato vivia, “atirado sempre lá longe, naquele seu pedaço de terra… estava sempre só, como um bicho com os seus bichos, duas mulas, uma burra e o cão de guarda [portanto, parece que Batá ficou à parte do processo civilizatório: é um primitivo]; e, é claro, possuía um ar estranho, sinistro e às vezes insensato”.

         Outro motivo pesou na balança da mãe: as atenções de Saro, um sobrinho apaixonado pela prima (a aparência dele: dois lábios frescos, vivos e vermelhos como duas pétalas de cravo, abertos num sorriso que fazia tremer e arder todo o seu sangue nas veias”), só que em seu “amor” não soubera encontrar a força de recuperar o juízo, de libertar-se da companhia dos tristes amigos, para retirar à mãe qualquer pretexto para opor-se ao casamento de ambos”. Assim como Lillina com relação à Antonio Serra, Sidora alterna atração física com desdém. Sabe que Saro seria um péssimo marido, vagabundo e indolente como era. “Mas que marido era aquele agora? As dificuldades que sem dúvida o outro lhe teria trazido não seriam talvez preferíveis à angústia, à aversão, ao medo que este lhe incutia? Na verdade, o angustiante, o verdadeiramente asfixiante, é não haver outros horizontes.

         Após a evocação das razões do matrimônio, Batá levanta-se com dificuldade da palha, tem dificuldade de se manter em pé e solta um ganido “quase raivoso”. Quando Sidora acorre, ele a detém com um sinal, mas não consegue falar, devido a um fluxo de saliva incontrolável. Depois de muita luta, “com os olhos embaçados e velados, vendo-se neles, atrás da loucura, um medo quase infantil, ele consegue instruir a mulher para que se feche dentro da casa: Se eu bater, se eu sacudir a porta e se a arranhar e gritar, não se assuste, não abra. Ele indica com o braço o céu e berra: “A lua!” E enquanto corre para casa Sidora realmente vê uma enorme lua cheia dominando o céu.

         Entrincheirada na casa, ela se apavora com os uivos que o marido lança lá fora, fazendo justamente o que avisara: batendo cabeça, pés, mãos, o corpo todo na porta, sacudindo, arranhando, “presa do mal horrendo que lhe vinha da lua”.  É a assustadora experiência da fronteira (ultrapassada ou oscilante) entre o humano e o animalesco. E assustador é a idéia que ocorre a Sidora: “Ah, se pudesse matá-lo” , e se tivesse uma arma à mão talvez o fizesse. Como disse Elizabeth Roudinesco na sua história da perversidade, Freud nunca foi um leitor de Sade, mas partilhava com ele, sem o saber, a idéia segundo a qual a existência humana caracteriza-se menos por uma aspiração ao bem e à virtude que pela busca de um permanente gozo do mal: pulsão de morte, desejo de crueldade, amor ao ódio, aspiração ao infortúnio e ao sofrimento”. Nada de heroína romântica, presa a um casamento insensato. Vítima do medo, mas também uma potencial assassina, sem interesse pela origem do sofrimento do marido, e do seu estranho estado, apenas pensando em se livrar dele.

         A certa altura, vendo a lua subindo ao céu “totalmente inundado de plácido alvor” (e é curioso que aqui temos uma associação com toda a simbologia que cerca a noiva no casamento tradicional), Sidora desmaia. É como se o mal da lua fosse a violação representada pelo casamento, desnudando a farsa do “branco” que cerca a noiva, a “felizarda”.

         Quando volta a si, um profundo silêncio. Aguçando o ouvido perto da porta trancada, tem a impressão de ouvir um suspiro. Aí então, após certificar-se de que tudo está calmo e quieto, ela retira as escoras da porta, levanta o ferrolho e a tranca, abre um batente e espreita: “Batá estava lá.Jazia como um animal morto, de bruços, entre a baba, escuro, intumescido, de braços abertos. Seu cão, acuado não muito longe, montava guarda sob a lua”.

         E Sidora então se escafede dali, pelo campo afora, em direção à vila, na noite ainda alta, toda banhada pelo luar. Chega ao casebre da mãe (escuro como um antro, no fundo de um beco estreito… iluminado apenas por uma lamparina de azeite), perto do amanhecer, e já a encontra acordada, para quem se lamenta, chora, arranca os cabelos, fingindo nem poder falar “para melhor fazer com que a mãe e as vizinhas compreendessem e medissem a enormidade do fato que lhe acontecera, do medo que tivera”. Ou seja, o mal da lua, toda aquela angústia, virou teatro, pantomima, commedia dell arte. As vizinhas lembram que avisaram à mãe de que Aquele homem não era natural, que aquele homem devia esconder em si algum grande defeito… Ladrava, hein? Uivava como um lobo? Arranhava a porta? Jesus, que terror!”, e quase vemos as vizinhas deleitando-se com a descrição do terror.

         Quem aparece por ali no final do dia, “humilhado, abatido, atordoado” é o pobre Batá, trazendo pelo cabresto parte da sua fortuna (suas duas mulas). Quando as vizinhas percebem que se trata dele, colocam a cabeça para fora de seus casebres para “espiarem e se comunicarem com os olhos”. Sidora fica escondida num canto da casa, enquanto a mãe escorraça o genro amaldiçoado, acusando-o de “estragar a filha”: Batá escutou com a cabeça baixa, as ameaças e os insultos. Ele os merecia: era culpado, escondera o seu mal. Escondera-o porque nenhuma mulher o teria aceitado se o tivesse confessado antes”.

         A sogra bate-lhe a porta no rosto e tranca a casa. Ele fica ali por um tempo de cabeça baixa, e as vizinhas curiosas se apiedam, oferecem-lhe uma cadeira, e o rodeiam. E assim ouvem sua história: que ficara exposto uma noite inteira à lua (a mãe saíra para “colher espigas” e dormira fora), e “ele, pobre inocente, brincara com a bela lua, agitando as perninhas e os bracinhos. E a lua o “encantara”, o que acabara se manifestando há pouco tempo: Mas era um mal somente para ele, bastava que os outros se abstivessem; e podiam abster-se perfeitamente porque acontecia em períodos fixos e ele sentia sua chegada e o indicava com antecedência; durava apenas uma noite e depois acabava”. Note-se que Pirandello retira qualquer halo sobrenatural ou fantástico (lobisomem, etc), deixando só o aspecto supersticioso e psicológico. Seu umheimlich é baseado no atavismo e na ignorância.

         Para Batá, a solução do casamento era simples: a cada lua cheia Sidora poderia vir para a casa da mãe ou esta poderia fazer companhia à filha na “roba” (na roubada, diríamos). Nesse momento, irrompe Sidora, morta de raiva, escancarando sua porta (atrás da qual estivera escutando” ). O quê ? Levar a mãe? Para ela morrer de medo também?  Aí a mãe também sai da casa, “afastando a filha com o cotovelo e mandando que permanecesse calada e quieta dentro da casa”. Começarão, portanto, as negociações práticas. Sidora os observa, “pondo-se de acordo”: “…zangada e consternada, acompanhava os gestos da mãe e do marido; e como lhe pareceu que ele lhe fizesse com muita animação algumas promessas que a mãe acolhia com evidente prazer, pôs a gritar… As mulheres da vizinhança fizeram-lhe sinais insistentes para que se calasse, para que esperasse que a conversa terminasse”. Ao final do colóquio, Batá cumprimenta a solerte sogra e lhe entrega uma das mulas (isso é que é tirar vantagem de um “mal”; entretanto, não há males que vêm para bem?). E assim Sidora parte na manhã seguinte para viver novamente com o marido, com a promessa da mãe de se juntar a ela na lua cheia, acompanhada por Saro (temos por acaso outro homem além dele em nossa parentela? É o único que nos pode dar ajuda e conforto”), ou seja, removeram-se (uma vez que a filha está legalmente casada e o marido é tão compreensivo, dado o seu “problema”) os obstáculos de aproximação entre os primos. A prova do cinismo dessa querida senhora é o seguinte trecho: “E, baixando os olhos para esconder o sorriso, fingiu enxugar a boca desdentada com a ponta do lenço que tinha na cabeça, amarrado no queixo. Que matreira!

         Sidora não pensa em outra coisa durante o mês que transcorre. Observando a lua, teria querido, com o desejo, apressar suas fases minguantes” (vejam que ela também sofre de um “mal da lua”, regulando-se por suas fases). Batá procura tranqüilizá-la.

         Finalmente chega a noite tão temida, tão aguardada. E a mãe chega com Saro. A essa altura, Batá já está enrolado na eira, porém sem beira. A mãe determina: Você é homem, disse a Saro, e você já sabe como é, disse à filha. Eu sou velha, de todos sou a que mais tem medo e ficarei aqui entocada, totalmente calada e só. Fico bem encerrada e ele que vá bancar o lobo lá fora”.  Enquanto esperam o “mal da lua”, Sidora lança olhares  “cada vez mais ardentes e provocantes” para o primo. “Mas Saro, embora fosse geralmente tão vivo, alegre, brincalhão, sentia-se pelo contrário esmorecer pouco a pouco, sentia o riso endurecer em seus lábios e a língua seca… de vez em quando dava uma olhada naquele homem lá, à espera que o mal o atacasse; esticava também o pescoço para ver se atrás da elevação da Crocca não despontava o rosto assustador da lua” (é a lua que vem trazer algo mítico e ritual a essa narrativa de tempos degradados e materialistas). Sidora não desiste de provocá-lo, de atiçá-lo. É um pouco Lillina com relação a Antonio Serra (no início de O medo, antes que ele a desaponte). E só consegue fazer o primo sentir horror e terror dos olhares impudentes, tanto quanto do olhar daquele homem enrolado lá, à espera. E foi o primeiro a pular como um carneiro para dentro da roba mal Batá lançou um ganido anunciador… Ah, com que fúria começou a colocar escoras e mais escoras, enquanto a velha se entocava no quartinho e  Sidora, irritada, desiludida, repetia-lhe em tom irônico: … Verá que não é nada”.

         E assim chegamos por outras vias à mesma desilusão da heroína anterior de Pirandello (e de Emma Bovary com seus amantes, e de Anna Kariênina com Vronski, enfim…): “Não era nada? Ah, não era nada? Com os cabelos arrepiados na testa, aos primeiros uivos do marido, às primeiras cabeçadas… Saro, totalmente banhado de suor frio, com as costas cortadas pelos calafrios, com os olhos arregalados, tremia como vara verde. Não era nada! Deus meu! Como? Aquela mulher era louca? (percebam que o simplório Saro é o único a perceber a enormidade do fato, que Sidora anunciara, porém esquecera, pois ela, crente de que ia se desforrar do seu casamento com o primo, e a mãe, contente de ser “recompensada” com os bens do genro pelos transtornos da sua condição, logo colocaram o mal da lua nos trilhos da rotina e da normalidade, como uma bebedeira ou um surto qualquer; tais são os poderes da cobiça e da concupiscência: o que não era natural se naturaliza rapidinho). Enquanto o marido lá fora fazia aquela tempestade na porta, aí estava ela, rindo, sentada na cama, mexendo as pernas, estendendo-lhe os braços, chamando-o: Saro! Saro! Ah, é assim? Irado, indignado, Saro, com um pulo, saltou no quartinho da velha, agarrou-a pelo braço, atirou-a sentada na cama ao lado da filha: Esta mulher é louca! E ao retirar-se em direção à porta, percebeu ele também, através da grade da janelinha alta na parede fronteira, a lua, que se do outro lado fazia tanto mal ao marido, do lado de cá parecia rir, feliz e impertinente, da fracassada vingança da mulher”.

         A vingança fica por conta do lado noturno, lunar, da nossa existência.


[1] Utilizo a tradução de Mauricio Santana Dias, tradutor contumaz de Pirandello, na antologia 40 novelas de Luigi Pirandello (Companhia das Letras).

[2] Bentinho e os ciumentos de Proust se deliciaram com o seguinte trecho: “… a suspeita pode nascer de um momento a outro. E aí… mil pequenos fatos mal percebidos, nem sequer levados em conta, ganham nova cor de repente; cada aceno indeterminado se torna uma prova; depois a dúvida e a certeza…”

[3] Ou seja, ela o obrigou a uma atitude romanesca, e por ter se aburguesado, ela o traiu por outra situação romanesca e assim se vai de círculo vicioso em círculo vicioso.

[4] Utilizo a versão de Fulvia M. L. Moretto (a mais prestigiada tradutora de Madame Bovary), na coletânea Kaos e outros contos sicilianos (Nova Alexandria), aproveitando o título do maravilhoso filme dos irmãos Taviani, Kaos (1984), realizado a partir de cinco contos (aliás, essa seleção  traz outro conto, A viagem, que virou um filme, em 1974, A viagem proibida, dirigido por Vittorio de Sica, mas do qual não tenho boas lembranças). Kaos tem um sentido toponímico, não metafórico, segundo as palavras do próprio Pirandello: “Sou filho do Caos, e não alegoricamente, uma vez que nasci numa nossa região que se encontra perto de um emaranhado bosque chamado Cávusu pelos habitantes de Girgenti [atualmente, Agrigento], corruptela dialetal do genuíno e antigo vocábulo grego Kaos; de fato, onde Pirandello nasceu tinha muitas ruínas de antigos templos gregos. Nada mais propício para quem se dedicou ao teatro.

08/09/2011

Um “id” à solta pelo mundo

(este é mais um texto de 2008, do meu curso AS MARGENS DERRADEIRAS sobre textos-limite do século XIX)

“Contra o meu gosto, nada me parece conveniente e justo”

“Eu era senhor de todos, e a todo pedia desforra

(Calderón de La Barca, A vida é sonho, 1635)

Em 1897, em meio ao seu surto de criatividade genial, H. G. Wells[1], que nascera em 1866, e portanto estava com 31 anos, publicou O homem invisível[2], o qual continua a linha do Fausto e do livro de Stevenson ao abordar a incapacidade de um cientista de manter o discernimento moral, anuviado pela cobiça de um poder sobre a natureza e sobre os outros.

O Homem Invisível, Griffin, ao perder sua identidade de ser visível, também parece perder a unidade (mesmo que conflituosa) do ego humano, e apresenta-se como puro “id”, como um Hyde sem Jekyll. Entretanto, como é nosso hábito aqui, repassemos a história, mesmo porque o livro de Wells, assim como o de Stevenson, o de Bram Stoker, o de Mary Shelley e tantos outros, nas suas inúmeras versões e adaptações nunca é muito respeitado (mesmo a esplêndida versão dos anos 30 modifica bastante o final [3] ).

O romance apresenta 28 capítulos e um epílogo. Tem um começo maravilhoso com a chegada, no meio do inverno, na cidadezinha de Iping, do “estranho” (Griffin), todo coberto (Estava agasalhado da cabeça aos pés e a aba do chapéu de feltro macio ocultava-lhe cada centímetro do rosto; a neve tinha se acumulado em seus ombros e peito, acrescentando uma orla branca ao peso que carregava[4], irascível, com respostas cortantes, que irritam a dona da estalagem onde ele deseja se hospedar com o máximo de privacidade, a Sra. Hall, que se apazigua devido ao pronto (e generoso) pagamento (um par de soberanos jogados sobre a mesa”). É uma delícia acompanhar a interesseira e intrometida senhoria tentando forçar a intimidade com o insólito e incômodo hóspede (ao mesmo tempo, Wells traça já um retrato sombrio e negativo de Griffin, ser humano pouco agradável; e um retrato satírico e demolidor do senso comum, das pessoas que só querem viver sua vidinha). A maior curiosidade dela é saber se ele está deformado ou desfigurado por algum acidente. Nas tentativas de entra-e-sai dela, sempre mal recebidas pelo hóspede, o narrador em 3ª. pessoa aproveita para ampliar o âmbito de sua descrição da incomum aparência do protagonista: “Segurava um pano branco diante da porção inferior do rosto, de forma a encobrir a boca e maxilar, o que explica a voz surda. Mas não fora isso o que espantara a Sra. Hall e sim o fato de que toda a testa, acima dos óculos azuis, estava envolta em uma atadura branca, e outra lhe encobria as orelhas, sem deixar nem um pedaço de rosto à mostra, a não ser o nariz rosado e pontiagudo. Este era de um rosa claro e brilhante…” Ele anuncia que é um “pesquisador” e “faz experiências” e que está aguardando seus equipamentos: “Meu motivo para vir para Iping foi o desejo de solidão. Não quero ser interrompido em meu trabalho”. Todos que tentam entabular assunto ou se aproximar são rechaçados. E a sensata Sra. Hall não quer saber de falatórios a respeito dele, conquanto a conta seja paga em soberanos. Mas a bagagem dele, que chega depois, realmente a exaspera (“Havia, de fato, um par de malas como seriam necessárias a qualquer homem racional, mas além disso havia uma caixa de livros, grandes e grossos, alguns dos quais em uma escrita incompreensível, e talvez mais de uma dúzia de engradados, caixotes e embrulhos, contendo objetos acondicionados em palha que pareceram ao Sr. Hall garrafas de vidro”). A chegada desse equipamento proporciona o primeiro incidente (embora como se possa deduzir, o tom da narrativa ainda seja brejeiro e pitoresco). O estranho sai para apressar a entrega e um cachorro o morde. O Sr. Hall afana-se para ajudá-lo (ele correu para os seus aposentos) e ao entrar vê “algo extremamente esquisito, o que parecia um braço sem mão acenando em sua direção. Ele é rechaçado, como de hábito, e o incidente se perde no ramerrão, perturbado apenas pelas crises do hóspede durante suas pesquisas, com barulhos de garrafas sendo violentamente atiradas no chão.

O quarto capítulo começa assim: “Contei as circunstâncias da chegada do estranho a Iping com certa profusão de detalhes para que o leitor compreenda a curiosa impressão que causou . Aí, as coisas começam a acelerar. As escaramuças com a Sra. Hall aumentam, após alguns meses, pois o dinheiro começa a rarear, e ela perde a paciência, a boa mulher. Ter alguém esquisito, mandão, e que não paga ainda por cima, é demais para uma singela alma de comerciante! O estranho também vira tópico de conversas e de especulações por toda a pequena e provinciana Iping (quase uma aldeia): é um criminoso foragido, um anarquista, um preparador de explosivos, uma aberração física ou um maluco inofensivo? Ele caminha pela aldeia (sempre na penumbra) e a garotada zomba dele. E há os pequenos incidentes de alguém achar que “não” viu alguma parte dele. Tudo se precipita num feriado de Pentecostes, quando o presbitério é assaltado. O pároco e sua esposa vasculham a casa, pois ouvem barulho e movimento, e embora constatem o roubo não acham ninguém. A coisa mais palpável é um ou outro espirro ocasional. Nesse mesmo dia, ao se desincumbir de uma tarefa dada pela mulher, o Sr. Hall encontra o quarto do seu hóspede deserto, mas as roupas que ele usa ali estão (Que estará fazendo sem roupas?”). Ele chama a mulher, os dois sobem, e pensam ter ouvido a porta da estalagem abrir-se e fechar-se, só que não deram maior importância ao fato. Além disso, ouviam-se espirros (lembrem-se, mal acabou o inverno, e imagine andar nu pela úmida Inglaterra [5]). A Sra. Hall começa a verificar o quarto e subitamente móveis e roupas enlouquecem e começam a se mexer sozinhos:a cadeira…rindo secamente com uma voz muito parecida com a dele, virou para cima, com as quatro pernas para o ar; por um momento pareceu fazer pontaria na direção da Sra. Hall e precipitou-se para ela. Gritando, ela virou-se e as pernas da cadeira tocaram-lhe as costas, sem brutalidade, mas com firmeza, e empurraram-na, juntamente com Hall, para fora do quarto. A porta fechou-se violentamente e foi trancada. Durante algum tempo a cadeira e a cama pareceram estar executando uma dança triunfal e depois, abruptamente, tudo cessou” [6].

A Sra. Hall, apoplética, quer proibir a entrada do hóspede: Deixem-no do lado de fora. Não permitam que entre outra vez. Bem que desconfiei…Devia saber. Com os olhos esbugalhados e a cabeça enfaixada e nunca indo à igreja aos domingos. E todas aquelas garrafas, muito mais do que qualquer um tem o direito de ter.”

Resolvem chamar o ferreiro para arrombar a porta, arma-se um debate sobre o assunto e, zapt, a porta do quarto abre e o estranho hóspede desce as escadas, mais sombrio, carrancudo e autoritário do que nunca. Ele entra na sala de estar e se tranca. O marido da estalajadeira, incitado pelos outros, tenta falar-lhe e recebe um Vá para o inferno!”.

         Lá fora acontecem os festejos do feriado e na estalagem aquela estranha situação, com o hóspede sitiado na sala de estar, rasgando papéis e quebrando garrafas. Depois de horas, ele sai e reclama das refeições não servidas. Ela reclama das contas não pagas e mostra, afinal, suas garras de comerciante ultrajada pisando nos saltos dos “seus direitos”. Ele afirma que tem algum dinheiro, ela quer saber como o arranjou, já que alegara antes estar esperando uma remessa, e começa a interrogá-lo, com vários “quero saber”: “De repente, o estranho ergueu as mãos enluvadas e cerradas, bateu com os pés no chão e gritou: Pare! com tal violência que a silenciou instantaneamente. A senhora não sabe quem sou e o que sou. Vou lhe mostrar, por Deus, vou lhe mostrar. Colocou então a mão espalmada sobre o rosto e retirou-a. O centro de seu rosto tornou-se uma cavidade negra. Tome, disse. Adiantou-se e entregou à Sra. Hall algo que ela, de olhos fixo no rosto metamorfoseado, aceitou automaticamente. Quando viu o que era, deu um berro agudo, deixou-o cair e recuou, cambaleando. O nariz, era o nariz do estranho! rosado e brilhante.Rolou para o chão.”

Ele não se limita a tirar o nariz: Estavam preparados para cicatrizes, deformidades, horrores tangíveis, mas para o nada!” Pânico geral, correria, atropelo, boataria, quem conta um conto aumenta um ponto e por aí vai.  O oficial de justiça Jaffers vocifera: “Com cabeça ou sem cabeça tenho que prendê-lo…” Surpreendem o estranho devorando um pedaço de pão com queijo (lembrem-se de que estava faminto quando abordou a Sra. Hall). Isso dá margem a um diálogo nonsense, a partir da situação incongruente de se ter sacado um par de algemas:

Huxter- Vejam! Isso não é um homem. São apenas roupas vazias… Poderia enfiar o braço…

Griffin- Na verdade, estou todo aqui; cabeça, mãos, pernas e o resto, mas acontece que sou invisível. É muito inconveniente, mas sou. Isso não é razão para que seja apalpado até ficar em pedaços por cada campônio idiota de Iping.

Huxter- Invisível, hein? Onde já se viu isso?

Griffin- Talvez seja fora do comum, mas não é crime. Por que fui agredido dessa forma por um policial?

Jaffers- Ah, isso é diferente! Sem dúvida o senhor é um tanto difícil de ver nesta luz, mas tenho um mandado e tudo legal. Não estou atrás de invisibilidade, é de um roubo. Arrombaram uma casa e tiraram dinheiro.

Aproveitando-se de um descuido, Griffin se desembaraça das roupas, sucede-se uma cena de pastelão, e não se consegue impedir a fuga do Homem Invisível que, ainda por cima, deixa o policial prostrado no chão, com um golpe.

O capítulo seguinte consiste de um pequeno parágrafo é quase machadiano devido ao tom adotado pelo narrador: “O oitavo capítulo é extremamente breve…” e só está ali para mostrar que o naturalista amador da região, Gibbins, que de nada sabia, ouviu espirros e uma voz vinda não sabia de onde resmungando e blasfemando em meio às colinas que circundam Iping: o fenômeno fora tão estranho e perturbador que sua tranqüilidade filosófica desaparecera.

O nono capítulo relata o encontro do fugitivo com um vagabundo, Thomas Marvel, a quem ele expõe as desvantagens físicas da sua condição, e meio que obriga com ameaças a ser seu “seguidor”:

Thomas Marvel- E de que pode precisar, em matéria de ajuda?

Griffin – Quero que me ajude a arranjar roupas e abrigo e depois, outras coisas… Tem que ser meu ajudante. Ajude-me e farei grandes coisas por você. Um Homem Invisível é um homem que tem poder… Mas, se me trair, se deixar de fazer o que mandar…

         Fez uma pausa e bateu com força no ombro do Sr. Marvel. Ao sentir o toque, o Sr. Marvel deu um guincho de terror.

O tom da narrativa começa sutilmente a se alterar. Até então, “víamos”, se é possível falar assim, o Homem Invisível “de fora”. Agora começaremos a vê-lo por dentro. De perto

E assim a narrativa volta a Iping, o delicioso lugarejo que permite a Wells uma sátira à mediocridade humana. Ainda estamos no feriado, e o vagabundo Marvel, orientado por Griffin, e“i vigiado pelo desconfiado Huxter, que ficara com a pulga atrás da orelha com esse outro “forasteiro”, “imaginando que estava sendo testemunha de algum furto”, pega uma misteriosa trouxa pela janela de estalagem. Huxter grita “pega ladrão” e começa novo corre-corre. O que acontecera: o Homem Invisível se imiscuíra novamente na estalagem, surpreendendo alguns dignos cidadãos de Iping xeretando nos seus pertences, especialmente seus livros de anotações, com diagramas cifrados. Indignado, ele os ameaça com um atiçador: Quando entrei nesta sala não esperava encontrá-la ocupada e queria, além de meus livros de anotações, uma muda de roupa. Onde está? Não, não se levantem. Já vi que não está aqui. Nesse exato momento, embora os dias sejam bastante quentes para que um homem invisível possa andar por aí, as noites são frias. Quero roupas, e mais algumas coisas, e também preciso de livros.”

Machadianamente[7], corta-se o capítulo e, no começo do outro, lemos, Neste ponto torna-se impossível deixar de interromper outra vez a narrativa, por uma certa razão muito penosa que não tardará a se tornar evidente.” Enquanto Huxter está vigiando os movimentos do suspeito Marvel lá fora, enquanto o Homem Invisível ameaça os cidadãos de Iping que remexiam nas suas coisas na sala de estar da estalagem, os sons e vozes que dali vêm, começam a inquietar o taberneiro (nosso já conhecido Sr. Hall), o que irrita sua diligente esposa: Por que está aí escutando, Hall? Não tem mais nada a fazer em um dia atarefado como este? (deve-se notar que, apesar de ter recebido de um homem invisível o seu suposto nariz, e afora o insólito de toda a coisa, ela não demorou a voltar à sua rotina e aos seus afazeres com a máxima prontidão).

Mas fica impossível ignorar que algo está acontecendo. De repente, se ouve o grito de “pega ladrão” (lançado por Huxter) e o barulho da janela na sala de estar: “…todos os ocupantes humanos do bar precipitaram-se para a rua, na maior confusão. Viram alguém dobrar a esquina que dava para a estrada nas colinas, e o Sr. Huxter executando um complicado salto no ar e caindo de cara no chão. Pela rua, as pessoas tinham se detido, pasmas, ou corriam para ele.” A única a não sair é a Sra. Hall (“que havia aprendido com os anos de experiência, e ficou no bar, junto ao caixa”). Os ocupantes da sala, nus (pois haviam sido obrigados a ceder suas roupas a Griffin) saem e dão o alarme de que o Homem Invisível está novamente em Iping, e furibundo, louco: “Imagine-se a rua, cheia de gente que corria, de portas que batiam e de brigas por lugares seguros… E então todo o tumulto passou e as ruas de Iping, com seus enfeites e bandeiras, ficaram desertas, a não ser pelo Desconhecido ainda furioso… por toda parte, ouvia-se o som de janelas fechando-se e de trancas sendo colocadas, e o único sinal visível de um ser humano era, ocasionalmente, um olhar furtivo sob uma sobrancelha erguida, no canto do painel de uma janela. O homem invisível ainda se divertiu um pouco quebrando todas as janelas da estalagem da Sra. Hall…Também deve ter sido ele quem cortou os fios do telégrafo… E depois de tudo isso… ficou fora do alcance da percepção humana e não foi mais visto, ouvido nem pressentido em Iping…Passaram-se no entanto quase duas horas antes que qualquer ser humano se aventurasse a sair novamente para a desolação da Iping Mean Street.”

E está na hora de conhecer outro personagem importante, também cientista, como Jekyll e Griffin: o Dr. Kemp, que aparece pela primeira vez na narrativa em seu escritório, em outro lugarejo, Burdock: Era um pequeno aposento agradável, com três janelas que davam para o norte, oeste e sul, estantes cheias de livros e publicações científicas, uma grande escrivaninha e, sob a janela que abria para o norte, um microscópio, lâminas de vidro, pequenos instrumentos, algumas culturas e vidros espalhados de reagentes”. Dr. Kemp é ambicioso: “o trabalho de que se ocupava lhe daria, segundo esperava, o título de membro da Royal Society” [8]. Num final de tarde, enquanto os jornais espalham notícias tão vagas que parecem boatos sobre um “homem invisível”, ele vê uma pessoa (Marvel) fugindo colina abaixo, presa de um “terror abjeto” e carregando algumas coisas. Desse modo, o fugitivo chega a Burdock, gritando que “o Homem Invisível esta chegando!” Ele se refugia  num pub, o Jolly Cricketers, e suplica que tranquem portas e janelas. O pub é atacado. Policiais e populares enfrentam o atacante e acabam ferindo-o (um americano “de barba negra” usa uma espingarda e dispara cinco tiros), mesmo sem apanhá-lo, enquanto Marvel consegue escapulir do seu perseguidor.

Às duas da manhã, o Dr. Kemp, após horas de trabalho científico, desce até a sala de jantar para pegar uísque e um sifão. Ele percebe manchas de sangue pela sua casa e no seu quarto descobre a colcha encharcada de sangue e o lençol todo rasgado. Uma voz diz: “Deus do céu! Kemp!” Até então, ele acha tudo fruto da sua imaginação (lembrem-se, é um espírito cientifico, a ciência era o Deus da 2ª. metade do século XIX), embora o narrador  nos alerte de que todos os homens, por mais instruídos que sejam, retêm alguns vestígios de superstição. Também não é para menos: De repente, com um sobressalto, divisou uma atadura feita de um pedaço de linho, enrolada e manchada de sangue, pendendo no ar...” E ouve uma voz que o chama. Demonstrando relutância em se manter ali [9],  Kemp é dominado pelo Homem Invisível, que, como sempre, perde as estribeiras, não compreendendo porque o mundo não se dobra aos seus desejos (como bom id à solta que ele é, no fundo): Se gritar, rebento sua cara… Sou realmente um homem invisível. E quero sua ajuda. Não pretendo machucar você, mas se se comportar como um labrego apavorado, terei de fazê-lo”.

Eles foram contemporâneos de universidade. Griffin se apresenta como um estudante mais moço, quase albino, de perto de um metro e noventa, forte, com um rosto cor-de-rosa e olhos vermelhos, aquele que ganhou uma medalha em química. Essa primeira descrição da aparência pré-invisibilidade de Griffin nos dá preciosas pistas: aparência disfuncional e esquisita (quase albino, rosto-cor-de-rosa, olhos vermelhos, altura desmesurada), certo indício de insociabilidade e a idéia de perseguir méritos e ser reconhecido (a medalha em química), que sugerem um controle do superego, àquela altura, apesar das desvantagens físicas. Esse apelo a um remoto coleguismo acaba por “acalmar” Kemp e Griffin revela estar ferido, faminto e sedento, com desejo de fumar. E extremamente cansado, já que não consegue dormir há dias (como disse antes, os aspectos fisiológicos, embora não à moda naturalista, são um ponto forte do romance de Wells). Kemp pede a ele que conte como chegou a esse estado: “Mas a história não foi contada aquela noite. O pulso do Homem Invisível estava ficando doloroso, sentia-se febril, exausto e sua mente fixou-se na perseguição colina abaixo e na luta dentro da estalagem. Falando em Marvel intermitentemente, passou a fumar mais depressa e a voz foi ficando colérica. Kemp tentava entender o que era possível.”. Em meio ao cansaço, uma tirada importante: “Fiz uma descoberta. Pretendia guardá-la só para mim. Mas não posso. Tenho que ter um sócio. E você… Há tanta coisa que podemos fazer, ou seja, na sua falta de discernimento moral, ele não pensou em resultados úteis ou produtivos à sua descoberta: pretendia guardá-la para si, dominar os outros, ter poder sobre eles, através da intimidação e das imunidades da sua condição.

Afinal Griffin “apaga”, como se diz, e Kemp, lendo as recentes notícias dos jornais, fica horrorizado com a verdade que vislumbra: “Ele não é apenas invisível, é louco…Homicida!”  É interessante notar que, vindo de um cientista, o termo tem a força de um diagnóstico, e é a primeira vez que ocorre ao leitor (principalmente deveria ser a primeira vez que ocorria ao leitor da época) que está acompanhando a trajetória de um louco homicida tanto quanto um ser de bizarra condição. O termo “monstro” é inevitável (pensemos no que o dicionário diz da palavra: ser de conformação extravagante…pessoa cruel, desnaturada ou horrenda”, e retenhamos o termo desnaturado, algo que distorceu o natural, e teremos um medo tipicamente vitoriano, ou até mesmo, num sentido mais lato, burguês, que paira sobre nossas narrativas derradeiras,): “Ele é invisível. E parece que sua raiva está se tornando maníaca. As coisas que pode fazer! As coisas que pode fazer! E está lá em cima, livre como o ar. Como devo agir?”

Kemp resolve mandar um bilhete para o Coronel Adye, da polícia de Burdock, pedindo auxílio. E o Homem Invisível desperta, iniciando uma série de capítulos retrospectivos, nos quais conta a Kemp como tudo começou, depois de comentarem que “o mundo tomou consciência de seu cidadão invisível”, ou seja, o ego social deu-se conta de que o reprimido rompeu os diques da repressão, “desnaturando-se”, e assim fugindo do controle do superego. Griffin conta seu fascínio pela luz, o que o levou às experiências com a física, aos 22 anos, seis anos antes de sua chegada a Iping, e à descoberta, um pouco por acaso, dos segredos da invisibilidade (no que ajudou sua peculiaridade pigmental como albino): “Contemplei, sem a sombra da dúvida, uma visão magnífica do que poderia significar a invisibilidade para um homem: o mistério, o poder, a liberdade… E eu, um instrutor mal vestido, pobre e enclausurado, ensinando asnos numa universidade provinciana, poderia me tornar,da noite para o dia, isso. Faltava só uma coisa: dinheiro. Então ele rouba o próprio pai, e como se apropria de dinheiro dos outros, que estava sob confiança com o pai, este se suicida (“não tive nem um pouco de pena de meu pai. Parecia-me que fora vítima do próprio sentimentalismo tolo”, e eu imagino o pai como um Sr. Utterson (de Jekyll e Hyde), íntegro e inabalável em suas convicções de homem honrado). Griffin utiliza o dinheiro para fazer de um amplo quarto nos arredores de Londres um laboratório. Sua primeira experiência com um ser vivo é com um gato [10], cujo “sumiço” atrai a desconfiança e a hostilidade das pessoas da pensão. Pressionado pela falta de dinheiro, pela bisbilhotice alheia e por sua misantropia cada vez mais aprofundada, ele realiza em si mesmo a experiência, longa e dolorosa: “Nunca esquecerei daquela madrugada, do estranho terror de ver que minhas mãos pareciam feitas de vidro opaco ao observá-las enquanto iam ficando cada vez mais límpidas e transparentes… Braços e pernas foram ficando vítreos, os ossos e artérias tornaram-se imprecisos e desapareceram e os pequenos nervos esbranquiçados foram os últimos a sumir”.

O senhorio tenta invadir o quarto com uma ordem de despejo e quando consegue fica espantado de encontrá-lo “vazio”.  Para eliminar pistas, não permitir que ninguém adivinhe seus objetivos, e também por rancor e raiva anti-sociais, ele incendeia a hospedaria: Abri cuidadosamente os trincos da porta da frente e saí para a rua. Estava invisível e apenas começava a compreender a enorme vantagem que a invisibilidade me dava. Minha cabeça já estava fervilhando de todas as coisas loucas e maravilhosas que poderia fazer impunemente (parece o Dr. Jekyll ao se imaginar vagando por Londres como Hyde).

Aí começa um seqüência de maravilhosos instantâneos urbanos e cosmopolitas, já que o Homem Invisível vaga por uma Londres fervilhante e descobre que o Princípio de Realidade não desapareceu com um passe de mágica só porque ele se sente regido apenas pelo Princípio do Prazer: totalmente nu, ele é abalroado pelos transeuntes, pisado nos calcanhares, quase atropelado, morre de frio no janeiro londrino, o chão é gelado, o calçamento machuca seus pés (por mais tolo que me pareça agora, não tinha pensado que, transparente ou não, ainda estava sujeito ao clima”), os cachorros o farejam e saem correndo para mordê-lo. Além disso, seus pés vão se sujando e deixando marcas pelo chão, o que começa a ser notado. Logo apanha um resfriado e passa a espirrar sem parar, os pés doem muito e um pequeno corte em um deles o faz coxear. Que onipotência! Como vimos com Hyde, tira-se a casca narcisista e se tem a criança assustada e agressiva. E assim “comecei essa vida nova à qual estou condenado.

Com medo de que caia neve e ela o denuncie,  resolve então entrar numa loja de departamentos, a Omniuns, enorme labirinto de lojas numa só”. Ele queria alimentação e roupas para se disfarçar. E até um refúgio, pois adormece ali. A idéia parece luminosa, mas se revela um desastre, com suas mil trapalhadas que o fazem ser notado e perseguido (o que parece um deliberado percurso cíclico/reiterativo da narrativa, de forma a acentuar o isolamento do Homem Invisível). Ele diagnostica o maior inconveniente da sua situação: caso não se disfarce direito e se dissimule numa visibilidade aceitável, tudo o que fizer o denunciará: Vestir-me seria abrir mão de toda minha vantagem, tornar-me algo estranho e terrível; estava em jejum, pois comer, encher-me de matéria não assimilada, seria tornar-me grotescamente visível de novo…Além disso, quando saí, no ar de Londres, juntava sujeira em meus tornozelos e manchas flutuantes de fuligem e poeira na minha pele”. Passando por cima de detalhes do texto, ele a certa altura subjuga, amarra e amordaça o dono de uma loja de fantasias solitário e corcunda (nesse ponto do relato, Kemp se escandaliza e Griffin retruca: Ora, Kemp, você não é suficientemente tolo para obedecer a velhas regras”), e se veste da maneira como chegou a Iping: “Passei alguns minutos ganhando coragem, depois abri a porta da loja e saí para a rua… Ninguém demonstrava muito interesse em mim”.

Ele revela sua intenção a Kemp: desfazer a experiência (para isso,  precisaria recuperar seus livros, ora em poder de Marvel). Porém, só depois de ter feito tudo o que pretende. E um de seus planos é o assassinato (para ele, punição justa) de Marvel: Kemp, você não sabe o que é raiva! Trabalhar durante anos, planejar, estudar e depois ter um idiota obtuso atrapalhando seus objetivos. Todos os tipos possíveis e imagináveis de seres tolos jamais criados foram escolhidos para me importunarem… Vou começar a esmagá-los”.  Mais adiante: “O que eu quero,Kemp, é um guardião, um ajudante e um lugar onde me esconder… Com um aliado, comida e descanso, tudo é exeqüível”. E adverte que sua invisibilidade é útil sobretudo para matar (o que, com o desenrolar dos acontecimentos, toma um tom sinistro de pressentimento): “Posso andar em volta de um homem, seja qual for sua arma, escolher meu alvo e golpear como quiser… E o que temos de fazer é matar… Não seriam mortes ao acaso, mas assassinatos lógicos…O Homem Invisível deve implantar um Reino de Terror…Devo apossar-me de uma cidade como a sua Burdock, apavorá-la e dominá-la. Darei ordens. Posso fazê-lo de mil formas, pedaços de papel enfiados por baixo das portas são suficientes. E matarei todos os que desobedeceram às minhas ordens e matarei todos os que defenderem os rebeldes”.

Aí chega a solicitada força policial. O mais que escaldado Griffin consegue escapar e a partir daí seu ódio volta-se contra o novo traidor: Kemp. Este explica a situação e propõe linhas de ação para caçar o Homem Invisível, baseando-se nas informações que recebeu: Ele é louco. Desumano. E de um egoísmo absoluto. Só pensa no que lhe convém, em sua própria segurança… Cortou os laços que o ligavam a seus semelhantes. Que seu sangue recaía sobre a própria cabeça”  [11]. As medidas que propõem são minuciosas e chegam a ser cruéis (esses cientistas!). Só para dar um exemplo: sua sugestão de que encham as estradas com vidro moído.

Griffin (“enraivecido e desesperado com seu intolerável destino… evidentemente contara com a cooperação de Kemp em seu sonho brutal de um mundo aterrorizado) não deixa por menos: levanta uma criancinha do chão, a atira longe violentamente, quebrando seu tornozelo; enquanto inúmeros homens executam as recomendações de Kemp, o Homem Invisível enfim comete um assassinato: com uma barra de ferro, ele mata o mordomo de Lord Burdock, o inofensivo Wicksteed (quebrou-lhe o braço, derrubou-o e reduziu-lhe a cabeça a uma massa informe[12] ). O pior é que foi um crime arbitrário, sem motivo.

Kemp recebe uma carta, condenando-o à morte, no dia um do ano um da nova era, a Era do Homem Invisível… Haverá uma execução no primeiro dia, para servir de exemplo, a de um homem chamado Kemp… Hoje Kemp vai morrer”.  Kemp evidentemente se entoca em casa e procura proteger-se. O coronel Adye reaparece. De repente, os vidros das janelas começam a ser quebrados. Adye se propõe a sair e buscar os cães (os quais têm uma particular implicância com o Homem Invisível). Ele leva um revólver. Perto dele, uma voz ordena que pare e volte para a casa. Adye tenta atirar, mas Griffin toma-lhe o revólver dizendo “Não tenho contas a ajustar com o senhor”. Adye tenta agarrar o revólver e leva um tiro. Kemp assiste à cena: “Adye jazia no gramado perto do portão. A casa começa a estremecer com pancadas brutais e estraçalhar de madeira. Ouve-se um ruído,  o clangor da destruição dos fechos de ferro dos postigos. O revólver começa a disparar contra ele: “Bateu e trancou a porta e do outro lado ouviu Griffin, gritando e rindo. Depois recomeçaram os golpes de machado , com seu acompanhamento de rachaduras e destruição. A polícia invade o local e o Dr. Kemp se escafede covardemente (a opinião do policial sobre Kemp foi breve e pitoresca”). O cientista (Kemp) e o vagabundo (Marvel) se irmanam, pois no último e memorável capítulo, o primeiro repete a trajetória de fuga do segundo.  Essa repetição não deixa de ser um eloqüente e sarcástico comentário do autor sobre o personagem [13].

Kemp corre para a cidade, vê um bonde, a delegacia de polícia. São passos o que ouve atrás dele? As pessoas começam a reparar nele. Tem a tentação de pular no bonde, mas opta pela delegacia: O condutor do carro e o cobrador, fascinados pela visão daquela pressa furiosa, ficaram olhando… Mais adiante, as expressões intrigadas dos operários de drenagem apareceram por sobre o cascalho acumulado”. E como Marvel, Kemp é arauto do Homem Invisível que adentra a cidade no esplendor da sua fúria, agora transformado em pura selvageria, instinto agressivo, pulsão de morte, thânatos. E Kemp não age diferente: se o outro está na margem do isolamento, ele pede socorro à horda, ao ajuntamento humano, à moderna massa: Subindo a rua havia outros que os seguiam, batendo e gritando. Na direção da cidade homens e mulheres também corriam e viu claramente um homem saindo da porta de uma loja, com uma bengala na mão. Espalhem-se, espalhem-se! gritou alguém. Kemp não tardou a perceber a mudança de situação na caçada.” O que fora um experimento científico vira uma luta corporal, logo uma carnificina, inflada pelas emoções da massa: um estranho que chegasse à estrada de repente poderia pensar que estava havendo uma partida de rúgbi excepcionalmente selvagem. E não se ouviu mais nada… apenas o som de socos, pontapés e uma respiração pesada… Subitamente um grito angustiado de piedade, piedade, que se transformou depressa em um som estrangulado”. Kemp recupera a lucidez e pede que a turba pare o linchamento e se afaste: Não está respirando. Não sinto o coração.” E de repente “todos viram, impreciso e transparente, o contorno de uma mão, mão flácida e caída, como se fosse de vidro, de forma que veias e artérias, ossos e nervos podiam ser distinguidos… E assim, lentamente, começando pelas mãos e pés e subindo pelos membros para os centros vitais daquele corpo, a estranha metamorfose continuou… Puderam ver então o peito esmagado, os ombros e o vago esboço de feições esbatidas e castigadas. Quando a multidão finalmente abriu espaço para que Kemp ficasse de pé, jazia no chão, nu e deplorável, o corpo maltratado e todo quebrado de um moço de perto de trinta anos. Tinha o cabelo e a barba brancos, não grisalhos por causa da idade, mas brancos com a brancura do albino, e seus olhos eram cor de granada. Tinha as mãos contraídas, os olhos abertos e sua expressão era de cólera e espanto.” E a última palavra dita a seu respeito é: Cubram o rosto dele! Pelo amor de Deus, cubram esse rosto”. Cubram esse rosto que é o dos nossos mais primitivos e básicos instintos: se apossar do mundo, assimilá-lo, tudo nos servindo, palco para os nossos prazeres. Esse rosto que traz a marca da ambigüidade da imaturidade e da incapacidade de lidar com o real: feições juvenis e traços grisalhos. A velhice inscrita precocemente numa eterna criança.

O epílogo é reservado a Marvel, que adquiriu uma estalagem com o dinheiro roubado pelo Homem Invisível e que guarda escondidos os seus livros, tentando decifrá-los para adquirir seu poder; só que para ele são feitiços e não fórmulas científicas. A estupidez sempre acaba por vencer.


[1] Herbert George

[2] Ele publicara um ano antes A máquina do tempo & A ilha do doutor Moreau; um ano depois publicará A guerra dos mundos.

[3] Só que essa versão é tão boa que causou um engano atéem Jorge Luis Borges. Como se sabe, H.G.Wells é um dos seus autores favoritos, todavia, ao recapitular o enredo do livro, ele afirmou num dos seus ensaios que o Homem Invisível era abatido a tiros por uma força policial, quando se refugia numa espécie de celeiro (está nevando e por isso suas pegadas ficam visíveis). Isso acontece no filme, não no romance original.

[4] Utilizo aqui a tradução de Elsa Martins (Francisco Alves), às vezes ligeiramente modificada..

[5] Os aspectos fisiológicos da “condição” do Homem Invisível são magistralmente explorados por Wells, como veremos.

[6] Imaginem a sensação de uma cena como essa na época, em que era pura novidade.

[7] Seria mais exato dizer sternianamente, pois, como Machado, Wells deve ter lido Laurence Sterne e seu maravilhoso A vida e as opiniões do cavalheiro Tristram Shandy, no qual o narrador vive interrompendo sua narrativa. Além disso, muitos grandes narradores ingleses (tais como Henry Fielding, autor de As aventuras de Tom Jones; William Thackeray, autor de A feira das vaidades, e mesmo o grande Dickens) são useiros e vezeiros desse tipo de “conversa com o leitor” e “informalidade narrativa”.

[8] O Dr. Jekyll era membro destacado da Royal Society.

[9] Um detalhe interessante, quando nos lembramos dos estudos de Freud, é que Kemp chega a acreditar que foi vítima de hipnotismo.

[10] Kemp: Você não está dizendo que existe um gato invisível por aí!

Griffin: Se não foi morto, por que não?”

[11] Aqui me parece que Wells equilibra os pratos da balança: Griffin renunciou à humanidade, decerto, mas também é uma humanidade para lá de renunciável. A crueldade está presente nos dois campos, como se vê na proclamação assinada pelo coronel Adye: Descrevia, sucinta e claramente, todas as condições da luta, a necessidade de não propiciar ao homem invisível alimento ou repouso, a necessidade de uma vigilância incessante e de atenção imediata para qualquer indício de sua movimentação.”

[12] O que dá certa simetria desse romance com Jekyll & Hyde, no qual também há a agressão a uma criancinha e um assassinato gratuito, de um homem mais velho.

[13] Diga-se de passagem, temos mais uma narrativa onde a ausência de mulheres (no sentido de interesse afetivo e erótico) é visível. Tanto Griffin quanto Kemp já são os típicos solteirões vitorianos.

03/09/2011

COM QUE ROUPA (vou para o além…)

Este é mais um texto escrito em 2008 como leitura anotada para meu curso sobre obras de ficção curtas do século XIX, AS MARGENS DERRADEIRAS)

 

Meu chapéu do Quartier Latin. Por Deus, devemos simplesmente trajar a personagem. Quero luvas castanho-arroxeadas.”     

                           (James Joyce, Ulisses, 1922)

 “Haldin fora enforcado às quatro horas.  Ao que parecia, entrara em sua existência futura com  botas de cano longo, gorro de pele de astracã e tudo o mais, até com o cinto de couro, Um tipo tremulante e evanescente de existência. Não fora sua alma, mas seu fantasma que Haldin deixara para trás nesta Terra…”

                      (Joseph Conrad, Sob os olhos do Ocidente, 1911)

       “As cadeias da humanidade torturada são feitas de papel de          escritório.”
      (Franz Kafka, citado em Conversas com Kafka, de Gustav Janouch)

 

         Não foi em Petersburgo que Nikolai Gógol nasceu (em 19 de março de 1809, mesmo ano de Edgar Alan Poe). Ele só foi para a capital em 1828, oriundo da Ucrânia. Segundo Solomon Volkov, acabou sendo o responsável pela dubiedade artística na apreensão da cidade: de visão paradisíaca e de grandeza (a de Pedro, o Grande, simbolizada na sua famosa estátua eqüestre, feita por Falconet e inaugurada em 1782) para o pólo infernal, degradado, os poetas e ficcionistas de Petersburgo oscilaram, pendendo muitas vezes para o segundo lado: Essa fatal transformação foi inspirada por Nikolai Gógol, para quem Petersburgo nada mais era que um reino dos mortos em potencial, úmido, plano, uniforme, pálido, cinza e nevoento. Gógol considerava a cidade palco do bacanal de entes demoníacos hostis, cujo chão, sempre movediço, ameaçava engolir os prédios majestosos, as repartições públicas destituídas de alma e as multidões de seus medíocres funcionários.”  [1] 

    E é justamente nessa atmosfera que se ambienta a mais famosa historia gogoliana, O Capote [2], a qual já se inicia com uma descrição mortífera da atmosfera da repartição pública e a mentalidade dos funcionários: No ministério de… Não, é melhor não dizer seu nome. Ninguém é mais suscetível do que funcionários, empregados de repartições e gente da esfera pública. Nos dias que correm, todo sujeito acredita que se nós atingimos a sua pessoa, toda a sociedade foi ofendida. Recentemente, é o que dizem, o chefe de polícia de não sei qual cidade produziu um Informe no qual diz sem meias palavras que o respeito às leis se perdeu e que seu sagrado nome foi pronunciado em vão… Assim, para evitar suscetibilidades, chamemos o ministério em questão simplesmente de um certo ministério.”

         Logo a seguir conhecemos um burocrata insignificante, de baixo escalão, um mero amanuense (essa figura do homem insignificante é um achado genial que repercutirá na obra de Dostoiévski, inclusive em Notas do Subterrâneo). Ele tem um nome infernal, Akaki Akakiévitch Bachmatchkin (e olhe que foi um tormento lhe dar um prenome, pois ao nascer, ao se consultar um almanaque, como era de praxe, as escolhas ficavam entre Moskia, Sosie, Cosdazat, Trifili, Dulas, Barachisi, Pausicaci e Bactici; a mãe, desesperada, acabou lhe dando o nome do pai).

         Como é a aparência de Akaki Bachmatchkin? “…pequeno, raquítico, ruivo, tinha a vista curta, a testa calva, rugas ao longo das bochechas e uma destas peles com uma tonalidade que só poderíamos chamar de hemorroidosa… Que se pode fazer, a culpa é do clima de Petersburgo!”  Ele é um desses funcionários que ninguém lembra quando entrou no serviço do ministério e quem o recomendara. Mudavam as chefias, ele estava sempre no mesmo posto: Ninguém lhe votava qualquer consideração. Longe de se erguerem à sua passagem, os porteiros prestavam menos atenção à sua aproximação do que ao vôo de uma mosca. Seus superiores o tratavam com uma frieza despótica… Seus jovens colegas gastavam com ele o arsenal de gozações correntes na repartição.” A única reação do veterano amanuense era, quando as brincadeiras ultrapassavam os limites, um miserável lamento: O que eu fiz para vocês?”

         O único traço memorável de Akaki Akakiévitch era sua dedicação ao trabalho de transcrição. Fora das suas cópias, nada mais parecia existir para ele”. Descuidado em sua aparência, havia sempre um fio, uma fitinha, um pedacinho de palha grudado ao seu paletó. Tinha a virtude de se encontrar debaixo de uma janela no momento preciso em que por ela eram atirados toda sorte de detritos. Como resultado, cascas de melão, de melancia e de outras tralhas do mesmo gênero ornavam continuamente seu chapéu” ; também era indiferente ao mundo externo: “Nem uma só vez em sua vida ele prestou atenção ao espetáculo quotidiano da rua… Supondo-se que Akaki Akakiévitch pousasse os olhos sobre um objeto qualquer, ele perceberia nele linhas escritas em sua caligrafia clara e fluente”.

         Como se vê, Gógol criou o homo burocraticus. Na sua casa, Akaki Akakiévitch nem se dá conta do que come, “engolia sem perceber que gosto tinha, juntamente com as moscas e todos os complementos que o bom Deus se dignara acrescentar conforme a estação”. Nas horas de folga, o que faz? Continua copiando documentos trazidos do ministério. Essa é a sua rotina “sob o céu cinzento de Petersburgo. Ao se deitar, sorri pensando no dia seguinte: que documentos a graça de Deus confiaria a ele para serem copiados?” e assim “nesta paz decorria a vida de um homem que com quatrocentos rublos de vencimentos se mostrava contente com a própria sorte”. Mas a fatalidade também espreita os amanuenses felizes: Akaki Akakiévitch possuía um inimigo: o clima da cidade. Aproxima-se o período de frio rigoroso, acompanhado pela neve incessante, e então o funcionário do ministério examina seu velho capote, o qual “alimentava também os sarcasmos de sua repartição. Uma vestimenta com aspecto muito estranho, pois a gola diminuía ano a ano, já que servia para remendar outros lugares. A primeira idéia do Akaki Akakiévitch é levar seu capote ao alfaiate Petrovitch: “A porta do alfaiate estava aberta, sua considerada esposa tendo, ao fritar não se sabe que tipo de peixe, deixado escapar uma fumaça tão espessa que não era possível distinguir nem mesmo as baratas”. Quando sóbrio, o alfaiate tem um gênio irascível e condena sem apelo o capote de Akaki Akakiévitch. O melhor seria mandar confeccionar um casaco novo: “A palavra novo quase cegou Akaki Akakiévitch. Todos os objetos se embaralharam bruscamente diante de seus olhos numa espécie de bruma…” Onde arranjaria o dinheiro? Ao fim e ao cabo, seriam 80 rublos. No entanto, ele se priva do que pode (ou seja, quase tudo), gasta todas as suas economias e gratificações, e dá o passo mais corajoso da sua vida… manda fazer o novo casaco: Foi em… Eu não saberia dizer, juro, exatamente a data em que Petrovitch entregou enfim o casaco. Akaki Akakiévitch não conheceu dia mais solene em toda a sua existência… Petrovitch parecia perfeitamente convencido de que realizara sua grande obra, estabelecendo de modo definitivo o abismo que separa um alfaiate de um remendão.” O casaco assenta com perfeição.No caminho para o trabalho, “Akaki Akakiévitch caminhava tomado pelo mais intenso júbilo. A sensação continuada do casaco novo sobre os ombros o mergulhava num devaneio que, por diversas vezes, arrancou dele pequenos sorrisos.”

         No ministério, o casaco causa sensação, chovem os cumprimentos. Um subchefe resolve oferecer uma festa em sua residência em homenagem… ao casaco. Como nunca vai a lugar nenhum, Akaki Akakiévitch pensa em recusar o convite, mas fazem-no sentir-se envergonhado em pensar numa hipótese tal, e além disso “entreviu, não sem prazer, que o evento lhe permitiria desfilar mais uma vez em seu belo casaco novo e, desta vez, sob as luzes.”

    Lamentamos não poder dizer com precisão onde residia o funcionário que o convidara. A memória começa a nos trair. As ruas e os edifícios de Petersburgo confundem-se de tal forma em nossa cabeça que já não conseguimos mais nos orientar nesse vasto labirinto. De todo jeito, é certo que o referido subchefe residia num dos mais belos bairros e, conseqüentemente, muito distante de Akaki Akakiévitch. Este precisou seguir de início algumas ruas sombrias e quase desertas, iluminadas mui parcimoniosamente. Mas, à medida que se aproximava de seu destino [isto é, em direção à prosperidade], a movimentação se tornava mais viva e a iluminação mais brilhante.”

         Na moradia do subchefe, comemoram bastante a sua chegada, ou melhor, a chegada do seu casaco, e depois ele fica se arrastando por ali, ignorado e insignificante como sempre, deslocado, “sem lugar no mundo” fora das suas cópias: não demorou para que fosse deixado de lado… A balbúrdia, o falatório, o grande número de pessoas, todas essas coisas desconhecidas mergulharam o pobre homem numa espécie de idiotia” .

         Ele se retira “à francesa”, meio alto devido a duas taças de champanhe e logo se estenderam à sua frente ruas solitárias… Somente a neve cintilava sobre a calçada onde não havia alma viva e ao longo da qual os casebres cochilando por detrás de suas venezianas fechadas resultavam em sinistras manchas negras. Por fim, surgiu um vasto espaço vazio, menos semelhante a uma praça do que a um horrível deserto. Os edifícios que contornavam seus limites mal eram divisados e, perdida nessa imensidão, o lampião de uma guarita parecia estar ardendo distante, quase no fim do mundo”.

         Três indivíduos o abordam e tomam seu casaco, depois de joelhadas em seus rins, fazendo com que ele role pela neve e perca a consciência. Procura a guarita e é tratado com desdém pelo guarda, que o manda falar com o Comissário no dia seguinte. Regressa à sua casa, após sua única aventura na vida, “num estado lastimável: os cabelos, quer dizer, os poucos tufos que ainda protegiam suas têmporas e sua nuca, desgrenhados, o peito, as ancas, as pernas inteiramente cobertas de neve.” Sua senhoria inicia a longa série de conselhos sobre qual autoridade procurar para obter o casaco de volta. Indo atrás da justiça, pela primeira vez Akaki Akakiévitch falta ao trabalho.

         No dia subseqüente, “a história do roubo emudeceu quase todos os colegas, ainda que uns gaiatos descobrissem no incidente nova matéria para zombaria”. Um deles dá o conselho fatal: procurar um “certo personagem influente”, que iniciaria o processo infalível de restituição do valioso bem (Akaki Akakiévitch voltou, enquanto isso, ao seu velho e lamentável casaco, no fundo sua alma gêmea em termos de condição existencial). Só que o tal “personagem influente” é uma Excelência: Ocorre que o título de Excelência dera uma reviravolta completa em sua cabeça. Desde que o obtivera, seu espírito desviou-se e ele perdeu todo controle de si mesmo. Com aqueles que tinham o mesmo nível que ele, ainda se conduzia com boa educação… mas se acaso se misturasse a seus interlocutores alguma pessoa inferior ao lugar que ele ocupava na hierarquia, nem que fosse um só grau, ele se tornava de imediato insuportável, esquecendo toda a cortesia…” [3]

         O desafortunado Akaki Akakiévitch o procura num momento inadequado (ele está em colóquio, e exibindo-se, com um antigo camarada) e ele considera as reivindicações do amanuense de uma “familiaridade excessiva”: “Meu senhor, exclamou ele no tom mais cortante, onde acredita estar? Desconhece a tal ponto os procedimentos adequados? O senhor deveria antes de mais nada apresentar sua demanda ao encarregado de serviço. Este deveria encaminhá-la na boa e devida forma ao chefe da repartição, o chefe da repartição ao chefe da divisão, o chefe da divisão ao meu secretário, o qual afinal a submeteria à minha apreciação” (e Akaki Akakiévitch o procurou por não confiar na polícia), “Sabe com quem o senhor está falando? Compreende diante de quem está? Vamos lá, eu estou perguntando! Ele lançou esta última frase batendo o pé e com uma voz estridente que faria com que sujeitos muito mais autoconfiantes do que Akaki Akakiévitch também perdessem a compostura. Akaki Akakiévitch sentiu-se prestes a desfalecer: seu corpo inteiro tremia, suas pernas vacilavam…se os contínuos não o houvessem segurado pelos braços, ele teria infalivelmente caído no chão. Foi carregado quase inconsciente”. Nisso tudo, Sua Excelência fica encantado de mostrar ao amigo (este, constrangido) seu poder esmagador.

         E é um literalmente esmagado (homem-inseto) Akaki Akakiévitch que vai para sua casa, com seu capote velho, vergastado pela neve, pelo vento que soprava em sua direção de todos os lados ao mesmo tempo, como parece ser regra em Petersburgo [4]. Pegou num piscar de olhos uma bela e boa infecção da garganta… Tais são muitas vezes as conseqüências de uma séria descompostura! Graças à generosa colaboração do clima de Petersburgo, a doença evoluiu muito mais rapidamente do que se poderia esperar…” Ele é desenganado pelo médico. E morre em delírio, com a mente girando confusamente em torno do capote roubado: “O morto foi levado, colocado na sepultura e Petersburgo ficou sem Akaki Akakiévitch”. Como se isso tivesse a menor importância.

         Mas Petersburgo não ficou muito tempo sem ele: Quem poderia ter acreditado que levaria no além-túmulo uma existência movimentada, capaz de conhecer aventuras ruidosas, sem dúvida para compensar o pouco brilho de sua vida terrena?” E a “modesta narrativa” flerta então com o fantástico, de uma forma galhofeira. O espectro do amanuense surge em todas as partes tomando o capote dos transeuntes de qualquer classe, sob pretexto de recuperar o seu, roubado”. A polícia (que não o ajudara) é colocada em seu encalço, após as queixas atingirem um volume insuportável: “Os guardas receberam ordem de agarrar o fantasma, morto ou vivo, e aplicar nele um severo corretivo que pudesse servir de exemplo aos demais”. O fantasma, entretanto, os assusta de tal forma que eles “passaram a evitar prender até mesmo os vivos”.

         O pior está reservado à Sua Excelência, o autor da descompostura fatal. Após uma noitada, ao invés de ir para seu lar, ordena ao cocheiro que o leve à casa de uma certa Karolina Ivánovna, senhora de origem alemã [5] , acho, pela qual ele cultivava sentimento inteiramente amigáveis. No caminho, rajadas fustigantes interrompiam a “doce quietude” da noite petersburguense. Súbito, uma mão vigorosa o agarra pela gola e vê seu lado o fantasma, vestido com velho uniforme puído, que lhe diz: É de teu casaco que preciso!” E assim Sua Excelência perde o casaco e a vontade de visitar Karolina Ivánovna, dando ordem ao cocheiro para levá-lo para casa, onde se arrasta até sua cama e passa uma noite agitada. E a partir daí ele se torna mais cuidadoso.

         A partir dessa noite, também, não há mais aparições nos logradouros mais distintos. “A peliça de Sua Excelência cumprira sem dúvida seu destino.” Porém, nos bairros mais distantes, há rumores sobre um fantasma, um espectro arrogante que diz “Que queres?” ao interpelante e que apresentava uma estatura mais alta e bigodes enormes, diferente da figura anterior de Akaki Akakiévitch. É um Fantasma-Excelência? Efeito da peliça? Nós o vemos pela última vez na narrativa, desaparecendo “completamente em meio às trevas noturnas”.

         É inegável que essa admirável narrativa teve grande efeito sobre Dostoiévski, que começará a escrever poucos anos depois. Em 1842, Herman Melville está nos mares do sul (em agosto, por exemplo, desembarca no Taiti). Só vai residir na Nova Iorque de Bartleby em 1847. Muitos anos depois, em 1866, e após muitas experiências ruins, esse escritor obscuro consegue, já a caminho dos 50 anos, um posto de inspetor da Alfândega (e aí se aposentará, 22 anos depois, ironizando a “dignidade do trabalho”, pura mistificação).

         Seu grande amigo e o outro membro do fenomenal trio de ficcionistas norte-americanos pré-Henry James (além dele e de Poe), Nathaniel Hawthorne [6], ao publicar A letra escarlate (em 1850), incluíra uma polêmica introdução (em que o narrador explica de que forma os documentos da história chegaram às suas mãos), a qual era uma descrição do funcionamento da Alfândega de Salem, da qual fora conferente por três anos (e, anos mais tarde, inspetor no porto). Ele foi afastado em 1849 (ano da morte de Poe), por motivos políticos: Em minha cidade natal de Salem, na extremidade da qual, meio século atrás, nos tempos do velho King Derby, se estendia um cais muito movimentado… ergue-se um espaçoso edifício de tijolos, de cujas janelas fronteiras se tem uma vista não muito encantadora… No ponto mais elevado do telhado, durante precisamente três horas e meia a cada manhã, flutua ou pende, consoante sopra o vento ou reina calmaria, a bandeira da República, com as treze listas em posição, não horizontal, mas vertical, a indicar que se encontra ali a sede de um posto civil, e não militar, do governo do Tio Sam” [7].

     As primeiras páginas repisam a sensação de abandono e declínio de um lugar outrora próspero e central: subindo a escadaria podia-se enxergar…uma fileira de figuras respeitáveis, sentadas em cadeiras de velho estilo, cujas pernas traseiras se encostavam à parede. Passavam a maior parte do tempo dormindo, mas uma vez ou outra era possível escutá-los falando entre si, com uma voz intermédia entre a fala e o ronco, e com aquela falta de energia característica dos que residem em asilos de velhos, abrigos de mendigos, e de todos os seres humanos que, no concernente à subsistência, dependem da caridade, do trabalho servil ou de qualquer outro expediente que não seja a independência do esforço pessoal. Esses idosos cavalheiros (sentados, como Mateus, junto ao balcão aduaneiro, mas não muito dispostos a serem convidados a sair dali, como ele, para se dedicarem a peregrinações apostólicas) eram os oficiais alfandegários.”

         Temos uma sala “forrada” com teias de aranha e pinturas antigas, apresentando um desleixo visível em toda a parte. Nem sinal do sexo feminino e seus “instrumentos mágicos”: vassoura e esfregão. Aí então, o narrador menciona um indivíduo que recebia as pessoas com extremos de amabilidade. Esse indivíduo, o inspetor “locofoco” [8], foi varrido dali por uma vassoura nada ausente, a da reforma administrativa motivada pelo revezamento de partidos no poder.

         O ex-inspetor fala das velhas raízes que o prendem a Salem, cidade cuja irregularidade topográfica não é “nem pitoresca nem fantasiosa, mas tão somente insípida, com sua longa e preguiçosa rua principal que se estira fastidiosamente ao longo da extensa península… sendo estas as feições de minha cidade natal, seria de todo razoável experimentar um apego sentimental a um desorganizado tabuleiro de xadrez?”

         Como há muitos antepassados seus inscritos na história da cidade, ele faz uma formulação belíssima (como gênio que é): Em parte, pois, o apego de que falo não passa de mera simpatia que o pó sente pelo pó”.  E revela que, assim como o porto de Salem, também é um produto decaído de uma velha e ilustre cepa: “Sem dúvida, alguns desses austeros e carrancudos puritanos devem ter pensado que seria mais que suficiente castigo de seus pecados que, com o rodar dos anos, o velho tronco da árvore familiar, coberto de respeitável camada de musgo, houvesse de produzir, na extremidade do seu ramo mais elevado, um vagabundo como eu. Nenhuma das aspirações,que eu tenha acariciado, eles a teriam reconhecidas como digna de louvor…” Portanto, um “rebento degenerado”, mas ainda apegado ao velho solo (não que ele reconheça tal coisa como saudável): “Foi principalmente esse estranho, indolente e enfadonho apego ao meu torrão natal que me levou a ocupar um lugar no edifício de tijolos do Tio Sam quando, afinal, eu podia, e talvez com vantagem, ter partido para outro cantão. Mas a força do destino pesava sobre mim…. como se Salem fosse, para mim, o centro do universo para onde me jogava a força da gravidade. Assim, certa manhã subi o lance de degraus de granito, levando no bolso o documento de minha nomeação assinado pelo Presidente da República, e fui apresentado à turma de cavalheiros que deviam ajudar-me a suportar o peso da responsabilidade, como diretor dos serviços executivos da Alfândega. Tenho minhas dúvidas (ou, antes, não duvido absolutamente de coisa alguma) se algum funcionário público dos Estados Unidos, civil ou militar, teve jamais uma corporação patriarcal de veteranos às suas ordens como eu… Embora de forma alguma fossem menos expostos do que seus semelhantes aos efeitos dos anos e às enfermidades, era óbvio que algum talismã ou coisa similar mantinha a morte à distância. Dois ou três entre eles, conforme me informaram, que sofriam de gota e reumatismo, e quiçá estavam cravados ao leito, nem sequer sonhavam em fazer ato de presença na Alfândega durante boa parte do ano; contudo, quando abrandavam os rigores do inverno, saíam a aquecer-se ao calor do sol de maio ou junho, depois dirigiam-se preguiçosamente àquilo que pomposamente denominavam o seu dever, para logo em seguida irem-se meter novamente na cama. Devo confessar-me réu de reduzir a respiração oficial de mais do que um desses veneráveis servidores da República. Por efeito da minha atuação, foi-lhes outorgado repousarem de seus árduos trabalhos, e logo a seguir alguns deles se retiraram para um mundo melhor, como se o único princípio de vida que os animava tivesse sido o zelo ao serviço de sua pátria.” Vejam a malícia terrível com que Hawthorne delineia esse pesadelo burocrático, arrematando com um: “e eu acredito plenamente que assim fosse”; um pouco mais adiante: Nem a entrada principal nem a das traseiras do edifício da Alfândega dão para a estrada que conduz ao Paraíso”.

         Imaginem o efeito desse texto na Salem de 1850, mesmo que ele tivesse sido levado na conta de vingança de ex-funcionário ressentido… e ainda por cima escritor, autor de uma histórias estranhas, até com um livro em que elas eram contadas duas vezes, vejam se é possível!

         Embora, ele tivesse surgido como Anjo Exterminador, principalmente para os afastados pela gota e reumatismo, não teve coragem suficiente para aposentar os que permaneciam na, digamos, ativa: “Sabiam eles, esses excelentes camaradas consumidos pelos anos, que, em virtude da lei estabelecida, tinham de ceder o lugar a outros mais novos… Eu também o sabia, todavia não havia maneira de em meu coração me resolver a agir em conformidade com a lei. Pelo que, muito merecidamente para meu descrédito e não menos consideravelmente para desassossego da minha consciência oficial, todos eles, durante o tempo da minha comissão, continuaram a arrastar-se tranqüilamente pelo cais e a subir e descer com toda a pachorra os degraus da escadaria da Alfândega. Boa parte do tempo consumiam-na também cochilando pelos cantos habituais, refestelados em suas cadeiras. Nem sempre. Despertavam uma ou duas vezes em cada expediente para se enfastiarem mutuamente com a repetição de velhas histórias do mar, contadas e recontadas centenas de vezes, e com as picantes, mas bolorentas anedotas que tinham acabado por se converter em senha e contra-senha entre eles…”

          Apesar de alertar de que nem todos eram tão velhos (“espécimes de senilidade”) ou faltos de vigor, para não parecer estar cometendo uma grave injustiça com aqueles excelentes e velhos amigos, ele insiste: “…no que se refere à maioria do meu corpo de veteranos, não falto à verdade, se os caracterizar de modo geral como uma turma de velhas almas fatigadas que de suas múltiplas e variadas experiências da vida nada recolheram digno de preservação. Dir-se-ia terem jogado para longe os grãos dourados da sabedoria prática, que eles tiveram tantas oportunidades de ceifar, e que se empenharam com sumo cuidado em armazenar na memória apenas as vagens.”

         Então começam alguns retratos individualizados. Para não ficar muito longo, e só para atiçar o gosto de ler A letra escarlate (e é apenas a introdução, nem chegamos ainda à história de Hester Prynne), vou me limitar a pinceladas do retrato do patriarca-mor dos oficiais aduaneiros, com a descuidada segurança de sua vida dentro da Alfândega, apoiada em rendimentos de vulto, perturbada apenas por leves e infreqüentes apreensões de ser afastado”; mais adiante: “poder de raciocínio era coisa que ele desconhecia… não era mais do que um aglomerado de instintos vulgares, que, servidos por uma prazenteira disposição de ânimo em absoluta consonância com seu bem-estar físico, cumpria regularmente sua obrigação, e a contento de todos”. O narrador confessa seu fascínio por esse “fenômeno raro”: a nulidade absoluta.

         Estamos chegando ao término da parte da introdução que nos interessa aqui, que é a do homem colocado como peça de uma engrenagem burocrática, não um homem insignificante como Akaki Akakiévitch[9], mas o que na literatura russa será chamado de homem supérfluo (e que aparece tanto em Turgueniév quanto em Dostoiévski), que seria, na definição de Maria Aparecida Botelho Pereira Soares, o intelectual cujo talento e inteligência não têm aplicação prática num determinado tipo de sociedade e, por falta de uma realização pessoal, acaba amargo e destrutivo: “Concorre grandemente para a euforia moral e intelectual de um homem entrar em camaradagem com indivíduos que lhe sejam dessemelhantes e alheios aos assuntos de que se ocupa, para apreciar os talentos e atividades dos quais necessita sair de si próprio. As vicissitudes de minha vida muitas vezes me proporcionaram semelhante vantagem, nunca porém com a amplitude e variedade da minha permanência na Alfândega.”

         Em suma, o que é a Alfândega, qual a “mola real” que mantém em funcionamento a engrenagem:numa instituição como essa…os funcionários são designados para atenderem a seus próprios proventos e conveniências, não se atendendo geralmente à competência ou incompetência para o desempenho das obrigações que lhe são confiadas”. 

         Quanto ao narrador, “Dentro de mim havia um dom, uma faculdade, em estado de inibição ou entorpecimento, se é que já não se esvaecera de todo. Em tudo isso haveria algo de triste ou sobremaneira melancólico, se eu não tivesse consciência de que em minhas mãos estava o evocar do que no passado houvera de valioso. É possível, de fato, que essa vida não pudesse impunemente prolongar-se por muito tempo… encarei-a sempre como fase transitória… Entrementes, aí estava eu, inspetor de impostos e rendas, e tanto quanto me é dado compreender, tão bom inspetor quanto era necessário… Os meus colegas de repartição… olhavam-me através desse prisma, nem provavelmente viram em mim outra personalidade…. É uma boa lição, embora por vezes dura, para um homem que sonhou com a fama literária e ambicionou conquistar por este meio um lugar de destaque entre as eminências mundiais, manter-se à margem do estreito círculo em que suas pretensões são conhecidas, e verificar como, fora dele, ninguém liga importância ao que ele faz e pretende…. É certo que em matéria de conversa literária, o oficial de marinha discutia, vez por outra, sobre alguns dos seus autores favoritos: Napoleão ou Shakespeare [eu também sou apaixonado pelas obras completas de Napoleão]… O apontador da Alfândega imprimia meu nome com tinta preta nos sacos de pimenta, nos fardos de cereais, nas caixas de charutos, e nas embalagens de toda sorte de mercadoria sujeita a direitos aduaneiros, em testemunho de que tais artigos haviam pagado o imposto e passado legalmente pela alfândega. Transportada neste original veículo de fama, a notícia de minha existência, na medida em que um nome a pode transportar, chegava aonde nunca antes tinha chegado e aonde, segundo espero, não voltará a chegar.”[10]

 

 


[1] Cf. São Petersburgo, uma história cultural, de Solomon Volkov (Record)

[2] Utilizarei a tradução de Roberto Gomes (L&PM), a única que tenho à mão no momento.

[3] Estamos num universo que será explorado aqui no Brasil por Lima Barreto.

[4] Esse papel onipresente da neve, associado à condição dos “humilhados e ofendidos” é muito presente também nos textos de Dostoiévski que veremos, O Duplo e Notas do Subterrâneo; neste último, na segunda parte, não por acaso intitulada “A propósito da neve derretida”, lemos: A neve úmida caía em flocos… Nas ruas desertas lampejavam lugubremente os lampiões através da bruma nevada, semelhantes a tochas de enterro. A neve penetrou dentro do meu capote, do meu paletó, da minha gravata, derretendo; não me cobri: tudo estava perdido mesmo!” Em Dostoiévski, a neve também se associa aos estados febris, à beira do delírio, dos seus protagonistas e/ou narradores.

[5] Nós vamos reencontrá-la quando falarmos de O Duplo, de Dostoiévski.

[6] Ele nasceu em quatro de julho de 1804 e morreu em 1864, ano da publicação de Notas do subterrâneo, deixando muito solitário seu amigo e autor de Moby Dick.Ambos se sentiam incompreendidos e isolados, todavia Hawthorne foi mais bem sucedido em sua carreira de escritor.

[7] Eu tenho três traduções: a de Sodré Viana (uma edição bem antiga da José Olympio), a de A.Pinto de Carvalho (que li na “Coleção Saraiva”, mas foi reeditada pela Ediouro); e uma mais recente, de Elaine Farhat Sírio (Círculo do Livro); a Martin Claret  editou recentemente essa grande obra-prima.

[8] Alusão à ala radical do Partido Democrata na época.

[9] Mesmo porque ele ocupa um cargo hierárquico superior. O que os aproxima é a sensação de “enterrado vivo” num lugar onde não há a “vida viva”, como diz o narrador de Notas do Subterrâneo, uma sensação que foi extremamente bem descrita por Lima Barreto ao mostrar o ressentimento dos colegas de repartição de Policarpo Quaresma quando este se torna notório (ridiculamente notório, coitado) ao propor seu requerimento de adotar o tupi-guarani como língua oficial da nação: É como se se visse no portador da superioridade da superioridade um traidor à mediocridade, ao anonimato papeleiro. Não há só uma questão de promoção, de interesse pecuniário; há uma questão de amor-próprio, de sentimentos feridos, vendo aquele galé como eles, sujeito aos regulamentos, aos caprichos dos chefes, às olhadelas superiores dos ministros, com mais títulos à consideração, com algum direito a infringir as regras e aos preceitos.” É evidente que Lima aqui projeta sua própria situação nos anos em que trabalhou como amanuense no Ministério da Guerra.

[10] E a seguir ele conta como encontrou a papelada referente à história de Hester Prynne.

28/08/2011

O coração das trevas à beira do Báltico: o menino é o pai do homem II

O texto abaixo, na verdade uma leitura comentada, foi escrito em 2008, como parte do material de leitura para meus alunos do curso As margens derradeiras: textos do limite,  que abordava oito textos curtos e paradigmáticos do século XIX: O médico e o monstro, Bartleby, Memórias do Subsolo, A morte de Ivan Ilitch, O alienista, O mandarim, O coração das trevas & A volta do parafuso; em torno de cada um, analisei outros: William Wilson, O homem invisível, O duplo, O capote, A tumba dos ancestrais, O horla, O homem da areia, A vida privada, etc

“O maravilhoso e estranho dessa aventura arrebatou minh´alma, e eis por que, caro leitor, eu precisava despertar em você a inclinação para o fantástico, o que não é nada fácil, e me esforçar para começar a história de Natanael de forma significativa, original, surpreendente: Era uma vez, o mais belo começo para qualquer história, mas muito tímido… Não me ocorreu nenhum discurso que pudesse, pelo menos, refletir o brilho colorido do quadro que eu elaborara no espírito. Decidi então simplesmente não começar…”

                   (E.T.A. Hoffmann, O Homem da Areia, 1815)

 

         Der Sandmann- O Homem da Areia,  foi escrito em 1815 por E.T.A. Hoffmann, autor estudado por Freud, justamente pelo ponto de vista do umheimlich, o inquietante, o insólito, o sinistro até. Ernst Theodor nasceu em Königsberg (pertencente então ao Império Prussiano), em 24 de janeiro de 1776. Depois de muitos anos doente, e completamente paralisado, Hoffmann morreu em 25 de junho de 1822, aos 46 anos. Ele ficou famoso por suas histórias fantásticas e geralmente se associa à influência de Poe nos escritores que se aventuraram por esse caminho, embora o alemão tivesse a divulgação do inglês.

         O Homem da Areia (e não “de” areia) é uma história de cerca de 30 páginas divididas em duas epístolas de Natanael a seu amigo Lotar, com uma curta carta intercalada entre ambas, de Clara a Natanael, e depois da 3ª. missiva, o narrador assumindo o relato de forma abrupta.  O gênero epistolar, aliás, está estreitamente ligada às origens da narrativa moderna “sentimental”, leia-se psicológica.

         Natanael inicia a narrativa desculpando-se com seu amigo Lotar por não se comunicar com ele e a família já há bastante tempo: Ah, mas como poderia escrever-lhes com o estado de espírito tão dilacerado que vem me confundindo todos os pensamentos! Algo de terrível aconteceu em minha vida! Sombrios pressentimentos de um cruel e ameaçador destino estendem-se sobre mim quais sombras de nuvens negras, impenetráveis a qualquer benevolente raio de sol” [1] . Aqui temos o mote, o leitmotiv padrão para esse tipo de ficção: esse clima de angústia, “algo de terrível aconteceu ou vai acontecer”, “minha vida está destruída ou ameaçada”. O Horla segue justamente essa linha.

         O acontecimento terrível foi o aparecimento de um vendedor de barômetros no seu quarto de estudante, no dia 30 de outubro, exatamente ao meio-dia. Por que a pessoa desse “funesto caixeiro-viajante teve tal efeito pernicioso? Porque faz retornar temores e terrores da infância, ocasionando o já clássico “retorno do reprimido” freudiano. A originalidade de O Homem da Areia é que justamente o acontecimento mais terrífico está perdido na infância e portanto muito mais difuso e onipresente na vida adulta, ao contrário dos relatos em que o herói tem de enfrentar o medo como “novidade”.

       Quando Natanael era menino, após o jantar toda a família (os pais, ele e o irmão) iam para o gabinete do pai, o qual fumava seu cachimbo e bebia um grande copo de cerveja. Soando as nove horas, a mãe entristecia-se e dizia: “E agora, crianças, para a cama, para a cama.! O Homem da Areia está chegando, já posso sentir seus passos. O Homem da Areia é uma figura do tipo Bicho-Papão ou o Homem do Saco, com o qual minha mãe ou minha avó assustavam a mim e meus irmãos (será que a garotada de hoje ainda se assustaria? Difícil crer). E de fato, Natanael sempre ouvia passadas pesadas e lentas subindo a escada, algum tempo depois. Quer dizer, algo real acontece na vida dessa família e a mãe criou uma explicação sobrenatural que virou um mito infantil pessoal e ameaçador. Um dia, a mãe explica que não existe nenhum Homem da Areia: “Quando digo que o Homem da Areia está chegando, isso quer dizer apenas que vocês estão com sono e não conseguem manter os olhos abertos, como se alguém tivesse jogado areia neles”. Alguém acredita? Natanael, pelo menos não: “em meu espírito infantil desenvolveu-se claramente a idéia de que mamãe só negava a existência do Homem da Areia para que não ficássemos amedrontados. Ele fica obcecado pela figura do Homem da Areia ligado à noite, à vulnerabilidade do dormir, e, pior ainda, a uma possível relação do pai com esse ser fantasmagórico. Ele nutre o projeto de ver com os próprios olhos esse ente misterioso: Ele me conduzira para o caminho do maravilhoso, do romanesco, que com muita facilidade instala-se na alma infantil. Nada me agradava mais do que ouvir ou ler aterrorizantes histórias de duendes, bruxas e anões. Natanael se define então, para o amigo Lotar e para o leitor, como um homem da imaginação. Aliás, ele desenha a possível figura do Homem da Areia com giz ou carvão.

         Aos dez anos, Natanael resolve esconder-se no gabinete do pai, atrás da cortina que cobria um armário aberto ao lado da porta. Ele então descobre a identidade do Homem da Areia: o advogado Coppelius (podemos lembrar de O relógio, de Turgueniêv, dos negócios escorregadios do pai do narrador, inclusive com aquele padrinho escuso que lhe dá o relógio de presente que movimenta todo o relato): “a mais aterrorizante figura não me teria provocado tanto horror quanto aquele Coppelius”. Segue-se um retrato meio anti-semita, que nos dá uma espécie de judeu errante: A figura no conjunto  era medonha e abjeta; para nós, crianças, o que nos chocava mais eram suas grandes mãos, ossudas e peludas, tanto que evitávamos pegar no que tocassem. Ele notara essa repugnância, e então se divertia em bolinar com as mãos, sob esse ou aquele pretexto, um pedaço de bolo ou uma fruta que a boa mamãe deixara furtivamente em nosso prato. Nós, com lágrimas nos olhos, não conseguíamos mais desfrutar, por nojo e aversão, as gulodices antes destinadas ao nosso prazer. Coppelius é um desmancha-prazeres; mais profundamente porém é um envenenador da inocência, e (sei que mais uma vez demonstro meu lado malicioso) não consigo deixar de ver uma atmosfera sexual, de abuso latente, na última passagem citada, toda fundamentada em imagens hipertrofiadas de toque e repugnância. Feio e hostil, Coppelius estraga as reuniões familiares e Natanael nota o ódio e asco da mãe. Já o pai… “Papai comportava-se como se fosse ele um ser superior, com cujos maus costumes devia-se ter paciência e conservar o bom-humor”.

         Então a realidade junta no gabinete do pai duas figuras de Bicho-Papão, duas presenças ameaçadoras à vida familiar: o repugnante advogado, conviva de almoços, e o ser misterioso, companhia do pai a desoras. Natanael observa, “enfeitiçado” o pai e o visitante vestirem longas túnicas negras e descortinarem um laboratório alquímico: Ao inclinar-se em direção ao fogo, meu pai parecia outro. Uma dor cruel e convulsiva parecia metamorfosear seus traços na mais horrenda e repugnante imagem diabólica. Ele se assemelhava a Coppelius!”  Durante os experimentos estranhos daquela estranha associação que desmoraliza totalmente o pai aos olhos do filho, Coppelius repete aos gritos: Que venham os olhos, que venham os olhos!” Aterrado, Natanael berra e sai do seu esconderijo; agarrado pelo advogado, é jogado sobre o fogão e sente seus cabelos chamuscados. Coppelius diz: Agora temos olhos, olhos, um lindo par de olhos infantis” (note-se que ele ia pagar o pato com o órgão  que rege a sua vontade de saber a respeito do Homem da Areia: a visão). O pai implora “Mestre, Mestre, e Natanael desmaia, acordando com a mãe inclinada sobre ele (e, significativamente, “beijando e acariciando o filho predileto, agora inimigo do pai).

         Natanael fica de cama por várias semanas. Coppelius sumira. Diziam que deixara a cidade.

O narrador adverte seu destinatário: Devo contar-lhe ainda o mais terrível momento de meus anos de infância; então ficará convencido de que não é culpa de meus olhos se agora tudo me parece descolorido, que realmente uma fatalidade cobriu minha vida com um denso céu de nuvens, que só com minha morte, talvez, se dissipará”.

         Transcorre um ano, e uma noite, justamente às nove horas, ouvem-se os passos lentos e pesados de Coppelius. A mãe diz ao pai: “Meu amigo, meu amigo! Precisa ser assim?” “Pela última vez”, responde o pai.

         No seu quarto, Natanael não consegue dormir. Ouve, então, a porta da frente batendo ruidosamente e um lamento horrível no gabinete do pai, para o qual ele se precipita: Diante do fogão fumegante, no chão, encontrava-se meu pai, morto, com  o rosto terrivelmente desfigurado e queimado” e a mãe ao lado do cadáver, desmaiada. Natanael grita: “Coppelius, maldito Satã, você assassinou meu pai!” Coppelius desaparecera, entretanto. Até ressurgir na figura do vendedor de barômetros, com o nome de Giuseppe Coppola: Estou decidido a enfrentá-lo e vingar a morte de meu pai, aconteça o que acontecer”.

         Na segunda carta, Clara, irmã de Lotar, escreve a Natanael. Logo de início, percebemos que ela é o oposto de seu interlocutor: ele se deixa arrastar pela imaginação, e ela é sensata: se a casa desabasse, eu agiria como aquela mulher que, antes da fuga rápida, ainda arrumou as cortinas da janela. Uma afirmação desconcertante deixa isso mais claro ainda: Não me leve a mal, meu querido, se Lotar lhe disser que eu, apesar do seu estranho pressentimento de que Coppelius irá prejudicá-lo, estou tão serena e despreocupada como sempre. Isso porque ela acredita que a sensibilidade exacerbada de Natanael criou a maior parte do incidente, e principalmente as associações (Homem da Areia/advogado repugnante/desprezo pelo pai) fez com que mantivesse no espírito um crime imaginário: “As práticas sinistras com o seu pai, à noite, nada mais eram senão experiências alquímicas secretas, com os quais sua mãe se afligia, já que certamente muito dinheiro era desperdiçado… Seu pai, com certeza, por um descuido qualquer, causou a própria morte, e Coppelius não poderia ser acusado”. Eis a voz da razão, e nossa amiga poderia ser crítica literária.

         E então começa a segunda carta de Natanael, que afirma já não acreditar que Coppelius/Coppola são a mesma pessoa, principalmente pela garantia do professor de física Spalanzani, com o qual ele tem aulas, um tipo esquisito. Mais uma vez há uma cortina escondendo algo, nesse caso na casa do professor. Natanael, que pelo visto não aprendeu a lição da infância, resolve espiar através dela: Uma moça alta e muito magra, esplendidamente vestida, estava sentada no quarto diante de uma mesinha, sobre a qual pousava os braços, com as mãos cruzadas. Estava sentada diante da porte, de forma que pude ver com clareza o seu belo rosto angelical. Ela pareceu não me notar, e seu olhar tinha algo de fixo, diria até que não via nada, como se ela dormisse de olhos abertos”. Logo de saída, percebemos na filha de Spalanzani, Olímpia, o atributo da imobilidade e do quietismo excessivo.

         Natanael informa que passará algum tempo com a família de Lotar e Clara, e aí o relato passa para as mãos do narrador anônimo (que se dirige ao “caro ou benevolente leitor”), amigo do pobre estudante Natanael: “Devo confessar, caro leitor, que ninguém me pediu que contasse a história do jovem Natanael; mas você bem sabe que pertenço à peculiar espécie de autores que, carregando consigo algo como o que acabei de descrever, tem a sensação de que todos que se aproximam, e ainda o mundo inteiro, perguntam: O que aconteceu? Conte, meu caro! Foi essa força que me arrastou a contar o fatal destino que assaltou a vida de Natanael” [2] .

         Ele nos explica que Lotar e Clara, órfãos de um parente afastado, foram acolhidos pela mãe de Natanael, e que este último cultivava afeição (correspondida) por Clara, ou seja, aquele tipo de círculo íntimo padrão na época. Cresce-se junto, apaixona-se no grupo, há uma amada, há um amigo especial. É a continuação da família na vida adulta.

         O narrador diz que para muita gente Clara era fria, insensível e prosaica. Natanael fica muito contente em reencontrá-la e aos seus, mas nem por isso a sombra da repugnante figura do vendedor de barômetros Coppola deixa de ser evidente: logo começou a agir de modo estranho, como ninguém vira antes. Tudo, toda a vida era para ele sonho e pressentimento: falava sempre que toda pessoa, julgando-se livre, só fazia servir a poderes obscuros, num jogo cruel, contra os quais é inútil revoltar-se; devia-se submeter humildemente àquilo que designara o destino. Para a sensata Clara aquelas exaltações eram desagradáveis, principalmente a idéia de Natanael de que sua alma fora maculada pelo Espírito do Mal (Coppelius) ao espreitar atrás da cortina na infância (Freud deve ter se deliciado com essa imagem). Ela lhe dá um conselho bastante razoável: Coppelius terá poder sobre ele enquanto não o banir do espírito: “Enquanto acreditar nele, ele existirá e agirá; sua credulidade é a força dele”. O Homem da Areia continua agindo, vindo da remota infância. Natanael irrita-se com a insistência de Clara em atribuir a existência do Mal apenas ao seu fraco espírito, à sua débil força de vontade em libertar-se e passa a considerá-la  uma “natureza inferior”, não-apta a aprofundar-se ou compreender os mistérios do espírito. Ele quer ler passagens de livros místicos e ela o repele: “Outrora ele alimentara um talento especial para a composição de histórias encantadoras e graciosas, as quais Clara ouvia com o maior prazer; agora seus textos eram sombrios, incompreensíveis, disformes, de modo que, mesmo quando Clara não o dizia, ele mesmo sentia que eles pouco lhe haviam interessado. Nada era para Clara pior do que o tédio; em seu olhar e em suas palavras expressava-se uma invencível sonolência mental. Ora, as composições de Natanael eram de fato entediantes. Seu desgosto para com o espírito frio e prosaico de Clara aumentou, e esta não podia superar a sua irritação com o sombrio, obscuro e entediante misticismo de Natanael e, sem perceber o fato, ambos se distanciavam cada vez mais um do outro” [é o gosto romântico aflorando, sendo incompreendido, no início do século XIX].

         Natanael resolve escrever uma história sobre Coppelius e olhos. Ela fica horrorizada quando a ouve e aconselha-o a queimá-la: “Indignado, Natanael levantou-se abruptamente e gritou: Maldito autômato sem vida!”. A moça boazinha e insípida realmente não pode apaziguar alguém dominado pelo retorno do reprimido. Lotar, ofendido por causa da irmã com o comportamento de Natanael, desafia-o para um duelo. Na hora H, Clara intervém conseguindo reconciliar os amigos e fazer renascer (melancolicamente, diz o narrador) o amor de Natanael por ela.

         Ele tem de voltar para mais um ano (o último) de estudos em G. (possivelmente Glogau, onde o próprio Hoffmann viveu certa época de sua vida, aos vinte anos, após a morte da mãe).

         Quando chega ao seu dormitório, encontra tudo queimado. O fogo começara no laboratório do boticário que morava no andar abaixo. Natanael instala-se em outro quarto, em frente à casa do professor Spalanzani: “de sua janela podia olhar diretamente no quarto onde freqüentemente Olímpia sentava-se solitária, de modo que agora podia nitidamente contemplar sua silhueta, ainda que as feições do rosto permanecessem indistintas e confusas. Finalmente, pôde notar que Olímpia sentava-se à pequena mesa muitas vezes horas a fio na mesma posição e sem qualquer ocupação [e ele não acha estranho? Não, não acha, só fica deslumbrado com a beleza dela], do mesmo jeito que a vira, tempos atrás…”

         Batem à porta e quem é? Coppola, que não vende mais barômetros e sim “olhos”, belli occhi”. Chocado, Natanael pergunta como alguém pode vender olhos? [segundo o que li, olhos são uma obsessão que ataca esquizofrênicos]. Coppola tira do bolso do sobretudo lornhões, óculos, lunetas e outros produtos ópticos: Milhares de olhos olhavam e piscavam convulsivamente, dardejando Natanael; este não conseguia desviar o olhar da mesa, e Coppola continuava tirando cada vez mais óculos, e cada vez com mais voracidade olhares inflamados saltavam uns sobre os outros [estamos numa atmosfera de sonho ou pesadelo, não acham? O clima é mais onírico do que real. Como alguém poderia ter milhares de aparelhos ópticos consigo; e sua transformação em olhares inflamados?]atirando no peito de Natanael seus raios vermelhos de sangue. Dominado por um terror delirante, ele gritou: Pare, pare com isso, homem terrível!”.  É a lembrança de Clara que acalma Natanael e o restitui à razão: reconheceu que todas aquelas aparições  eram fruto de seu cérebro, como também que Coppola era um mecânico e ótico extremamente respeitável e de forma alguma o maldito sósia ou fantasma de Coppelius. Para compensar, compra um pequeno binóculo de bolso do sujeito: Nunca em sua vida vira uma lente que trouxesse aos olhos os objetos de forma tão pura, límpida e nítida”. É assim que ele contempla o semblante de Olímpia do outro lado da rua: Apenas os olhos pareciam-lhe estranhamente hirtos e mortos. Mas à medida que a contemplava com mais cuidado, tinha a sensação de que dos olhos de Olímpia saíam úmidos raios de luar. E, é óbvio, apesar de Clara, ele fica “enfeitiçado” com a inebriante visão.

         Haverá festa na casa do professor Spalanzani, com concerto e baile, e metade da Universidade fora convidada. Era a apresentação em sociedade, pela primeira vez, da filha. Natanael recebe convite: “Olímpia apareceu vestida ricamente e com muito bom gosto. Seu rosto e seu corpo, de belas formas, foram inevitavelmente admirados. Mas muitos a acham rígida e comedida demais. Só Natanael está completamente deslumbrado, principalmente quando ela toca piano e canta uma ária (com voz límpida, evidentemente, com a “sonoridade de um sino de cristal”).

         Na hora do baile, ele dança com ela: A mão de Olímpia estava gelada, o que fez com que sentisse um arrepio mortal. Fitou-a nos olhos, que só lhe transmitiam amor e desejo, e naquele momento, foi como se as artérias de sua mão começassem a pulsar e o sangue da vida corresse ardente por suas veias glaciais. Ardendo de paixão [notem as antíteses, típicas do alto Romantismo], Natanael enlaçou a bela Olímpia pela cintura e deslizou com ela por entre os pares do salão”.  Ele se declara a ela, que sofre uma estranha indiferença por parte dos outros rapazes. Quem parece satisfeito com a situação é o professor Spalanzani. Na hora de partir, Natanael beija a mão de Olímpia (que ainda não ouvimos dizer nada), a qual, inclinando-se sobre a sua boca, tocou-a com seus lábios frios como gelo! Assim como quando tocara as mãos frias de Olímpia, viu-se penetrado por um profundo terror: repentinamente lembrara-se da lenda da Noiva Cadáver; mas Olímpia o abraçara com ternura e o ardor de seu beijo fazia com que seus lábios ganhassem vida. Ele pergunta se ela o ama e ela responde duas vezes: Ah, ah!”. Muito eloqüente, nossa amiga Olímpia [que já tem esse nome “olímpico”, distante, inacessível].

         O professor convida o aluno a visitá-los com freqüência, já que ele conversou “animadamente” (sim, esse é o termo usado) com a filha. E os comentários sobre a festa  espalham-se: “Não obstante o professor tivesse feito tudo para receber a todos com magnificência, as pessoas mais atentas puseram-se a contar toda espécie de fatos singulares, falando principalmente da inerte e muda Olímpia, a quem se atribuía, a despeito da formosura, uma total estupidez. Viam nisso a razão pela qual Spalanzani a mantivera isolada por tanto tempo”. Sigmund, um colegas, provoca Natanael por se entusiasmar por uma “boneca de madeira”. Ele replica: Talvez a vocês, pessoas prosaicas, Olímpia possa parecer sinistra. Apenas ao espírito poético revelam-se tais personalidades… e só no amor de Olímpia posso reencontrar o meu ser!” E a essa altura ele esqueceu completamente de Clara: ele só vivia para Olímpia, na casa de quem ficava diariamente horas a fio”. Olímpia o ouve, a seus textos, essas horas a fio, a ouvinte perfeita, não manifestando opiniões contrárias e críticas como Clara: “Ó, alma esplêndida e profunda, somente você me compreende” [esse Natanael parece tão bobão que até tem algo de cômico, como acontece com personagens de Goethe como Werther e Wilhelm Meister].

         Natanael quer pedir Olímpia em casamento e é encorajado pelo pai dela. Resolve ofertar um anel que sua mãe lhe dera na despedida: “Naquele momento, as cartas de Clara e de Lotar lhe caíram às mãos, e ele com indiferença repeliu-as; encontrou o anel, guardou-o e correu à casa de Olímpia”. Ao chegar lá, percebe uma agitação tremenda no gabinete de trabalho do professor: “Arrastar de pés, um estranho ruído, batidas, golpes contra a porta, em meio a maldições e imprecações . Ouve o seguinte diálogo (entre Spalanzani e Coppola): Largue-a” “Não foi assim que combinamos” “Eu, eu fiz os olhos”, “E eu, o mecanismo” “Aos diabos com o seu mecanismo, cão maldito, relojoeiro simplórioetc. Adentrando ali, angustiado, vê o professor segurando Olímpia pelos ombros, e esta sendo puxada e arrastada por Coppola para outro, os dois brigando pela sua posse: “Coppola virou-se com uma força gigantesca e, arrancando o corpo de Olímpia das mãos do professor, aplicou-lhe, com a própria moça, um terrível golpe na cabeça, de forma que este cambaleou e caiu de costas sobre uma mesa cheia de retretas, tubos de ensaio, garrafas e cilindros de vidro; tudo aquilo se partiu em mil cacos. Coppola lançou então a figura feminina nos ombros e correu pela escada gargalhando horrível e estridentemente, fazendo com que os pés daquela miserável figura humana, dependurados desordenadamente, fossem quicando pelos degraus, estalando como madeira. Natanael estava atônito, com muita clareza pôde ver que o rosto de cera mortalmente pálido de Olímpia era desprovido de olhos, cavidades negras ocupavam seu lugar: era uma boneca inanimada”.

         O sangue jorra do professor como se ele fosse um chafariz, em meio aos vidros quebrados, mas ele grita: “Coppelius, Copellius, você me roubou o meu melhor autômato, trabalhei nele durante vinte anos, dediquei-me de corpo e alma, o mecanismo, fala, andar, são meus, os olhos, os olhos, roubei de você, aqui estão os olhos… Natanael então percebeu no chão um par de olhos ensangüentados fitando-o fixamente”.  Será que por ter espiado as atividades do pai aos dez anos ele sofrerá sempre esse castigo? Ele tenta matar o professor, mas chega uma multidão que salva Spalanzani e Natanael, dando golpes ao redor com os punhos cerrados (precisa-se de muita gente para contê-lo) e vociferando palavras sem sentido é encaminhado para o manicômio.

         Spalanzani é obrigado a abandonar seu cargo na Universidade por causa do escândalo e da burla: A fim de se convencerem por completo de que não estariam amando uma boneca de madeira, vários amantes exigiram que as amadas cantassem e dançassem um pouco fora do ritmo, que, ao ouvirem uma leitura, bordassem, tricotassem e brincassem com o cãozinho; mas sobretudo que não apenas ouvissem e falassem às vezes de uma maneira que as palavras demonstrassem o que realmente pensavam e sentiam… Nunca se pode saber com  certeza, dizia um ou outro”.

         E Natanael desperta como de um sonho pesado e horrível: Abriu os olhos e percebeu que uma indescritível sensação de prazer o percorria com um calor suave e celestial. Estava na casa de seus pais, Clara se havia inclinado sobre ele, e não muito longe, estavam a mãe e Lotar”. Os sinais de loucura haviam desaparecido e ele recupera suas forças, graças aos cuidados da mãe, da noiva e dos amigos, Lotar e Sigmund. Acima de tudo, “reconheceu o espírito puro, divino e esplêndido de Clara. Ninguém fazia a menor alusão ao passado”.

         Antes de mudarem todos para uma propriedade rural herdada, passeiam pela cidade e Clara propõe que subam até a alta torre da Prefeitura, para olhar as montanhas: “E lá estavam os dois namorados, de braços dados, na mais alta galeria da torre, olhando as profundezas dos bosques perfumados, atrás dos quais os picos das montanhas azuis erguiam-se como uma cidade de gigantes” . E, numa volta do parafuso, reentramos no elemento umheimlich, na atmosfera onírica ou de pesadelo: Natanael acha nos seus bolsos o binóculo vendido por Coppola (que é uma forma diferente de olhar, e sabemos os perigos dessa atividade para o nosso herói): Clara estava diante das lentes! Um estremecimento convulsivo percorreu suas veias e seu pulso. Pálido, como a morte, fitou-a fixamente… De repente os olhos dela, girando em suas órbitas, expeliram raios de fogo; ele começou a uivar como um animal acuado… com uma violência formidável pegou Clara para precipitá-la lá de cima, mas ela, com medo de morrer, agarrou-se com firmeza à balaustrada. Lotar assiste à cena e corre para socorrer a irmã. Ele arromba a porta: Clara, erguida pelo furibundo Natanael, pairava no ar, do lado de fora da balaustrada… Rápido como um raio, Lotar pegou a irmã, atirou-a sobre a plataforma e no mesmo instante deu um soco no alucinado, de forma que esta cambaleou, soltando sua presa da morte. Lotar desceu correndo com a irmã desfalecida nos braços. Ela estava salva. Natanael corria pelo terraço, saltava no ar e gritava… Com essa gritaria selvagem, as pessoas acorreram, dentre elas o advogado Coppelius, que acabava de chegar à cidade… As pessoas queriam subir e dominar o louco furioso. Coppelius pôs-se a rir, dizendo: Esperem que logo ele vai descer sozinho, e, como os outros, olhou para cima. Subitamente, Natanael parou como que petrificado; então se debruçou, percebeu a presença de Coppelius, e com um grito, Ah, bonitos olhos, belli occhi, saltou por sobre a balaustrada. Enquanto Natanael, com a cabeça estraçalhada, jazia no chão, Coppelius havia desaparecido na multidão”.

         O último parágrafo fala do destino da sensata e serena Clara: mais tarde encontrou um simpático homem, casou-se com ele, e numa bonita casa de campo criaram duas saudáveis crianças.


[1] Utilizo a tradução de Cláudia Cavalcanti para a coleção Lazuli da Imago, na coletânea Contos fantásticos que reúne ainda mais dois textos de Hoffmann.

[2] É um longo e digressivo titubear scherezadiano para chamar a atenção do leitor, simulando a dificuldade de narrar a história, após nos ter fisgado com as cartas. Uma observação deve ser citada: Talvez, então, o leitor acredite que nada é mais fantástico e louco do que a vida real, e que o escritor só poderia apreender tudo isso como um reflexo confuso de um espelho mal polido”. Hoffmann acaba aqui com a idéia de mimesis enquanto “imitação”: a ficção apreende a vida na “deformação”, no reflexo confuso de um espelho mal polido.

26/08/2011

O menino é o pai do homem?

(o texto abaixo, na verdade uma leitura comentada, foi escrito em 2008, como parte do material de leitura para meus alunos do curso As margens derradeiras: textos do limite,  que abordava oito textos curtos e paradigmáticos do século XIX: O médico e o monstro, Bartleby, Memórias do Subsolo, A morte de Ivan Ilitch, O alienista, O mandarim, O coração das trevas & A volta do parafuso; em torno de cada um, analisei outros: William Wilson, O homem invisível, O duplo, O capote, A tumba dos ancestrais, O horla, O homem da areia, A vida privada, etc)

 

 

 

“Mas não é este o resto do livro. O resto é saber se a Capitu da Praia da Glória já estava dentro da de Matacavalos ou se esta foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente.”

(Machado de Assis, Dom Casmurro, 1899)

“O essencialmente novo em minha teoria é a afirmação de que a memória não se encontra numa versão única, mas em várias, ou seja, que se acha transcrita em diferentes classes de signos…”

(Freud, Correspondência com Wilhelm Fliess, carta 52, 1896)

Das histórias curtas de  Ivan Turguêniev, tão cultuado por James & Conrad, entre outros, eu até preferiria comentar Mumu (1854), uma obra-prima em que ele retrata acidamente a própria mãe (que lhe atormentou a existência; só depois da sua morte é que ele “destravou” como escritor), porém é uma história que sempre me entristece, pois a intolerância da senhora da casa obriga o criado a matar sua cachorrinha. Por isso, optei por outra história, O relógio (1850). Outro motivo tem a ver com a escolha de adolescentes (e indicando isso com muita ênfase, o que não era comum no século XIX, e James seria um dos que abriram caminho para uma percepção dessa faixa etária que não pagasse tributo ao convencional, Tom Sawyer que me perdoe). O interessante é que o relato é retrospectivo, mas pára justamente no “turning point” que marca a adolescência do narrador. O máximo que conhecemos da vida adulta são algumas indicações vagas e a sombra que os eventos narrados deixaram na sua existência. É como um Dom Casmurro ou um Grandes Esperanças dos quais só fosse contada a parte inicial da vida, mas que nos deixasse pressentir o “todo”.

Bem, como de praxe, falemos um pouco do autor: Turguêniev seria o antípoda de Dostoiévski e do tardio Tolstói, já que estes são eslavófilos, enquanto ele era da corrente cosmopolita, ligado à cultura européia, especialmente a francesa. Nascido em 1818 em Orel, viveu bastante tempo fora da Rússia, na Alemanha e na França. Em Paris (onde passou a viver nos anos 70) conviveu com Flaubert de quem foi grande amigo, e também com Henry James, o qual, após a morte de Turguêniev (em 1883), escreveu um extenso elogio sobre ele como pessoa e escritor.  Com relação a este último aspecto nos interessa a seguinte passagem: “Nada que Turguêniev tivesse a dizer poderia ser mais interessante do que seus comentários a respeito da sua obra, da sua maneira de escrever. Aquilo que o ouvi contar sobre isso era digno dos resultados magníficos que produziu; do profundo propósito que perpassa todas suas obras, de nos mostrar a vida em si mesma[eu nunca vi Henry James elogiar ninguém, nem mesmo Guy de Maupassant, sem reservas de qualquer tipo]. O germe de uma história, para ele, jamais era uma questão de trama, essa era a última coisa em que ele pensava: tratava-se da representação de certas pessoas. A primeira forma em que um relato surgia para ele era na figura de um indivíduo, ou uma combinação de indivíduos, que ele desejava ver em ação… Eles se erguiam à sua frente bem definidas, nítidas, e ele queria conhecer, e mostrar, o mais possível de sua natureza… a história toda se apoiava na pergunta: o que farei com eles? Sempre os levava a fazer algo que os revelava completamente; mas, como dizia, o defeito do seu método e a objeção feita a ele era a sua falta de arquitetura; em outras palavras, de composição….  A história, no sentido convencional da palavra, é a mais escassa possível. Resume-se aos movimentos de um grupo seleto de criaturas, que não constituem o resultado de uma ação preconcebida, mas uma conseqüência dos atributos dos atores” . Creio que isso define a fundação do moderno conto psicológico. Turguêniev mesmo afirmou: “Não começo a escrever antes que o personagem se tenha tornado um velho conhecido meu, antes que eu o veja e ouça sua voz”.

O relógio tem como subtítulo Relato de um velho em 1850  e é, muito antes de Proust, um exercício de reminiscência muito bonito. O “velho” narrador, Alieksei, em 1850 começa assim seu relato: Vou contar-lhes uma história curiosa, a história de um relógio. Ela se passa no início deste século XIX, em 1801”[1] . Enquanto batalhas ideológicas dividiam a Rússia na metade do século, Turguêniev se volta para outra época convulsiva: em1801, a era napoleônica prolongava a virada social gerada pela Revolução Francesa e pela Independência dos EUA. Os franceses (no sentido revolucionário, os jacobinos) eram o inimigo.

O procedimento de Turguêniev também lembra o de Machado de Assis que projeta seus narradores de romance (por exemplo, Brás Cubas) num tempo ligeiramente recuado. Pois bem, seu narrador diz quem em 1801 tinha dezesseis anos e morava em Riazan, com o pai (a mãe morrera),um “rábula” (advogado de segunda) uma tia solteirona, muito desagradável, e um primo (filho de um “jacobino”, deportado para a Sibéria em 1797; o filho se chama, afrancesadamente, David). Esse primo, um ano mais velho,  espadaúdo e forte, é o ídolo de Alieksei: “Minha tia não o suportava, e, quanto ao meu pai, ele até parecia temê-lo. Ou quem sabe se sentisse culpado: diziam na cidade que, seu meu pai não tivesse dado com a língua nos dentes, se não tivesse entregado o irmão, o pai de David não teria sido enviado para a Sibéria”. O que se percebe de imediato é que a política atravessa o campo familiar, questões públicas influenciam a vida privada. É uma casa dividida.

O padrinho de Alieksei é Nastassêi Nastassêitch, “um péssimo sujeito, uma atravessador, sempre metido em negociatas… Mas era útil ao meu pai”.  É ele quem o presenteia com o relógio que dá título à narrativa, “um relógio de prata, um cebolão, com uma roseta pintada no mostrador e uma corrente de bronze”. O presente causa comoção na casa, mas para a decepção de Alieksei,  David demonstra desprezo por ele ter aceitado o relógio de um homem da laia de Nastassêi Nastassêitch. Alieksei pensa: “Quer dizer que ele me reprova. Talvez aos seus olhos eu também seja um sujeito ordinário. Ele jamais se rebaixaria assim… Mas o que eu podia fazer? Devolver o relógio era impossível. Tentei conversar com David, pedir-lhe um conselho. Ele me respondeu que não dava conselhos a ninguém e que eu fizesse o que quisesse. O que quisesse! É fácil dizer isso. Lembro-me de que passei aquela noite em claro, torturado pelos meus pensamentos. Iria me custar muito separar-me do relógio… Mas sentir que Davi me desprezava… isso me parecia insuportável”. Como se vê, o relógio acirra os ressentimentos e dissensões da casa:  um tio deportado, um pai que se dá com sujeitos escusos e que pode ter delatado o irmão, um primo revoltado, uma tia que tem raiva dos sobrinhos e que baba de prazer diante de um objeto caro e vistoso (ela obrigou Alieksei a beijar a mão do repulsivo padrinho).

Alieksei resolve dar o relógio de presente a um garoto que esmola perto da sua casa. Dois dias depois: “eu não parava de pensar no relógio. A aprovação, a suposta aprovação de David, não me servia de consolo. Mesmo porque ele não a demonstrava… Por fim, não agüentei mais e saí sorrateiramente de casa, a fim de procurar o garoto a quem dera o meu relógio”.

Através de humilhações (o pai do garoto é um soldado reformado e amargo) e do sacrifício de um rublo, ele recupera o presente do padrinho: “Estava novamente com o relógio, mas isso não me dava nenhum prazer. Não me atrevia a usá-lo; era preciso esconder de David o que eu fizera. O que ele iria pensar de mim?” Contudo, David logo se dá conta dos seus expedientes e lhe diz que sabe que o relógio ainda está em seu poder. E novamente Alieksei se obriga a se desfazer do cebolão; dessa vez, ele o dá a um criado, Iúchka: Eu estava plenamente convencido de que nunca mais me acusariam de não ter caráter, pois esse relógio, esse presente repugnante do meu repugnante padrinho, havia-se tornado para mim tão odioso que eu já não compreendia como pudera me arrepender de tê-lo dado”. O que fica claro aqui é a diferença entre os primos: atitude inabalável e firme do primo; pusilanimidade, hesitação, recalcitrância e necessidade de afeto e respeito de outro, por parte de Alieksei. Em meio a essas idas e vindas do relógio, morre o Czar e seu filho, mais liberal, sobe ao trono. Há esperança de libertação de Iégor, pai de David. Os dois primos devaneiam: “Ficávamos pelos cantos, imaginando quantos meses, quantas semanas, quantos dias faltavam para a volta do Irmão Iégor e como seria a nossa vida depois da sua volta. O Irmão Iégor era arquiteto; decidimos que ele deveria se mudar para Moscou e construir ali grandes escolas para os pobres, e que nós seríamos seus auxiliares. Alieksei mantém sua aliança com David contra o pai e a tia, tanto que deseja ir-se de casa junto com o primo e o tio. Entretanto, como ele mesmo afirma, “o cebolão de prata tinha o firme propósito de não cair no esquecimento”.

No próximo capítulo (o sétimo), a tia irrompe no quarto gritando com ele, xingando-o, dizendo que foi convocado pelo pai. Este por sua vez lhe dá uma bofetada (que deve ter causado grande prazer à minha tia, pois a ouvi cacarejar de prazer; James em seu ensaio fala do amor de Turguêniev por Dickens e a influência é claríssima, esses parentes ou responsáveis por crianças e adolescentes cruéis e sádicos, e as “alianças” redentoras entre os fracos, no sentido social) e mostra que o ardil foi descoberto porque Iúchka vendeu o relógio, o qual, exposto numa vitrine, fora reconhecido pelo padrinho.

A tia se propõe a guardar o relógio e dá-lo a alguém mais merecedor, um tipo dos mais dissimulados chamado Krisante Lúkitch (o padrinho “saboreia” toda a cena “com os seus olhos de raposa). Alieksei, então, indignado, resolve furtar o relógio que era dele, à noite, enquanto todos dormem: “Eu ardia de terror e alegria à simples idéia do crime. Franzindo o cenho, murmurava: Esperem só. Eu me sentia ameaçador, mau, perigoso, e evitava David. Ninguém, nem mesmo ele, poderia nutrir a menor suspeita sobre o que eu desejava perpetrar! Agirei só, e sozinho responderei pelo meu ato!”  Vejam que está havendo uma transformação em Alieksei, que começa a ficar mais decidido, mais temerário, menos dependente do primo.

É deliciosa a narração do furto: “Alto! Que ruído foi esse? Sentia meu corpo formigar… Fiquei à escuta, mas não ouvi nada. Prossegui. Estava escuro, mas sabia o caminho. De repente esbarrei numa cadeira. Que barulho e que dor! A pancada foi bem na canela. Será que acordaram? Crescia a coragem. A sala de jantar já ficara para trás; abri a porta que dava para o vestíbulo com um puxão. A maldita rangeu, nem por isso parei; subi afoitamente a escada, um, dois! um, dois! A segunda porta estava apenas encostada: adentrei o corredor”. No quarto da tia, a chama do ícone religioso, ela imóvel como morta, o relógio pendurado em cima da cama. Algo roça a perna esquerda de Alieksei. Com um grito estrangulado na garganta, constata que entrou com ele o gato da casa. Ele o afaga. Depois pega o relógio e a tia se ergue, com os olhos bem abertos. Mas ela está se mexendo, falando dormindo. Ele sai com o relógio.

Alieksei e David decidem enterrar o relógio, para encerrar o assunto, no pomar atrás da casa, sob uma velha macieira. Tumulto na casa devido ao roubo. Histerismo da tia, Peláguia Pietróvna. O pai liquida o assunto, dizendo que não quer ouvir falar novamente do relógio: “Minha tia, morta de raiva, teve de se contentar em fazer caretas e me chamar de ladrão em voz baixa, cada vez que passava por mim.

Turguêniev dizia ser fraco na “arquitetura”, isto é, na composição. Nada desmente mais isso do que O relógio. Ele termina essa seqüência de capítulos, criando expectativa e introduzindo um personagens que enriquecerão a história( e lhe darão nova tonalidade, mais melancólica e triste): Quem acha que a história do relógio terminou, engana-se redondamente. Ela ainda renderia muito. Para poder prosseguir o meu relato, devo apresentar uma personagem nova, e, para fazer isso, preciso contar alguns fatos anteriores”.

O pai de Alieksei fazia negócios com um funcionário aposentado, Látkin, um sujeito que não possuía boa aparência, nem o dom da palavra. Um dia, eles romperam a sociedade e a amizade devido a uma traição de Látkin, na verdade uma crise de consciência: Látkin abriu os olhos de um de seus clientes, um jovem e rico comerciante, para uma certa… uma certa jogada, que deveria trazer grandes vantagens ao meu pai” (o episódio, assim como outros indícios, não lança uma luz muito favorável sobre o caráter desse pai). Látkin pede perdão, porém em vão, pois é expulso da casa. O ex-sócio lhe diz: O senhor é muito cheio de escrúpulos! Vai acabar na rua da amargura e será bem feito!”  Como diz Alieksei, o destino parece ter ouvido esse cruel desejo. Pouco depois do rompimento (que acontecera dois anos antes, então por volta de 1799), Látkin fica viúvo e sofre um ataque apoplético e uma de suas filhas fica surda e muda. A família mergulha na mais negra miséria, vivendo numa choupana. A filha mais velha, Raíssa (ou Amorinha, devido a uma marca de nascença acima do lábio superior), é que foi anunciada como a “personagem nova” do relato. Ela e David são muito unidos, apesar da proibição do pai de Alieksei. Quanto ao pai dela, a apoplexia que o acometera “deixara uma seqüela estranha: seus braços e pernas, mesmo enfraquecidos, não lhe eram de todo inúteis e o seu cérebro até que funcionava vem; mas a sua língua se enrolava e ele trocava as palavras; era preciso adivinhar o que ele queria dizer. Ti, Ti, Ti, balbuciava com esforço (ele começava qualquer frase sempre com Ti, Ti, Ti), a tesoura! E tesoura significava pão”. Através de Raíssa, David e Alieksei ficam sabendo da miséria quotidiana da família: “Suas necessidades aumentavam a cada dia”. Por isso, Alieksei atribui a Raíssa uma maturidade maior do que a das moças de dezesseis anos.

Ele relembra a morte da mãe dela e a necessidade de achar um caixão em conta, entre outras situações de aperto. David diz para ela não chorar. Ela: “Chorar, eu? Ou faço a comida ou choro; das duas, uma.

Após o enterro do relógio, Raíssa (uma preocupação constante para David) é um pouco deixada em segundo plano, pela perspectiva da volta do jacobino Iégor: “David não admitia que pudéssemos continuar em Riazan. Alieksei diz: Vocês partirão, mas eu terei de ficar aqui. David: Bobagem! Nós te levamos conosco! E o meu pai? Teu pai? Tu o deixarás, ora! Se não o deixares, estarás perdido (creio que não se podia ser mais eloqüente em condenar um tipo social, representante de uma classe). Mesmo assim, ele lembra de informar a Alieksei que pretende desposar Raíssa. No entanto, nada de chegar ou mandar notícias o pai de David! “Nesse meio-tempo, começaram a correr boatos de que a saúde de Látkin piorara e de que a sua família, se não morresse de fome, poderia ser esmagada pelo desabamento do telhado da choupana onde morava.

E de repente Alieksei percebe que o relógio foi desenterrado. Sua primeira suspeita recai sobre David, e ele o justifica, pensando que deve ter sido para auxiliar a família de Raíssa. Mas não confiar nele: “eu me sentia traído”. Ele logo descobrirá o seu erro: casualmente, ouve um outro criado da casa, Vassili, gabando-se de ter desenterrado o cebolão. Alieksei corre para contar (e pedir perdão) a David, que curiosamente fica furioso, desmentindo seu desdém anterior sobre o paradeiro do relógio: “Confesso que até hoje não entendi o que o enfureceu tanto”. Após o almoço (naquele “silêncio modorrento que envolve toda a Rússia depois do almoço”), David dá uma prensa em Vassili, dizendo que lutará com ele para reaver o relógio se for preciso: “Vassili caiu na risada: Lutar? Lutar com um servo? Isso não é coisa de senhores! David agarrou-o pelo colarinho: Mas não será com as mãos que nós vamos brigar, será com facas” . Isso abala a desfaçatez do criado e ele devolve o cebolão. No quarto, os dois caem na risada: “Não conseguimos nos livrar desse relógio, de jeito nenhum. Acho que está enfeitiçado. O que fazer?  Note-se que agora os dois primos parecem em pé de igualdade. E David não admite usar o relógio nem para auxiliar os Látkin. De repente, ouve-se uma gritaria dentro da casa e o pai de Alieksei aparece exigindo o relógio: “Patifes, bradou, agora apanhamos vocês!… Mas David, sem dizer uma palavra, saltou pela janela e, em dois tempos, estava na rua. Acostumado a imitá-lo em tudo, eu também pulei.”.

Na confusão, com gente perseguindo e gritando “Pega ladrão” , Alieksei fica passado ao ver que David se atira no rio: “Minha cabeça começou a girar, sentia uma forte pressão na nuca. De repente, tudo ficou verde, e então desmaiei.. Alieksiei vê o “corpo” de David, que ele crê afogado, ser resgatado do rio. No final do incidente, ele pergunta a David por que se atirou no rio: Pular? ! Não m,e agüentei no parapeito, foi só isso. Se soubesse nadar, aí teria pulado”. O pai de Alieksei admoesta David chamando-o de “ ladrão e suicida” e David replica: “Não sou suicida nem ladrão, mas o que é verdade, é verdade: na Sibéria, vai parar gente que vale muito mais do que eu e o senhor”.  E David pede a Alieksei para procurar Raíssa. Lá a encontra meio apatetada, e ele grita que David está vivo: “Lentamente Raíssa ergueu os olhos para mim; depois piscou algumas vezes, inclinou a cabeça sobre o ombro e, pouco a pouco, a palidez foi deixando seu rosto; seus lábios se entreabriram, ela respirou fundo, fez uma careta de dor e corre para o amado. Lá, ignorando as convenções sociais, se atira nos braços de David. O pai de Alieksei aparece com mil injúrias odiosas, David se empluma contra o tio (declarando que Raíssa é sua noiva). E de repente aparece Látkin, o pai dela (“nos mesmos trajes em que eu o vira ainda há pouco, esquálido, lamentável, parecendo um fantasma), após David implorar ao tio que não ofendesse Raíssa. O pai de Alieksei fica tão transtornado com essa aparição que lhe perde perdão. E no mesmo dia Látkin acaba falecendo e retorna da Sibéria o pai de David. O pai jacobino e o filho rebelde se trancam no quarto e trocam idéias. Quando Látkin é enterrado, David apresenta Raíssa ao pai, que a aprova. É o pai de David quem paga o enterro (mas o pai de Alieksei comparece e reza com fervor). O jacobino comunica ao irmão que irá embora para Moscou, com o filho: Meu pai ainda tentou (é verdade que não muito) dissuadir o irmão de tal idéia, mas imagino que, no fundo do coração, ele ficou contente com a resolução. A presença desse irmão, com quem tinha tão pouco em comum, e que não se dignara sequer a censurá-lo, oprimia-o visivelmente; por outro lado, a partida de David não lhe causava muito desgosto”, O tio vai embora e não só leva David, como também o que restou da família do ex- sócio do irmão: E eu fiquei sozinho. O último capítulo se dedica a contar como David, casado com “Amorinha”,  morreu em 1812 na batalha de Borodino, e como o narrador daí para cá teve diversos relógios, inclusive um de ouro. Mesmo assim, ele guarda numa gaveta um relógio de prata, o qual comprara de um judeu, motivado pela incrível semelhança com aquele que ganhara do padrinho:  Às vezes, quando estou sozinho e não espero nenhuma visita, eu o tiro do esconderijo e, contemplando-o, recordo a minha juventude e o companheiro daqueles dias, que não voltarão nunca mais. Além de Henry James, vejo a atmosfera desse texto em obras tão díspares como A educação sentimental, de Flaubert, & Dom Casmurro, de Machado, esse clima de algo irrecuperável, de uma inocência perdida que deixou um vácuo na vida adulta. O relógio é o signo catalisador, e assim como Bentinho procura reconstruir a casa da sua infância na velhice, tentando atar as duas pontas da vida, o relógio “substituto” tenta operar o mesmo milagre, confrontando-o com o mesmo tipo de frustração. Porque, na verdade, a história acaba no “e eu fiquei sozinho”.


[1] Utilizo a tradução de Tatiana Belinki.

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