MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

01/09/2012

A graça de O ELEITO, de Thomas Mann

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 09 de maio de 2000, sem as notas de rodapé)

Já temos o lançamento do ano na área da ficção: publicado em 1951, O ELEITO (Der Erwahlt) até agora, salvo engano, não tinha sido traduzido por aqui; porém, há muitos anos eu, assim como outros leitores, me deliciava com a notável tradução portuguesa de Maria Oswald (editada pela Portugália e pelas Publicações Europa-América); por isso, temia-se uma tradução nacional inferior, sem graça.

Pois graça é o que não falta a O ELEITO. Aliás, Thomas Mann (1875-1955) parece que estava literalmente em estado de graça ao escrever essa sua tardia obra-prima na qual, recriando um poema medieval, conta como dois belíssimos gêmeos de sangue nobre, Willigis & Sybilla, herdeiros de um ducado, praticam incesto, por serem apaixonados pela beleza um do outro (e o tema da beleza única é caro a Mann). Após a morte do pai, Sybilla engravida, eles se arrependem e a criança que nasce é lançada ao mar.

Sobrevive, é claro, e é recolhida por pescadores, sendo criado (é um menino) numa ilhota obscura por religiosos, com o nome de Gregorius, até descobrir os fatos de seu nascimento e resolver partir pelo mundo como cavaleiro—para viver aventuras e encontrar os pais pecadores.

Acaba chegando ao ducado de Sybilla que, depois da morte de Willigis, é assediada militarmente por um pretendente. Impressionado com a beleza e a nobreza dela, Gregorius desafia o vilão e o derrota; impressionada com a beleza e a nobreza dele, e pressionada por cortesãos a aceitar um  marido, Sybilla o escolhe como tal, tornando-se incestuosa pela segunda vez, sem o saber. Tem dois filhos com ele. Assim, Gregorius torna-se “o marido da mãe, o genro do avô, o cunhado do pai, o horrendo irmão dos filhos”.

Assim como aconteceu com Jocasta e Édipo, a verdade é descoberta e Gregorius resolve cumprir uma penitência terrível, vivendo acorrentado num penhasco ermo. Passados 17 anos, é resgatado por emissários de Roma, os quais, após uma visão em comum, foram à sua procura como o eleito para ocupar o lugar de Papa da cristandade.

O leitor pode ficar tão entretido, num primeiro momento, pelo encanto do enredo (aqui resumido tão canhestramente) que acabará não se dando conta do feito narrativo-lingüístico que é O ELEITO. Aproveitando ironicamente sua situação de expatriado (após fugir da Alemanha nazista, foi sucessivamente cidadão norte-americano e suíço), Mann escreve um romance com a contribuição de várias línguas (“de forma alguma quero insinuar que domino todos os idiomas, mas todos se fundem em mim à medida que escrevo e tornam-se uma única linguagem… Sobre as línguas, ergue-se a Linguagem”), mas nem por isso tornou-o ilegível e chato como aconteceu com James Joyce e seu Finnegans Wake.

Para unir o charme ambíguo do enredo com o seu virtuosismo lingüístico, o maior escritor do século XX vale-se de uma artimanha maravilhosa: faz um monge irlandês encarnar o espírito da tradição (que Lya Luft, a tradutora brasileira, verteu mais chochamente para espírito da narrativa)[1].

Já no início de O ELEITO, esse espírito faz com que toquem misteriosamente todos os sinos de Roma[2], para mostrar seus poderes e prerrogativas como espírito “volátil, incorpóreo, onipresente, insubmisso às diferenças entre aqui e lá”, e é ele quem vai tecendo comentários inesquecíveis sobre a arte de narrar, que na verdade é sempre a arte de recontar.

Brinca-se o tempo todo com o fato da história de Gregorius “acabar bem”, apesar dos seus horrívies acontecimentos. Brinca-se, em suma, com a grande arma das histórias: a expectativa do leitor. Veja-se, por exemplo, no capítulo “As núpcias” (de Gregorius e Sybilla): “Talvez me queiram mal por deixar na sombra esta passagem e não descrevê-la com todos os pormenores…”; e um pouco antes: “O gênio da Tradição, espírito comunicativo, gosta de introduzir os que o lêem e o escutam por toda a parte, até a solidão das personagens evocadas, até mesmo à intimidade das preces. Todavia, sabe também calar-se e evita a aludir a assuntos que lhe são penosos. Deixa-os mergulhados na sombra do silêncio, embora os acontecimentos não permitam dúvida alguma de como se concretizam em palavras, presenças e cenas”.

Ou ainda: Só eu, o narrador, antecipadamente cônscio do desenrolar dos fatos, conservo a minha perfeita serenidade, pois não ignoro de que maneira simples e natural se resolveu o dilema” (esse “dilema” diz respeito à aparência bizarra de Gregorius após 17 anos no penhasco).

Não faltam uns piparotes machadianos, admoestando os leitores: “Tenho coisas grandes, espantosas, a contar-vos, coisas que, para as narrar, é necessário ter coragem. Se, porém, tenho coragem para vo-las contar, deveríeis envergonhar-vos de não possuir ânimo bastante para as escutar. Todavia, não pretendo acusar-vos intempestivamente de incrédulos, prefiro confiar na vossa fé bem como na minha capacidade de contar com verossimilhança o acontecimento, transmitido pela tradição. Confio, pois, nesta capacidade e na vossa fé”.

É preciso que o leitor saiba que foram misturadas neste artigo passagens traduzidas por Maria Oswald e Lya Luft (o que, aliás, combina com a miscelânea lingüística do livro). Aludiu-se anteriormente ao temor de que esse romance de uma graça única, traduzido anteriormente de forma admirável, tivesse por aqui uma versão menos feliz. Na verdade, muitas vezes as soluções de Luft perdem longe para as soluções de Oswald, mas ainda assim é muito bonita a sua versão, e até encontramos nela, semeadas aqui e ali, passagens matreiras e surpreendentes que deixam para trás o recato lusitano. Se em Oswald se lê “Entristece-me contemplá-lo. A cabecinha infantil irradiava de inteligência sobre os magros ombros e já tão másculo”, temos mais picardia em Luft: “A mim, essa visão me deixa um pouco perturbado. Tão infantil, delicada e inteligente, a cabecinha sobre os ombros finos e, lá embaixo, aquele pinto enorme!” Sugerindo que o perturbado espírito da Tradição (ou da Narrativa) não é tão “volátil, incorpóreo, onipresente, insubmisso às diferenças entre aqui e lá” como pretendia a princípio.

 


[1] “…quando o espírito da Tradição se concentrou no monge que eu sou, por nome Clemente, o Irlandês, conservou muito desse caráter abstrato que o torna capaz de tanger todos os sinos das basílicas titulares da cidade”.

[2] “Quem tangerá, pois, os sinos de Roam? É o espírito da Tradição. Mas, poderá ele estar ao mesmo tempo em toda a parte, hic e ubique… Simultaneamente, em cem lugares consagrados? Assim é. Pode fazê-lo. É aéreo, incorpóreo, onipresente, não está sujeito às mutabilidades do aqui e do além. É ele quem diz: Todos os sinos ressoam. Foi ele, pois, quem os fez vibrar.”

“SUA ALTEZA REAL”: o mal amado de Thomas Mann

thomas__mann1

 sua alteza real

Há determinados livros na obra de grandes autores que podem ser chamados de os “mal-amados”. São aqueles que parecem destinados a ser lidos só por obrigação, só para conhecer a evolução do autor e que jamais serão objeto de paixão ou admiração. Exemplos: A cidade sitiada, de Clarice Lispector. O quarto de Jacob, de  Virginia Woolf. É o caso, também, de  SUA ALTEZA REAL.  Poucos são os defensores do segundo romance do grande escritor alemão,  publicado em 1909,em meio a um período de esterilidade criativa (e, além de estar em crise como escritor, Mann era tido na época como um similar dos nossos best sellers atuais).

Ele mesmo (embora seja preciso ter um certo pé atrás com declarações de um homem que escreveu: “O talento é uma noção delicada e difícil, em que se trata de saber se alguém pode algo do que saber se alguém é algo”) o achava uma obra “fútil”. Marguerite Yourcenar só o menciona uma vez no seu famoso ensaio Humanismo e Hermetismo em Thomas Mann, para afirmar que conserva certa graça ultrapassada de comédia para “teatros da corte”. Theodor Ziolkowski insinua que serviu para Mann manter seu status de best seller da época, sendo mais uma obrigação social do que literária. Hermann Hesse acha que os personagens são estereotipados, nada mais que máscaras vazias, e não entende como um escritor do naipe dele pode desperdiçar assim a sua arte.Ao comentar A montanha mágica (1924), Nigel Hamilton diz que é o primeiro romance de Mann que se pode levar a sério desde Os Buddenbrooks (1901), pois SUA ALTEZA REAL,na melhor das hipóteses, não passa de uma comédia frívola.

Como se vê, o livro não desperta muita simpatia. Ele conta a história de Grimmburg (atentem para o nome),grão-ducado imaginário, e do príncipe Klaus-Heirich,o qual leva uma existência totalmente simbólica e representativa, sem nenhma função prática ou útil. Essa nulidade aristocrática não preocuparia ninguém se a economia da pequena nação não estivesse no seu ponto mais crítico. Em suma, Grimmburg está falido e a manutenção da aristocracia é onerosa.

Um multimilionário dos EUA, mr. Spellmann, passa a residir no país com Imma, sua filha. Klaus-Heinrich apaixona-se por ela e essa história de amor representa a salvação econômica e a realização de uma antiga profecia que vaticinava que um príncipe com uma mão só faria mais pela nação do que todos os anteriores (e a mão esquerda do herói é atrofiada).

Eu nunca dei muita importância ao “mal-amado” de Thomas Mann, o meu escritor bem-amado. Mas numa revisão, as qualidades do livro transparecem: em primeiro lugar, acompanhar ao longo dos anos a avidez pública em relação à Princesa Diana e à família real inglesa, serviu para comprovar a certeira intuição com que Mann aborda a “paixão coletiva” pelo casal Klaus-Imma. Em contrapartida,há também a meticulosa descrição do endividamento de Grimmburg e a recessão decorrente, que lembra o enredamento brasileiros na teia do FMI por conta de sua dívida externa. Podemos entender plenamente também o espetáculo de estagnação econômica encenado por Mann nessa curiosa “comédia fútil” que é o seu livro mal-amado.

É há o estilo. Foi muito criticado. Hesse disse que a linguagem parecia a de um “bom jornalista” e Mann autodepreciativamente disse que o escreveu em “jornalês”. Mal sabia ele que isso seria uma qualidade décadas depois. Paradoxalmente (se levarmos em conta sua temática), cem anos depois SUA ALTEZA REAL parece uma de suas obras mais “modernas” em termos de linguagem, ao contrário do que pensava Marguerite Yourcenar, com uma milagrosa leveza na sua criativa fusão da opinião pública mimetizada pelo narrador com a própria interiorização dos personagens.

Aliás, se não tivesse mais nenhum outro aspecto importante, o mal-amado romance teria que ser levado em conta na medida em que colocou definitivamente o maior dos escritores na direção do seu peculiar realismo simbólico, deixando para trás as histórias com óbvio apelo autobiográfico (Os Buddenbrooks, Tônio Kröger). Como diz Nigel Hamilton, ele “começou a se ocultar através da máscara literária que criara”, ou, como Mann mesmo afirmará, “por trás dos símbolos da minha vida que diligentemente falsifiquei”.

Dessa forma, num país de conto-de-fada, narrando complacentemente (com final feliz e tudo) a existência mais artificial que pode haver, a de um príncipe, ele abre frestas para que entrem todos os seus temas mais inquietantes (esterilidade  criativa, decadência, alienação, doença), como Edgar Allan Poe fez entrar a morte como convidada inesperada de um baile à fantasia num dos seus contos do grotesco e do arabesco.

(resenha publicada originalmente em  A TRIBUNA de Santos,  em 24 de outubro de 2000)

31/08/2012

O VÉU DE MAYA ou A ideia fixa se embebeda do oposto

Quem leu Os Buddenbrooks, A montanha mágica, José & seus irmãos  ou Doutor Fausto sabe como Thomas Mann seguiu à risca  a fórmula famosa de Guimarães Rosa, “faça pirâmides, não faça biscoitos”. Mas de vez em quando ele se dedicava à confecção de saborosos biscoitos, como é  o caso do “divertissement”, do “intermezzo” (para usar suas próprias palavras) As cabeças trocadas (1940). Inspirado pelo orientalista  Heinrich Zimmer (a dedicatória a ele sumiu inexplicavelmente na edição da Nova Fronteira), utiliza a Índia como cenário de uma fábula sobre a identidade, a partir de um triângulo amoroso.

Shridaman e Nanda são dois jovens amigos que apresentam características opostas:  Shridaman é o brâmane espiritualizado e pouco atlético; Nanda é o belo trabalhador braça terra a terra. Shridaman apaixona-se por Sita, mas quem faz a corte por ele é Nanda. Ora, como Sita não conhece o futuro marido, a imagem que ela tem como referência é a de Nanda. Consumado o casamento, apesar do carinho e respeito que tem por Shridaman, é Nanda quem ela deseja, com quem sonha e fantasia.

Durante uma viagem a três,  Shridaman, angustiado por causa da situação, se autodecapita no templo da deusa Kali. Desesperado ao ver a cena, Nanda segue o exemplo. Kali se compadece (ironicamente, é verdade) da situação de Sita e resolve ressuscitar  os dois autodegoladores, desde que ela reponha as cabeças nos devidos corpos. Sita, porém,  sem querer (ou querendo?) troca as cabeças. Assim, a espiritualizada cabeça de Shridaman ocupa o belo corpo de Nanda e vice-versa. Surge o dilema: quem é o verdadeiro esposo de Sita? Ela está grávida. Quem a engravidou? A cabeça ou o corpo? A personalidade ou o físico?

Com essa complicada e grotesca situação, Mann constrói um dos seus textos mais leves, já exercitando brincadeiras com a expectativa do leitor, que mais tarde seriam utilizadas com perícia ainda maior no genial O Eleito (1951), uma de suas obras-primas.

Há um verso de Petrificada petrificante, de Octavio Paz, que eu adoro, e que resume bem a essência do dilema Shridaman-Sita-Nanda: “A idéia fixa se embebeda do oposto”. O que impede o trio de encontrar uma solução é a insatisfação com o Mesmo e a eterna atração pelo Outro. Pois mesmo trocando as cabeças, as personalidades de Shridaman e Nanda se impõem aos corpo se operam uma gradativa modificação. Com o corpo do Outro sob a cabeça, ambos se tornam o Mesmo novamente:

“O corpo de Nanda, encimado pela veneranda cabeça do esposo, tornou-se na verdade outro, independente de qualquer maya, por assumir, sob a influência da cabeça e das leis da mesma, peculiaridades do cônjuge (…) Não era, portanto, de admirar, por mais milagrosa que nossa história possa parecer, que os braços de Nanda perdessem em breve muito do seu vigore definhassem lentamente, ao passo que o peito, estreitando-se, ficava menos rijo e na barriguinha depositava-se novamente alguma gordura. Em suma: o corpo de Shridaman assemelhava-se cada vez mais ao que tinha sido o do esposo… Somando tudo, o exuberante corpo do amigo, que na sua condição anterior fora o essencial, convertia-se num mero anexo, em mero acessório de uma cabeça, a cujos generosos impulsos bem cedo já não queria nem podia corresponder com a mesma perfeição paradisíaca, até que, por fim, apenas a secundava com certo enfado”.

Como se pode ver, mesmo num texto “menor”,Mann demonstra o mesmo virtuosismo que o tornou o mestre dos narradores de ficção, além de manifestar sua obsessão pelo problema da beleza, quer tenha a Índia como cenário ou Veneza. Herbert Caro, o excelente tradutor de tantos dos seus textos, dessa vez perde, se é que se pode falar assim, em termos de resultado final, para uma esplêndida tradução publicada na década de 40 pela antiga Globo e realizada pela dupla Liane de Oliveira & E. Carrera Guerra.

No mais, há entre os diálogos de As cabeças trocadas  uma fala de Shridaman que “trai”, por assim dizer, a seriedade que se esconde nas “brincadeiras” de Mann sobre a identidade: …além da verdade e do conhecimento racionais, existe a intuição do coração humano, que sabe ler a escrita dos fenômenos não apenas no seu sentido primário e simplista, mas também no sentido secundário e mais elevado, deles se servindo para atingira contemplação do puro e espiritual.. É dado e concedido aos homens se servirem da realidade para vislumbrar a verdade. A linguagem forjou a palavra poesia para nomear essa dádiva”.

(resenha originalmente publicada em A TRIBUNA de Santos,  em 12 de setembro de 2000)

O VÉU DE MAYA ou Por que Thomas Buddenbrook é meu personagem favorito

Desde o século XIX, proliferaram na ficção realista as histórias de famílias (na língua portuguesa, certamente nenhuma supera Os Maias, de Eça de Queirós). Qual seria a mais paradigmática? Provavelmente Os Buddenbrooks (1901), de Thomas Mann, no início do qual uma reunião festiva comemora a inauguração da grande mansão onde a família residirá. É um início sumamente irônico, pois marca um “auge da família e da firma Buddenbrook e o que vem a seguir será a precária tentativa de conservá-las nesse “auge.

Às vezes, haverá a ilusão de que o impulso comercial e familiar que marcou esse momento será até superado É o que ocorre quando Thomas Buddenbrook, neto do chefe da família, assume a firma. Mas o subtítulo é implacável na sua exatidão: Decadência de uma família Logo Thomas perderá a energia que o impulsionava a passar por cima dos elementos “desonrosos” (o comportamento bizarro do irmão, Christian; os infelizes, quase burlescos, casamentos da irmã, Antonie, e da filha desta, Erika)  para manter os Buddenbrooks no topo da vida social e comercial de Lübeck, embora a própria cidade (um importante porto outrora) já esteja decadente.

Thomas também contribui para que a solidez se desmanche: apaixona-se e casa-se com a exótica Gerda (um casamento dos mais estranhos, diga-se de passagem, e que configura um dos enigmas do livro), cuja paixão pela música a torna indiferente aos empreendimentos do marido. Essa paixão é herdada pelo único filho do casal, Hanno,que supostamente deveria continuar a obra do pai.

Não é o que acontecerá, porém. Nesse sentido, há, em Os Buddenbrooks, uma das cenas mais extraordinárias e arrepiantes  da literatura: como se viu, Thomas é obcecado em continuar a obra e a tradição de seus antepassados. Um símbolo dessa continuidade é a Bíblia na qual são anotados todos os acontecimentos relevantes da família. Um dia, Hanno, ainda criança, vê a Bíblia onde está registrado seu nascimento e faz com uma pena de ouro uma bela e limpa linha dupla através da folha inteira. Interpelado pelo pai, furioso por causa de tal gesto, Hanno responde: “Eu pensava… pensava… que não vinha mais nada. Temos, então, de forma aparentemente inocente, a negação do sentimento de sucessão, de continuidade, de uma geração passando a tocha para a seguinte.

Thomas Buddenbrook é o centro do romance. Para ser franco, é o meu personagem favorito na literatura inteira. Consegue esse feito incrível: fazer com que nos interessemos pelo destino de uma firma burguesa da Alemanha oitocentista e por uma personalidade “careta”, ferrenhamente ligada aos valores mais reacionários e conservadores que possamos imaginar.

Thomas é um personagem tão forte que não é de admirar que o interesse de Os Buddenbrooks decaia bastante após a sua morte prematura(tem-se ainda sessenta páginas onde Hanno ocupará o centro da narrativa até que ele mesmo morra). Thomas (o autor, não o personagem) escreveu muitos textos insuperáveis após essa sua obra-prima publicada aos 25 anos (ele morreu com 80). Todavia, nunca mais criou personagens tão memoráveis, embora tenha chegado perto, quanto Thomas Buddenbrook e sua irmã Antonie (também muito citada, e é uma das marcas da decadência,como senhora Permaneder, durante a narrativa). Mesmo quando lembramos de Hans Castorp, Settembrini, Mynherr Peepkorn (A montanha mágica), a senhora “conselheira” Kestner (Carlota em Weimar), Jacó e José (José e seus irmãos)ou Felix Krüll (As confissões do impostor Felix Krüll), não encontramos quem supere os inesquecíveis irmãos Buddenbrooks.

Para se ver como Thomas (o personagem, não o autor) vive intensamente na memória do leitor, basta citar as seguintes palavras de Marguerite Yourcenar: “…eu não penso nunca sem ficar emocionada em Thomas Buddenbrook, depois de uma vida convencional e desencorajada, descobrindo ao mesmo tempo em Schopenhauer o sentido do desespero e, talvez, a paz mais elevada”. A autora de Memórias de Adriano, a qual escreveu um magnífico e fundamental ensaio sobre Mann (Humanismo e Hermetismo em Thomas Mann, em Notas à margem do tempo), refere-se à leitura que Thomas  (o personagem, não o autor), pouco antes de  morrer, faz de O mundo como vontade e representação, de Schopenhauer, o embasamento filosófico de Os Buddenbrooks. A leitura desse livro foi decisiva também para o jovem Thomas (o autor, não o personagem). Ele mesmo o afirmou: Só se lê assim uma vez na vida, nunca mais acontece de novo”.

É a filosofia de Schopenhauer que dá ao romance sua atmosfera de maya, o conceito budista  de que tudo é ilusório, mesmo o que parece mais sólido. E mais ainda, que tudo é impermanente, nada pode permanecer o mesmo sob pena de estagnar e morrer de uma forma pior que a morte. Justamente por tentar manter a representatividade de sua família, como um ator leva até o fim uma peça falhada no palco, é que Thomas prefigura um dos grandes males do século XX e do nosso: o estresse, aquele eterno cansaço, a sensação de se carregar um peso nas costas, de que a energia vital está sempre para falhar:

“..sentia-se vazio; não via nenhum plano animador, num trabalho interessante a que se pudesse entregar com prazer e satisfação. O seu impulso trabalhador, a incapacidade da sua cabeça para descansar, a sua atividade, que sempre diferia fundamentalmente da vontade de trabalho natural e durável dos seus antepassados, sendo coisa artificial, válvula dos seus nervos… todas essas coisas haviam recrudescido, tornando-se suplício e desperdiçando-se numa porção de ninharias (…) Faltava-lhe por completo um interesse sincero e fervoroso que o ocupasse; na sua alma reinava empobrecimento e ermo –ermo tão forte que, quase sem cessar, pesava sobre ele uma mágoa indeterminada; ligavam-se a isso, de modo inexorável, a obrigação íntima e a decisão tenaz de exibir-se as aparências.Este esforço ininterrupto conduzira-lhe a existência àquele ponto em que ela se tornava artificial, consciente e constrangida, fazendo com que, na presença de outras pessoas, cada palavra, cada gesto, a mais insignificante ação chegasse a ser um trabalho de ator, penoso e exaustivo”.

Não há possibilidade de comentar todos os aspectos importantes desse romance formidável (e formidavelmente traduzido por Herbert Caro) de 800 páginas. Ficam apenas indicações: a insuperável percepção do jovem Mann do processo de envelhecimento, entre melancólico e cômico, de toda uma geração, que vai sendo substituída, aos poucos, por outra, que certamente nenhum romance mostrou tão bem; e também o humor típico do maior dos autores já exercita-se brilhantemente nessa sua primeira obra (por isso, a senhora Permaneder é tão memorável).

No mais, só se pode apelar para o repisado clichê: se não tivesse escrito mais nada, só com Os Buddenbrooks o grande escritor alemão já seria indispensável.  Considerando-se o que veio depois, é o maior elogio que ainda se pode fazer.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 29 de agosto de 2000)

« Página anterior

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.