MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

09/06/2012

Deu a louca em Federico?

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 16 de março de 1999)

Ao longo dos anos, Federico García Lorca (1898-1936) parece estar inscrito na literatura deste século mais por causa do seu final trágico, ligado às monstruosidades de uma ditadura (como se sabe, ele foi assassinado pelo regime franquista) do que pela sua obra, que apresenta momentos importantes tanto na poesia (é o caso de Poeta em Nova Iorque) quanto no teatro (é o caso de Bodas de sangue, Yerma & A casa de Bernarda Alba).

Não será, entretanto, com Sonetos de Amor Obscuro (Sonetos del Amor Oscuro, em tradução de Afonso Félix de Souza para a Bertrand Brasil) que o poeta espanhol poderá pleitear a posteridade. Esses sonetos só foram publicados em 1984 pela família de Lorca, e a eles se reuniu outro grupo de poemas inéditos, Divã do Tamarit (Divan del Tamarit). Mais uma vez temos escritos póstumos que não apenas em nada contribuem para a obra de um autor como a atravancam e desfiguram.

A “novidade” dos Sonetos consistiria no fato de que, neles, Lorca assume completamente sua homossexualidade. Mas coitado do amado que recebeu esse presente. Quando não são insípidos, os 11 poemas são francamente horrorosos. É a cafonice dançando flamenco desavergonhadamente com as castanholas do mau gosto. Que, aliás, já começa pelo prefácio do tradutor, o qual tem o desplante de citar a ridícula reação de outro importante poeta da Espanha, o nobelizado Vicente Aleixandre, ao ler o conjunto: “Surpreendido, pude apenas ficar olhando-o e exclamar: Federico, que coração! Quanto teve de amar, quanto teve de sofrer”!!!!!?????

Realmente, quanto teve de amar e sofrer Federico para nos impingir coisas como Soneto da Grinalda de Rosas (“Soneto de la Guirnalda de Rosas”), que tem imagens do tipo “Sangue em coxa de mel bebe em seguida” (“Bebe en muslo de miel sangre vertida”) e termina com três versos horríveis: “Agora unidos,  enlaçados/ boca rota de amor e alma mordida/o tempo nos encontre destroçados” (“Que unidos, enlazados/boca rota de amor y alma mordida/el tiempo nos encuentre destrozados”). Boca rota de amor, bancarrota de bom senso poético de Lorca. Quase dá vontade de dar uma de José Simão e me valer de seus trocadilhos: Federico García, a Louca.

No Soneto da Doce Queixa (“Tengo miedo a perder la maravilla”), às imagens de um sentimentalismo constrangedor (“solitária flor de teu alento”, “íntimo verme de meu sofrimento”; no original, “la solitaria rosa de tu aliento”, “el gusano de mi sufrimiento”), soma-se a disposição masoquista e subserviente do homossexual-padrão diante do objeto amado (“sou o cão o teu solar guardando”, “soy el perro de tu señorio”), que vai se repetir, páginas adiante, no Soneto da Carta (“El poeta pide a su amor que le escriba”): “Por ti rasguei as veias às dezenas” (“Pero yo te sufri. Rasgué mis venas”);e mais adiante ainda, em Noite de amor insone (“Noche del amor insomne”): “eu me pus a chorar e tu, tu rias/teu desdém era um deus; minhas sombrias/ queixas, pombas” (“yo me puse a llorar y tú reias/tu desdén era un dios, las quejas mias/ momentos y palomas em cadena”)!!!!!!???? É coração demais, Federico, e vergonha de menos.

Viramos as páginas e encontramos um título horrendo: Chagas de Amor (“Llagas de amor”)—que coração, Federico! Quanto sofreu, quanto amou! Ali as chagas se sucedem em imagens paupérrimas: “este pranto de sangue que decora lira já sem vigor”, “esta lacraia que em meu peito mora” (“este llanto de sangre que decora lira sin pulso ya”,”este alacrán que por mi pecho mora”), embora voltem as grinaldas, um leitmotiv dessas Chagas de Amor Obscuro.

E quem será o culpado do “crime contra minhas flores” (o leitor permitirá a quem aqui escreve uma grinalda de exclamações: !!!!!!!!)—no original, “el asesinato de mis flores”—em O poeta diz a verdade, “El poeta dice la verdad” (é muito melhor quando o poeta é um fingidor, Federico deveria saber); depois de falar a verdade, O poeta fala por telefone com seu amor” (“El poeta habla por telefono con el Amor”), onde duas imagens competem em ruindade: “flor de feto” (“flor de helecho”) e “obscura corça malferida” (“oscura corza herida”), enquanto o poeta ouve a “distante e doce voz amortecida” (“lejana y dulce voz amortecida”) do amado.

E assim vamos: “Lá beijaram teus dedos os espinhos/ que coroam de amor pedra remota”, “Han besado tus dedos los espinos/que coronan de amor piedra remota” (O poeta pergunta a seu amor pela cidade encantada de Cuenca, “El poeta pregunta a su amor por la ciudad encantada de Cuenca”—um nome de cidade que quase mereceria uma paródia, utilizando aquele item do vestuário masculino, que teia tudo a ver no contexto dos sonetos), “ai, balidos sem lãs! Ai, ai, ferida!/ Ai, voz secreta. Ai, voz do amor obscuro” (“Ay balido sin lanas! ay herida!/Ay voz secreta del amor oscuro”)—será que deu a louca em Lorca?: “continua a dormir, tu, minha vida/ ouve meu sangue roto em notas finas”, “pero sigue durmiendo, vida mia/ oye mi sangre rota en los violinos” (O amor dorme no peito do peito do poeta, “El amor duerme en el pecho del poeta”).

Mas a taça do volume, a pérola do contrassenso, encontra-se em Soneto gongórico em que o Poeta manda uma pomba a seu Amor (“Soneto gongorino en que el Poeta manda a su Amor una paloma”). Veja-se a primeira quadra: “O pombinho de Túria que te mando/ de olhos doces e de branca pluma/sobre loureiro grego verte a suma/ do amor em chama lenta me queimando” (“Este pichón del Turia que te mando/ de dulces ojos y de blanca pluma/ sobre laurel de Grecia vierte y suma/ llama lenta de amor do estoy parando”. Ai, esse coração, Federico! Pombas! Não satisfeito, ele ainda nos brinda com “nevada melodia/ em flocos vai cobrir-te a formosura”, “nevada melodia/ esparce en copos sobre tu hermosura” (é que ele aconselha o amado a passar a mão bem de leve na pomba que ele mandou, não é lindo?). E o soneto termina desta forma: “Assim meu coração, sem ver-te, dia/ e noite na prisão do amor, escura/ fica a chorar sua melancolia” (“Así mi corazón de noche y día/ preso en la cárcel del amor oscura/ llora sin verte su melancolía”).

Esse choro de melancolia, dia e noite, na prisão do amor, deveria ter ficado guardado a sete chaves. Essa queda da Bastilha onde mofavam as bobagens do amor que não ousa dizer o nome escritas por Lorca é mais uma prova de que os escritores deveriam cultivar o saudável hábito do fogo e do cesto de lixo.

O leitor deve estar se perguntando: e o Divã do Tamarit?  Confesso que, depois de ler, nos primeiros poemas, versos como “ninguém sabia que martirizavas/ um colibri de amor entre teus dentes” (“nadie sabia que martirizavas/ un colibri de amor entre los dientes”) ou “mas eu irei/ entregando aos sapos o mordido cravo” (“pero yo ire/ entregando a los sapos mi mordido clavel”), desisti de prosseguir. Mas se alguém tiver muita, muita curiosidade de saber o que é “Tamarit”, isso eu posso contar: é uma chácara de propriedade da família de Lorca. Foi ali que ele escreveu tais versos tão essenciais à humanidade.

16/05/2012

O deserto e os espelhos: “Gringo Velho”, de Carlos Fuentes

(resenha publicada originalmente na revista cultural GAMBIARRA, número 2, novembro de 1988, editada na Universidade Federal de Viçosa-MG)

A editora Rocco vem se destacando nos últimos anos pelo lançamento de vários romances interessantes, entre eles GRINGO VELHO  [Gringo Viejo (The Old Gringo), em tradução de  Tizziana Giorgini], do mexicano Carlos Fuentes (conhecido no Brasil sobretudo por A morte de Artemio Cruz, de 1962), que é dedicado ao admirável escritor norte-americano Willliam Styron.

GRINGO VELHO entrelaça a história de uma figura real, o jornalista Ambrose Bierce (cujo nome só é mencionado no final) com a da Revolução Mexicana, em 1913. Bierce, aos 70 anos, desaparece na fronteir entre os dois países. O que Fuentes faz é imaginar o depois, fazendo com que Bierce, a partir daí o “Gringo velho” venha trazer mais ambiguidade à convulsão revolucionária, principalmente para outros dois grandes personagens: o general Tomás Arroyo e a professora protestante Harriet Winslow.

Embora a Revolução tenha um peso muito real dentro do livro, ele se reveste de um caráter muito mais lúdico, principalmente porque o deserto e os espelhos estabelecem o “clima” e a linguagem da narrativa. O romance transcorre basicamente no deserto e a palavra fronteira é sempre utilizada para evidenciar que os personagens ultrapassaram certos limites, seus marcos de referência, e estão naquela região psicológica, ou mítica, como se queira, onde tudo se confunde e onde todos os atos poderão ser definitivos e, ao mesmo tempo banais.  No deserto, Arroyo, filho bastardo (como o era Artemio Cruz), destrói a fazenda do seu pai latifundiário, deixando em pé apenas um salão de espelhos, para que seus homens, espoliados a vida inteira, possam ver, pela primeira vez, seus corpos.

O espelho normalmente nos fornece uma dimensão de individualidade: eu existo. Mas muitos espelhos podem fazer essa ilusão cair por terra, com um fenômeno similar ao do deserto, de apagar as diferenças individuais, as fronteiras entre Um e Outro, céu e terra. Nesse livro, cada consciência tem passagem livre para as outras,como a narrativa corporifica diante do leitor extasiado com as possibilidades que ela aponta (e nem sempre cumpre, apresentando aspectos discutíveis), com essa passagem de uma voz para a outra (sim, é uma narrativa de vozes),da narrativa impessoal para a primeira pessoa, do presente para o passado (lembrando Vargas Llosa, que, é preciso dizer, usa o recurso de forma superior).

Mas é graças aos personagens que GRINGO VELHO é um dos romances interessantes de que se falava no princípio: como Arroyo, chamado “filho do silêncio” porque foi obrigado a viver no silêncio a vida toda, já que na fazenda os criados eram açoitados se fizessem barulho ao “fazer amor”, por exemplo; sua amante, a Lua (um dos pontos altos do romance é a sua história); e mais que todos, Harriet, que fica com o legado mais doloroso, após a experiência da Revolução, do deserto e do salão de espelhos: a memória individual. Ela é quem se senta e recorda (o refrão, o fio condutor da narrativa) e confronta sua consciência às dos Outros,num eterno desfiar  de fato e imaginação, de expectativas e resultados irrevogáveis.

E é assim que ela é vista, ao atravessar novamente a fronteira dos Estados Unidos (e também esta “presença”no México deixa sua marca no livro, impossível de rastrear no âmbito de um pequeno artigo): “Não a ouviram gritar quando a ponte ardeu em chamas:  Estive aqui. Essa terra jamais me deixará.  Eles lhe deram as costas e viram-na para sempre entrando num salão de baile cheio de espelhos,  sem mirar a si própria porque na verdade adentrava num sonho.”

nota de 2012– Esta foi uma das minhas primeiras resenhas publicadas. Não obstante seus defeitos gritantes, constato que nem mesmo nessa época me deixei levar por jargões acadêmicos. Lembro de um amigo que me dizia ser péssimo terminar textos críticos com citações  porque quem estava escrevendo parecia que perdia a força. Eu, de minha parte, sempre achei que o texto deveria ter a última palavra.

Um ano depois, vi a versão cinematográfica de Luiz Puezo, que “academizou” por demais a história, mas não é um mau filme, só lhe falta personalidade. Como em tantos outros casos, afora a bela produção, o elenco é que vale o filme: Jimmy Smits está ótimo no papel de Arroyos (aliás, qualquer dúvida sobre a sua competência como ator seria dissipada pela sua atuação na terceira temporada de DEXTER), Gregory Peck deita e rola nas excelências da sua dignidade de veterano, na autoridade inatacável que parece associada à sua figura. Mas o ponto luminoso do filme é mesmo a grande Jane Fonda, arrasadora como Harriet Winslow. Numa década que deixou meio a desejar na sua carreira, com algumas exceções, eu não entendi até hoje como ela não foi indicada e recebeu o seu terceiro Oscar por essa atuação.

E aqui cometo o mesmo erro de sempre, terminando com uma citação:

“A mulher que ele chamava A Lua disse que era estranho ouvir um sino e não saber a origem de seu toque. Foi assim que ela soube que a Revolução chegara a seu vilarejo de Durango: os sinos começaram a repicar numa hora em que ninguém podia identificar com vésperas ou matinas ou qualquer outra coisa: era como um novo tempo, disse, um tempo que não sabíamos imaginar e então ela pensou na regularidade de nosso tempo, geração após geração aferrada às estações tradicionais, às horas consabifas, inclusive os minutos tradicionais: ela foi criada dessa forma, decente, não rica em demasia mas decente, isso sim, seu pai era comerciante de grãos, seu marido um prestamista no mesmo vilarejo onde todos, crianças ou mulheres, levantavam às cinco, para se vestirem quando ainda estava escuro (isso era muito importante, nunca ver o próprio corpo) para em seguida apresentar-se  na igreja às seis e voltar para casa com fome, mesmo quando tinham comido o corpo de Cristo (…) e a senhorita me dirá que não era uma vida ruim; mas quando a vida do homem é selada à vida da menina noiva, aí então miss Harriet, essa vida se torna sombria, repetitiva, como acontece com as coisas quando estancam e já não mais florescem a partir do que eram antes de que o homem, o pai, o marido, estivesse presente para garantir que a pessoa continuaria sendo a noiva menina e que o casamento era uma cerimônia de medo…”

08/04/2012

Jesus Cristo e o entrechocar de espadas

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de março de 1995)

Um leitor mais injuriado poderia acusar o selo “Nova Era” da Record de propaganda enganosa. Na capa traseira de A prova do labirinto (La prueba del laberinto,  Espanha- 1992, em tradução de Luísa Ibañez), de Fernando Sánchez Dragó, afirma-se que ele “conta a história de um detetive de 53 anos, obrigado pelos deuses, pela Confederação de Forças do Além e pelas circunstâncias a partir em busca de Jesus de Nazaré, pregador  judeu que desapareceu misteriosamente no 33º. Ano de nossa Era”. Ainda, segundo a editora, “há mistério, viagens, tensão, incerteza, emboscadas, pessoas boas e más, mulheres bonitas e mulheres piedosas, traidores, exotismo, ocultismo, tiranos, lutas políticas e religiosas, entrechocar de espadas (sic), conspirações, Reis Magos, leprosos, prostitutas, adúlteras, amor, dor, morte e até mesmo uma ressurreição”!!!!!!???????Ufa!

Parece muito para um livro só? E é, claro. Há algumas (poucas) obras que parecem conter a vida inteira: Guerra e Paz, de Tolstoi, é um exemplo, e mais ocntemporâneamente, tivemos A cidade de quatro portas ou Shikasta, de Doris Lessing. Mas o problema com A prova do labirinto é que se promete não apenas muito,  como também o que não está no livro. Tirou-se um trecho de seu contexto e falseou-se totalmente a expectativa do leitor com relação a uma narrativa decerto divertida, simpática. E também extremamente narcisista.

Dragó conta a história de Dionisio, escritor resolvido a não mais publicar e que, todavia, é pressionado por seu editor a se lançar numa pesquisa sobre a vida de Jesus. Por coincidência, esse era justamente o mais íntimo e genuíno projeto da vida de Dionisio, típico representante dos anos 1960 e que vê no retorno ao Cristo (desvinculado dos dogmas da igreja) a última opção, após passar por todas as experiências daquela década mágica e constatar que o mundo dos anos 1990 naufraga cada vez mais no materialismo, num proto-fascismo e no fundamentalismo fanático.

No que se refere aos anos 1960, o livro de Dragó chega a ser imperdível. Passa em revista os caminhos percorridos: drogas, xamanismo, Castañeda, liberação sexual, filosofias orientais, práticas meditativas, ioga; tanto que, para firmar sua decisão de ir a Jerusalém, consulta uma especialista em tarô (uma longa e interessante cena), o I-Ching, e, pasmem, os seus próprios livros, que ele se encarrega de citar, além de se referir amiúde a um grande amigo, o próprio Fernando Sánchez Dragó! Nem Woody Allen cavoucou tanto o próprio umbigo!

Já no que se refere a Jesus, as coisas são mais complicadas e, a partir da viagem, A prova do labirinto degringola, aborrece, enche lingüiça. E prova definitivamente que toda experiência mística é individual, intransferível por definição, isto é, a não ser em raríssimos casos, não dá para outrem afiançar sua veracidade, por mais simpatia que desperte. É por essa razão que 99% da literatura esotérica (e está se falando aqui da bem-intencionada) falha.

Dragó, pelo menos, tem uma sensibilidade literária um pouco mais apurada que a média (e é mais um autor que tem uma dívida com Borges, já a partir do título) e mostra que na literatura espanhola do gênero há vida mais inteligente do que a transmitida pela carreira, digamos, literária, de J.J. Benítez, o pretensioso e enfadonho autor de outra escavação da vida de Cristo, Operação Cavalo de Tróia, que (pelo menos o primeiro volume, parabéns para quem conseguiu ler os outros) é uma tortura de perda de tempo e chatice cujo único similar talvez seja uma sessão dupla e sem intervalos de Mary Poppins com My fair lady.

De todo modo, como reinvenção da figura de Cristo, o livro de Sánchez Dragó é pífio. Aparecem, contudo, algumas “emboscadas” e algumas “conspirações”, tal como prometido pela editora. Quanto ao “entrechocar de espadas”, só se ela estiver se referindo a uma passagem em que o narrador cinquentão risivelmente resolve liberar sua porção mulher que até então se resguardara numa experiência gay que eu não consigo sequer descrever, mas que é considerada por ele uma escala essencial no seu encontro com o “homem de Nazaré”. Ou, segundo as conclusões do relato, com “o homem do Egito”. Que seja. Pouco importa.

O Jesus do credo determinista

A resenha abaixo, publicada originalmente em  A TRIBUNA de Santos, em 16 de janeiro de 1996, foi escrita quando até então eu nunca ouvira falar na editora Martin Claret; depois da sua nefanda carreira editorial posterior, eu gostaria de nunca ter ouvido falar dela, ainda que agora eles estejam executando alguns tímidos passos para recuperar a credibilidade que perderam com plágios de traduções, tradutores fantasmas e outros horrores.

Publicado em 1863, Vida de Jesus (“Vie de Jesus”), de Ernest Renan (1823-1892), um dos livros mais famosos e influentes do século XIX, ganhou uma bem escolhida capa na edição da Martin Claret, que foge totalmente do clichê, ao reproduzir detalhe de um quadro de Salvador Dali. Além disso, a elogiável edição traz textos adicionais de Renan e reproduções de quadros sobre a vida de Cristo ao longo do volume inteiro. A tradução de Eliana Maria de A. Martins me pareceu bem razoável, ressalvando-se um ou outro erro mais evidente.

No livro, Renan discorre muito sobre a mistura que o desenvolvimento da pregação de Jesus fez, da mensagem profunda e autêntica da qual ele era portador (e que faz dele representante do melhor que a humanidade pode ambicionar) com  as superstições e tolices populares, em que lenda e fato confundem-se.

O autor francês também não deixa de misturar uma tentativa escrupulosa e honrada de relatar objetivamente a vida de um grande homem, a partir de escassas fontes documentais, com análises que pagam pesado tributo à época cientificista na qual ele escrevia, quando preponderavam visões essencialmente deterministas (e que hoje, com seus matizes racistas, hoje seriam consideradas politicamente incorretas), psicologicamente tão frágeis e tolas quanto as crendices populares supersticiosas: “Nós compreendemos pouco, com nossas naturezas frias e escrupulosas, uma tal maneira de ser possuído pela ideia da qual ele se fez apóstolo. Para nós, raças profundamente sérias, convicção significa sinceridade consigo mesmo. Mas a sinceridade consigo mesmo  não tem muito sentido para os povos orientais, pouco habituados às delicadezas  do espírito crítico. Boa fé e impostura são palavras que, em nossa consciência rígida, se opõem, inconciliavelmente. No Oriente, de uma a outra existem mil saídas e desvios… A verdade material não é muito cara ao oriental. Ele vê tudo através de seus preconceitos, seus interesses, suas paixões”. Realmente, como a história prova, franceses e demais povos europeus são espécimes humanos isentos de preconceitos, interesses e paixões, e incapazes de misturar boa fé e impostura.

Aliás, como o mundo é mesmo misturado, como nos advertia Riobaldo, não perdoando nem mesmo a mais alta figura da humanidade, não se deve estranhar que uma iniciativa editorial tão louvável seja avacalhada com um lançamento em forma de kit (incluindo um CD completamente arbitrário, beirando o ridículo), que quase a torna um produto de supermercado, de bazar oriental, ou mais modernamente, um daqueles produtos do telefone 1406 anunciados via tevê.

E qual a importância, afinal, de Vida de Jesus a esta altura do campeonato? Por que não trocá-la pelas magistrais e ainda mais problematizadoras visões de Cristo, realizadas por Kazantzakis, Pasolini ou Saramago? A resposta é simples: porque 130 anos depois de sua publicação original, o livro de Renan é ainda precioso material informativo. E literário. Porque ele aproxima-se bastante (ah, a ironia do tempo), apesar de algumas diferenças metodológicas, da atual situação das pesquisas sobre o assunto. Porque ele, ao provar a existência histórica de Jesus  (na época, um feito original), faz –ao contrário dos que pensam que basta ter fé em Cristo, o que nesses tempos de Edir Macedo e congêneres é muito perigoso—com que seu papel em nossas vidas seja mais impressionante e bonito.

Pena que no livro haja um excesso de retórica, e não apenas por conta do estilo da época: Renan trabalha obviamente em cima do abismo de fatos insuficientes e tem de preenchê-lo muitas vezes com trechos que se revelam constrangedores, como aquele em que compara a elevada meditação de Jesus nas montanhas com a mediocridade das reações e pensamentos que podem ocorrer a um burguês ante a mesma paisagem. Ora, ora. Quando se é um Jesus evidentemente os pensamentos podem ser tudo, menos burgueses. É martelar o óbvio e empobrecer a obra.

Mesmo assim, como tudo é misturado mesmo, Vida de Jesus ainda é uma leitura impactante, nos seus melhores momentos.

28/03/2012

Perguntas que podiam ser caladas

   Palavra de poeta (Portugal) pertence a uma das categorias mais inúteis de lançamentos editoriais: os livros de entrevistas com escritores. Mesmo exceções significativas como De olhos abertos, as longas conversas que Mathieu Galey  manteve com Marguerite Yourcenar, transformaram-se em desilusão. Sabemos hoje da intenção puramente mercenária e oportunista do livro e que Galey detestava e zombava da autora de Memórias de Adriano. Pior ainda, o resto da vida da grande entrevistada revelou-se uma cruel contrafação do que ali era dito.

   Segundo a Civilização Brasileira, Denira Rozário “não apenas faz perguntas, mas tem empatia profunda com os poetas”. Lorota. Não se percebe tal empatia nas perguntas triviais e absolutamente externas às obras que conduzem as vinte e quatro enfadonhas entrevistas: “Como é o seu dia a dia?”; “O poeta precisa ser intelectual?”; “Considera-se feliz no amor?”; “ Por que começou a escrever poesia?”; “O que você está lendo?”; “Descreva a sua casa”, e a suprema tolice: “Fale alguma coisa sobre as palavras silêncio, solidão, poder, sucesso, liberdade, morte, prazer, medo, loucura, traição, eternidade e poesia”!!!!!!!!!!!!!!!????????????

    “Memórias somos”, o verso de Casimiro de Brito ajuda a iluminar a colaboração dos entrevistados na pesada banalidade do livro. Surpreendemos poetas velhos, cansados da vida e que parecem, como se diz, que morreram e esqueceram de enterrar. Ou poetas blasés que ficam o tempo todo jogando areia nas perguntas (mas também…).

   Há entrevistas com um quê de ridículo, como a de Natália Correia, uma Madame Mim da Nova Era, a julgar pelas fotos que compõem a aterrorizante galeria do volume (será que nenhum deles tinha um retratinho melhor?) e pelas suas impagáveis afirmações: “O poeta tem que se banhar na lunaridade da festa noturna” ou “não permito que nada me separe da escrita, porque o corpo e a palavra estão unidos” (ela escreve à mão, informação absolutamente essencial à nossa vida).

    Alguns entrevistados são simpáticos (Ana Hetherly, David Mourão-Ferreira, Nuno Júdice), mas as quase quatrocentas páginas só valem pela breve antologia. Bem poderia ser mais extensa, uma vez que poucos nomes são conhecidos pelo público brasileiro, caso de Mourão-Ferreira, de Sophia de Melo Brayner Andersen e do grande Eugênio de  Andrade.

   É bom ressaltar esse fato porque em meio a declarações apocalípticas (“O homem das cavernas trabalha agora com computador”; “A terra está a ficar inabitável”), vários deles registram sua dívida para com Carlos Drummond de Andrade. Além dele e do nosso maior poeta vivo, João Cabral de Melo Neto, os mais citados são sempre Manuel Bandeira, Murilo Mendes (redescoberto agora no Brasil) e Cecília Meireles.

   Da bacalhoada toda ficam alguns poemas, a razão de interessarmo-nos por esses cavalheiros e damas mais ou menos simpáticos: “Ergue-se aérea pedra a pedra/ a casa que só tenho no poema // A casa dorme, sonha no vento / a delícia súbita de ser mastro// Como estremece um torso delicado/assim a casa, assim o barco// Uma gaivota passa e outra e outra/ a casa não resiste: também voa// Ah, um dia a casa será bosque/ à sua sombra encontrarei a fonte/ onde um rumor de água é só silêncio”  (Eugênio de Andrade).

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 10 de maio de 1994)

nota de 2012- Hoje eu não seria tão taxativo a respeito dos livros de entrevistas, mas ainda tenho um pé atrás.

17/04/2011

Kafka para conquistar amigos e influenciar pessoas

Descobri, em meados da década de 80, que os textos curtos de Kafka eram a coisa mais perfeita que existia em prosa[1]. Por isso, ao descobrir também o (foi o que me pareceu naquele momento) precioso Conversas com Kafka, resolvi, a cada noite, antes de dormir, abri-lo em qualquer página e ler o “ensinamento” do dia, como um I-Ching pessoal.

Riobaldo diz em Grande Sertão: Veredas que mocidade é tarefa pra mais tarde se desmentir. Será que é isso o que se verifica agora, quando o livro de Gustav Janouch ressurge nas livrarias?

Em 1920, Janouch era um admirador de A metamorfose, embora Kafka fosse quase desconhecido, e seu pai apresentou-o ao autor, colega seu numa companhia de seguros. O jovem de 17 anos a princípio decepciona-se com aquele indivíduo simples e bem-educado”. Prestando mais atenção, percebe que seu interlocutor tem grandes olhos cinzentos sob espessas sobrancelhas negras. Sua tez é morena e seus traços extremamente móveis. Kafka fala com seu rosto. A partir daí, visitando-o regularmente no escritório, começa a anotar seus colóquios, publicados pela metade em 1951, e depois de forma mais completa no ano de sua morte, 1968, quando o mundo estava cada vez mais interessado por tudo que se referisse ao gênio de Praga.

Nunca se trata de um mero bate papo (aliás, há sempre um clima de formalidade cordial). A não ser que um bate papo pudesse ser como o seguinte:

Kafka- Um carrasco em nossos dias é um honrado funcionário. O espírito pragmático da função pública assegura-lhe um bom tratamento. Por que não haveria um carrasco adormecido em todo funcionário honrado?

JanouchMas os funcionários não matam ninguém!

Kafka- Oh, sim! E Como! Eles pegam seres vivos e capazes de se transformar, e deles fazem matrículas de arquivos, mortos e incapazes da mínima transformação.

Janouch apresenta um memorial emaranhado da sua convivência, sem indicação precisa de datas, e nem sabemos qual o princípio ordenador ou fundamentador de uma possível autenticidade.

E talvez tenha sido o melhor caminho, ditado decerto pela urgência de anotar o que lhe pareceu importante, incisivo, iluminador. E que para mim, em meados dos anos 80, foi importante, incisivo, iluminador. E provavelmente o será para um jovem de 17 anos por aí, descobrindo a paixão pela literatura, supondo-se que ainda os haja.

De vez em quando, Janouch pondera sobre a experiência de conhecer Kafka: Aprendi a ver melhor e a ouvir melhor. Meu universo aprofundou-se e complicou-se, sem ficar mais frio ou longínquo por isso… Não era mais um insignificante filho de funcionário, mas um ser humano lutando para conquistar sua personalidade e a medida do mundo, e medindo com os homens e com Deus. Isso eu o devia ao dr. Kafka.

Isso soa um pouco como Watson falando de Sherlock Holmes. E hoje que eu tenho um conhecimento muito maior tanto da obra kafkiana quanto da sua vida e das análises e interpretações que escreveram sobre ambas (Elias Canetti, Hanns Zischler, Günther Anders, Marthe Robert, Maurice Blanchot, Erich Heller, Danillo Nunes, Ernst Pawell, entre tantos outros), é um pouco difícil me entusiasmar com esse Kafka “como fazer amigos e influenciar pessoas”. Mas há um toque comovente e inegavelmente espontâneo, que se não torna Conversas com Kafka um I-Ching para literatos afoitos pelo menos permite descobrir (ainda que circunspectamente) esse lado tão mais simpático: Minha embriaguez é oferecer. É a embriaguez mais refinada que existe.

 resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 08 de março de 2008


[1] Por essa época Modesto Carone, no Folhetim da Folha de São Paulo, começara a divulgar suas traduções dessa parte da obra kafkiana, com o título maravilhoso de “Contos de fada para dialéticos”. Até hoje me lembro do impacto da leitura de O abutre:

Era um abutre que bicava meus pés. Ele já havia estraçalhado botas e meias e agora bicava os pés propriamente. Toda vez que atacava, voava várias vezes ao meu redor, inquieto, e depois prosseguia o trabalho. Passou por ali um senhor, olhou um pouquinho e perguntou então por que eu tolerava o abutre. “Estou indefeso”, eu disse. “Ele chegou e começou a bicar, naturalmente eu quis enxotá-lo…mas um animal desses tem muita força. Ele também queria saltar no meu rosto, aí preferi sacrificar-lhe os pés”… “Imagine, deixar-se torturar dessa maneira”, disse o senhor. “Um tiro e o abutre está liquidado.” “É mesmo?”, perguntei.”E o senhor pode cuidar disso?” “Com prazer”, disse ele. “Só preciso ir para casa pegar minha espingarda. O senhor esperaria mais uma meia-hora?” “Isso eu não sei”, disse e fiquei em pé um momento, paralisado de dor. Depois falei: “De qualquer modo tente, por favor.” “Muito bem”, disse o senhor. “Vou me apressar.” Durante a conversa o abutre escutou calmamente, deixando o olhar perambular entre mim e aquele senhor. Agora eu via que ele entendera tudo: levantou vôo, fez a curva da volta bem longe para ganhar ímpeto suficiente e depois, como um lançador de dardos, arremessou até o fundo de mim o bico pela minha boca. Ao cair para trás senti, liberto, como ele se afogava sem salvação no meu sangue, que enchia todas as profundezas e inundava todas as margens.

23/07/2010

O tédio e o hábito tocaiando uma obra: as inúmeras voltas do parafuso moraviano

Em 1960, Alberto Moravia (1907-1990) publicou uma de suas obras-primas, talvez mesmo o seu maior livro, La Noia (no Brasil, Vidas Vazias), no qual, através de Dino, o narrador, apresentava sua preocupação em desmascarar o mundo burguês no seu trinômio sexo-dinheiro-posse, recorrente em tantos dos títulos do autor italiano, inclusive no último, A mulher leopardo (La Donna leopardo, traduzido por Mário Fondelli e editado pela Bertrand Brasil), lançado após sua morte. E que deveria se chamar “O mofo”. Há assuntos e estilos os quais, se o autor não lhes der um remelexo, não fizer um ziriguidum, perdem sua capacidade crítico-provocativa e passam a ser eles mesmos vazios e tediosos.

      A mulher leopardo nos conta como o protagonista, Lorenzo, orgulhoso de sua bela mulher, Nora, a apresenta a Colli, um dos acionistas do jornal para o qual trabalha, e que o convidara a uma viagem ao Gabão, na África. Nora e Colli simpatizam até demais um com o outro e Lorenzo atormenta-se com a suspeita de que eles tenham iniciado um caso. Ada, a esposa de Colli, contribui para a desconfiança com seu comportamento dúbio, e ela e Lorenzo agem como espelho subalterno do outro casal, na tentativa de reproduzir tudo aquilo que eles supõem que o outro, mais fascinante, faça.

      Talvez quem nunca tenha lido Moravia, ou Durrell ou Kundera, entre outros, ache instigante esse vaudeville, porém a própria narrativa parece afetada pelo vazio e alienação das personagens. O aspecto potencialmente mais rico e sedutor da história, que seria o impacto da África sobre os casais (e as reflexões de Colli sobre o papel do homem nesse tipo de paisagem são momentos felizes de A mulher leopardo) é abafado pela atmosfera “huis clos” dessa trama déja vu. O leitor se sente tentado a sair correndo antes que o acúmulo de bocejos o leve ao sono dos justos e pegar O céu que nos protege, de Paul Bowles (ou o notável filme de Bertolucci baseado nele), possivelmente a palavra definitiva em se tratando de mostrar como os problemas burgueses ficam mais fúteis e frágeis diante de uma paisagem física e cultural basicamente indiferente ao mero indivíduo.

   O bom de A mulher leopardo, fruto sem dúvida do tanto que Moravia debruçou-se sobre o assunto, é mostrar sem rebuços a vulgaridade das relações sexuais estabelecidas. Ao invés de tentar injetar “requinte” ou um toque trágico ao erotismo burguês, como acontece a maior parte das vezes, até com gente do cacife de um Louis Malle (no seu lastimável Perdas e Danos), para não falar nos Walter Hugo Khouri da vida, Moravia escancara o materialismo e o utilitarismo e, sob as elucubrações dialéticas de Lorenzo a respeito do poder de Colli e da felinidade de sua esposa, aparece nitidamente o orgulho ferido do macho preterido em favor de outro com maiores atrativos. Ele se irmana, assim,  a outros heróis de Moravia que tentam transformar o ser amado em objeto de estudo e procuram iludir sua perda com uma lógica cerrada. Esse eco de uma grande obra ajuda um pouco a transformar essa Mulher leopardo se não numa criação do calibre de Vidas vazias, As ambições erradas, Os indiferentes, A romana ou 1934, para não falar nos maravilhosos Contos romanos, pelo menos num produto digno de um grande mestre que se repetiu demais.

(resenha publicada, com ligeiras alterações, em 28 de junho de 1994).

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