MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

14/07/2015

LEONARDO PADURA E O STALINISMO NARRATIVO: “O HOMEM QUE AMAVA OS CACHORROS”

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«__ Gostaria de ser o Ramón que era há três anos, antes de começarem as mentiras. Gostaria de poder entrar amanhã naquela casa e dar cabo da vida de um traidor renegado, tendo a certeza de que o faria pela causa. Agora não sei onde começam a causa nem as mentiras.

__ A verdade e a mentira são muito relativas e, nesse trabalho que você e eu fazemos, não há fronteiras entre uma e outra[…] Que importam meia dúzia de mentiras se isso servir para salvar nossa grande verdade? »

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de julho de 2015)

O homem que amava os cachorros, de Leonardo Padura, publicado originalmente em 2009[1], é um dos romances mais amados e aclamados dos últimos anos.

Trata-se mesmo de uma obra ímpar? A princípio, parece que sim. O escritor cubano, conhecido pelas suas tramas policiais (como A névoa do passado, de 2004) surpreende com aquele “apetite pela totalidade” que Vargas Llosa crê ser a vocação suprema do romance — e ele mesmo praticou, no auge de sua carreira, basta lembrar de Conversa no Catedral e A guerra do fim do mundo.

Articulam-se três fios narrativos de longo e significativo alcance temporal: o narrador ensaia ser escritor numa Cuba eriçada ideologicamente (por conta da pressão internacional), na década de 1970, e acaba por desistir, derrotado por uma sociedade monolítica; só retoma o sonho da escrita durante a miséria terrível que se seguiu à dissolução da União Soviética, e por causa do cíclico reaparecimento de rastros e mensagens de um estrangeiro com quem, por acaso, travara um fugaz conhecimento na juventude, e que também partilhava de seu amor pelos cachorros; esse homem é Ramón Mercader, e conheceremos sua trajetória desde a época da Guerra Civil Espanhola, mobilizadora da esquerda mundial, e no meio  da qual é escolhido — através de um árduo processo de despersonalização—para ser o assassino do Trotski, um dos mentores e líderes da Revolução Russa, e depois o principal dissidente da perversão stalinista dessa tentativa de concretizar uma utopia; também acompanharemos o teórico da “revolução permanente” (Trotski também adorava cães e não conseguia se imaginar sem a companhia de um), desde a sua expulsão do território soviético, e ao longo dos seus conturbados 12 anos de expatriamento, passando pela Turquia, pela França, pela Noruega, até o estabelecimento no México, onde—ao mesmo tempo que a Europa mergulha na Segunda Guerra—o golpe de uma picareta transformará sua vida em destino.

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De modo lastimável, porém, todas essas trajetórias e linhas cruzadas, esse mundo meio John le Carré (com uma mirada histórica digna de um Eric Hobsbawm[2]), se diluem e o livro perde fôlego, tornando-se chato e pomposo, porque ao invés de uma narrativa prismática (como acontecia nos melhores romances de Llosa e do próprio Le Carré, como O espião que sabia demais ou Sempre um colegial)[3], mostrando pontos-de-vista divergentes e ambivalentes, jamais unívocos (o de Trotski; o de Mercader; o de Ivan, o narrador), O homem que amava os cachorros, em todas as suas instâncias, bate na mesma tecla e insiste numa nota só:  aqueles que se deixaram arrastar pelo sonho revolucionário, por vontade própria, ou movidos pelas contingências históricas (quando não oprimidos por sociedades totalitárias), foram ludibriados, viveram uma fantasmagoria, uma manipulação monstruosa[4].

Ainda que discutível e polêmica, se essa fosse uma conclusão tirada a partir da leitura, daria para defender O homem que amava os cachorros enquanto prosa de ficção[5]. O que torna isso impossível é que Padura troca o apetite pela totalidade que presumivelmente insuflava seu projeto por uma atitude totalitarista de fazer inveja a Stálin, não dando a menor margem de liberdade para a imaginação e inteligência de quem lê seu romance: tudo já é explicado pelos próprios personagens, eles mesmos já didatizam as lições da História, a moral da fábula, e embora haja compensações nas quase 600 rebarbativas e demasiadas páginas  (certos episódios do desterro de Trotski, a relação edipiana entre Ramón e sua mãe, Caridad), a sensação final é de um imenso desperdício de material, de um relato tão morno e quadradinho quantos os últimos  dos já citados Llosa e Le Carré, epitáfios lúgubres e viscosos de utopias e ideais (por exemplo, O sonho do celta e Amigos absolutos)[6]. E pensar que antigamente a desilusão rendia grande literatura.

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NOTAS

[1] O título original é El hombre que amaba a los perros. Minhas citações são da tradução de Helena Pitta.

[2] Não que isso seja decisivo, em se tratando de uma obra ficcional, mas há anacronismos e detalhes falsos: por exemplo, Ramón jamais poderia ter visto os “jovens existencialistas” nos cafés parisienses antes da guerra, e muito menos, entre eles, Albert Camus (que vivia, então, na sua Argélia natal).

[3] VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/10/25/varios-romances-num-so-conversa-na-catedral-vargas-llosa-apetite-pela-totalidade-i/

https://armonte.wordpress.com/2012/02/19/john-le-carre-em-meados-dos-anos-70-e-sua-obra-prima/

[4] Pelo menos, a certa altura, afirma-se no romance: «… lembre-se de que reescrever a história e colocá-la de onde convenha o poder não foi uma invenção de Stálin, embora ele a tenha utilizado, à sua maneira tosca e depreciativa, até se saciar».

[5] Embora, nas mãos de um leitor muito jovem e inexperiente, o livro possa funcionar como um desserviço, torço que pelo menos aguce a curiosidade para levá-lo a leituras mais ricas e proveitosas, entre elas o magnífico A segunda morte de Ramón Mercader, de Jorge Semprún.

VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/06/21/saudacoes-a-federico-sanchez

https://armonte.wordpress.com/2011/06/20/variante-semprun-do-eterno-retorno/

[6] VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/10/09/sonho-do-celta-pesadelo-do-leitor/

https://armonte.wordpress.com/2012/02/19/john-le-carre-em-meados-da-primeira-decada-do-nosso-seculo/

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09/04/2015

MIASMAS DA DITADURA: “A Merda do Mundo”

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“Lendo alguns relatórios, o psiquiatra soube que o general sentia, às vezes por várias horas seguidas, um forte cheiro de pudim queimado (…) Já estava na hora de tudo aquilo terminar. O psiquiatra cobriu o general, fez que sim respondendo a alguma bobagem que ele estava falando, abriu o envelope com o papel em que deveria escrever o laudo, assinou antes e, sentado à minúscula mesa, escreveu em letras redondas e muito compreensíveis apenas uma linha: Augusto Pinochet Ugarte não apresenta boas condições mentais.

    O general Pinochet, por outro lado, é um filho da puta”. (Ricardo Lísias, “Anna O.”)

“Os gritos surgiam ora em português; ora na língua inaudita e forte dos Kiña; ora na língua inconfundível da dor”. (trecho de “Apiemieke?”)

I

Thiago Roney é um jovem de Manaus, prestes a completar 30 anos, que vem demonstrando apreciável ambição como escritor: já fez duas versões do seu livro de estreia, O estouro da artéria de um cavalo húngaro — e a segunda, com relação à original, é uma prova e tanto de amadurecimento da sua prosa[1] — e agora se arrisca em aventuras editoriais, sem contar o desafio de desenvolver uma obra em parceria: o seu selo, Thysanura, lançou recentemente A merda do mundo, coautoria dele e de Arcângelo Ferreira (nascido em Parintins, em 1969).

Os onze textos são apresentados como contos, dois deles escritos por Ferreira (“Pausa” e “As transfigurações de um tempo imóvel”), dois outros, por Roney (“O cano duplo da anarco-sindicalista” e “Apiemieke?”), os demais a quatro mãos (“Os minotauros de Pancrácio”, “Está feito”, “O Velázquez de Danúbia”, “A merda do mundo”, “O baile das carnes”, “A fenda e as pedras” e “Quando o teu nome cortou minha memória”), mas também podemos tomá-los como capítulos de um romance, girando em torno de um velho militar (ora apresentado como coronel, ora como general), Pancrácio, torturador contumaz no regime militar pós-1964.

Em torno dele se constrói um universo miasmático, nos umbrais do onírico, num tom com seu quê de expressionista, e também de alegórico, sempre remetendo, no entanto, a esse período sombrio da vida brasileira, quando torturadores tinham à sua disposição um “baile de carnes”. Sobrevivendo a ele, atormentado e decrépito[2], Pancrácio como que convoca o mitológico, o monstruoso, o labiríntico, minotauro ele mesmo, num “contratempo”[3], sem nunca ter enfrentado um Teseu redentor, assim como nunca enfrentamos de forma satisfatória os anos de chumbo, por conta de um tortuoso conceito de anistia e conciliação.

A Memória, aqui, toma a forma de uma dança macabra, em que os passos evocam referências literárias (Scorza, por exemplo), musicais (Soza, por exemplo), geracionais (tanto a juventude daquela época como a de agora, fascinada por Roberto Bolaño)[4] e arrastando “comboios de ressentimento”.

Nesses espelhos deformantes, “o caminhão do velho Pancrácio” (“bruto general nojento disfarçado de caminhoneiro”) não por acaso “tem a força de mil novecentos e sessenta e oito cavalos” (1968, o ano que nunca terminou, ano do AI-5). E todos têm de enfrentar o Tempo, “esse poema de amor e ódio deixado nos muros de Pompeia”. Uma Pompeia de desaparecidos e procurados pelo regime, que povoam a infância do narrador de “As transfigurações de um tempo imóvel”. Uma Pompeia (aliás, uma nação imaginária, Maro) invadida pela merda do mundo, onde o indivíduo é “enclausurado na multidão”.

E o impune Pancrácio terá de se haver com o lamento das tribos amazônicas massacradas em nome da Ordem e do Progresso: “Porque era o certo, seus vermes! Se não aprenderam a serem civilizados, tinham que morrer mesmo, porra! Por quê? Não viram a importância da civilização? Por que quem pergunta sou eu, por que não morrem de uma vez, caralho? Nem pra morrer vocês servem?”.

No final das contas, nessa mistura do histórico-memorialístico (quase a contrapelo) com um onírico muito marcado pelo fisiológico (e sobretudo pelo escatológico), Pancrácio “deixa as lembranças fluírem, as inventa. Aponta um estigma do lado interno das coxas e diz que as marcas são como os vestígios da existência. Mas aquela não iria retratar em narrativa, iria ficar nela para todo o sempre, levaria para o túmulo. Deixaria no arquivo de sua memória individual, para ele memória coletiva era uma fantasia perversa da Ordem que ajudou a forjar”.

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Lastimavelmente, apesar dessa virtual riqueza de veios temáticos, em torno dos miasmas que a ditadura deixou em nossa atmosfera civil, A merda do mundo também é miasmático do ponto de vista textual.

Com a exceção de “Apiemieke?”, todos os textos deixam a desejar. Além da monocórdia, eles são truncados e muitas vezes incompreensíveis[5]. Em uma das Fisiologias (a da Solidão) de Ricardo Lísias, o narrador afirma: “Acho patéticos os ficcionistas que continuam claros no século XXI…São artistas vulgares. Pessoas ignorantes. A limpidez ficcional, no mundo contemporâneo, revela personalidades simplórias[6]. Não, não estou exigindo esse tipo primário de limpidez, mas a senda oposta, a da amorfia obscura, também não me parece uma opção viável.

O que podemos entender da seguinte passagem: “É impossível ficar na sombra de uma fotografia, pois a fotografia é a própria sombra”???!!! Ou então: “Muito mais que uma catarata da dor em um menino, era uma toxoplasmose ocular de um pau de arara”???!!! E “minhas manhãs nunca foram tardes de baralho”!!!???

Há contos particularmente toscos, como “A fenda e as pedras”, que joga com referências sem que os autores se preocupem em dar uma mínima vestimenta ficcional para elas.

O coitado (nesse sentido específico, evidentemente) do Pancrácio, um achado dos autores, acaba perdido nessa mixórdia.

Mesmo não apreciando o resultado, sou obrigado a confessar que, sem embargo desse tratamento miasmático e confuso, A merda do mundo ainda assim assombrou estes meus dias, especialmente as noites, desde a leitura, com sua conjunção da evocação de um regime terrível e um clima alucinatório. Portanto, há um imaginário muito válido e virtualmente possante. Tomara que os autores algum dia consigam dar conta dele em termos verbais convincentes, apesar de não exatamente “límpidos”. Afinal, Roney já provou que pode se reinventar na escrita, para proveito nosso. Era o caso, aqui.

(uma versão da resenha acima foi publicada no LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO em 8 de abril de 2015, VER: http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2015/04/miasmas-da-ditadura-merda-do-mundo.html)

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NOTAS

[1] VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/08/14/notas-sobre-um-jovem-contista-o-estouro-da-arteria-de-um-cavalo-hungaro-de-thiago-roney/

https://armonte.wordpress.com/2014/02/18/o-talentoso-mr-roney-os-contos-de-o-estouro-da-arteria-de-um-cavalo-hungaro-2a-edicao/

[2] “…aquela assinatura saturada de Tempo seria do decrépito coronel Pancrácio?”, lemos em “Pausa”.

[3]Como desatar os nós enjaulados nos buracos do contratempo”, lemos em “Os minotauros de Pancrácio”.

[4] Como vemos em “A fenda e as pedras”.

[5] Numerosos problemas de revisão atrapalham também, ortográfica e sintaticamente.

[6] Em outra delas (a da Amizade), lemos: “Apenas escritores muito ingênuos acreditam em ficção histórica”. Os trechos de Lísias podem ser encontrados em CONCENTRAÇÃO E OUTROS CONTOS (Alfaguara, 2015).

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17/02/2015

Ervas daninhas no jardim: VIOLETA VELHA E OUTRAS FLORES, de Matheus Arcaro

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  17 de fevereiro de 2015)

Matheus Arcaro organizou cuidadosamente seu livro de estreia, Violeta velha e outras flores: vinte e dois contos dispostos em seis seções, e sentimos fortemente a afinidade temática que rege esses agrupamentos; por exemplo, o conto-título, no qual o protagonista, já idoso, rememora a relação permeada de violência com o filho (em que um sempre é o elo mais fraco) está em companhia de outros cinco onde situações-limites de desamparo afloram: a estudante destruída pelo vício até chegar à indigência total (“Alice”); a mulher com câncer, com um diagnóstico-sentença de poucos meses de vida, que procura cura espiritual (ou mero conforto?) num centro espírita (“A cura); o residente  de uma casa de repouso que, no dia do aniversário de noventa anos, espera ansiosamente os familiares (“Visita); a moça atropelada («O farol do carro apagou as luzes do meu porvir»), em estado vegetativo (“Festa”).

Em outros blocos temos o despertar de uma sensibilidade infantil para o selvagem coração da vida (“Casulo Rompido”); situações que desnudam a hipocrisia e as máscaras das relações instituídas, como o casamento (“Até que a morte os separe”); temos até relatos que transitam entre o filosófico e o paródico, como a visitação ao inferno, ao paraíso e ao purgatório, com a oferta de se decidir por um deles concedida ao protagonista (“Está tudo escrito”); sem contar experiências como  “A fúria sem som”, onde o relato de um deficiente mental, abusado por uma cuidadora (com resultados trágicos) e misturando instâncias temporais de toda uma vida, remete à parte mais famosa e intrincada de O som e a fúria (1929), de William Faulkner.

Portanto, temos um escritor jovem (30 anos), mas que leva muito a sério seu ofício, com uma intuição estrutural acurada[1]. Não obstante essas qualidades ponderáveis, que mostram um jardineiro dedicado, o que realmente importa em Violeta velha e outras flores, os relatos, revela a intrusão de ervas daninhas que comprometem tais cuidados com o jardim.

Grosso modo, o que a meu ver (pois é preciso dizer que o livro vem colhendo fartos elogios) incomoda na coletânea como uma falha grave é a falta de uma voz pessoal, de uma personalidade de autor que ilumine de forma peculiar, única, todo o cultivado buquê de temáticas e técnicas narrativas. Não sentimos em nenhum momento um universo ficcional com a marca inconfundível de Matheus Arcaro. Um ou outro conto ameaça timidamente um desabrochar nesse sentido, caso de “Festa” ou “Maquinando”, todavia sempre sentimos que falta algo essencial[2].

Por outro lado, em sua prosa, ele se deixou levar pela sereia do “escrever bonito”, caindo inúmeras vezes no pior beletrismo, aquele que transformou em escritores irremediavelmente anacrônicos Coelho Neto ou Afrânio Peixoto, e que faz dos contemporâneos Nélida Piñon (Vozes do Deserto) e Evandro Affonso Ferreira (O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam) exemplos de afetação e tom postiço (no fundo, subliterário).

Deparamo-nos, com trechos como «As papilas salivares censuram aos lábios o direito da separação»!?; «O ar árido e o hálito do sol, entrelaçados feito jovens amantes, salgam seus olhos»!?; «Como a viúva que levanta o véu do caixão para o beijo derradeiro na boca frígida, as cortinas se abrem»!?;«suas reflexões diluíam-se no reflexo que arrombava sua retina»!?; «a lua lambeu seus pés»!?[3]

Claro que há também trechos bons («Com o vestido florido, Clarice parece costurada ao ambiente»;«O esforço ineficaz daquele homem em escombros trouxe um espelho à sua frente; viu-se pelada numa cadeira de rodas, com o tempo ancorado nos ombros»;«Eram seis da tarde, mas o crepúsculo habitava-o há horas») infelizmente estrangulados entre a floração malsã de imagens de gosto duvidoso[4], piñonescas.

Ao fim e ao cabo, seria aconselhável ao jardineiro a poda implacável: melhor concentrar-se menos nos contornos do jardim e mais com a qualidade de cada flor[5]. Como lemos (aliás, uma passagem ruim) em “Reencontro”: «Como germinariam flores na boca se seco está o espírito?»

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TRECHO SELECIONADO

«será que vou pro céu não estou no mesmo degrau que o padre Ambrósio ou que as senhoras que puxam o terço de terça à noite porém não posso ir pro mesmo lugar que um matador de aluguel ou um político decerto foi pra evitar esse tipo de confusão que Deus inventou o purgatório o padre disse que não se fica lá por muito tempo só até pagar os pecados mais graves eu me esforço pra seguir os ensinamentos dele amar o próximo e tal mas é difícil sem crédito celular da porra»

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NOTAS

[1] Que encontrou na edição da Patuá o excepcional talento de Leonardo Mathias, que realizou um de seus melhores trabalhos.

[2] “A fúria sem som” talvez seja o conto mais impecável da coletânea do ponto de vista da tessitura textual, e mesmo assim tem um ar de exercício estilístico de oficinas criativas.

[3] O conto de abertura, “Casulo rompido”, já é comprometido por passagens e expressões infelizes, como “o menino moldado por seus genes”, “como se algo de dentro da flora o sugasse suavemente”, “líquido salso”, além de uma certa falta de rigor, como em “Ele era um títere encantado; um ser no qual o êxtase espreguiçava seus tentáculos” (afina, títere ou ser?, os dois não dá para ser, não?).  O que  nos leva também às frases sem qualquer sentido, como esta, de “Teclado”: “Júlio parecia com o que devia parecer. Um livro erótico de capa sóbria”!?  Ou às afirmações banais e estereotipadas: “ele tinha que lavar o ranço do passado não vivido” (“Noite nua”)!?

[4] O já citado “Visita” fornece um bom exemplo desse estrangulamento: veja-se o primeiro parágrafo, marcado pelo excesso de imagens: “Inspirou como se erguesse a existência com os pulmões. Elas virão! A bofetadas, o tempo lhe ensinara que a vida não é uma equação  pitagórica: uma delas pode ter passado mal; nesta época do ano, a gripe costuma atacar  os que estão com o escudo em repouso. Ou, quem sabe, o carro pode ter enguiçado no caminho; estes carros modernos são mais frágeis que um coração empoeirado. Sentindo a menção do pensamento, o órgão  debateu-se no calabouço torácico, mas logo foi domado pelo marca-passo e, resignando-se como um escravo recém-açoitado, voltou à sua função de tesoureiro da esperança.” (de “Maquinando”)

   Ao longo do conto o leitor se depara com a felicidade que “fora concubina” do protagonista; uma mulher que carregava no peito “sublimes paradoxos” e uma filha com “hálito hialino”!?

[5] E mesmo no quesito “seleção”, há reparos a se fazer: ter escrito vinte e dois contos não é razão para publicá-los todos. O que justificaria a inclusão de “Guerra” e “À beira do abismo”?

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02/02/2015

Colleen McCullough no pêndulo entre a inspiração e a mornidão: “Pássaros Feridos” e “A canção de Troia”

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(a resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 19 de novembro de 2002)

A CANÇÃO DE TROIA[1] era um dos lançamentos mais aguardados do ano. Afinal, na última década, Colleen McCullough destacou-se por sua avassaladora reconstituição ficcional da Roma Antiga, na série iniciada com Primeiro Homem de Roma e, como uma das mais brilhantes contadoras de histórias da atualidade, ela era perfeita para recriar em forma de romance a “Ilíada”.

Em Canção de Troia reencontramos todos os episódios famosos: a fuga de Helena, mulher de Menelau, com Páris, príncipe troiano; a união dos líderes gregos em torno de Agamêmnon, irmão do traído, no cerco à Troia, que dura dez anos; a desavença entre Agamêmnon e o maior guerreiro entre os gregos, Aquiles; o ardil do cavalo de madeira inventado pelo astuto Ulisses, que permite a invasão e saque da cidade protegida por invencíveis muralhas. Todavia, a autora de Pássaros feridos trata o evento como uma guerra entre potências, envolvendo rotas comerciais: de um lado, o conglomerado de reinos que forma a Grécia; de outro, a Ásia Menor, justamente liderada por Troia. E para o leitor de hoje são perfeitamente plausíveis as pretensões imperialistas de Agamêmnon.

O livro é todo em primeira pessoa, utilizando 16 narradores: Príamo, Páris, Heitor, Enéias (da parte de Troia); Peleu, Quíron, Agamêmnon, Aquiles, Ulisses, Diomedes, Pátroclo, Nestor, Automedonte, Neoptolemo (entre os gregos), e só duas mulheres, Helena e Briseis (esta última, concubina de Aquiles, o qual é o personagem que toma mais vezes a palavra: seis capítulos entre os trinta e três que compõem Canção de Troia).

A intenção da autora era enriquecer o foco narrativo, mas foi uma péssima estratégia: o recurso não convence. Volta e meia, os personagens resvalam para um tom didático e explanativo que fica muito parecido com o de um narrador em terceira pessoa. E há momentos verdadeiramente horríveis, como aquele em que Ulisses diz a Agamêmnon: “Menelau deveria exigir uma indenização adequada para os danos psicológicos que sofreu em consequência do rapto de Helena”!!!??? Ora, ora.

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Além disso, é constrangedor para quem há anos vem defendendo os livros de Colleen McCullough, desde Pássaros feridos (1977), da pecha de “meros best sellers” , deparar-se com passagens bregas do tipo “Definhara-se o amor que nos unira… o fogo transformara-se agora em cinza” (trata-se de Helena queixando-se das infidelidades de Páris)!!??

Porém, nem o uso capenga da primeira pessoa nem os trechos estereotipados (para não dizer, esfarrapados) pesam muito na decepção que é a leitura de Canção de Troia. As suas 600 páginas, tomadas objetivamente, são competentes e dão conta do recado de contar de forma linear a história do cerco. Não há o que reclamar quanto a isso, e o romance não apresenta quedas, mantendo-se equilibrado do início ao fim.

O que falta para o fã de Colleen, e isso tira toda a alma do projeto, é a sua verve, é a magia do seu fôlego ficcional, capaz de transfigurar qualquer evento e qualquer personagem. Esse toque, que fez de Pássaros feridos, Uma obsessão indecente e A Paixão do dr. Christian muito mais do que histórias melodramáticas, que fez de Primeiro Homem de Roma, A coroa de ervas e Os favoritos de Fortuna, mesmo com altos e baixos, estupendos mergulhos na história antiga, esse toque falta a Canção de Troia.

A mais desalentadora e melancólica derrota do longo cerco, após dez anos e seiscentas páginas, não é tanto a da estirpe de Príamo, nem a da reputação imaculada de Aquiles enquanto guerreiro: é o fato de que, se todos aqueles livros, com sua personalidade gritante, só poderiam ter sido escritos por Colleen McCullough, este—a não ser num ou noutro momento—poderia ter sido escrito por qualquer um.

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(a resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 25 de março de 2003)

A Bertrand está reeditando boa parte do seu catálogo com novas capas e paginação. Um desses relançamentos é o de PÁSSAROS FERIDOS que, desde sua publicação original, em 1977, já vendeu mais de dez milhões de cópias, embora seja um livro especial não exatamente por esse triunfo quantitativo.

Se não é tão bom quanto os livros da série romana de Colleen McCullough, é, entretanto, bem melhor do que seu último romance publicado no Brasil, A canção de Troia, pálida releitura da “Ilíada” de Homero.

Pena que a antiga e breguinha capa, sobrevivente de tantas reimpressões, e na qual aparecia um desenho chinfrim de árvore, foi substituída por uma capa igualmente brega, com uma paisagem rústica em que um céu de improvável azul é cortado pelo arco-íris (na contracapa, um raio fende um firmamento tempestuoso), que está em falta de sintonia com os recentes projetos editoriais da Bertrand. O pior é que colocaram umas letrinhas “estraga-vista” que se arrastam feito formiguinhas por 545 páginas! Já não bastam as vicissitudes do clã Leary em sua propriedade na Austrália, a fazenda Drogheda.

Agora sabemos que Colleen estava pronta para mergulhar na mentalidade greco-romana: ela consegue fazer uma bela transposição do clima da tragédia grega, onde a maldição dos deuses cai como um raio (não o da contracapa) no seio de clãs dominados por uma espécie de “demônio familiar”. Na contracapa do raio pode-se ler: “as vastas extensões dos campos australianos, povoados de carneiros e rarefeitos de homens, que forçam seus minguados habitantes a uma existência isolada, pioneira, quase primitiva…”, o que nos remete à obra-prima de um grande escritor compatriota da autora de Pássaros feridos, Patrick White: A árvore do homem (1955).

Ao contrário dos dramalhões familiares convencionais, não existe conciliação no final da história, não há desenlace feliz ou arrumadinha, onde o sofrimento é, enfim, redimido. Estamos longe de Danielle Steel, de Nora Roberts ou de Barbara Delinski, campeãs da hora na lista dos mais vendidos, e mesmo de Rosamunde Pilcher ou Isabel Allende, que são mais pretensiosas.

Só que há defeitos graves em Pássaros feridos: os diálogos são muito irregulares, não obstante haja alguns soberbos (particularmente entre Meggie e Fee), vez em quando nos deparamos com escorregões feios (frases do tipo “Não dispenso uma sarda do seu rosto nem uma célula do seu cérebro”) no mau-gosto, sem contar os resmungos infindos contra o sexo masculino e, claro, o título horrível e enganador. No geral, porém, passados pouco mais de 25 anos, ele ainda desconcerta completamente quem o procura por motivos “românticos” e escapistas. Ao cabo da saga dos Cleary, sobra a resignação diante da velhice e da violência bruta, e a sensação (digna do Eclesiastes) de que nada é novo sob o sol, que tudo é vaidade e que é imperativo que o círculo se feche e o ciclo recomece.

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Nota de 2015– Uma parte do texto acima foi omitida. Ela pode ser encontrada em outra resenha a respeito do livro, VER https://armonte.wordpress.com/2015/02/01/passaros-feridos-ou-a-que-clube-pertencia-colleen-mccullough/)

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[1] The song of Troy (1998), que comento na tradução de Maria D. Alexandre.

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02/12/2014

A BALADA DE ADAM HENRY: Ian McEwan, a dimensão do irreparável e a fachada cinzenta

Ian+McEwan

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“Homens ocultavam recursos em contas do exterior, mulheres exigiam para sempre uma vida de conforto. Mães impediam crianças de ver os pais apesar de ordens judiciais; pais se negavam a oferecer sustento aos filhos apesar de ordens judiciais. Maridos agrediam esposas e filhos, esposas mentiam ou maquinavam ardis, um ou outro, bêbados, viciados em drogas ou psicóticos; e crianças, na prática, eram obrigadas a tomar conta de pais incapazes, crianças de fato vítimas de abusos sexuais ou mentais, ou ambos, seus depoimentos transmitidos numa tela ao tribunal. E fora da área de competência de Fiona, em casos das cortes criminais e não das varas de família, crianças torturadas, mortas de fome ou por espancamento, espíritos maus arrancados de dentro delas em ritos animistas padrastos jovens e cruéis quebrando ossos de bebês sob os olhares abobalhados e cúmplices das mães, e drogas, álcool, sujeira doméstica extrema, vizinhos indiferentes e seletivamente surdos para não ouvir os gritos, assistentes sociais descuidados ou atarefados demais para intervir…”

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 02 de dezembro de 2014)

A leitura de A Balada de Adam Henry me fez relembrar das bem-sucedidas peças de Peter Shaffer, como Real Caçador do Sol (1964), Equus (1973) e Amadeus (1979), nas quais com inteligência cênica (e boa dose de esquematismo, pois todas seguiam uma fórmula) um indivíduo disfuncional e incômodo[1], entretanto cheio de vida, no sentido pleno do termo (no que tem de dor e horror também) colocava em xeque o protagonista aparentemente realizado, “ajustado”. Textos de uma época em que a razão ocidental e seus parâmetros eram questionados visceralmente, ainda guardavam um quê da contracultura.

Fiona Maye, a protagonista de Ian McEwan em seu novo romance, é uma juíza da vara de família. Uma decisão controversa de sua parte afetará o futuro de Adam Henry, a poucos meses de se tornar maior de idade (o título original, The Children Act, refere-se à lei britânica correspondente ao nosso Estatuto da Criança e do Adolescente): testemunha de Jeová, ele recusava a transfusão de sangue que o salvaria de sequelas tenebrosas do tratamento de leucemia e da morte certa. Visando o seu bem-estar e pleno desenvolvimento (em especial, depois de visitá-lo no hospital), dentro do entendimento que a lei permite, apesar das convicções arraigadas do próprio rapaz e do respeito ao relativismo cultural, Fiona determina que ele receba a transfusão.

O problema é que Adam é um exaltado (e poeta, resgatando o sentido romântico que outrora revestia o epíteto), amante do absoluto (para quem foi jovem e idealista, será fácil reconhecer-se), por mais ridículo que pareça para os padrões atuais, quando até a juventude parece mergulhada na ironia e na negatividade. Ele se afasta da comunidade religiosa a que pertencia e passa a seguir Fiona, a qual representaria uma instância suprema diversa, a justiça secular, com outra sabedoria (pobre e iludido Adam!) e o poder de transfigurar o destino das pessoas. E dessa forma, no parco contato direto que tem com a mulher que salvou sua vida, ele a confronta com possibilidades transgressivas e insólitas (por exemplo, deseja morar com ela).

Mas nós, leitores, conhecemos muito bem, a essa altura, a juíza (Adam é focalizado de modo mais oblíquo — pudera, é um personagem espinhoso, roçando o improvável), sabemos que o marido a largou, à beira dos 60 anos, “por falta de ardor”, e que ela vive o cotidiano mais rotineiro e convencional, no que tais palavras podem sugerir de estreito, mesmo com uns laivos diferenciais (é musicista amadora, porém talentosa). Embora profissional capaz, justa, e uma boa pessoa, não há ninguém mais distante de ser um indivíduo estimulante — capaz de mudar, de fato, fora das prerrogativas legais, qualquer existência — do que ela.

Por infelicidade, num determinado momento, Fiona se deixa levar pela vitalidade voraz de Adam e comete uma ação impensada e ominosa, por todos os padrões da “normalidade”. E então, mesmo num formato narrativo limitado (vejo em A Balada de Adam Henry a vocação de um conto longo, esticado em demasia), Ian McEwan tem a oportunidade de colocar numa fábula de ambientação contemporânea a dimensão do irreparável, fundamento de seu livro mais celebrado, Atonement-Reparação (2001). Nele, o dano causado era retificado através das várias versões literárias que a perpetradora, uma escritora, se propôs ao longo da vida como expiação (uma delas, justamente o romance que líamos).

A questão fascinante suscitada pelos dilemas morais (numa época em que se prega, mas pouco se pratica, o respeito à diversidade) e pelos atos de consequência desastrosa no tecido narrativo de A Balada de Adam Henry se descortina quando o irreparável que se pratica não tem nem o esteio da reelaboração literária dos eventos. De volta a uma forma mais sucinta (não obstante Sweet Tooth-Serena, seu livro anterior, ser uma de suas melhores realizações), McEwan talvez atingisse novamente a voltagem crispada e implacável de sua obra-prima, Amsterdam (1998).

Nada feito. Ele preferiu (assim como sua Fiona) o morno, o cauteloso, aquele voo confortável nas asas da elegância estilística que já comprometera consideravelmente o escopo de Sábado (2006), outra fábula moral sobre a atualidade que prometia muito e resultava desfibrada. Temos muitas passagens citáveis (“Até onde era neurologicamente possível não pensar, ela não tinha nenhum pensamento”, na excelente versão de Jorio Dauster), nada incomuns, contudo, no time de prosadores britânicos de alto coturno, como Margaret Drabble ou Julian Barnes, para citar apenas dois nomes do seu naipe e próximos em faixa etária (e ambos já traduzidos no Brasil[2]).

O leitor, talvez injustamente, se sente meio Adam Henry, forçando a entrada para uma possível (e desejável) exploração em profundidade dos meandros morais o nosso estágio civilizatório, deparando-se com um cutucar a onça com vara longa demais, de dentro de uma zona de conforto bem delimitada. Daí a inesperada nostalgia pelos dramas maniqueístas (nunca chegavam ao fundo, decerto), todavia nada escassos em ardor, do mencionado Peter Shaffer. O Ian McEwan de A Balada de Adam Henry é todo ele uma impecável e indevassável fachada cinzenta

VER TAMBÉM NO BLOG

https://armonte.wordpress.com/2012/06/26/esplendores-e-miserias-de-reparacao/

https://armonte.wordpress.com/2012/06/28/destaque-do-blog-serena-de-ian-mcewan-ou-as-praticas-invasivas/

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NOTAS

[1] Como Atahualpa, em Real Caçador do Sol, pertencente a uma civilização diferente, “bárbara”, na visão do conquistador europeu. Mas sua função dramática não é muito diferente do perturbado Alan Strang de Equus e do Mozart tal como figurado em Amadeus.

[2] De Margaret Drabble recomendo  A era do gelo (1977), A geração do meio (1980) e A trilha luminosa (1987), publicados pela Rocco assim como diversos livros de Barnes, mais conhecido no Brasil nos últimos anos, após ter recebido o Booker Prize por O sentido de um fim (2011).

VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/01/24/o-escritor-como-personagem-conan-doyle-e-seu-caso-dreyfus/

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11/11/2014

O PROFUNDO DAS COISAS E A CONTORÇÃO DAS VÍRGULAS: a problemática edição de “Nossa Teresa- Vida e morte de uma santa suicida”

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“Tolerar, ao contrário do que se vende por aí, não significa aceitar, aceitar com plenitude, como requer qualquer verdadeira aceitação. Tolerar significa, antes, uma espécie de licença especial para que o outro, com seus exotismos e discrepâncias, possa existir. Tolerar é aguentar o outro apesar dele mesmo. É tomar xicarazinhas de café e sorrir no cumprimento, e, sob a impunidade das portas fechadas, sejam elas as de casa ou a do próprio coração, reconstruir o outro segundo os moldes que nos interessam e que no outro não se encaixam.” (trecho de Nossa Teresa)

“O profundo das coisas não está na pauta do dia. De nenhum dia.” (idem)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 11 de novembro de 2014)

Devido ao arrojo e à qualidade, inclusive dos projetos gráficos, a Patuá tornou-se o selo editorial independente mais prestigiado do país. É comum ver títulos do seu catálogo entre os finalistas dos prêmios mais badalados. E é bem possível que isso aconteça (não obstante certos reparos que farei a seguir) com um de seus últimos lançamentos, Nossa Teresa – Vida e morte de uma santa suicida, romance de estreia (após alguns livros de poemas) da pernambucana Micheliny Verunschk, aos 42 anos.

Em V., cidade interiorana onde a estatística de suicídios impressiona (“o suicídio em V. é uma doença antiga, mas as pesquisas não avançam, porque para analisar o tema a cidade se fecha em copas”), havendo um Cemitério dos Proscritos (o suicídio sendo anatematizado em todas as religiões — mas, se olharmos de perto, os mártires e santos não foram suicidas?) a fervorosa adolescente Teresa, cujo nome evoca outras figuras femininas da tradição católica, mata-se, abrindo caminho para que o ambicioso padre Simão ascenda na hierarquia da igreja até ser eleito papa. Ele, “que tinha consigo a certeza de que os caminhos para alcançar a mão de Deus são mais que tortuosos, incapaz por si próprio de ser um “santo homem de Deus, no entanto “não deixava escapar a íntima vontade de descobrir, lapidar, orientar a santidade de alguém.

A canonização de Teresa, com seus trâmites burocráticos e ligados ao mundo material e mercantil (“O que não contou para sua canonização , no entanto, foram as histórias de vida daqueles tantos que a sua mão, a força do seu exemplo, conduziu pelos caminhos  do suicídio, coisa realmente espantosa”), é a espinha dorsal do relato, feito por um narrador que, em razão de um “acidente isquêmico transitório” fica cego e a um só tempo guia o leitor e discute continuamente com ele, açulando-o (“foi como pás de terra sobre um vivo que eu quis compor essa narrativa, foi como uma tampa de madeira sobre um cataléptico que eu quis contar a minha história), através do passado de V., seus cidadãos suicidas, e também por delírios e êxtases religiosos (em meio à fome, à guerra, ao desconcerto geral do mundo), tais como o sebastianismo e o terrorismo movido pela jihad, compondo uma cartografia narrativa estilhaçada e múltipla do que a religião tem tanto de processo civilizatório quanto de instrumento da barbárie.

Agregadas, portanto, à curta (em número de anos vividos) e longa (após a morte) existência simbólica de Teresa, outras autoimolações, como a de Severa, grávida do professor do filho, futuro escritor famoso, ou a de Samir, que explode um avião, como ato de fé; biografias que a narrativa sugere, mas não desenvolve, como a de outra Teresa, que daria “um livro igual a esse que você lê agora. Talvez até melhor; e mesmo aqueles que não se suicidaram, nem por isso deixaram de ser afetados pelo ato, como os pais de Teresa, recusando a devoção em torno da filha.

Nossa Teresa apresenta até uma virtual biblioteca de suicidas (também uma Babel, pois há na essência das mensagens para os que ficam “uma importante falha no ato comunicativo”)[1]. Outro momento a destacar é o capítulo de depoimentos de diversos conterrâneos da santa. Aí, temos a medida do talento inegável de Micheliny Verunschk.

Infelizmente, houve açodamento no lançamento do livro. É evidente que, com seu background poético, sua verve narrativa e o escopo temático que sua inventiva explora, seu texto não está suficientemente lapidado: “nenhuma vírgula se contorce se não for para o bem da exatidão, afirma o narrador, em suas contínuas espicaçadas no leitor. No entanto, não é o que constatamos ao longo do leitura. Há imagens e afirmações de gosto duvidoso, passagens de prosa inflada e que pouco acrescentam ao vigor da narrativa, escorregadelas em lugares comuns (o que é bem diferente de trabalhar criativamente com afirmações repisadas do tipo “do pó vieste, ao pó voltarás” ou “nada de novo sob o sol”)[2] e assustadores deslizes gramaticais, inaceitáveis numa autora que trabalha em alta voltagem de linguagem[3].

Todos cometemos erros aqui e ali, parece quase inevitável, e nesse ponto é que entra o crucial trabalho de editoração; por isso, a publicação de Nossa Teresa, tal como está, foi bastante precipitada e inglória: além da ausência, de revisão do texto digna do nome (o que Flávio Rodrigo Penteado, o responsável, fez exatamente?), a impressão acrescentou outros horrores, separando palavras, de uma linha para a outra, de maneira bisonha[4].

Tal como está, Nossa Teresa ficou como o arcabouço apaixonante de uma obra que pode, ainda, transformar-se num exemplo relevante da nossa ficção recente, digna de todos os prêmios. Por mais que respeite tanto o arrojo da autora como da editora (caso não esmoreça no nível de qualidade, sua marca até agora), uma segunda edição, completamente revisada, se faz urgente.

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NOTAS

[1] “O que significam a carta, o bilhete, a anotação feita às pressas, o diário, o poema, o testamento do suicida? Quantas tristes, curiosas, eloquentes,  saudosas, raivosas mensagens se acumulam nas palavras finais daquele que nos deixa. Quanta culpa deixou de herança o seu suicida? Você a partilhou com quem? Com um? Com muitos? Com nenhum? É uma exclusividade sua, a qual acaricia como a um animalzinho insone nas horas mais terríveis? Acaso conseguiu esquecê-la? Não se despreza um presente, ainda que este seja uma mágoa.

   Teresa não deixou uma linha sequer. O que queria dizer ela com isso? (…) Não será importante esse pedaço de papel, por mais ínfimo que seja (…) pelo menos para tentar comunicar o incomunicável?

    Teresa brinca entre as exceções , mas a regra diz que , caso se quisesse, poderia ser erguida uma Biblioteca de Babel com todas as mensagens desses náufragos (…) Em V., a sucursal dessa biblioteca imaginária não seria tímida, bem sabemos. O prédio para abrigá-la poderia ser apropriadamente a antiga casa colonial da Rua do Mercador, a mesma na qual nascera e morrera Luis Osvaldo de Azevedo. É de praxe esse tipo de homenagem a escritores, embora haja quem prefira saudá-los com um nome de rua ou praça ou até com uma estátua mal-ajambrada numa localidade qualquer em que o dito desavisadamente passou. Soubesse que o colocariam ali em duro metal, estático à merda dos pombos e maus cheiros de toda ordem da cidade, teria mudado de trajeto, talvez de trajetória.

   A biblioteca dos suicidas de  paredes verdes por fora e vermelha por dentro sugeririam um aconchego de fruto ou a queda num poço. Eu poderia ser o bibliotecário. Sou vaidoso e gosto do papel. Me orgulharia de saber a exata localização de cada volume. As mensagens, encadernadas, catalogadas, organizadas por tema (morte por tiro, defenestração, envenenamento, enforcamento, asfixia por gás), sexo, idade, motivos aparentes (desilusão amorosa, dívida, problemas familiares, desajuste social) e, claro, maravilha das maravilhas, tudo estaria ligado em rede compondo uma árvore com infográficos, fotografias, relações de todas as espécies inclusive com suicidas  de outros lugares, famosos e anônimos. E eu, já cego, como cabe a todo genuíno bibliotecário, saberia os lugares e movimentos de todos pelo tato, pelo gosto,  pelos cheiros, pela audição, pelo sentido ultrassuperior que agrega todos os outros sentidos quando se é cego. E eu sentiria os movimentos dessa biblioteca pela respiração.”

[2]  “A vida não é uma novela. Seria, antes,  como tenho dito,  um novelo”!!!????

[3] Cf, por exemplo, págs. 123 e 140.

[4] Cf, por exemplo, págs. 36, 52, 125, 132.

nossa teresa resenha

19/06/2014

EXISTE O ROMANCE BUARQUIANO?: sobre “Budapeste” e “Leite Derramado”

chico  

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                                                   I

(a resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,em 22 de junho de 2004)

 “…depois de casado, nos dias em que estava seguro de haver escrito um texto de grande inspiração… meu desejo era o de que a Vanda o lesse. Então comprava vários exemplares do jornal e os deixava com meu artigo à mostra no caminho dela, na mesa de jantar, em cima do telefone, no berço do menino, junto ao espelho do banheiro. Ver a Vanda correr os olhos sobre as minhas letras, esboçar um sorriso, apreciar um texto meu sem saber que o era, seria quase como vê-la se despir sem saber que eu a estava olhando. Mas não, ela pegava o jornal e revirava as páginas, olhava umas fotografias, lia as legendas, a Vanda não tinha paciência para grandes leituras. Daí meu estupor ao saber de sua boca que ela lera meu livro, não uma, mas três vezes… tive pena e orgulho de mim, era  como se duas palavras dela reparassem sete anos de descaso”.

No trecho acima, José Costa, narrador e protagonista do festejado Budapeste, de Chico Buarque, esclarece, caso alguém ainda tivesse dúvidas, as suas prioridades. Acima de tudo, a palavra escrita, obsessivamente praticada por ele, como escritor fantasma, orgulhando-se –nesta época patética onde ser uma celebridade por 15 minutos conta tanto— do seu anonimato.

Escritor fantasma, Costa vai se apaixonar por uma cidade fantasma, a do título, por causa de uns fiapos de linguagem, de algumas palavras ouvidas numa escala forçada de viagem: “Tratava-se de um pão de abóbora, conforme o maître informou em inglês, mas eu não queria a receita da broa, queria saborear seu som em húngaro”.

Chega a participar de congressos de escritores anônimos, em várias partes do mundo, nestes tempos de globalização nos quais uma cidade equivale à outra, de tal forma que percorrer um mapa, trancado num quarto de hotel, pode substituir a experiência real, o que combina com um estilo de vida fundamentalmente fantasmático: Não me aborrecia caminhar assim num mapa, talvez porque sempre tive a vaga sensação de ser eu também o mapa de uma pessoa”.

Por isso, se pode entender que para José Costa é uma traição ao seu código de vida revelar à mulher que é o verdadeiro autor de um livro, num acesso de ciúme; também não causará espécie saber que ele abandona o outro polo amoroso (húngaro) da narrativa, Kriska, por não ver apreciada a obra assinada por outro, e principalmente por ela não perceber como seu antigo aluno passou a dominar o seu idioma natal. É um amor tão grande pela (s) língua (s) e seu uso, que, num outro momento de ruptura, ao perceber que ela está prestes a xingá-lo com uma palavrão desconhecido, lemos: “A palavra estava ali nos seus lábios vacilantes, devia ser uma palavra que ela nunca se atrevera a pronunciar. Devia ser uma palavra arcaica, uma palavra caída em desuso de tão atroz. Devia ser a única palavra que eu não conhecia em todo o vocabulário magiar, devia ser uma palavra estupenda. Então não me contive e supliquei: fala”.

Também se pode entender, por isso, que a grande ironia da história será quando publicarem um livro cujo autor é José Costa (ou mais precisamente, Zsose Kósta), mas que ele não escreveu, um livro que o torna uma celebridade…

     Budapeste é um romance danado de engenhoso. Tem um nível de elaboração de linguagem (o qual se reflete inclusive na sua paradoxal limpidez) quase desconhecido hoje em dia na ficção brasileira, a não ser em raríssimas obras. Como Chico Buarque escreve bem!,podemos exclamar admirados. Além disso, ele se livra de vez da aura fantasmática, da aura do “quase”, de obra-potencial, nebulosa e anticlimática, que marcou seu primeiro romance, Estorvo, cuja bruma já havia sido um pouco (mas só um pouco) dissipada com o romance seguinte, Benjamim.

Por que então sua leitura não satisfaz? Talvez porque, quando o livro se encaminha para uma maior densidade, uma verticalização do universo fantasmagórico do pós-moderno, o qual ele delineou tão lindamente, com suas cidades intercambiáveis, com seus hotéis impessoais, com um cosmopolitismo que se traduz em uniformização, em que todos os tipos de relação se deterioram (como na cena em que José Costa reencontra o filho crescido, que fica a um passo de agredi-lo gratuitamente, sem aparentemente reconhecê-lo: “…talvez soubesse desde o início que eu era seu pai, e por isso me olhava daquele jeito, por isso me encurralava no muro. E fechou o punho, armou o golpe, acho que ia me acertar o fígado…”), enfim, tudo que vai contra a complexidade da língua enquanto parte viva do nosso ser, Chico recua visivelmente e nos proporciona soluções decerto prazerosas de ler, porém aquém do rigor e do vigor de um João Gilberto Noll ou de um Bernardo Carvalho, entre os expoentes brasileiros da perplexidade, da inquietude e da insubstancialidade no cenário literário atual, para não falar do grande Paul Auster, que, aliás, leu trechos de Budapeste no congresso de escritores nada anônimos que é a FLIP, em 2004.

Outra sensação desagradável é que parece termos lido tudo isso, com maior contundência, outras vezes. A diluição é agradável, porém, ainda assim, diluição, placebo, simulacro…

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II

“Ouça um bom conselho

Que eu lhe dou de graça

Inútil dormir

Que a dor não passa”  (Chico Buarque)

(a resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 11 de abril de 2009)

 

Maior poeta da MPB (junto com Caetano Veloso), pelo menos para a minha geração, Chico Buarque, aos 65 anos, está em plena forma para reivindicar o posto de maior prosador brasileiro contemporâneo. Não que ele o seja, mas cada um dos seus romances representou um grande avanço com relação ao anterior e no quarto,Leite Derramado, praticamente chega à maestria absoluta.

      Leite Derramado é narrado por um centenário (“a memória é deveras um pandemônio, mas está tudo lá dentro, depois de fuçar um pouco o dono é capaz de encontrar todas as coisas. Não pode é alguém de fora se intrometer, como a empregada que remove a papelada para espanar o escritório. Ou como a filha que pretende dispor minha memória na ordem dela, cronológica, alfabética, ou por assunto”), cuja existência foi uma interminável sobrevida com relação à riqueza e prestígio de sua família no Império e na Primeira República, antes da queda das fortunas do café em 1929.

O hipnótico encanto da narração reside na dosagem exata de registros: ao mesmo tempo em que é garganta, jactancioso, que exagera seus foros de nobreza (está num hospital e não pára de falar), Eulálio d`Assumpção nos revela seu desamparo ao cabo de uma trajetória que vai do empobrecimento paulatino até a pauperização completa ao lado da filha, esta última uma mala sem alça que só se mete com desclassificados e dançados de ambos os sexos, os dois morando num puxadinho ligado a uma igreja evangélica situada nuns ermos onde antigamente ficava a fazenda de propriedade da família: “Porque talvez tivesse a intuição de que em breve os tempos seriam outros, e meu pai jamais se prestaria a permanecer num tempo que não era o seu. Sua fortuna no estrangeiro estava para evaporar, e não consigo imaginá-lo sem suas viagens anuais à Europa, seus hotéis, restaurantes e mulheres de primeira classe”.

Um pouco Dom Casmurro (com a obsessão pela fugidia esposa, Matilde, e pelo desejo de atar as pontas da vida, que também movia Bentinho, além da desfaçatez de quem já foi da elite), um pouco O Coronel e o Lobisomem (com o relato de como uma fortuna é atacada por todos os lados enquanto seu possuidor se auto-mistifica), um pouco Malone Morre (com a tradicional saga familiar de decadência e conflito de gerações transformando-se numa espécie de pesadelo de moribundo e narração enovelada, na qual a vocação épica e totalizante da arte de contar histórias se despedaça), no entanto Chico se desprende de quaisquer vinculações com essas obras marcantes de Machado, José Cândido de Carvalho ou Samuel Beckett, ou outra que nos ocorra, devido às suas peculiares soluções criativas e, sobretudo, à sua inacreditável “leveza”.

O resultado é crudelíssimo, mas incrivelmente gostoso de ler, um estilo que só três ou quatro escritores da atualidade podem igualar: “A verdade é que sem sua mãe, o chalé outrora tão solar foi se deteriorando… Na época, eu frequentemente amanhecia inquieto, ia acordá-la para verificar o que restava de Matilde no seu rosto. Não era loucura minha, a Balbina também notava que cada dia você perdia mais um traço da mãe, e nesse passo já perdera todo o desenho original da boca, fora o negro dos olhos e a tez acastanhada. Era como se, na calada da noite, Matilde passe para buscar suas coisas no rosto da filha, em vez dos vestidos no armário ou dos brincos na gaveta”.

Além disso, dois poderosos panos de fundo avultam na narrativa de Eulálio: o Rio, que passa diante de nós, célere, em cem anos de transformações urbanas e sociais, ainda que identifiquemos o conservadorismo sempre latente por aqui; e o racismo onipresente na nossa sociedade, que a narrativa de Leite Derramado desmascara impiedosamente (basta ver a alegria da mãe de Eulálio com a perda dos traços inferiores e o embranquecimento da neta, e depois o progressivo e constrangedor escurecimento dos descendentes, que cada vez mais se identificam com a nossa população em geral).
Emocionante, crítico, de uma precisão assassina na linguagem, só se pode fazer um elogio que faça justiça a Leite Derramado: é tão bom quanto as melhores canções de Chico. E não é necessário dizer mais nada.

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28/01/2014

“1Q84- Livro 3”, de Murakami: A poltrona vagabunda seduz mais que a sabedoria da coruja

Filed under: Críticas Literárias — alfredomonte @ 6:18
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“Inúmeras coisas aconteceram, e não entendo a relação entre elas. Não consigo avaliar o princípio nem o rumo que os acontecimentos estão tomando. No final das contas, praticamente fui envolvida nisso sem saber…”  (trecho de 1Q84-Livro 3)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 28 de janeiro de 2014)

Além de mais extenso, o último volume da trilogia 1Q84, tem uma estrutura diferente dos demais (sobre eles VER https://armonte.wordpress.com/2014/01/21/lua-de-papel-1q84-de-murakami/) : são 31 capítulos, alternando as peripécias em que se envolvem três personagens: os protagonistas, Aomame e Tengo, e um personagem que aparecera antes de forma mais restrita, Ushikawa; como este tinha investigado—por encargo da temível seita religiosa Sakigake[1]—a vida pregressa de Aomame em função do encontro que ela teria com o Líder, o desaparecimento dela, após assassiná-lo, o deixa numa situação delicada. É incumbido de descobrir o seu paradeiro. Com sua persistência e faro (apesar da aparência que repele a todos que o encontram), acaba descobrindo a ligação que existe entre ela e Tengo, desconhecida por todos.

Ironicamente, Ushikawa é quem possibilitará a aproximação do casal (não se viam desde os 10 anos—mesmo assim se consideram “almas gêmeas”). Para Aomame, esse reencontro é o motivo fundamental de seu extravio no universo alternativo de 1Q84 (a ação desse Livro 3 ocorre no trimestre derradeiro de 1984), com suas duas luas, as artimanhas do Povo Pequenino e as crisálidas de ar que fabricam “sombras” das pessoas.

Entre as consequências da fatídica sessão com o Líder, Aomame fica grávida. Trata-se de uma imaculada concepção, já que não houve relação sexual! Na verdade, foi Tengo quem a engravidou ao possuir Fukaeri, a menina de 17 anos, autora do romance que ele reescreveu e tornou um best seller: “Naquela noite turbulenta, em que vários fatos ocorreram sucessivamente, alguma coisa deve ter acontecido neste mundo, e o sêmen de Tengo alcançou o meu útero. Uma passagem especial—impossível saber por que razão—foi aberta entre os trovões, a chuva intensa, a escuridão e o assassinato.” Uma “passagem especial” deveras!  E um cabal exemplo do lado inapelavelmente ridículo e incômodo da suposta obra magna de Haruki Murakami[2].

Há outros. Após as 800 páginas dos outros volumes, ele gasta mais 460 neste terceiro, e no entanto a narrativa gira em torno do próprio rabo, num círculo cada vez mais previsível e insatisfatório. Qualquer um que leia com atenção, percebe as pontas que ficarão soltas (porque não há como ele amarrá-las) e o destino final da trama. A questão é vencer essas tantas páginas para encarar o óbvio: o fato de que o autor japonês criou uma fantasia gratuita, sem a menor intenção de resolvê-la, tanto em termos de fabulação quanto em termos de linguagem.

Como escritor de categoria, ele cria passagens incríveis (por exemplo, ao descrever o parque onde Tengo e Aomame terão seu reencontro: “O parque em si não possuía nenhum atrativo. Era pequeno, apertado e decadente. Havia um escorregador, dois balanços, um pequeno aparelho de barras para crianças e um tanque de areia. Havia também uma única lâmpada de mercúrio que parecia ter iluminado inúmeras vezes o fim do mundo…”; ou então a caracterização do olhar de Aomame: “Um olhar que sabia exatamente o que queria ver…”[3]), e também algumas situações muito criativas: uma delas é o fantasmático e insistente cobrador da NHK (que fornece a programação televisiva), que insulta e ameaça os assinantes, e que  provavelmente é uma encarnação do pai de Tengo, o qual se encontra em coma numa casa de repouso (há também o mistério da morte da mãe do amado de Aomame, cuja solução ficamos sabendo através de  Ushikawa, já que ele não consegue extrair do moribundo a revelação).  Mesmo assim, ele nunca logra uma harmonia entre esses pequenos nichos narrativos e a trama central, fica tudo desconectado e sem coesão.

A edição da Alfaguara (com tradução de Lica Hashimoto) também não ajuda muito. Talvez premidos pelo cronograma de lançamento, a revisão foi descurada, e lemos passagens estranhíssimas como as seguintes (há muitas outras, além de trocas de palavras o tempo, “foz” no lugar de “voz”; “escorredor” no lugar de “escorregador”, etc): “O escritório muito preservava os indícios de sua presença…”; “… na apertada cadeira de madeira que, para encaixar seu corpo grande, o deixava todo exprimido…” !!!???

No final, além dos pontos “vivos” (para não utilizar o detestável termo “positivos”) já apontados, o que sustenta o livro é a figura de Ushikawa. O que há de dinâmico e interessante na interminável reta final de 1Q84, afora certos aspectos ligados ao pai de Tengo, é a narrativa em torno das atividades desse inclassificável personagem[4]. Pois no que se refere ao casal principal, temos –capítulo a capítulo—o proverbial samba de uma nota só. No final das contas, não damos a mínima pelota no que concerne identificar em que universo eles de fato estão. A meu ver, o risível Povo Pequenino ainda sai no lucro ao ficar com Ushikawa, enquanto Aomame e Tengo tentam achar uma saída do mundo paralelo. Já vão tarde.

trilogia completa

TRECHO SELECIONADO

“A poltrona em que se sentava era de um material vagabundo, e o estofado de pano pinicava em contato com a pele. O formato também era problemático e, por mais que ele tentasse diversas posições, não conseguia se assentar bem. Isso piorou ainda mais o desconforto que sentia ali. Tengo tomou um gole de cerveja e pegou o controle remoto sobre a mesa de centro. Após observá-lo durante um tempo, como se fosse um objeto estranho, finalmente ligou a TV. Mudou de canal várias vezes e, por fim, resolveu assistir a um programa de viagem da NHK sobre as ferrovias australianas. Escolheu esse programa porque seu som era mais tranquilo que o dos demais canais. Havia um oboé como música de fundo e a apresentadora comentava sobre os requintados carros-leito dos trens da Ferrovia Transcontinental.

    Sentado desconfortavelmente na poltrona desengonçada, Tengo acompanhava o programa enquanto pensava sobre a crisálida de ar. Kumi Adachi não sabia que quem realmente escrevera o texto fora ele. Mas isso era o de menos. O problema era que, a despeito de ter descrito detalhadamente a crisálida de ar, ele próprio não sabia quase nada do que escrevera (…) Apesar disso, Kumi Adachi gostava desse livro e o lera três vezes. Como era possível?

   Kumi Adachi voltou à sala no momento em que apresentavam o cardápio do café da manhã servido no vagão restaurante do trem. Ela sentou na poltrona ao lado de Tengo (…)

   Kumi Adaxhi pegou outra lata de cerveja, abriu a tampa fazendo barulho, serviu um pouco em seu copo e tomou cerca de um terço de um gole só. Estreitou os olhos como um gato satisfeito. Em seguida, apontou para a tela da TV. O trem percorria os trilhos em linha reta, passando por entre enormes penhascos vermelhos.

__ Onde é isso?

__ Austrália—respondeu Tengo.

__ Austrália—disse Kumi Adachi, e sua voz parecia buscar algo no fundo de sua memória.—A Austrália no Hemisfério Sul?

__ Isso mesmo. Austrália dos cangurus.

__ Conheço uma pessoa que foi para a Austrália—disse Kumi Adachi, coçando o canto do olho.—Ela foi bem na época do acasalamento dos cangurus e, quando chegou a uma certa cidade havia cangurus trepando a torto e a direito. No parque, na rua, em todos os lugares.

   Tengo achou que deveria comentar algo a respeito, mas faltaram-lhe palavras. Foi então que pegou o controle remoto e desligou a TV. Ao desligá-la, o local ficou repentinamente silencioso (…) A única coisa que se podia ouvir, ao prestar atenção, era um som baixo e abafado vindo de longe. Não dava para identificar o que era, mas era regular e rítmico. De vez em quando parava, dava um tempo e recomeçava.

__ É a Dona Coruja. Ela mora num bosque próximo daqui e toda noite ela canta—disse a enfermeira.

   Kumi Adachi inclinou a cabeça, apoiou-a no ombro de Tengo e, sem dizer nada, pegou sua mão e a segurou. Os cabelos dela roçavam o pescoço de Tengo. A poltrona continuava desconfortável. A coruja continuava cantando no bosque como se estivesse dizendo algo importante. O som de seu canto soou aos ouvidos de Tengo tanto como um toque de encorajamento quanto de advertência.  Também como uma advertência com toque de encorajamento. Um som ambíguo, polissêmico.

__ Você acha que eu sou muito atirada?—perguntou Kumi Adachi.

   Tengo não respondeu.—Você não tem namorado?

__ É uma questão difícil—disse Kumi Adachi, com uma expressão séria no rosto.—Um rapaz esperto geralmente vai para Tóquio ao concluir o colegial. Por aqui não há boas escolas, e os empregos bons não são muitos. Não é pra menos.

__ Mas você está aqui (…)

   Os ponteiros do relógio indicavam um pouco antes das onze. Às onze horas a pousada fecha e ele não poderia mais entrar. Mas Tengo não conseguia se levantar daquele sofá desconfortável. Seu corpo não o obedecia. Talvez fosse o formato da poltrona. Talvez estivesse mais bêbado do que pensava. Ele escutava o canto da coruja à toa e, sentindo os cabelos de Kumi Adachi roçando seu pescoço, olhava para a luminária falsa da Tiffany.”

artigo sobre murakami 2


[1] Na sua origem um grupo político de esquerda, que resolvera fundar uma comuna agrícola.

[2] Não levantarei aqui a questão moral acarretado pelo uso da vagina-passagem de Fukaeri. A ideia é que ela deve ser “atenuada” porque nunca ganha um cunho “real” e a própria garota pode ser apenas um dohta, uma sombra.

[3] Ou ainda, sobre a condição do pai: “O pai continuava do lado de cá da linha divisória que separa a vida da morte e, nesse caso, estar vivo era o mesmo que dizer que ele exalava vários cheiros…”

[4] Não resisto a transcrever uma passagem da qual gosto muito, tirada da “tocaia” montada por Ushikawa para Aomame, no prédio de Tengo (e que custará caro para o espreitador):

“Ele estava tremendo de frio, tinha acabado de comer um pão doce de feijão azuki em vez de jantar, durante horas vigiou a entrada daquele prédio barato que seria demolido, fotografou pessoas sem nenhum atrativo e mijou num balde usado para a limpeza do apartamento. É isso o que significa voltar à estaca zero? Lembrou-se então de que havia se esquecido de fazer uma coisa. Saiu do saco de dormir rastejando como uma lesma, jogou a urina do balde e apertou a descarga. Ele não queria ter de sair do saco de dormir, que estava começando a ficar quente. Chegou a pensar em fazer isso depois, mas só de pensar na confusão se, sem querer, tropeçasse no balde no meio da escuridão, achou melhor não protelar. Depois de dar a descarga, voltou para o saco de dormir e ficou novamente tremendo de frio por um tempo.

  É isso o que significa voltar à estaca zero?

  Talvez fosse exatamente isso. Ele não tinha mais nada a perder. A não ser a própria vida. Tudo muito simples…”

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21/01/2014

LUA DE PAPEL: “1Q84” de Murakami

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murakattrilogia completa

“__ Realmente é um mundo estranho.  Não se sabe até onde ele é uma hipótese e a partir de onde ele se torna real. Com o passar do tempo, é cada vez mais difícil discernir a fronteira que separa o mundo hipotético do mundo real. Me diga uma coisa, Tengo: como escritor, como você definiria o conceito de realidade?

__ O mundo real é aquele em que, quando se espeta alguém com uma agulha, sangue vermelho é derramado—disse Tengo.”

“Sinto que inúmeras coisas à nossa volta começaram a entrar num estranho padrão. Algumas, inclusive, já não possuem mais a mesma forma. Acho que não vai ser tão fácil voltar à vida de antes…”  (trechos de 1Q84)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 21 de janeiro de 2014)

Nesta década em curso, Harumi Murakami vem despontando como o nome mais cotado toda vez que se aproxima a época do Nobel. A badalação em torno dele intensificou-se depois da repercussão estrondosa (muitos consideram sua obra máxima) de 1Q84, lançado no Japão no ano (2009) em que o autor se tornou sessentão[1], e cujos três volumes, com tradução de Lica Hashimoto, foram reunidos agora numa caixa pela Alfaguara.

Como os dois primeiros apresentam estrutura semelhante, comento-os em conjunto, deixando o último para a próxima semana (VER https://armonte.wordpress.com/2014/01/28/1q84-livro-3-de-murakami-a-poltrona-vagabunda-seduz-mais-que-a-sabedoria-da-coruja/). Em ambos, 24 capítulos alternam as peripécias dos protagonistas que se aproximam dos 30 anos, Aomame e Tengo, durante seis meses em 1984: uma preparadora física, ocasionalmente justiceira (mata homens que maltrataram outras mulheres); um candidato a escritor e professor de matemática. Aos 10 anos estudavam juntos, porém como ela era ostensivamente discriminada por pertencer às Testemunhas de Jeová, quase não se comunicavam, com a exceção de um momento mágico, que marcou as suas vidas, quando ela segurou a mão do colega por alguns segundos. A partir daí, mesmo perdendo contato completamente, sentem-se “almas gêmeas”.

Em abril de 1984, Aomame está presa num congestionamento (uma “missão” a espera), numa via expressa, e um motorista do táxi sugere a ela descer uma insólita “escada de emergência”. Ao fazê-lo, repara em alterações na “realidade” até que, olhando para o céu, vê duas luas. Conclui, então, que se transportara para um outro plano, o de 1Q84, “quase” igual ao nosso, onde as “regras” são diferentes e ela pode reencontrar Tengo. Esse universo paralelo, aliás, pode ser resultado das ações dele. O editor Komatsu lhe propõe reescrever (em segredo, pois se trata de uma fraude literária) Crisálida de Ar, manuscrito fascinante porém mal escrito e confuso, candidato num prestigiado concurso. A autora, Fukaeri, bela e esquipática garota de 17 anos, tem seu passado ligado a um grupo revolucionário de esquerda que organizara uma comuna agrícola (Sakigake) e depois se fechara para o mundo, adquirindo características de seita fundamentalista: seu Líder teria poderes sobrenaturais, e o vezo de estuprar menininhas impúberes, entre as quais a própria filha (aos 10 anos), que procurou refúgio com um velho amigo do pai.

Tengo aceita a tarefa, Crisálida de Ar se transforma num best seller e elementos da suposta fabulação de Fukaeri passam a interferir na existência cotidiana, incluindo um ameaçador e sombrio Povo Pequenino (que, entre outras “artes”, explode uma cadela em mil pedaços). Procurando sempre passagens para a nossa dimensão, são esses seres que fabricam as crisálidas de ar, contendo duplos (dohtas, sombras) das pessoas…

Pessoalmente, gosto muito de romances longos e que se desdobram, seja Em busca do tempo perdido, seja Guerra dos Tronos, através dos quais adentro um território descolado da realidade e irmanado a ela num mesmo movimento (talvez seja meu tipo de livro favorito); também, numa época como a nossa, obcecada por “histórias baseadas em fatos reais” (como se isso lhes conferisse um valor a priori), como não apreciar o elogio à imaginação ficcional levado a cabo em 1Q84? Sem cair na fastidiosa metalinguagem, ele dissolve com grande elegância as fronteiras entre estória e história.

O problema é: para quê? Fiquei cismado (no sentido negativo, de prevenção), durante todo o desenrolar dos dois volumes, com a crisálida de ar, com o Povo Pequenino, com  Fukaeri, com a cabra cega que serve de acesso para o nosso mundo, todos eles elementos risíveis e constrangedores. Não entendi sequer a relação que se procurou estabelecer com o clássico 1984, de George Orwell, e para mim Murakami  fracassou fragorosamente no ponto central, a criação de um universo paralelo (que, por suposição, deveria ser inquietante e desestabilizador). Ele já escreveu livros tão diferentes uns dos outros (e todos de boa qualidade) quanto Norwegian Wood, Dance Dance Dance ou Após o anoitecer, e por isso não espanta sua habilidade em nos envolver nas duas narrativas alternadas, especialmente a que enfoca Aomame (apesar de alguns deslizes infelizes, como Tamaru, um segurança-filósofo, que—nas suas piores intervenções na trama, e não são poucas—poderia estar em A Cabana e congêneres, além de um certo clima Stieg Larsson e seu Os homens que não amavam as mulheres)[2]. Decerto está longe de ser desagradável a leitura de 1Q84. A impressão é ser levado pela força da inércia, o leitor embalado pela expectativa de que essa abobrinha toda vai dar em alguma coisa (afinal é a “obra máxima” murakiama!).

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Vencidos os dois volumes, podemos até tentar nos convencer de que, se terminasse no capítulo 48 (há outros 31), até que o romance ficaria bem amarradinho, “redondinho” (afirmo isso tendo em vista que os dois últimos capítulos do Livro 2 são momentos felizes dentro da montanha russa de altos e baixos). Mas a ilusão não dura e ficamos estupefatos, então, de que ele tenha precisado de 800 páginas para chegar a tão ralo resultado: uma fábula fácil de ler, gratuita e de pouca substância.

É preciso apontar também algumas estranhezas da tradução: se em geral, o trabalho de Lica Hashimoto me parece mais-que-competente, há passagens em que ela dificulta a vida do leitor comum, ao não colocar uma nota de rodapé que seja. Se os tradutores do russo (basta conferir as edições da 34) pecam pelo excesso, pelo afã de querer contextualizar cada passo do texto, a tradutora de 1Q84, com prejuízo semelhante para a leitura, segue o caminho antípoda. Por exemplo, Tengo é apresentado ao professor Ebisuno, o protetor de Fukaeri, e lemos:

“__ Eu me chamo Ebisuno—disse o homem.—Também não tenho cartão.

__ Ebisuno—repetiu Tengo.

__Mas todos me chamam de professor. Até mesmo a minha própria filha, não sei por quê, me chama de professor.

__ Como se escreve Ebisuno?

__ É um nome diferente. Muito raro de encontrar. Eri, escreva o meu nome e mostre-lhe.

   Fukaeri assentiu e, pegando um bloco de papel e caneta, começou a escrever muito lentamente os ideogramas selvagem e campo numa folha de papel em branco (…)

__ Em inglês seria field of savages…”

1984 se impôs à imaginação universal. Difícil acreditar que o universo paralelo de 1Q84 chegue a um resultado similar. Como fenômeno cósmico, não passa mesmo de uma lua de papel.

VER TAMBÉM NO  BLOG

https://armonte.wordpress.com/2012/10/14/apos-o-anoitecer-de-murakami-arquetipos-liquidos/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/14/o-ponto-de-vista-liquido-de-haruki-murakami/

artigo sobre murakami

TRECHO SELECIONADO

“__ Então sua intenção era promover no mundo literário a estreia triunfal da filha do casal, Eri, e chamar a atenção do público quando Crisálida de ar se tornar um best seller. E, assim, provocar uma sacudida nesse impasse.

__ Sete anos é muito tempo. Tudo que fiz durante esse tempo todo foi em vão. Se não aproveitarmos esta oportunidade, creio que jamais teremos uma segunda chance de desvendar o mistério.

__ Eri é uma isca para atrair o grande tigre da floresta?

__ Ninguém sabe o que vai sair dessa floresta. Pode não ser necessariamente um tigre.

__ Mas, de acordo com o rumo dos acontecimentos, o senhor não descarta a ideia de que esteja ocorrendo algo muito grave.

__ Essa possibilidade existe—disse o professor, sentencioso.—Você deve saber que dentro de um grupo fechado e homogêneo tudo pode acontecer.

   Houve um silêncio pesaroso, quebrado por Fukaeri:

__ É por causa do Povo Pequenino—disse em voz baixa.

  Tengo olhou para Fukaeri, sentada ao lado do professor. Como sempre, o seu rosto carecia de algo que se pudesse chamar de expressão.

__ Você está querendo dizer que Sakigake mudou assim que o Povo Pequenino apareceu?—perguntou Tengo.

   Fukaeri não respondeu. Apenas mexia com os dedos o botão da gola de sua blusa.

   O professor Ebisuno tomou a palavra, para preencher o silêncio deixado por Fukaeri.

__ Não sei o que significa esse Povo Pequenino, ela não consegue expressar em palavras. Ou talvez não queira. Mas seja como for, uma coisa parece certa: esse tal Povo Pequenino teve um papel importante para transformar a comuna agrícola Sakigake em um grupo religioso…”

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[1] Aliás, em  12 de janeiro de 2014 ele completou 65 anos.

[2] E ao longo de toda a narrativa, há passagens que comprovam a excelência de Murakami como escritor, independentemente de quanto a fabulação possa ser discutível. Um exemplo, retirado do capítulo em que Aomame tem uma sessão de condicionamento físico com o Líder, pai de Fukaeri, sob a “proteção” de dois seguranças. Na saída:

“… de repente, Aomame sentiu um impulso violento percorrer-lhe a pele como uma intensa corrente elétrica. Num ímpeto, o rapaz de rabo de cavalo estendeu rapidamente o braço como se fosse agarrar a mão direita de Aomame. Um gesto extremamente rápido e preciso, como o de pegar uma mosca em pleno voo. Por instantes, ela sentiu vividamente a intenção dele. Todos os músculos de Aomame ficaram tensos. Arrepiada, o coração começou a bater descompassado. Sentiu-se sufocada e com calafrios percorrendo a espinha. Uma intensa luz incandescente alvejou sua mente. Se este homem segurar o meu braço direito, não poderei sacar a arma. Se isso acontecer, não poderei vencê-lo. Este homem percebe que eu fiz alguma coisa. Instintivamente ele sabe que alguma coisa aconteceu naquele quarto. Alguma coisa muito ruim. O seu instinto estava lhe dizendo ´prenda esta mulher´ e lhe ordenava, ´derrube-a no chão, imobilize-a com o peso de seu corpo, desloque seu ombro´. Mas isso tudo não passava de uma intuição. Não havia provas. Se estivesse equivocado, essa atitude o deixaria em má situação. A hesitação dele era tamanha que o fez desistir de agir. Quem julgava e decidia o que fazer era o rapaz de cabelo rente. Ele não tinha essa autoridade, pensou Aomame.  Ele reprimiu com muito esforço o ímpeto de seu braço direito e, gradativamente, foi diminuindo a força contida em seus ombros. Aomame notou nitidamente todas essas fases que o pensamento dele precisou percorrer em um ou dois segundos.”

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07/01/2014

PRECISAMOS FALAR SOBRE O LEONARD

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“O melhor, pensou Alfred, era ficar fora do caminho no porão, e trabalhar com o que tinha. Ofendia seu sentido de proporção e economia jogar fora um cordão de lâmpada noventa por cento bom. Ofendia o sentido que tinha de si mesmo, porque ele era um indivíduo nascido na era dos indivíduos, e um cordão de lâmpadas também era, como ele, uma coisa individual. Por menos que tivesse custado, jogá-lo fora era negar seu valor e, por extensão, o valor da individualidade de forma geral: designar deliberadamente como lixo um objeto que ele sabia que não era lixo. A modernidade esperava aquela designação, e Alfred resistia a ela.” (trecho de As correções, de Jonathan Franzen)

“Na maioria das vezes, enquanto estou aqui, sentado na aula de inglês da A.P., penso no modo como meus colegas estão sempre levantando a mão e puxando o saco da Sra. Giavotella para ganharem notas A, que eles enviar]ao para Harvard, Princeton, Stanford ou qualquer outra merda, junto das mentiras sobre quanto serviço comunitário supostamente fizeram e de ensaios sobre o quanto se preocupam com as crianças das minorias pobres que eles nunca conhecerão na vida real, ou como salvarão o mundo armado com nada além de um grande coração e a formação na Ivy League.” (trecho de Perdão, Leonard Peacock, de Matthew Quick)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 07 de janeiro de 2014)

Minha maior expectativa, durante a leitura de Perdão, Leonard Peacock [Forgive me, Leonard Peacock, EUA, 2013, que comento na tradução de Alexandre Raposo], era se Matthew Quick iria mesmo chegar ao extremo da situação central: no dia em que completa 18 anos, Leonard pretende matar (e em seguida cometer suicídio) Asher, seu melhor amigo na adolescência, o qual começou a abusar sexualmente dele, seguindo os passos de um tio pedófilo; ainda assim, com essa “história secreta” entre ambos, esses podres no armário, o agressor se tornara uma figura popular no ensino médio, praticando bullying frequentemente; em contrapartida, sua vítima é agora um dos “esquisitos” da escola, isolado inclusive no lar, com um pai sumido e uma mãe ausente, envolvida pelo mundo da alta moda (Leonard praticamente vive sozinho em casa).

Tinha minhas dúvidas: afinal, em O Lado Bom da Vida (cuja adaptação para o cinema rendeu o Oscar a Jennifer Lawrence), de 2008, depois de compor um dorido quadro de violência doméstica, boçalidade e disfuncionalidade, Quick atenuava tudo com apresentações de dança triunfais e confraternizações festivas e testosterônicas em estacionamentos de estádios de futebol americano. O que era um desperdício, pois ao longo do romance, o jovem e estreante autor demonstrava um inegável talento.

Em Perdão, Leonard Peacock cuidadosamente é evitado (embora seja um pano de fundo que nos vem facilmente à mente, cf. TRECHO SELECIONADO) o desdobramento mais comum (pelo menos nos EUA) da infelicidade adolescente que chega a um ponto irretornável: o massacre dentro de uma escola. Não, Leonard quer um ajuste de contas com Asher e pôr fim à sua infelicidade solitária, à falta de perspectivas (não no sentido econômico, bem entendido)[1], à percepção de que os discursos dos adultos são mentirosos e que as suas próprias existências são vazias e patéticas (ele tem o hábito de faltar às aulas e passar o dia observando as pessoas nos trens, seguindo as que parecem mais infelizes).

Antes de realizar seu desesperado ato declaratório, Leonard dá presentes a quatro pessoas (o que possibilita a recapitulação de sua vida): um velho vizinho em estado terminal, que compartilha com ele o gosto pelos filmes de Humphrey Bogart; um colega de origem iraniana, virtuose do violino e vítima de bullying; o único adulto funcional que ele respeita, um professor gay cujas aulas sobre o Holocausto são esclarecedoras e controversas; uma menina ultrarreligiosa (do tipo que distribui panfletos nas ruas sobre a aceitação de Jesus no coração ser o único meio de escapar do inferno), mas que o atrai irresistivelmente e em quem ele queria dar seu primeiro beijo.

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Como em O Lado Bom da Vida alternam-se acuidade e achados (infelizmente, o melhor deles, as cartas do futuro, nas quais Leonard fantasia uma existência em 2038 após um desastre nuclear global, numa espécie de farol isolado, com sua família—não é bem equacionado na economia narrativa, para a qual poderia ter fornecido uma moldura mais eficaz e imaginativa) com graves desacertos (especialmente a história pregressa com Ashe, tão mal contada que nunca convence muito como  “gatilho” para decisões tão radicais) e uso de receitinhas certamente aprendidas em oficinas criativas (como certas firulas tipográficas, por exemplo, ou as notas de rodapé que correm paralelas à narrativa—recurso que foi usado tão magistralmente por Joyce Carol Oates em Minha irmã, meu amor—e as constantes alusões hamletianas).[2]

E a minha expectativa, afinal? Não, imperdoavelmente, Leonard Peacock e Matthew Quick parecem não ter coragem de ir até o fim: entra em cena o “bom professor” Silverman e os fãs da autoajuda são cortejados com as mais pífias mensagens de otimismo e confiança no poder das “pessoas únicas” que alguém possa imaginar, uma xaropada que dá uma freada brusca e fatal na possibilidade de termos diante de nós um Apanhador no Campo de Centeio para a nossa época, com os temas tão presentes do bullying (cuja condenação geral me parece uma etiqueta social hipócrita), do consumismo, da uniformização das pessoas, da estupidez institucionalizada, da falta de senso de dever moral transformado em mero pragmatismo (quando não oportunismo)[3].

Mas a mãe de Leonard, Linda, salva tudo no final: ela entra em cena e o palco se ilumina[4]. Autocentrada de forma mais extremada que um adolescente (o professor Silverman a alerta de que o filho pode ser um suicida e ela diz: “O que você disse para o seu professor a meu respeito?), fútil, incapaz de ver a realidade à sua frente, ela representa tudo o que está de errado no mundo e que Leonard rejeita, e que não vai mudar com sentimentos edificantes e historinhas para boi dormir do encanto de ser diferente. Com essa guinada da aparição de Linda, Perdão, Leonard Peacock termina como um passo a frente na arte de Matthew Quick e permite acalentar a esperança de que ainda poderemos ter dele um grande e destemido romance, sem “mensagens” e sem freios sentimentais[5].

NOTA– O trecho de As correções, de Jonathan Franzen, foi traduzido por Sergio Flaksman.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/02/19/o-lado-bom-da-vida-the-silver-linings-playbook-o-macho-da-especie-vs-o-desespero-visionario/

leonard peacock

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TRECHO SELECIONADO

“Ele passa para a parte expositiva da aula, discutindo o conceito de vida dupla, ou ser duas pessoas diferentes ao mesmo tempo —o bom pai alemão da Segunda Guerra Mundial, que janta civilizadamente com a família em uma mesa formal e lê histórias para os filhos antes de beijar suas testas e acomodá-los na cama, tudo isso depois de passar o dia inteiro ignorando os gritos de mulheres e crianças judias, matando-as em câmaras de gás e acumulando cadáveres em horríveis covas coletivas.

   Resumindo, Herr Silverman diz que podemos ser humanos e monstros ao mesmo tempo, que ambas as possibilidades estão em todos nós.

   Alguns alunos idiotas discutem com ele, dizendo que não como os nazistas e nunca poderiam ser, porque Herr Silverman diz que todos nós temos uma vida dupla em certos aspectos. E todos na turma sabem exatamente do que ele está falando, mesmo que finjam não saber.

   (…= os alunos que os professores pensam que são os melhores, na verdade são aqueles que bebem toneladas de álcool nos fins de semana e dirigem embriagados e estupram todo mundo o tempo todo e estão constantemente fazendo com que os menos populares e realmente bons se sintam uns merdas. Mas esses mesmos alunos terríveis transformam-se diante dos adultos que estão no poder, para receber boas cartas de recomendação para a universidade e privilégios especiais. Eu nunca colei em uma prova nem plagiei alguém, e Herr Silverman talvez seja o único professor nessa escola que me escreveria uma carta de recomendação para a faculdade, caso eu quisesse.

    Nossa oradora oficial, Trish MacArthur, recebeu cartas de recomendação dos professores mais populares, e todos os alunos na escola sabem que ela promove as festas mais loucas, só tem bebida e drogas e a polícia sempre aparece, mas como seu pai é o prefeito, os guardas simplesmente dizem: Abaixe o som. Um menino teve uma overdose na casa dela ano passado e acabou no hospital. E, magicamente, a reputação de Trish MacArthur entre os membros do corpo docente permanece imaculada. Ela faz a aula de inglês para os A.P. Exams comigo e me ofereceu duzentos dólares para que eu a ajudasse na dissertação sobre Hamlet. Ela piscou para mim, cruzou os tornozelos, uniu os seios com os ombros e disse Por favor?, toda indefesa, como faz com os professores do sexo masculino. Eles também adoram isso. Aquela garota realmente sabe como conseguir o que quer. É claro que eu a mandei à merda. Chamei-a de Oradora Oficial de Araque, de Farsante, momento em que ela descruzou os tornozelos, deixou a gravidade tomar conta dos seios, parou de piscar como se suas pálpebras fossem asas de borboleta e, com uma voz rouca, adequada à sua idade, disse: Você ainda pretende chegar a algum lugar aqui nesta escola? Você é um inútil, Leonard Peacock.

   Depois me deu as costas e foi embora.

   Essa é a nossa oradora oficial.”

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[1] Um colega diz a ele: “Escuta, você obviamente tem problemas, Leonard. Sinto muito por isso. Realmente sinto. Mas existem pessoas com problemas piores que os seus, isso eu posso garantir. Saia da cidade de vez em quando e verá que estou certo. Problemas de Primeiro Mundo. É isso o  que você tem”.

[2] Portanto, não deixa de ter um certo laivo irônico a crítica fulminante que Leonard faz aos seus colegas por se preocupar em seguir os ditames do politicamente correto nas suas respostas, para obterem boas notas (ver epígrafe).

[3] Uma das razões porque coloquei como epígrafe um trecho de As correções é porque Franzen, através de um personagem completamente travado, mas de uma certa forma emocionante, consegue reproduzir não só a grandeza como a miséria do senso do que é um indivíduo, na grande e ao mesmo tempo problemática acepção da cultura norte-americana. E ele se agarra ao que é peculiar e idiossincrático nele até o fim, até em meio á demência senil que o levará a uma casa de repouso. Nada das fórmulas superficiais e unidimensionais de “diferenciação” do caro Herr Silverman ou mesmo do próprio Leonard, como por exemplo na peroração que faz a Lauren, a menina religiosa: “…eu meio que admirei você de pé na estação de trem, sozinha, entregando panfletos, tentando salvar as pessoas. Parecia tão interessante quando eu a conheci, e nunca havia conhecido alguém interessante desse jeito. Mas você não é assim  na igreja (…) Aqui você é apenas uma entre muitos, ao passo que na estação de trem você era única. E eu sou do tipo que gosta de pessoas únicas…”

[4] O que me trouxe a lembrança o superestimado Beleza Americana e a participação redentora de Annete Benning, cujo personagem era a melhor coisa do filme.

[5] É curioso como uma autora “temática” (na falta de termo melhor) como Lionel Shriver (autora de Precisamos falar sobre o Kevin) consegue dar amplitude e profundidade (além do lastro fabulatório) às ideias centrais que movem seus livros; e se alguém tem alguma dúvida de que Quick se insere, com resultados inferiores, nessa linha, basta ler seus Agradecimentos: “A ideia central deste livro foi nobremente alimentada pelas muitas conversas durante os cafés que tive com Evan Roskos”—então não há problema nenhum em trabalhar tematicamente, e sim na timidez com que ele o faz.

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