MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

07/11/2017

ENTRE A TERRA E O CÉU


(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 07 de novembro de 2017)

Já se disse que a vida é sonho e também que somos feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos.

O que aproxima um velho jardineiro e um príncipe jovem: borboletas e sonhos. Marcos Bagno, autor de “MURMÚRIO”, diz: “Aproveitei uma antiga lenda sobre um sábio chinês que era uma borboleta e, ao acordar, não sabia mais se era um homem que tinha sonhado ser borboleta ou uma borboleta que estava sonhando ser homem. É a nossa eterna dúvida sobre até onde vai a imaginação e onde começa a realidade”. Na sua versão, o velho jardineiro salva um ovo de borboleta e cuida dele até a transformação final. Depois disso, passa a ter sonhos nos quais sobrevoa as mais diversas paisagens. Mas apegado à terra, percebe que os sonhos não são dele.

Há um príncipe que definha por não conseguir voar, após várias tentativas. É o desejo de ultrapassar os limites da condição humana. O velho jardineiro será a chave da sua salvação.

Bagno segue a tradição número lógica das fábulas. Tudo gira em torno do número 9. E não esquece da essência predatória da natureza: “Instantes depois, a borboletinha voltou a aparecer. O jardineiro novamente estendeu as mãos espalmadas para receber na pele a sensação quase ínfima do peso de sua visitante. A borboleta alçou voo, mas antes que pudesse atravessar a distância mínima que a separava daquelas mãos gentis, um passamos vermelho caiu sobre ela com a velocidade de um medo inesperado, vindo do alto da macieira, onde tinha se ocultado dos olhos do jardineiro e da borboleta. Com um único movimento do bico, apanhou o pequeno inseto em pleno ar e engoliu sem deixar nenhum vestígio.
Depois, bateu as asas e desapareceu por trás do casebre”.

Mas há o murmúrio que sustenta esse belo texto: “Saborear a leveza da pétala, dedilhar as folhas, dispersar o pólen oculto no âmago das coisas, semear a delicadeza no coração das horas, salpicar estrelas no ar mais claro do dia, traduzir a voz da brisa frágil, colorir o olhar sincero, recitar a canção sem palavras da vida eterna, recordar a cada espírito a inutilidade do afã – são as tarefas azuis da nossa existência breve. Que ocupação melancólica é esta, irmão, que nos tem impedido de iniciar nosso trabalho? ”.

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