MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

25/07/2017

Destaque do Blog: “Naufragar Jamais” de Pedro Alberto Ribeiro (Poeta em Queda)


 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicado originalmente em A TRIBUNA de Santos em 25 de julho de 2017)

“Ela planejava o impossível/ com o dedo no vidro embaçado/ esperando ele voltar// hoje, divide a cela com outras oito/ e impossível é não usar a alma inteira// o peso da grade é como água/ abafando a música de pássaros imersos/ num aquário em cima da geladeira//”. Estes versos fazem parte do poema “Pássaros Imersos em Aquário”, um dos cadernos de NAUFRAGAR JAMAIS.

A 11Editora investiu num projeto ousado, publicar os poemas de Pedro Alberto Ribeiro (Poeta em Queda) em cadernos soltos, deixando livre ao leitor a ordem da leitura, embora mantendo uma unidade incrível até na ocupação da página em branco, pois são todos muito parecidos (e isto não é uma crítica).

“Tenho vestido minha pele/ como quem lança dados/ sem saber as chances de perder// descobri que viver tem gosto de domingo/ passeio com cachorro/ receitar mal seguida//”. Sempre uma impressão de confinamento, de limite. “Quem não carregue/ nos olhos toda a expressão/ e possa mantê-los abertos/ mesmo em poeira seca// Pode-se que levantem a mão/ os seres perecíveis, de carne/ frágeis ao fogo/ e com uma estranha tendência à insônia// Procura-se/ quem ainda queira/ encontrar//”.

“Eu te visto como um rio/ acampo como onda// indo/ e/ vindo/ sem fazer da saudade/ motivo para dramas// Tudo é chão// Silêncio// (teu abraço/ quando vai/ sempre acaba/ por ficar//)”. Ainda se fazem poemas de amor.

“Estes versos já não falam nada// Sem cadência/ nenhuma estrela/ ilumina a parede branca do banheiro// Se tivessem de falar/ estes versos seriam uma selfie/ tirada um segundo antes do blecaute// Talvez habitassem a foto/ algumas cores misturadas/ brincando de encontrar nas diferenças/ outra coisa que não uma palidez// Talvez caleidoscópios manuscritos/ aquarelas ainda por usar// Coisa qualquer/ para preencher a vida// Mas estes versos já não falam nada/ e nenhuma cor habita/ a hora inconfidente/ da água jorrar pelos ombros//”. Estes versos que já não falam nada talvez sejam os mais contundentes do livro.

“Os restos no prato dizem o que a boca não comeu// Escorre sangue no fio dental/ mais violento que a lâmina// Tóxicos, os agros fazem seus negócios/ num paladar para o qual a vida é/ indigesta// (é preciso café para trabalhar para/ comprar café para trabalhar)//”. Não poderia terminar esta resenha de modo mais brilhante.

 

 

 

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