MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

18/07/2017

A MORTE DE ELVIRA VIGNA, UM GÊNIO LITERÁRIO

Filed under: Homenagens — alfredomonte @ 14:03
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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 18 de julho de 2017)

No café, em João Pessoa, depois da apresentação do seu novo livro, POR ESCRITO, e de um sanduíche, Elvira Vigna espera os chuviscos passarem e espia para ver o que vai acontecer ainda… Chega uma senhora e pergunta:

__ Então, está satisfeita?

__ Satisfeita, eu, não! Nunca!

__ Mas por quê?

__ Acho que é porque eu quero demais da vida.

__ E o que é que você quer agora?

__ Tempo, acho que a gente sempre precisa de mais tempo.

A senhora foi embora… depois informaram à Elvira: era a dona do Café! Queria saber se ela gostara do sanduíche.

No dia seguinte, nem abriu o jornal para não ver a manchete inevitável: “Proprietária de café se suicida em João Pessoa”.

Rigorosamente verídico, o diálogo acima é um típico-Elvira (para usar uma expressão cunhada por ela mesma) ao vivo!  Poderia estar em qualquer um de seus romances.

Cada vez mais, tenho a certeza de que Elvira Vigna era um gênio literário, como Juan Carlos Onetti e Samuel Beckett. Seu primeiro livro, “Sete Anos e Um Dia”, era uma crua e áspera alegoria dos anos de “abertura”. Mas seu primeiro sucesso, marcando uma intensa parceria com a Companhia das Letras, foi “O Assassinato de bebê Martê”, o qual começa a desvendar o universo dos emergentes, principalmente mulheres que se reinventavam, carregando o peso do passado, como o Brasil. Aí veio a sequência “Às Seis em Ponto”, “Coisas que os Homens não Entendem”, “Deixei ele lá e vim”, “Nada a dizer”, “O que deu para fazer em matéria de história de amor”.

Aí veio sua obra-prima, POR ESCRITO, onde o agônico superava o cáustico: “De antemão, decido. Vou tentar botar isso aqui no passado, com os verbos no passado. Não sei se vou conseguir.  Já tentei antes, mas não consigo deixar essas coisas no passado, aliás nem sei se existe isso, o passado. Acho mesmo que é como se eu estivesse num espaço assim, meio sem contorno marcado, em que as coisas entram e saem, em que os tempos convivem, Molly dança com um cara grande e quando ela dança, ela também, ao sentir a pressão do pau dele contra seu corpo, haverá de lembrar de outro pau, mais fino, mais ardido, ela também presa, dessa vez não pelas mãos grandes que a enlaçam, mas pela trama de uma colcha de rendão nas suas costas e aquele outro cara também vai estar lá, no espaço que também é meu e não só dela, todos juntos, os tempos todos juntos”.

E quem imaginaria que ela radicalizaria mais ainda em seu último livro, “Como se estivéssemos em palimpsesto de putas”. Coisas de gênio.

 

 

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