MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

20/06/2017

OS CINQUENTA ANOS DE ÓPERA DOS MORTOS


 

(Uma versão originalmente publicada em A TRIBUNA de Santos em 20 de junho de 2017)

Autran Dourado é um dos meus autores do coração, por isso ele aparece tanto nesta coluna. Sua obra-prima, ÓPERA DOS MORTOS (Rocco), completa 50 anos em 2017.

O romance conta a história da principal família de Duas Pontes, no início da República. Rosalina, a última dos Honório Cota, mantém-se trancada no sobrado familiar, recusando-se a qualquer tipo de ligação com a cidade. Após longos anos de isolamento, Rosalina admite como empregado Juca Passarinho, um malandro boa-vida, “apenas porque não é da cidade”. Juca descobrirá o segredo de Rosalina: ela se embebeda todas as noites.

A dona do sobrado Honório Cota acaba enlouquecendo e apavora os habitantes, ao ficar entoando uma cantiga estranha no cemitério. Até que se descobre a identidade do “fantasma” e a cidadezinha tem a oportunidade de entrar novamente no sobrado, que lhe parecia definitivamente vetado: “Agora a gente estava de novo no sobrado, esperando. De uma certa maneira todo mundo ficava de dono da casa… A confusão, a promiscuidade era geral. Já mexiam nos armários, nas panelas, tinha gente que fazia café”.

Essa “profanação”, por assim dizer, do sobrado Honório Cota, mostra como Dourado absorveu bem o clima das tragédias gregas.  O nosso maior romancista soube transportar isso muito bem para um “tamanho mineiro”, para a atmosfera da “vida besta” de uma “cidadezinha qualquer” (essas imagens aparecem num célebre poema do ilustre conterrâneo de Autran, Carlos Drummond de Andrade). Em compensação, até os personagens parecem imbuídos do teor teatral da trama. Ao enfrentar a cidade nos momentos decisivos, Rosalina sempre parece agir como que diante de uma plateia. Aliás, com relação à Rosalina, um dos pontos mais fascinantes de ÓPERA DOS MORTOS é o fato de ela duplicar, em si, o amálgama do sobrado: este era uma construção térrea, feita inicialmente pelo brutal e misterioso fundador da família, Lucas Procópio; o segundo andar foi acrescentado pelo filho, João Capistrano, de personalidade oposta ao pai; e a casa ficou com os dois estilos de personalidade em seu traçado.

Ao se entregar a Juca Passarinho, Rosalina dicotomiza-se como o sobrado: de dia, ela se mantém senhorial e distante, como João Capistrano; à noite, ela perde todas as amarras, como o despótico e desregrado Lucas Procópio. Dessa forma, também a relação entre ela e o agregado assume um caráter “ritual”. E o desenvolvimento da obra de Autran Dourado tornou ainda mais complexa e instigante a história da família mais ilustre de Duas Pontes. Dois outros romances “completaram” (se possível) o quadro: Lucas Procópio (1985) e Um Cavalheiro de Antigamente (1992). O que prova que, como já sabiam os gregos, e volta-se a ver nos cafundós de Minas, o destino sempre acaba se cumprindo, de uma forma ou de outra.

 

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