MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

21/03/2017

90 ANOS DE UMA OBRA-PRIMA DE VIRGINIA WOOLF


(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 21 de março de 2017)

AO FAROL, completa 90 anos de sua publicação original, mantendo seu status de um dos mais belos romances já escritos; muitos o consideram a obra-prima de Virginia Woolf (eu ainda prefiro As Ondas, mas é questão de gosto). Recentemente, teve a sorte de ser traduzido pela ótima Denise Bottmann, publicada pela Editora L&PM.

O livro conta, se é possível dizer isso, a história da família Ramsay, que passa o verão nas Ilhas Hébridas (costa da Escócia), com seus muitos agregados e “protegidos”. Todos ora admiram ora invejam ora se incomodam com a sra. Ramsay, que não só cuida para que tudo corra bem com seus oito filhos e o marido, um conceituado pensador, como também influi na vida alheia. A sua presença, a força da sua maternidade, são o centro das atenções: sua casa de verão está gasta e empobrecida, há expectativas frustradas (como um planejado passeio ao farol local, que não acontece) e problemas afetivo-românticos, mas aparentemente ela consegue manter tudo coeso.  Ela, em si mesma, é um farol, um centro fixo.

A sra. Ramsay domina a própria narrativa: seguindo o seu ritmo interior, Virginia Woolf (que se inspirou na própria mãe) suspende o tempo, por assim dizer, pois tudo que está integrado ao mundo, à existência pura, não o sente. É por esse motivo que a sra. Ramsay, aos 50 anos, desperta “algo” em homens e mulheres, e é por esse motivo que, no vai-e-vem cronológico, o leitor fica sabendo dos “fatos” muito mais pela ótica das personagens masculinas, intelectuais que não conseguem a suprema integração da sra. Ramsay ao espetáculo do mundo.

O poder da sra. Ramsay tem muito de ilusionismo: transmite a sensação de permanência e segurança.

Pois, como todos nós sabemos, o “tempo passa”. Na segunda parte, vem a Primeira Guerra Mundial, a sra. Ramsay e outros membros da família morrem e o círculo de amigos fragmenta-se.

Os sobreviventes reencontram-se na 3ª parte, anos depois, e finalmente realiza-se o tão almejado passeio ao farol. E é justamente na reconstituição desse projeto que todos constatam o efeito do tempo e a falta da mãe, e, ao mesmo tempo, se dão conta da ilusão que ela conseguiu manter enquanto viva, e como essa ilusão teve um poder mágico sobre suas vidas.

A “salvação” possível está na obra de arte, a única forma de se realizar no tempo, uma vez desfeita a integração com a natureza, com a mãe ausente. É o que faz Lily Briscoe, terminando seu quadro na praia: “A grande revelação nunca chegou. Ao invés disso, houve pequenos milagres diários, iluminações, fósforos inesperadamente acesos na escuridão e aquele era um deles… a onda estourando, a sra. Ramsay dizendo: Para aqui, vida! a sra. Ramsay tentando transformar o momento em alguma coisa permanente –isso seria da mesma natureza que uma revelação. No meio do caos havia uma forma”.

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