MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

14/03/2017

UM COMENTÁRIO CURTO SOBRE UM LIVRO IMENSO: “TODO NAUFRÁGIO É TAMBÉM UM LUGAR DE CHEDAGA”


 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 14 de março de 2017)

Na semana passada, comentei o livro de o Naufrágio Entre Amigos, de Eduardo Sabino. Agora, a vez da coletânea de contos, TODO NAUFRÁFIO É TAMBÉM UM LUGAR DE CHEGADA (Moinhos), de Marco Severo. Parece que a imagem mais pertinente da nossa civilização em colapso é estarmos naufragando, esse parece ser o Zeitgeist (o espírito de um determinado período histórico).

Mesmo para um leitor experiente, como é o meu caso, foi um assombro a leitura das primeiras páginas de Meio Amargo (não menos prezando o primeiro conto, Selvagem, do qual falarei mais adiante). Senti-me como um jurado do “The Voice”, girando a cadeira logo nas primeiras notas, descobrindo um autor para meu time de leituras prediletas.

Meio Amargo e Plantação abundante em terreno frágil, duas obras-primas, representam a maneira tortuosa e intrincada das narrativas de Marco Severo que lembra a força do primeiro Rubem Fonseca (o A Coleira do Cão) e as histórias da canadense Alice Munro, com os quais compartilha o vezo de transformar um texto curto num mundo em que você fica mergulhado, como se fosse uma série de romance encapsulados, e Plantação abundante em terreno frágil, lembra, com louvor o Nabokov de Fogo Pálido.

Os contos mais breves como o já citado Selvagem também são contundentes: trata-se da história de uma mulher que odeia tanto os elogios que a amiga faz do próprio filho que toma uma medida monstruosa.

Outra obra-prima, Na casa do cordeiro, o lobo anfitrião, lemos: “E se eu for pego? Se eu for, já era, me mato. Não se espante, porque eu sou você também. Você sou eu reprimido. Eu ganho a confiança pra montar minha armadilha. Eu faço os outros enxergarem o que eles gostariam de ver no mundo, naqueles poucos segundos entre o entrar no meu carro e o ficar do lado de fora. É um dom. O que nos difere é que eu desenvolvi, você não. Não pense que você é melhor do eu porque nunca matou ninguém. Você também é um predado. Nunca se esqueça, meu caro, que o cordeiro é também o caçador”. E em Plantação abundante em terreno frágil, vemos nitidamente o auto engano que justifica o comportamento dos protagonistas de Marco Severo: “Pouco me importa o que você vai pensar de mim. É a minha versão da verdade. E é com essa verdade que eu vou morrer, ainda que ninguém acredite”.

Os 20 contos de TODO NAUFRÁGIO É TAMBÉM UM LUGAR DE CHEGADA, que compõem um dos livros fundamentais da nossa época.

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1 Comentário »

  1. Obrigada pela dica.Vou procurar comprar o livro.Abraços,Neide.

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    Comentário por Neide Marcondes — 14/03/2017 @ 18:09 | Resposta


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