MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

07/03/2017

DOS LIVROS HÍBRIDOS E DAS GERAÇÕES EM TRANSIÇÃO: Naufrágio Entre Amigos, Eduardo Sabino


(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 7 de março de 2017)

Como é bom constatar que os jovens escritores recuperaram o prazer da narrativa (não menosprezando a prosa experimental, também um rico filão). Sejam autores que captam a insubstancialidade da pós-modernidade, sejam autores mais comprometidos com o mundo concreto, todos poderiam ter como música de fundo os versos cantados por Maria Bethânia: “Ou feia ou bonita/Ninguém acredita na vida real”. Por isso, no frigir dos ovos, a ficção sempre triunfa.

É o caso do ótimo NAUFRÁGIO ENTRE AMIGOS (Patuá), de Eduardo Sabino. Ele resgata o romance de geração (na verdade, trata-se de um livro de contos, porém, eu o considero uma obra híbrida, uma espécie de romance-móbile), aquela que sofreu a transição (para a qual os games contribuíram de forma decisiva) até a supremacia do mundo virtual e digital.

Na primeira parte do livro, Sabino narra uma infância ainda à antiga, onde o universo da meninada ainda era o mundo fechado em si mesmo (no caso, a cidade mineira de Nova Lima), apesar dos vislumbres dos conflitos entre os adultos e do “pensamento mágico”, envolvendo assombrações e aparições sobrenaturais, muito comuns no imaginário provinciano.

No meio do livro, já longe da terra natal, Eduardo, o narrador, se perde nos equívocos relacionamentos através da internet, apaixonando-se por uma poetisa, a qual não passa de um avatar de um professor maluco, criador de vários perfis “fakes” assistimos o final da infância e o naufrágio do mundo adulto.

A partir daí NAUFRÁGIO ENTRE AMIGOS torna-se um arquipélago (um tanto irregular, a meu ver) a segunda fase da sua adolescência em Nova Lima, através das histórias de seus amigos (os quais naufragaram na rotina e no comodismo; a própria cidade naufraga com a aparição de misteriosos buracos); em contrapartida, a descoberta do mundo além da escola e da família, marcando bem o repertório de signos que representaram a mudança radical entre duas gerações. Sutilmente, ele também registra o autoritarismo remanescente da ditadura militar como vemos na cruel caracterização dos professores: “Talvez seja melhor escrever uma enciclopédia dos educadores ruins. Organizá-los por filos, famílias, nomenclaturas. Mas estre cheiro de giz, esta falação no corredor, as paredes de tijolinhos ao redor, tudo isto vai me dando receio de ficar aqui pra sempre. Melhor ir logo ao diabo”. Como não naufragar com uma formação dessas?

1 Comentário »

  1. Republicou isso em O LADO ESCURO DA LUA.

    Comentário por anisioluiz2008 — 07/03/2017 @ 13:06 | Responder


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