MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

07/02/2017

UM OLHAR SUSPEITOSO SOBRE O MUNDO: Gotas no Asfalto de Vlademir Lazo


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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 07 de fevereiro de 2017)

A Alice de Lewis Carroll, aquela que visitou o país das maravilhas e atravessou o espelho, adquirindo tamanhos diversos que muitas vezes não cabiam com o ambiente ao seu redor, e questionando as regras arbitrárias e/ou ilógicas do mundo adulto, tornou-se um arquétipo e várias narrativas contemporâneas.

É o caso do romance de estreia de Vlademir Lazo, GOTAS NO ASFALTO (Penalux). Começamos a acompanhar a história do “casal” Júlio e Alice perambulando pelos dois lados da fronteira entre o Brasil e o Uruguai, com o objetivo de comprar remédios que funcionam como drogas, sem receita médica (sai como personagem de Bukowski, um autor que todos adoram, menos eu). Júlio, o narrador, passa a contar intensa pré-história desse “encontro”, durante anos nas redes sociais, quando Júlio alimenta a ideia fixa de conhecer pessoalmente Alice, a qual flerta com ele, faz sexo virtual, foge, desaparecendo dos seus contatos, até finalmente ceder, marcando um encontro na fronteira com o Uruguai.

Mesmo dividindo o mesmo quarto de hotel, a intimidade das relações virtuais nunca é alcançada. Alice arrasta Júlio em noitadas frustrantes e sempre em lugares límbicos, impessoais: rodoviárias, hotéis, bares, praças, numa perambulação errática, onde as confidências são rançosas. É como se “O Lado Bom da Vida”, livro e filme, fosse contado por um João Gilberto Noll ou um Juan Calos Onetti.

“Ando de um lado ao outro da minúscula estação, a mochila nas costas e a tiracolo a bolsa, com minhas roupas, que me servia de bagagem. Ignorei as fileiras de cadeiras velhas de plástico. Comprara roupas novas para me proporcionar um aspecto apresentável. Você compra dez peças diferentes de roupa, mas sente vontade de continuar usando as mesmas velhas de sempre. Uma segunda pele que, ao invés de cobrir, mantém desnudo como a não ocultar quem somos, sem trajes ou fantasias”.

Disfuncionalidade (com relação às regras da sociedade), autoimagem dilacerada (quando não se cabe no mundo), um olhar suspeitoso sobre tudo e todos, eis os ingredientes amargos, mas transformados por Vlademir Lazo num poderoso e denso romance.

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