MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

10/01/2017

OS “TIOZÕES” DE LUIZ ROBERTO GUEDES


luiz-roberto-guedes miss-tatto-livro

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em 10 de janeiro de 2017 em A TRIBUNA de Santos)

Luiz Roberto Guedes (que acostuma utilizar o pseudônimo de Paulo Flexa, pois é um artista multimídia) reuniu em MISS TATTO – UMA QUASE NOVELA (Jovens escribas), quinze textos, nos quais faz uma “poética do tiozão”, uma taxonomia que abrange desde tipos “descolados” (que circulam pela noite e modismo) até tipos introspectivos, todos eles voltados nostalgicamente para os anos 1980; inclusive muitos trechos de canções da época são citados.

“Ele soltou um suspiro, inconformado. Toda sua vida tinha sido pressionado por mulheres fortes, imperiosas, autoritárias. A mãe, as professoras, as diretoras de escola, a xerife Latorre. Será que Luísa teria se tornado assim tão rígida, se tivesse vivido o bastante?
O acordo tácito permanecia em vigência. Késia continuou frequentando sua cama e voltando para seu próprio quarto, logo que ele dormia. O marmanjo retardado não tinha batido mais em sua porta, sua mãe estava se recuperando bem, e ele desfrutava de um sossego entorpecente, mas que sabia temporário”. Essa passagem (de “Késia com K”, um dos meus favoritos do livro) faz parte da história de um professor sessentão que oferece carona e moradia para uma ninfeta, enfrentando a família, a empregada e a sindica; sua carência infelizmente não tem reciprocidade: a garota foge com um skatista (noutro registro, temos uma situação similar em “Primeiro esboço de Heloísa”, um conto simplesmente brilhante).

Não falta sequer um Mr. Kurtz chanchadesco e reichiano, em “Cibele, si belle”.

No conto-título, o narrador é chamado pelo pai milionário de uma patricinha, a qual deseja tornar-se uma nova Xuxa ou Angélica. O produtor musical veterano e a menina se envolve, mas surgem em cena Miss tatto, seduzindo o produtor, que depois terá uma surpresa com relação a suas estrelas.

É incrível a leveza da prosa de Luiz Roberto Guedes. Ele escreve como um autor policial norte-americano. Entretanto, é uma falsa leveza, ainda que o leitor ache tudo fluente, jocoso e mordaz. Deve-se prestar atenção ao uso variado do foco narrativo: além da primeira e terceira pessoa, há contos que usam a segunda: caso “A garota do Café Barão”: “Garota esperta. Trata por doutor a todo engravatado que circula neste quadrilátero do fórum. Caminhando para o escritório, você aprecia as mulheres da manhã ensolarada. Ó Deus, lá vem uma negra alta, atlética, numa calça-bailarina justíssima, azul-elétrico: o púbis glorioso ressalta das coxas exuberantes. Nigra et formosa. Rainha de Sabá coroada de trancinhas. Você volta rapidamente a cabeça para admirar a bunda suntuosa”.

É amargura no fundo do riso, é o ácido no suco da laranjeira.

miss-tatto-jornal

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