MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

05/01/2016

DESTAQUES NACIONAIS – LISTA DE 2015


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(uma versão do texto abaixo foi publicada originalmente em A TRUBUNA de Santos, em 05 de janeiro de 2016)

Como sempre digo, não dá para ler tudo, nem gostar de tudo. Por isso, faço uma lista de destaques dentro do meu recorte pessoal, limitado, de leituras, ressaltando apenas que editoras ‘pequenas’ como a Patuá, a Reformatório ou a Confraria do Vento, por exemplo, obtiveram larga vantagem, em quantidade e qualidade, em lançamentos de autores nacionais de valor. Incluí alguns (seis entre dezenove) títulos lançados em 2014 também orientado por essa conclusão; afinal, muitas vezes é lentamente um livro vai abrindo seu caminho, demorando para cair em nossas mãos, e isso deveria ser levado mais em conta. Felizmente, Homero que o diga, não há prazo de validade para textos

Livro do Ano: Como conversar com um fascista (Record), de Marcia Tiburi. Além da precisa reflexão sobre a intolerância política, esses ensaios representam um verdadeiro manual de sobrevivência para a selva de ranços ideológicos destes dias que correm:

«Fechado em si mesmo, o fascista não pode perceber o ‘comum’ que há entre ele e o outro, entre ‘eu e tu’. Ele não forma mental e emocionalmente a noção do comum, por que, para que esta noção se estabeleça, dependemos de algo que se estabelece com uma abertura ao outro. Fascista é aquela pessoa que luta contra laços sociais reais enquanto sustenta relações autoritárias, relações de dominação. Às vezes por trás de uma aparência esteticamente correta de justiça e bondade. Mesmo em circunstâncias esteticamente as mais corretas, e politicamente as mais decentes, o ódio é uma força que tende a falar bem alto. O fascista usa o afeto destrutivo do ódio para cortar laços potenciais, ao mesmo tempo que sustenta, pelo ódio, a submissão do outro. Como personalidade autoritária, ele luta contra o amor e as formas de prazer em geral. Um fascista não abraça. Ele não recebe. É um sacerdote que pratica o autoritarismo como religião e usa falas prontas e apressadas que sempre convergem para o extermínio do outro, seja o outro quem for».

Destacaram-se também (por ordem alfabética dos autores), e de antemão pedindo desculpas pelos comentários genéricos:

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O livro dos cachorros (Patuá), de Luís Roberto Amabile- São poucos os cachorros, porém muitas as surpresas e perplexidades para o leitor dessa brilhante coletânea de contos , ao mesmo tempo divertida e inquietante;

Amores, truques e outras versões (Confraria do Vento), de Alex Andrade- a imersão da eterna insatisfação de Don Juan (num contexto homoerótico) na modernidade líquida de redes sociais e aplicativos;

Retornaremos das cinzas para sonhar com o silêncio (Patuá), de Marcelo Ariel- Um atordoante repertório de referências como invólucro para um lirismo incomum: «Nesse fogo/Que queima somente/aqueles que/com a intensidade/ do mundo formam/uma só tessitura»;

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Esse tal de amor e outros sentimentos cruéis (Reformatório), de Mário Bortolotto- Textos confessionais e crônicas sobre a condição de outsider de uma personalidade marcante da cena cultural e boêmia de São Paulo;

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Um dia toparei comigo (Foz), de Paula Fábrio- Uma narradora autocentrada torna-se o símbolo literário mais representativo de uma geração «que aprendeu tudo na sessão da tarde», num dos melhores romances dos últimos anos;

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Rebentar (Record), de Rafael Gallo- Para quem já não acreditava mais na possibilidade de se explorar a densidade psicológica de personagens em 3ª. pessoa, o impacto que o jovem e fantástico romancista imprime à história da mãe que “desiste do filho”, há 30 anos desaparecido, é imenso;

Ofícios do Tempo (Positivo), de Donizete Galvão- Antologia que permite a introdução ao universo de um grande poeta falecido repentinamente: «No curral da insônia, /rumino palavras pastadas/na ribanceira dos dias»;

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O contrário de B. (Confraria do Vento), de Bruno Liberal- Multifacetada reunião de 13 relatos, explorando relações atávicas e opressivas, a manter um edifício social patriarcal, patrimonialista e preconceituoso;

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Concentração e Outros contos (Alfaguara), de Ricardo Lísias – mosaico excepcional da produção de um autor que, aos 40 anos, já é uma referência fundamental da ficção, desde textos iniciais até suas recentes e geniais ‘Fisiologias’;

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A imensidão íntima dos carneiros (Reformatório), de Marcelo Maluf- O medo inoculado através do destino familiar, dando azo a uma notável fabulação, sem contar a qualidade da prosa, em torno da imigração libanesa e da ressonância da mansidão bíblica;

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A bela Helena (7Letras), de Miriam Mambrini- Através da criação de um alter ego, a protagonista delineia uma faixa social de um lugar e época (o Rio, anos dourados) muito mitificados, e mostra a tarefa árdua que é dar forma à experiência realmente vivida;

Fôlego (Confraria do Vento), de Rafael Mendes -o universo familiar nos oprime e, mesmo assim, nunca é uma história unívoca; o que é deixado à sombra é o eixo  dessa bela novela de estreia;

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Julho é um bom mês para morrer (Patuá), de Roberto Menezes- uma legítima obra-prima do romance, na qual o relato feminino e o destino das mulheres de uma família compõem uma poderosa alegoria do país;

29 (Modelo de Nuvem), de Marcos Messerschmidt- O haicai contemplativo da tradição modula-se a uma dicção moderna e urbana: «a flor ensaia o absurdo/ descola do galho /espalhando multidões»;

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Esculturas fluidas (CEPE), de João Paulo Parisio-  travessia solerte e apaixonante pela corda bamba entre o banal e um moto contínuo de lirismos lapidares («Nunca concluí um pensamento/Minha contribuição definitiva/serão meus pressentimentos»);

Arranhando paredes (Bartlebee), de Bruno Ribeiro- textos cujo exuberante hiper-realismo parece até documentário perante a ressurreição de ameaças de golpe, da onda reacionária e do sensacionalismo autoritário de certos programas jornalísticos;

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A casa das marionetes (Reformatório), de José Santana Filho- uma revisitação do passado familiar em tom operístico e prosa de alto refinamento, captando tanto a «uniformidade do sangue» coletivo quanto o sopro forte dos «ventos internos» individuais;

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O princípio de ver histórias em todo lugar (Oito e Meio), de Leonardo Villa-Forte- Excelente romance de estreia, equacionando a incapacidade de recomeçar a vida com a dificuldade de não dá para aprender com manuais e oficinas, e nem sob o domínio da incerteza e da suspeita.

editoras

TRECHO SELECIONADO ( de REBENTAR)

«No fundo, entendia como algo terrível a possibilidade de que lhe entregassem um homem qualquer e dissessem: “este é o seu filho”. Todos esperariam, então, que ela levasse o estranho para dentro de sua casa, compartilhasse das horas e do alimento com ele e, finalmente, o colocasse para dormir naquele quarto que reservara para Felipe, em cuja cama o homem jamais caberia. Ainda mais perturbador do que essas pequenas questões práticas seria conviver com esse indivíduo sob a obrigação de tecer nele, ponto a ponto, o amor maternal que o abrigaria. Ângela percebia que nunca seria capaz disso, não poderia ser essa mãe. Essa forma de amor estava por demais ligada a Felipe, pertencia completa e unicamente ao menino que criara junto a si por cinco anos, quase seis. Ainda que impressões digitais, testes sanguíneos e outros recursos atestassem a identidade daquele homem, a formação íntima que faria dele seu filho de verdade não podia ser recuperada. Era esse contato, essa longa fiação do amor, que poderia realmente fazer de um homem alguém digno de receber o nome de Felipe.

A única alternativa ao vazio da ausência de Felipe, então, passara a ser o vazio da estranheza de um adulto desvinculado dela. Ângela finalmente soube e sentiu que não podia mais possuir o que tanto sonhara para si. Restava, na prática, pouco mais do que aceitar que sua história como mãe daquele menino buscado estava terminada. O envelhecimento digital servira, no caso, como o impulso definitivo que colocara em movimento o processo de sua renúncia. As luzes de suas esperanças já estavam bastante desbotadas, bem como as sombras de seu luto, mas o retrato de Felipe crescido e amargurado era o elemento que faltava para dar corpo aos sentimentos confusos que se erguiam dentro dela. Não precisava mais buscar por aquele cuja face era a de um homem alheio; seu filho estava perdido de qualquer maneira, ainda que pudesse ser encontrado».

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2 Comentários »

  1. Parece ótimo. Principalmente pelos seus comentários.

    Comentário por Geraldo Maia — 05/01/2016 @ 19:19 | Responder

    • Obrigado, um grande 2016.

      Comentário por alfredomonte — 10/01/2016 @ 11:09 | Responder


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