MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

24/11/2015

Destaque do Blog: UM CORAÇÃO ARDENTE, de Lygia Fagundes Telles


Lygia Fagundes Telles, por Tomás Rangel30369316

«Não senti nenhum medo ou asco quando descobri o dedo meio enterrado na areia, uns restos de ligamentos e tecidos flutuando na espuma das pequeninas ondas. Há pouco encontrara as carcaças dos peixinhos que escaparam das malhas das redes. Lavado e enxague, o dedo parecia ser da mesma matéria branca dos peixes, não fosse a mundana presença do anel, toque sinistro numa praia onde a morte era natural. Limpa.».

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A Tribuna de Santos, em 24 de novembro de 2014)

«Sou uma mulher que gosta de apagar seus rastros», declarou uma vez Lygia Fagundes Telles, e constatando quantos títulos ela já suprimiu nas suas constantes reedições, concordaríamos de pronto, não ocorresse um curioso fenômeno: a cada vez que a grande escritora restringe o cânone de sua obra, “filhos pródigos” (aliás, título original de A Estrutura da Bolha de Sabão) insistem em se apresentar e bagunçar o coreto.

Os dez relatos de Um Coração Ardente, por exemplo, faziam parte de coletâneas deixadas no limbo: O Cacto Vermelho (1949), Histórias do Desencontro (1958), Histórias Escolhidas (1964), O Jardim Selvagem (1965). Emanuel, um dos pontos altos dessa inesperada reunião, e no qual a protagonista, sentindo-se inferiorizada dentro do círculo de conhecidos, ridicularizada por uma desastrada virgindade tardia, fornece detalhes de seu gato de estimação, projetando-os como se fossem de um amante bem-sucedido, num jogo perverso de mistificação e mortificação, pertencia a um rastro mais recente, e já apagado: Mistérios (1981).

As histórias de infância e pré-adolescência formam um conjunto à parte, todas muito cruéis e fortes, como o sorrateiro romance entre a exuberante parente mais velha e um menino «Pareciam pertencer a um outro mundo tão acima do nosso, ah!, como éramos pobres»—, flagrado pela narradora de As Cerejas (se alguém desejar algum dia saber na prática o que é atmosfera narrativa, basta ler essa obra-prima); Biruta e Dezembro no Bairro, por sua vez, delineiam a miséria material e afetiva, tendo o natal como pano de fundo, de dois garotos: um órfão agregado como faz-tudo numa casa burguesa, que se afeiçoa a um vira-lata traquinas; a turma de “remediados” na terrível descoberta de como é pobre e doente um colega, cujo pai—fazendo um bico como Papai Noel—fora humilhado e “zoado”, como se diz por aí.

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Também notáveis são as histórias de comportamento escuso e hipocrisia social, caso de As Cartas[1] e O Noivo, este último roçando o fantástico e o macabro, pois o noivo se lembra de todas as conquistas e amores da sua existência, menos daquela com quem se casará (ele sequer se dava conta do compromisso e da cerimônia), e pode estar desposando a Morte. Mais evidentemente sobrenatural é O encontro (ironicamente, constava de um livro intitulado Histórias do Desencontro), onde a heroína se sente sonhada por alguém, enleada numa teia, ao adentrar numa paisagem nova, que reconhece, entretanto, a cada instante, nos mínimos detalhes, vendo-se diante de uma malfadada versão-encarnação de si mesma, numa «trama do é, será, foi», como diria Borges:

   «Encostei-me a um tronco e por entre uma nesga da folhagem vislumbrei o céu pálido. Era como se o visse pela última vez.

    “A cilada” – pensei diante de uma teia que brilhava suspensa entre dois galhos. No centro, a aranha. Aproximei-me: era uma aranha ruiva e atenta, à espera. Sacudi violentamente o galho e desfiz a teia que pendeu em farrapos. Olhei em redor, assombrada. E a teia para a qual eu caminhava, quem? Quem iria desfaze-la? Lembrei-me do sol, lúcido como a aranha. Então enfurnei as mãos nos bolsos, endureci os maxilares e segui pela vereda.

   “Agora vou encontrar uma pedra fendida ao meio.”E cheguei a rir, entretida com aquele estranho jogo de reconhecimento: lá estava a grande pedra golpeada, com tufos de erva brotando na raiz da fenda. “Se for agora por este lado, vou encontrar um regato.” Apressei-me. O regato estava seco mas os pedregulhos limosos indicavam que provavelmente na próxima primavera a água voltaria a  correr por ali.

   Apanhei um pedregulho. Não, o estava sonhando. Nem podia tersonhado, mas em que sonho podia caber uma paisagem tão minuciosa? Restava ainda uma hipótese: e se eu estivesse sendo sonhada? Perambulava pelo sonho de alguém, mais real do que se estivesse vivendo. Por que não?»

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Esse apego ao insólito, contudo na cadência de uma prosa lúcida e límpida, serve como mote para O Dedo, verdadeira poética da arte lygiana. A descoberta de um dedo (com um anel) na praia oferece a chance para as ilações mais extravagantes e passionais, típicas de um coração ardente: «Sou do signo de Áries e os de Áries são apaixonados, veementes. Achei um dedo, um dedo! Devia estar proclamando na maior excitação. Mas hoje minha face lúcida acordou antes da outra e está me vigiando com seu olho gelado».[2]

Coração ardente ou olho gelado e vigilante? Para a sorte e prazer de seus fiéis leitores, a Lygia Fagundes Telles nunca falta fogo, porém ele arde sem se ver, a não ser nos lampejos de uma prosa toda feita de delicadezas perigosas.

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TRECHO SELECIONADO

   «Fui com Madrinha para a saleta. Um raio estalou de repente. Como se esperasse por esse sinal, a casa ficou completamente às escuras enquanto a tempestade desabava.

 – Queimou o fusível! – gemeu Madrinha. – Vai, filha, vai depressa buscar o maço de velas, mas leva primeiro ao quarto de tia Olívia. E fósforos, não esqueça os fósforos!
Subi a escada. A escuridão era tão viscosa, que se eu estendesse a mão poderia senti-la amoitada como um bicho por entre os degraus. Tentei acender a vela mas o vento me envolveu. Escancarou-se a porta do quarto. E em meio do relâmpago que rasgou a treva, vi os dois corpos completamente azuis, tombando enlaçados no divã.

    Afastei-me cambaleando. Agora as cerejas se despencavam sonoras como enormes bagos de chuva caindo de uma goteira. Fechei os olhos. Mas a casa continuava a rodopiar desgrenhada e lívida com os dois corpos rolando na ventania.

– Levou as velas para a tia Olívia? – perguntou Madrinha.

    Desabei num canto, fugindo da luz do castiçal aceso em cima da mesa.

– Ninguém respondeu, ela deve estar dormindo.

-E Marcelo?
– Não sei, deve estar dormindo também.

    Madrinha aproximou-se com o castiçal.

– Mas que é que você tem, menina? Está doente? Não está com febre? Hem?! Sua testa está queimando… Dionísia, traga uma aspirina, esta menina está com um febrão, olha aí!

   Até hoje não sei quantos dias me debati esbraseada, a cara vermelha, os olhos vermelhos, escondendo-me debaixo das cobertas para não ver por entre clarões de fogo milhares de cerejas e escorpiões em brasa, estourando no chão».

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NOTAS

[1] Este conto tem um dos finais mais admiráveis já escritos:

«Lembrei-me mais uma vez daquele olhar estrábico, aflitivamente vago. Desatei a rir. Acendi outro fósforo e senti um verdadeiro alívio quando finalmente a chama foi avançando e agora eram as cartas que se contraindo com estalidos secos pareciam rir».

[2] Não menciono o conto-título (que era também uma das Histórias do Desencontro) nem o hoffmanniano ou lovecraftiano A ESTRELA BRANCA (de O Cacto Vermelho) porque os considero muito inferiores aos outros.

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