MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

03/11/2015

Destaque do Blog: MAL-ENTENDIDO EM MOSCOU, de Simone de Beauvoir


denise-bellonsimon-de-beauvoir-646x664Mal-entendido em Moscou

(uma versão da resenha abaixo foi publicada em A TRIBUNA de Santos, em 03 de novembro de 2015)

Devido ao ENEM, Simone de Beauvoir (1908-1986) voltou à ordem do dia, como sempre cercada de polêmica e escândalos moralizantes (é assim desde 1949, com o aparecimento de O Segundo Sexo[1]). Por coincidência, uma narrativa publicada postumamente, Mal-entendido em Moscou, ganhou enfim uma tradução[2], permitindo que o leitor de hoje se introduza no âmago das preocupações da grande escritora e pensadora francesa.

Ao longo dos anos, seu relacionamento com Jean-Paul Sartre (1905-1980) ora foi demonizado, ora idealizado em demasia. Mas o fato é que a própria Simone nunca se furtou a dissecá-lo e desmitificá-lo (embora omitindo muitas coisas constrangedoras em suas Memórias, nem por isso menos contundentes e reveladoras), às vezes de forma cruel, como nessa novela escrita nos anos 1960, na qual ela alterna os pontos de vista de Nicole e André, casal sexagenário em visita à Rússia. Ali mora a filha do marido, professor de história apaixonado pela Revolução de 1917; porém tanto no campo político (a sociedade soviética, mesmo no período pós-Stálin, desconcerta e decepciona o intelectual francês), quanto no pessoal (ele e a esposa, muito unidos e ávidos de experiências em comum, descobrem os desgastes e ressentimentos de uma vida compartilhada[3]), a viagem se revela uma sucessão de desacordos amargos.

Para o Existencialismo (a filosofia associada a Sartre e Simone), a contingência e a liberdade são os parâmetros de uma condição em que ser é uma miragem, só sendo possível o existir[4]. E o coexistir, para não haver a má-fé, a inautenticidade, só se fará através da transparência. Em sua obra ficcional (já no romance de estreia, o impactante A convidada, de 1943),  Simone, propôs imagens falhadas e ruinosas de sua vivência com o companheiro, colocando esse ideal em xeque: André e Nicole são tudo, durante a estadia em solo russo, menos transparentes um para o outro; e, quanto ao exercício da sua liberdade e da disponibilidade (o uso criativo e fecundo das contingências), tomam consciência de si mesmos, huis clos, como, ao mesmo tempo, carcereiros e prisioneiros: «Um casal que continua porque começou: seria esse futuro que os aguardava? De amizade, de afeição, mas sem uma verdadeira razão para viver juntos: seria assim? ».

Nesse sentido, Mal-entendido em Moscou chega quase à beira do caricatural: ao contrário de Sartre, André nunca chega a realizar algo de importante, sempre adiando autocomplacentemente seus projetos, e Nicole tem a percepção tardia de que se deixou enlear pela armadilha do destino feminino (ao se aposentar como professor, ajuda o filho em sua tese), em que a mulher fica em segundo plano — e nada mais distante da trajetória de Simone de Beauvoir, tão relevante e inspiradora quanto a do autor de A Náusea e O Ser e o Nada.

Pela desassombrada exposição de seus esqueletos no armário, do avesso de um pacto amoroso paradigmático, esse texto deixado na gaveta já teria importância substancial. Entretanto, sua mirada da sociedade russa daquele momento é um motivo ainda mais forte para que se lamente seu descarte para publicação. Em plena Guerra Fria, ao contrário da atmosfera opressiva e conspiratória dos livros de espionagem e de dissidentes, encontramos a vida cotidiana e os impasses de qualquer nação em fase de transformação (incentivo ao consumo, desafios do setor produtivo etc), ainda que para o desencanto do ideal de revolução do esquerdista de gabinete André (o que rende acaloradas discussões com a filha, despertando o ciúme de Nicole, a qual se sente deixado de lado, engolfada pelo tédio—aliás, uma nêmese beauvoiriana). Mas o devir de uma sociedade em construção não tem de necessariamente atender aos desejos dos intelectuais franceses bem-pensantes.

E, voltando à minha proposição inicial, é por percepções dessa amplitude que Simone de Beauvoir é uma leitura tão necessária ao leitor de hoje.

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TRECHO SELECIONADO

«Foi tomado por um mal-estar: esta linda noite feliz não lhe pertencia; só podia estar presente, ela não lhe pertencia. As pessoas riam, cantavam, ele se sentia excluído: um turista. Jamais gostou dessa condição. Mas, enfim, no país onde o turismo é uma indústria nacional, passear é uma forma de se integrar. Nas calçadas dos cafés italianos ou nos pubs de Londres, ele era um consumidor entre outros, o espresso tinha o mesmo sabor na sua boca e na dos romanos. Aqui, teria sido necessário conhecer as pessoas através de seus trabalhos, trabalhar com elas. Ele era excluído de seus lazeres porque o era de suas atividades. Um ocioso. Ninguém neste jardim era ocioso. Apenas Nicole e ele.

   E ninguém tinha a mesma idade que os dois. Como todos eram jovens! Ele fora. Lembrava-se do gosto ardente e terno que tinha, então, a vida: esta noite era deles, que sorriam para o futuro. Sem futuro, o que era o presente, mesmo no perfume de lilases e no frescor da alvorada da meia-noite? Por um instante, ele pensou: é um sonho, vou acordar, pego de novo meu corpo, tenho vinte anos. Não. Um adulto, homem de idade, quase um idoso. Ele os olhava com um espanto invejoso: por que não sou mais um deles? Como isso pôde acontecer comigo?».

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 NOTAS

[1] Na verdade, mesmo antes, em sua carreira de professora provinciana nos anos 1930, com algumas “ligações perigosas”.

[2]  Malentendu à Moscou [que comento na tradução de Stella Maria da Silva Bertaux] apareceu em junho de 1992 na revista Roman 20-50 número 13 e, em livro, em 2013.

[3] Afora a ameaça da senilidade, vista tanto do prisma de declínio geral, como no caso de Nicole, sinalizando a obsessão de sua criadora com o desencontro consigo mesma quanto à imagem corporal:

«Antigamente ela não imaginava que se preocuparia com seu peso todos os dias. E eis que, quanto menos se reconhecia em seu corpo, mais se sentia obrigada a se ocupar com ele. Era seu fardo, e Nicole o fazia com uma devoção entediada, como se fosse um antigo amigo, um pouco infeliz, meio pra baixo, que precisasse dela… ».

Agora, leia-se a seguinte passagem do seu terceiro volume de Memórias, A força das coisas (1963):

«Bruscamente esbarro na minha idade… Muitas vezes paro, espantada, diante desta coisa incrível que me serve de rosto. Detesto a minha imagem. Talvez as pessoas que me encontrem vejam simplesmente uma quinquagenária que não está nem bem nem mal, tem a idade que tem. Mas eu vejo minha cara de velha, onde se instalou uma varíola da qual jamais me curarei».

[4] «…pois se é verdade que o homem não é, também é verdade que ele existe; para realizar positivamente sua negatividade, ele precisará contradizer incessantemente o movimento da existência…», lemos em Por uma Moral da Ambiguidade [que cito na tradução de Marcelo Jacques de Moraes], ensaio de Simone publicado em 1947.

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1 Comentário »

  1. Republicou isso em O LADO ESCURO DA LUA.

    Comentário por anisioluiz2008 — 03/11/2015 @ 15:47 | Responder


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