MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

06/10/2015

As celebrações de Adonis, o poeta da permanência e do movimento


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[uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de outubro de 2015]

«Caminho e atrás de mim caminham as estrelas/ até seu próximo amanhã/ o segredo, a morte, o que nasce, o cansaço/ amortecem meus passos, avivam meu sangue. // Não iniciei a trilha, ainda /não vejo nenhum jazigo/caminho até mim mesmo, até /meu próximo amanhã/ caminho e atrás de mim caminham as estrelas».

Chega outubro e com ele as costumeiras especulações sobre quem ganhará o Nobel. Se, como se diz, motivações extraliterárias fundamentaram tantas decisões na história do prêmio (há 50 anos, por exemplo, venceu um autor soviético, em plena Guerra Fria: Mikhail Sholokhov), a tragédia da Síria—especialmente, seus refugiados, os quais vêm causando comoção mundial—pode pesar no anúncio do mais prestigiado nome da poesia árabe contemporânea: Adonis (Ali Ahmad Said Esber), 85 anos, origem alauita, um dos eternos favoritos, ano após ano.

Pelo trecho citado na abertura desta resenha (que faz parte de uma antologia traduzida por Michel Sleiman), meu leitor percebe que, fiel às tradições do seu povo, o poeta sírio trabalha com os elementos primordiais, atemporais. Que isso não o engane! Essa sobrepairada do efêmero se conjuga a uma modulação moderna e inusitada, e nos territórios imemoriais, porém instáveis, varridos por ventos inclementes, edifica-se uma obra muito sofisticada e poeticamente durável: «Você já viu a mulher/ como carrega o corpo do outono? /Primeiro ela mistura o rosto e a calçada/depois tece um vestido com os fios/da chuva//as pessoas/na cinza da rua/são brasa apagada».

A poesia de Adonis, e não por acaso ele atribuiu a si um pseudônimo “pagão”, é regida por Eros: «Nasci e nasceu comigo o deus do amor/que fará o amor quando eu me for?»—este é o mote; por isso, é sempre tão presente o rosto da Mulher, por isso o sangue do lirismo navega «até os confins do delírio»[1].

O erotismo (no sentido pleno da palavra), esse amor pelas coisas e seres, é «eternidade que dura um instante», contrastado com o ódio, «instante que dura como se fosse eterno», como lemos na bela “Celebração do Claro-escuro” (sim, pois tudo se mistura, se interpenetra: «É pecado o desejo?/Talvez, às vezes/ Porém o prazer/é sempre casto»). No fundo, o ritmo do real é o pêndulo entre continuidade e movimento: «A praia usa o tempo/para permanecer sentada/as ondas usam o tempo/para permanecer em movimento».

Nem por isso, o poeta se alheia dos acontecimentos políticos à sua volta. Boa parte da sua vida esteve vinculada ao Líbano. E um de seus poemas mais marcantes é “Celebração de Beirute, 1982” (ano em que tropas israelenses, contrariando resolução da ONU, cercaram e bombardearam a capital libanesa):

«O tempo avança,

na mão um cajado de ossos de corpos.

A lâmina da insônia

marca o pescoço da noite.

Crânios – uns servem sangue

outros se embriagam e deliram.

O fogo de suja?

o vento se infla?

Fumaça é nuvens.

Nuvens tem forma de cabeças.

Letras caídas

são impressas dispersas no chão

– pedaços de corpos.

Hoje o horizonte recomendou a seu filho

o vento que não saísse.

Como não se cansam as pedras do caminho?

Nem mesmo o sol consegue

iluminar este corpo que sangra sombra.

Dias cobertos de pó

tem feições de velhos.

Mariposas queimam

Subindo a escada do sono.

A cinza, princesa,

toma assento e recebe as honras.

O míssil, rei,

arrasta a cauda

sobre os corpos dos súditos.

O sol está prestes a dizer

à luz: ofusca meus olhos.

Será a vida um erro

que a matança corrige?

Onde está a cova aberta para acolher as lágrimas?

E o buraco que acolherá a alma?

A coisa elimina a coisa.

Não terá outro seio

este céu?

Esta rosa, de onde lhe vem tanta obstinação?

Está sempre lendo seu amor.

O dia tem medo do dia

e a noite se esconde da noite.

Agradeço

ao pó que se mistura com a fumaça e a abranda,

ao intervalo entre uma bomba e outra,

ao piso que sempre aguenta meus passos,

agradeço às pedras que ensinam a paciência.

Apagou-se a luz.

Vou acender a estrela dos meus sonhos.

Leva-me, amor,

e me mantém trancado».

O poeta agradece às pedras. E o leitor agradece ao poeta essa disciplina de paciência, de escuta atenta às vozes, eventos e fenômenos. E ao enorme silêncio por detrás.

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TRECHO SELECIONADO

«E rezei…
sussurrei rente às pedras
e li as estrelas: tomei seus pontos
e apaguei-os.
Meu desejo é um mapa
e nele o meu sangue e as entranhas.

Se soubesse, como o poeta, mudar as estações,
se soubesse conversar com as coisas,
enfeitiçava a tumba do pequeno cavaleiro no Eufrates,
a tumba do meu irmão na margem do Eufrates
(morreu, não teve bálsamos, nem enterro, nem orações).

Eu diria às coisas e estações
“Juntai-vos como se junta o ar,
estendei-me o Eufrates;
verta a água verde
como a oliva verte em meu sangue enamorado,
no meu tempo ancião”.
Se soubesse, como o poeta, tomar as núpcias das plantas,
cobriria estas árvores com crianças.

Se soubesse, como o poeta, domar o insólito
faria nuvem de cada pedra
para fazer chover sobre a Síria e sobre o Eufrates.

Se soubesse, como o poeta, mudar a hora da morte
se soubesse ser profecia, que adverte ou dá sinal,
eu gritaria
“Ó, nuvens, condensai-vos, chovei
em meu nome sobre a Síria e sobre o Eufrates.
Por Deus, nuvens…”

[…]

O Sacre escreve ao espaço, esse desconhecido generoso,
a pedir-lhe um lugar… limpo, como o espaço nas veias.
O Sacre acena a outros sacres —
cansado, levam-no os dédalos, levam-no as rochas.

E ele se inclina, alimentando as rochas, alimentando os dédalos,
o rosto avante, o sol por encalço.

O espaço é fornalha
e os ventos, velha a tecer contos,
e os sacres, cortejo a abrir o céu.

Como um amante, audacioso,
juvenil, de paixão audaz,
ergue o Alandalus profundo
ergue-o para o Mundo — esse novo santuário.

Todo espaço em seu nome é livro.

Todo vento em seu nome é hino.»

Trechos de “O sacre”

[sacre- espécie primitiva de falcão]

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NOTA

[1] Ver, por exemplo, este outro poema emblemático, traduzido por Luís Costa:

«HOMEM E MULHER

Mulher: quem és tu?

Homem: um bobo expatriado
da rocha dos meteoros,
da raça do demónio.
E tu, quem és?
Viajaste pelo meu corpo?

Mulher: sempre e repetidamente.

Homem: o que viste?

Mulher: vi a minha morte.

Homem: Trazias o meu rosto?
E olhaste a minha sombra como um sol?
E olhaste o meu sol como uma sombra?
E desceste às minhas profundezas e descobriste-me?

Mulher: e tu, descobriste-me?

Homem: se me descobriste, foste capaz
de me convencer?

Mulher: Não

.Homem: fiz-te bem e tiveste receio?

Mulher: sim, sem dúvida.

Homem : e reconheceste-me?

Mulher: e tu, reconheceste-me?»

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