MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

29/09/2015

UM PAÍS DE PAREDES ARRANHADAS: os relatos de Bruno Ribeiro


bruno ribeiroarranhando paredes

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 29 de setembro de 2015)

«Com a crise econômica tudo voltou a ter cheiro, fica mais fácil comparar o valor de cada um», afirma o narrador de A.S.G.I.M.P.-Alojamento de surra gratuita e intensiva para adeptos da moda punk 2012, penúltimo dos quinze textos de Arranhando paredes. Não foi só o cheiro, o valor de cada um. Muitas coisas voltaram nos últimos tempos, e talvez nem tenham ido embora, permanecendo nos vãos, nas fendas dessas paredes arranhadas por Bruno Ribeiro. O próprio relato do qual pincei a frase tem situações que poderiam muito bem fazer parte da ficção do período mais repressivo do regime militar (embora negros e periféricos não estejam convictos de que aquela era realmente chegou ao fim): ao invés do DOI-CODI, alguma milícia dando uma “lição” a manifestantes: «Você não é polícia não…E essa roupa? …isso né delegacia não? » .

Um dos vencedores do disputado concurso Brasil em Prosa, o jovem autor mineiro de 26 anos apresenta um país de cores aberrantes, o que fica evidente no relato que abre o livro, também o mais alentado: Zumbis. A história da irmã que se sacrifica para dar um tratamento adequado à gêmea, deformada por queimaduras após um acidente, é uma delícia. Tinha tudo para se tornar um besteirol, com uma gótica psicopata; patrões, idosos e médicos tarados; um freak show explorando a aparência terrível da moça; mutilações; violência com forte teor erótico (depois de um espancamento: «As duas se beijaram. Beijo de novela. Se George Romero fizesse novela»); a destruição pelo fogo do campus onde ambas as irmãs estudavam. Ao fim e ao cabo, o que bate forte no leitor nessa paródia das histórias de sofrimento e superação é a noção de que o futuro morreu, sendo substituído por uma incessante embora precária presentificação: «Estávamos acima de tudo. Livres. Não queremos um rosto. Não queremos vida, nem futuro. Só estamos fugindo. (…) este breve segundo, frame, eu posso chamar de vida».

Além de Zumbis, eu destacaria O favorito, onde um estupro coletivo (e fortemente vinculado ao social, a vítima é a filha de um agricultor que tem «dinheiro pra limpar a bunda») e a voz que o narra se entrelaçam para garantir o impacto do relato; Lembrança do café das três, prova de que um escritor talentoso pode tirar leite de pedra, pois Bruno Ribeiro consegue fazer uma inusitada e original história de vampiro; Cindy Crawford, que poderia cair no clichê do pai de família sendo passivo para um travesti, mas que é valorizado pela segunda parte, as consequências afirmativas da relação, justamente no seio familiar («A família parou de fazer sons, todos estavam inertes onde deveriam estar»); Música pop, o qual até poderia ser mais desenvolvido, uma ideia fantástica de misturar fantasia sexual e canções que ficam na mente; Fluxo capital infinito de amores invisíveis, com a eterna tentativa de ter mais do que uma satisfação sexual transitória já frustrada pela própria condição do protagonista; O bom selvagem, com outro pai de família que precisa relaxar (abusando de um pivete, «negro, magro, feio e cheio de perebas pelo corpo»), para não incomodar ninguém e ser um cidadão exemplar.

Mencionei a semelhança com a atmosfera da ditadura num dos contos. Arranhando paredes ganha relevância maior, além das suas inegáveis qualidades literárias, num momento em que o Brasil é sacudido por uma tremenda e despudorada onda reacionária, em que programas de televisão policialescos e sensacionalistas tentam ditar a moralidade vigente enquanto exploram avidamente os detalhes mais sórdidos e vis dos crimes. Diante de um quadro desses, o hiper-realismo exuberante de Bruno Ribeiro ganha foros de documentário.

VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2015/08/30/destaque-do-blog-arranhando-paredes-de-bruno-ribeiro/

arranhando paredes1

 

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1 Comentário »

  1. Republicou isso em Quebrando o Gênio.

    Comentário por Bruno Ribeiro — 29/09/2015 @ 19:17 | Responder


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