MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

17/09/2015

Porque tudo é versão: ” Os Cinco Porquinhos”, obra-prima de Agatha Christie


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Quando era um garoto de uns 11 anos, tirei a sorte grande de começar a leitura (em edições de bolso, naquela época relativamente raras) de Agatha Christie (1890-1976) por três livros geniais, O assassinato de Roger Ackroyd, O caso dos dez negrinhos & Os cinco porquinhos, presentes de dia das crianças, todos eles com ousadas soluções narrativas e insuperáveis finais para seus mistérios. O último dos títulos citados, revisto hoje, pode ser considerado a obra mais perfeita e intrincada da grande escritora inglesa.

Trata-se de um “cold case”: Hercule Poirot é contratado pela bela Carla Lemarchant para investigar o assassinato (por envenenamento) do seu pai, Amyas Crale, um célebre pintor, dezesseis anos antes, crime pelo qual a mãe foi condenada.Tudo aconteceu num verão: Caroline Crale ia ser abandonada pelo marido, boêmio e mulherengo, por uma jovem, Elsa Greer, filha única de um industrial. Ela estava a essa altura hospedada na casa dos Crale porque Amyas pintava um retrato dela, fascinado com seu atrevimento e sua juventude. Além deles, havia por perto os irmãos Blake, Philip & Meredith, e Angela Warren, meia-irmã de Carolina, que, criança, fora desfigurada por ela durante um ataque de fúria, além da indefectível governanta inglesa solteirona, Cecilia Williams. São eles os “cinco porquinhos” da canção infantil (o que foi ao mercado, o que ficou em casa, o que comeu rosbife, o que não comeu nada e o que gritou ui,ui,ui).

O excepcional na construção narrativa de  Os cinco porquinhos, e que permite que vejamos agora Agatha Christie como uma autora ainda muito moderna, é que a trama é repassada inúmeras vezes, parece até um Ano Passado em Marienbad do mistério (e avant la lettre, o livro é de 1942—no mesmo ano de um caso clássico de Miss Marple, Um corpo na biblioteca), o espírito de Alain Resnais(o cineasta que não gosta de enredos unívocos) pairando sobre a criadora de Poirot. Mas basicamente, os acontecimentos são revividos em dois feixes principais: quando o detetive belga entrevista os envolvidos (após ter procurado autoridades legais, advogados, etc); e depois quando cada um deles exercita com sua própria “voz” uma narrativa em primeira pessoa dos eventos da morte de Amyas Crale. Para que, no terceiro ato, Poirot possa reconstruí-los e dar novo significado ao conjunto. As cinco narrativas em primeira pessoa dos “porquinhos” são um tour-de-force, o melhor da sua carreira. E o desfecho (a solução do crime) não poderia ser mais perfeito.

De qualquer forma, passada a surpresa da revelação, o que fica claro (e motiva  releituras contínuas) é que um evento pode ser contado, recontado, subdividido em mil versões: será sempre interessante e inédito. É muito diferente ouvir as versões dos porquinhos em seus colóquios com Poirot e depois quando eles tomam da pena para tentar organizá-las por escrito: «Tenho só uma vaga lembrança de dias de verão, e incidentes isolados, mas não poderia dizer ao certo nem sequer em qual verão eles aconteceram!… E, misturadas com novas descobertas, ainda havia todas as coisas que eu gostava de fazer desde quando consigo me lembrar». A narrativa impressionista de Angela Warren em contraste com as outras, mais objetivas, mais sentimentais, mais rancorosas, ou mais mentirosas.

E, no fim, mesmo com a atuação ordenadora do maior detetive da ficção, ficamos com a seguinte convicção: tudo é versão.

(Uma versão da resenha acima foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 25 de abril de 2009)

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7 Comentários »

  1. Alfredo, muito boa critica. Apenas como fato interessante, cito que estava lendo recentemente Plataforma do Michel Hoellbecq onde numa passagem ele faz interessantes comentários compararando os estilos de Arthur Cona Doyle e Agatha Christie. Abraços

    Comentário por Miguel — 21/09/2015 @ 17:23 | Responder

    • Valeu pela dica, Miguel, do Houellebecq só li “O mapa e o território”, que achei horrível, e o excelente “Submissão”. Abraço.

      Comentário por alfredomonte — 21/09/2015 @ 17:39 | Responder

    • As lembranças vieram em mim acompanhadas de tristeza porque li vários livros desta escritora e dou conta de ter me livrado deles de forma bem trágica, queimando-os por estarem contaminados por fungos causadores de minha rinite alérgica. Entre eles havia até a biografia desta encantadora Agatha. Foi uma lamentável perda e uma felicidade pra minha saúde. Comprarei outros novos, sem fungos e relerei-os.

      Comentário por Marco Felix — 21/09/2015 @ 23:10 | Responder

  2. As lembranças vieram em mim acompanhadas de tristeza porque li vários livros desta escritora e dou conta de ter me livrado deles de forma bem trágica, queimando-os por estarem contaminados por fungos causadores de minha rinite alérgica. Entre eles havia até a biografia desta encantadora Agatha. Foi uma lamentável perda e uma felicidade pra minha saúde. Comprarei outros novos, sem fungos e relerei-os.

    Comentário por Marco Felix — 21/09/2015 @ 23:06 | Responder

  3. Muito legal sua crítica. Já li duas vezes e tive a mesma impressão que você. Gostei do Assassinato de Roger Akcroyd, também, Tenho a coleção completa da dama do crime, mas meu livro predileto é “O inimigo secreto”. Parabéns pelo blog.

    Comentário por roccalex1 — 23/09/2015 @ 16:30 | Responder

  4. Contra os pedantismos, Agatha Christie mostra que o comercial, o best-seller, o livro de misses pode, também, ser ótimo, por que não? Sobre a resenha, me inspira sentimento parecido o “Perseguido”, do Luiz Alfredo Garcia-Roza. Parece-me que esse livro ilustra o quanto, quando se fala em crimes, pode simplesmente não haver uma verdade, e que os personagens podem ser simples fantasmagorias de um evento sem solução possível.

    Comentário por Murilo — 24/09/2015 @ 1:10 | Responder

    • Não li o do Garcia-Roza. Obrigado pelo comentário. Abraço.

      Comentário por alfredomonte — 26/09/2015 @ 15:32 | Responder


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