MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

15/09/2015

O “Romance da Rosa” de Audur Ava Ólafsdóttir: descobrindo a Islândia no mapa literário


audurcapa de rosa candida

[uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 15 de setembro de 2015]

Numa matéria da BBC de cerca de dois anos atrás descobri, espantado, que a Islândia era um país prolífico em escritores. Ali se afirmava que “um em cada dez islandês publicará um livro”[1]! Até então, pelo menos para mim, o pequeno país (com 300 mil habitantes), literariamente falando, existia como o cenário da entrada para a jornada ao centro da Terra, em Júlio Verne («Desce à cratera do Youcul de Sneffels que a sombra do Scartaris vem beijar antes das calendas de julho, ó viajante audaz, e tu chegarás ao centro da Terra. Eu o fiz. Arne Saknussemm»), como o detentor de um daqueles inesperados anúncios do Prêmio Nobel, em 1955, para Halldór Laxness[2], e através de alguns bons romances policiais de Arnaldur Indridason (Cidade de Vidro, O Silêncio do Túmulo).

Esse desconhecimento multiplica o pioneirismo do lançamento de Rosa Candida (o título se refere a uma variedade rara de rosas), conquanto tenhamos de nos contentar com uma versão indireta (realizada a partir da francesa[3]). A julgar, todavia, pela tradução de André Telles, o terceiro romance da escritora Audur Ava Ólafsdóttir será um dos destaques de 2015 por seus próprios méritos, e não por qualquer apelo exótico.

É curioso que o relato do jovem Lobbi (sempre a reiterar seus 22 anos e sua inexperiência) transcorra em tempos atuais e apresente  atmosfera tão anacrônica: não há vestígio de internet ou de celulares, por exemplo, e o protagonista sai da casa paterna, depois da trágica morte da mãe (com a qual tinha forte ligação, inclusive na dedicação ao cultivo de flores—e em largo sentido, pode-se dizer que ele foi criado numa estufa), para cuidar do lendário porém deteriorado jardim num mosteiro localizado numa aldeia estrangeira com 700 habitantes, onde se fala um dialeto em vias de extinção.

Lobbi tem um irmão gêmeo que parece sofrer de um dos graus do autismo. Contudo, ele também apresenta clara dificuldade na percepção da linguagem sentimental e mesmo na comunicação simples: «__ Na rua, percebo os outros fundamentalmente enquanto corpos. Não presto sequer atenção ao que me dizem […] Às vezes julgo me resumir a um corpo, noventa e cinco por cento de mim é corpo […] O problema—digo—é que o meu corpo parece dotado de uma existência autônoma e ter uma maneira própria de pensar. Afora isso, sou um rapaz normal»

Em diversos momentos, Lobbi me trouxe à mente os narradores-protagonistas de Ricardo Lísias, curtocircuitados emocionalmente, e cuja vulnerabilidade adquire uma dimensão fisiológica:

«Como ela foi testemunha do meu sofrimento, me ajudou a vomitar e a regar as mudas, sinto-me na obrigação de lhe confidenciar alguma coisa íntima. Então pego o retrato do bebê e lhe estendo.

__ Minha filha—digo.

   Ela segura  a foto e a examina de perto.

__Uma gracinha—diz, sorrindo.—Quantos meses?

   Suas perguntas, simples e acessíveis, não exigem muito de meus conhecimentos linguísticos.

__ Sete meses exatos.

__ É mesmo uma gracinha—ela repete—, talvez  meio calva para uma garotinha de sete meses.

 Por essa eu não esperava. A gente mostra a outra pessoa uma coisa importante num momento crucial e termina levando uma rasteira.  Parece-me subitamente imprescindível que a última pessoa com quem interajo nesta vida compreenda de uma vez por todas aquela história de cabelo. Retratos enganam e cabelos de bebê louros talvez não sejam muito visíveis no primeiro ano, ao contrário das crianças  morenas, que costumam nascer cabeludas. Essas coisas ficam engasgadas na minha garganta, e só a dor e as deficiências no plano  linguístico me impedem de assumir a defesa da minha filha.

__ Ela só tem sete meses—insisto, como se isso explicasse definitivamente a calvície.

Então, mesmo o tom deliberadamente recôndito revela o esgarçamento contemporâneo dos laços, a proximidade líquida dos indivíduos, a virtualização do mundo da experiência, da realidade, o tudo-nada (tudo pode ser, como não ser):

«Só noto a câmera fotográfica depois que ela me atira um flash no meio da cara, quando estou com metade do corpo sob o edredom…

__ Queria um retrato seu, de recordação.

__Vai embora?

   Sinto como se ela tivesse apontado uma arma para mim e não uma câmera. Olho bruscamente a morte nos olhos, antes que o tiro parta. Eu também poderia ter dito: Vá em frente, atire.

__ Não—ela diz. E só.

  Tento esconder a emoção saindo da cama para vestir a calça. Mas tomo cuidado para não dar as costas para Anna, minha amada»

Afleggjarinn-a-hollensku

Eu diria até que há um forte teor alegórico, uma atualização do Romance da Rosa, o célebre poema medieval, colocando seu jovem herói numa peregrinação, por assim dizer, em que as encruzilhadas o ajudam a se situar e esclarecer-se num mundo emaranhado e cheio de apelos contraditórios.

Viajando para fora do lar e do país natal, logo de supetão Lobbi quase tem uma experiência de morte—pelo menos, é o que ele sente (num leve efeito paródico), pois é apenas uma operação de apendicite. Isso acarretará um abalo na sua consciência corporal. No seu recolhimento (trabalhando no jardim), a aparição do bebê que gerou com uma estranha, num fugaz encontro, e a própria presença da mãe da criança, serão novas provas, desafios de apego e enraizamento, de engajamento no cotidiano e nos afetos: «sinto prazer em estar sozinho, pois a presença física de uma garota pode virar tudo de ponta-cabeça. Talvez eu não pense continuamente em sexo, mas, quando estou sozinho, me esforço em tentar apreender o laço que existe entre meu corpo e eu mesmo e entre meu corpo e o dos outros».

Mesmo com certos pontos obscuros e duvidosos (a aura mística que vai revestindo o bebê é o elemento que mais me incomoda), não há uma página em que Rosa Candida não apresente uma formulação, um detalhe, dignos de nota; e sobretudo é um romance que, contrariando seu substrato alegórico, deixa tudo em aberto. O imprevisível é uma dádiva da morte, do sexo e do corpo, tomados como aventuras individuais e não como dados da espécie ou conceitos domesticados. Em vez de um jardim simbólico, rosas que brotam de fato do solo, o qual, avessamente ao que se pensava da Islândia, território de lava e aridez, revela-se surpreendentemente fértil.

Audur_Afleggjarinn

TRECHO SELECIONADO

«Parece me olhar de outra maneia, como se tivesse algum assunto pessoal para acertar comigo. Então começo tirando meu suéter, depois desabotoo a camisa e afrouxo o cinto da calça. Assim, como se me despisse antes de ir para a cama ou estivesse no médico. Não é premeditado, na verdade não encontro explicação para ter achado pertinente me despir no meio da cozinha. Ela olha para mim e tenho a impressão de que uma outra perturbação a invade quando começo a tirar minhas roupas sem avisar […] mal começo a me despir, sei que estou cometendo um erro. Mas eu prossigo assim mesmo, como um homem que tem uma tarefa penosa e urgente a cumprir, até me ver nu em pelo, no meio de um monte de roupas, um pássaro no ninho acolchoado, um avestruz desplumado.

    Nesse mesmo instante, observo que Anna tem uma caneta na mão. É só nesse momento, e não antes, que me dou conta da possibilidade de ela estar querendo me pedir umas dicas sobre determinados termos genéticos em latim, como um colega de classe pedindo cola. Será que uma mulher que pensasse em outra coisa além de fazer anotações na margem do livro aberto à sua frente—que acalentasse, digamos, a ideia de transar com um homem—estaria  com uma caneta na mão? […]

   Seja como for, estou nu em pelo e, para fazer alguma coisa, recolho a trouxa de roupa e a arrumo na cadeira da cozinha. Por mais constrangedora que seja minha situação atual, não tenho a sensação de estar sendo ridículo. Tenho sorte de não me levar a sério, pelo menos no quesito nudez. Ajuda também o fato de o meu próprio corpo ainda me ser estranho em certa medida. De toda forma, ser homem é complicado, eu daria meu herbário inteiro com o meu último trevo de seis folhas para saber o que ela pode estar pensando […] Uma palavra e tudo está salvo. Uma palavra e tudo está perdido. Sinto calor. Sinto frio. Que palavra será suficientemente poderosa para apagar todo um corpo de homem e reverter a situação a meu favor?»

a-cultura-e-o-saber-medievais-38-728descobrindo literatura na islândia

NOTAS

[1] http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2013/10/131014_boom_literario_islandia_an

[2]  Há, dele, uma tradução antiga (de A estação atômica) e uma mais recente (de Gente independente, considerado sua obra-prima).

[3] Realizada por Catherine Eyjólfsson. O original, Afleggjarinn, é de 2007.

Rosseti-Roman De La Rose

rosa

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