MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

18/08/2015

ROBERTO MENEZES E O RELATO FEMININO COMO ALEGORIA POLÍTICA: “JULHO É UM BOM MÊS PARA MORRER”


autografandojulho e um bom mes para morrer

«Oh! Ninguém tente me compreender, ninguém procure me entender. É inútil, pois eu mesma não atino com os meus desacertos» (trecho de Os olhos da treva, de Gilvan Lemos)

«Estávamos acima de tudo. Livres. Não queremos um rosto. Não queremos vida, nem futuro. Só estamos fugindo.(…) este breve segundo, frame, eu posso chamar de vida. E é assim que se livra dos seus atos pecaminosos e da sua inquisição mental constante: sendo pior sempre». (trecho de “Zumbis”, do livro Arranhando paredes, de Bruno Ribeiro)

«Ela não me salvou. Ninguém salva ninguém. Esse negócio de salvação é mais uma balela de gente grande. O acaso, foi ele, o acaso fez com que Lara entrasse um ou dois minutos antes que realmente enfiasse o revólver aqui no peito e disparasse […] Lara não me salvou, só adiou, só bifurcou meu caminho pra outra morte. Mais alguns arrodeios. Morrer em dezembro não é morte boa. Julho, esse sim é o mês da boa morte… »

«…o que posso fazer, sempre fui assim, sempre procurei combustíveis para me impulsionar…» (trechos de Julho é um bom mês para morrer)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 18 de agosto de 2015)

Um dos mais brilhantes talentos da nossa ficção atual, Roberto Menezes, esteve por anos restrito a edições regionais. Agora ele tem a chance de ampliar o círculo de leitores-admiradores: seu novo romance, Julho é um bom mês para morrer, ganhou edição pela pequena, porém prestigiada, Patuá e, pelo menos para mim, já desponta como o candidato a destaque de 2015 no gênero.

No início da leitura, temi que ele repetisse o tipo de relato que eu achara sensacional no livro anterior, Palavras que devoram lágrimas[1]: uma narradora que digita obsessivamente, com um sentido de urgência, desta vez não para o ex-marido de quem se vingará, e sim para a mãe que a abandonou, em 1984 (ela tinha 4 anos). Todavia, não só a voz de Laura é totalmente diferente (essas vozes femininas tão marcantes e diversas,  um dos aspectos do virtuosismo de Menezes), como também Lucy, a interlocutora, desta vez, é mais um pretexto (e uma busca desesperada por lastro). Ao contrário de uma protagonista que escavava as camadas do seu passado e de sua ascensão social, temos uma mulher que se mura (literalmente) contra um presente no qual sua existência se insubstancializou, perdidas todas as referências. Num apartamento-bunker, ela espera a chegada de julho e da demolição do edifício já anacrônico (mesmo sendo dos anos 1980) para as exigências da especulação imobiliária que muda rapidamente a face de João Pessoa, como das cidades em geral. Todas as eras têm suas torres.

A referência a 1984, ano da fuga da mãe, não é aleatória. De maneira altamente astuciosa, Menezes pinta e borda o retrato de uma geração, e sobrepõe sorrateiramente três momentos políticos distintos: o da abertura política (e inflação estratosférica); a era FHC e o tsunami da globalização (que coincide com a virada do milênio); a era pós-Lula. E, enrodilhado nessa espiral, um nordeste ainda sertão e de longa duração que permaneceu apesar de tudo, para o bem e para o mal, simbolizado pela figura fantástica de Noêmia, a voínha de Laura, mulher que perdeu três filhos afogados num açude, refez a vida e viveu até os 94 anos, chegando a 2002 (quando morre em plena vitória brasileira na Copa). Mesmo dura, avara de demonstrações afetivas, sua ausência acelera o mergulho fatal de Laura no fenômeno mais inquietante da nossa época: a ausência de futuro, o presente (mais ainda, o instantâneo, o fortuito, o descartável) como linha do horizonte, aonde você chega de quê? para quê?, e é tudo junto, misturado, indiscernível(«O que de fato foi importante veio quando eu não procurava: uma enxurrada. Não tem como elaborar plano de contingência ou prioridades, dizer, calma, a gente tem que ir por partes, por ordem cronológica. Essa lógica não funciona, tudo vem atropelando tudo»).

A modernidade agora é líquida. E a água é um elemento opressivo em Julho é um bom mês para morrer[2]: inclusive, há um quadro na casa de voínha (ela nunca gostou dele, porém presenteia Laura com ele, na véspera do novo milênio) que representa o episódio bíblico da travessia do Mar Vermelho. Voínha diz à neta que, apesar da figura de Moisés, e do milagre ali retratado, nunca conseguiu encontrar Deus no quadro. Mas essa desilusão tornada atávica, essa descrença, não deixam de ser projetadas mesmo assim sobre uma resistente Grande Narrativa, que ainda tem força e espessura (religiosidade, família, valores estáveis). O quadro pendurado no apartamento de Laura, nada dessas tradições terá sentido ou consistência para ela («Mandou eu procurar Deus nesse quadro imprestável que encaro. Desde aquele dia ele vive pendurado do meu lado»[3]). Até sua nostalgia já vem envenenada pela ironia (e olhem que ela não se furtará a usar o termo “milagre”, num contexto cujo final será dolorosamente trágico, na virada): «Digo e repito, sou de uma geração que é dada a estragar finais»[4].

O que torna Julho é um bom mês para morrer mais fascinante ainda (afora sua constelação de motivos e imagens, trabalhada como uma túnica inconsútil, nada faltando, nada sobrando) é o alinhamento da voz de Laura a um fenômeno que vem rendendo pontos altos da nossa ficção recente (penso em Por escrito, de Elvira Vigna, sobretudo, mas também em Quarenta Dias, de Maria Valéria Rezende e, em certa medida, em F, de Antônio Xerxenesky): relatos cáusticos, desencantados e agônicos de mulheres que fogem inteiramente do estereótipo “intimista” e enveredam para alegorias políticas dos rumos do país. Antes, eram somente protagonistas masculinos (os de Machado são o paradigma supremo) que proporcionavam essa mirada alegórica. A emancipação da mulher até na ficção. Já era hora.

carro

TRECHO SELECIONADO

«Na festa, cada um pro seu lado. Brizola foi vender e eu pra frente do palco ouvir o som na massa, só curtindo a vibe. A suadeira no corpo, o trismo, a vontade de não beber nada, a excitação brotando da pele. A música tocava, e eu lá, no meio daquela galera, abestalhada com meus sentimentos misturados como a caipifruta fajuta que esquentava na minha mão. E eu nem queria saber, só dançar, dançar a nova de Magníficos como se fosse a última música que fosse dançar na vida; e sentir o barato—dançar é isso, porra! Anota aí no dicionário. Dançar só faz sentido com ódio no coração. Meu coração batia, batia, batia, como se quisesse arrombar alguma porta, a raiva era o meu par nessa valsa. Olhando agora de longe, Laura era só aquela hora, o instante, o não antes, o não depois; não havia nenhuma avó  pra colocar Laura na inércia de esperar o século passar, não havia nenhuma mãe para desestabilizar Laura e fazer ela quer fugir pelo mundo; nenhuma dessas duas coisas tem sentido quando não tem o tapete do tempo pra caminhar. Poderia o mundo acabar que eu já estava arrebatada, numa efervescência de mim comigo mesma; as pessoas ao meu redor não compartilhavam do que eu sentia, e pra mim, tanto fazia quem eram, meros forrozeiros de merda, só coadjuvantes do que se passava aqui dentro[…] E olhe que tudo isso se fazia no meu corpo e na minha mente por causa de duas cheiradas e meio papelzinho menor que um grão de arroz.

   Comemorar o prêmio da loteria?, balela, era desse estado que eu tinha saudade, de me deixar guiar por essa química, por essa química que dirigia meu carro sem direção. Poderia fechar os olhos e evaporar sozinha… »

resenha impressa

NOTAS

[1] VER AQUI NO BLOG: https://armonte.wordpress.com/2015/08/16/roberto-menezes-e-seus-joguinhos-de-altissimo-baixo-calao-palavras-que-devoram-lagrimas/

[2] Há afogamentos e tentativas de afogamentos (num açude no sertão, no mar), e não podemos esquecer da ironia tremenda da expectativa de ver e ouvir o mar, quando menina, e o pai compra um apartamento que é o máximo da modernidade da sua época, e depois, já uma torrezinha em meio a verdadeiras torres-monstros (o complexo de Dubai que se apossou dos construtores), ela agradecer não poder nem ver nem ouvir o mar. Aqui, como em todo o romance, a percepção pessoal e o processo social se entrelaçam fortemente.

[3] Logo nas primeiras páginas: «Quis ser como voínha depois que saquei que o futuro que eu esperava não foi o que veio».

[4] Diga-se de passagem, que embora indo na jugular da chamada pós-modernidade, Roberto Menezes não cai nos vícios habituais do exercício literário pós-moderno. Até a erudição no campo da Física Teórica (sua área como professor e acadêmico), utilizada com sutileza e grande beleza (como as especulações cosmológicas) no romance, se cola à percepção e conhecimento da narradora.

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