MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

28/07/2015

Destaque do Blog: O ORÁCULO, de António Vieira


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«O que está iminente, Priscos, é uma guerra dos mundos: não são mais dois impérios que se defrontam—gregos contra persas, romanos contra partas—mas duas religiões que disputam o poder no futuro. E quem vencer—mais na mente dos homens do que nos campos de batalha—mudará a sorte do mundo e dos povos, e o destino das mentalidades…

  Nunca o futuro pareceu tão opaco. Um só passo em falso, e entraremos num tempo de trevas…»

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 28 de julho de 2015)

O francês Michel Houellebecq conseguiu enorme repercussão com o romance Submissão, sua advertência ficcional sobre o perigo do fundamentalismo religioso triunfar por vias insidiosas, devido a uma anestesia ideológica generalizada[1].

De forma mais discreta (no quesito divulgação), nem por isso menos poderosa e eloquente, na peça O Oráculo, António Vieira, um dos maiores escritores vivos, se vale da malfadada tentativa de Juliano (331-363 d.C.) em deter o avanço de um cristianismo obscurantista e reviver os valores helenísticos. Como ele mesmo diz, no terceiro e último ato: «…sou e quero ser grego, mesmo como imperador romano (…) O mundo do futuro há de ser uma expansão da Grécia dos grandes séculos, ou não merecerá a História».

A essa altura, o chamado Apóstata saiu em campanha contra os persas, invadindo a Ásia, seguindo o exemplo de Alexandre[2]. Com isso, ele contraria o vaticínio do oráculo de Delfos, em demanda do qual enviara homens de confiança (o médico Oribase de Pérgamo e o filósofo Priscos), e que, proferido, indicara o fim dos deuses antigos e até mesmo do templo de Apolo: «Pode assim um grande deus significar o seu próprio crepúsculo, o fim da sua era, o declínio do seu povo? Ou uma nova ambiguidade se esconde sob os versos, que não logramos decifrar? » .

É o vandalismo dos cristãos mais fanáticos (representados, em cena, por São Gregório Nazianzeno), destruindo locais e objetos sagrados, que faz com que Juliano ignore tragicamente o augúrio oracular[3].  Afinal, ele vive um tempo de encruzilhada, um momento histórico «em que mil seitas e filosofias prosperam e todas nos prometem, cada uma a seu jeito, a salvação».

O escritor português revive com intensidade e precisão (seu texto sempre é fora do comum) um costume caído em desuso, o de utilizar figuras míticas ou históricas da Antiguidade para debater no palco assuntos candentes da hora. Exemplos ilustres (e ainda apaixonantes) dessa linhagem são peças como As Moscas, de Sartre, ou Calígula, de Camus. E nada mais urgente, quando a própria Grécia e seus impasses estão na boca de todos, do que discutir o futuro da civilização: se vamos retroceder em todas as conquistas humanísticas ou trilhar os vãos da intolerância, do fanatismo e do atraso (tanto no sentido econômico quanto no social).

Dissimuladas nas dobras dessa batalha entre forças luminosas e retrógradas, existem potências mais arcaicas, obscuras, oriundas da Noite e do Caos, perante as quais um iludido e incauto Juliano acredita poder triunfar, acampado no deserto, no derradeiro ato da sua existência, mas que já se faziam presentes desde a consulta ao oráculo: «Quem sabe se, acima dos olímpicos, outros deuses, mais remotos, mais poderosos, não conhecem os Fados? … estão junto a nós—imóveis, irreconhecíveis, imperecíveis. Chamam-se Caos e Cronos, Érebo, a Noite antiga. São os primeiros deuses, informes, nascidos sem amor. São os senhores do jogo: a História é seu brinquedo, e os humanos. Junto deles, no limite, abre-se um grande abismo».

Na segunda parte do Fausto, o Mefistófeles de Goethe nos diz «compreender à luz do dia é ninharia, mas na escuridão todos os mistérios palpitam». A excepcional obra de Vieira (coletâneas como Contos com Monstros, Sete Contos de Fúria, Olhares de Orfeu; sua versão romanesca da história de Fausto; seu aforismático e crispado Ensaio sobre o Termo da História), que há muito já deveria ser cogitada para o Nobel, sempre vem nos lembrar dessa verdade essencial. E poucas vezes os mistérios de uma noite ameaçadora palpitaram com tanta insistência como neste nosso próprio tempo de encruzilhada.

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NOTAS

[1] VER AQUI NO BLOG: https://armonte.wordpress.com/2015/05/05/submissao-tira-a-venda-dos-nossos-olhos/

[2] «O Imperador não visa apenas conquistar a Ásia e voltar aos deuses antigos, mas reformar a religião, reconstruindo-a segundo a ordem cósmica».

[3] De fato, esse é o único reparo que faço ao dramaturgo: que apenas uma feição mais vociferante e quase caricata do cristianismo seja colocada em cena. Poderia haver um personagem cristão que pusesse um peso mais moderado na balança. Da forma como é colocado, temos a visão à Nietzsche, de uma rebanhização desfibrante do ideal de humanidade.

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